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Full text of "Tratado de inflammação, feridas, e ulceras"

m 



>> s*>> 



TRATADO 

D E 

INFLAMMAÇÃO, FERIDAS, E ULCERAS 

EXTRAHIDO 
DA NOSOGRAPHIA CIRÚRGICA 

D E 

J1NTHELMO MICHEM^UYID , 

Deu or y Cirurgião em Chefe adjunto do Hospital de 
S. Luiz , Cirurgião Mor da Guarda de Paris , 
Professor de Cirurgia , Memoro da Sociedade, da 
Escolla de Medecina de Paris. 

OFFERECIDO 

A O 

príncipe regente 

NOSSO SENHOR 

POR 

JOAQUIM DA ROCHA MAZAREM; 

Cavalleiro na Ordem de Christo , Lente da Regia 
Cadeira de Medicina Operatória , Primeiro Cirurgiã» 
do Numero da Armada Real , e Cirurgião da Primei- 
ra e Segunda Enfermaria do Hospital Real dos Exert 
eitos , e Armadas. /2&^ 

M- 

MM4M4 



RIO DE JANEIRO 



1810. 



NA IMPRESSÃO REGIA. 



Por Ordem de S. A. R, 



SENHOR- 



M, 



Orneado Lente de huma das Cadeiras Medico-Ci- 
rurgicas , que V. A. R. mandou estabelecer no Hospi- 
tal Real Militar desta Ctrte; incumbido juntamente do 
tratamento das moléstias cirúrgicas dos enfermos das Reaes 
Armadas no mesmo hospital , aonde concorrem os alum- 
nos , que se dedicão d arte de curar ; vi a falta que 
ha de autjres , e de livros desta sciencia no nosso idio- 
ma , por onde elles se podessem applicar. 

O* meu% limitados conhecimentos , não permittião o 
poder formar huma doutrina , que lhes servisse de ins- 
trucção y e me servi {par* fazer hum tratado de inflam- 
?nação , feridas , e ulceras} da Nosographia de Rickerand. 

Eis o pequeno frueto do meu trabalho ; seja o Au- 
gusto Nome de V. A. R. quem lhe sirva de égide para 
a m$rdaz critica. 

Digne. se pois V. A. R. de acceitmr o insufficiente tri- 
buto que offerece com o mais profundo respeito , 



O mais humilde , e fiel vassallo , 
yOA^UI M DA ROCHA MAZAREM. 



ERRATAS. 



Pa 



7 
IS 



Lir>h. 
5 

2 
3 

3 

18 

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3 1 


6 


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40 


25 


42 


9 


44 


5 


45 


28 


47 


20 


49 


2 




4 


50 


11 


55 


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56 


11 


57 


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10 


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11 


79 


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9 


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29 


97 


50 


IIO 


1 


114 


19 


U9 


37 


121 


29 


147 


21 


173 


17 


169 


2 



Erres, 

levada 

an th roas 

thermometricas 

que , em huma 

gólbos 

Naquella inflammação 

lanror 

muito excessiva 

externo 

roro 

atacáo 

com as partes 

seja 

primeiros estimulados 

he boa 

setto 

perpendicularmente a 

■ agulha 

atravessa 

phogoze 

as quaes ciruigiiío 

judiciosos críticos 

destas 

empalhados 

obcejar 

excito 

exentao 

fuaso 

por que conduz 

a extrahio 

nas seguidas 

veteronario 

tem as pernas 

dos absorventes 

tartarito 

limnihatico 

o metal 

em que pudor 



Emendas* 

levado 

anthraz 

thermometras 

o que em huma" 

lobos 

Aquella inflammação 

languor. 

tão excessiva 

esternon 

íosto 

unem 

com os quaes as partes 

se be 

primeiro estimulados 

he de boa \ 

septo 

perpendicularmente com a 

agulha 
a travessão, 
phlqgcrzc 

-ás quaes este cirurgiãs 
judiciosas criticas 
destes 
espalhados 
affastar 
êxito 
extenção 
fusão 

que conduz 
a extrahi 
não são seguidas 
veterinário 

os que tem as pernas 
das absorventes 
tartrito 
limphatico 
este metal 
em que o pudor. 
à . t»tt< 



DO ESTADO INFLAMMATORIO, 

E DOS 

SEUS DIVERSOS MODOS. 

Inflaminaçoes Idiopalkicas , Sympathica,s , Specifaas , 
e Gangreno sas. 



'JL UITOS gráos conduzem a este estado de exalta- 
ção das propriedades vkaes , que constituem essencial- 
mente a inflammação. A vida pôde ser augmentada. 
em todas as partes sem que o augmento da sua 
actividade seja levada até o estado inrlammatorio. A 
simples esfregação da pelle, produzindo o excitamen- 
to 3 attrahe o sangue para esta membrana , determina a 
sua vermelhidão , assim como também hum ligeiro de- 
senvolvimento de calórico ; a mesma causa applicada a 
certos órgãos , taes como o membro viril , o bico do 
peito , produz nelies a erecção. Este ultimo estado he 
numa verdadeira phlogoze do tecido , que a sente. ( a ) 

A O 

(i) A inflammação pôde ser defínada : o augir.ento dá 
todas as propriedades vilães na parte que he o assento delia. 
A sensibilidade alii se torna mais viva , a mobilidade maior ; 
e deste augmento de sensibilidade , e de movimento, nas- 
cem todos os symptomas , que denotão o estado inflamma- 
torio : por isso, a dôr , a tumefacção f o rubor, o calor, a 
mudança de secreções , indicão na parte inflammada huma 
vida mais enérgica, e mais activa. Riclier. Elémens de Phy- 
siologie pag 91. 

O excitamento só, embaraça o sangue na parte inflam- 
Hiada, por quanto na morte, a qual destróe todos os exci- 



2 

O excitamento inflammatorio he sempre acompanha- 
do de quatro simptomas , que vem a ser; a dor sem a 
qual quasi que náo ha inflammaçáo , por quanto o aug- 
mento da sensibilidade , he a causa immediata , ou pró- 
xima delia ; a inchação maior , ou menor , segundo o 
tecido aríèctado - 7 porém a mais considerável he nas in- 
flammaçóes cellulares ; a vermelhidão , dependente da 
maior quantidade de sangue , que o excitamento chama 
á parte inflammada ; e ultimamente o calor , cujo aug- 
mento parece ligeiro , quando se avalia com o termó- 
metro , mas que algumas vezes he muito vivo , quando 
se consulta pela sensação. Entremos pois em alguns de- 
talhes sobre cada hum destes quatro ifenomenos cara- 
cterísticos da inflammaçáo. 

A dor náo he hum simptoma constante , quando 
se entende por ella huma sensação desagradável. O pru- n 
rido , que precede , e acompanha certas erupções cutâ- 
neas , bem longe de ser doloroso , tem alguma cousa 
de agradável , e só no momento , onde a exaltação da 

sen- 



tamentos , que faz cessar todos os espasmos ( mors spasmos 
solvit. Hipp. ) quando , torno a dizer , a morte sobrevem , 
as ligeiras inflammaçóes se dissipão , &c. 

A contractilidade , a sensibilidade nos vazos capiliares , 
e sorosos he então maior , do que nas vêas , e nas artérias : 
a vida deve ahi ser necessariamente mais activa ; porque a 
quantidade do movimento imprimido ao sangue peias contrac- 
ções do coração , achando-se esgotado este fluido fora di es- 
fera da actividade deste órgão , não pode circular, senão pe- 
la acção vascular. A mesma Obra pag. 515. 

O calórico oceulto , ou combinado nos corpos , se de- 
senvolve deli es todas as vezes , que estes corpos passão de 
hum a outro estado, &c. A mesma Obra pag. 569. 

Huma inflammação de qualquer glândula que seja , pro- 
duz a mudança de secreção no or^ão affectado. Huma porção 
de tecido gorduroso tocado de inflammação fleimonosa secre- 
ta , em lugar de gordura hum fluido esbranquiçado conheci- 
do debaixo do nome de puz. A mesma Obra pag. 427. 

Nota do Traductor. 



5 

sensibilidade he levada além de hum certo termo , he que 
este praser se torna doloroso. Ultimamente huma e outra 
destas sensações , de que se acompanha o estado inflam- 
matorio , offèrecem dtíferenças relativas ao tecido affecta- 
do , e ao modo da inflammaçáo. Na inflammaçáo fleimo- 
nosa , o sentimento de hum pezo incómmodo se junta ao 
soffrimento das dores gravativas ; na erisipella , estas são 
ardentes, &c. Sua vivacidade se mede pela intensidade da 
moléstia , e pela dirficuldade , que a extructura do ór- 
gão oppôe ao inchaço inflammarorio. 

A tumefacçáo das partes inflammadas he devida í 
quantidade considerável dos suecos que ahi afluem : Ubi 
stimultts , ibi fluxtts. Chamados peio excitamento , os 
humores afluem no órgão, cujas propriedades vitaes são» 
augmenradas , as moléculas rubras do sangue se compri- 
mem nos vazos capilares , e manifestáo nelles sua cor. 
Se a inflammaçáo he viva , o liquido rransunda a través 
das porosidades dos vazos ; a infiltração sanguínea do 
tecido inflammado he devida a esta hemorragia interna; 
em fim , quando o augmento das propriedades vitaes he 
levado ao ultimo gráo , os pequenos vazos se despeda- 
çáo. Hum fieimão agudo , aberto nesta época , appre- 
senta huma substancia análoga ao paranchyma do 
baço. 

As mesmas razões , que explicáo a inchação de 
huma parte inflammada fazem igualmente conhecer as 
cansas de sua vermelhidão , sempre devida a agglome- 
ração das moléculas rubras do sangue nos vazos , ' qué 
antes da inflammaçáo eráò enfiados por estas moléculas 
muito divididas ; e pot isso não reflectiáo tanto a sua 
cor; e como pela extructura diversa dos tecidos inflam- 
mados seus vazos ofFerecem aos líquidos hum accesso 
mais , ou menos fácil, o rubor he geralmente menor 
nas inflammaçóes dos orgáos mais ^consistentes ; sendo 
também mais escura nas inflammaçócs , que tendem & 
gangrena , seja por excesso do mal , seja pela falta de 
energia dos poderes circulatórios. He por isto que se 
desenvolve a cor de roza na erisipela , o rubor vivo nd 

A i» fiei* 



4 
Jleimáo agudo , o rubor escuro , e mesmo negro no an- 
throax , &c. 

As experiências thermometricas feitas por Hunter , 
tem provado , que o augmento real do calor he pouco 
considerável nos tecidos inílammados , posto* que seja 
vivamente sentido pelos enfermos. Temos mostrado , 
tratando do calor animal , qual he a razão fisiológica 
(i) deste fenómeno. O augmento do calor corresponde 
ao agmento da sensibilidade , e por mais pequeno que 
seja o augmento do calórico , onde pela abundância , e 
movimento rápido do sangue este principio se desenvol- 
ve em maior quantidade do que costuma , este augmen- 
to he vivamente resentido pelos órgãos , que se achão 
dotados de hum sentimento mais exquisito. Das varie- 
dades , que oíFerece o calor , dependem igualmente as 
modificações da sensibilidade nas differentes partes ; dis- 
to resulta o calor, acre, e ardente das inflammaçóes cu- 
tâneas , cr calor brando , e halituoso dos rleimóes , 
&c. 

Huma parte infíammada he como hum novo ór- 
gão , no qual a vida se encontra augmentada , e to- 
das as funções se executão com mais rapidez , e ener- 
gia ; á excepção com tudo daquellas , em que o cúmu- 
lo considerável dos líquidos as estorva. He por isso que 
na peripneumonia a respiração he' custosa pelo efFeito 
mecânico, que resulta da presença da maior quantidade 
de sangue no paranchima pulmonar ; as contracções do 
tecido de hum musculo infiammado , são embaraçadas 
pela mesma causa ; a função visual se não pode com- 

ple- 



(i) ,, A parte infíammada, se torna mais quente, psr- 
,, que em hum determinado tempo, passa a traves de seu te- 
„ eido Junna maior porção de sangue arterial , o qual deixa 
„ desenvolver huma maior quantidade de calórico , e porque 
„ os effeitos continuados da respiração pulmonar ahi.sâo 
„ mais sensíveis do que em qualquer outro órgão. „ Prol.'- 
gomenos pag. 94. Nouveaux Elemens de Plrysiòlogie tom. I. 

Nota do Traduetor. 



/ 

9 

pletnr pela opacidade , que contrahem as partes transpareci 
tes do olho ophthalmico. 

Não somente o orgáo inflammado offerece huma 
excitabilidade mais viva 5 huma contracrilidade maior , 
huma circulação mais activa , hum movimento mais rá- 
pido , mas ainda as suas funções ordinárias são suspen- 
didas , ou alteradas. As secreções offerecem novos pro- 
ductos : as laminas do tecido adiposo deixão transudar 
em lugar da gordura , hum licor albuminoso , esbran- 
quiçado , conhecido debaixo do nome de puz (i). Ca- 
da lamina deste tecido pôde ser considerada como huma 
superfície exhalante , semelhante á pleura , ou ao peri- 
toneo ■■, a dififerença não existe, senão na extensão ; e a 
secieção do puz no tecido celluloso inflammado pôde 
ser comparado á secreção albuminosa , mais , ou menos 
espessa que fornecem as membranas sorosas. No pleu- 
riz pouco agudo , a sorosidade lactescente se acumula 
nos saccos das pleuras : o puz do fleimão deposto nas 
ceílulas do recido adipozo , ahi se encontra primeiro in- 
filtrado j depois se reúne , e se acumula em hum só foco 
a favor das communicaçóes que as ceílulas tem entre si. 

A inflammação deve ser contada nas lezóes das 
propriedades vitaes ; por quanto pôde ser definida o 
augmento de todas estas propriedades. Igualmente per- 
tence ás alterações orgânicas ; porque o afluxo conside- 
rável dos líquidos bem depressa desarranja o tecido dos 
sólidos. A alteração da cstructura , não he quasi nada , 
em quanto o sangue está encerrado nos seus vazos ca- 
pilares. He maior , quando se infiltra ; em fim au- 
gmenta , quando os capilares se rompem , os sólidos 
se dilacerão pelos movimentos , que executão , e pela 
quantidade mui considerável dos líquidos , que ahi afluem > 
a irsflammaçáo pôde ser então facilmente levada até a 
desorganização , que torna a gangrena inevitável. 

Porém exige-seaqui mais , o estudar a inflammação 
como practico , do que como fisiológico. 

A 



<j) Vede Riche. Nosograf. Chirur. abscès , tome III. 



A inflammaçáo se appresenta frequentemente no 
estudo , e tratamento das moléstias , constitue hum 
grande número delias , seja como affecção essen- 
cial , seja como complicação ? ou mesmo como meio 
curativo ; merece da parte do Pratico huma attençáo 
mui particular pela difhculdade de profundar sua natu- 
reza , e sobre tudo , de determinar ; seja as diversas for- 
mas de que se pôde revestir , seja pelos tratamen- 
tos variados , que requer. As phlegmazias oceupáo 
hum lugar importante em todas as Nosologias ; forman- 
do huma divisão particular de moléstias ; < porém está 
a sua clacificação estabelecida sobre fundamentos úteis, 
e sólidos í O Professor Pinei tomou por base desra 
distineçáo a difFerença dos tecidos , e as distribuio em 
cinco ordens , debaixo dos nomes de Phlegmazias das 
membranas mucosas , das membranas sorosas , do teci- 
do cellular , e dos órgãos paranchimatosos , dos múscu- 
los , e da pelle. Este arranjamento he , sem dúvida , o 
melhor de todos os que se tem proposto até hoje. < Po- 
rém se elle reúne huma multidão de objectos análogos , 
não reúne também muitas cousas disparatadas, e não 
he mais fisiológico , do que pratico ? 

A angina ahi se encontra comprchendida na ordem das 
phlegmazias musculares -, com tudo a inflammaçáo co- 
messa quasi sempre pela membrana mucosa , depois se 
estende aos músculos da pharinge , com mais justo ti- 
tulo pertenceria esta phlegmazia as mucosas , e mesmo 
seria mais vizinha das phlegmazias do tecido cellular , e 
dos órgãos paranchimatosos , ( pois que a inflammaçáo 
das amygdalas he o simptoma mais ordinário delia. 
< Que importa além disto que a inflammaçáo tenha o 
seu assento na membrana , nos músculos , e no tecido , 
que os une; ou que se encontre na sua visinhança í A 
natureza não cede a estas rigorosas distincçóes , e já 
mais as inflammações são tão exactamente limitadas 
nos tecidos ligados por huma multidão de vazos , meios 
fáceis de huma communicação rápida , quanto são distin- 
guidas nas classificações. Esta consideração anathomica 

dos 



dos tecidos affectados , posto que útil , não he , senão 
de huma importância secundaria ; he mais vantajosa ao 
Alumno , qne ao Pratico : que , em huma inflammação 
da garganta , por exemplo , se occupa primeiro da cau- 
sa da enfermidade ; applica os antiphlogisticos nas angi- 
nas idiopaticas ; faz vomitar , nos casos , onde a enfer- 
midade he devida ao excitamento simpático do estôma- 
go , e dos orgáos biliares ; administra os mercuriaes , se 
a angina he venérea j e os tónicos , quando he gan- 
grenosa. 

As inflammações do peito fornecem matéria ás 
mesmas observações. A analyse anathomica do tecido 
pulmonar , dá na verdade justas idéas da natureza das 
phlegmazias de que o pulmão pôde ser assaltado. O , 
cacarro consiste na inflammação da membrana mucosa , 
que forra os duccos aéreos ; a peripneumonia tem seu 
assento no paranchima do órgão , e no tecido cellular , 
que une os diversos globos do pulmão ; o pleuriz re- 
side na pleura ; porém além de que he difficil o distin- 
guir certos catarros agudos da peripneumonia, podendo 
depender o escarro de sangue da rotura dos pequenos 
vazos bronqueaes ; todos concordão que o pleuriz não 
se limita unicamente á pleura ; porém se estende ás ca- 
madas superficiaes da substancia pulmonar. Em fim , o 
mesmo tratamento convém a estas três inflammações 
agudas , quando acontecem a hum sujeito robusto j em 
quanto que em dois catarros , a hum pôde ser indi- 
cada a sangria , o outro exige o emprego dos tóni- 
cos , como acontece no catarro , que sobrevem frequen- 
temente ás pessoas avançadas em idade. 

Huma distincçáo de phlegmazias , fundada sobre a 
sua natureza , seria pois mais útil , e mais immediata- 
mente applicavel á pratica. Esta idéa nos obriga a compre- 
hender todas as inflammações de que os órgãos são 
susceptíveis em quatro ordens. As mais frequentes são, 
as inflammações idiopathicas. Estas são caracterizadas 
i. c pela acção de sua causa , que se exerce no lugar 
mesmo, onde a inflammação se desenvolvei 2.° pelo 

seu 



seu fim , que he sempre saudável sem que seu resulta-* 
do ò seja constantemente. Náo existe algum orgáo no 
corpo , á excepção das partes epideimoicas , e de cer- 
tos tendões delgados , e secos , que não possáo vir a ser 
o assento destas reacções vitaes , pelas quaes a nature- 
za procura expellir hum agente incómmodo. 

Seguem-se as inRzmmzçóes sytnpathicas , caracteriza- 
das , i. a pela acção de sua causa, que existe em hum 
orgáo distante do lugar inflammado ; z.° porque são 
sem utilidade. Taes são as erisipellas biliosas , produzidas , 
ou entretidas pelo excitamento das primeiras vias, &c. 

As inflammações specifrcâs se distinguem eminente- 
mente das precedentes ; porque dependem de huma cau- 
sa sui generis- , e são devidas a huma disposição parti- 
cular , que se combate com certos remédios , de que a 
experiência tem verificado as virtudes. Nesta ordem se 
arranjão as inflammações venéreas , impetiginosas , va- 
riolicas , vaccinal , <S.c. 

Em fim , ha huma ordem de inflammações , que 
he preciso chamar gangrenosas ; porque a gangrena he 
a terminação essencial , e como inevitável delias. Se es- 
tas inflammações não são exclusivamente gangrenosas , 
o são necessariamente. A morte de hum órgão pôde 
ser com eíFeito a consequência de sua inchação infíam- 
matoria levada além de todo o limite. He deste modo , 
que a vida se extingue em hum membro violentamen- 
te inchado em consequência de huma contusão excessi- 
va , na qual as partes molles tem sido despedaçadas , 
e os ossos reduzidos em esquirolas ; o excesso do mo- 
vimento o conduz á sua anniquilação. 

Nas inflammações gangrenosas , taes como a pústu- 
la maligna, o anthrax, &Ç: , a gangrena he devida á 
debilidade ; he o resultado da falta de harmonia en- 
tre o estado geral das forças , e o estado da parte 
aíFectada. Para que huma intlammação corra felizmen- 
te seus diversos períodos , ' e se encaminhe a huma 
terminação vantajosa 5 he indispensável qtre a exci- 
tação local seja mais 3 ou menos dividida pelo sys- 

te- 



9 

rema circulatório ; o apparelho inflammatorio , se se pode 
assim dizer , se compõe do movimento local , e da reac- 
ção geral , necessária para suster o trabalho , de que a 
parte inflammada vem a ser o assento. Este concurso 
das forças geraes falta em todas as inrlammaçóes gan- 
grenosas , ou malignas dos authores- Em quanto que hum 
carbúnculo maligno destróe com ardentes dores o orgáo , 
que affecta , o pulso existe fraco , e lento , ahi ha pros- 
tração ; prova que o resto da economia não participa da 
infiammação. Faltando esta harmonia , a gangrena esten- 
de ao longe o seu estrago , e não se suspende se não 
no momento , em que as forças circulatórias reanima- 
das vem pôr por hum circulo inflammatorio a linha 
de demarcação, que deve separar as partes mortas, da- 
quellas onde subsiste ainda a vida. 

I. As inrlammaçóes idiopathicas , sejão agudas , 
sejáo crónicas , são submettidas a dois methodos geraes 
de tratamento : o orgáo aífectado he pouco essencial a vi- 
da , abandona-se á natureza o cuidado de seu curativo. 
Se o orgáo preenche funções importantes ; se o seu tecido 
muito delicado pôde ser facilmente desorganizado pelo aflu- 
xo de huma grande quantidade de sangue ; a medicina 
expectante deve ceder o lugar á medicina activa; he preciso 
combater o estado inflammatorio , fazer abortar , se he 
possível , este esforço , pelo qual a existência do enlermo 
está compromettida. 

Huma pessoa , sahindo de hum lugar quente , e 
passando a huma atmosfera mui fria , de repente a 
transpiração pulmonar se acha suspendida pela impres- 
são viva que resulta da introducção. de hum ar glacial 
nos pulmões ; a membrana mucosa dos duetos aéreos 
^excitada , se infiamma , a secreção do muco , que foi 
suspendido , se restabelece mais abundante , e mais li- 
quido , que no estado ordinário ; depois torna pouco a 
pouco a adquirir suas qualidades primitivas; o descan- 
so , hum ar temperado , o uso de algumas bebidas quen- 
tes, e diluentes, he bastante para spcegar a tece vio- 
lenta j e conduzir a enfermidade até a sua cura , cuja 

hon- 



IO 

honra pertence unicamente á natureza. Chamáo-se natu- 
racs estes methodo;? de tratamento , nos quaes s; aban- 
dona á natureza a si mesma , limitando-se sò ao cuida- 
do de afTastar os obstáculos , que poderiáo retardar hu- 
ma feliz terminação. 

Se em lugar de huma simples inflammação da mem- 
brana mucosa dos bronchios , o tecido pulmonar he in- 
flammado pela impressão viva , que sente huma pessoa , 
que he mais excitavel com a mudança precipitada na 
temperatura ; o sangue , que faz erupção no pulmão 
excitado , despedaça o seu tecido mui delicado , deprime 
as celluhs aéreas , e converte sua substancia espongiosa 
em huma espécie de carne análoga ao paranchima do 
fígado, como indica o termo de hepatizacáq, pelo qual 
se tem designado este effeito da inflammação pulmonar. 
Esta desorganização do pulmão traz promptamente a 
morte, porque o ar não podendo ser admittido em seu 
tecido engorgitado , as combinações respiratórias , in- 
dispensáveis ao entretenimento da vida , cessão de se ef- 
fectuar ; além disto , o sangue não pôde passar li- 
vremente das cavidades direitas do coração , «ás cavida- 
des esquerdas a través dos pulmões tornados duros , e 
compactos ; he preciso pois perturbar a natureza na 
reacção , que suscita , parar , ou ao menos moderar 
seus esforços por copiosas , e repetidas sangrias , &c. 
Este methodo se chama perturbador , á excepção dos 
catarros pouco agudos ; todas as mais inflammaçóes in- 
ternas, sejão agudas , sejão chronicas exigem o mesmo 
tratamento : a inflammação lenta do peritoneo o recla- 
ma , como a inflammação aguda da pleura , &c. 

Estes dois methodos são igualmente applicaveis nas 
inflammaçóes exteriores , ou cirúrgicas. Trata-se segun- 
do o methodo natural os fleimóes situados em huma 
parte , onde a suppuração não arrasta algum perigo : fa- 
vorece-se esta terminação pela dieta , e cataplasmas emo- 
lientes. Basta dirigir a marcha da natureza , moderan- 
do-a quando he excessiva ; estimulando-a quando he vaga- 
rosa , respeitando sua tendência , e favorecendo seus es- 

for- 



ri 

forços. O fleimáo tendo o seu assento em hum lugar, 
onde a suppuraçáo pôde occasionar huma ruina funesta, 
como nas circumferencias do anus; ou em huma par- 
te , cuja extructura he tal , que occasiona dores exces- 
sivas , como acontece nos panarícios ; e a causa , que o 
desenvolve , pôde ser tirada j enciza-se o tumor no mo- 
mento mesmo em que começa a apparecer , sem espe- 
rar seus progressos ulteriores , faz-se abortar a infiam- 
maçáo para prevenir maiores desordens. 

Os suecessos nos tratamentos , correspondem á prom- 
ptidáo , com que se administráo osseccorros. A sangria 
dada no momento, em que a dor, e o escarro de sangue 
annunciáo estabelecer-se na peripneumonia o engorgiramen- 
to inflammatorio , na época , onde o despedaçamento 
dos vazos não he ainda o resultado da errupçáo dos líqui- 
dos ; a inflammaçáo se modera sem perigo futuro , a qual 
he mortal , se se espera pela desorganização do paranchi- 
mi. Do mesmo modo hum fleimáo na margem do anus , 
sendo logo incizado , o tecido cellular, que rodea a extre- 
midade inferior do recto , náo vem a ser destruída peia 
suppuraçáo , o intestino náo he descuberto ; huma fistula 
náo vem a ser a sua consequência , &c. 

Assim pois , para nos resumirmos sobre as infiamma- 
çóes idiopathicas ; ellas exigem o tratamento debilitante , 
impropriamente chamado antiphlogistico, e deve ser appli- 
cado , seguindo dois methodos , natural , ou perturbador , 
segundo o perigo que a inflammaçáo comsigo traz. 

II. As inflammaçóes simpathicas ; isto he , depen- 
dentes de huma causa remota da parte donde ellas exis- 
tem , sáo devidas quasi sempre ao estado saborroso do 
estômago , ou bem ao excitamento dos orgáos bilia- 
res ; taes sáo as erisipelas , e os furúnculos. He pelos 
evacuantes , que se fazem cessar. A administração de 
hum vomitório , ou emético em lavaeem , sáo os re- 
médios ordinários da erisipela , sendo a applicaçáo 
dos tópicos quasi inútil. Os purgantes repetidos des- 
troem a disposição gástrica , que parece dar nascimen- 
to aos furúnculos. Os mesmos remédios convém em 

cer- 



12 

-certos fluxos do peito , verdadeiramente chamados bi- 
liosos , &o 

Nas inflammaçóes idioparhicas , o fim da natureza 
he evidentemente .saudável 5 ella se oppóe á acçáo de 
hum agente nocivo , desenvolvendo huma força vital 
mais sensível ; posto que o effeito desta sorte de luta 
seja muitas vezes mortal , quando se desenvolve em hu- 
ma viscera , com tudo sua evidente utilidade não deve 
ser negada. Somente o perigo , que as acompanha, 
prova assaz , quanto he grande o erro dos animalistas , 
quando suppóe todas 2s acções vitaes regidas por hum 
principio intelligente , encarregado de vigiar a conserva- 
ção úo corpo , seja na saúde , seja no progresso das 
moléstias. Nas inflammaçóes simpathicas , pelo, contra- 
rio , a natureza parec- descuidar-se dos meios de fazer 
cessar os embaraços , pois que el!a desenvolve as suas 
forças em hum ponto alFastado daquelie , onde reside o 
agente , que a opprime. 

III. As inflamrnaçóes idiopathicas , e simpathi- 
cas se prestão aos methodos racionaes do tratamen- 
to. O das inflammaçóes especificas he ao contrario 
quasi inteiramente entregue ao emperismo. A experiência 
só mostrando as virtudes de certas substancias , ou de 
certas praticas , tem ensinado a combater a enfermida- 
de venérea pelo mercúrio , e alguns outros remédios ; só 
ella tem feito conhecer as vantagens da inoculação , e 
as inestimáveis beneficências da vaccina. Estas inflam- 
rnaçóes rcclamáo methodos especiaes , e não cedem , 
senão a certos remédios. He por isso que a inílamma- 
ção venérea da garganta subsiste , e reincide , se r.os 
limitamos a combatella pela sangria , ou evacuantes , 
e não desapparece inteiramente , se não pelo curativo 
da svphiles. 

As phlegmazias especificas todas dependem da ac- 
çáo de cercos princípios contagiosos , susceptíveis de se 
misturarem com os nossos líquidos; Com tudo , já mais 
o sangue oíFerece qualidades virulentas ; os diversos ví- 
rus exercem seus' estragos sobre o systema linfático , 

q[ue 



I "> 

1 

que os absorve. He também sobre este systema que obráô 

principalmente os. remédios com que se combatem.O sangue 
dos syphiiiticos , dos hydrophobos , dos pestíferos , náo 
pôde servir para a inoculação destas moléstias, o que muitos 
factos atteodo. A linfa alterada pela mistura dos princípios 
heterogéneos , os leva com tudo á massa do sangue , po- 
rem bem depressa ahi são alterados , neutralizados , ou 
■ destruídos , náo pela rapidez do movimento circulatório , 
nem pela viva agitação do liquido , nem peio choque de 
suas moléculas , mas sim pela oxidação , porque passáo 
no pulmão , no momento mesmo em que acabáo de ser 
misturados com o sangue. 

O oxigénio parece ser a substancia mais capaz 
de denaturalizar os venenos j a cauterização das fe- 
ridas venenosas por meio do fogo , e dos cáusticos, 
náo faz senão combinar o oxigénio com o veneno J a 
quem embota a actividade. Ôs melhores cáusticos sSo 
os que cedem mais fácil , e promptamente huma 
grande quantidade deste principio , taes são o muria- 
to de mercúrio oxigenado , e o acido nitrico. O aci- 
do muriatico oxigenado he o melhor antídoto contra to- 
da a espécie de mephitismo , extingue a actividade do 
viras syphiiitico , triturando-o com o oxido de mercú- 
rio ; o* virus variolico , e vaccihal , expostos ao ar, 
perdem suas qualidades contagiosas ; náo se pôde ino- 
cular a vaccina , logo que a ponta da lanceta he oxi- 
dada. A ventilação he o melhor meio de purificar o 
vestuário , de que se tem servido os empestados. Tudo 
nos obriga a acreditar que o oxigénio absorvido pela 
respiração , corrige , ou anniquilla o virus que a linfa 
introduz no systema dos vazos circulatórios. He por te- 
rem posto no sangue as diversas alterações dos líquidos , 
que os partidistas 1 eh medicina humoral tem succumbido 
nas suas disputas contta os solidistas: por quanto estes- 
lhe náo tem sido difficil provar , que o sangue era izento ed 
toda a acrimonia , quando os humores linfáticos estavao 
evidentemente alterados. Póde-se dizer que os humoris- 
tas forâo vencidos por haverem escolhicjp hum mio cam- 
po 



H 

po de batalha. Terminemos esta digressão , e passemos 
successivamente ás inflammações gangrenosas. 

IV- Nós as temos já distinguido daquellas em 
que a morte sobrevem pelo excesso de inflammação ; 
porque , como todas podem ser excessivas , todas se 
podem terminar pela gangrena. Porem as que ten- 
dem a esta terminação , merecem formar huma or- 
dem particular , e distincta. A gangrena sobrevem nas 
primeiras por excesso das forças : nas de que vamos a 
tratar, dependem do excesso de fraqueza; os debilitan- 
tes , a sangria , podem só impedir a gangrena no pri- 
meiro caso ; náo se previne , senão moderando a inflam- 
maçáo ; ao contrario no segundo caso he preciso exci- 
talla com a administração dos tónicos , e applicaçáo dos 
excitantes. He por isto que no tratamento do anthrax , 
e da pústula maligna , o Cirurgião experimentado se não 
deixa seduzir pela apparencia enganadora de huma in- 
flammação de vigor; não applica a sangria , mortal em 
semelhante caso ; náo cobte o tumor de huma relaxan- 
te cataplasma , que náo faria senão augmentar-lhe a 
fraqueza ; porém applica os cardíacos os mais enérgicos , 
e topicamente os excitantes , ou mesmo os cáusticos. 
Esta causterisação por meio do fogo , do muriato de an- 
timonio liquido , ou do acido sulfúreo , he indispensável 
no tratamento do carbúnculo , e da pústula maligna. 
Os remédios fortificantes , as cataplasmas feitas com 
substancias acres, e excitantes náo bastão para acordar 
a acção vital entorpecida. He preciso causterizar a par- 
te assaltada da inflammação gangrenosa , único meio de 
limitar seus estragos. Deve-se sacrificar huma parte pa- 
ra a conservação do todo. Tenho muitas vezes sus- 
pendido , pela applicaçáo do muriato de antimonio liqui- 
quido os progressos da gangrena nos anthrazes da face , 
muito communs no Hospital de S. Luiz , aonde nos 
primeiros tempos de minha assistência, ss mandaváo os 
enfermos assaltados das affecçóes carbunculosas. 

Nestes casos a administração do vinho , dado por 
bebida ordinária , os julepos canforados , as bebidas cor- 

diacs 



«5 

diaes devem ser combinadas com a applicaçáo dos cáus- 
ticos : deve-se mesmo multiplicar os soccorros , quando 
o perigo lie extremo. 

Naqueila inflammaçáo , em que o langor das for- 
ças circulatórias , he annunciado pela fraqueza do pul- 
so , entra na ordem das inflammaçóes gangrenosas ; pois 
que são caracterizadas pela co-existencia da adyna- 
mia geral , e do excitamento local ; todas reclamáo o 
tratamento fortificante. Eu tenho visto a gangrena assal- 
tar o membro viril em dois indivíduos atacados de hu- 
ma febre adynamica , durante o curso de huma blennor- 
ragia. Quando pois a prostração das forças se vem com- 
plicar com huma inflammaçáo , qualc.uer que seja o 
seu assento , náo se deve temer o seu augmento com a 
applicaçáo dos tónicos. 

Náo he somente pela fraqueza do pulso , e pela 
prostração de forças , que se reconhecem as inflamma- 
çóes gangrenosas , taes como , o anthrax , e a pústula 
maligna ; o aspecto da parte affectada , as causas , á 
influencia das quaes os enfermos tem sido submettidos , 
servem a fazella distinguir das outras inflammaçóes. As- 
sim, a cor do carbúnculo hc livida , o rubor ínflam- 
matorio , exactamente limitado , náo se dissipa insensi- 
velmente hindo do centro para a circumferencia ; na 
pústula maligna huma phlictena se forma , a pelle se co- 
ra de hum rubor pálido , a inchação parece tanto ede- 
matosa , como inflammatoria j em fira a parte affectada 
ofTerece hum aspecto cadavérico , que os Latinos tem 
exprimido pelo termo de carnes lúridas-. 



DA 



i6 



DA GANGRENA, E DO CANCRO. 

."|Q> 

JL Assar do estudo da inflammaçáo , ao da gangre- 
na , he considerar successi vãmente os dois extremos da 
acção vital , e descer , como a natureza , do grão mi is 
elevado , onde esta acção possa ser levada , ao termo- 
mais? baixo , onde ella he susceptível de descer. Se a 
inflammaçáo consiste no augmento das propriedades vi- 
taes , a gangrena pôde ser derinida ; a extincção das suas 
propriedades ; a abolição dos movimentos orgânicos ; a 
morte local da parte que a soíFre. ; Quanto são nume- 
rosas as causas capazes de produzilía ! A gangrena não 
só succede ás excessivas inflammaçóes , como também 
áquellas , onde a reacção geral não he suffíciente : pôde 
depender também da debilidade gradual das propriedades ■ 
vitaes pelos progressos da idade ; de hum vicio orgâni- 
co nos instrumentos da circulação , ou da compressão 
do-? vazos ; resultar da commoçáo , ou de huma contu- 
zão excessiva ; sobrevir á acção destruidora de hum prin- 
cfojio interno , ou de hum cáustico applicado aos ór- 
gãos : a accumulação , ou privação do calórico , são ain- 
da capazes de a produzir. 

i.° A gangrena por excesso de acção , sobrevem 
ás excessivas in^nmmaçóes : as sangrias, os deb ; litanres , 
tudo o que he òãpaz de moderar a reacção in amma- 
toria , deve ser empregado para a prevenir; deve-se te- 
mer a gangrena nos casos , onde a causa que produz a 
in^ammaçáo , determina por sua presença hum excita- 
mento , que se augmenta : he por isto que a gangrena 
sobrevem nos abséssos de matérias feçaes e ourinosos , 
quando a quantidade das matérias fecaes, ou ourinas infiltra- 
das no tecido cdlular se augmenta com excesso ; o mes- 
mo acontece nas fracturas com esquirolas ; os apertos 
produzidos pela reacção elástica das apenevrozes , con- 

tri- ' 



'7 

tribuem para isso : entáo a evacuação da causa se faz 
indispensável , e deve preceder á applicaçáo dos meios 
antiphlogisticos. 

2--° A gangrena por falta de acção termina todas 
as inflammações , onde a reacção geral não está em 
correspondência com a reacção local : sobrevem não so- 
mente a toda a inflammaçáo essencialmente gangreno- 
sa , como á pústula maligna , e o anthrax , porém ain* 
da em todas que â adynamia vem complicar , quan- 
do o abatimento he excessivo. Os tónicos , os for- 
tificantes são os únicos remédios , que podem prevenir , 
e limitar seus estragos. 

3. A gangrena senil assemelha-se á por fal- 
ta de acção , em que ella depende do abatimento 
gradual , depois da extincçáo total das propriedades vi- 
taes , consumidas por hum longo exercício , e porque 
reclama a applicaçáo dos tónicos ; porém differen- 
ça-se , em que não he muitas vezes precedida se não 
por huma sensação de dor ardente ; a parte que a 
soffre não oíFerece tumefacção alguma , e a sua cór he 
algumas vezes rubro-pálida e lívida. Além de que cons- 
tantemente toca as partes as mais affastadas do centro 
circulatório , estabelece-se nos dedos dos pés , e raras 
vezes ataca os dedos das mãos , onde a vida he mais 
enérgica. 

4-° Aproxima-se da gangrena senil , a que de- 
pende de hum vicio orgânico nos instrumentos da circu- 
culação , como a dilatação do ventrículo esquerdo do 
eoração , a ossificaçao das principaes artérias. Huma 
gangrena espontânea sobrevem aos dedos , ou mesmo ao 
pé de hum enfermo ; os Cirurgiões de hum grande 
Hospital lhe cortão a perna , sem esperar que os pro- 
gressos da enfermidade sejão limitados, e que hum cir- 
culo inflammatorio annuncie sua terminação. Isto era 
faltar ás regras da arte as mais úteis , e melhor conhe- 
cidas. (1) 

B. A 

(1) Se os Cirurgiões dos grandes Hospitaes de França 



i8 

A gangrena assalta o coto como se deveria prever i 
o enfermo morre , e a abertura cie seu corpo faz ver 
huma dilatação considerável no ventrículo esquerdo. Es- 
ta observação se tem muitas vezes repetido , de sorte 
que se pôde olhar o aneurisma do coraçío como huma 
causa assaz frequente da gangrena. Concebe-se facilmen- 
te de que modo a debilidade da cavidade , cujas con- 
tracções impellem o sangue nas diversas partes do cor- 
po , pôde produzir este accidente. O mesmo acontece 
nas ossificações das principaes artérias ; nos aneurismas 
antigos quando a maça da febrina , formada no sac- 
co he táo grande , que a continuidade do canal se 
acha quasi inteiramente interceptada ; pôde a gan- 
grena também sobrevir á laqueaçáo de huma arté- 
ria , quando as collateraes não Bastão ao restabelecimen- 
to da circulação ; e ultimamente se pede desenvolver 
em consequência de huma compressão , que impessa o 
curso do" sangue , e a distribuição dos humores neces- 
sários á nutrição das partes. 

5. A ' gangrena dependente da viva cotvmoção 
imprimida nos nossos órgãos , he precedida peio estu- 
^ l por; 

procedião deste modo , não acontecia o mesmo aos Cirur- 
giões , que dirigião o tratamento dos enfermos nas enferma- 
rias do Hospital Real de S. José em Lisboa : era huma re- 
gra geral o nunca fazer-se a mutilação de hum membro ca- 
hido em mortificação total , sem que se manifestasse o cir- 
culo inflammatorio, que distingue as partes vivas das mortas,- 
Na enfermaria de S. Lourenço do sobredito Hospital, houve 
hum caso de huma gangrena sobrevinda espontaneamente á 
perna de hum alfaiate , que julgando-se ser necessária a mu- 
tilação, esta se não praticou, porque o sobredito circulo se- 
não estabelecia, e só appareceo , quando se lhe fe» a appli- 
caçao do cáustico de papel logo acima da mortificação : foi 
então , que a mutilação se operou , porém passados dias o 
enfermo suecumbio. No Hospital da Misericórdia desta Corte , 
em huma conferencia que tive com o Cirurgião Lu/z de Santa 
Anna Gomes, e outros facultativos sobre hum caso de espha- 
celo vi que estavão possuidos desta mesma doutrina. 

Nota do Traductor. 



lo 

por j isto he , pela perda completa da excitabilidade da 
parte affectada. (O A que se estabelece muito facilmente 
nos membros infiltrados , he vizivelmente devida á 
extrema relaxação dos .sólidos. (2) 

6.° A gangrena por huma contuzão excessiva , he 
o resultado necessário da desorganisaçáo das partes , por- 
que a vida não pôde subsistir quando seus instrumentos 
são destruídos. (3) 

7. A gangrena pela acção de hum principio des- 
truidor , seja interna , ou externamente applicado. j Por- 
que são tocados da morte os dedos dos pés , quando 
se faz uso de certos alimentos , como he o páo de cen- 
teio ? < Donde depende a gangrena que se apodera dos 
-bubóes pesrilentes , nesta variedade de pestes ; em que 
a reacção das forças circulatórias he evidentemente sen- 
sível , senáo de hum principio , que se depõe sobre 
certos órgãos , e consome com sua actividade destruido- 
ra a excitabilidade delles , determinando-lhes a gangrena? 

8.° A gangrena por queimadura , seja que re- 
sulte da acção dos cáusticos , ou que seja produzida 
pelo fogo j he sempre devida á desorganização das car- 
nes , pela sua combinação com o oxigénio , e o desen- 
volvimento de huma grande quantidade de calórico. Es- 
te principio he hum poderoso excitante para todas as 
partes aonde se applica , se o calórico ne moderado , 
não resulta mais que huma branda reacção , mais favo- 
rável que destruidora no estado da perfeita saúde ; porém 
sendo muito abundante tende a penetrar os nossos órgãos , 
eaugmentar sua temperatura, porém elles resistem á hv 
troducção de hum calor excedente incompatível com a 
vida. Desta reacção , nasce huma infiammação tanto 
mais profunda , e mais viva quanto o corpo quente, 
tendo huma maior capacidade de calórico , lho de- 
posita. He assim que os metaes derretidos determinão 

B ii le- 



(1) Vede Ordem I. Género V. 

(2) Vede Nosographie Chirurgicale Tom. III. Classe VII. 
($) Vede Ordem I. Género IV". 



ÍO 



lézóes rftais graves que os olcos ferventes ; eque, es- 
tes últimos queimáo mais profundamente , do que a agoa 
cm eboiiçáo. 

Porem nem sempre a queimadura vai até determi- 
nar a gangrena ; o seu effeito mais ordinário he a in- 
flammaçáo ; a desorganizçáo dos tecidos he o seu ulti- 
mo termo. Estas inflammaçóes por queimadura sáo sem- 
pre mui dolorosas , porque atacáo o orgáo cutâneo , 
parte mui sensível ; termináo-se pela resolução , ou 
por ulceração , segundo a intensidade da affecçáo. 
Em fim nos casos de combustão completa dos tecidos 
submettidos á acção do calórico , a destruição não exis- 
te , senáo nas partes as mais superficiaes , e que pr.mei- 
ro tem supportado a introducçáo mui rápida deste prin- 
cipio ; por baixo fica existindo sempre bum excitamen- 
to muito vivo , ■ e de que a inílammaçáo deve ser a 
consequência. 

Do mesmo modo que a queimadura offèrece três 
gráos •, no seu tratamento se exigem três modificações 
essenciaes. i.° A prolongada applicaçáo dos refrigeran- 
tes , e dos repercussivos , basta , quando a queimadura 
he ligeira e superficial. Deste modo he que se faz abor- 
tar de alguma sorte a reacção inflammatoria em hum 
membro sobre o qual o óleo , ou agoa fervendo cahio 
mergulhando por algumas horas em hum banho de gel- 
io. 2. Quando a pesar da applicaçáo deste meio a in- 
iíammaçáo se desenvolve , trata-se então por todos os 
meios antiphlogisticos» 3. Em fim as copiosas sangras, 
a dieta restricta , bebidas refrigerantes , applicaçóes emo- 
lientes , devem ser empregadas em todos os casos de 
queimaduras extensas , ou profundas. As partes reduzi- 
das em escaras se despegáo dos órgãos , subjacentes pe- 
lo meio da suppuração. Sua queda os descobre , feri- 
das enormes são a sua consequência : a cicatrização 
delias , he tanto mais diffieil , quanto a destruição da 
pelle. he mais extensa ; o abatimento dos lábios , e os 
seus alongamentos para o centro da ferida são quasi 
nulos ; a cicatriz tem sempre huma largura considerável , 
e por consequência pouca solidez. Hu- 



2r 

• Huma rapariga de vinte e oito annos estando dor- 
mindo ao lado da chaminé , no inverno do anno XI. a 
chamma se lhe ateou nos vestidos , è no momento da 
maior lavareda he que acordou : o sobresalto com que 
esperta ., pela dor que lhe causava a queimadura , o 
estar so , e sem quem a soccorra , tudo coopera para que 
com presteza se náo possa desembaraçar dos vestidos 
abrazados. Toda a superEcie do corpo foi queimada. Ac- 
codem os visinhos , c a conduzem neste estado verda- 
deiramente deplorável ao Hospital de S. Luiz. O Cirur- 
gião de semana a envolveo em pannos embebidos em 
huma dissolução de acetito de chumbo em agoa fria ; 
houve o cuidado de os ter constantemente humedecidos 
com o mesmo licor , e se lhe praticou huma larga san- 
gria. Com tudo, náo tardou a manifestar-se a inchação 
que se lhe distendeo por todo o systema cutâneo ; as 
fíictenas se augmentárão , o epiderme se despegou quasi in- 
teiro ; o das máos , e pés se assemelhava a luvas . e botins. 
Quando o dermes foi descuberto se desenvolverão acer- 
bas dores ; as porções queimadas ; e reduzidas em esca- 
ras , se distinguiáo das que erão simplesmente in- 
ilammadas. Cobrio-se-lhe todo o corpo de pannos unta- 
dos de ceroto : envolveo-se em compressas molhadas em 
cozimentos emolientes ; porém ao quinto dia a enferma 
succumbio á violência das dores , e da inflammação. 

Convém mostrar hum erro todos os dias commet- 
tido^ no tratamento *das queimaduras. Muitos práticos 
sepárão o epidermes elevado pela sorosidade das flicte- 
nas , pondo assim o chovion descuberto , que causa ter- 
ríveis dores. Basta o dar sahida á sorosidade , e deixar 
o epidermes despegado , até que huma nova cobertura 
se tenha formado , e ponha ao abrigo as papillas ner- 
vosas da pelle. 

A emissão dos líquidos para a superfície, do cor- 
po , he o único meio pelo qual a natureza pôde repel- 
lir o calórico ; consome pela transpiração augmentada 
a porção deste principio que tende a introduzir-se. Po- 
rém sendo a sua chegada totalmente precipitada , a 

quarl- 



22 

quantidade muito excessiva , que sua evaporizaçáo he 
impossível , então se formão estas collecçóes que despegáo 
o epidermes , e o eleváo depois de ter despedaçado esta 
multidão de entrelaçamentos cellulosos , e vasculares , que 
o unem á pelle. A evacuação do humor das flictenas he 
útil , não para prevenir a corrozão ulcerosa do dermes , da 
que este liquido soroso he incapaz , mas sim para em- 
baraçar que resultem feridas crustosas do seu espessa- 
mento , e para favorecer a formação do vovó epider- 
mes. 

9. A subtracção do calórico não he menos per- 
niciosa aos nossos órgãos , que a accumnlaçáo do mes- 
mo principio ; e , o que não surprehenderá os que 
conhecem as leis da vida , estas duas causas oppostas 
produzem quasi 03 mesmos effeitos. Tanto a congela- 
ção , como a queimadura , offerecem diversos gráos des- 
de a inflammação dos tecidos esfriados até á morte da- 
quelles , nos quaes hum rigoroso frio tem suspendido 
o exercício das propriedades vitaes. Os dois primeiros 
gráos da congelação determinão as frieiras , com , ou sem 
ulceração. (1) Não trataremos aqui senão do terceiro 
grão ; isto he , da verdadeira congelação de nossos ór- 
gãos. Depois de ter lutado alguns tempos contra a in- 
fluencia destructiva de hum frio excessivo , o homem 
fatigado cessa de reobrar , e goza das doçuras enga- 
nadoras do somno , ( 2 ) as propriedades vitaes são 

en- 



(1) As frieiras, ou inchação inflammaíoria dos dedos dos 
pés , e mãos occasionadas pelo frio não se observão , se não 
nas crianças , e nos moços , que são de numa fraca consti- 
tuição , assim como nas mulheres. As pessoas robustas , os 
adultos, e os velhos raramente são affectados delias. Nosoph. 
Chir. Tom. I. pag. 411» 

(2) He por hum augmento de actividade da parte dos 
órgãos , que augmentando-lhe a somma das combinações , 
produz o desenvolvimento do calórico , que nós chegamos a 
compensar este principio necessário ao entretenimento da nossa 



entorpecidas , os movimentos orgânicos cessão , as combi- 
nações nutritivas , donde nasce o desenvolvimento do calor 
interno , não se fazem já mais. A suspensão das pro- 
priedades vitaes faz entrar o corpo inteiramente debaixo 
do império das leis fysicas ; então o equilíbrio da tem- 
peratura se estabelece entre elle , e os corpos , que o 
rodeáo ; a congelação dos líquidos se eíFectua. Observai 
que este effeito não he immediato: os líquidos não se 
solidificão , senão no momento , onde a extincçáo das 
propriedades vitaes he completa ; em quanto o movi- 
mento vital subsiste , a congelação he embaraçada. 

No inverno do anno segundo muitos corpos do 
exercito dos Alpes bycacavão (i) sobre o cume das 
msntanhas , nas visinhanças do Monte-Cénis , e do de 
S. Bernardo, os Hospitaes receberão huma grande par- 
te de indivíduos , cujos pés tinhão gelado. O maior nú- 
mero era surprendido , quando acordava , de sentir o 
entorpecimento o mais absoluto nestas partes , tornadas 
insensíveis durante o somno ; outros tinhão sentido os 
progressos do entorpecimento , e tinhão dado em vão 
muitos movimentos para o prevenir. A tezura succedia. 
a perda do calórico , e das acções vitaes. 

Hum marinheiro foi lançado em hum rochedo no 
Báltico , na força do inverno , o qual he mui in- 
tenso nestes paizes Septentrionaes ; o frio o accommet- 
teo : esgotado pelo trabajho , e pela necessidade cede 
ao somno ; hum navio o recolheo sem movimento , e 

sem 

existência, j Porque acontece ser a digestão mais activa 
( Hiane vero ventres sunt calldiores Hipp. ) o pulso mais 
ibrte , e mais frequente, a energia vital maior? He que o 
calor nasce das mesmas origens , produz-se pelo mesmo me- 
canismo , que a nutrição dos órgãos ; e porque seu desenvol- 
vimento augmenta , he preciso que as secreções , a nutrição , 
ein huma palavra, todas as funeçues vitaes soffrão hum aug- 
mento proporcionado. Elem. de Physiol. Tom. I. pag. 418. 

Nota do Teaductor. 
(1) Termo militar , que exprime dormir hum exercito 
sobre as armas. Nota do Traductor. 



Tl 
24 

sem vida , tendo o corpo tezo , e gelado ; o mesmo co- 
ração tinha cessado de obrar; a região prccordial estava 
sem calor. O s felizes cuidados , pelos cuaes o chama- 
rão á vida , podem ser citados como numa regra de 
-conducta , que se deve ter em todos os casos desta es- 
pécie ; foi primeito no centro , que se procurou o acor- 
dar as propriedades vitaes entorpecidas ; evitou-se expor 
o corpo ao calor ; deixou-se em huma atmosfera , cuja 
temperatura era abaixo de zero ; restabeleceo-se-lhe a acção 
<lo coração por fricções feitas sobre a região desta vís- 
cera ; estendèrão-se ás outras partes do corpo , á propor- 
ção ., que a circulação despertada chamava ahi a vida ; 
acabou-se pelas extremidades a.s mais afíàstadas do cen- 
tro , que por consequência deviáo sentir mais tarde a 
influencia favorável destas irradiacçóes. He pois , des- 
pertando a acção do coração , dirigindo , e favorecendo 
a tornada da circulação geral ; isto he , empregando as 
mesmas forças ^da economia, que se alcança o dissipar 
a asphyxia , que a acção do frio occasiona. Reanimão- 
se suas propriedades vitaes , e o exercício faz cessar a 
congelação , resultado de sua interrupção. 

Deve-se seguir o mesmo nas congelações parciaes ; 
esquecei-vos do adagio mui conhecido , e mui falso , 
que todo o mal se cura pela applicação do remédio de 
natureza opposto , não deveis expor os pés gelados a 
acção do calor , porém augm,entai pelos cordiaes as for- 
ças circulatórias enfraquecidas ; no mesmo tempo rea- 
nimai as propriedades vitaes entorpecidas , com fricções 
fetas com neve , ou com pannos molhados em agoa 
fria. 

O calor actuai applicado ao membro gelado o pe- 
netra sem obstáculo , por quanto he pelo exercicio das 
propriedades vitaes neste estado suspendidas , que nossos 
t)r?áos repellem o calórico excedente, ou combatem a 
refrigeração ; em summa o calor liquirkando os humores 
solidificados pela congelação, lhes dá huma força de es- 
pançáo considerável , os vazos se rompem , os tecidos se 
despedacão ; a desorganização nasce da rotura dos sólidos , 

e 



25 

c da extravazação dos suecos , a morte he certa. No mesmo 
tempo que os humores teriáo retomado sua fluidez , sem que 
resultasse huma alteração na extruetura do órgão , ca- 
ri iria em gangrena , se fosse abandonado ás suas únicas 
forças , e se o coração não fizesse ahi renascer , ou en- 
treter a vida , enviando-lhe o fluido indispensável a seu 
exercício. Assim pois no tempo mesmo , onde hum só 
membro he gelado , faz-se necessário , que nelle se res- 
tabeleça o calor , começando pelo ponto o mais visi- 
nho do centro circulatório , e acabando pela extremida- 
de a mais afFastada. 

A gangrena não existe nas partes geladas , pois 
que ha a possibilidade de as retornar á vida ; somente 
alli estio dispostas eminentemente a ella. He preciso 
em fim distinguir a gangrena , ou a extineçáo totai das 
propriedades vitaes em huma parte ; da podridão , ou 
putrefacçáo local , consequência inevitável desta perda 
das propriedades. O orgáo gangrenado entra debaixo do 
império absoluto das aífinidades chymicas , e se decom- 
põe tanto mais rapidamente , quanto são mais voláteis 
os seus elementos , e mais dessemelhantes. 

Tratando das variedades da gangrena , determinadas 
todas por suas causas, nós temos omittido de propósito, 
a distineçáo da gangrena secca , e da gangrena húmi- 
da , á qual os authores tem unido muita importância: 
Não existe separação bem mostrada entre estes dois es- 
tados da parte gangrenada , he mais ou menos secca , 
mais ou menos húmida , segundo a quantidade dos sue- 
cos que ihe afluem : assim desde a necrezes , verdadei- 
ra gangrena secca do tecido ósseo , até á gangrena do 
tecido cellular do escroto , e do perineo , se encontra a 
gangrena senil , que tocando os corpos exhaustos de 
suecos , os dedos das mãos , ou os dos pés descarnados , 
e quasi inteiramente reduzidos a seus elementos sólidos, 
he seguida por huma putrefacçáo vagarosa a se estabe- 
lecer ; em quanto que os Jambos do tecido cellular 
gangrenados em huma pessoa muito gorda , se decom- 
põe, e liquificáo com rapidez pelo movimento putrefa- 

cti- 



26 

crivo. He por isto que de dois cadáveres , aquelle de 
hum homem magro , que tem sido reduzido ao maras- 
me por huma longa enfermidade , gasta muito tempo 
a se putrificar, em quanto que aquelle de hum outro indi- 
viduo , que a morte surprendeo no momento , que cheio 
de suecos , gozava huma saúde vigorosa , e excessiva 
gordura , entra em putrefacçáo em vinte e quatro ho- 
ras ; he mais lenta , ou mais prompta a se estabe- 
lecer, mas sempre he patrefacção. Todos os Anatho- 
rnicos tem observado que se conserváo muito tempo 
nos amfitheatros de dissecção os cadáveres diseccados 
em consequência de huma longa abstinência , em quanto 
que aquelles dos justiçados , e de pessoas mortas em 
duelio , ou mortas de huma queda , exhalão bem de- 
pressa hum cheiro infectador. Todos os corpos organi- 
zados appresentáo a mesma difFerença. He por esta ra- 
zão que os fruetos , cuja polpa he quebradiça , se con- 
serváo muito tempo sem se alterarem ; em quanto que 
os fruetos liquifactivos ; isto he , nos que a pro- 
porção dos líquidos com os sólidos he maior , apodre- 
cem ao fim de alguns dias. Pela mesma causa , hum 
principio de podridão torna certos fruetos melhores, em 
quanto que os fruetos aquozos , logo que são apodre- 
cidos tem hum gosto insupportavel. Applicação fysica 
do axioma moral corruptio optimi péssima. 

Depois de ter distinguido a gangrena da podridão ; 
examinemos os seus flenomenos: muitos são ossinaes, 
que a indicáo ; a falta de excitabilidade absoluta da 
parte , a alteração da sua cor , a diminuição da sua 
temperatura , em fim o cheiro particular , que exhal- 
la. As porções tocadas da gangrena , podem ser impu- 
nemente expedaçadas , o enfermo não sente dor alguma , 
sua cor primeiramente lívida , bem depressa passa a 
hum pardo esemo ; o murchamento , e o abatimento 
dos tecidos , annuncião muito mais a mortificação , do 
que a cor do cinzento azulado. Em fim hum cheiro sui 
generis não tarda a desenvolver-se dás partes gangrena- 
das : he totalmente o característico , que a seu favor , e 

por 



27 
por este único symptoma , se descobre a existência da 
gangrena em huma ferida , cjue náo está descoberta. 
Annuncia de longe este estado , nas longas enfermarias 
de nossos Hospitaes. j Qual he o Cirurgião, que quan- 
do entra pela manhã na enfermaria náo he tocado do 
cheiro da gangrena , se ella ahi existe i O cheiro indi- 
ca a podridão já adiantada no órgão privado da vida. 

Náo nos demorareremos na distincçáo puramen- 
te escolástica da gangrena , e do sphassello. Empre- 
ga-se mais particularmente esze ultimo termo , para ex- 
primir huma gangrena profunda , ou que comprehende 
toda a espessura do membro. 

A putrefacçáo gangrenosa náo difFere essencialmen- 
te da que decompõe os cadáveres dos indivíduos , qne 
hum accidente os privou da vida no momento , em que 
os suecos abundaváo no tecido de seus orgáos. A gan- 
grena raramente he huma affecção saudável , e só o 
poderá ser nos casos , onde , produzida pela accumnla- 
çáo de hum principio interno destruidor , consome sua 
actividade , destruindo huma parte pouco importante á 
vida , e que náo ameaça os orgáos internos. A destrui- 
ção gangrenosa he sempre temível , e frequentemente 
mortal. 

Favorece-se somente nas inflammaçóes essencial- 
mente gangrenosas, taes, como a pústula maligna , o 
anthrax , e também nas affecçôes pestilentes , onde he 
útil fixar pelos cáusticos o principio da enfermidade ^ 
nas glândulas ou bubôes , sobre quem esgota sua acti- 
vidade malfazeja. Fora destas circunstancias , he pre- 
ciso sempre procurar o combatella , atacando suas cau- 
sas , como o dissemos nas suas enumerações. 

Assim pois , para resumir tudo que he relativo ao 
estado gangrenoso , directamente opposto ao estado in- 
flammatorio ; algumas vezes he determinado pelo de- 
senvolvimento excessivo da acção vital ; porém depen- 
de mais frequentemente da falta desta acção ; algumas 
vezes também he devido a influencia destruidora de hum 
principio particnlar. Donde se segue, que se o trata- 

men » 



28 

mento antiphlogistico raras vezes pôde prevenir a mor- 
tificação de nossas partes , os fortificantes , e os tonicos- 
sáo quasi sempre os remédios mais efficazes. 

He preciso limitar os estragos da gangrena huma 
vez qne esteja decidida , e reconhecida pelos symptomas 
descritos. Isto se obtém insistindo na applicaçáo dos to- 
ncos tanto interna , como externamente. Seria vá a 
applicaçáo dos tópicos os mais excitantes sobre o mem- 
bro sphasselado ; rodos os remédios obráo pelo inter- 
médio das propriedades vitaes , náo podendo servir de 
utilidade alguma sobre huma parte , cuja vida está com- 
pletamente extincta. Nas simples gangrenas superficiaes 
os tópicos são inúteis , náo sendo applicados sobre par- 
tes visínhas a mortificação , ou se, para acordar a acção 
dos órgãos subjacentes , senão praticão algumas incizóes 
na espessura das escaras. Então a applicaçáo dos pós 
da quina , e das plantas aromáticas deseccadis , embe. 
bendo-se dos suecos pútridos , ao mesmo tempo que 
excitáo os sólidos , favorecem a deterzáo , e provocáo 
a separação das escaras ; a agoa ardente canforada , o 
unguento de storax , os fios seccos , e os pós absor- 
ventes devem ser empregados nos curativos. 

Quando a gangrena affècta toda a espessura do mem- 
bro , he preciso antes de decidir a amputação, esperar 
que ella tenha limitado os seus estragos ; diversos si- 
naes o annuuciáo ; o pulso se levanta , as forças se rea- 
nimão , huma vermelhidão viva traça o circulo inrlam- 
matorio , verdadeiro limite entre o vivo , e o morto. 
Distingue-se facilmente esta vermelhidão , frueto de hu- 
ma reacção saudável , da cor de roza pálida , e lívi- 
da precursora da destruição. Se se mutila antes* da 
existência do eirculo inflammatorio , corre-se o risco de 
ver a gangrena continuar seus progressos , e apoderar-se 
do coto. Deve-se igualmente esperar que esteja bem de- 
cidida ; isto he, que a vida esteja completamente ex- 
tincta no -membro ; a este respeito he bom o observar- 
se , que os sinaes da morte local são táo duvidosos , 
como os da morte geral , e . da mesma forma que a 

fer- 



29 

fermentação séptica , a lividez das carnes , e o fétiao 
cadavérico , que exhalão ,' sáo os únicos symptomas de 
huma morte certa : estes sinaes mostráo decididamente , 
que o membro gangrenado já mais he susceptível de ser 
chamado á vida. (i) 

.Cancro. A gangrena , e o Cancro tem sinaes de 
semelhança , que talvez os antigos tinháo já advertido ; 
porque muitos tem indifTerentemente chamado com estes 
dois nomes a morte dos órgãos. Com effeito , a parte 
cancerosa , assim como aquella , que a gangrena tem to- 
cado , oíFerece a extincçáo absoluta das propriedades vi- 
taes i porém a pesar desta analogia essencial , resta huma 
differença característica ; a organização se conserva na 
parte gangrenada , até que a putrefacçáo se apodera del- 
ia para a destruir ; em quanto que no cancro existe 
sempre a desorganização completa do tecido affectado ; 
he o sinal pathognomonico , ou certo da enfermidade. 

Os Pathologistas terião concebido mais justas ideas 
do cancro , se tivessem indagado antes a natureza delle 
nos desarranjamentos orgânicos , que occasiona , do que 
nos symptomas , pelos quaes manifesta a sua existência. 
Todos os nossos órgãos , sem excepção , são susceptíveis 
da afFecção cancerosa ; qualquer que seja o assento do 
cancro , a inspecção anathomica appresenta sempre o 
mesmo género de alteração ; sempre a parte afFectada 
©frerece huma massa cinzenta de huma consistência tou- 
cinhosa , e homogénea ; os sólidos espessados se con- 
fundem totalmente com os líquidos , que he impossível 
distinguillos. Quando esta desorganização completa , ou 
cancerosa sobrevem ; hum movimento interno fermenta- 
tivo se apodera da massa affectada , que por gráos se 
amollece , e se fluidifica. Neste estado , o orgÁo enfer- 
mo pôde ser considerado como huma espécie de cor- 
po estranho ; cuja presença no meio das partes vivas 
determina a in^ammaçáo. 



(i) VedeNosog cie Riche. Tom. IH. Historia dos Aneu- 
rismas , e das amputações. 



3* 

O cancro ordinariamente tem o seu assento nos ór- 
gãos glandulosos , no peito , por exemplo ; o tumor pri- 
meiro indolente, e no qual as dores senão tem feito sen- 
tir , senão no momento , onde a dissolução cancerosa 
sobrevem ; inflamma-se , a pelle se ulcera, e a natu- 
reza se esforça por separar a parte desorganizada das 
cjue tem conservado a organização , e a vida. Es- 
tes esforços , quasi sempre insufficientes , são algumas 
vezes felizes. Huma mulher de quarenta e oito annos , 
pouco mais , ou menos de huma constituição forte , ti- 
nha vindo ao Hospital de S. Luiz com hum engorgita- 
mento canceroso na mama direita. A massa mui dura 
se amollece, dores lancinantes annuncião sua decomposi- 
ção pútrida ; huma inflammação violenta se apodera da 
pelle do peito , e todo o tecido cellular que o cerca ; a 
gangrena foi a consequência disto. Toda a massa engor- 
gitada se despegou com a escara enorme , que resultou 
da mortificação ; huma larga ulcera , e de hum bom as- 
pecto , succedeo a esta perda de substancia ; obteve-se a 
cicatrização em menos de dois mezes. 

As mais das vezes o niovimento" inflammatorio que 
a natureza suscita á roda da massa cancerosa não pro- 
duz o bom êxito de separar as partes desorganizadas , 
das que ainda estão vivas , a pelle se rompe no apse do 
tumor, hum ichor pútrido corre delle; he a substancia 
do mesmo órgão canceroso , liquificada pelo movimento 
putrefactivo. O producto desta putrefacção interna ef- 
fectuado nomeio das partes ainda vivas, tem qualidades 
particulares, e nocivas; excita tudo, que toca, e deter- 
mina huma inflammação de má natureza : os lábios da 
ulcera sevoltão, e isto lhe dá hum aspecto horrendo ; as 
vêas se tornão varicosas , a matéria absorvida produz o en- 
gogitamento das glândulas linfáticas situadas perto ; além 
disto , infecta a massa inteira dos humores , e produz 
esta diathese cancerosa geral , tão fácil a reconhecer , 
não somente por ter todos os symptomas da febre ética , 
taes como a acceleraçáo habitual do pulso , o calor da 
palma das mãos , e do rosto 3 a magreza progressiva , 

os 



«s suores das partes do corpo existentes acima do dia- 
fragma , a diarrèa , em fiiu o esgotamento completo das 
forças com a magreza extrema , porém ainda por ter cer- 
tos sinaes. distinctivos , como numa cor lívida , e a 
chumbada da pelle , huma pequena tosse secca , com o 
sentimento de hum excitamento incómmodo posterior ao 
externo. 

Nos cancros das glândulas , a ulceração cancerosa 
segue a desorganização do orgáo afFectado ; nas carci- 
nomatosas ao contrario , a desorganização he a conse- 
quência da inflammação ulcerosa. He por isto que na 
dissecção do rosto em indivíduos mortos com cancros 
corrossivos da face se nora o endurecimento , e a de- 
sorganização começada nas partes , que formão o fun- 
do , e os lábios da ulceração ; acontece o mesmo nos 
scirros , e cancros do útero. O Hospital de S. Luiz ten- 
do-nos fornecido numerosas occasióes de os observar 
melhor , do que senão tem feito até aqui , temos 
traçado huma historia mais circunstanciada tratando das 
enfermidades do apparelho genital da mulher. Ver-se-ha 
ahi como os praseres do amor prematuros , o aborto 
tornado tão familiar. pelas imprudências de nossos cos- 
tumes , a extrema sensibilidade do útero , a mesma es- 
terilidade , que depende frequentemente deste excesso de 
excitabilidade , as enfermidades venéreas tão communs 
hoje , o uso immoderado de injecções excitantes , e re- 
percmsivas , &c. determináo por gráos o endurecimento 
do útero , depois a decomposição de seu tecido , decom- 
posição tanto mais fácil , quanto no estado de vacuida- 
de os lineamentos de sua organização são difficeis a 
desenvolver , e que appresentão hnm tecido quasi homo- 
géneo. De quarenta esete mulheres aírectadas deste mal 
rerrivel , "onze tinháo gozado do commercio dos ho- 
mens antes da puberdade , sete na época desta revolução 
critica ; o maior número tinha sido estéril , outras ti- 
nháo soffrido muitos abortos , e quasi todas violentas 
paixões. 

O cancro consiste na desorganização essencialmen- 

he 



te completa do tecido affectado , qualquer, que seja a 
parte , que elle ataca. A semelhança de todos os cancros 
he tal , que seria impossível o distinguir , se huma por- 
ção tirada da massa cancerosa , pertenceo ao cérebro , 
aos testículos , ás mamas , aos ossos , ou á pelle } o 
tecido primitivo do órgão desapparece inteiramente , em 
quanto que a differença da extructura modifica outras 
affecçóes , o cancro torna semelhantes e s tecidos menos 
análogos, (i) Os órgãos de hum tecido lynfatico são os 
mais expostos ao cancro pela fraqueza de sua extructu- 
ra ; he por isso que as glândulas postas na passagem 
dos absorventes , as mamas , e os testículos são partiular- 
mente sujeitos a elle. Seguem-se depois outras partes , 
nas quaes hnma extrema excitabilidade se acha reunida 
a huma textura delicada ; taes são o útero , a pelle do 
rosro , e certas porções das membranas mucosas. 

Em fim o cancro he sempre precedido pelo endu- 
recimento scirroso do órgão ; as glândulas iynfaticas , en- 
chidas pelos suecos espessados , podem permanecer mui- 
to tempo neste estado de obstrucçáo caracterizado pela 
atonia completa , e dilatação extrema dos vazos que 
enchem a matéria accumulada, e endurecida. Não sendo 
acompanhada ainda de dor a enfermidade ; neste penedo 
tem recebido diversos nomes, como o de scirro , de can- 
cro oceulto , ou de cancro benigno. O que dizemos das 
glândulas Iynfaticas se applica igualmente ás mamas , e 
aos testículos ; com tudo hum movimento interno nasce 
na massa engorgitada , e a decompõe , dores lancinan- 
tes 



(i) Depois da publicação destas idéas sobre o cancro na 
segunda edição des Noveatix Elemens de Phisiologie no anno 
X os Authores de muitas Memorias , Notas , Dissertações , 
Considerações, Golpes de vista, Reflexões, Ensaios, Ob- 
servações, &c. tem feito delias uso, sem 1 lie indicar a origem. 
Devo com tudo exceptuar o Doutor Bordel , cuja excel- 
lente these inaugural sobre o cancro das mammas tem me- 
recido o ser citada pelo Professor Pinél na sua. Nosog. Phi- 
losofica. 



tes se desenvolvem annunciando a transformação (k 
enfermidade , e a desorganização cancerosa do tecido. 
Nenhum remédio pode corrigir a desordem : he então 
que se faz indispensável que huma operação cirúrgica 
desembarace a economia de huma parte na qual a des- 
organisaçáo está destruída com a vida. 

A extirpação das partes cancerosas he tanto mais 
urgente quanto mais depressa os lymphaticos tem ab- 
sorvido o ichor pútrido , que resulta da d ssoluçáo do 
órgão , por quanto a sua mistura com os humores lym- 
phaticos infecta toda a massa. Esta diathese cancert sa 
rira toda a esperança da melhora. Nasce , como se vè , 
do vicio local , sendo devida á reabsorção da matera 
formada no cancro ; e não presiste a esta affecção. Tem 
sido hum erro ter hum grande numero de authores ac- 
cusado o vicio canceroso á formaçío dos cancros pri- 
mitivos. 

A decomposição cancerosa não segue- sempre a obs- 
trucçáo , ou mesmo a desorganisação dos tecidos. Te- 
nho visto enfartes mamários , os mais duros e os mais 
dolorosos , dissolverem-se pela suppuraçáo , em raparigas 
de dezoito a vinte annos ; igualmente tenho observado 
velhas decrépitas e emmagrecidas pelos progressos da 
idade , trazerem muito tempo , sem perigo , cancros nas 
mamas ; existirem muito tempo duros e indolentes ; 
não se ulcerarem , senão mui tarde , poucos sucos cor» 
rerem delles , e constantemente ter quasi sempre bom 
exito a sua extirpação. He pois entre estes dois extre- 
mos , a mocidade , e a velhice , que a desorganisação 
cancerosa he mais a temer ; e he na época da cessação 
das regras, que as mulheres são sobre tudo ameaçadas 
delles. As glândulas escrophulozas se dissolvem , e sua 
substancia corre debaixo da forma de hum puz espesso, 
sem que esta destruição espontânea tome ao menos nas 
pessoas moças o caracter canceroso ; porque , tenho 
observado no hospital de S. Luiz , que muitas vezes os 
engorgiramentos escrophulosos , nos adultos , oíFerecem 
esta degeneração. < Deve-se pois considerar huma glandu-* 



• *4 
Ia escrophulosa onde a vida he extincta pelo excesso 
da obstrução, como huma parte gangrenada? e se ap- 
proxiraa destas affecçóes , o forunculo , no qual huma 
porção do tecido cellular ( o borbulbão ) he tocado da 
morte , e deve ser necessariamente separado pela suppu- 
raçáo , que nasce á roda delle , e algumas outras gan- 
grenas locaes e espontâneas , não terão a prova da ana- 
logia existente entre a gangrena e o cancro ? < A appro* 
ximação destas duas affecçóes , ambas caracterizadas 
pela extincçáo das propriedades viiaes no tecido affec- 
tado, que ambas reclamaváo a separação das partes 
que atacáo , servirá isto a dar as mais justas idéas sobre 
a sua natureza? 

No piogresso destas idéas geraes sobre a exaltação 
e a extincção das propriedades vitaes , conviria talvez 
tra r ar de hum modo igualmente geral e abstrato do en- 
fraquecimento, edas aberrações destas mesmas proprie- 
dades. Todas as suas lezóes podem , como o temos 
dito , trazer-se a estes quatro modos geraes : em todas 
as enfermidades, que constituem essencialmente o des- 
arranjamento destas propriedades , são augmentadas , di- 
minuídas , extinctas , ou pervertidas ; há augmento , di- 
minuição , abolição , ou perturbação em seu exercício. 
O estudo das aberrações de que são susceptíveis , con- 
duziria a noções mais exactas sobre este estado , ainda 
assaz mal determinado, que se chama Malignidade, 
porém estas considerações perteneem mais particular- 
mente ao foro Physiologico , e Medico. 



OR. 



ORDEM PRIMEIRA. 



Feridas em geral. 

A-se o nome de ferida a toda a solução de con- 
tinuidade feira nas partes do corpo por huma causa ex- 
terna. Náo se fazem entrar nesta definição os termos de 
divisão recente e sanguinolenta , como o tem feito ou- 
tros autores ; porque huma ferida cuja cura he demo- 
rada, e cujos lábios suppuráo , náo reúne alguma destas 
duas condições. Por isso , os autores que as exigem , 
tem sido obrigados a chamar ulcera toda a ferida com 
suppuraçáo , náo tendo mais que três dias de antiguida- 
de, o que he evidentemente absurdo. O epitheto de 
sanguinolenta náo convém a huma definição geral de 
feridas , pois que as de armas de fogo , náo sáo ordina- 
riamente seguidas da sahida do sangue das partes dividi- 
das; nunca se tem ajuntado a maneira de obrar das 
causas vulnerantes , dizendo-se somente , que obráo 
alongando as partes além de sua extensibilidade natural ; 
não se podendo applicar esta proposição as feridas por 
queimadura , etc. 

GÉNERO PRIMEIRO. 

Feridas simples. 

Solução de continuidade com, ou sem 
perda de substancia, susceptível 
da immediata reunião. 



E 



_ Stas feridas , quasi sempre produzidas por hum 
instrumento cortante, são as mais das vezes sem perda 
de substancia ; em alguns cazos , com tudo , huma quan- 
tidade mais ou menos considerável de partes molle, he 

C ii & 



tf 

levada: não obstante a ferida reune-se, cicatriza-se por' 
primeira intensáo , ou sem suppurar. A cufa do lábio 
leporino , depois do corte de suas bordas , nos fornece a 
prova disto. 

Quando hum instrumento cortante he applicado á 
superricie do corpo , com hum certo gráo de força se- 
ja que corce somente depremindo , ou que obre depre- 
mindo e serrando (i) ao mesmo tempo, o que he o 
mais ordinário penetra a huma profundidade mais ou 
menos considerável, e produz huma divisão, que se ma- 
nifesta pela separação de seus lábios , dependente da elas- 
ticidade e da contractilidade das partes divididas , pela 
sahida de humá certa quantidade de sangue proveniente 
da secção dos pequenos vazos , e por huma dor que 
occasiona a lezáo da pelle e dos nervos. 

A presença do instrumento vulnerante poderia ser 
contada no numero das causas que produzem a separa- 
ção dos lábios da ferida ; porém esta c;:usa he muito 
fraca , se se compara á elasticidade , e sobre tudo á con- 
tractilidade dos órgãos a que se estende a div ; sáo. He im 
possível determinar com exactidão , porque parte a elas- 
ticidade concorre á separação dos lábios de huma feri- 
da ; as partes que tornáo sobre si mesmo , em virtude 
desta propriedade fizica, sendo ao mesmo tempo dota- 
das de contractilidade, seja que esta faculdade vital ahi 
se manifeste por movimentos tónicos e obscuros , ou 
por contracções fortes e inviziveis ; com tudo , não he 

du- 



(1) Todos os instrumentos cortantes são verdadeiras serras. 
O mais afiado corte de huma navalha de barba , examinado 
com o microscópio , apprezenta huma serie de pequenas den- 
raçóes semelhantes ás deste instrumento. Concebe-se então 
facilmente porque he tão difficil o corrar-se , ainda mesma 
com huma hca afiada de novo, quando se carrega bem per- 
pendicularmente sobre a palma da mão. Igualmente se co« 
nhece a razão deste preceito tão importante a observar na 
pratica das operações chirurgicas : fazer sempre obrar mais 
serrando t quc carregando, es instrumentos que dividem. 



V7 
duvidozo que não contribua á separação , pois que se 
vè apartarem-se os lábios de huma ferida feita no ca- 
dáver ; e que além disto ; o estado da tensão ou do rela- 
xamento , em que nossas partes se acháo no momento 
da solução de continuidade, influa sobre a extensão da 
separação. Se a pelle da parte anterior da coxa está ten- 
sa peia flexão da perna , e que , neste estado , hum ins- 
trumento cortante a corte transversalmente , a separa- 
ção he muito mais considerável do que nos cazos em 
que as partes molles estivessem em relaxamento por hu- 
ma posição contraria do membro. 

Quando hum ou muitos músculos se acháo corta- 
dos transversalmente na espessura dos lábios de huma 
ferida , ve-se seus extremos apartarem-se com força , 
arrastando a pelle que os cobre , os vazos e os nervos 
divididos ao mesmo tempo que elles. Esta contractili- 
dade muscular he a causa a mais poderosa da separa- 
ção , e para julgar de rodo o seu valor , deve-se attender 
que seus eífeitos se não limitáo ao apartamento primiti- 
vo dos lábios da ferida ; porém que as carnes palpitan- 
tes se apartáo ainda durante alguns dias , se nada se 
oppôe a est i retracção tanto mais considerável , quanto 
as fibras dos músculos divididos tem mais comprimen- 
to , quanto o excitamento he mais vivo na ferida , e 
quanto o tecido cellular contem menos gordura. Por isso , 
nenhum musculo he suscepcivel de huma retracção maior 
que o sertorio , e o recto anterior da coxa ; jamais , 
depois âx amputação deste membro , os músculos , tor- 
nando consecutivamente sobre si mesmo, não tendem 
mais a abandonar o osso , se não nos casos em que a 
superfície da ferida he excitada por curativos pouco 
methodicos, e quando o enfermo que tinha sido gordo , 
passa repentinamente a huma extrema magreza. He pre- 
cizo destinguir a extensão da separação da força que- 
a opera ; esta he relativa ao numero das fibras dividi- 
das. Cada huma destas fibras obra independentemente 
das outras , e pôde ser considerada como hum poder 
separado. 

■ He 



?8 

He preciso reunir logo os lábios da ferida simples, 
e mantellos reunidos todo o tempo que a natureza em- 
prega na sua agglutinaçáo. Para obter esta feliz termi- 
nação, he indespensavel que os lábios da ferida estejáo 
cm contacto immediato , que nenhum intervallo , nem 
corpo extranho os separe. He porque , se a lama ou a 
poeira os tivesse sujado , se deveriáo lavar com agua 
tépida. He ainda necessário que estes lábios estejáo san- 
guinolentos, pouco infhmmados , e pouco contuzos ; e 
em fim , que ambos estejáo vivos , isto he , que recebáo 
a sangue necessário para participarem da vida que ani- 
ma todos os órgãos. 

Tem-se ha muito tempo , inda que váamente agi- 
tado a questão de saber se huma parte inteiramente se- 
parada do corpo , pôde ahi reunir-se quando he immedia- 
tamente tornada a applicar. Garengeot cita em prova des- 
ta possibilidade, huma observação cuja veracidade tem 
sido singularmente contestada. Hum soldado he mordi- 
do por seu camarada , que lhe arranca a ponta do nariz , 
lança-a na lama de hum regato , e a piza aos pés pa- 
ra a esmagar; o ferido furioso toma a porção de seu 
nariz , lança-a na loja de hum barbeiro , e prosegue seu 
adversário ; torna a vir , o barbeiro lhe põe o nariz que 
tinha lavado e fomentado com vinho tépido , mantem- 
lho no seu lugar por meio dos emplastros agglutinati- 
vos e de huma ligadura; passados dois dias a reunião 
estava operadi , e o mesmo Garengeot , que o curou , 
cjuatro dias depois do accidente , achou a cura perfeita. 

Hunter e outros muitos , depois delle , tem experi- 
mentado que os testículos de hum gallo , postos no 
ventre de huma gallinha , se atacáo a superfície das vís- 
ceras , e contrahem adherencias com alguma de entre 
ellas. Este facto de nenhuma sorte prova a possibilida- 
de de reunir huma parte inteiramente separada do cor- 
po. Os testículos introduzidos na cavidade abdominal , 
sáo verdadeiros corpos extranhos cuja presensa excita o 
peritoneo : deste excitamento mecânico nasce huma in- 
flamação seguida de huma exsudaçáo lymfatica que os 

une 



19 
une fracamente. O órgão seminal ainda que encerrado 
em hum ser vivo , inda que aquecido pelo calor vital , 
náo deixa de morrer privado dos sucos ; diminue , mur- 
cha-se , seu interior se decompõe , e para ao diante se 
torna huma fonte pútrida que pode vir a ser fatal ao 
animal , objecto da experiência. A transplantação de 
hum dente sáo em hum alvéolo vazio , náo he hura 
facto mais concluente ; ahi náo toma verdadeira raiz , 
como o acredita o vulgo , somente ahi se acha mecani* 
camente fétido pela uniáo das gengivas que lhe abração 
o pescoço , e pelo aperto do alvéolo que se amolda so- 
bre o corpo introduzido. A adherencia do ovo humano 
a hum ponto qualquer que seja do peritoneo , no caso 
de concepção extra-utrina abdominal , náo fornece argu- 
mento mais decisivo. Vivificado pelo acto da fecunda- 
daçáo , este ovo fornece seu contingente de vitalidade , 
e quando sua prezença tem deste modo excitado hum 
ponto do peritoneo e produz neste lugar o desenvolvi- 
mento da rede vascular, faz-se igualmente nelle hum 
trabalho próprio á estabelecer a adherencia. 

Tenho tentado de rezolver, peio caminho experi- 
mental , o problema que nos occupa , e continuados en- 
saios me náo tem podido conduzir a esta solução. Cor- 
tei a ponta do nariz a hum cão , e a tornei logo a ap- 
plicar á superfície sanguinolenta; quatros pontos de su- 
tura lha fixarão ; foi impossível ahi ajuntar o soccoro 
das ligaduras e emplastros agglutinativos ; o animal 
bem depressa se desembaraçou deste apparelho incom- 
modo : o sangue correo primeiro em abundância., por- 
que muitos vazos assaz consideráveis, e que se acháo 
na uniáo das cartilagens , foráo cortados. Com tudo a 
hemorragia cessou depois da reuniáo ; a ponta do foci- 
nho inchou , e pelo meio desta tumefacçáo , a porção 
reapplicada se achava estreitamente collada a superfície 
de que tinha sido separada ; o cáo limpava a ferida com 
sua língua. Ao quarto dia , a porção separada na qual 
se náo tinha feito trabalho algum , ofFereceu indicies de 
mortificação; cortaráo^-se as ligaduras , e a ferida com 

per- 



40 

perda de substancia melhorou em alguns dias , continua- 
damente lambida pelo animal que deste modo lhe ope- 
rou a detersáo. 

Todos sabem a experiência na qual se corta o es- 
porão de hum gallo para o transplantar sobre a sua 
cabeça; esta parte córnea bem depressa adhera ao crâ- 
nio , quando se enxerta de alguma maneira , fazendo 
hum pequeno golpe na superfície desta abobeda óssea. 
Se a possibilidade da reunião existe nos casos onde hu- 
mi parte he inteiramente separada do corpo , deve tam- 
bém eíFectuar-se nos órgãos cuja extructura he ma» 
simples, isto he, cuja substancia mais homogénea se 
compóe da reunião de hum menor numero de tecidos 
smples. As partes fibro-cartilaginozas da orelha , do 
lobo do nariz e de suas azas , assemelhão-se aos vege- 
taes pela simplicidade de sua organisação , e pelo pou- 
co desenvolvimenso de su^s propriedades vitaes. A pu- 
trefacção se apodera mais lentamente destes órgãos , que 
menos sucos os regão , em quanto que altera e decom- 
põe os outros , antes que a. natureza tenha podido tra- 
balhar erRcazmente á sua reunião. Assim pois, a obser- 
vação de Garengeot, ainda que se possa razoavelmente 
duvidar de sua authenticidade , o exemplo do esporão 
do gallo que se nutre e cresce sobre a cabeça deste 
volátil , como os enxertos dos vegetaes , com as partes 
cartila^inozas e epidermoicas dos corpos dos animaes 
tem huma grande analogia debaixo da relação da nutri- 
ção , autorizão a tentar a reunião de hum órgão desta 
espécie , quando está totalmente separado. Poder-se-ia 
mesmo reapplicar hum lambo de partes molles , Separa- 
do por hum instrumento cortante; esta tentativa nao 
faria correr risco algum ao enfermo : importa pouco o 
top co com que se cobre a ferda para a sobtrahir ao 
contacto do ar ; poder-se-^a sempre substituir com os 
fio? , qúan Io ao fim de hum ou dois dias , a parte sepa- 
rada , em lu^ar de se reunir , ameaça cahir em putrefac- 
çáo. 

He preciso constantemente reunir, quando hum 

Iam- 



41 

lambo, quasi inteiramente separado , tem com tudo ainda 
hum pedículo em que se acháo vazos - , ainda que este 
pedículo seja delgado , os vazos que contém podem 
fazer participar a vida ao lambo , e pollo nas disposi- 
ções necessárias á reunião. 

Em todos os casos onde se julga a reuniáo imme- 
diata possível , he preciso cuidadosamente abster-se do 
uzo de qualquer unguento nos cnrativos da ferida ; os 
bálsamos líquidos de que os antigos faziáo correr algu- 
mas gottas no intervallo de seus lábios apartados , to- 
dos os vulnerários táo exagerados , o faboloso dicrame , 
com o qual sanaváo as feridas dos heroes curados pelos 
Deozes , ou pelos mortaes privilegiados que conheci áo 
as suas virtudes , não sáo próprios senão a excitar as 
partes , e por consequência , a impedir a reuniáo imme- 
diata , tornando-lhe a snppuraçáo inevitável. Diz-se 
com tudo ainda , em hum sentido figurado , que as con- 
solações prodigalizadas aos desgraçados , sáo como hum 
bálsamo saudável lançado sobre suas feridas ; porém este 
erro náo he o único que a linguagem methaforica tem 
consagrado. 

Para manter os lábios de huma ferida simples e 
recente no contacto immediato necessário á sua promp- 
ta agglutinação , a arte possue quatro meios que sáo a 
situação, a ligadura unitiva, os emplastros aggluti- 
nativos , e a sutura. 

Todas as vezes que a poziçáo de huma parte pô- 
de influir sobre o estado dos lábios de huma ferida , 
«leve-se usar deste meio para lhe favorecer a approxima- 
çao. Ha bem poucos casos , se se-lhe exceptuáo as feri- 
das de cabeça , onde náo seja útil o situar a parte en- 
ferma de maneira a favorecer a reun>áo da ferida. Seja 
que se estenda aos músculos , ou se limite á pelle , o 
membro deve ser na extensão , se a ferida he transversa ; 
será ao contrario em flexão, se he longitudinal. Sup- 
ponhamos huma ferida transversa na parte anterior da 
coxa, a extensão da perna, relaxando os lábios da fe- 
rida, ^concorre a operar-lhc o approximamenro : he a 

fe- 



4* 

ferida seguindo o comprimento do membro , deve-se 
pôr em flexão a perna e em extensão a coxa sobre a 
bacia , de maneira que seus lábios puxados como os la- 
dos de huma ciza de abotoar de quem se puxão os ân- 
gulos em sentido contrario , se toquem , se apertem mu- 
tuamente , e sejão facilmente mantidos nesta relação 
favorável pela acção da ligadura unitiva. Nas feridas 
do tronco , he á direcção das fibras musculares cortadas 
que he preciso principalmente attender : seja - por exem- 
plo , huma ferida longitudinal na parte lateral e ante- 
rior do peito, na qual o musculo grande peitoral se 
acha transversalmente dividido , he preciso approximar 
o braço ao tronco como o faria este musculo em ac- 
ção ; se a ferida fosse , pelo contrario , no sentido de 
suas fibras , seria preciso levar o memhro para aparte 
externa e posterior , etc. 

Entre estas duas principaes direcções das feridas, 
ha huma multidão de direcções intermediarias. Ha hum 
grande numero que não são nem perfeitamente transver- 
sas , nem inteiramente longitudinacs , e exigem que a 
posição dos membros deversifique e se accommode ás 
«uas diverssas obliquidades ; em fim , a situação não he 
em todos os cazos senão hum meio auxiliar : ella só 
não basta á reunião de huma ferida ; deve-se ahi ajun- 
tar a applicação de ham dos três outros meios que nos 
restão a descrever. 

A ligadura unitiva he o que mais frequentemente 
se lhe associa. Esta ligadura, chamada táobem encar- 
nativa , comprime e empurra os lábios da ferida hum pa- 
ra o outro , com tanto que estes sejão móbeis , e te- 
nháo além disso hum ponto de apoio fixo e solido: 
conhece-se facilmente a necessidade destas duas condi- 
ções. ' ( Como poderia huma ligadura levar os lábios de 
huma ferida hum para o outro , se estes fossem immo- 
veis por sua adherencia a hum osso , ou por outra qual- 
quer causa? Esta ligadura não obra se náo comprimin- 
do; nio pôde pois escusar-sc do ponto de apoio. Em 
váo , depois da operação do lábio leporino , se empurra- 

riáo 



4? 
ríão os lábios moveis da ferida hum para o outro , se 
a falta dos dentes incizivos superiores os priva do am- 
paro ; seráo afundados para a parte posterior , e cessa- 
rão de se tocar por sua porção sanguinolenta, a única 
susceptível da agglutinaráo. 

A construcçáo e a applicação da ligadura unitiva 
differem segundo adirecçáo da ferida , a que se quer ap- 
plicar. He transversa ao comprimento de hum membro, 
ou a direcção de hum musculo , á cio recto anterior da 
coxa ; por exemplo ; tomáo-se duas tiras de huma lar- 
gura relativa á extensío da ferida , e de hum compri- 
mento igual ao do membro : huma delias será fendida 
em huma das suas extremidades , e quasi até a ametade 
de seu comprimento, em tantas cabeças como tem de 
polegadas de largura , em quanto que a outra será fen- 
dida no seu meio , em outras tantas cazas longitudi- 
naes ; lança-se huma das duas tiras sobre o membro , 
acima da ferida , e fixa-se sua extremidade superior por 
meio de huma atadura enrolada , cujas circulares podem 
mesmo , para maior solidez , abraçar esta extremidade 
voltada ; desce-se depois sobre a tira por voltas obliquas. 
de atadura , até próximo da ferida ; então confiando o 
rolo da atadura a hum ajudante , applica-se da mesma 
maneira a segunda tira sobre a parte do membro que se 
acha abaixo da ferida. O ajudante sendo encarregado 
dos dois rolos, por meio dos quaes as tiras se achão 
subjugadas , o cirurgião toma estas , faz entrar as cabe- 
ças de huma nas cazas da outra , puxa-as com força 
em direcção opposta , estende-as e deita-as seguindo o 
comprimento do membro , de maneira que a que tem 
primeiro sido fixada na parte superior , desce até a sua 
parte inferior, et vice veria. Em quanto que hum se- 
gundo ajudante as mantém neste estado , toma-se das 
mãos do primeiro hum dos dois rolos , desce-se por 
espiraes até a parte inferior do membro , depois se se- 
gura igualmente a tira inferior subindo com o segun- 
do rolo , ate aparte superior do membro. 

Esta ligadura comprime e empurra os lábios da fe- 
ri- 



44 
rida hum para o outro , que a posição pôz no relaxa- 
mento ; basta para os conter approximados se a divizão 
náo se estende além dos tegumentos ; porem nos casos 
onde penetra até os músculos , os extenso-, es destes pri- 
meiros estimulados , fogem bem depressa ao poder reu- 
.niente da situação e da ligadura. À acção desta náo 
se passa em huma direcção opposta , porem perpendi- 
cular; além disto se relaxa ainda que seja de hum pa- 
no de linho mui tocido , e que tenha sido applicada 
mui exactamente , de sorte que a reunião das fibras mus- 
culares já mais he immediata. 

A ligadura unitiva das feridas longitudinaes se faz 
com huma atadura enrolada a hum só rolo , tendo hu- 
ma extremidade fendida em tantas cabeças , quantos fo- 
rem os dedos transversos que tiver de largura. Alguma 
cousa distante da terminação destas cabeças , que de- 
vem ter des a doze polegadas de comprido , será prati- 
cado hum igual numero de fendas ou cazas. O interval- 
lo que as separa das cabeças , deve ser tanto mais con- 
siderável , quanto maior for a grossura do me rbro ; 
applica-se esta porção da atadura que se acha entre as 
cabeças e as fendas , sobre o lugar diametralmente op- 
posto á ferida ; conduz-se para esta o rolo e as cabe- 
ças, passao-se estas ultimas pelas fendas, approximão- 
se os lábios da ferida puxando se em sentido opposto ; 
póe-se as cabeças sobre o membro , e depois se segu- 
rão por circulares as quaes continuão até que o rolo 
da atadura seja inteiramente desenrolado. 

Como os nossos membros estão longe de offerecer 
huma forma perfeitamente circular , e que os lábios 
da ferida tem menos espessura na parte externa que na 
interna , aconteceria que estes lábios desigualmente com- 
primidos serião reunidos na superfície da ferida, e fica- 
rião separados no seu fundo , senão se ajuntassem á liga- 
dura unitiva compressas graduadas. Estas compressas , 
de hum comprimento igual ao da ferida , e tanto mais 
espessas quanto esta for mais profunda , são feitas de 
k*ai pedaço de pano de linho quadrado e dobrado so- 
bre 



45 
bre si mesmo , de maneira que estas dobras graduadas 
como os degráos de huma escada , diminuáo de largu- 
ra á medida que a compressa se torne mais espessa, c 
se termine em fim em huma de suas bordas a qual se 
chama expesia. Applicáo-se estas compressas de manei- 
ra que a borda espessa coresponda ao fundo da ferida, 
em quanto que a borda delgada se avança p?.ra os lá- 
bios da divisão i deste modo a forma natural do mem- 
bro he mudada , e hum aperto maior he determinado 
sobre os lugares onde o approximamento he mais diffi- 
cil. Existem poucas feridas simples que náo exijão a 
applicaçáo da ligadura que se acaba de descrever , mo- 
dificada de huma infinidade de maneiras , segundo as 
variedades da offensa , e o génio do artista. 

Os emplastros agglutinativos náo sáo de huma uti- 
lidade táo geral , estes meios náo convém senáo nas fe- 
ridas superficiaes , quando a pelle somente se acha in- 
teressada , ou com músculos pouco espessos gozando de 
huma adherencia intima á sua face adipoza (i) : taes 
seriáo as feridas do rosto , onde o occipito-frontal , o 
superciliar, etc. teriáo sido divididos. Estes emplastros 
s-áo feitos com huma substancia pegajoza, extendida 
sobre hum pano de hum tecido apertado. O diachiláo 
gomado, e o diapalma são os agglutinativos mais uza- 
dos ; o encerado inglez que he a seda untada com 
goma de peixe d qual se ajunta algum balsâmico , he 
excellente nas feridas cuja exteníáo he pouco conside- 
rável ; quando he boa qualidade , apprezenta as vanta- 
gens de' se unir fortemente no epiderme , de se arran- 
car facilmente com agua tépida , e de náo sujar os lá- 
bios da ferida. 

Como os emplastros agglutinativos náo obráo se- 
não 



(0 Faz-se 1120 delles nas vistas ainda de prevenir a gran- 
de separação dos lábios de huma ferida com perda de subs- 
tancia ; para conduzir a pelle sobre as carnes depois da am- 
putação de hum membro ; depois da extirpação de hum 
peito canceroso , etc. 



tf 

não em vittude da sua adhercncia ao epiderme, se de- 
vem fazer tanto mais compridos, e dar-lhe huma lar- 
gura tanto mais considerável , quanto a reunião appre- 
zenta maiores difficuldades. Em quanto á forma a mais 
vantajosa , he precizo , em todos os cazos , cortar o 
emplastro em tiras separadas , cujo comprimento e lar- 
gura deve variar segundo a força que he precizo em- 
pregar para reunir. Estas tiras agglutinativas tem sido 
substituídas com vantagem ao emplastro fendido ; como 
elle , tem a vantagem de deixar nos seus intervallos 
hum livre esgoto ao puz que pôde formar-se; de não 
occultar aos olhos do cirurgião o estado da ferida: po- 
rém são-lhe muito preferíveis, porque se podem, ncom- 
modando sua íórma aos poderes da separação , pôr as 
mais compridas nos lugares , onde a divisão tem m is 
profundidade , e renovallas separadamente , quando huma 
delias se relaxa , se despega , ou se altera. Logo que 
se deve applicar huma ou muitas tiras agglutinativas , 
tem-se o cuidado de as cortar a fio direito ; de lavar 
os redores da ferida ; de os raspar , se a parte he coberta 
de cabellos ; de aquecer ligeiramente o emplastro para 
o amollecer , sendo de diachilão gomado , como he o 
mais ordinário ; de o humedecer hum pouco , se se em- 
prega o de tafetá inglez : depois do que se colla a me- 
tade da tira sobre hum dos lados da divisão , defronte 
do lugar onde he mais profunda ; approximão-se com 
os dedos de huma mão os lábios divididos, e conten- 
do-os , de algum modo , neste estado de approximação , 
se applica a outra metade da tira sobre o lado opposto 
da ferida. Quando se prezume a reunião operada , descol- - 
lão-se successivamente as duas metades da tira com di- 
recção para a ferida , depois sustentando-se os seus lá- 
bios com o dedo polex e indicador , se levantáo na di- 
recção da cicatriz ainda branda , prevenindo-se por este 
modo o seu rompimento. 

Estes preceitos sobre a applicação de huma tira , 
se estendem aos cazos que pedem muitas. O emplastro 
agglutinativo com linhas , mais conhecido pelo nome 

de 



47 
de sutura falsa ou «ecca , está hoje cahida em humà 
proscripçáo táo justa como gerai; fazia-se atando fios 
a huma das bordas dos dois pedaços do emplastro que 
se punha seguindo o comprimento da ferida ; porém 
além do inconveniente de obrar sobre todos os pontos? 
com o mesmo gráo de força, e de náo poder ser reno- 
vado senão em totalidade, tinha o de excitar a ferida, 
quando os fios se cravaváo nas bordas entumecidas. 

A sutura , ultimo meio que se emprega para obter 
a reunião das feridas , sò convém em hum pequeno nu- 
mero de circunstancias onde a consideração da dor que 
esta operação sanguinolenta arrasta apôz si, e do ex- 
ctamento que sentem os lábios da ferida pelas agulhas 
e linhas com que se atravessão , cede ao motivo mais 
poderoso de huma reunião exacta que seria impossível 
por qualquer outro methodo. Estes cazos , que são fá- 
ceis de determinar , se reduzem como diremos no seu 
lugar, ás feridas a lambo do couro cabellozo, ás divi- 
sões dos lábios , ás da parede anterior do abdómen , ás 
feridas do tubo intestinal , e aos rompimentos do setto 
recto-vaginal nas mtilheres. 

Observai que hc menos para obter a reunião que 
para prehencher huma indicação particular, que a sutura 
he recomendada em todas estas circunstancias ; assim , 
nas feridas a lambo do couro cabellozo , e em todas as 
desta espécie, qualquer que seja o seu lugar, he para 
manter o lambo applicado á superfície de qus tem sido 
despegado e que abandona , que a sutura se julga con- 
veniente. Nas feridas do rosto , he para suster os lábios 
moveis , conservar-lhes hum perfeito nivel e prevenir a 
difformidade , que se decide a sua applicaçáo ; nas gran- 
des feridas da parede anterior do abdómen , he com o 
fim de obstar á sahida das vísceras abdominaes , como 
na do tubo intestinal o derrame das matérias fecaes. 

Não he que a sutura, limitada a reunir os lábios de 
huma ferida que não interessaria mais que os tegumen- 
tos , possa trazer apoz si consequências terríveis: o seu 
principal inconveniente seria então sua inutilidade; mas 

quan» 



4« 

quando se pratica em huma ferida em que o» músculos 
se acháo divididos , as fibras estimuladas se contrariem , 
e exercem sobre as agulhas e as linhas huma tensão 
dolorosa , o effeito se accrescenta á causa , a distensão 
se torna mais considerável , e as fibras se dilacerão , di- 
vididas pelo corpo extranho que as atravessa e provo- 
ca suas contracções. 

Não se pôde pois considerar a sutura como hum 
meio que convém geralmente na reunião; e não he 
sem admiração o ver principiar "Bell a sua grande obra 
de cirurgia por huma espécie de apologia desta opera- 
ção. 

Quando , em huma ferida a lambo , a mobilidade 
«ios lábios lhe embaraça a exacta reunião , e que se jul- 
ga convenieute fixallos por alguns pontos de sutura , 
eisaqui qual he a maneira de praticar esta operação ; 
chama-se então sutura simples , ou intercortada , e he 
a única de que convém fallar neste artigo. Faz-se uzo 
de huma agulha ou verga de aço , curva , achatada , 
e perfeitamente semicircular, cortante nos lados de sua 
ponta , e penetrada na cabeça de huma abertura quadra- 
da , em forma demalhete(i). Estas agulhas, que atra- 
vessão a pelle causando a menor dilaceração possível , 
devem ser enfiadas de huma fita de muitos fios de linha 
encerada achatadamente ; e seguras de tal sorte , que 
o polex aperte sobre sua concavidade, em quanto que 
o indicador e o mediano são applicados sobre sua con- 
vexidade. Serão dirigidas de maneira que descreváo nas 
partes huma curva cuja tangente seria huma linha recta 
que se julgasse passar pelo fundo da ferida. O numero 
dos pontos da sutura , sempre proporcionado á exten- 
são dà divisão , não deverá ser muito multiplicado. Se- 
ja que se penetre a pelle do externo para o interno 

ou 



(i) Vede Nosogr. de Riclier. T. III. As vantagens des- 
ta sorte de agulhas comparadas GOm as antigas na historia 
das enfermidades das artérias , no tratamento das quaes são 
«xpecialmente utei». 



4P 
ou do interno para o externo , se deverá penetrar primei- 
ro perpendicularmente a agulha a algumas linhas de dis- 
tancia da parte sanguinolenta dos lábios , que , sem esta 
precaução , serião bem depressa cortados pelos fios 
com que se atravessa. Tendo o instrumento vulneranre 
cortado assuslaiadamente , dever-se-ha penetrar mais 
affastado da parte sanguinolenta o lambo mais delgado ; 
e depois de se haver feito hum numero sufficiente de 
pontos separados, hum ajudante approxima os lábios 
da ferida , em quanto o cirurgião áta successivamenta 
as linhas , tendo o cuidado de as não apertar mu to , 
receando que , pelo ligeiro entumecimento que deve suc- 
ceder , senão torne doloroza a sua prezença , basta por 
os lábios da ferida em hum contacto imm;d'a:o , sem 
muito os comprimir hum contra o outro. Quando se 
tem tirado da sutura toda a vantagem que se poderia 
e>per ir delia , isto he , quando no fim de três ou qua- 
tro d as se tem obt'do a reunião da ferida para a qual 
S" prateou , convém tirar as Imhas que , dei adas por 
mais termpo , entretém o excitamento e a suppuraçao 
no seu caminho (i). Para isto, cortar-se-hão , passando 

D por 



(j) O autor quazi quer excluir a applicação da sutura, 
e mesmo , nos casos em que a julga indispenssavel , reco- 
menda que ao fim de três ou quatro dias, obtida a reunião, 
se devem tirar as linhas , para que estas não determinem , pe- 
la sua prezensa , o excitamento e a suppuraçao das partes 
que tocáo. Algumas razões me fazem persuadir do contra- 
rio. 

Vejo que as nossas partes tem a propriedade de se acos- 
tumar á prezença dos corpos extranhos , tornando-se-lhe iua- 
zi insensíveis peio habito, como se observa na introducção 
dos pessarios na vagina, das algalias na uretra , das cânulas 
nas vias lacrimaes , das ligaduras nos pólipos nas foças na- 
zaes , etc. 

Vi que tendo-se cravado alfine f es nas feridas que rezul- 
tarão da extirpação de três scirros ulcerados nos labies , hu- 
ma na comissura esquerda da boca , e duas no lábio inferior , 
para lhe auxiliar a reunião op Hospital de todoí os Samso 



50 
por baixo delias as pontas de huma tizoura conduzias 
a favor de huma tenta cânula , depois deitando-as cobre 
a pelle , se puxão para sahirem da curva que descreviáo 
nas carnes: evitar-se-ha por esta precaução o rompi- 
mento possível de huma cicatriz ainda tenra , £ pouco 
firme. 

A cicatrização dehuma ferida simples , ou a reu- 
nião de seus lábios , deve ser cuidadozamente dest : ngui- 
da da sua approximação ; esta he a obra da arte , aquel- 
la he divida ao trabalho da natureza. 

Huma ligeira phogoze se apodera das superfícies 
sanguinolentas ; contrahem huma adherencia semelhante 
á que une a túnica vaginal ao testículo, em conse- 
quência da operação do hydrccele por injecção. Para 
que se opere esta reunião , he indispensável que a in- 
fiammação seja contida em certos limites , e reduzida á 
huma espécie 'de erizipsla superficial das superfícies divi- 
didas : mais forte , a terminação suppuratoria seria a 

sua 



cie Lisboa, que estes se conservarão cravados por mais de oito 
dias , sem que se desenvolvesse infiammação considerável ou 
abundante suppuração. 

Tendo eu empregado o methodo dos alfinetes para reu- 
nir as feridas que rezultárão da operação feita a hum meni- 
no de doze annos em Lisboa, do lábio leporino , lhos con- 
servei por oito dias, sem que a infiammação excedesse ao gráo 
da adheiiva. 

Ultimamente n' huma semelhante operaçã hum igual 
methodo empreguei para obter a reunião das feridas, no Hos- 
pital Real dos Exércitos e Armadas desta Corte no dia 17 
de Outubro de 1809 a Macário José Maria , official de car- 
pinteiro ; os alfinetes estiveráo cravados nas carnes por nove 
dias sem se lhe desenvolver simptoma algum de infiammação 
ou suppuração excessiva , e quando lhe tirei os alfinetes , a 
cicatriz estava completamente formada. 

Estas razões e estes factos me induzem a não temer 
o fazer uzo da sutura naquelles casos que julgar necessária, 
e mesmo de a conservar por algum tempo , huma vez que- 
as circunstancias exijão. 

Not. do Traduct. 



5« 

sua consequência , e a reunião immediata se tornaria im- 
possível i aconteceria entáo o que te cem observado 'depcis 
de algumas injecções para a cura radical do hydrocelie ; a 
inflammaçáo do testículo e da túnica vaginal , levada ao ex- 
cesso , he terminada peia exudaçáo de hum liquido puri- 
f orme , que lhe faz retardar consideravelmente a reunião 
de suas superfícies. O mecanismo da cicatrização se tem 
até o prezente oceultado ás indagações dos mais zelozos 
investigadores. Hum véo celiulozo se organiza entre as 
superfícies divididas , os vazos se anastomozão dos dois 
lados , esta inosculação não parecerá impossível , se se 
considera que o numero dos capillares sendo prodigiozo , 
e todos, estes pequenos vazos tendo quazi o mesmo ca- 
libre , importa pouco que conservem nas suas reuniões 
as correspondências que tinháo antes da solução de con- 
tinuidade , e que os de hum lado encontrem preciza- 
mente os capillares de que foráo separados pela feri- 
da. 

Seja como for, a organização da cicatriz he incon- 
testável , c deve fazer regéicar a hypotese que attribuião 
ao derrame de hum suco pegajozo entre os lábios da 
ferida ; a passagem fácil da injecção atravez de seus 
vazos , as dores de que he frequentemente assaltada , na 
occasião de certas mudanças na atmosfera , são provas 
menos seguras do que a experiência seguinte : separai 
na cabeça de hum cão entre as duas orbitas , hum lam- 
bo de carne triangular ; disseccai este triangulo até a 
sua baze, depois reapplicai-o immediatamente ao osso, 
e quando ahi esteja unido , separai hum outro lambo 
triangular em opposição daquelle , de modo que as suas 
bazes estejão unidas , reprezentando juntos hum lozanpe 
perfeito ; reapplicai-o immediatamente á parte donde foi 
separado pela dissecção , ahi se reunirá immediatamente 
como o precedente. Ora , ; porque lugar este segundo 
lambo poderia receber os sucos necessários á vida , se 
as cicatrizes não estivessem organizadas, vascularizacias, 
e permeáveis aos fluidos reparadores ? 

As feridas susceptíveis da reunião immediata, são 
D ii em. 



5* 
em maior numero do que não pensa o vulgar dos prá- 
ticos , e náo se deve duvidar da. necessidade de tentar es- 
ta reunião , ainda mesmo nos casos onde a divisão , 
por sua extensão e peia variedade das partes que inte- 
ressa, parece menos susceptível delia. Os cuurgióss 
Ingiezes , dos nossos dias , tratáo a reunião immed ata , 
em consequência de todas as amputações j e a obtém 
em muitas qpsasióes. O Professor Dubois pôz em Fran- 
ça esta pratica em voga •-, eu mesmo a uzo , em, al- 
guns oizos:, com bom suecesso (i). Porém huma pre- 
caução essencial , e cuja importância- tem sido demons- 
trada por huma multidão de factos, consiste, depois de 
haver enxugado cuidadozamente as superfícies sanguino- 
lentas , e laqueado até os mais pequenos vazos , em 
approximar as .partes semelhantes , isto he , á reunir 
pelle com pelle , o tecido gordurozo de hum lado ao 
do lado opposto , os músculos aos músculos , os vazos 
aos vazos. Existe entre os ergãos da mesma natureza , 
huma analogia que facilita a reunião , como se este 
phenomeno submetrido á força que se conhece debaixo 
do nome de affinidade d'aggregaçáo , não tivesse lugar 
senão entre partes ou moléculas semelhantes. Porém te- 
remos occasiáo de desenvolver em outra parte este pon- 
to 



(0 Isnoro quaes sejáo es cazos , em que o author não 
empregue a reunião immediata das feridas que retultão das 
mutilações. Pois havendo tentado esta reunião r.as feridas 
rezultadas de sete mutilações , que tenho praticado no Hos- 
pital Real dos Exércitos e Armadas; cinco de cô\a, huma de 
braço , e outra de perna por baixo da articulação femoro-tibia ; 
tirei em todas , por este methodo , boas consequências; não 
obstante terem morrido dois, no que nada influio ter-se ou não 
reunido as partes , por quanto em hum se lhe desenvolveo 
o tetenismo no decimo septivno dia , tornandõ-se infruetuo- 
jras todas as aplicações : o outro foi em consequência da 
adiantada idade, e abatimento em que se achava, desenvol- 
vendo-se huma abundante suppuração , que ao decimo ter- 
ceiro dia o fez succuiubir, 

Not. do Traduc. 



5S 
to de doutrina que aqui não fizemos mais que indicallo. 
Os cuidados gèraes que reclama huma fétida sim- 
ples , se limitáo ao descanso e ás bebidas diluentes , du- 
rante o curto espaço que a natureza emprega a operar- 
lhe a reunião. Estes cuidados dictados peia prudência } 
sáo raramente de huma indispensável necessidade , e po- 
der-se-hiáo desprezar sem temor , se se tratasse de hum 
ligeiro golpe em huma parte sobre o estado da qual os 
movimentos não teriáo alguma influencia. Se o enfer- 
mo fosse forte, pletórico, c que a ferida tivesse huma 
certa extensão, huma sangria moderaria a actividade da 
inflamação, e a conservaria nos limites necessários á reu- 
nião immediata. As bebidas espirituosas e tónicas conve- 
riáo para dar nos sólidos hum certo grão de energia, se 
o enfermo fosse de huma constituição cachetica e débil. 

GÉNERO SEGUNDO. 

Feridas que suppuráo. 

Ara lhes-expor fielmente todos os phenomenos , 
observemos a marcha da natureza em "huma ferida com 
perda de substancia ; tal , por exemplo , a que rezultaria 
da extirpação de hum peito canceroso. Logo que se aca- 
ba de fazer , a ferida he sanguinolenta , e o sangue que 
goteja de todos os lados , corre mais abundante, dos mús- 
culos que dos outros tecidos. Com tudo , o contacto 
do ar , o excitamento que arrasta a ferida , produzem a 
constricção das pequenas artérias capillares, seus orifí- 
cios abertos se obliteráo , e a sabida do sangue se sus- 
pende. Se as artérias de hum certo calibre tem sido cor- 
tadas , e que se não tem laqueado , a cessação da he- 
morragia não he senão instantânea: sendo a_enferma 
posta na sua cama , o espasmo occasionado pela opera- 
ção se dissipa , as forças circulatórias se reanimão , o 
sangue corre de novo, e obriga a levantar o apparelho. 
Se tem havido a precaução de laquear todas as artérias 
hum pouco consideráveis , no momento mesmo de sua 

- sec- 



54 
secção , póde-se ver sem inquietação imbeber-se o ap- 
pozito de sangue : muitas vezes , e sobre tudo se a en- 
ferma he hum tanto moça e robusta ; se tem perdido 
pouco sangue durante a operação , ao momento em que 
o pulso concentrado pela dor, se desenvolve e se altera, 
faz-se em toda a superfície da ferida huma transudaçáo 
sanguínea , que pára por si mesma pela concreção da 
parte fibrinosa do fluido de que o apparelho está em- 
bebido. Tenho tido muitas occasiôes de observar este 
phenomeno nas pessoas moças e nos adultos a quem 
tinha praticado a amputação de hum membro. A tran- 
sudação sanguínea cessa ; he substituída por huma soro- 
sidade sanguinolenta de que todas as pessas do appa- 
relho se imbebem durante os dois ou três primeiros 
dias. 

Com tudo a dor subsistindo na parte ferida , ahi 
chama os humores , a tumefacção sobrevem , o calor e 
a vermelhidão augmentáo } todos os simptomas da im- 
ílammaçáo se manifestão, e a febre traumática ou vul- 
neraria j companheira inseparável de todas as feridas que 
tem huma certa extensão , e se curão por suppuração , 
se apodera do enfermo. Esta febre he essencialmente 
inflammatoria. A energia augmentada do systerna arte- 
rial forma o, seu principal caracter. Pode , segundo as 
disposições do individuo , e a natureza da constituição 
reinante , complicar-se de simptomas gástricos , ady- 
nammicos ou outros , complicações sempre perigozas 
e algumas vezes funestas. 

Do terceiro ao quinto dia , a suppuração se estabe- 
lece nos diversos lugares da ferida > num fluido esbran- 
quiçado , opaco , inodoro , conhecido debaixo do nome 
de puz , corre delia. Primeiro sanioso e misturado' com 
o sangue que conspurca a superfície da ferida , limpa-a 
e separa delia o apposito que ahi estava adherente. A 
quantidade da suppuração augmenta ; as partes entume- 
cidas se desengorgitáo e se abatem ; a superneie da fe- 
rida se cobre de granulações avermelhadas , a que se 
tem dado o nome de borbulhas camozas. Os lábios se 

aba- 



55 
abatem , a pelle se adianta da circumferencia para o 
centro da (crida ; a largura desta diminue rapidamente 
nos primeiros dias, depois do que caminha mais lenta- 
mente para a cura. Quando em fim a pelle tem pres- 
tado tudo quanio pôde , a parte da ferida sobre a qual 
senáo pode extender se desecca e se cobre de huma pe- 
lícula avermelhada que se avança dos lábios para o 
centro , e não começa a apparecer senáo no momento 
em que a pelle se escuza á hum novo alongamento. 
O curso inteiro de huma ferida que suppura tem sido 
dividido em quatro períodos ou stadios destinctos ; pri- 
meiro o de excitamento ou inflammação , segundo o de 
sup.puraçáo ou deterzão , terceiro o de regeneração ou 
encarnação , quarto ultimamente o de deseccação cu 
cicatrização. Estes quatro períodos a que correspondiáo 
quatro espécies de remédios , existem , á excepção do 
da encarnação. Observações modernas tem provado que 
muito tempo dominarão falsas âpparencias sobre o mo- 
do de como a natureza procede á cura das feridas com 
perda de substancia , e que , em todos os casos , não 
se faz regeneração alguma nas carnes. A descuberta 
desta verdade , que tem simplificado muito a Therapeu- 
tica das feridas , he devida a Fabre , membro distincto 
na antiga Academia de Cirurgia. Como sua doutrina 
destruia huma opinião anrga , e geralmente adoptada , en- 
controu violentos contraditores. Por espaço de cinco an- 
nos j disenssões , na apparencia intermináveis , se susci- 
tarão no seio da Academia ; poucas sessões tinháo lugar , 
em que senáo propuzessem algumas objecções mais ou 
menos especiosas , ás quaes cirurgião , pouco hábil a 
manejar a palavra , não faltava a responder victoriaosa- 
menre , e por escripto , na sessão seguinte (1). 

No corpo do homem e dos animaes de sangue ver- 
melho e quente, nada se regenera á excepção do epi- 

der- 

(i) Eu devo estas particularidades á amisade e ás conver- 
sações instructivas do respeitável Mer. Lassus , Professor, 
c membro da antiga Academia. 



tf 

derme e partes epidermoicas , como são os cabellos , 
as pennas , as escamas , e os cornos. Esta faculdade re- 
productora , precioso attributo do reino vegetal e dos 
an mães de sangue branco , existente ainda , posto que 
em mais fraco gráo em certos animais de sangue ver- 
melho e frio , como o carangueijo , etc. , he absoluta- 
mente negado ao homem , ass m como aos animaes pró- 
ximos a elle na organisação. Analisando as observações 
onde se falia da regeneração das glândulas , escroto , 
lingua e outras partes que haviáo sido destruídas pela 
gangrena , tem-se feito ver por judiciosos criticos que o 
maravilhozo de semelhantes factos era devido á igno- 
rância dos observadores. Nad.i he mais fácil do que 
engana r-se sobre as partes de que se tem feito a expul- 
sação. Quando , em certos engorgitamentos do membro 
viril , o prepúcio he totalmente inchado , que a glande 
tem desaparecido inteiramente , pòde-se julgar esta des- 
truída , e mesmo cortarem-se grandes porções do prepú- 
cio , sem tocar na glande que existe de alguma sorte 
sepultada no tumor ; he por razões semelhantes , que 
profundas scarificaçóes feitas no tecido da lingua incha- 
da , se reduzem a simples arranhaduras , quando o orgáo 
toma ao seu volume natural. 

Se a ferida , com perda de substancia , se enchesse 
de novas carnes , se o fundo se elevasse á altura dos lá- 
bios , a cicatriz deveria ser tão larga como a ferida. 
Ora , he o que a observação desmente e contradiz evi. 
dentemente, pois que cada dia offerece estreitas cicatri- 
zes, em consequência de feridas que tinháo muita ex- 
tensão. Na hypoteze da regeneração das carnes , a cica- 
triz deveria ser sempre ao nivel da pelle , em quanto 
que vemos constantemente que he mais profunda. Isto 
se deixa ver mais claramente nas cicatrizes adherentes 
aos ossos. Vi em hum militar de hum temperamento 
athletico , em consequência de huma ferida transversa 
na parte superior e externa do braço , em que o deltói- 
des tinha sido cortado em toda a sua espessura , a cica- 
triz adherentc ao humerus , offereeer huma cavidade 

qua~ 



57 
quazi de duas polegadas. Huma ferida prompta a cica* 
uizar-se , de repente se toma a abrir , e parece o pro- 
fundar-se pela elevação de seus lábios , < que fim levou 
neste caso a substancia regenerada ? 

Os que tem acreditado a regeneração das carnes , 
assemelhão-se , diz Mer. Louis , á aquellas pessoas que , 
sentadas em hum barco , julgáo , lançando os olhos 
sobre a praia , que esta lhe foge : he hum erro de seus 
sentidos ; e assim como sendo o barco quem se affas- 
ta , ficando immovel a praia , do mesmo modo , são 
os lábios da fenda que se abatem , e não o fundo que 
se eleva para vir por-se ao nivel dos lábios. He com 
eíFeito no abatimento destas que suppuráo , na extensão 
da pelie que se encaminha para o centro da ferida , qne 
consiste todo o mecanismo da cura desta ultima : náo 
ss adiantáo para esta terminação com hum passo tão 
rapdo como nos prmeiros tempos da moléstia , porque 
a suppuração que suecede ao inchaço inííammatorio , 
d- a s; j ngorgita os lábios da ferida. He táobem por esta 
razão que as feridas das partes onde a pelle he muito 
extensível , se curáo com mais facilidade , e sío segui- 
das de cicatrizes que tem menos largura: em nenhum 
lugar tem menos extensão que no cranco , porque suas 
dimensões são invariavelmente determinadas por peças 
ósseas. Isto explica igualmente porque gasta muito tem- 
po a cura das feridas comhustas, nas quaes he destruí- 
da huma quantidade considerável de pelle. Disto se ti- 
ra esta regra importante «á observar nas operações ci- 
rúrgicas ; conservar o possível de pelle > a fim de cobrir 
inteiramente com ella , se se pode , as superjicies sangui- 
nolentas. 

Os botões carnozos com que se cobre a superfície 
de huma ferida que suppura , não devem ser olhados 
como huma producção nova. He hum simples desen- 
volvimento da rede vascular cellulosa. Esta carne ver- 
melha e granulosa he o produeto de huma vegetação 
particular da rede capillar ; protege contra o conucro do 
ar e dos outros corpos extranhos excitantes , os órgãos 

des- 



58 

descubertos por effeito da ferida. Extendida debaixo da 
forma de huma membrana na sua superfície , he o ver- 
dadeiro orgáo secretorio do puz que deila corre. Sua 
natureza he ccllulozu , sua infíammaçáo oilèrece os 
mesmos productos que a do tecido adipozo , o único 
susceptivei de fornecer hum verdadeiro puz. Cada hum 
dos botões carnosos , tem-se dito , pôde ser considera- 
do como hum pequeno fleimão que passa por todos os 
períodos da infíammaçáo , e fornece num liquido cujas 
qualidades são análogas ao gráo desta affecçáo. Ke nes- 
te sentido, que, seguindo Quesnay (i), do bom esta- 
do das carnes dependem as qualidades louváveis do puz. 
Se existe huma inrlammaçáo moderada , o puz he bran- 
co , opaco , inodoro : se a inrlammaçáo he augmenta- 
da , a superfície da ferida se desecca , a vermilhidão dos 
botões augmenta , e seu contacto se toma mais dolo- 
roso ■-, se pelo contrario a inflammação he languida , as 
carnes perdem a sua cor vermelha e se fazem bavozas , 
molles e flácidas ; entáo o puz he soroso , sem con- 
sistência , engrandece-se a ferida , e não dá passo algum 
para a sua cicatrização. 

Esta operação , pela qual a natureza cobre de 
hum tegumento novo a porção da ferida sobre quem 
a pelle se náo tem podido extender , começa pela cir- 
Qumferencia , e a caba no centro ; da mesma maneira 
que . em hum ajuntamento de aguas estagnadas , a eva- 
poração commeç. 1 . a cesseccar a margem. Com tudo , 
ouando a ferida ofterece huma larga superfície , a cica- 
triz se mostra , em diversos pontos de sua extensão , 
ao mesmo tempo que se forma nas suas bordas. 

Os botões carnosos adherentes huns aos outros, se 
evacuáo pela suppuraçáo dos sucos de que são cheios , 
apertáo-se sobre si mesmo , e formão , por esta reduc- 
ção , assim como por sua mutua adherencia , huma mem- 
brana ceilulosa , como o mostra a sua decomposição 
pela agua , quando se submette á maceração. Bichat 

vio 



(i) Traité de la Suppuration in— 12. 



59 

vio muito bem e explicou este pbenomeno. Esta mem- 
brana cellulosa , que se chama cicatriz , adhera á pelle 
cuja natureza he a mesma. Comtudò , não he o assen- 
to de alguma exhalaçáo; pelo menos, não he tão pres- 
piravel como o resto do órgão cutâneo : a distincção 
das partes náo re ahi estabelecida de hum modo táo 
sensível ; ahi senáo encontra , como na pelle , borletes 
nervozos , empalhados em papillas , e cubertos por hu- 
ma rede mucoza. O seu epiderme he mais Jizo e mais 
denso do que o que cobre o restante do corpo. O te- 
cido destas cicatrizes goza táobem de huma menor ex- 
tensibilidade que o da pelle ; isto explica sua rotura fá- 
cil , principalmente quando sua extensão he considerá- 
vel , e a precizáo que então tem de serem sustidas por 
meios compressivos. Desta menor extens : bilidade depen- 
dem ainda estas incommodas prizóes , eíFeitos de quei- 
maduras , quando as partes se tem cicatrizado em huma 
posição viciosa , que são depois obrigadas a conservar. 
A cicatriz 3 rubra primeiro , se torna por gráos esbran- 
quiçada , sua força e sua espessura augmenta; já mais 
o seu aspecto se torna perfeitamente semelhante ao da 
pelle. 

A cicatriz tem precizáo , para se formar , que a 
pelle que forma os lábios da ferida esteja perfeitamente 
sá , e bem unida ás partes subjacentes : deve-se conti- 
nuar com a pelle; e por isso já mais se vè partir de 
huma porção de tegumento alterada pela enfermidade , 
ou despegada e separada das partes que deve cobrir. 
Em fim , sendo a cicatriz huma membrana puramente 
cellulosa , e resultante da vegetação e desenvolvimento 
deste tecido , segue-se que se forma com mais facili- 
dade nos lugares onde este existe em maior abundân- 
cia. Sobre estas considerações , he fundado o preceito 
de conservar a maior quantidade de tecido cellular pos- 
sível nas operações cirr.rgicas , principalmente nas dissec- 
ções dos tumores , e nas separações dos lambas com os 
qttaes se propõe o cobrit-se as feridas qne resulúo das 
operações. 



Descrever o tratamento que convém ás feridas com 
perda de substancia , he traçar as regras que se devem 
seguir no tratamento das que sáo a consequência do 
maior numero dai operações cirúrgicas ; e como o suc- 
cesso destas ultimas depende mais do que se náo pen- 
sa , dos cuidados que se prestáo ao seu tratamento , 
entraremos em todos os detalhes que exige a Therapeu- 
tica das feridas que suppuráo. Huma ferida que suppura 
tende por si mesma á cicatrizar-sé"; náo se trata pois 
senão de obcejar os obstáculos que poderiáo retardar a 
cura , ou mesmo tornalla impossível. Favorece-se o tra- 
balho da natureza, pondo primeiro a ferida ao abrigo 
do contacto do ar , o qual excita mui vivamente as par- 
tes despidas do epiderme. He verdade que as feridas que 
sobrevem fortuitamenre aos animaes , existem expostas ao 
sen contacto, e náo obstante se curâo sem outro trata- 
mento mais do que o que o animal lhe presta , lam- 
bendo-as muitas vezes ; porém , os órgãos do homem , 
sendo dotados de huma maior excitabilidade , o ar os 
excita mais vivamente , e caJa dia a experiência nos pro- 
va , que as feridas descubertas , se dessecáo , se exci- 
táo , se tornáo extremamente dolorosas , e que a violên- 
cia da inílammaçáo se oppõe ao estabelecimento de hu- 
ma boa suppuraçáo. 

Cobrir-se-ha pois a ferida com pranchetas de fios : 
esta substancia molle , e espongiosa , se embebe facil- 
mente dos sucos que delia correm , ao mesmo tempo 
que a p5e a abrigo da impressão excitante da atmosfe- 
ra. Os fios feitos de hum pano de linho velho , são pre- 
ferível náo só ao algodão , corno táobem á láa cardada. 
As fibrias desta ultima substancia , menos brandas , que 
as do linho, determinão huma mai -r inflammaçáo. Es- 
tes fios seráo arranjados em pranchetas , de tamanho e 
figura análogas ás dimenções da parte a que se appli- 
ca ; por-se-háo brandamente , cobertas de muitas com- 
pressas ; e todo o apparelho será mantido por algumas 
voltas de atadura mediocremente apertadas , a fim de 
que a fenda vindo á inchar-se pela inflammaçáo que 

dei- 



6i 

delia se apodera , dores intoleraves não sejão o resulta* 
do da viva pressão que exerceria a ligadura. 

Não se deve tocar no primeiro apparelho senão ao 
terceiro dia , e mesmo ao quarto , se a estação he fria , 
e a depravação dos fluidos menos prompta. Se se quer 
curar ao rim de trinta e seis, ou quarenta e oito heras, 
o apposito não humedecido se despega com cusro • ne- 
cessita-se o dar-se puxões dolorosos , o excitamento se 
lhe augmenta , e a suppuraçáo he retardada. Stra pre- 
ciso imbeber o apparelho de agua tépida huma ou duas 
horas , e nao hum ou dois dias antes do curativo ; por- 
que esta humidade accelera a depuração do puz cujo 
fétido incommoda sin ularmente os enfermos As com- 
pressas e a atadura sendo tiradas, e aparte brandamen- 
te sustida por «tentos ajudantes , levantáo-se docemente 
os fios mais superíiciaes , conão-se com a tizoura a< ucl- 
les cuja acfherencia he exgrema , e abandona-se o resto , 
tendo o cuidado de os cobrir com huma larga pranche- 
ta untada de hum digestivo , tal como o ceroto , o ba- 
zilicáo ou outro análogo. Estes corpos gordurosos d.rni- 
ntuem a dor relaxando as partes , e retendo o puz que . ' 
corre da superfície ulcerada , facilitáo o despego dis 
fios , que sua intima adherencia tinha embaraçado levan- 
tar com o primeiro apposito. 

Os curativos serão repetidos todas as vinte quatro 
horas. Se a camará do enfermo he fria , será bom ter 
hum brazido ao lado do apparelho , e de o não appli- 
car , seja ás pranchetas , seja ás compressas , senão de- 
pois de as haver ligeiramente aquecido. Toda a arte 
dos curativos consiste em não os multiplicar sem necessi- 
dade , em não imprimir á parte algum choque , em não 
exercer algum puxão doloroso , em ajuntar em fim a abi- 
lidade á celeridade ; porque , prolongando a impressão 
do ar sobre as partes que suppurão , se lhe augmenta o 
excitamento. Logo que a sahida do puz he bem esta- 
belecida, que a ferida está, em plena suppuraçáo, co- 
mo se diz , çobre-se a superfície cem pranchetas de fios 
seccos j e se applicao tiras de ceroto sobre suas bordas. 

Es- 



6i 

Esta ukima preeauçáo he sobre tudo indispensável no 
tempo em que estas bordas começão a dessecar-sc , e 
a cicatriz forrhando-se ahi , he preciso evitar-lhe o des- 
pedaçamento. 

A Academia de cirurgia exclamou com bom suc- 
cesso contra o abuzo dos unguentos nas feridas que 
suppuráo , e se deve datar a saudável reforma que se 
tem operado neste objecto de Therapeutica , da época 
errj que Fabre mostrou o absurdo das theorias recebidas 
scbre a reproducção das carnes. A applicação dos un- 
guentos extingue a inflammaçáo , relaxa os botões car- 
nozos , diminue sua consistência , e es faz inchar , de 
sorte que se preciza , para reprimir esta vegeraçáo vicio- 
sa , tocaíios continuadamente com os cathereticos , taes 
como o ahume calcinado, ou a pedra infernal ( sulfata 
cie ahume , ou niterato de prata fundida ) ; não se un- 
ta de hum digestivo as pranchetas , senão nos casos 
onde a inflammaçáo he muito viva ; então mesmo se 
lhe prerere huma Cataplasma einoiliente , applicada por 
cima dos fios ou mesmo immediatamente sobre a ferida. 

O principal fim que se deve propor no tratamento 
de huma ferida que suppura , he manter o excitamento 
n'hum grrío moderado ; muito brando ou muito vivo , 
em pede igualmente a cura. Se os botões carnozos que 
cobrem a superfície da ferida , são mui pouco inflam- 
mados , seu volume augmenta ao- mesmo tempo que 
sua consistência diminue ; hum puz soroso corre des- 
tas vegetações molles e descoradas , e bem longe de se 
desengorgitar , a ferida sente huma sorte de infiltração ; 
he o excitamento pelo contrario muito vivo, os botões 
carnosos duros , rubros , sanguinolentos e dolorosos , a 
secreção purulenta he empedida , e a ferida não faz. 
algum progresso para a sua cicatrização. Conhcçe-se 
facilmente que a condueta do pratico deve ser difFeren- 
te nestes dois estados 

He mais vezes necessário reanimar a acção langui- 
da dos sólidos , do que conduzilia nos seus justos limi- 
tes , e esta diminuição progressiva da acção orgânica 

he 



he huma consequência natural das leys vitaes. O habi- 
to dos excitantes torna a ferida pouco excitavel. Os 
fios seccos , que , nos primeiros tempos da moléstia , pro- 
duz hum excitamento sufficiente , se torna por gráos 
inhabil a entretello. Poder-se-hia então substituir com van- 
tagem aos íios ordinários pranchetas feitas com algo- 
dão Cardado e a láa lavada. Tenho , em muitas cir- 
cunstancias, empregado com bom successo estas subs- 
tancias , para operar a deterzão de antigas ulceras nas 
quaes as carnes pcccavão por falta de tom. As obser- 
vações microscópicas fazem ver que os corpos lanozos 
e felpudos tem levantadas hum numero infinito de pe- 
quenas pontas que tornáo seu tcque mais áspero do que 
o dos fios feitos de pano de linho. Estas pontas se in- 
troduzem no intervallo dos botões carnozos , e como 
tantas pequenas agulhas , exercem sobre elles hum ex- 
citamento mecânico mui considerável. Na pratica vul- 
gar , se servem com não menos utilidade , dos fios 
ordinários molhados no vinho melado, ou em hum co- 
zimento das plantas deterzivas , taes como a flor do 
sabugueiro-, o meliloio, o funcho ; porém neste géne- 
ro de excitantes , nenhum me tem parecido mais erH- 
caz que as folhas de nogueira. He conveniente reani- 
mar a acção languida do systema vascular por meios 
geraes tirados da ciasse dos „ fortificantes , ao mesmo 
iempo que se desperta a excitabilidade da ferida por 
remédios tópicos. Porém , na applicaçáo de huns e de 
outros , não percais já mais de v ; sta que o excitamen- 
to deve ser graduado , e que he preciso cada dia ac- 
crescentar a doze dos medicamentos que o sustem ; o 
habito diminue todos os dias suas virtudes. 

A sangria , huma dieta restricta , os emoliientes so-> 
bre a ferida , taes são os meios de lhe moderar a in- 
flammaçáo , quando he excessiva. 

Algumas vezes o excitamento sendo moderado , 
os botões carnozos vegetáo com muita actividade , e 
se eleváo acima das bordas da ferida de quem embara- 
ça© a cicatrização. He quasi sempre para o fim do tra- 
ta- 



64 

tamento que este estado se observa. He preciso então 
diminuir a quantidade dos alimentos , e repremir as car- 
nes, tocando as todos os dias com ligeiros cathereticcs. 
A rerida que suppura deve ser considerada como 
hum novo órgão secrctorio , cuja acção he libada á dos 
outros órgãos da economia. Ora , o principio do sent - 
mento e do movimento , geralmente espalhado nas di- 
versas partes do corpo humano , náo pôde concentrar- 
se sobre huma , sem que as outras sejão privadas deiie , 
e não soffiao , em consequência desta pivaçáo, hum 
enfraquecimento proporcionado, ao crescimento da força - 
e da acção que apprezenta o orgáo para o qual os mo- 
vimentos se dirigem. ííe por isto , que a actividade do 
estômago incommoda a do cérebro , e que a saúde de- 
pende de hum justo equilíbrio na energia, dos principaes 
órgãos da vida. A ferida suppurante precisa estar em 
huma constance harmonia , com o resto do corpo. Hu- 
ma forte appiicaçáo de espirito , pela qual os humores ' 
fossem chamados ao cérebro , a extrema repleção do 
estômago , que fizesse desta víscera o centro, de huma 
flucção viciosa , suspenderia o trabalho da suppurr ; çáo , 
e daria lugar aos acidentes os mais funestos. He deste 
modo que se tem visto feridas dessecarem-se em con- 
sequência" de huma contenção prolongada de espirito , 
e que , nos casos mais ordinários , a suppuraçáo, das fe- 
ridas e das ulceras estanca em consequência de huma 
indige&iQ. Em huma outra obra expuz factos desta na- 
tureza , e reprehendi o costume em que estão ainda 
alguns práticos , de levar sobre o peito os excitante? 
que , nestas occasióes , devião ser applicados sobre a feri- 
da. Huma dor punctoria sobre o lado , junta a huma extre- 
ma difriculdade de respirar , e a huma febre a guda , indi- 
cão, na verdade, aaíFecção do apparelho respiratório ; po- 
rém se he verdade que os humores se dirigem para o>puI- 
máo , e ameação suffocar o enfermo , < não he favo- 
recer o afluxo , o augmentar o excitamento no lugar 
onde este se manifesta, e náo he mais razoável o con- 
tiuzillos para a ferida , produzindo ahi hum excitamen- 
to 



*5 

superior ao que o pulmão sente sympathicamerite peio 
estado de plenitude das vias digestivas ? Se he necessá- 
rio acreditar a experiência , a escolha náo parecerá du- 
vidoza. tenho visto constantemente en fermos succum- 
bir depois da applicaçáo dos vesicatórios no lugar do- 
loroso ; tenho visto salvar hum maior numero daquelles 
para cjuem se tinha empregado o methodo opposto. 

Náo omittirei nesta occasiáo o bservar quanto as 
máximas muito exageradas "sáo perniciosas no exercí- 
cio da nossa arte. He em consequência do famozo ada- 
gio sobre a applicaçáo dos épispaticos loco dolemt , que 
muitos práticos escolhem hum lugar arrastado da feri- 
da , para por o visioatorio que deviáo applicar sobre 
ella. 

O mais ligeiro accesso febril basta para diminuir 
ou suspender a secreção purulenta, eesta influencia no- 
tável que experimenta a ferida da menor desordem da 
economia , ia? que se possa olhar como hum excellen- 
tc indicador desces desarranjamentos. Hum enrerroo do- 
tado de espirito da observação , e que tem ha muitos 
annoj huma ulcera em huma perna , entretida por hu- 
ma necrozes na tibia , me tem commonicado huma 
multidão de observações sobre as mudansas que expe- 
rimentaváo as carnes pelos erros de regimen , pelos pra- 
zeres da mesa e do amor , pelo uso de certos alimen- 
tos, pelas paixões d' alma, e pela difterensa do paiz 
cm que se demorava. O véo com que a natureza se co- 
bre , e com que nos esconde suas operações , está ras- 
gado pelo facto da ferida ; deve-nos oceultar jpenos os 
segredos. 

Náo se saberia prescrever hum grande repouso de 
espirito e do corpo , huma grande regularidade no regi- 
men , affasrar em huma palavra com cuidado o que pô- 
de operar huma distracção muito considerável dns for- 
cas , e evitar que ellas náo sejáo empregadas no cura- 
tivo da ferida em suppuraçáo. 

Os absorventes que nascem da sua superfície, chu- 
pão sempre huma certa quantidade da matéria purulcn- 

K ta 



6b 

fa; porem o transporte desta na torrente dos humores, 
n?.o produz inconveniente algum , com tanto que o pu2 
introduzido não seja em quantidade mui considerável , 
c que além disto náo tenha passado por alguma altera- 
ção : levada na circulação , diversos emmonctorios des- 
embaraçáo a economia ; náo seria mesmo impossível 
que o puZ benigno, de natureza gilatino-albominoza , 
possa servir á nutrição; porém se he muito abundante, 
se o seu contacto com o ar lhe comonica algum chei- 
ro mais ou menos forte, qualidades excitantes, huma 
febre hecnea nasce de sua absorção. Esta febre he fácil 
a reconhecer pelas circunstancias de que tira a sua ou- 
rigem , na pequenez e acceleração do pulso , na secura 
da pelle , no calor habitual das palmas das mãos e das plan- 
tas' dos pés, nos suores nocturnos, humas vezes parciaes 
e limitados na cabeça , ou no peito , outras vezes ge- 
raes, porém sempre debilitantes, e no em magreci- 
mento rápido dó enfermo que as diarréas colliquoacti- 
vas conduzem bem depressa ao marasme o mais completo. 
Previnem-se os effeitos da reabsorção , combate-se a 
diathese purulenta pelo uzo dos amargos , taes como 
as infusões alkoolicas de genciana , os fortes cosimentos 
de paciência e de almeirão , a kina administrada em 
substancia , ou debaixo da forma de vinho ou de ex- 
tracto , os remédios anti-scorbuticos , c\c. 

A reabsorção muito considerável de puz pôde de- 
pender da grandeza excessiva da ferida : pode tãoben* 
depender do despego da pelle , dos sevos ou cavidades 
nas quíés o puz se ajunta e demora, sobre tudo quan- 
to aposição declive da parte favorece esta estagnação. 
Nos últimos casos , dá-se ao membro huma posição tal 
que favoreça a sahida do puz ; exerce-se sobre os focos 
onde se demora , huma compressão expulsiva por meio 
«te compressas graduadas em pirâmides , praticão-se in* 
cizóes, c contra aberturas; em fim, repetem-se os cu- 
rativos até duas ou três vezes por dia. Se os acciden- 
tes persistem , a pezar destes cuidados locaes , e a ad- 
ministração dos tónicos, nada pôde íalvar os dins do 

cn- 



*7 

enfermo senão aprompta amputação da parte, quando 
a situação da ferida permitte d'a hi recorrer. 

Hum outro accidente não menos incommodo pôde 
retardar a cura das feridas que suppurão : he conhecido 
debaixo do nome de podridão ou gangrena do hospitai , 
termo impróprio , por quanto não existe mortificação 
nos sólidos , mas simplesmente depravação de suas pro- 
priedades vitaes , e por conseguinte necessária alteração 
dos fluidos que a ferida fornece. Huma exaltação ma- 
nifesta da excitabilidade precede e accompanha o esta- 
belecimento da podridão do hospital» 

A ferida cujus curativos não causavão senão peque- 
nas dores, derepente se lhe tornáo vivas; seus lábios 
se entumecem , sua extensão , sua profundidade augmen- 
toã ; hum puz vicioso e. pegajoso cobre a sua superfí- 
cie cinzenta -, não he raro ver os seus lábios entumeci- 
dos sangrarem á cada curativo. Este estado dura alguns 
dias , e algumas vezes mesmo se prolonga até a segun- 
da ou terceira semana ; as propriedades vitaes se resta- 
belecem no sen typo natural, o puz viciado se torna 
benigno , os lábios se desengorgitáo e se abatem , a fe- 
rida se diminue por gráos , e se reduz bem depressa 
ás suas primitivas dimençóes. 

Nada he mais obscuro que a éthiologia desta dege- 
neração particular ás feridas que suppurão. Desauit ob- 
servou , no hospital geral de Paris , que , nas enferma- 
rias situadas sobre o rio , era mais commum do que 
nas que estaváo menos próxima'- delle. Observa-se mais 
frequentemente nos hospitaes onde estão juntos hum 
grande numero de enfermos , do que na pratica parti- 
cular. Raramente ataca alguns indivíduos : porem epi- 
demica , se estende bem depressa a todos os enfermos 
da mesma enfermaria , e algumas vezes aos de todo o 
hospital. As enfermarias húmidas e pouco ventiladas , 
os tempos frios e chuvosos, parecem favorecer o seu 
desenvolvimento. He muito ordinário o ver as feridas 
tocadas de gangrena do hospital , quando o tempo he 
tempestuoso e a tmosfera forremente eléctrica ; he huma 

£ ii obser- 



48 

observação que tenho tido occasiáo de fazer nas visita^ 
da manhã j no hospital de S. Luis. quando, na noite 
precedente , o repouzo dos enfermos tinha sido pertur- 
bado pelos trovóej , e relâmpagos. Seria esta huma bel- 
la occasiáo de dissertar muitos extensamente sobre ag 
relações suspeitadas entre os nervos , o principio do sen- 
timento , e o da electricidade. 

A obscuridade de que se envolve a gangrena do 
hospital , na maneira do operar de suas causas e sua 
verdadeira natureza , se estende á escolha dos seus meios 
curativos. Os soccorros tirados da hegiéne tem o pri-r 
melro lugar. Facilitar a livre circulação de hum ar pu- 
ro deseccar e temperar as enfermarias baixas e húmidas , 
corrigir os eífeitos funestos que sáo o rezulrado das 
emanações animais , pelo emprego das fumigações com 
vinagre, ou mesmo pe'o acido moriatico oxigenado, 
como indica Guyton Morveau no seu tractado dos meios 
de desinfectar o ar ; taes são as primeiras indicações a sa- 
tisfazer. Se consultarmos os sentimentos dos authores , 
sobre os remédios externos qu? convém applicar , fica- 
remos envolvidos em huma extranha perplexidade ; ex* 
iste entre ellcs hum tal dessentlmento , que he preci- 
zo eleger entre methodos absolutamente contrários. Huns 
propõe os emollientes, es anodinos , cm banhos, ou 
cm cathaplasmas ; outros lançáo mão dos anticepticos e 
excitantes. Os primeiros dizem que estando manifesta- 
mente augmentada o exciramento na ferida , he precizo 
calmar e diminuir a excitabilidade exaltada ; os segundos 
vendo , na pequenez do pulso , a prostração que accom- 
panha , em muitos casos , a podridão do hospital , os 
sinaes de huma debilidade evidente , aconselhão o levan- 
tar as forças pelo uzo de hum vinho generozo , a kina , 
a cânfora , e outros tónicos. Querem que se pulverize 
ao mesmo tempo a ferida com os pós astringentes , que 
se lave com os cosimentos fortemente deterzives , como 
a agua de sabão, o vinagre; que se cure com o storax 
ou outras substancias balsâmicas. Cada hum delles cita 
«uccessos em favor do ícu methodo , ou antes o pro~ 

lon- 



6o 

longamento da moléstia he quasí Igual , qualquer que 
seja a maneira com que se trate. Posto que pareça qua- 
si in.iifFercnte adoptar hum em casos semelhantes , pen- 
so que os curativos repetidos , os banhos detersivos , 
hum regimen e remédios fortificantes são prcferiveis , 
com tanto que a extrema excitabilidade da renda , cor- 
nando os curativos mui dolorosos , não obrigue a lan- 
sar máo dos cmollientes e dos sedativos. Se huma féti- 
da que suppura tem huma duração prolongada per al- 
gum dos accidentes que temos demonstrado stm que 
algum vicio inrerno ahi seja mistura io, não merece o 
nome de ulcera , porque como odirenos em seu Lugar, 
a dirferensa essencial entre a ferida e a ulcera he divi- 
da a que huma causa interna entretém ou produz esta 
ultima. 

A cicatrização pôde ainda ser retardada pelo endu- . 
recimento dos lábios da ferida. Não podendo a cicatriz 
continuar-se senão com huma pelle sã , he impossível 
que nasça na circunferência de huma ferida cercada d^ 
calosidades. Este estado dos lábios he mais ordinário nas 
ulceras do que nas feridas ; he sempre a consequência às 
huma prolongada inílammação , não muito viva papa 
conduzir a suppuraçáo , porém que não pode com tudo 
rezolver-se , o excitamento que a occasiana existindo 
continuadamente e avocando sem cessar os humores na 
parte. A theoria da formação das calozidades he sem- 
pre a mesma , seja nas feridas , seja nas ulceras e nas 
iistolas entretidas pela perfuração de hum condueto ex- 
cretono. He assim que a passagem continuada das hu- 
midades fecaes atravéz das fistolas vezinhas do anus, 
entretém hum excitamento continuado no seu caminho ; 
donde rezulta o endurecimento do tecido cellular : a 
mesma cousa acontece nas fistolos ourinarias , pela fil- 
tração da ourina atravéz do tecido do pirineo , ctc. 

Quando òs lábios de huma ferida endurecem e se 
tornão calozos , se devem a mollccer per meio^ de ca- 
taplasmas , c se resistem aos emollientes , se farão sca- 
rificaçóes , e mesmo levantar a porção a mais vezinha 

da 



7© 
da ferida , se apelíe he secca , desorganisada , ou que 
despegada náo possa contrahir adherencia : favorecer-sc* 
ha esta exercendo sobre os lábios da ferida , huma com- 
pressão ligeira , porém sustida , ao mesmo tempo que 
se procura amollecellas com a applicaçáo dos emoli ien- 
tes. 

Em fim , náo se deve jamais esquecer que hum* 
ferida que suppura tende por si mesma á cicatrização. 
Esta se favorece enrretendo-lhe hum excitamento mode- 
rado , e affhstando todos os obstáculos que podem in- 
terceptar a marcha da natureza. 



P. 



GÉNERO TERCEIRO. 

Picadas. 



Osto que na sua accepção vulgar ^ ô termo pica- 
das somente indica as lezões produzidas pela ponta de 
huma agulha ou de outro qualquer instrumento igual- 
mente aguçado , comprehencieremos , debaixo desta de- 
nominação , todas as feridas que são feitas com instru- 
mentos agudos, como huma espada, huma baioneta, 
ou mesmo com a ponta mais ou menos aguçada de 
hum instrumento cortante. Os práticos de todos ôs tem- 
pos concordáo sobre agravidade que attribuem ás pica- 
das; jamais, diz o maior numero, huma ferida iuflU 
g'da por hum instrumento picante , pôde ser reputada 
simples ; deve-se sempre esperar o desenvolvimento dos 
accidentes os mais formidáveis , e empregar todos os 
meios próprios a prevenillos. Esta opinião estabelecida 
sobre a observação dos factos , he com tudo inuito ex- 
agerada, como o provará õ muitos casos narrados neste 
artigo. A imperfeita secção dos filetes nervozos era a 
principal causa de que se fazia depender o perigo destas 
sortes de feridas ; porém observai que a idea dos pu- 
xões que nascião , dizia- se, desta divisão incompleta, 
era evidentemente tirada nas theorias phiziologicas , ado- 
ptadas então, e segundo as quaes os nervos eráo consi- 



7 1 
derados como cordas nabitualmenre tensas e vibrantes. 
He verdade que o excitamehto hc menor , quando hum 
nervo he cortado em totalidade , que he muitas vezes . 
limitado nos labigs da divisão , em quanto que se esten- 
de ao longo do nervo , quando só:nente alguns dos 
seus filetes sáo orFendidos , e quo se diminue logo que 
a arte acaba esta divisão. 

Encontramos na maneira de obrar dos instrumentos 
picantes , huma causa mais apparente do perigo que ar- 
rastão as picadas. Huma navalha de barba applicada á 
superfície de hum membro , pela menor pressão , en- 
tráo na pelle as dentaçóes do seu corte ; se as partes 
estão bem tensas , e que se limite a comprimir sobre o 
dorço do instrumento , não corta senão com difficulda- 
de , em quanto que o mais ligeiro roçamento opera hu- 
ma divisão fácil. As laminas e as fibras dos tecidos or- 
gânicos comprimida pela ponta de hum instrumendo pi- 
cante , e sustidas pelas partes subjacentes , não se sepa- 
rão senão depois que se tem alongado , tanto quanto 
lhe permitte sua natureza; sua divisão se faz por huma 
espécie de rompimento , e a contuzão a accompanha 
tanto mais excessiva quanto a ponta do instrumento he 
menos aguçada. As feridas feiras pela baioneta, appre- 
zentão estas picadas com contuzão e rompimento ; sã© 
táobem , igualmente em tudo mais graves do que as 
que são produzidas pela ponta aguçada de huma espada , 
ou de hum instrumento cortante. 

Hnm soldado da quinta companhia 4o primeiro ba- 
talhão , do primeiro regimento da guarda de Paris , re- 
cebeo , na parte superior da coxa direita , huma esto- 
cada que attavessou obliquamente toda a espessura d» 
membro •, c]irigia-se sobre a passagem ács vazos cururaes , 
e era difKcil o conceber como não tinhão sido offendi- 
dos. Hum membro tão musculoso , penetrado na sua 
porção mais cainoza , no lug.vr onde o envolvimento 
apenevrotico tem muita espessura , a inevitável lezáo 
de muitos riletes nervosos cururaes , o vigor do indivi- 
duo , moço ainda , tudo fazia temei' a manifestação dos 

simp- 



simptomas os mais terríveis, com tudo , ná» sobreveio 
aceidente algum , e no rim de três semanas sahio do 
hospital fazendo o uso próprio do membro ; o cami- 
nho do orifício estava tapado ; suas extremidades oíFe- 
reciáo huma ligeira transudaçáo saniosa : no um de 
hum mez , a cura se eíFectuou completamente, Todos 
os cuidados se limparão a applicaçáo de huma pranche- 
ta de fios nas extremidades da ferida. 

M. de M. batendo-se em duello , foi ferido de hu- 
ma estocada no braço direito ; tendo o antebraço em 
meia flexão , a mão em huma forte pronaçáo , todo o 
membro encolhido, e voltado para aparte externa na 
posição que requer o estar em guarda. A espada era 
triangular , do género dos verdugos. Penetrou a parte in- 
terna e inferior do antebraço , raspou o lado radial do 
cubitus , penetrou a artéria cubital , e tendo deste mo- 
do atravessado o membro , por haver sido imprimida 
com muita força veio penetrar de parte a parte as car- 
nes da parte superior e externa do braço. Esta ultima 
ierida só interessava o tegumento commum e o deltói- 
des. A artéria cubital laqueo-se , a ferida do braço se 
curou por primeira intensio. A do antebraço suppurou , 
demorando-se a sua cura mais algum tempo , porém 
não, sendo embaraçada por algum accidenre. 

Tenho frequentemente reunido por primeira inten- 
sáo as picadas feitas com a ponta de hum traçado ou, 
de huma espada , cobrindo os redores da ferida com 
hum emplasao agghninativo , mui tenaz , e no maior 
numero dos casos tenho obtido a reunião immediata. 
De num outro lado , os livros dos observadores abun- 
dáo em exemplos de picadas cujo excito tem sido fu- 
nesto. ( O que devemos pois adoptar neste choque de 
factos contraditórios? O seguinte. O perigo das picadas 
um sido muito exagerado. He relativo á natureza das 
partes interessadas ; e por isso tendo huma espada 4 
atravessando a axilla , despedaçado muitos ramos do 
plexo brachial , ou fendido o couto cabello^o , onde se 
<le§tribuem filetes nervosos em grande quantidade, fará 

hu- 



1\ 
huma ofFensa muito mais grave do cjue a que interessa 
a gordura e os músculos das partes carnozas dos nos- 
sos membros. Quando ha motivo de pensar que os ac- 
cidentes que sobrevem á huma picada , dependem da 
secçáo imperfeita dos filetes nervosos 3 ou da infiltração 
do sangue ao qual huma abertura exterior , muito es- 
treita , náo permitte huma sahida fácil , ahi se remedia- 
rá engrandecendo- se a ferida , por meio do instrumento 
cortante , sempre preferível ao cáustico. 

As picadas das sangrias , posto que praticadas para 
hum fim saudável , algumas vezes são seguidas de fu- 
nestas consequências; dores vivas e intuleraveis , se ma- 
nifestáo depois da cizura ; as mais das vezes apenas 
sensíveis , o braço se cngorgita e se entumece , algumas 
vezes mesmo cahe em gangrena , e o enfermo morre. 
Sendo o cirurgião consultado nestes casos nunca se es- 

3ueça de dizer que a sangria he incapa:: por si mesma , 
e produzir iguaes consequências , que náo he jamais 
senão a causa occasional dos accidentcs que ahi se ma- 
nifestarão , e que he preciso attribmllos ás disposições 
<3o individuo , e não a empericia ào operador. O en- 
grandecimento da ferida pelo instrumento cortante, he 
o melhor meio a empregar ; deve ser feito com a pre- 
caução de não estender a secção alem da apenevroz ; 
os sedativos teráó sido não obstante preliminarmente 
administrados ; muitas vezes tornão a operação inútil , 
como aconteceo a Ambrozio Pare quando se preparava 
a tocar com o óleo fervente , o fundo de huma san- 
gria feita ao Rei Carlos IX. 

Existe huma dirFerensa bem grande nesta dilatação 
prudente ao horrorozo procedimento que se acha acon- 
selhado na cirurgia de Benjamim Bell. Os accidentes 
que sobrevem a sangria são violentos e insistem , cortai , 
diz este cirurgião , as carnes até o osso : hum tão revol- 
r?.nte absurdo he digno de toda a refutação. 



GE- 



N. 



?4 
GÉNERO QUARTO. 

Contuzoes. 



AO deve admirar o encontrar-se a contuzáo en- 
tre .as feridas , formando hum género separado nesta 
ordem de enfermidades. Neste estado , existe constante- 
mente solução de continuidade, apparente quando a 
pelle he cortada , oceulta , quando a pelle tendo resis- 
tido á causa vulnera nte , a divisão não he operada se- 
não nas partes subjacentes. Para conceber o mecanismo 
da contuzáo , basta o dar attensáo a extensibilidade da 
pelle, membrana susceptível de se alongar debaixo do 
corpo que a toca , em quanto que as pequenas artérias 
que s: espalháo debaixo do tecido cellular subcutâneo , 
incapazes d: hum igual gráo de extensão , se despeda- 
çao , e dão sahida ao sangue que contém. Este fluido 
então estravasado nas areolas do tecido cellular, ahi for- 
ma mesmo coileçócs assas consideráveis , logo que a 
contuzáo he violenta , como as elevações do couro ca- 
beilozo e da testa fornecem disto exemplos. 

A extensão da contuzáo anda sempre em razão 
directa da largura do corpo contundente , da velocida- 
de , com que nos toca , ou da quantidade da força que 
lhe he imprimida , c da resistência que lhe] oppóe nos- 
sos orgáos. As pancadas impellidas pela expluzáo da 
pólvora produzem as contuzoes as mais fortes ; porém 
os accidentes que complicão estas sortes de feridas , úo 
tão numerosos e tão particulares , que se tem sempre 
tratado separadamente debaixo do nome de feridas de 
armas de fogo , nos livros da nossa arte , e que julga- 
mos dever fazer delias hum género diftetente das feri- 
das contuzas ordinárias. A contuzáo accompanha qua- 
zi inevitavelmente o maior numero das feridas. As que 
faz o corte de hum traçado pouco aguçado , ou a 
ponra romba d© huma baioneta e de hum florete par- 
ricipáo tanto da contuzáo como da incizáo e da pica- 
da; 



75 

da ; «sim a sua reunião immediata he táo difficil com© 
as das feridas contuzas. 

Em váo se tentaria reunir os lábios de huma feri- 
da deste género , a aglutinação a onde poderá ter lu- 
gar será no seu fundo , onde a contuzáo he menor ; 
externamente , a suppuração he inevitável. Deve-se com 
tudo tentar esta reunião, sem apertar muito os lábios 
contundidos , porque a inchação iuflammatoria mais ou 
menos considerável , que lhe deve sobrevir , faria todo 
o aperto doloroso. 

Se tratardes de hum homem que tenha recebido 
algumas pancadas de páo sobre qualquer parte do cor- 
po ; náo estando a pelle dividida , nem muito contuza , 
tratai só de cobrir o lugar aftectado , com compressas 
molhadas em hum liquido rezolutivo ; renovai-lhe esta 
applicação no rim de doze horas , e se a dor he viva , 
que a intlammaçao se annuncia pela inchaçãoe o ru- 
bor , substituilhe as cathaplasmas emollientes aos cosi- 
mentos rezolutivos Senão houver contraindicaçáo ; con- 
vém logo sangrar o individuo que soífreo huma forte 
contuzáo ; he hum dos melhores meios que a arte pos- 
sue para prevenir-lhe as consequências. 

Se a pelle he dividida , e as carnes separadas pela 
violência da contuzáo , a sangria he então de huma 
absoluta necessidade. A ferida deve ser curada com 
brandos fios. Unta-se as pranchetas com huma camada 
de ceroto , ou , o que he melhor , applica-se por cima 
dos fios huma larga cathaplasma para cobrir os redores 
da ferida. Os fios e a cathaplasma serão renovados ao 
menos huma vez todos os dias; em huma palavra, o 
tratamento será o mesmo que se applica nas feridas 
que suppur.jo. A reunião se fará tanto mais vagarosa , 
quanto 'as partes contuzas terão sido mais dilaceradas 
ou reduzidas cm hum estalo mais ou menos próximo 
da desorganisaçáo. Os gráos da contuzáo são mui nu- 
merosos , desde a extensão forçada dos tecidos , a ro- 
tura de alguns capillares , e a ecehymozc ou nódoa res- 
ultante da exti-avazaçào do sangue é até a attrjçáo com- 

plc- 



7<* 
pleta ou a desorganização tor.il do tecido offendido. 
Quando Tenon queria pintar , este gráo de contuzáo ex- 
trema , onde os líquidos derramados estão confuzamente 
misturados com os fragmentos dos sólidos , pizava huma 
folha de couve , e com ella fazia a comparação desta 
qualidede de contuzáo aos seus ouvintes. 

Nas simple contuzóes , assim como nas feridas con- 
tuzas , o sangue extravazado dá á pelie huma cor obscu- 
ra que por çráos se vai exclarecendo , passa a cor viole- 
te , depois á amarello , á proporção que a ecchymoze 
augmenta deexentão. Neste estado de enfermidade , de- 
ve-se lansar mão dos rezolutivos pela appiieaçáo dos 
quaes a absorção dos sucos estagnados se torna fácil. 

A contuzáo , no maior numero dos cazos , deve ser 
considerada como hum accidentente , e não como huma 
afFecção essencial ; he por isto que inseparável das fractu- 
ras, pode ser olhada com hum simptoma constante des- 
tas enfermidades. . Seus effeitos , relativamente ás vísceras 
contidas nas grandes cavidades , são igualmente muito 
variados e muito perigozos para que se possa fazer del- 
les o assumpto de huma theze geral. 

Quando , a acçáo dos corpos contumdentes se dis- 
tende alem das partes molles até os ossos , e os despe- 
daça ordinariamente fazendo-lhe esquirolas ; a ferida en- 
tra então no género das facturas comminutivas. 

A contuzáo dos músculos e dos nervos lhe parelyza 
a acçáo , enfraquece as paredes dos vazos , e se torna 
huma cauza fecunda de aneurismas e de varizes. v\ss:m 
pois, considerada comoaccidente , ou como cauza da en- 
fermidade , seoíFerecerá freq.u^ncemen te no progresso des- 
te curso , e este artigo náo formará se náo a menor par- 
te de sua historia. 

Náo he sempre fácil o julgar da extensão , e da 
gravidade de huma contuzáo que acaba de acontecer. M. 
G. Thesoure : ro da guarda de Pariz , foi lançado fora 
de sua carruagem , que se tombou ; huma das rodas lhe 
cahio sobre a perna esquerda , onde termina o corpo 
earnozo des gemei! o;- Sendo chamado meia hora de- 
pois 



7* 

pois do accidente , observeis , entre outras feridas , hum*, 
depressão obliqua na' pelle do lugar ind ; cado. Tinha afi- 
gura de huma goteira na qual o dedo indicador podia fa- 
cilmente caber ; a inchação inflamatória que sobreveio , 
elevou nesta parte a pelle ao nivel dos tegumentos , e 
nada mostrava a morteficaçá , passados sete ou outo dias , 
dores vivas sobrevem espontaneamente , o inchaço infla- 
matório se despertou , e duas pequenas escaras se forma- 
rão aos lados da porção da pelle contuza. Tratada pelos 
emollientes , depois pelos deterzivos 3 esta ferida se cica- 
trizou assaz promptamente. 

As dilacerações e r.s feridas feita por violentos pu- 
xões podem s^r arranjadas no numero das feridas con- 
tuzas. Elias são com rudo seguidas de hum maior pe- 
rigo, em razão da distineção excessiva que as partes sof- 
lrem A consecencia frequente destas feridas he o te- 
tenismo ; simptoma quazi sempre mortal. Os indivíduos 
de hum temperamento athiectico , os de menor idade , 
os adultos , e os habitantes dos paizes quentes são os 
mais expostos a esta funesta complicação. Não he raro 
nas Antilhas , ver os negros que tendo cravado hum 
espinho na planta do pé, morrerem tetanos, a pezar 
que a picada seja pouco profunda , e o despedaçamento 
ligueiro. 

As feridas feitas por distincçôes violentas , de que 
a cirurgia de Lnmotte, as Memorias da Academia de 
Cirurgia, e as Transacções Phylozcrficas nos fornecem 
tres notáveis observações , mostráo isto desingukr , que 
as grandes artérias despedaçadas , quando as partes tem 
sido separadas do corpo , se apertão pelas pizaduras que 
experimentáo , e que seja por este effeito espasmódico , 
cu seja pela compressão que exercem os músculos so- 
bre ellas entre os quaes a artérias se retrahem , a he- 
morragia não sobrevem. Não he :em admiração que se 
vio Sàmnel Vcod izento deste accidente , depois da ro- 
tura da axillar vazo de hum grande calibre , e muito 
vezinho do coração , onde o movimento da projeçáo do 
sangue ahi conserva toda a sua , força. Se se he cha- 
ma, 



7* 
n»do em hum semelhante caso , o braço e honiopla- 
ta estando inteiramente separados do tronco , dever-se-ha 
procurar com cuidado o extremo da artéria rompida , 
a fim de prevenir eficazmente por sua ligadura huma 
effusão de sangue que, em poucos instantes, seria mui- 
to considerável e causaria a morte. Reunir os lambós dos 
músculos e dos tegumentos , cobrir a ferida com pran- 
chetas de brandos rios sem exercer alguma compressão , 
prevenir, por fortes sanarias, huma dieta severa, e os 
antispasmodicos , os accidentes inrlammatorios e nervosos 
que se devem temer ; tal he a conducta a seguir nestas 
iferidas , que se não curáo jamais se não pela supura- 
ção. 

As feridas contusas ordinárias sendo assas muitas 
vezes o resultado do choque cie hum corpo frágil , hu- 
ma garrafa , por exemplo , podem apresentar íragmen- 
tos destsá corpos cravados nas carnes , occultando-se al- 
gumas vezes á vista do cirurgião , e causando hum ex- 
citamento muito vive. He preciso indagar com cuidado 
estes corpos estranhos , para fazer a sua extracção sem 
demora. A dor , a ínrlammaçáo , o tetenismo náo sáo 
os sos acedentes que possáo resultar de sua presença. 
Tem se visto, em alguns casos, a supporaçáo prolon- 
gar-se indifinidamente , entretida por hum corpo extra- 
nho oceulto no seyo da ferida. Em outros casos porem 
raros , cicatriza-se , e depois torna-se a abrir para dar 
sahida ao fragmento de vidro, de quem se tinha des- 
presado a indagação e a extracção. 

GÉNERO QUINTO. 

Feridas de armas de fogo. 

Jf RODUZIDAS por corpos que póe em movimen? 
to a expulsão da pólvora , estas feridas sáo caracterisa- 
das pela desorganização de suas superfícies. A extremai 
contusão ou antes a pizadura que se observa nas feri- 
das de armas de fogo , depende da rapidez com que ho 

mo- 



movido o corpo ^ue' as produzio. As partes que toca sac 
convertidas em huma escara negra , cuja cor tinha feito 
penssar aos antigos , que os corpos expellidos pela pól- 
vora , se aqueciáo e causaváo verdadeiras queimaduras. 
A razão e a experiência tem mostrado que por maiot 
que seja a presteza de hum projéctil , não adquire ca- 
lor sensível no seu caminho. O gráo de calor que tor- 
naria huma bala capaz de queimar nossas partes, ara- 
ria entrar em fuáso. 

As feridas de armas de fogo náo sáo sanguinolen- 
tas á excepção de quando algum vaZo considerável for 
offendido \ suas circunsferencíãs sáo Lívidas \ e o choque 
de que sãô acompanhadas he tão vivo e táo prompto , 
que o membro affectado experimenta , em consequên- 
cia desta commoção , huma espécie de estupor do qual 
frequentemente toda a economia participa. 

A historia e o tratamento das feridas de armas de 
fogo erão infectados de idéas falsas , e de erros prejudi- 
«liciaes, antes que Ambrozio Pare lhe tivesse estabele- 
cido a verdadeira theoria. As balas de artelharia e de 
mosquetaria produzem, algumas vezes, sem dividir & 
peile , as mais graves lesões : tem-se visto partes molles 
de hum membro reduzidas a huma espécie de massa , 
os mesmos ossos despedaçados , apesar que os tegumen- 
tos estivessem intactos, e muito tempo se attribuio este 
effeito á mudança do ar , pelosprojecris. Julgava-se que 
este fluido elástico movido com presteza pelo choque 
da bala , podia comprimir os corpos que nos rodeiáo 
com assas violência para despedaçar o stecidos ■■, porem 
como poderemos conceber huma pressão táo consi- 
derável, nomeio do át livre; o effeito observado deve- 
ria constantemente ter lugar , quando huma bala passa 
perto , e vc-se iodos os dias levar o chapco , o pena- 
cho , o vestido , e mesmo os cabellos dos nossos guer- 
reiros sem que experimentem alguma outra offença. 

A acção obliqua das balas sobre as nossas partes, 
explica facilmente este effeito de huma contusão extre- 
ma , sem divisão da peita Algumas vezes táobeav de- 

pen* 



8o 
pinde da fraqueza com que estes corpos chocáo o nos- 
so , tendo consumido toda a quantidade de movimento 
que lhes tinha sido imprimida , não obráo senão em vir- 
tude de seu pezo. Designa-se então com o nome de ba- 
las mortas. 

Quando estas contusões por armas de fogo sáo hum 
pouco vivas , os músculos e tecido cellular pizados , e 
redusidos á huma espécie de massa semelhante á lia do 
vinho, os ossos expedaçados, ornais das vezes o mem- 
bro está em hum estado de estupor por que conduz 
quasi inevitavelmente a gangrena após si. . 

A ferida de arma de fogo pôde ter huma ou duas 
aberturas ; huma quando a bala tica mais ou menos pro- 
fundamente na espessura da parte , duas , quando atra- 
vessa inteiramente. Neste ultimo caso , as duas abertu- 
ras sáo diametralmente oppostas no maior numero ; mui- 
tas vezes , com tudo , a sahida não corresponde exacta- 
mente á entrada ; rendo sido mudada a direcção da bala 
pela opposiçáo de hum osso , de huma cartilagem , ou 
mesmo de huma apenevroz. He deste modo que se tem 
visto huma bala que tinha penetrado a pelle da perna 
junto ao maleolo tjbia! , ensinuar-se entre a tíbia , e a 
mesma pelle, sobir e sahir junto ao joelho ; outras ve- 
zes , tendo ferido o rosto , sahir pela região temporal , 
etc. Os livros citáo em multidão exemplos destas <leviar 
çóes singulares. 

As feridas de armas de fogo, e he sobre tudo das 
produzidas pelas balas , que aqui se trata , porque são 
estas as mais communs , tem geralmente a forma do 
corpo que as produz ; sáo redondas , quadradas , ou 
oblongas como elles ; porém quando as feridas tem duas 
aberturas , a da entrada he constantemente mais peque- 
na que a da sahida : seus lábios são depremidos , ahi 
ha depressão na entrada , em quanto que as partes são 
como elevadas, e formão tumor na sahida. Esta difiè- 
rença depende de que no momento em que a bala en- 
.conrra o membro , o fere com toda a sua força , que 
perde á proporção que se crava na espessura das par- 
tes, 



8i 

tes , vencendo a sua resistência. A pelíe , no lugar d» 
sntrada , he sustida por toda a espessura do membro i 
este ponto de apoio favorece a solução de continuidade , 
e previne o despedaçamento ; a contusão he táobem , 
pela mesma razão , maior na entrada da bala , e quan- 
do o inchaço , sempre proporcionado á contusão , so- 
brevem , a diflerença entre as duas aberturas he mais 
demonstrada , a entrada he mais estreita que a sahida. 
As explicações que acabamos de dar são totalmente 
fundadas, que seguindo a observação deLedran nas feri- 
das de armas de fogo no craneo , ahi náo ha alguma 
difterença entre as abertutas da entrada e da sahida , sen- 
do o ponto de apoio o mesmo para a bala que entra ou 
que sahe. 

A cor amarella e lívida das circumferencias de huma 
ferida de arma de fogo , depende da infiltração do san- 
gue pisado violentamente: a escara cppondo-se á sahi- 
da dos humores , estes infiltráo a parte e augmentáo 
muito a gravidade da ferida. A parte ofFendida he ador- 
mecida , pisada , e neste estado de assombro e de estu- 
por , mal se defende contra o afluxo dos líquidos ; a 
actividade orgânica sendo quasi totalmente extintea, lhe 
sobrevem a gangrena , e faz os mais rápidos progressos. 
Este estado de estupor e de insensibilidade he sobre tu- 
do funesto quando todo o corpo o experimenta, e isto 
acontece em consequência das commoçóes violentas , 
quando hum osso tem sido tocado por huma biscainha 
(i), huma bala de maior calibre, hum outro corpo de 
maior calibre , ou hum outro corpo de hum certo vo- 
lume. He v neste estado que morreu o Chevau- leger de 
quem falia Quesnay ; o estado de estupidez neste indi- 
viduo era tal , que propondo-se-lhe a amputação da per- 
na, respondeu que esse náo era o seu negocio. 

Ve-se a amarelidáo sobrevir derepente nas feridas 
de armas de fogo, a horripilação , as sincopes, e ou- 

F tros 



f O Espingarda de maior alcance , do que as ordinaiiM. 
' - Not. do Tradwc. 



82 

íros accidentes «ervozos que faziáo pensar aos antigos 
ãue a pólvora levava ás feridas algum veneno o cculto ; po- 
rém basta a attriçáo que experimentáo os orgáos , o cho- 
que violento de que participa mais ou menos toda a ma- 
quina , para explicar as suas consequências as mais terríveis. 

Não ha feridas , que sejáo mais sujeitas a occul- 
tar sua causa , do que as de armas de fogo , isto he , 
que a complicação dos corpos extranhos ex stc muitas 
vezes neste género de feridas. Estes corpos ou são a 
mesma bala , ou porções de fato que ella crava nas car- 
nes. Quando a ferida náo tem mais que huma abertu- 
ra , he provável que encerre hum corpo extranho: isto 
náo he com tudo certo ; citáo-se casos em que a bala 
que tinha feito huma ferida de algumas polegadas de 
profundidade , tem sido achada na camiza do fer do. 
Então, o vestido náo está rasgado, somente tem sido 
cravado na ferida. 

Quando esta tem duas aberturas , póde-se conjectu- 
rar , que a bala sahio ; porém então porções do vestido 
podem ter restado no caminho , e isto he tanto mais 
fácil , quanto estes corpos mais ligeiros e empurrados 
por huma menor força que a bala , náo podem divagar o 
mesmo espaço que ella. 

Assim pois , a primeira indicação que aprezenta 
huma ferida de armas de fogo , he de proceder a inda- 
gação dos corpos extranhos de que pode estar compli- 
c.da. Nada pôde contraindicar esta indagação , senão 
o peri o de causar, despegando alguma escara, huma 
hemorragia que senão poderia suspender. Diversos meios 
tem sido empregados tanto para o reconhecimento dos 
corpos extranhos , como para a extracção das balas e 
outras substancias que podem conter a ferida: o saca* 
bàlas , em forma de colher , a-; pinsas de anneis ou de 
tira fundos, tem vogado; porém os dedos lhes-sáo pre- 
feríveis , quando estes bastão para aicansar o corpo ex- 
tranho , porque a resistência que offerecem os ossos , 
e os tendões que podem existir no caminho da ferida, 
farão persuadir a existência destes corpos. 

Con- 



8? 

Convém, na indagação dos corpos extranhos de 
que se complicão as feridas de armas de fogo , o situar 
o enrermo na mesma atitude em que estava no momen- 
to da ferida. Foi a favor desta precaução , pelo cuida- 
do de apalpar as circumferencias da ferida , que Ambro- 
zio Pare encontrou no Marechal de Brissac huma bala 
collocada entre o homoplata , e a columna vertebral , 
que tinha escapado ás indagações , que tinháo feito 
muitos cirurgiões com a sonda (i). 

Não deve esquecer , que as balas podem soffrer 
deviaçóes muito singulares. Para cjue experimentem esta 
mudança de direcções, não he necessário que encon- 
trem sempre ossos , cartilagem ou tendões na sua pas- 
sagem. A única differença dos meios , como o observa 
judie iozamente Levacher , em huma memoria imprimi- 
da depois da de Lamartiniere , no principio do quarto 
volume da Academia de Cirurgia, deve operar huma 
sorte de refracçáo ; e pois que a agua basta para desviar 
a bala da linha recta , as partes molles do corpo pro- 
duzirão este eífeito de hum modo tanto mais manifes- 
to , quanto sua densidade excede mais sobre a de hum 
simples liquido. 

Estas deviaçóes das balas podem fazer crer a sua pe- 
netração nas cavidades , de quem tem semente divagado a 
superricie. Tal foi certamente o caso de hum rapaz 
tambor das guardas Suissas , que recebeu , a dez de 
Agosto , hum tiro na espádua. A bala tinha ferido a^a- 
xo da clavícula , e se tinha dirigido por baixo do an- 
gulo inferior do homoplata. M. Boyer a fez sahir , 
praticando ahi huma contraabertura. < Como teria po- 
dido atravessar aparte superior do peito , sem oíFender 
alguns dos órgãos importantes que se teriáo offerecidp 
no seu caminho ? Alem disto apresentava asper.dades 
que provavão evidentemente que tinha roçado contra 
partes ósseas. 

Em certas occasióes, apezar das pesquisaçóes as 
F ii mais- 

(0 (Suvrw XI. livre. 



84 

mais exactas , senão pode obter o reconhecerem-se as ba- 
las ; per haverem estas descripto hum caminho total- 
mente tortuozo j peia opposiçáo das partes duras, que 
rem encontrado , fazendo-lhe totalmente mudar a sua 
direcção , e se faz impossível então alcançarem-se. En- 
tão , explorando atientamente os redores da ferida , exa- 
minando sobre tudo o lugar diametralmente opposto , 
se pode sentir o corpo extranho ativ.vez de huma es- 
pessura mais ou menos considerável das partes , que hs 
preciso cortar para se fazer a extracção delle. Deve- 
mo nos decidir a praticar esta centraabertura , logo que 
tendo feito todas as diligencias para o exrrahir pelo ca- 
minho que franqueou, o não \ odemos obter; cu que 
para fazermos estas diligencias , produzimos ao enfermo 
dores insupporiaveis. Além disto , a nova abertura faci- 
lita a sahida do puz , c abrevia singularmente a enfer- 
midade , quando esta se prolonga pela stagnaçáo deste 
humor , se a ferida he protunda , e não tem mais que 
huma só abertura. 

He preciso não poupar nem seu tempo nem seus 
cuidados para fazer a extracção dos corpos extranhos j 
sua presensa he huma causa de excitamento sempre 
subsistente , figgravao os accldentes das feridas , e as fa- 
zem as mais cks vezes degenerar em fistulas , muitas 
vezes , comtudo , as balas restão a ninhadas nes ossos 
durante huma longa serie de annós, e isto sem perigo 
e sem dor. Em certos casos, correm longos caminhos 
por baixo da pelle, dirigindo-se atravez do tecido cellu-r 
lar sem causar inftammaçao. Tem-se visto balis , depois 
de se demorarem no corpo muito tempo , causarem em 
fim o excicamento, e determinarem huma suppuraçio 
que as arrasta com o seu produeto. Não se deve inssis- 
tir na indagação dos corpos extranhos, esta obstinação 
seria infinitamente prejudicial augmentando-lhe o excica- 
mento ; quando he diGcil o ençóntrarem-se , vale mais 
abandonar á natureza o cuidado cia sua cx pulsação. 

• ( Precisa-se constantemente engrandecer as feridas 
de armas de fogo ampliando as suas aberturas? Alguns 

. auc- 



8? 
authores tem Feito do debriâamenio hum preceito ge- 
ral nestas feridas. Esta operação , dizem elles , alem 
de que facilita singularmente a indagação dos corpos 
extranhos , previne o estrangulamento das partes, logq 
que lhe sobrevenha s inchação inflammatoria. Outros 
práticos mais timidos tem chegado até a fazer a pros- 
cripçáo dos debridamentos em todos os caâos. Estais 
'• :izóes, segundo elles, augmentáo a desordem local, 
facilitáo a gangrena , e náo são sem perigo relativamen- 
te aos tendões , aos vasos , e aos nervos que ahi po- 
dem ser interessados. He verdade que a pratica do de- 
bridamento tem sido levada ate ao excesso ; porém a 
Eroscripçáo do abuzo se náo deve estender até ao uzo; 
e pois indispensável o fixar os casos , nos quaes esu 
precaução he indicada. 

O debridamento he inútil nas feridas das parte> . 
pouco carnozas , taes como o craneo , a parte inferior 
da perna, o pé, o punho ,. e a mao. O grande numero 
de ^ervos e de tendões que se encontrão nestas ultimas 
partes , torna qualquer incizáo perigoza ; náo se deve te- 
mer ahi a excessiva inchação dos músculos, excepto 
na palma da mão onde estes orgáos são mais numero- 
zos e ofFerecem alguma espessura. Em rim nas partes , 
que acabo de nomear , a extracção dos corpos extranhos 
he sempre fácil. Hum soldado da guarda de Paris 
fecebeo hnma bala no dorso da mão ; embaraçou-se 
no intervallo do terceiro e quarto ossos meiacarpian- 
nos ; peguei-liie com huma pinsa de disseccar e fa- 
cilmente a extrahio ; náo engrandeci a ferida , porém 
simplesmente a cobri com huma prancheta untada de 
ceroto : curou-se sem accidentes. Póde-se olhar o de- 
brijamenro como inútil nas partes pouco carnozas , onde 
a inchação he por consequência muito limitada. He pe- 
rigozo , qualquer que seja a parte ferida , quando ahi 
ha estupor. Os sólidos cujas propriedade?; vitaes estão 
enfraquecidas, cahiriáo em hum relaxamento total, e a 
gangrena seria sua inevitável consequência. 

O debridamento náo. he positivamente indicado , 

náo 



8<S 
não he indispensável senão nos casos onde hum mem- 
bro he atravessado por huma bala na parte carnoza, 
nos lugares , onde muitos músculos se acháo involvidos 
por huma aponevroze mais ou menos espessa. Supponha- 
mos que a coxa he atravessada na sua parte media, 
sem que o fernur ou a artéria curúral sejáo ofTendidos. 
A inchação inflammatoria que deve inevitavelmente so- 
brevir, dobrará ao menos o volume das massas muscu- 
lares , o envolvimento aponevrotico rezistirá á sua tu- 
mefacçáo , e a dor que resultar da compressão , junta 
ao engorgitamento humoral, conduzirá infalivelmente a 
gangrena. O debridamento he indicado para prevenir 
este estrangularmento incommodo ; devem- se engrande- 
cer as aberturas da ferida , não para mudar sua forma 
redonda que os antigos reputaváo excessivamente perni- 
ciosa , mas para relaxar a aponevroze fascia-lstta. 

Emprega-se para este debridamento hum bisturim 
de botão ; o dedo index lhe serve de conducter. A mes- 
ma aponevroze será fendida na extensão de muitas pole- 
gadas , e , para que os músculos não ração hérnia a 
favor de hum* simples incizão longitudinal , corta-se 
atravez , e mesmo em outras direcções , se se julga con- 
veniente. He preciso debridar profundamente em todo 
o caminho da ferida , se isto he possível , aííastando-se 
sempre dos lugares em que a anathomia ensina que ex- 
istem os vasos e os nervos , cuja secção seria perigo- 
za ; para isto servir-se-ha de hum bisturim de lamina 
recta e comprida , terminada em botão semelhante ao 
que alguns práticos empregáo para a incizão do annel 
na operação da hérnia inguinal ; fazer-se-ha cortar car- 
regando sobre o seu dorso, com o dedo indicador da 
mão esquerda , que he preferível a qualquer outro con- 
ductor j Quando se tem debridado assaz largamente 
para que os musculos não sejáo opprimidos pela apo- 
nevroze no inchaço que deve sobrevir , deve-se pôr 
hum sedenho no caminho da ferida ? 

Muitos práticos o aconselháo e empregáo para fa- 
vorecer , dizem elles, a suppuraçáo e a separação das 



8? 
escaras. < Porém não se deve considerar antes o sede- 
nho como hum corpo extranho , cuja presensa augmenta 
o e citamento , e a inchação inflaimmatoria ? Náo se 
muda já mais sem causar muitas dores , principalmente 
quando hum cordão nervozo se comprehenàe na ferida. 
Ás escaras se separáo , huma vez que a suppuraçáo esteia 
bem estabelecida. O sedenho he pois perigozo em alguns 
casos , e quando náo occasiona algum accidente , ao me- 
nos póde-se olhar como inútil. 

He ao acaso , e náo ao seu génio , que Ambrozio 
Pare deveo a útil descuberta do verdadeiro methodo a 
empregar no tratamento das feridas de armas de fogo. 
Cruel , por ignorância , a Cirurgia de seu tempo , appli- 
cava os e-.perituosos . e os cáusticos a estas feridas ; 
Ambrozo Pare empregado no exercito Francez , no cer- 
co de Turin , seguia esta rotina mortífera , e cauteriza- 
va as feridas com óleo ds sabugueiro fervente, ao qual 
misturava huma pouca de triaga , segundo o preceto 
que dá João Devigo , no seu primeiro capitulo das fe- 
ridas : c< Em fim, meu óleo me faltou, e fui obr;g;í- 
„ do a applicar em seu lugar hum digestivo feito de 
,, gema d' ovo , óleo rozado e terebentina. A noite, 
)} a náo pude dormir a meu gosto , temendo , por lal- 
„ ta de ter cauterizado , o encontrar os feridos , a quem 
„ tinha faltado o deitar o dito óleo , mortos envene- 
„ nados , que me fez levantar muito cedo para os vi- 
„ zitar, onde, fora de minha esperança, encontrei os 
„ em que tinha posto o medicamento digestivo , senti- 
„ rem poucas dores , e suas feridas sem inflammaçáo , 
„ nem tumor , tendo passado bem a noite : os outros 
„ a quem tinha applicado o dito óleo , os achei febre- 
„ citantes com grandes dores , e tumores nas circumfe- 
„ rendas das feridas. Entáo pois , me diliberei de já 
„ mais queimar táo cruelmeute os pobres feridos por 
„ arcabuzes (i). „ Era para destruir o veneno de que 
suppunháo as feridas infectadas, que se empregaváo os 

caus- 

(1) Apologie, et Voyage». 



cáusticos «xtemamente , em quanto que se prodigaliza- 
vão internamente os cordiaes os mais enérgicos. 

As feridas de armas de fogo , logo que se tem fei- 
to a extracção dos corpos exrranhos , e praticado os de- 
bridamentos convenientes, eugem o mesmo tratamento 
que as feridas contuzas ordinárias , a applicaçáo de pran- 
chetas , untadas de hum digestivo simples sobre a íeri- 
da , banhos espirituosos e rezoiutivos sobre as partes ve- 
zinhas , nas primeiras vinte e quatro heras , depois do 
que se applicáo as cathaplasmas emollientes sobre as 
pranchetas. Como se deve esperar numa inchação in- 
iíammatoria , proporcionada á violência da conruzão , 
huma sangria copiosa he indicada , se o sugeiro he mo- 
ço vigorozo , e que não tem experimentado huma for- 
te commoçáo. Se se lhe notar estupor geral ou mesmo 
local , dever-se-ha abster da sangria , e preferir os forti- 
ficantes aos antiphlogisticos. 

Todos os pr;ticos que tem escrito sobre o trata- 
mento das feridas de armas de togo , prolessio a utili- 
dade dos eméticos administrados no dia mesmo do acci- 
dente , ou no ,dia immediato , antes do desenvolvimen- 
to dos accidentes inflam matorios. Esta pratica he sobre 
tudo vantajosa nos exércitos , onde pelo uzo dos mãos 
alimentos e mesmo peta deboche do regimen , as vias 
alimentares são sobrecarregadas das impurezas saburro- 
zas (i). Lamartmiere , em huma Memoria enxerida en- 
tre- 



vi) Esta doutrina parece não ser applicavel nesta parte. 
Hum soldado em campanha , que longas e irabalhozas mar- 
chas o abatem e o debilitáo , fazendo uso de mãos alimen- 
tes e pouco nutrientes , enfurecendo-se nos combates que o 
debilitão indirectamente , o susto de que he possuído na occa- 
sião do ferimento ; tudo conduz ao estado de hum abatimen- 
to geral , devendo suppor-sc além disto que o grande estra- 
jro deverá sobrevir huma grande suppuração. f * È será conve- 
niente o dar nestes casos o emético , quj entra na ordem 
dos debilitantes .da segunda classe ? Eu nunca o empregarei 
ttn semelhantes casos , antes pelo contrario farei por con- 



8o 

tre as da Academia , tem parricularmente insistido sobre 
a necessidade desta evacuação , para prevenir a degene- 
ração biliosa , ou pútrida da lebre traumática ou vuine- 
raira. Esta se acedera , a parte ferida se entumece , a 
suppu ração se estabelece no caminho da ferida , despe- 
ga e lança fora a escara , t|ue lhe cobre a superfície ; 
depois da separação completa desta escara , a ferida he 
reduzida ás condições de numa. ferida contuza ordinária , 
e requer hum tratamento análogo. 

Temos supposto que a cura das feridas de armas 
de fogo não he interceptada por algum acddente ; he 
com tudo exposta a rodos os que podem retardar a ci- 
catrização das feridas que suppurão. ( Feja-st géne- 
ro II. ) Algumas veze; táobem a hemorragia sobre- 
vem no tempo da separação da escara: o hábil cirur- 
gião deve prever este accidente pela relação , que existe 
entre o caminho da ferida , e a posição das pnneipaes 
artérias do meml ro ; então terá post > perto do enfer- 
mo hum ajudante imelligente encarregado de suspen- 
dei- o sangue peia compressão do vazo , esperando que 
se possáo trazer os soccorros mais efRoizes. 

As feridas de armas de fogo , complicadas das frac- 
turas d";s ossos, são muito mais graves do que as que 
se tem tratado até aqui. Huma commoçáo mais ou me- 
nos violenta accompanha sempre estas sortes de fractu- 
ras , que se chamão comminutivns , porque o osso he 
quebrado em es-juirolas mais ou menos numerosas. As 
byscainhas , os estilhaços de bombas , as balas de ar- 
tilheria , e outros corpos volumosos , produzem mais 
facilmente estas desordens , do que as balas de mosque- 
te. Nas batalhas navaes , quazi que não ha pequenas 
feridas ; as balas de artilheria , desmastreando os navios , 
esmagáo òs marinheiros debaixo do pezo da mastrea- 
ção , as lascas de páo , arrancadas do corpo do mesmo 
navio, são lançadas com força sobre os combattentes , 

e ex- 



servar as forças do enfermo por huma dieta regular. 

Not. do Traduct. 



c expectação seus membros, quando lhe náo efFectuáo 
a sua separação. ; Que conducta he precizo ter em 
circunstancias tão graves? ^ Convém a amputação, em 
todos os casos de fracturas comminutivas com ferida e 
contuzão excessiva das partes molles , qualquer que seja, 
a causa que as tenha produzido ; porque aqui , o trata- 
mento e a historia das fracturas comminutivas entrão 
na historia e tratamento das feridas de armas de fogo ? 

Houve huma época onde , nos exércitos estrangei- 
ros se praticava hum menor numero de amputações do 
que nos exércitos francezes : abandonavão-se a si mes- 
mo todos os soldados mui gravemente feridos. Esta 
conducta dictada por huma politica inhumana , o seria 
táobem pela razão , se se acreditasse Biiguer , Cirurgião 
mór dos exércitos do Rei de Prússia. Segundo este Cirur- 
gião , a amputação he raramente indicada , e se não deve 
quazi já mais recorrer a ella. A dissertação, em que des- 
envolve estes princípios (i), traduzida por Tissot , foi 
cm França o assumpto de hum tal escândalo , que La- 
martiniére , chefe então da cirurgia franceza , pelo emi- 
nente lugar que occupava , julgou dever refutallos em 
huma Memoria que se acha no principio do quarto vo- 
lume da Academia. Suspeitava-se que Biiguer, tinha 
acommodado sua doutrina ás vistas do grande Frederi- 
co , que , Rei de Hum paiz pobre , náo dezejava que 
houvesse multiplicidade de inválidos que carregassem as 
despezas do Estado. Lamartiniére não diz huma só pa- 
lavra sobre esta imputação odioza", e sabiamente indi- 
ca os casos que estabelecem a necessidade indispensável 
da amputação. 

Pareceria que nos casos em que a bala leva total- 
mente o membro , seria inútil de lhe fazer huma segunda 
amputação. Este caso he com tudo aquelle onde a ne- 
cessidade de praticar esta operação he melhor demons- 
trada. £ Como se curaria huma Ferida onde as carnes 

estão 



(i De membrorum amputalione rarissime ackninistrandà , 
aut quasi abroganda. 



9* 
estão rasgadas em lambós , os ossos espedaçados em 
lascas , a desorganisação excessiva j quanto se íaria es- 
perar a separação das escaras í j que enorme suppura- 
çáo nasceria no seyo de huma tal desordem ? Os ossos 
fracturados tem além disto soffrido hum choque que se 
faz sentir ate a sua articulação ; podendo estender se 
as suas lascas até perto delia. < Se o enfermo escapa 
aos acidentes que se devem desenvolver, a cicatrisaç;o 
de huma superncie tão desigual será possível , e que so- 
lidez poderia ter suppondo-lhe o êxito mais feliz? To- 
das estas considerações devem decidir a praticar logo a 
amputação dos membros levados pela bala ou por ou- 
tro qualquer corpo lançado com violência ; a operação 
será feita acima da ferida muitos dedos transversos, se 
se não suspeita que. a desordem se distende até a articu- 
lação superior. Suppondo que huma bala levou o pc 
d.Las polegadas acima dos maleolos , he melhor ampu- 
tar pela coxa , do que cortar a perna no lugar de elei- 
ção. Isto seria indispensável se este ultimo membro fos- 
se ferido pelo meio de seu comprimento. O mesmo se 
deve praticar no braço , pelo que diz respeito ao anre- 
braço. Em quanto a este ultimo , separa-se da espádua , 
desarticulando o humerus. Far-se-hia o mesmo na coxa , 
relativamente á bacia, se, assustado da gravidade desta 
u cima operação, se não preferisse prarcar simplesmen- 
te o corte do osso e das carnes , o mais alto que for 
possivel. O fim , porque nos decidimos a praticar imme- 
diatamente a mutilação em hum membro totalmente se- 
parado , he de substituir a huma ferida despedaçada , 
machucada, e horrivelmente' contuza , huma simples, 
cuja superfície igual he susceptível de huma reunião mais 
prompta e interceptada por menos accidentes. 

Hum segundo caso de amputação nas feridas de 
armas de fogo se appresenta , quando no membro ferido 
se lhe notão tantas desordens, que annuciáo o sobrevir 
a gangrena inevitavelmente. Quando o osso se acha 
moido em huma infinidade de esquirolas, as carnes ex- 
cessivamente pizadas pela contuzáo a huma espécie de 

mas- 



9 f - 
massa , onde os sólidos são confundidos com os líquidos 
extravazados , a mortificação do membro he certa , 
he preciso nmpurallo logo , antes que a tormenta dos 
accidentes inílammatorios comece , e que huma febre 
ardente se origine. 

Se se perdeo o instante favorável , ou se váamen- 
te julgada possivel a conservação do membro , as par- 
tes feridas cahem em sphacello , o enfermo resiste aos 
accidentes que o asnltáo , a gangrena termina seus es- 
tragos ; he preciso amputar pela linha de demarcação , 
que se estabelece entre o vivo e o morto , esperando 
sempre que seja bem mostrada. 

Depois deste terceiro caso de amputação, he pre- 
cizo collocar o que existe , quando o inchaço inílam- 
matorio , da parte ferida , felizmente combatido pelas 
sangrias e por hum reg ; men anti-phologistico , se termi- 
na por huma suppuraçáo , totalmente prolongada , e tão 
abundante que a febre hectica purulenta ameaça os alas 
do enfermo. 

As feridas de armas de fogo podem pois conduzir 
■a necessidade da amputação nas quatro circunstancias , 
c o que aqui dizemos destas feridas se applica sem res- 
tricçáo a todas que são excessivamente contuzas , e a 
todos os casos de fracturas comminutivas. < Porém 
quem poderá decidir da possibillidade de conservar hum 
membro , ou da necessidade de o amputar ? ; qual he 
o gráo de contuzáo que torna esta operação indispen- 
sável ? Os livros não podem fornecer sobre isto hum 
preceito fixo , nem huma regra certa ; he a experiên- 
cia qcem decide: aqui, como em muitas occasió.s , 
o golp^ de vista do pratico he necessário. Ha immen- 
sas observações de pessoas que não tendo querido sub- 
mctter-se á amputação julgada indispensável , tem com 
tudo, por sc.icorros assíduos eluminozos, conservado 
o seu membro com a vida. ; Porem quantas tem sido 
victimas de huma esperança sem fundamento , e tem 
morrido , querendo tentar huma conservação impossi- 
vel! E quando mesmo que o fim do tratamento não 

te- 



95 
tenha sido táo Funesto , ; por quáo longa serie de do- 
res cruéis e graves accidentes , não compráo ellcs mem- 
bros anquilozados , atrophiados , informes, e algumas 
vezes mesmo a tal ponto mcommodcs , que depois de 
muitos annos, tem sido obrigados a reclamar a sua am- 
putação ! 

A questão das amputações praticadas immediata- 
mente tem ha 'muito tempo dividido a Academia de Ci- 
rurgia ; esta sabia companhia pareceo inclinar-se para o 
methodo da demora , quando no anno de 1756 , coroou 
a memoria de Faure , sobre a questão seguinte : " A 
,3 amputação sendo absolutamente necessária nas feridas 
„ complicadas de lascas de ossos , e principalmente as 
3 , que sáo feitas por armas de fogo j determinar os ca- 
„ sos ,onde lie precizo fazer logo a operação , e aquel- 
„ les onde convém differilla. ,, Lamarilnicre prefere 
com tudo o methodo opposto , e pensa que a amputa- 
ção deve ser feita logo depois do ferimento, antes de 
desenvolvimento dos accidentes. Era este o parecer de 
Boucher de Lilla , e as opiniões estão ainda divididas. 
Parece-me que a necessidade de amputar imme-i ara men- 
te he sobre tudo evidente , no campo da batalha quan- 
do o ferido tem a ser transportado para hospítaes mais 
arrastados. A dificuldade des transportes , a inccmmodi- 
dade dos carros de mato , nos quaes es enlermos 
amontoados , expostos' aos balanços os mais penozos , 
sáo mal defendidos contra as injurias do ar , tudo obri- 
ga a desembaraçallos de hum, membro incommodo ; as 
esquirolas cravadas nas carnes , ahi penetrão de mais 
em mais pelo movimento da carroça -, o dilaceramento 
e a contuzáo , já excessivos sáo levados ao ultimo ter- 
mo , e os feridos espirão no meio das mais acerbas do- 
res , antes de checarem ao asylo onde hiáo procurar 
sua cura, As grandes incizóes que exigem as feridas , pa- 
ra as quaes a amputação he proposta , são táo doloro- 
zas como a mesma operação , e a sua consequência 
náo.he táo certa. He verdade que a amputação pra- 
ticada no momento. 4a commoçáo geral occasionada pe- 
lo 



94 

lo ferimento , acerta menos que nos casos onde sua ne- 
cessidade he conduzida pelos accidentes consecutivos. 
< Porém quantos ind.vtduos náo termináo funestamen- 
te por accidentes primitivos , taes como a febre, a 
iniammaçao, e a gingrenaí E quando fosse verdade 
que hum terço somente de operações praticadas logo 
acertasse, não he seguro qae se salve o terço dos en- 
fermos, dilfirindo-lhe a amputação. 

< Que conducta se deve ter no tratamento das fe- 
ridas di armas de fogo , onde a desordem náo he levada ao 
ponto de fazer julgar a amputação logo indispensável , 
e nas quaes com tudo os ossos sao despedaçados , e a 
desordem considerável í As incizóes convenientes para 
debridar , para dar sahida aos fluidos derramados , assim 
como para facilitar a indagação e a extracção dos cor- 
pos exrranhos , sendo praticadas , como acima se disse , 
deve-se collocar o membro ferido sobre huma almofa- 
da de ave a , hum pano de apparelho cobrirá a almofa- 
da , e sobre este pano de apparelho serão arranjados 
gualapos , depois hum certo numero de compressas lon- 
gas. Embebe-se todo este apparelho em agua-ardente 
canforada , ou em outro qualquer resolutivo. Cura-se a 
ferida com brandas pranchetas untadas de hum corpo 
relaxante , como o cereto ordinário. Por cima destas , 
se applicão as compressas , depois as cabeças separadas 
do gualapo , como nos casos de fracturas comminuti- 
vas produzidas por huma outra causa ; estendem-se ao 
comprimento do membro três rolos de palha de aveia 
e por cima destes se applicão três talas, huma ante- 
rior e as duas outras lateraes ; estas duas ultimas teráo 
sido preliminarmente enroladas no pano do apparelho 
até os lados do membro , de mane ; ra que náo reste 
entre ellas e elle senão o espaço necessário para ahi 
pôr os rolos. Todo este apparelho será mediocremente 
apertado por hum maior ou menor numero de nastros 
que se teráo posto entre o pano do apparelho e a al- 
mofada , sobre a qual toda a parte enferma repouza. He 
preciso que esta almofada esteja posta dé maneira que 

appre- 



95 

appresente ao membro ferido hum plano inclinado do 
lado do corpo. Deste modo , o retrocesso dos humores , 
muitas vezes diiíicil pelo choque que arrasta a coramo- 
çáo , he favorecido , e se teme menos a gangrena pelo 
stase dos líquidos. 

Praticar-se-ha logo ou immediatamente huma ou 
duas sangrias, se o sugeito he moço, vigoroso; e se 
tem perdido pouco sangue , o que he o mais ordinário ; 
porque a superfície da ferida, reduzida em escara he 
sècca , huma vêz que hum grosso vazo náo tenha sido 
offendido. Nos casos de commoção e de estupor , he 
preciso abster-se da sangria , pelo contrario administrar , 
por colheres , huma bebida cordial , e prescrever por 
tizana hum vinho generoso c outros tónicos. He , co- 
mo se tem dito , huma precaução muito útil no trata- 
mento das feridos de armas de fogo ; todos os práticos , 
e sobie tudo os que tem exercido a cirurgia nos exér- 
citos , attestáo a sua efRcacidade. Consiste na adminis- 
tração de hum vomitório , antes do desenvolvimento 
dos accidentes inftammatorios , e de ligeiros evacuantes 
durante o tempo da suppuraçáo. Previnem-se por este 
modo as febres biliosas , que nascem tão facilmente na 
occasiáo de huma ferida de arma de fogo , nos guerrei- 
ros , habituados a todas as privações. , e a todos os ex- 
cessos. He raro que taes indivíduos náo tenháo as pri- 
meiras vias sobrecarregadas de matérias saburrozas , pro- 
venientes do uso de alimentos de má qualidade, e de- 
pravações de regimen , ás quaes a vida da campanha os 
obriga. A mesma necessidade existe nos trabalhadores , e 
populaça , que são conduzidos aos nossos hospitaes com 
fracturas comminutivas. 

A febre , e a imlammaçáo comummente sobrevem , 
passadas vinte e quatro horas. Precisa-se então fazer uzo 
das cathaplasmas emollientes applicadas sobre o mem- 
bro , e substituir hum cozimento de malvaisco , ou ou- 
tro qualquer emolliente , aos resolutivos , de que se tinháQ 
ptimeiro embebido as compressas e gualapos. O enfer- 
mo se adicu; deve-se ai mais das vezes prescrever- 

lhe 



y<5 

lhe bebidas aciduladas , refrescos , e diluentes , variado se- 
gundo o gosto do enfermo , e a estação em que se acha. 
Devem-se renovar cada dia as cataplasmas , e se , apezar 
destes cuidados , a inflammaçáo he levada ao ponto , que a 
gangrena a termina , espera-se que a natureza tenha , por 
hum circulo inrlammatorio , posto entre o vivo e o mor- 
to , a linha de demarcação na qual se deve amputar. 

Se ao contrario a inflammaçáo se termina pela sup- 
puração , a quantidade do puz he proporcionada á enor- 
midade da contuzáo, e da desordem. As escaras se des- 
pegáo , o puz as separa , a ferida se moditica , as es- 
quirolas se reúnem aos ossos , huma vez que tenhão 
sido incompletamente separadas. 

A enfermidade faz progressos rápidos para a sua 
próxima cura ; porém , em hum grande numero de ca- 
sos , o êxito não he tão favorável. A quantidade de 
puz, bem longe de diminuir, augmenta ; corrompido 
pelo contacco do ar , torna-se sanioso , íetido e a ver- 
dengado , de branco e inodoro que antes era. Sua abun- 
dância he tal que , apezar dos curativos os mais me- 
thodi :os e os mais próximos , a compressão expuisiva 
a melhor dirigida , he absorvido e levado na massa dos 
humores , onde a sua presensa excita a lebre hetica pu- 
rulenta. Os fragamentos ósseos banhados pelo puz , não 
se consolidáo; os suores lociss, as diarreas colliquati- 
vas , trazem o marasme e conduzem a morte , ao rim 
de algumas semanas. Quando os primeiros simptomas 
da diathese purulenta se manifestão , combatem-se pelo 
uzo interno dos tónicos , como se disse no tratamento 
das feridas que suppurão. Porém quando , náo obstante 
a administração destes remédios , os accidentes da colli- 
quação sobrevem , he preciso apressar-se de salvar a 
vida do enfermo , amputando hum membro que náo 
pôde conservar. O estado de fraqueza a que a suppura- 
ção tem reduzido o enfermo , he , assim como observa 
Bell , favorável ao suecesso da operação. Náo he preci- 
20 com tudo esperar, como quer este author, que as 
diarreas c os suores tenhão totalmente esgotado as força. 

O tra- 



P7 
O tratamento das feridas de armas de fogo apr6* 
sentáo algumas modificações relativas aos orgáos qutf 
aífecráo ; he por isto que a solução de continuidade do 
tubo intestinal , por huma causa deste género , requer - 
methodos particulares para prevenir o derramamento das 
matérias fecaes. 



E 



GÉNERO SEXTO. 

Feridas venenosas. 



Sus feridas differem essencialmente de todas as 
outras enfermidades da mesma ordem , cm que a causa 
vulnerante introduz na ferida huma matéria venenosa , 
ou a deposita na sua superfície. São as mais das vezes 
contusas pela mordedura , complicadas da prezença de 
hum principio excitante , cuja acção sobre as partes di- 
vididas j se torna' a causa dos accidentes os mais graves 
e os mais funestos. Todas as reridas deste género , se- 
melhantes entre si por esta complicação , se assimelhão 
ainda pelo methodo do seu tratamento , que se reduz 
sempre e em todos os casos , á applicação local dos 
cáusticos mais ou menos enérgicos , e a administração in- 
terna dos cordiais e dos tónicos. As causas variadas das 
feridas venenosas lhe estabelecem tantas espécies quan- 
tas vamos suecessivamente expor. 

A. As picadas feitas com a ponta de hum escalpe- 
lo embebido de hum liquido venenoso , por exemplo , 
ás que são frequentemente expostos os estudantes que 
se eritregão ás dissecções dos cadáveres cuja putrefac- 
ção está mui r o adiantada , podem ser postas no nume- 
mero das feridas venenosas. Muitas vezes com tudo , 
não seguidas de máos accidentes : quando o ferido he 
muito vigoroso j huma pequena pústula inflammatoria 
se desenvolve no lugar da mesma picada , a suppuração 
que termina esta inflammação , desnaturaliza e leva com 
sigo a matéria excitante , de que a ponta do escalpelo 
esrava embebida i porém , nos casos em que a picada 

G aco/i- 



9» 

a contece a hum moço debilitado por excessos de tra- 
balhos , ou divertimentos , ou por huma enfermidade 
antecedente , frequentemente náo se manifesta algum 
simptoma local , porém ao fim de vinte e quatro ,' ou 
trinta e seis horas , mais tarde ou mais cedo , as glân- 
dulas da axilla se engorgitáo ; hum fleimáo doloroso 
se desenvolve neste iugar. Consecutivamente a fenda se 
torna a abrir, as circumíerencias são assaltadas de huma 
inflammaçáo pouco activa , a mão offèrece huma incha- 
ção menos inflammatoria que edematosa ; as náuseas 
sobrevem com prostração de forças , o pulso se torna 
pequeno e accelerado ; todos os sinaes da febre adyna- 
mica se declaráo ; e se , long; de recorrer aos forti- 
ficarttes , evidentemente indicados em semelhantes casos , 
se põe o methodo evacuante em uso , o enfermo mor- 
re em hum curto espaço <>; tempo. O author (".esta 
obra , emregando-se as preparações anathomicas , tem 
dado impunemente muitas semelhantes peadas- Ncs in- 
divíduos robustos, o movimento excêntrico domina, e 
a natureza resiste com energia á introdueção dos vene- 
nos. 

As picadas feitas dsseccando os cadáveres de indi- 
víduos mortos de moléstias .contagiosas , e nos quaes se 
suspeita a existência de hum virus rezidenre na massa 
dos humores , náo çommunicão a infecção. Sem dúvida 
que, actividade destas sortes de venenos animaes a quem 
a enfermidade venérea , e outras devem seu nascimento , 
se extinguem com a vida. 

Em todas as picadas de que tratámos , he pruden- 
te o cauterisar iogo a pequena ferida com hum grão de 
potassa -cáustica, ou ae muriato de antimonio liquido'; 
juntando a esta precaução o uso cios tónicos , como o 
bom vinho , e conservando a Inbr cidade nas primeiras 
vias , se ha algum embaraço gástrico. 

B. Nas picadas dos insecros reputados venenosos, 
como a abelha , a vespa , a dor viva he consequência 
náo do virus que ahi pôde introduzir , mas sim do 
aguilháo que o animal crava, e deixa nas feridas. A ex- 

trac- 



99 

fracção do aguilhão , os banhos com algumas gôtaí 
d' agua de Luce e alkali volátil , misturados com o óleo 
Gommum , bastão para diminuir a dor , acalmando o 
excitamento local. He raro que phenomenos geraes re- 
sultem de picadas tão ligeiras : quando são com tudo 
muito numerosas , e produzidas por grandes vespas , 
assas cominuns em França , a febre se declara , porém 
inflammatoria , e requerendo antes o tratamenro afiti- 
phlogistico , do que os remédios fortificantes , e tónicos. 

Quando o aguilháó destes insectos encontra hum 
frete nervoso , resqltáo desta ferida dores insupportaveis. 
Me. * * * foi picada por huma vespa no. dorso do dedo 
mediano da mão esquerda. A dor foi tão viva , que 
no mesmo instante, isto he, em menos de alguns se- 
gundos , o corpo inteiro $e entumeceo , a pelle se tor- 
nou geralmente vermelha e botonoza , huma ardente fe- 
bre se desenvolveo. O professor Cabanis veio no meio 
do temor que causava hum desenvolvimento tão rápido 
de simptomas os mais terríveis ; fez mergulhar a mão 
ferida em hum banho oleoso , em que se tinha dissol- 
vido o ópio e a triaga , depois lha envolveo em com- 
pressas molhadas n o mesmo licor ; administrou-lhe ao 
mesmo tempo internamente a triaga. Passadas algumas 
horas , a febre , a vermelhidão e a inchação desapare- 
cerão ; a mão esquerda ficou algum tempo enferma : 
com tudo , ao quarto dia , de tantas desordens nada 
existia mais do que hum ponto negro no lugar da pi- 
cada. 

C. De todos os reptis venenosos da Europa , não 
ha nenhum cuja mordedura seja tão perigosa como a 
da víbora. A sua mandíbula superior he guarnecida de* 
dois dentes moveis , muito agudos para a ponta , canel- 
lados no seu comprimento , -e guarnecidos , na raiz , de 
huma visicula cheia de hum\ licor venenoso. Este vene- 
no corre ao longo da cânula dos dentes , quando o ani- 
mal excitado os abre , e os crava na parte submettida 
á sua mordedura. O perigo desta he relativo á cólera 
<Je que o reptil está animado ; porque , aperrando com 

G ii mais 



100 

mais força , exprime melhor o veneno , e destilla hu- 
ma maior quantidade delle na ferida. He também maior 
ou menor, segundo o tempo que tem passado depois 
que o reptil náo tem vasado suas vesículas por alguma 
outra mordedura. Se , algum tempo ou alguns dias an- 
tes , esta evacuação tem tido lugar ; a quantidade do 
veneno he menor , e igualmente menor sua actividade. 
A grandeza do animal , que a sente , e o gráo do te- 
mor que lhe causa esta ferida , a torna também mais 
ou menos grave. As experiências de Fontana tem mos- 
trado que a mordedura de huma só vibora basta para 
matar hum rato , hum pombo , ou outro animal de hum 
pequeno volume j seria preciso -muitas para causar a 
morte de hum homem , e hum maior número ainda , 
para causar a de hum boy ; e qualquer que seja a mas- 
sa do animal , o perigo he maior , se he atemorizado 
pelo accomettimerito do reptil-, a debilidade , que este ter- 
ror produz , facilita singularmente a acção do principio 
v destruidor. Hum cão picado improvisamente , a ofFertsa 
he menos grave, em dadas proporções, do que se se 
tivesse batido com o reptil , cujo aspecto o assaltasse de 
hum terror mais ou menos profundo. 

A gravidade da mordedura da vibora depende me- 
nos do despedaçamento que soffrem as partes , despe- 
daçamento que a forma dos dentes torna assas 4 conside- 
>rayel , do que da espécie de inoculação venenosa de. 
que he acompanhado. Os accidentes que lhe resultãò, , 
se desenvolvem qnasi immediataniente. O fendo sente 
huma dor viva , a inchação inflammatoria sobrevem ra- 
pidamente , nódoas lívidas se lhe desenvolvem , indícios 
da sua tendência á gangrena. Nauzeas , abatimentos e 
vertigens , manirestão a impressão geral , consequência 
da presença do vírus , náo que este coagule o sangue 
nos vazos , como o estabelece Fontana , debaixo de ex- 
periências illuzorias , porém pela acção especial de que 
goza , assim como todos os outros venenos , sobre o 
principio da excitabilidade. Fazer correr na ferida algu- 
mas gotas de muriato de antimonio liquido ; levar ahi 

es- 



101 

este cáustico á ajuda 'de hum pequeno pincel, quandci 
lie hum pouco profunda ; engrandecer por incisões , 
quando a cauterisaçáo do fundo náo he fácil ; fomen- 
tar os redores com huma mistura de óleo comum e 
ammoniaco , ou mesmo ter a parte mergulhada em 
hum banho oleoso 5 adminisrrar os cordiaes ; misturar 
ás bebidas algumas gotas de amonhco , ul he o mc- 
thodo mais seguro para prevenir os effeitos da picada 
das víboras. 

A separação da parte mordida he hum meio violen- 
to , porém com tudo admissível , quando a mordedura 
he feita nas extremidades dos dedos das máos , ou pés. 
Sua h^.dura , uzada pelos antigos , he hum meio segu- 
ro , porém muito doloroso , porque náo obsta a absor- 
ção cio virus e a infecção geral, senão quando he aper- 
tada ao ponto de suspender o curso dos líquidos. He 
com tudo o meio que empregou Ambrozio Pare. Ac- 
companhando a Montplier ao Rei Carlos IX. visitou 
hum boticário , em cuja caza foi mordido por huma 
vibora na extremidade do dedo index. A dor que sen- 
tio logo foi extrema ; fez huma apertada ligadura aci- 
ma da ferida , lavou esta com a triaga diiuida na agua- 
ardente , e em poucos dias a cura se effectuou. 

O essencial neste tratamento , he a prompta appli- 
cação dos remédios. He preciso prevenir a introdi-cção 
do veneno ; isto he muito mais seguro do que neutra- 
lisar-lhe a acção , quando já os seus effeitos se desten- 
dem á toda a economia. 

A mordedura da vibora , despresada , he raramen- 
te mortal , as consequências são nella somente mais gra- 
ves e mais duráveis. O óleo commum , o alkali volá- 
til , tem , em muitos casos , bastado sós a seu curati- 
vo. A Sociedade Real de Londres , e o celebre Bernar- 
do de Jussieu propuserão estes dous remédios como es- 
pecíficos ; e entre os exemplos que attestão a sua effi- 
cacia , se cita ainda o do contratador de viboras ^ que 
zombava das suas mordeduras , contentando-se só de 
fomentar a parte mordida cpm o óleo commum, be~ 

ben- 



102 

bendo ao mesmo tempo muitas onças deste licor ; e a 
historia não menos interessante de Hum estudante em 
botânica , que foi picado ena huma hérborizaçáo. Falto 
de outro qualquer remédio ,' Jussieu deitou algumas go- 
ras de agua cie Luce na ferida , e lhe fez beber huma 
colher do mesmo liquido no vehicpio de hum copo 
d' agua. Ora , a ágoa de Luce não he mais que o al- 
ibi i volátil , ao qual se mistura liuma pequena quanti- 
dade doleo d' alambre. 

A vibora commum he o reptil o mais perigoso 
das nossas províncias ; seu veneno perde sua forra du- 
rante o estupor , que a assalta nos primeiros frios do in- 
verno : torna-se igualmente menos, activo nos paizes 
do norte, òua energia augmenta ao contrario durante 
o verão e nos paizes mais quentes ; porem já mais es- 
ta actividade venenosa iguala a das serpentes que habi- 
ta o nos paizes ardentes da Africa. A prompta cauterisa- 
ção da parte mordida , e a administração dos espirituo- 
sos e do ammoniaco , a largas doses, são as únicas 
ressursas contra as horríveis mordeduras. Na cauterisa- 
çáo da parte mordida se deve evitar a profundidade , 
para poupar a ofíensa dos vazos e nervos cuja lesão se- 
ria prejudicial: a manteiga de antimonio , ou mesmo o 
cautério actual devem ser preferidos a todos os outros ; 
Sua acção he mais rápida , mais enérgica ; são mais 
próprios a decompor o veneno , e a prcvenir-lhe a in- 
troducçáo. 

D. Por muito terríveis que possáo ser as morde- 
duras das serpeares da Africa } posto que em poucas 
horas , e mesmo ao fim de alguns instantes , a parte 
ferida seja tocada do estupor e da lividez , e que bem 
depressa o frio da morte ganhe e se faça sentir na re- 
gião do coração ; estas feridas devem ainda inspirar me- 
nos temor do que as mordeduras dos animaes enraiva- 
dos- Com efFeito , neste estado de estupor e de falta 
da excitabilidade em que se achai submergido o indivi- 
duo mordi .lo pelo reptil, os approches da morte são 
menos dolorosos. He ao contrário no meio das dores 

a> 



as mais intoleráveis e das convulsões as mais horríveis, 
he oíferecendo o espetaculo o rrisis triste e o mais ate- 
morisante , que espira o homem , a. quem a mordedura 
do animal tem communicado a raiva. 

O principio desta enfermidade terrível rezide exclu- 
sivamente na saliva ; sobrevem espontaneamente nos ani- 
rmes , o cão , o lobo , o gato , sáo os mais expostos á ella 
Muitos factos autênticos ( i ) permittem náo duvidar 
que o homem náo seja igualmente susceptível da raiva 
espontânea ; no maior número de cases , com tudo , 
lhe he communicada pela mordedura de hum cão , ou 
de qualquer outro animal. Desenvolve-se nestes últimos , 
nes grandes calores do verão, ou durante os frios os 
mais rigorosos; as mais das vezes parece ser produzi- 
da pela falta de bebida ; he provável que nascesse tam- 
bém no homem , do tormento da sede levada ao ulti- 
mo gráo. O cão enraivado , primeiro inquieto e taci- 
turno , olha de hum ar espantado aos que antes prodi- 
galísàva caricias; recusa os alimentos, e o ( aspecto de 
hum liquido o faz fugir precipitadamente. Bem depressa 
se muda esta repugnância em hum verdadeiro horror 
para as bebidas, para os corpos polidos e brilhantes, 
que lhe podem acordar a idéa de hum fluido. Deixa 
então a casa de seu dono , desconhece- o , morde-o , 
lança-se furioso sobre tudo que encontra , e semea de- 
baixo de seus passos o espanto e a desolação. Suas 
orelhas e sua cauda estão cabidas e pendentes , hum a ba- 
ba escumosa inunda sua guella inflammada , e quando 
se lhe não dá a morte , esgotado de forças , suecumbe 
á raiva ao fim de dous ou três dias. O quadro da rai- 
va confirmada no homem, se compõe de sinaes mui 
análogos ; no principio triste e moroso , inquieto da 
mordedura que sofTreo alguns dias antes , hum aperto 
espasmódico da garganta lhe torna dolorosa a diglutina- 
ção das bebidas, o desgosto dos líquidos se muda em 

hor- 

fi) Vede Mcmoires de la Société royale de Mcdecine 
pour rannéVi7$3 , secoude partie. 



104 
horror, o desejo de morder se faz sentir, primeiro com 
moderação; porque tenho visto enraivados aconselharem 
que fujão delles nas aproximações da raiva. Porém bem 
depressa, furiosos e completamente alienados, procuráo 
cevarsua raiva sobre tudo o que se offerece á sua vista. Os 
olhos sáo rubros e cintilantes , a figura animada , o suor 
inunda seu rosto , todo o corpo he agitado peias con- 
vulsões , e o enfermo morre na deligencia de se uespren- 
der dos laços, em que o tem envolvido para o conter. 

He preciso a união de todos esze, simptomas para 
caracterisar a raiva ; unicamente o horror dos líquidos náô 
basta para estabelecer sua existência ; com eííeite , ten- 
se observado esta hydrofobia em certas afFecçóes nervo- 
sas , e nas afFecçóes gangrenosas da garganta. O dese- 
jo de morder não he também hum sinal pathognomi- 
co ou essencial , por quanto esfaimados e maníacos sáo 
atormentados por este desejo , e voitáo algumas vezes 
contra si mesmo seus dentes homicidas. Porém i reu- 
nião do horror dos líquidos e o desejo de morder ao 
estado escamoso da boca, e á agitação convulsiva, não 
deixáo alguma duvida sobrj a verdadeira natureza da 
raiva. He muito importante o decidir com certesa em 
huma enfermidade que requer a pronapta applicação de 
remédios os mais activos e os mais dolorosos. Muitos 
médicos tem pensado o haver acercado em prevenir , ou 
mesmo obter a cura da raiva, no tempo em que se ha- 
via declarado , mas he porque julgarão mui ligeiramen- 
te a sua existência. Nenhum facto certo mostra com 
tudo a possibilidade da cura na raiva bem confirmada. 

A inspecção cadavérica das pessoas, que morrem da 
raiva , não tem mostrado cousa alguma importante so- 
bre o assento essencial da enfermidade ; a pharinge tem 
sido encontrada , em alguns , n' hum estado de inflam- 
mação ; em outros estava tocada da gangrena ; porém 
em muitos nenhuma lesão oírbrecia. O mesmo acon- 
tece no cérebro , na medulla espinhal , nos seus envolvi- 
mentos membranosos , e em algumas outras partes , cu- 
jo estado de pblogose ou de infiltração náo tem sido 

obser- 



105 
observado em hum grande número de casos para que 
se possáo notar estas alterações copio causa ou como 
effeito constante da enfermidade. He na saliva que re- 
side exclusivamente o veneno da raiva. ^ Ha homens 
que sem algum perigo , se tem nutrido co'm a carne de 
boys e porcos enraivados ; e quando hum animal mor- 
de cm poucos minutos hum grande número de pessoas, 
de forma que exgote a baba venenosa nos primeiros, 
os últimos náo soffrem senão feridas contusas ordiná- 
rias ; quando a mordedura acontece em huma parte co- 
b^rra de espessos vestidos que o dente do animal náo 
pôde completamente rasgar , na ferida se náo desenvol- 
vem outros accidentes mais do que os inseparáveis de 
huma contuzáo ou puxáo considerável. Nos casos em 
que a pelle se náo rompe , o contagio náo tem lugar. 
He com tudo provável, que o só contacto poderia ser 
perigoso nos lugares aonde o epiderme he mais delga- 
do e habitualmente humedecido, como nas bordas li- 
vres dos lábios ; tal vez , como o veneno da víbora , 
a que excede com tudo muito em actividade o da rai- 
va , poderia ser engolido impunemente : não he ultima- 
mente seguro que o único interesse da curios'dade te- 
nha obrigado algum á tentar esta perigosa experiência. 
O principio da raiva huma vez introduzido nos 
nossos humores , pôde muito tempo existir abafado , 
e náo manifestar sua presença por algum sinal. A mor- 
dedura se cobre de huma cicatriz ; porém ao fim de oi- 
to , dez, quinze, vinte dias, hum ou muites mezes, 
dores na parte mordida annunciáo a presença deste hos- 
pede formidável ; a este phenomeno local se ajunta hum 
sentimento de fadiga e de anciadade , precursor certo 
da enfermidade. Sauvages refere na sua dissertação so- 
bre a raiva , huma historia que prova quanto o virus 
hydrophobico pôde existir muito tempo sem manifes- 
tar sua existência , e de que poder gozão as affecçoes 
d'alma , para apressar ou mesmo produzir seu desenvol- 
vimento. Dois irmãos que trabnlhaváo jnntos em hu- 
ma vinha , foráo mordidos ; a ferida se cicatrizou ; hum 

dei- 



io6 
delles parte para paizes distantes , ahi se demora mui- 
tos annos , e torna para o seu. Alguns tempos depois 
da sua chegada, sabe que a' morte de seu irmão tinha 
acontecido depois da sua partida , e qfie havia sido cau- 
sada pela raiva. Vivamente tocado do perigo que tinha 
participado , este homem se torna inquieto e sombrio ; 
sinaes da hydrophobia se declaráo no meio da profun- 
da melancolia de que he possuído , e o desgraçado ex- 
pira com todos os simptomas da raiva a mais comple- 
ta. 

Os actos da Academia das Sciencias de Copenha- 
gue encerráo huma observação que renderia a provar 
que , para a infecção , não he absolutamente rjecessa- 
tio que a pelle seja dividida , e que o simples contacto 
da saliva de hum animal enraivado basta a inoculação 
do virus. Hum cão assaltado d? hydrophobia , porém 
que não experimentava ainda o desejo de morder , lam- 
beo os pes e as mãos de seu dono. Mo dia seguinte, 
tendo-se declarado inteiramente a taiva no animal , o 
homem se torna melancólico c triste; foi assaltado do 
horror dos líquidos , e immediatamente da raiva a mais 
declarada, j Este facto provará que o virus hydropho- 
bico se introduz nos nossos humores pelo caminho da 
absorção ? Muitos authores pensão que a virulência des- 
te humor he táo activa , que lhe fecha as bocas inhá- 
lantes , e que a transmissão de sua influencia tem lugar 
ao longo dos nervos. Ke efectivamente ao longo dos 
cordões nervosos que a dor se propaga , quando as do- 
res intensas se fazem sentir no tecido das cicatrizes. 

A Therapeutica das mordeduras feitas pelos ani- 
maes enraivados he absolutamente a mesma que a das 
outras feridas venenosas. ' Somente , como o veneno he 
mais activo e mais temível , não se saberia muito apres- 
sar-se o neutralizar pela cauterização as feridas , opera- 
ção que convém praticar com o muriato de antimonio 
liquido, e na qual convém queimar mais que menos, 
deve-se cauterizando tanto quanto se julga necessário , 
queimar hum nervo ou hum vaso de hum certo calibte. 

O pe~ 



O perigo he certo , a morre horrorosa ; j quem não 
prefere á hydrophobia , a deformidade , e á mutilação 
a queimadora ? Os antigos nestes casos empregavão o 
cautério actual. Leroux de Dijon pensa que os cáusticos 
líquidos lhe são preferíveis, porque atemorisão menos 
os enfermos, e são mais fáceis a applicar. Quando pois, 
vos-ccnduz ; rem huma pessoa mordida por hum animal 
o^ue se suspeite enraivado , qualquer que seja o número , 
a situação , a extensão , e a profundidade das feridas , 
levai áhi ousadamente o muriato de antimomo liquido , 
reduzi em escaras suas superfícies sanguinolentas 4 e 
combinando assim o sal cáustico com os fluídos e a 
baba venenosa deposta na superfície da ferida, lhe neu- 
traiizaes os seus efleitos ; ao mesmo tempo deveis ap- 
plicar-lhe sobre a ferida assim cauterizada e sobre suas 
circunferências , hum largo emplastro vesicatório , que 
excite a ínHàmmaçáo , huma suppuraçáo pela qual a 
escara seja lançada fora e a parte desengorgitada do 
principio venenoso de que tirrha podido ser impregnado. 
He preciso entreter esta suppuraçáo abundante, proion- 
gando-lhe sua duração , pelo uso de emplastros suppura- 
tivos , e 1 mesmo reiterando a applicaçáo dos cáusticos. 

He no tratamento local que essencialmente consis- 
tem es principaes meios da cura. São mesmo os úni- 
cos de que muitos pi áticos fazem uso. Com tudo o 
maior número ahi ajunta a administração interna do al- 
kali volátil, e dos mercuriaes. 

As sangrias aconselhads pelos que não viá.o na 
raiva senão huma affecção inflammatoria , os aritipas- 
moaicos louvados pelos que a consideráo como huma 
afrecção nervosa , a immersáo precipitada e inesperada 
do enraivado na agua fria , seja doce , ou salgada , são 
outros tantos meios infiéis, e que devem ser igualmen- 
te excluídos do tratamento prophylatico e curativo. 

Sendo a cauterização das mordeduras o principal 
remédio contra a raiva , e mesmo o meio único de 
que se tenha obtido hum suecesso evidente e certo , 
quando se faz a tempo a applicaçáo delie , precisa-se 

prés- 



io8 
prestar todos os cuidados. He necessário engrandecerem- 
se as feridas profundas , enchellas de lichinos embebi- 
dos no muriato de àntiraonio liquido , levar o lerro em 
braza sobre a mordedura onde a applicaçáo dos cáusti- 
cos seria perigosa , nos lábios , e na boca f por exem- 
plo : o cautério actual he igualmente preferível para tor- 
nar a abrir as cicatrizes. 

Terminando este artigo ; he preciso trazer á lem- 
brança que náo se possue memoria ou exemplo de cu- 
ra da hydrophobia bem declarada ; he pois a prevenir , 
^ntes que a combater esta moléstia terrível , que deve- 
mos prestar rodos os nossos cuidados. 

K. As íeridas feitas por instrumentes envenena- 
dos , pela ponta dos dardos ou das ílexas molhadas em 
qualquer veneno , exigem absolutamente os mesmos 
meios. He sempre a neutralisar o veneno no lugar em 
que foi deposto , a prevenir sua iruroducção na massa 
dos humores , que se deve principalmente estudar , e 
quando se não tem sido assas feliz para obter este fim 
desejável , pela prompra applicaçáo dos remédios , he 
a suster as forças da natureza , pelo uso dos cordiaes 
e dos tónicos os mais poderosos , que he preciso pôr 
todos os seus cuidados. Os venenos misturados aos hu- 
mores , ou levando simplesmente sua acçáo sobre o 
principio da excitabilidade , a affectáo de numa manei- 
ra estupefaciente e destruidora ■■, a reacção vital he imper- 
feita , se senão provoca , e se senão sustenta por meio 
dos excitantes os mais enérgicos. Hum dos remédios de 
que se tira melhores consequências he o ammoniaco 
misturado nas bebidas , augmenta as forças circulatórias , 
empurra-as vivamente ;-í pelle , e provoca suores abun- 
dantes e saudáveis. Deve-se ter huma grande circunspec- 
ção na quantidade do alkali volátil que se junta «-is be- 
b das amargas , esperituosas ou aromáticas. Vinte ou 
trinta gotas de alkali , bastão , para se lançarem em 
huma canada de vehiculo : raramente haverá precisão 
de dobrar a dose. 

As feridas por dardos envenenados eráo^ frequentes , 

an- 



109 
antes do uso das armas de fogo e invenção da pólvora- 
hoje , só sáo conhecidas entre os povos selvagens^ sem 
commercio .com as nações civilisadas. Os Psyllas cura- 
váo estas sortes de feridas , chupando-as no mesmo mo- 
mento que acabaváo de acontecer , este chupamento 
obrando á maneira das ventosas , atrahia eficazmente 
o veneno para o externo , e as feridas reduzidas á con- 
dição das simpleces , curaváo-se por suppuraçáo. Este 
meti iodo poderia ser empregado ainda em muitas occa- 
sióes , taes , por exemplo , nas mordeduras das víboras. 
As experiências do abbade Fontana prováo que o vene- 
no deste reptil sem acção sobre as membranas musco- 
sas , não he perigoso senão nos casos que ahi ha rom- 
pimento (i): porém este procedimento, o da ligadura 
das partes mordidas , apertada até o ponto de impedir o 
ascenso dos liquidos viciados pela sua mistura cor- o vene- 
no > sáo menos seguros que a cauterização indicada. He a 
mesma razão a respeito dos banhos de vinagre, d'agua 
salgada , d'agua de sabão , aconselhados em todos os 
casos de feridas venenosas. Conjura-se mais seguramen- 
te o perigo , em recorrendo logo aos meios mais eflica- 
zes , em quanto que se comprornetrem os dias do enfer- 
mo , pendo em uso methodos duvidosos. Hum só meio 
participa como a caucerisaçáo , a honra de ser olhado 
como especifico nas feridas venenosas , quando a sua 
applicaçáo he feita em tempo útil ; he a separação da 
parfe ferida ; mas conhece-se facilmente qne hum tal 
procedimento não he applicavcl senão nas mordeduras 
feitas nas orelhas , na ponta des dedos , nos lábios , e 
que pelas mutilações , ás quaes este methodo expõe , 



seu 



(O Celso havia muito tempo tinha feito esta observação, 
o exemplo dos Psyllas , diz elle bib. 5 , cap. 27 , prova 
que se 'pôde chupar sem temor o veneno , com tanto que 
senão tenha alguma greta nos beiços , alguma ulcera nas 
gengivas , nem em outra qualquer parte da boca. ,, lllad 
aiitem debet OtteirSere , ne ijuod In gir.gi-Jts , pahteve , alia' 
ve Lfirtt oris uUus habeat. 



IIO 

seu uso convém mais a medecina veteronaria , no trata- 
mento dos animaes domésticos. 

ORDEM SEGUNDA. 

Ulceras em geral. 

lj A entre a ferida e a ulcera , esta diíFerença carac- 
tiristica , e notável, que a primeira, produzida por nu- 
ma causa externa , tende essencialmente á cura , e se ef- 
fectua pela successáo natural de seus perlo dos , quando 
nada lhe desaranja a marcha , e não lhe inverte o curso , 
he huma enfermidade aguda tendente a huma solução 
feliz. A ulcera he ao contrario huma affecçáo crónica , 
produzida ou entretida por huma causa interna ; a solu- 
ção de continuidade não he aqui a enfermidade princi- 
pal ; não he senão o simptoma de huma affecçáo inter- 
na , local , ou geral , disposição interior a que a ulce- 
ra he devida , ou que impede a cicatrização. 

Esta idéa sobre as ulceras differe muito da defini- 
ção que dão delias todos os authores. Segundo elles , 
a ulcera he a solução de continuidade que fornece pus , 
de maneira que olháo como ulcera roda a ferida suppu- 
rante, Bell , no seu tratado das Ulceras , trata debaixo 
de nome de ulceras simpleces , feridas que s-aráo por sup-< 
puração. Esta obra que adquirio a seu author huma re- 
putação que não tem. augmentado seu tratado de Cirur- 
gia , he ainda hoje , apezar de sua insufficiencia , a me- 
lhor obra ex professo sobre esta matéria. 

As classificações das ulceras , propostas até hoje , 
sáo tão deíFectuosas como sua nomenclatura. He humas 
'vezes depois de hum simptoma, que a denominação he 
imposta , e daqui procedem as ulceras phagdcnicxs , ou 
corrosivas , porque se estendem , apezar dos remédios , 
e destroem ao longe as partes ulceradas ;■ tem também 
recebido o nome de lupas , quando seu assento he nas 

per- 



Ill 

pernas (i); ccmo ainda o chamarem -se cacoetas , e sor» 
didas , quando hum puz abundante e sanioso corre del- 
ias. Outras vezes , he de huma tradição fabulosa que 
o nome he tirado ; he por isto que certas ulceras eráo 
chamadas tbeUphianas , porque se pertendia que Tele- 
pho , ferido por Achilles , teve huma ferida de má na- 
tureza j cbhoniãnas , porque se julgava a habilidade de 
Chiron , nqeessaria para as curar ; o nome podia ainda 
ser tomado de hum accidente ou complicação de ulce- 
ra , tal era o caso das ulceras verminosas ; ou da seme- 
lhança grosseira que se julgava encontrar entre a ulce- 
ra e hum animal , como num cancro , por exemplo. 
Não nos demoraremos admonstrar os vicios de huma 
nomenclatura , cujas bases são tão frívolas como varia- 
das ; já mais indicaremos as divisões admettidas : eis- 
aqui as que julgamos dever-lhes substituir. He preciso 
primeiro excluir defuma divisão methodica de ulceras , 
todas as que sáo essencialmente s : mptomaticas , e de- 
pendentes de huma outra enfermidade ; neste número 
devem ser arranjadas todas as fistoías entretidas pela 
perfuração de htm reservatório e de hum conduto ex- 
cretorio qualquer que seja , taes sáo as fistoías lacri- 
maes , salivares, estercoraes , ourinarias ; he o mesmo 
ò?s aceras que a carie dos ossos entretém e produz ; 
; com ) se ha de separar delias a historia das de que tem 
carie ? As ulceras que restão a classificar são , na ver- 
dade , o mais das vezes simpromapcas ; seu curativo exi- 
ge sempre o tratamento da enfermidade principal : he 
por isto que as ulceras venéreas cedem pela administra- 
ção dos antisyphiliticos , que hum regimen fortificante, 
e tónico acerta nas que entertem o escorbuto : porém es- 
tas ulceras são frequentemente o só effeito destas enfer- 
midades , que entráo então no domínio da cirurgia , ain- 
da 



( i~) Os antigos davão este nome as ulceras das pernas em 
€jue havia anniquilamento de substancia ,• comparando-as aos 
lobos devoi^g.010, 

Not. do Traduc. 



112 

da que a medicina as tenha comprehendidas nas classi- 
ficações das moléstias internas. Em fim ha ulceras que 
dependem do relaxamento local dos sólidos, taes são 
aquellas , a que damos o nome de atonicas. 

As ulceras" , arranjadas segundo suas analogias , 
fórmáo oito géneros bem destinctos : vamos tratar del- 
les suecessivamente debaixo dos nomes : 

DE ULCERAS — Atonicas. , 

Escropbulosas. 

■ Scorbiuicas. 

. Venéreas. 

' Herméticas. 

■ ■ Carcinotnatosas. 

, Tinhosas. 

• ■ E Psorkú 



GÉNERO PRIMEIRO. 

Ulcetas Atonicas. 

Este género se póe todas as ulceras, que náo são 
complicadas de alguma affecçáo geral. Poder-sehiáo cha- 
mar simpieces , se náo fosse melhor tirar a sua denomi- 
nação do estado ' dos sólidos na parte aíFectada. Estas 
ulceras dependem principalmente de hum estado de re- 
laxamento local ; sáo ligadas a atonia da fibra , e pa- 
recem entretidas por esta falta de tom. Seu assento he 
espicialmente nas pernas , partes afastadas de centro cir- 
culatório , por consequeucia , menos vivas que os ór- 
gãos mais próximos dos principaes focos do calor e da 
vida. 

Das duas pernas , a esquerda he mais vezes ulcera- 
da que a direita. Esta observação náo escapou a Pou- 
teau : posto que a perna direita se aprezeme a primei- 
ra, diz este Cirurgião, e que seja em consequência 

mais 



mais expostas ás injurias exteriores, com tudo obser- 
va-se que , i\e dez ulceras nas pernas sete são na esquer- 
da. Tenho tido frequentes occasióes de verificar esta ob- 
servação -., as mais numerosas me tem sido fornecidas 
pelo exame dos rapazes submettidos á conscripçáo mi- 
litar. Tenho constantemente encontrado que as affec- 
çóes crónicas por debilidade eráo mais frequentes so- 
bre o lado esquerdo , do que sobre o direito. Pelas dis- 
posições a nathomicas he que se pôde explicar a prefe- 
rencia porque affectáo estas moléstias o lado esquerdo 
do corpo: a compressão dos vasos espermaticos do la- 
do esquerdo, que sobem pela parte posterior do S. 
iliaco do cólon muitas "vezes cheio de matérias fecaes 
endurecidas deve na verdade tornar mais frequentes os 
varicoceles , cirscceles , hydroceles do lado esquerdo ; 
' ( porém como daremos a razão da differença que exis- 
te entre as duas extremidades inferiores , para a frequên- 
cia de suas enfermidades ? Partes absolutamente seme- 
lhantes entráo na sua formação ; não se pôde pois en- 
contrar a causa da fraqueza relativa da perna esquerda , 
senão em sobindo a esta distineção acmittida por mui- 
tos authores , do corpo do homem em duas metades se- 
paradas por huma linha mediana (i), verdadeiro limi- 
te entre o homem direito e esquerdo (2) na qual se termi- 
náo certas aftècçóes , como a hemiplegia , algumas ic- 
tericias , &. Ora , he da observação constante que a me- 
tade esquerda do corpo he mais fraca que a direita , e 
esta debilidade relativa , existente , ou no estado de saú- 
de , ou no da enfermidade, he devida ao habito con- 
trahido desde a infância , de exercerem* preferivelmente 
o lado direito do corpo , e não á estruetura primitiva 
dos órgãos. Este exercício , como o explicámos em ou- 
tra parte (2), augmenta o volume dos órgãos, porque 
H fa- 



(1) Borcíeu. 

(2) Dupuy. De homine dextro et senlstro. Lugduni Ba- 
tav. , 1 i^c. 

(O Nouveau.V Elcmens de Physilogie , tome 1. 



H4 
vorece a assemelhação dos sucos nutritivos , e dilata os 
vasos chamando numa maior quantidade de sangue ás 
partes. 

A coxa , a perna , e o pé esquerdo tem , em quasi 
todos nos homens , menos volume e menos força que as 
mesmas partes do lado direito; igualmente, a artéria 
curural direita , e as subclávias do mesmo lado , são de 
hum calibre mais considerável que as do lado esquerdo: 
a distribuição do sangue he pois desigual , e a desa- 
vantagem he para o lado onde a vida he menos inteira , a 
acção orgânica mais languida. Não sejamos pois surpre- 
hendidos que as ulceras nas pernas existáo commumen- 
te do lado esquerdo. A ulcera atonica deve afíèctar es- 
pecialmente o membro donde a fraqueza faz o caracter. 

Os indivíduos obrigados por sua profissão a estar 
habituaLmente de pé , taes como os impressores ; os ceie 
sobre tudo , além desta posição vertical , a qual raz das 
pernas a parte do corpo a mais declive , e torna mais 
difficil o ascenso da lympha e do sangue das vêas , tem 
as pernas expostas á acção de hum forte calor , como 
os cosinheiros; e mais ainda os que as tem continua- 
damente mettidas na agua fria , como os lavandeiros , os 
obreiros empregados nas conducçóes de madeiras , ofrere- 
cem as mais das vezes ulceras atonicas. Os caminhantes 
que fazem a pé longas viagens , são facilmente atacados 
delias", principalmente se tem alguma cicatriz , cujo rom- 
pimento dá sempre lugar a numa ulcera deste género. 

Huma inflammação devida antes a erisipela do que 
ao fleimão , precede seu estabelecimento ; a pele se tor- 
na rubra e se entumece ligeiramente com huma dor hu- 
mas' vezes viva , outras vezes pruriginosa , e então mais 
agradável que incommoda. Por esta inflammação , que 
Joã" Hunter chama ulcerativa , a acção dos vaso sab- 
sorventes da parte se torna viciosamente augmentada , 
de sorte que estes vasos , err.rrregados como se sabe de 
absorverem os mesmos sólidos , decompostos pelo movi- 
mento nutritivo , destroem a pelle em huma extensão 
mais ou menos considerável. Toda a ulcera produzida 

por 



"5 

por huma causa interna , depende de huma' verdadeira 
erupção da substancia organisada. Por isso Galeno , Am- 
brozio Pare , Barbette , Etmuller , e todos os antigos pa- 
thologistas , tem , com razão , feito entrar este modo de 
destruição nas definições que tem dado da ulcera. Nes- 
ta absorpção ulcerativa o enfermo experimenta huma dor 
tanto mais viva , quanto a erupção he mais rápida , e 
esta dor ardente , análoga á que produz a acção do bis-* 
turim , acompanha a destruição da pelle em todas, as ulce- 
ras herpeticas, venéreas, escorbuticas ; he muito fraca 
nas ulceras escrofulosas , cuja formação he tãobera 
muito lenta. 

Estas idéas sobre a producçáo das ulceras será» 
reconhecidas pelos que tem reflectido sobre o mecanis- 
mo da absorpção. Esta função se exerce em todas as 
partes da substancia organisada ; por ella o solido vi- 
vo he incessantemente destruido e renovado. Gasta 019 
sensivelmente o thimos, a membrana pupilar, os cor- 
pos das vértebras na espécie de carie conhecida debaixo 
do nome de mal de Pott , e nada resiste á decomposi- 
ção nutritiva de que os absorventes são encarregados. 
Nenhuma duvi h ha que estes vasos , excitados por 
huma causa qualquer que seja , possáo voltar sua acti- 
vidade contra a pelle, e dar lugar, destruindo-a , á for- 
mação de huma ulcera. A erupção he accelerada , por- 
que o enfermo acha algum alivio em coçar a parte on- 
de sente huma cocega agradável. 

O tecido cellular subcutâneo , descuberto pela des- 
truição do dermes, se excita e suppura , botões carno- 
sos se desenvolvem , a ulcera cresce e se alarga pela 
destruição de suas bordas. Quaado se torna estaciona- 
ria, estas bordas experimentão huma tumefacçáo mais 
edematosa , do que inilammatom , visivelmente devida 
ao relaxamento dos sólidos , assim como á difficuldade 
com que os humores retornáo ao centro da circulação. 
Este engorgitatnento subsiste durante fcum certo tempo , 
as bordas da ulcera se tornão calosas pela prolongada 
inílammação , o mal se eternísa por falta de cuidados: 
H ii o maior 



ií6 
d maibr fiurnero dos que são afFectados delias , dados 
o penosos trabalhos , não os interrompem senão obriga- 
dos ; por isso náo he raro ver nos hospitaes homens 
trabalhadores com ulceras nas pernas , com antiguidade 
de mezes , e ás vezes de annos ; os cuidados que lhes 
prestáo he apenas mudarem todos os dias os pannos 
em que as trazem envolvidas , vagão ás suas occupaçóes 
e só no momento , em que excitada pela fadiga a ulce- 
ra se inrlamma , ou cahe em gangrena , he que recla- 1 
mão nossos cuidados. A ulcera he então babosa e lívi- 
da , algumas vezes os vermes se ajuntáo ao tédio que 
inspira seu aspecto ; esta complicação nasce da porca-- 
ria , e náo pede servir de fundamento para admitrir as 
ulceras verminosãs , como o tem feito alguns authores , 
os insectos depõe sobre a ulcera os germes , de que es- 
tes sahem ; curativos su Eficientemente repetidos, banhos 
continuados , os destroem em poucos diaá. 

O aspecto livido das ulceras nas pernas depende da 
difficuldade do retrocesso do sangue que circula nos pe- 
quenos vazos da superfície ulcerada. Ora , este flnido 
se torna mais escuro na cor pela demora de seu curso , 
e todo o vagar , ou demora fazendo ahi predominar o 
hydrogénio e o carbonato , lhe dá as qualidades vene- 
nosas. Quando o excitamento he vivo na ulcera, a cir j 
culaçáo he accelerada nos capilares , e as carnes sáo ru- 
bras e vermelhas , porque o sangue conserva e marufes- 
ta as propriedades do que corre nas artérias. Basta que 
hum enfermo , com huma ulcera na perna , deixe por 
hum momento a posição horisontal , e tenha o menv 
bro pendente , ou se apoie sobre elle , para que os bo- 
tões carnosos tomem a cor roxa, e livida- 

Esta influencia da posição da perna sobre á ulce- 
ra donde ella he o assento , vos faz facilmente pres- 
sentir que he a dar sobre tudo a este membro hu- 
ma situação vantajosa , e tal que favoreça o retrocesso 
dos liquides , que he preciso especialmente ligar-se no 
tratamento. Também, se tem dito bastantes vezes e não 
se poderia repetir muitas, que o repouso e a posição 

ho- 



"7 

horizontal da parte sáo os melhores remédios nas ulca- 
ras das pernas , recentes ou inveteradas , sobre tudo 
quando tem feito grandes progressos por huma longa 
marcha ou qualquer outro exercício penoso. 

A este meio hygienico he preciso ajuntar a appli- 
cação de huma larga cataplasma sobre as circumteren- 
cias da ulcera, a* rim de dissipar o excitamento e en- 
gorgitamento inflammatorio que assalta suas bordas. Os 
fíos seccos sáo o melhor tópico que se pôde applicar so- 
bre a ulcera ; limpáo a matéria purulenta que cobre a 
superfície ulcerada. He preciso puiverisar as pranche- 
tas com a kina , ou untallas com unguento storaque , 
quando no fundo da ulcera estão formadas escaras gan- 
grenosas. A cataplasma que se põe sobre as bordas r 
penetra igualmente pelos fios de que a ulcera esta co- 
berta. He útil applicar, durante alguns dias esta mesma 
cataplasma imnieJiatamsnte sobre a ulcera, logo que a 
dor e o excitamento seja excessivo. 

As primeiras vias sáo ordinariamente embaraçadas ; 
hum vomitório he as vezes bem indicado , fazendo-lhe 
succeder o uso das bebidas laxativas ; a inflamrnação se 
dessipa , as bordas duras e elevadas se embrandecem , 
desengorgitáo-se , abatem-se , e por este abatimento , 
sua extensão parece algumas vezes diminuída quasi me- 
tade em dois dias. Reduzida a este estado de simplici- 
dade , exige então o mesmo tratamento que as feri Jas , 
que suppnrão , e securáo como ellas , havendo as ligei- 
ras differenças que vamos indicar. 

O relaxamento local ou geral dos sólidos sendo a 
causa pela qual a ulcera he entretida ou produzida , he 
que se precisa combater , huma vez que os accidentes 
inflammatorios estejáo dissipados. A administração inter- 
na dos cosimentos amargos , de vinho , de kina , os pós 
desta mesma casca , ou seu extracto ; o uso moderado 
de hum vinho generoso; as preparações antiscorbuti- 
cas ; a applicaçáo das pranchetas feitas de algodão, ou 
de láa, ou bem de fios molhados em hum cosimento 
detersivo ; banhar a ulcera com agua animada com al- 

kool , 



n8 
kool ; vinagre ou moriato de soda; o excit amento gal- 
vanico da superfície ulcerada ; taes são os meios que se 
devem por em uso p.ra dar a todo o systema dos sóli- 
dos , e especialmente ao da parte enferma , o gráo de 
tom e de energia , de que tem precisão para a melho- 
ra. 

Como as ulceras atonicas tem frequentemente hu- 
jna extensa superfície, e se estendem a maior parte da 
perna , de quem tem ccrroido a pel e , a natureza pro- 
cede na sua cicatrização como na ossiíícação fios ossos 
largos , e do mesmo modo que os núcleos os:;eos se 
desenvolvem em muitas partes destes ossos , do mesmo 
modo , a cicatriz começa ao mesmo tempo em diversos 
lugares da ulcera, e se continua para as bordai. A so- 
lidez da cicatriz exige que a sua formação não seja 
mui prompta ;, vemos muitas vezes huma delgada peli- 
cula .avermelhada formar-se sóUe largas ulcer s , nos 
intrevalios dos curativos , e destruir-se com a mesma 
rapidez. 

Os curativos de huma ulcera não devem ser nem 
muito frequentes , nem muito remotos. Talvez exis- 
tão maiores inconvenientes em repetillos , que em di- 
minuir-ihe o numero. Magatus cita o exemplo de hu- 
ma npariga que curou de huma larga ulcera na coxa , 
cutando-a de três em três dias , quando o curativo ti- 
nha r.ntes sido repetido duas vezes cada dia sem frueto. 
Pare teve a mesma condueta , e obteve os mesmos re- 
sultados no tratamento do Senhor Fandenil ; po* isso 
não quer que se descubrão as ulceras muitas vezes. 
Igualmente não adopta o methodo de limpar as ulceras 
da matéria que as cobre. 

Não se pode fixar positivamente o intervallo que 
deve aparar cada curativo ; he verdade ser vantajoso 
o curarem-se huma vez cada vinte e quatro horas ; po- 
rém he evidente que os curativos devem ser mais fre- 
quentes ou mais demorados , segundo a quantidade de 
puz que corre da ulcera, suas qualidades, o gráo de 
excitamento dos sólidos , a estação , e ò clima. Assim , 

cu- 



curai meios vezes huma ulcera cuja superfície he ver- 
melha e sanguinolenta, porque está mtii excitada 5 mul- 
tiplicai os curativos, se fornece huma enorme quanti- 
dade de puz , cuja reabsorpção he á temer , ou se o 
calor da estação c do clima, apressando a depravação 
'deste liquido, torna a presença do apparelho perigosa 
ao enfermo , pelo horrível fétido que exhala. _ 

Náo enxugueis escrupulosamente os botões carno-> 
sos , senão nos casos onde a acção vital he Linguiça : 
a demora prolongada da matéria purulenta extinguiria o 
excitamento ; a esfregaçáo mecânica exercida sobre a 
ulcera , quando se limpa , entretém além disto este ex- 
citamento no gráo conveniente, quando "he sufticiente ; 
lurr.a limpeza" muito exacta da parte, náo faria senão 
augmentallo. Applicai tiras de panno de linho fino un- 
tadas de ceroto á roda da ulcera , afim de que os fios 
que se pegão ás suas bordas á medida que se desecão , 
náo obriguem á puxões dolorosos , e não arrastem comsigo 
1 icatriz , que a natureza formaria em vão se o artis- 
ta pouco hábil destruísse cada dia sua obra. 

:istindo o' relaxamento dos sólidos ao mesmo 
temp:> em todas as partes da perna , náo admira que 
as veias subcutâneas se dilatem pela accumulação do 
sangue , c que as ulceras atonicas sejão muitas vezes 
complicadas do estado varicoso destes vazos. Esta com- 
plicação forma huma variedade de ulcera atonica ; po- 
rem náo estabelece huma espécie particular , como o 
tem pensado os authores que as tem ilescripto debaixo 
do nome de ulcera vaticosa. Havendo varizes com a 
ulcera atonica , ensanguentáo algumas vezes sua super- 
fície pela rotura dasveas dilatadas. Este accidente exi- 
te que se ajunte aos meios curativos indicados o uso de 
unia compressão moderada. Esta se faz com huma 
atadura enrolando-a desde os dedos dos pés até a parte su- 
perior da perna. Theden e Desault tirarão deste methodo 
<*randes vantagens ; virão que fazendo uso da atadura nas 
ulceras não so nas complicadas de varizes, como tão- 
bem naauellas\ cujas bordas endurecidas e tornadas calo- 
sas 



120 

sas por hum prolongado excitamento se desengorgitavão 
com custo , ella lhe accelerava o cicatrizar-se. Esta com- 
pressão, exercida sobre toda a extensão do membro, 
deve com efrejto levar a pelle para a superfície ulcera- 
da , depremir as bordas , e , por consequência , dimi- 
nuir-lhe a extensão. 

Hum cirurgião Inglez empregou com bom succes- 
so os emplastros agglutinarivos na idéa de dirigir a pelle 
para a superfície descuherta pela erosão ulcerosa. Fiz 
uso do mesmo meio e observei em todos os casos que 
avança evidentemente com muitos dias de antecipação 
a inteira cicatriz < Porém esta terminação da moléstia 
he sempre desejável, e póde-se tentar sem perigo o cu- 
rativo de todos os géneros de ulceras ? 

Estamos chegados a huma questão lia muito tem- 
po e vãamente agitada ; porque participa ainda d'<\ opi- 
nião dos pathologistas- < Devem-se curar tod.is as ulce- 
ras ? Esta questão tem o inconveniente de orTerecer 
hum sentido mal determinado , como o maio;* numero 
das proposições geraes , e he á indeterminação que apre- 
senta , que devem ser attribuidas as discordâncias dos au- 
thores que tem emprehendido responder a ella. Seria 
absurdo duvidar se se deve tentar a cura de huma ulce- 
ra scorbutica , escrophulosa , venérea , dartrosa , carci- 
nomatosa , psorica ; isto seria perguntar se se deve , 
rratar e curar o escorbuto , as escrophulas , a syphi- 
les , &c. Por isso observai que trabalhando sobre a ques- 
tão proposta , quasi todos os authores não tem fallado 
senão de ulceras simplices sem complicações , unica- 
menre dependentes de hum relaxamento geral ou local : 
em huma palavra , das ulceras que comprehend mos 
neste primeiro género, debaixo do nome de atonicas. 
Distingui as espécies das enfermidades , e encontrareis 
os methodos específicos* Sem huma boa classificação 
de espécies , he impossível annunciar alguma cousa de 
positivo sobre o modo de tratnmento : o verdadeiro ca- 
racter das enrermin.ides se torna hum assumpto inex- 
haurivel de disputas se..i fiirij e de indagações sem frue- 

to 



121 



j Pócie-se curar inpunemente huma ulcera antiga * 
da qual cada dia sahe huma quantidade considerável de 
puz ? j não he para temer que a economia , habituada a 
desembaraçar-se , por este emunctono , de h uma certa 
quantidade de humores supérfluos , se sinta da sua su- 
pressão ? Fabrício de Hilden , Heister , Sharp , Le- 
dran , &c. citáo muitos exemplos de apoplexias , de 
cephalalgias , de febres de toda a espécie, de dificul- 
dades de respirar , e mesmo de suffocaçóes depois da 
cura de certas ulceras. De outro lado , Camper e Bell 
professão huma doutrina opposta. De qualquer peso , 
que possáo ser as auctoridades , náo consultemos senão 
os factos ; ora , elles se ieunem para provar que os 
mais graves inconvenientes podem resultar , em alguns 
casos , da cicatrização das ulceras , e para estabelecer 
ao mesmo tempo que , em algumas destas enfermida- 
des , a cura não he seguida de alguma consequência tris- 
te. 

Quando huma ulcera subsiste há muitos annos , a 
secreção que exerce , pôde ser considerada como huma 
função natural , depois do longo habito que a econo- 
mia tem contrahido com eíla , e he perigoso- o ensaiar- 
se de interrompella. Seria difícil o usar de algumas pre*- 
cauçóes para prevenir as metástases que sua supressão 
poderia arrastar; assim pois quando huma ulcera deste 
género methodicamente tratada , se aproxima da cicatri- 
zação , he preciso purgar frequentemente o enfermo , e 
submettello mesmo ao uso diário de laxantes , taes co- 
mo o caldo d'hervas, o soro- de leite, estimulados com 
o tartarito acidulo de potaça , as sulfatas de soda ou de 
magnesia , a fim de dirigir para o tubo intestinal o ex- 
cedente dos humores , cuja evacuação se fazia pela ul- 
cera. Em fim , quando esta está perto a fechar-se , he 
indispensável o estabelecer huma fonte na coxa do lado 
affectado , náo tendo o enfermo razões para preferir que 
seja esrabelec ; da no braço ; quando a fonte está em per- 
feira actividade , quero dizer , que a suppuraçáo está alii 
bem estabelecida , póde-se ver terminar a cicatriz sem 

ten- 



122 

temor. Com tudo deve-se continuar o uso dos laxantes , 
durante ainda algum tempo. 

Nestas tentativas , para a cura das ulceras antigas , 
he preciso seguir com cuidado os progressos do trata- 
mento , afim de que , se o enfermo sente dores de ca- 
beça , difKculdade na respiração , ou outro qualquer 
symptoma que possa ser a consequência da supressão da 
ulcera, suspende-se o progresso da cicatriz; se o enfsr- 
mo he precipitadamente assaltado de huma apoplexia , 
huma teimosa desinteria , na occasiáo que a suppura- 
ção ulcerosa diminue , applicai hum visicarorio sobre 
a ulcera , e , quando tiverdes obtido a desejada revolu- 
ção , continuai a entreter huma suppuraçáo abundante , 
curando-a com unguentos excitantes taes como o de 
resina amarello , o unguento de la mere , &c. 

Ha ulceras criticas , cuja existência , ligada ao esta- 
do morbiíico de huma víscera , tal como o pulmão ou 
o fígado , retarda os progressos destas affeiçóes , e con- 
serva os dias do enfermo. Taes são as ulceras nas mar- 
gens do ano em alguns thisicos ; estas ulceras devem 
ser consideradas como esgotos saudáveis , estabelecido» 
pela natureza , e que he preciso respeitar , tendo o acon- 
tecimento sempre provado que , por sua supressão , 
qualquer que sejáo as precauções de que se use , a 
enfermidade de que são o symptoma , faz progressos 
mais rápidos , e arrasta em poucos dias os enfermos á 
morte. 

Em quanto ás ulceras simplices e recentes em in- 
divíduos , principalmente moços , e bem constuidos , 
podem-se fechar sem temor , e despresar o restabeleci- 
mento de huma fonte , com tanto que o enfermo dis- 
sipe pelo continuado exercício , o supérfluo da nutri- 
ção ; alguns purgantes , huma ou duas sangrias , podem 
ainda prevenir os effeitos perniciosos que produzirião os 
humores superabundantes. 

Em fim , logo que se tem estabelecido huma fon- 
te na coxa ou perna do lado enfermo ( lugar preferí- 
vel , para não interromper precipitadamente a direcção 

dos 



I2«5 

d os movimentos a que a nature2a se tinha habituado ), 
e que este esgotadouro se torne incommodo para o en- 
fermo, pôde se transportar para outro lugar, ao íim 
c*e hum certo tempo , com tanto que se faça no mo- 
mento em que a nova fonte aberta no braço , esteja 
em plena suppuraçáo. 

A ulcera de que tratamos he a moléstia mais su- 
jeita ás reproducçóes. Para as prevenir , o enfermo de- 
ve trazer continuadamente botins de pelle de cáo , ou 
huma polaina de panno novo , 2tacada pela parte ex- 
terior. Esta compressão sustem a cicatriz , sempre con- 
tingente a romper-se pela chegada dos líquidos ; emba- 
raça a estagnação do sangue no systema venoso da per- 
na. A cor azulada nas cicatrizes das pernas he hum 
indtcio certo de sua fraqueza ; esta cor he devida ao 
sangue que , circulando custosamente nos seus pequenos 
vasos , adquire em maior gráo todas as qualidades ve- 
nosas. 

Nas aproximações do inverno , he que se faz te- 
mer a rotura das cicatrizes. O frio que assalta as per- 
nas , entorpece as propriedades vitaes , e a vida. , já 
pouco activa neste membro , mais se enfraquece. He 
e v rio. que se faz necessário redobrar os cuidados para 
pr< venir as recahidas , exercer continuadamente huma 
cem pressão igual, entreter nas pernas hum moderado 
calor, e abster-se de todo o trabalho excessivo. Todos 
estes cuidados compatíveis com a vida civil não se con- 
cilião nada com os deveres da guerra: por isso sendo 
«mpregado no exame dos mancebos , que a lei chama 
á defensa do estado , tenho sempre olhado as cicatrizes 
das pernas como hum motivo suíHciente de exemp- 
çáo : se ellas tem huma certa largura , que ameaça o 
tornarem-se a abrir, o individuo deve ser declarado im- 
próprio ao ministério das\armas ; por quanto he sobre 
tudo no bom estado das extremidades inferiores , ver^ 
dadeirõs sustentáculos do corpo , que consiste a apddão- 
do soldado para as marchas , como também para os 
exercícios militares. 

GE- 



124. 
I 

GÉNERO SEGUNDO. 

Ulceras scorbuticas. 

Uma mudança quasi insensível conduz da ulcera 
atonica ás comprehendidas neste segundo género. Com 
e ire to , j qual he o caracter essencial desta ulcera ? O 
xú xamento dos sólidos na parte aftèctada , o languor 
nas proprieda-es vitaes. < Em que consiste principalmen- 
* te o scorbuto ? todos os mo4ernos respondem com Mil- 
man, que o relaxamento extremo do solido vivo , o 
aífrox.imento da contractilidade forma o seu sinal mais 
d stinctivo , e que esta diminuição da faculdade contrac- 
til influe principalmente sobre a fibra muscular , e so- 
bre os vasos circulatórios. Esta aaalogia entre as ulceras 
aronicas e scorbuticas , se estende táobem á Therapeu- 
tica destas moléstias ; os remédios fortificantes e tóni- 
cos convém tanto em humas , como em outras ; sendo 
o abatimento levado mais longe no scorbuto, os meios 
próprios a reanimar as propriedades vitaes , devem en- 
tão ser mais enérgicos. He permittido o olhar- se a ul- 
cera por atonia , como o primeiro gráo da ulcera scor- 
butica. Nesta ultima, o sangue se não demora somente 
nos vasos capillares da superfície ulcerada , dando-lhe a 
cor de hum roxo livido , mas ainda corre a travez dos 
paredes vasculares , pelo excessivo relaxamento de seus 
tecidos. 

Isto h: fundado sobre a similhança que existe en- 
tre dous géneros visinhos ; vejamos de que modo o 
scorbuto entretém ou produz as ulceras scorbuticas. A 
historia destas ulceras he essencialmente ligada á do 
scorbuto , e não se pode separar a ella 3 assim como o 
effeito da causa. 

Ainda que não estejamos dispostos a olhar, como 
Freind , o scorbuto como huma enfermidade nova ; 
pensamos , como Lind , que os Médicos Gregos , Roma- 
nos e Árabes , não tinháo sobre esta molestja senão no- 
ções 



I2 5 

çóes muito imperfeitas. Devia-se apresentar raramente 
debaixo do feliz clima da Grécia, e da Itália e nos 
navios que , nas suas longas viagens , se náo afastaváo 
da cesta : desprovidos do útil soccorro da bússola , ra- 
ramente se arriscaváo nos altos mares. Vasco da Gama , 
na Pvelação de sua viagem ás índias Orientaes , e o Se- 
nhor Joinville, na historia de S. Luiz, sáo os primei- 
ros que nos apresenrao hum quadro fiel do scorbuto. 

Tem-se distinguido três periodos no scorbuto ; po- 
rém esta distineçáo escolástica , além de sua inexactidão , 
tem o inconveniente de consagrar as mais falsas idéas 
sobre a marcha desta enfermidade. Infinitamente varia- 
da , a natureza zomba das nossas divisões , e offerece 
muitas vezes , desde o principio de huma aftecçáo , os 
symptomas que os authores tem costume de assinar nos 
seus últimos periodos. He assim que o scorbuto algumas 
vezes se annuncia de repente por hemorrhagias , que es- 
gotáo rapidamente o enfermo , por frequentes syncopes , 
e hum enfraquecimento tal, que o menor movimento 
exige muitos esforços, e arrasta hum grande cançaço. 
As mais das vezes com tudo estes symptomas funestos 
sáo precedidos de accidentes menos graves , e experi- 
menta-se na sua serie , a gradação de que falláo os au- 
thores j porém seria bom notar de passagem esta diffe- 
rença que apresenta a suecessáo real dos phenomenos 
das moléstias , para que aquelle , que a observa pela 
primeira vez, náo seja surprehendido de a encontrar di- 
versa da que se acha descripta nos livros. 

Hum sentimento de indolência levado em alguns 
indivíduos até á aversão decidida para toda a espécie de 
exercício , junta á palidez e algumas vezes mesmo á 
inchação do rosto , annuncião o scorbuto : o enfermo 
está triste , sente huma lassidão universal , acompanha- 
da de fraqueza e de entorpecimento nos 'músculos ex- 
tensores , e principalmente nos gemellos das pernas ; as 
gengivas se inchão e se amollecem ; os dentes vacillão , 
a mastigação se torna dolorosa, o hálito fétido, a pelle 
secca se cobre Je manchas , humas vezes largas e irre- 

Su- 



I2<5 

guiares, outras vezes redondas e petechiaes , ou simi* 
lhantes ás que resultáo da mordedura da pulga. As per- 
nas sáo o assento principal destas nódoas , como dos 
phenomenos principaes do scorbuto ; e ist® ptla razão 
já exposta de huma menor vitalidade , que as torna 
igualmente mais sugeitas ás ulceras atonicas. O pulso 
enfraquece por gráos desde o principio ate o fim da en- 
fermidade , a ponto que nos seus últimos períodos , a 
artéria cede á mais ligeira pressão. 

As feridas de que os scorbutjcos podem ser assaca- 
dos accidentalmente , se tornáo ulcerosas ; e o sangue 
trasudando á travez das paredes dos vazos capilares , 
as cobre nos intsrvallos de cada curativo ; outras vezes 
as ulceras se formão espontaneamente da mesma ma- 
neira que as do género precedente ; porém a effusão 
continua de sua superfície, junta aos outros symptomas 
do scorbuto , manifesta bem depressa sua verdadeira na- 
tureza. Estas hemorrhagias passivas ou dependentes do 
relaxamento dos capillares tem lugar, não só pilas su- 
perfícies ulceradas , porém ainda em toda a extensão 
das membranas mucosas. O enfermo perde seu sangue 
pelo nariz , gengivas ; escarra-o , vomita-o , ou o lança 
pelas dejecções : ém alguns casos mesmo , misturado 
com as ourinas, dá á este liquido huma cor de verme- 
lho escuro , de que falláo alguns authores , e que mui- 
tas vezes tenho observado. Estas hemorrhagias^ que 
sobrevem em toda a extensão das superfícies mucosas , 
não tem já mais lugar, posto que o tenha dito Boe- 
rhaave, na superfície da pelle, huma vez que ahi não 
haja rotura, j Com tudo as nódoas scorbuticas não cons- 
tituem huma sorte de hemorrhagia subcutânea , e não 
parece que a densidade da pelle , o epiderme espesso que 
a cobre , sejão os únicos obstáculos para que as nódoas 
scorbuticas constituáo verdadeiras hemorrhagias ? Conce- 
be-se facilmente que todo o systema capillar sendo ao 
mesmo tempo tocado de atonia , o sangue se deve 
insinuar por toda a parte a travez das paredes relaxadas 
de seus pequenos vazos , e que se este effeito he mais 

fa- 



"7 
fácil e mais sensível nos lugares , onde as pequenas ar- 
térias e vèas tem paredes menos espessas , e recebem 
menos apoio, como nas superfícies mucosas, náo deve 
acontecer menos em todos os órgãos , pois que todos 
encerráo huma grande quantidade de capillares. 

Tão bem os músculos e mesmo os ossos se tornáo 
o assento de infiltrações sanguíneas scorbuticas : quan- 
do se examina o estado dos órgãos sobre hum cadáver , 
encontráo-se os músculos gemellos das pernas tão de- 
pressa decompostos e reduzidos á huma espécie de mas- 
sa , similhante á borra do vinho ; outras vezes inchados , 
endurecidos , offerecem huma massa , na qual o langue 
coagulado está misturado com os sólidos: os ossos dos 
scorbuncos se amollecem , suas fracturas não fazem al- 
gum progresso para a consolidação ; o mesmo calo se 
destroe nos avançados períodos da moléstia. 

Os desmaios , ao menor movimento , se tornáo de 
mais em mais frequentes; a diíficuldade de respirar he 
extrema , e vê-se que os enfermos se sufFocão e cahem 
em syncope querendo mudar de lugar, ou mesmo le- 
var alguma cousa á boca. Em alguns casos se desen- 
volve hum movimento febril, análogo á febre adyna- 
mica ou pútrida , com a qual o scorbuto tem . como 
o demonstrou Milmann , a mais tocante similhança ; 
huma febre , digo , com erupção de petechias , se des- 
envolve nos últimos dias do enfermo , e parece apressar 
o fim de sua existência. 

Os poderes musculares, que concorrem para a di- 
latação da cavidade do peito na inspiração, enfraque- 
cendo-se tornáo esta dilatação incompleta ; o ar entra 
em menos quantidades nos pulmões menos dilatados ; 
as combinações do sangue com elle restáo imperfeiras, 
este fluido náo recebe^ no gráo sufKciente as qualida- 
des , que lhe são necessárias para excitar os órgãos e 
entreter a vida. <c Este sangue menos excitante ( diz 
o Doutor Fouré , em huma Dissertação sobre a febre 
advnamica , apresentada no anno 10 á Escolla de Me- 
dicina de Paris ) , " he lançado em hum órgão menos 

ex- 



128 

3> excitavel , e o cxcitamento que resulta delle he enfra- 
„ quecido dos dois lados ; o cérebro , como todas as 
J3 outras partes , náo recebem este fluido na quantidade 
„ e qualidade convenientes ; cahe no estupor , sua ac- 
,, cão se enfraquece , excita menos as fibras musculares 
,, já languidas ; a fraqueza geral augmenra , tudo , nes- 
,, te circulo de eifeitos e causas , tende reciprocamente 
„ a se entreter e a se aggravar ,, Cito com gosto esta 
dissertação pouco conhecida em hum tempo em cine 
para muita gente o volume de huma obra he a medida 
de seu valor. 

A existência de todos os phenomenos do scorbuto , 
sua suecessáo , seu perigo , a maneira , como condu- 
zem á morte, tudo isto se explica rigorosamente pela 
causa bem conhecida do mal ; quero dizer , pela notá- 
vel diminuição da contractilidade em todos os músculos 
e em todos os vazos. A inhabilidade aos menores ex- 
ercícios , a respiração incommoda , as involuntárias dejec- 
ções j são devidas á fraqueza dos músculos , cuja ac- 
ção he dirigida pela vontade ; a fraqueza do pulso , as 
Syncopes , a constipação , dependem da extrema dimi- 
nuição , que experimenta a contractilidade involuntária 
do coração e do tubo digestivo ; em fim , as infiltrações 
sanguíneas nos tecidos orgânicos , as nodeas ou ecchy- 
moses , que são mfiltiaçóes' bem reaes , os fluxos e he- 
morrhagias de todas as espécies , a inchação do rosto , 
o edema das extremidades inferiores , não obstante o 
descanço e a situação horisontal , reconhecem por cau- 
sa a perda cia contractilidade oceulta , de que gozão 
todos os vasos. 

j Participáo os mesmos fluidos a alteração das pro- 
priedades viraes , e são devidas as hemorrhagias ao 
mesmo tempo á atonia dos capillares , e á inteira" liqui- 
dação do sangue , cujas moléculas menos unidas se 
abandonáo a hum disgregativo mais fácil? Póde-se dizer 
que os fluidos participáo da affecção das propriedades 
vitaes no gráo em que gozáo destas propriedades; ora, 
como ahi são extremamente obscuras , as mudanças 

que 



120 

que experimentão no scorbato são igualmente pouco no* 

taveis. 

O sangue he hurra? vezes fluido e negro, dificil- 
mente coagulavel, e íornecendo huma grande porção 
de soro; outras vezes se coagula frcWnte. e deixa 
separar pouca serosuiace. A degustação ou prcva deste 
liquido não deixa descobrir, em rlgtn a de suas partes 
o sabor acre e salgado , que Boerhaave attribuia ao so- 
ro , nem as outras acnmon^s ac ; das e alcalinas admit- 
tidas por 'diversos authores como cansas do scorbuto. 

j Em que circunstarcias se desenvolve esta afTec- 
çáo , ou que causas conduzem ao enfraquecimento da 
contractilidade , pois que a extrema diminu ç o desta 
propriedade vital constitue o caracter essencial do scorbuto? 

Basta ler com attençao as relações dos navegantes, 
para ver que todas estas causas são debilitantes. As via- 
gens á roda do mundo pelo Almirante Anson , Rir.' 
Bougainville, o Capitão Cook , e Vancouver apresen- 
táo factos os mais instructivos.. Podem se tãobem tirar 
luzes na historia do scorbuto observado por Vandermye 
durante o cerco de Breda , em 1625, e no exercito' 
imperial, em Hungria no anno de 1720, por Kramer. 
O professor Pinél igualmente descreveo hum scorbuto 
endémico , que reina , todos os invernos , nos hcspitaes 
de Bicetre e de Salpetriere. He útil comparar estas di- 
versas obras , para ser plenamente convencido , que o 
scorbuto de terra he absolutamente da mesma espécie 
que o do mar, e que destroe toda atheoria de Méad 
sobre a producção do scorbuto pelo uso dos alimentos 
salgados , e sobre tudo pela respiração de hum ar carre- 
gado de moléculas de sal marinho. 

Eu mesmo t;nho tido frequentes cccasióes para 
me convencer desta identidade ; porém nenhuma tem si- 
do mais favorável que huma epedemia scorburica ob- 
servada, durante o inverno do anno XII. iHo-j.), nos 
soldados da guarda de Paris , e nos enfermos do hospital 
de S. Luis , onde ha algumis enfermarias consagradas 
especialmente á admissão e ao tratamento dos scorbuticos* 

1 Es- 



Este inverno , precedido por hum veráo , cuja se- 
Cura e calor foráo muito notáveis tanto por sua inten- 
sidade , como dnraçào , houverão chuvas quasi conti- 
nuadas ; a temperatura foi constantemente fria e húmida. 
A guarda de Paris , formada no curso do anno prece- 
dente , foi , desde sua instituição , sujeita ao serviço o 
mais trabalhoso; as fadigas se tornarão mais excessi- 
vas , quando , no fim do inverno , pela prisão cie Geor- 
ges necessitou fazer-se o bloqueio mais rigoroso da ca- 
pital. Huma guarnição numerosa apenas chegava para 
cercar hum tão vasto circuito ; o soldado , que durante 
a maior parte do inverno , tinha dormido huma noite 
no quartel e duas fora, teve então apenas duas noites 
paia dormir fora do quartel em cada semana ; tornava 
a fazer o serviço ainda fatigado , molhado até á pelle , 
e o seu vestuário não tinha tido tempo de se seccar , 
quando era obrigado a tornallo a vestir para entrar em 
nova obrigação. 

O número dos scorbuticos augmentou de tal forma 
que a enfermidade podia ser olhada como epidemia ; 
affèctava principalmente o batalhão do primeiro regi- 
mento , aquartelado no antigo convento dos Bernardos , 
que existe nas faldas da montanha de Santa Genoveva , 
e perto das margens do Sena. Muitas causas concorre- 
rão a favorecer os progressos do scorbuto nos soldados 
deste corpo. Primeiro distinados para o serviço dos por- 
tos , eráo postos nos corpos das guardas destribuidas 
ao longo da ribeira : lá , o frio e a humidade era mais 
sensível que em outras partes ; hum espesso nevoeiro 
carregava toda a noite o ar que respirava© as sentine- 
las , e só difHcilmente se dissipava pelo meio dia. A si- 
tuação [do quartel submettia ás mesmas influencias os 
que não estavão de serviço , de sorte que o frio e a 
humidade os incommodava sem descanço ; acrescendo 
que os alojamentos estabelecidos no meio das ruinas do 
mosteito e da igreja , eráo a maior parte situados ao 
nivel do chão , e por consequência pouco sadios em 
hum quartel húmido. Em fim, a má disposição do pa- 

teo 



teo formava, ao pé do edifício, hum grande ajunta 
mento de aguas estagnadas. Assim pois , o frio , as hu- 
midades continuadas , a falta de dormir , os trabalhos 
excessivos, taes são as suficientes Causas, a que se devem , 
attribuir os estragos exercidos pelo scorbuto nos solda- 
dos deste aquartelamento. 

Os do outro batalhão aquartelados na Ccurtilla f 
fasto edifício construído sobre hum plano moderno , 
pua o destino que prehenche , eráo affectades em me- 
nor numero do scorbuto. Os trabalhos erèo cem tudo 
jguaes ; bem mais incommodado no serviço das barrei- 
ras , rinha sempre este batalhão de fazer mais longos 
caminhos , quando entrava ou gahia das guardas ; porém 
os quartéis eráo espaçosos e bem arejados , o edifício 
situado em hum lugar elevado , que domina a capital. 

O scorbuto atacava com preferencia os indivíduos 
débeis , os convalecentes , os que tinháo passado por 
hum tratamento mercurial recente , tratamento muito 
próprio a produzir o scorbuto; não poupava os homens 
que se tinháo alistado, seduzidos pelo attractivo de hum 
serviço sedentário , julgado pouco trabalhoso. Os sol* 
dados aguerridos por muitas campanhas e combates , 
fesistião mais aos trabalhos, e por felicidade, . á guarda 
era principalmente composta desta espécie de individues. 
Em fim , os ofRciaes inferiores melhor alojados , con- 
venientemente vestidos , e mudando com frequência de ca- 
misas , não sendo obrigados a fazer sentinellas de noite 
ao ar livre , raramente eráo accommettidos. 

A enfermidade não podia ser imputada á necessida- 
de, nem á má qualidade dos alimentos ; o soldado co- 
mia , todos os dias , carne fresca , destribuia-se por elles 
todas as manháas huma certa porção de a^ua-ardenté , 
durante o serviço extraordinário ; gozando de huma pa- 
ga assaz boa , podia beber vinho , e o uso desta bebi- 
da foi tal vez pouco útil pelo seu excesso. Os ír.ilita- 
res cançados com o trabalho e descontentes de sua sor- 
te procuraváo o esquecimento disto por meio do vinho 9 
de sorte que o maior numero abusava delle. Os b p ha- 

I ii dos 



cos se tornarão quasi todos scorbuticos. Os officiaes fo- 
jáo isentos desta afFecçáo. Não me demorarei a descre- 
ver os symptomas observados nesta epedemia , he de- 
pois delia que tenho traçado a historia geral do scorbu- 
to* As destruições cessarão' com a tornada da boa sazão. 
O numero dos scorbuticos augmentou consideravel- 
mente na cidade, e as enfermarias do hospital de S. 
Luiz , destinadas a seu tratamento , se tornarão insufi- 
cientes para os admittir. O restabelecimento dos enfer- 
mos era mais longo e mais difricii nas enfermarias ao 
nivel do, chão, onde era impossivel de se preservarem 
<le hum certo gráo de humidade. Todas as affecçóes 
ulcerosas recebidas neste vasto, hospital , me tem for- 
necido assumptos de observação tão variados , como 
úteis , tâobem tenho de alguma sorte renunciado os 
soccorros , que me podião fornecer os livros, e me te- 
nho principalmente ligado a descrever segundo a natu- 
reza , todos os géneros de ulceras. 

O scorbuto he huma enfermidade muito frequntc 
na Capital ; os artistas assistentes em lojas nas ruas ba- 
xas e húmidas , visinhas do Sena , os porteiros , cujas 
famílias habitão em huma pequena loja , em huma pala- 
vra , todos os que ajuntão a huma vida sedentária , hu- 
ma habitação pouco sadia , a privação habitual do vi- 
nho e o uso raro , porém immoderado desta bebida , 
são particularmente sujeitos á elle. Não se pôde olhar 
como huma moléstia contagiosa , pois que não se com- 
munica , nem pela respiração do mesmo ar , nem pelo 
contacto dos scorbuticos , e se se vò tão frequentemen- 
te epidemica , affectando ao mesmo tempo hum grande 
numero de indivíduos , he que todos são submettidos ao 
mesmo tempo á influencia das causas que o produzem 
Tem-se visto os officiaes inferiores, encarregados 
de hum serviço menos trabalhoso , e qu^ , pelo maior 
solc 1 ^ podião melhor que os soldados, procurar as com- 
modidades da vida, e sobre tudo habitualmente bebe- 
lem vinho , experimentarem raramente o scorbuto, que 
epidemicameure reinava entre os simples soldados , não 

oks- 



obstante habitarem no mesmo aquartelamcnto , e vive» 
rem com elles em habitual sociedade. 

O scorbuto tem sido posto pelos Nosologistas , hií- 
mas vezes no me!o das enfermidad-s nascidas de hum* 
acrimonia , outras vezes no numero das aíFecçóes pú- 
tridas , outros as tem arranjado na classe das lesões do 
systema muscular. Haveria talvez mais razoes para. 
classificallas entre as hemorrhagias , pois que o maior 
numero dos symptomas denota a extrema diminuição 
da contractilidade dos vazos capillares. Na historia de 
seu tratamento , diremos as precauções com a ajuda das 
qua s se pode prevenir os meios, cjue o curáo, reani- 
mando a energia da força contractil ; depois indieãrèmos 
os cuidados particulares que exige o curativo de alguns 
de seus efFeitos , taes como as ulceras scorbuticas. For 
este meio viremos ao nosso assumpto , no qual náo po- 
deríamos mui cedo , e mui severamente circunscrever- 
nos á vista da multidão de faccos de idéas e de rela- 
ções , que se apresentáo', quando se quer traçar por 
miúdo a historia do scorbuto , sobre o qual as obras de 
Lind (i) , e de Milmann (2) , deixáo muito pouco a desejar. 

O tratamento preservativo do scorbuto , consiste 
no uso bem ordenado de seis comas, chamadas táo 
impropriamente pelos antigos náonaturaes. Purificar o 
ar dos navios , das enfermarias des hospitaes , das pri- 
sões , em huma palavra , de todo» os lugares onde es- 
te fluido he susceptível de se corromper pela respiração 
de hum grande numero de homens juntos , e pelas ema- 
nações animaes que se eleváo de seus corpos , tal he 
o primeiro cuidado que se deve ter para prevenir a 
moléstia. Os ventilantes , que renováo o ar privado de 
oxigénio , e alterado pela mistura das exhalaçoes me- 
phiticas, sáo insuficientes para corrigir a humidade. 
Ora, como esta qualidade de atmosfera, relaxando o 



te- 



CO Traitc de Scorbut , 2 vol in-12. 
(1) Recherchcs sur le Scorbut et les Fievres putndes , 
1 vol in-?. g 



M4 
tecido dos sólidos, he huma das causas as mais activas 
do scorbuto , será preciso ajuntar cá ventilação o desec- 
c.ir com fogo convenientemente disposto. A sala de di- 
cjplina de hum aquarteiamento era huma espécie de ca- 
va muito húmida. Quasi todos os soldados reclusos por 
muitos dias , ahi se tornaváo. scorbuticos. Náo podendo 
obter que se transportasse para outra parte, lhe fiz 
abrir huma grande janella para o meio dia ; desde então 
çontrahirão menos esta moléstia , de que náo estão com 
tudo inteiramente isentos. A ociosidade em que adorme- 
cem , quando estão assim encerrados , as tristes re.ie- 
xóes, que esta situação lhes sugere, e o regimen a 
pão e agua , a que são submettidos os mais insobordi- 
nados , eis-ahi causas de debilidade bem suíiicientes pi- 
la gerar o scorbuto. 

O vestuário deve ser quente e secco , limpo por 
frequentes lavagens, k. , os alimentos de faeil dig-.súo. 
O pão fermentado , a carne fresca , os. vegetais herba- 
ticos são preferíveis aos de massa , aos legumes fari- 
nhosos , taes como as batatas , fbijáo , ao qilejo , e a 
outras substancias mais ou- mornos rebeldes a acção de 
nossos órgãos. As carnes sal »adas são preferíveis ás car- 
nes frescas alteradas , e o muriato de soda , de que- 
estáo empregnadas , não tem com a causa do scorbuto 
a analogia , que suspeitáo os que fazem residir esta cau- 
sa em huma acrirnonia muriatio?. No tempo, em que 
a esquadra do Almirante Anson crusava no mar do Sul 
no outono de 174 1 , as guarnições reduzidas somente 
á esta nutrição , se conservarão sadias ; pelo contrario 
foi dsstraida pelo scorbuto em hum tempo brando e 
chuvoso, a pesar da doçura do clima, da abundância 
d*agua doce , e das provisões frescas de toda a espécie. 

As bebidas excitantes são hum excellente preserva- 
tivo contra o scorbuto , pois que os remédios usados 
nesta aíècçáo , são principalmente tirados desta classe. 
O uso moderado de hum vinho generoso . o condimen- 
to dos guisado? com vinagre , o sano do limão , o 
a.lh.3 i a ceoolU , a pimenta, e outros aromáticos , tem 

pre- 



MS 

prevenido efficazmente a enfermidade. Estou no uso de 
prescrever o vinho puro , em pequena quantidade , a 
todos os convalecentes , aos enfermos que numa fractu- 
ra , huma ulcera , ou qualquer outra moléstia similhan- 
te obriga a estar muito tempo na cama , quasi inmo- 
veis. Tenho sempre visto que eia mais segura a conso- 
lidação nos indivíduos que se punháo no uso do vinho 
ou do charope anti-scorbutico aos quinze ou vinte dias 
de huma fractura , do que aquelles , para quem se tinha 
despresado esta útil precaução. No aspecto de huma 
ulcera , qualquer indica a applicação destes meios , 
quando as carnes são molles, fungosas, descoradas ou 
sanguinolentas , em huma palavra , cm todos os casos 
de relaxamento. 

O movimento e o descanço devem ser totalmente 
ordenados com a precaução , que o primeiro não seja 
levado até a extrema fadiga, e o segundo até ao en- 
torpecimento. 

Os scorbuticos admittidos em hum hospital devem- 
se entregar ao passeio em pateos vastos e sombrios; a 
cultura dos jardins lhe offerecem saudáveis distracções : 
extimulados pelos encantos de hum módico salário , os 
convalecentes empregados em diversos trabalhos no inte- 
rior do hospital de S. Luiz se restabelecem mais promp- 
tamente , que passando o dia na cama no meio do ar 
das enfermarias sempre menos puro, que o ar exterior. 
A introducçáo deste útil costume , assim como muitos 
outros melhorameutos , são devidos á esclarecida philan- 
rropia de Mr. Mourgues, adminisTrador deste hospi- 
tal. , . 

Não he indifterente o occupar os scorbuticos com 
idéas alegres ou tristes , pois que as affecçóes do pri- 
meiro género , taes como a alegria , a esperança são 
mais ou menos excitantes , em quanto que as segundas 
são huma canra poderosa do abatimento. Vandermye 
conta que os Francezes , que faziáo parte da guarnição 
de Breda, escapavão ao scorbuto por sua alegria natu- 
ral; não os abandonava no meio" dos trabalhos e fadi- 
gas, 



gas de hum longo cerco , em quanto que a timidez e 
a tristeza reinava entre os Inglezes , e Holandezes ; 
multiplicando-lhe o numero dos enfermos. 

Ter dito o que he necessário fazer para prevenir a 
scorbuto , he ter traçado a historia do seu tracamento ; 
porque os meios prophylacticos sáo ao mesmo tempo 
curativos : somente a fraqueza extrema que reina no 
scorbuto bem caracterisado exige a applicaçáo dos ex- 
citantes mais en-írgcos , o vinho de qi^na , as infusões 
alkoolicas amargas das razes de genciana , de paciên- 
cia tkc. O vinho anti-scorbutico , resultado da macera- 
ção das raizes frescas de rabãos selvagens , de bardana , 
de folhas de cochlearia, &c. em vinho branco, o qual 
se sobrecarrega do aroma destas plantas , e dissolve nu- 
ma parte da mucilagem , e do estracto ; o elixir anti- 
scorbutico , o c'iarope , que não d.ftère das outras pre- 
parações anti-scorbuticas , senão pelo assucar que se 
lhe mistura , e que involvendo as partes medicamento- 
sas do remédio lhe embota a actividade ; o uso de ali- 
mentos que fáceis a digerir, contenhio debaixo de 
hum pequeno volume huma grande porção de matéria 
nutritiva , taes como as carnes assadas , o pão bem fer- 
mentado &c. devem ser impregados ao mesmo tempo , 
successiva ou alternativamente em differentes doses , 
segundo a idade dos enfermos, e os gráos mais ou me- 
nos avançados da enfermidade. 

Em quanto aos cuidados locaes , que exige a ulce- 
ra scorhutica , se limitão a curalla duas vezes por dia 
para lhe alimpar a superfície do sangue fluido ou coa- 
gulado , que fornecem os pequenos vasos ; a pulveri- 
zalla de quina , havendo o cuidado , que estes pós desec- 
cantes e tónicos não iormem , com a mistura dos hu- 
mores huma 'massa dura e difficil a despegar-se , e por 
isto será preciso lavar a ulcera com hum cosimento 
vinhoso das plantas amargas ; em fim exercer sobre to- 
do o membro huma compressão uniforme por meio de 
huma atadura. Não se deve" temer o excitar a inflam- 
mação nas ulceras deste género ; . hc *ò no momento , 
, em 



M7 
em que as forças se reanimáo , que começa sua super* 
ficie a cobrir-se de hum bom pus. 

As ulceras scorbuticas das gengivas e do iríterior 
da boca devem ber frequentemente tocadas com hum 
pincel molhado no acido muriatico enfraquecido ; os 
enfermos usarão ao mesmo tempo dos gargarejos tóni- 
cos , e aswingenr.es , táes como a limonada sulfurica ± 
o cosimento amargo de quina, kc. , porém he dos tra- 
tamentos internos que se deve esperar a cura destas ul- 
ceras em qualquer parte do corpo que se formem , e 
não dos remed.os locaes. 

A entumecencia scorbutica das gengivas e das pa- 
redes da boca se torna algumas vezes inflammátoria : 
nesta reacção das forças vitaes contra a moléstia que as 
opprime , a natureza suecumbe , a gangrena se senho- 
rea das gengivas, da face, e destroe algumas vezes hu- 
ma grande parte do rosro. Tenho visto no hospital de 
S. Luiz muitos exsmplos destas espécies de anthrazes 
Storbuticos , cujo estado gmgrenoso he bem evidente- 
mente produzido , como o dissemos noutra parte, pela 
debilidade das forças circulatórias ; porque a inflamou* 
çáo se compõe de hum movimento local e de huma 
reacção mais ou menos geral , que completando de algu- 
ma sorte o apparelho da enfermidade , tende a condu- 
zilla para huma solução feliz. 

Algumas vezes , porém raramente , as ulceras scor- 
buticas dão huma tal quantidade de sangue , que sua 
sahida constitue huma verdadeira hemorrhagia. Nestes 
fluxos passivos a acção do solido vivo esta totalmente 
languida , que em vão se pulveriza a superfície sangui- 
nolenta com a therebenthina ou qualquer outro absor- 
vente e astringente ; em vão se advninistrão bebidas , que 
gozáo ao mais alto gráo desta u/tima virtude , e se ex- 
erce á compressão a miis methodica , o sangue corre 
de toda a ulcera , ou ante:» sahe pelos narizes , pelas diar- 
réas , pelas ourinas , e os enfermos morrem : prova in~ 
contestável da fraqueza da arte , quando he privada dos 
soçcorros da nacureza. 

GE- 



GÉNERO TERCEIRO. 

Ulceras escrofulosas. 

TVT 

__ l 4 Os dous géneros precedentes , o relaxamento do 

solido vivo influe especialmente sobre a ribra contractil 
e os vasos circulatonos. Aqui a debilidade se faz sentir 
principalmente no systema Jymphatico , porem como os 
órgãos da absorvencia , da mesma forma que os vasos 
encarregados da circulação do sangue estão espalhados 
por todas as partes do corpo , a força se acha dimi- 
nuída em todos ; assim pois , as ulceras atonicas , scor- 
buticas e escrofulosas, aproximadas por suas analogias, 
poderião constituir huma ordem de enfermidades verda- 
deiramente astetrcas , quero dizer 3 cuja fraqueza for- 
maria o principal caracter. 

j Vejamos se a debilidade do systema lymphatico 
explica o ajuntamento e a geração dos symptomas , de 
oue se compõe o diagnostico das escrófulas ? Esta fra- 
queza existe ao mesmo tempo nos vasos e nas glându- 
las , os primeiros espalhados em todos os tecidos , e 
formando especialmente o cellular , unindo ao relaxa- 
mento de suas paredes huma grande actividade em suas 
bocas absorventes , se engorgitáo de huma quantidade 
considerável de líquidos serosos;, seu volume augmenra ; os 
tecidos que principalmente são formados elles se incháo e 
se dilatáo ; a pelle elevada parece branca , tensa , e polida ; 
as formas são redondas ; as elevações dos músculos se aba- 
tem , as articulações se engorgitáo , o habito do escrofulo- 
co se torna como o da mulher , e esta apparencia exterior , 
tanto nelle , como nelía , he determinada pelo desenvolvi- 
mento e extrema repleção dos vasos lymphaticos. Seu ros- 
to tem as feições redondas , indícios da infância , huma gor- 
dura , que não he senão empolada , cores rosadas , que 
se desenvolvem tanto mais resplandecentes , quanto a 
pelle offerece hum melhor brilhante e hum branco mais 
puro. Ajuntai a isto grandes olhos prominentes, bri- 

lhan- 



lhantes e muitas vezes húmidos. A espessura dos lábios» 
e sobre tudo a do superior , he huma causa de diror- 
midadej os narizes participáo desta espessura; os cabei- 
los são de huma cór pálida , loura ou cinsenta , rara- 
mente castanhos ou negros. 

A gordura dos escrofulosos não he senão apparen- 
te ; alguns dias de enfeimidade ou de abstinência a 
diss.páo e reduzem os membros que , pareciáo robus- 
tos , a formas delgadas-, indicio de sua debilidade. A 
frescura do rosto desapparece desenvolvendo-se as feias 
fugas de huma velhice prematura. Poucos dias táobem 
bastão para reparar estes estragos tão promptos^ a re- 
moçar estas feições tão rapidamente murchadas. A aífèc- 
ção escrofulosa he de alguma sorte a exageração do- 
temperamento lymphatico , levai ao excesso rodos os 
caracteres attribuidos a esta constituição particular do 
corpo , e tereis hum quadro fiel desm moléstia. 

O temperamento caracterisado pela predominância 
de hum órgão ou de hum systerna de órgãos , se affas» 
ta deste termo ideal , onde todas as forças se abalançáo- 
reciprocamente de maneira que a economia viva oífere- 
ce a imagem do equilíbrio perfeito. Deste estado , que 
pôde ser só exista na imaginação dos phisiologistas, e 
que os antigos tem designado pelo nome de tempera- 
mento temperado , temperametttum temperatnm , sendo 
tomado pelo typo da saúde, resulta que o temperamen- 
to he já hum passo feito para a moléstia. Com «ido 
a acção do systema predominante não he totalmente 
quem faz pender, para que todo o equilíbrio seja des- 
truído , e para que o jogo da vida se encontre inter- 
ceptado ; porém para que as disposições constitucionaes 
sejáo engrandecidas , a moléstia existe , e esta passa- 
gem tem lugar na conversão do temperamento lympha- 
tico em escrofuloso. Na constituição escrofulosa ha ao mes- 
mo tempo a actividade das bocas absorventes , grande fa- 
cilidade de absorvencia , inércia dos vasos e das glândulas 
lymphaticas , fraqueza dos absorventes ; epor consequên- 
cia estagnação e espessamento dos líquidos ; absorvidos 

a 



140 
a mesma cousa se observa nos temperamentos lympha- 
ticos , caracterisados pela actividade das bocas inhalan- 
tes , e a debilidade do systema lymphatico , como o mos- 
trou Cabanis , quando refutou a opinião da quelles , que ía- 
ziãoconsistir o temperamento lymphatico no excesso da ac- 
tividade do systema absorvente , posto que a só porção 
deste systema realmente excitada seja a que exerce im- 
mediatame.nte absorvencia , em quanto que o resto he 
tocado de huma atonia quasi completa. O que expomos 
aqui tocante á afinidade, que existe entre as escrófulas 
e o Temperamento lymphatico , póde-se applicar aos ou- 
tros temperamentos ; he desta forma que o tempera- 
mento sanguíneo predispõe ás affecçóes inrlammatorias , 
o biiioso áí gástricas , o nervoso aos vapores. 

A repleção do systema lymphatico nos escrophu- 
losos incommoda a actividade de sua nutrição ; seu cres- 
cimento, se completa mais tarde, o endurecimento dos 
ossos se faz com menos promptidáo , e esta particula- 
ridade facilitando-lhe o desenvolvimento do cérebro , 
lhe torna a inteligência mais prematura; mas algumas 
vezes lhe produz o idiotismo , se a ossificaçáo dos ossos 
tarda a desenvolver-se , o cerebio adquire inormes di- 
mensões , engorgita-se de humores serosos , cuja accu- 
mulaçáo constitue o hydrocephalo. 

Os effeitos resultantes da debilidade do systema 
lymphatico não são menos notáveis nas glândulas , que 
nos vasos ; mais fracas do que estes , aquellas fe engor- 
gitão , a lympha ahi se endurece por sua demora; for- 
mão tumores sobresahintes debaixo da pelle , a roda da 
base da mandíbula inferior , no occiput , e em diversas 
partes do pescoço , ao longo das vêas jugulares. Estes 
tumores , que podem appaiecer , e mostrar-se em tcdos 
os lugares , onde estão postas as glândulas lymphaticas , 
como na flexufa do braço , nas regiões inguinaes , nas 
regiões poplitéas , nas axillas , &c. são as mais das 
vezes indolentes ; são sujeitos a desapparecejem para se 
formarem em outras partes , ou tornar a vir no fim de 
hum tempo mais ou menos prolongado ; excirão-se ; 

ou, 



Hl 

ou , para melhor dizer , a inflammação se apodera dei- 
les i a dor ahi persiste , com tudo pouco viva , a infiam- 
mação corre lentamente seus períodos , o calor he bran- 
do , a tumefacçáo moderada , a vermelhidão pálida , e 
tirando sobre o roxo ; em fim , a glândula se amoUe- 
ce , a pelle se despedaça , e destes abscesso» corre hum 
pus seroso , misturado de coalhos de albomino. 

Ha moléstias dependentes das escrófulas , e que , 
nas classificações methodicas , não deveriáo ser separadas 
delias ; taes são a thizica tuberculosa ,- a atrophia me- 
senterica , ou opilação, o inchaço, e a carie da parte 
espongiosa dos ossos , a rachires , ou a molleza destes 
órgãos. Se o pulmão he atacado de huma fraqueza he- 
reditária , ou adquirida , as glândulas bronqueaes se en- 
gorgitáo , formão tubérculos , que suppuráo , e estabe- 
lecem a thiz!ca escrofulosa. Se, pelo uso de huma má 
nutrição , as glândulas mesentericas tem sido fatigadas , 
he nellas , que o engorgitamento escrofuloso se estabe- 
lece , tanto mais remível , porque ataca a vida no seu 
alimento , fechando a passagem ao chyllo reparador. 
Os engeitados , aos quaes se necessita muitas vezes em- 
pregar a mama artificial , morrem em grande numero 
desta atrophia mesenterica , na qual o ventre está duro, 
habitualmente inchado , a diarrhéa continua , e o ma- 
rasmo extremo. Em fim , as partes espongiosas dos 
ossos , muito abundantes em tecido cellular , e por* 
consequência em vasos lymphaticos , se engorgitão es- 
pontaneamente , ou em consequência da mais ligeira 
contuzão ; a carie succede a entumecencia ; em fim , o 
endurecimento dos ossos sendo retardado pela inércia 
geral , e os lymphaticos absorvendo toda s via com acti- 
vidade, o rachitismo sobrevem , e os ossos amolieci- 
dos se curvão e cedem ao pezo do corpo ■, porém es- 
ta decomposição do systema ósseo he felizmente o 
symptoma o mais raro , assim como o mais incommodo 
da affecção escrofulosa. 

A mulher he mais sujeita , que o homem , a este 
género de moléstia y assim como a infância o he em 

pro- 



142 
proporção á idade adulta , e á velhice. Fsta influencia 
do sexo , e à* idade , he fácil a explicar pela predo- 
minância natural do systema lymphatico nas mulneres , 
e nas crianças. 

Ha exemplos , de que homens adultos tem sido 
atacados de escrófulas não tendo experimentado algum 
sinptoma nos primeiros tempos de sua vida. Os prizio- 
neiros longo tempo encerrados em enxovias húmidas , 
e obscuras crescem sem engroçar , como acontece ás 
plantas , privadas do ar livre , e da luz do dia ; ora es- 
te deseccamento dos vegetaes tem maior analogia com 
a afFecçío escrofulosa , na qual a pelle he esbranquiça- 
da, os líquidos descorados, serosos, e menos animili- 
sados. Mandáo-se algumas vezes para o hospital de S. 
Luiz enfermos tirados da Consiergerie (i), e que pelo 
írio , e humidade constante desta prisão são accomet- 
tidos de hum inchaço geral das glândulas lymphaticas , 
com todos os simptomas que denotão huma extrema la- 
xidáo da fibra. Tenho constantemente observado que es- 
tas escrófulas sobrevindas espontaneamente aos adultos , 
são de difficil cura , e quasi sempre mortaes ; testemu- 
nho novo da verdade deste aphorismo , que as molés- 
tias são tanto mais graves , quanto sáo menos análogas 
á idade , assim como ao temperamento dos enfermos. 
Hypp. sect. i Aph. 34. 

A constituição escrofulosa estabelece huma verda- 
deira degeneração da espécie humana. Se a inacção , e 
as outras causas debilitantes que a determinão , leváo 
sua influencia sobre o systema lymphatico , he porque 
he aquelle , onde as propriedades viraes reináo em me- 
nor gi ao , onde por consequência existe menos força 
para reobrar contra os poderes morbificos. 

Sáo sobre tudo frequentes as escrófulas nas grandes 
Cidades. Tem-se multiplicado em nossos dias' nesta Capi- 
tal de hum modo atemorisantc , a medida que a syphilis se 
espalha mais, e se modifica na transmissão herediraria 

Hum 



(1) Prisão em Paris. Not. do Trad. 



'4* 

Hum grande numero de observações me authorisa a 
affirmar que muicas vezes as crianças escrofulosas nas- 
cem de pais syphiliticos , de maneira que a affecção 
parece ser transformada passando dos pais aos filhos , 
victimas das suas devassidões. O tratamento mercurial 
empregado contra a afFecçáo syphilitica , produz tal vez 
menos o scorbuto , que hum estado análogo ás escrófu- 
las. A acção do remédio , que obra especialmente nos 
vasos , e glândulas lymphaticas , as fatiga , relaxando 
sua textura, e não.he raro que seu engorgitamenro sub- 
sista muito tempo depois que os symptomas venéreos 
tem desapparecido , ou que mesmo se seja obrigado á 
combater esta disposição escrofulosa pelos amargos , e 
tónicos. 

A abertura dos tumores escrofulosos não he a só 
causa , que produz as ulceras escrofulosas , estas solu- 
ções de continuidade se estabelecem algumas vezes es- 
pontaneamente pela corrosão da pelle , seja que esta 
membrana se affecte sobre huma porção do osso caria- 
do , seja que as partes subjacentes a ella não oíFereção , 
se não a massa que caracterisa o estado escrofuloso. 

A inflammaçáo lenta , que as entretém , e as pro- 
duz , he notável pela vermelhidão pálida , e rouxa da 
pelle , na circumferencia da ulcera , pela ausência quasi 
completa das dores, e da sabida de hum puz seroso, 
que transuda o-dinariamente da superfície ulcerada. A 
preexistência dos tumores glandulosos , ou a existência 
simultânea destes engorgitamentos , junto aos outros 
phenomenos da moléstia , não permittem desconhecer a 
verdadeira natureza destas ulceras ; seus lábios são du- 
ros, desiguaes , e ordinariamente despegados. 

Como a tendência dos humores existe nas partes 
superiores , são as glândulas da cabeça , e do pescoço , 
que se engorgitão nas crianças escrofulosas ; ora , esta 
enfermidade he a herança quasi exclusiva da infância , 
e ha o costume de se olhar como escrofuloso , todo o 
engorgiramento das glândulas do pescoço , posto que 
possa, não obstante, depender de muitas outras causas. 

Quan- 



144 
Quando as escrófulas se manifestao depois da puberda- 
de , he sobre o peito que leváo os seus estragos , a 
tbizica tuberculosa , as caries do sternum , e das costel- 
las sáo as suas consequências. Em fim, nos velhos, 
as glândulas do mesenterio se obstruem ; a hidropesia 
ascites lhe resulta , ou antes as affecçóes cutâneas , incurá- 
veis as mais das vezes. 

As escrófulas não dependem da ex'stenc;a de hum 
vicio particular ; este virus escrofuloso só ex : ste na 
imaginação dos part d stas da medicina humoral. Se este 
vicio existisse, o pus que corre das ulceras escrofulo- 
sas poderia communicar a infecção da mesma maneira , 
que o pus dos cancros vener: os applicado á suj erficie 
da glande , transmitte a syphiles. A aífecçáo ' escrofu- 
losa não he contagiosa, as crianças escrolulosas rece- 
bidas no hospital de S. Lu ; z , se misturáo inpunemente 
com os outros enfermos, parreipáó das recreações, e 
comem cem as outras crianças , sem que esta cohabi- 
taçáo , e os contactos repetidos propaguem a moléstia. 
Mr. Hebreard Cirurgião da prisão efe Bicêtre tem váa- 
mente ensaiado o inocular as escrófulas em muitos 
caens , esfregando em diversas occasióes sua pelle gre- 
tada , com a matéria , que fornecem as ulceras escrofu- 
losas ; e mesmo curando-lhe as feridas, que lhes fazia 
com pranchetas , embebidas neste pus. 

Se a moléstia de que tratamos não he contagiosa , 
pôde ser hereditária. IVlil exemplos attestáo que cren- 
ças nascidas de hum pai , e de huma mái escrofulosos 
trazem , quando nascem , as desposiçóes para as escró- 
fulas , náo obstante pareção estar cutados no momen- 
to de seu casamento. Esta crença estabelecida sobre 
factos , he tão geral em certas províncias , na em que 
nasci , por exemplo , e na qual sáo os escrofulosos ra- 
ros , que as familias , donde alguns indivíduos tem sido 
atacados , sáo notadas como pouco sadias , e dificilmente 
contraSem alianças conven'enres. As amas escrofulosa^ 
podem communicar a seus meninos o mal com seu leite ; 
possuem-se muitos factos deste género. 

As 



14* 

As escrófulas são endémicas em certas provindas ;' 
•tormentáo os habitantes de alguns valles dos Alpes , 
e dos Pirineos , e dependem do ar húmido destes val- 
les , das aguas estagnadas , de que fazem uzo os -habi- 
tantes , e dos^ alimentos groceitos , e indigestos , de que, 
se nutrem. Tenho observado que o maior numero dos 
escrofulosos recebidos no hospital de S. Luiz vem dos 
bairros de Halle (i), da Cidade, e do soburb : o de S. 
Marçal, ajuntamento de ruas baixas}, e estreitas a on- 
de es raios do sol apenas penetráo , humedecidas pela 
visinhança do rio que as atravessa , estes bairros' apre- 
sentão hum montão de casas mal constituidas , huma 
população numerosa de obreiros muitas vezes submer- 
gidos nos ^excessos da crápula sempre expiada por peno- 
sas privações, e o uso obrigado de hum alimento pou- 
co sadio , e pouco abundante. Recebem-se táobem mui- 
tos de certas províncias ; porém a de Trqyes na Cbampa- 
gne he a que fornece mais. Ignoro que causas locaes 
ahi multipliquem a este ponto as affecçóes escrofulo- 
sas. 

As escrófulas se curão muitas vezes por si mesmo, 
pelos únicos progressos da idade. He sobre tudo na épo- 
ca da adolescência , que se observa esta desappariçáo 
espontânea das escrófulas. A revolução que se opera en- 
tão na acção de todos os órgãos, o augmento de ener- 
gia notável em todos , a predominância do systema san- 
guíneo sobre o systema limphatico , tudo deve fazer - 
nesta época huma verdadeina crize , que termina a afTec* 
çáo escrofulosa , como os movimentos criticos deci- 
dem do maior numero de nossas moléstias. Esta feliz 
influencia da puberdade se faz sentir igualmente nos 
dous sexos. Tenho visto , em bastantes casos , engor- 
gitamentos glandulosos , rebeldes até esta época , dissi- 
parem-se em poucos dias , depois da primeira erupção 
dos menstruos. O matrimonio tem posto termo algumas 

K ve- ■ 



CO Pwça publica de Paris , a onde se faz a feira. 

Not. do Trad. 



V#?es á exteneia das escrófulas , pelo excitamento gp- 
íal que o coito occasiona. Warthon observa que pelo 
excesso da continência alguns rapazes se tem tornado 
escrofulosos , os quaes espontaneamente se tem curado 
peio gozo dos prazeres do consorcio. Juvencs celibas 
stritmosi fixnt , postca vero matrhn&nw 'sponte curantur, 
A mudança doclima e o passar do ar es.pe.sso e húmido 
dos yalles , para o ar vivo \ e seceo das montanhas ,■■ 
tem sido bastante para certos escrofulosos serem livres 
da -sua jnplestia. 

O conhecimento do caracter essencial das escrófu- 
las, e dos caminhos, de que se. serve a natureza para 
lKç. -procurar o curativo, nos conduz á aqueile do me- 
lhor i-nethodo a seguir , seja para as prevenir, seja pa- 
ra, Jjhé leva?; o remédio. Estes meios prophiíacticos , e 
curativos, indicados contra as escrófulas, são tiudos da 
mesma classe d' aquelles de que temos aconselhado o uso 
r>as ulcera^ a tónicas , e escorbuticas , e isto náo he hu- 
ma das .menores provas da bondade de huma distribuição 
methoJica das moléstias assim como a analogia do tra- 
tamento nas .que se encontrão unidas no mesmo quadro. 

Os escrofulosos devem habitar em quartos elevados, 
espaçosos, ebem arejados, evitar a humidade, e o frio, 
garantindp-se -delle pelos vestidos quentes , e seccos , 
usar de alimentos qu? contenháo debaixo de hum peque- 
no volume , muitas moléculas nutritivas , com tanto que 
sua digestão seja fácil. Deste género são o pão bem leve- 
dado , carnes egrilhadas ; associa-se a isto o uso modera- 
do de hum vinho generoso , que excite , e sustenha a 
energia das forças circulatórias. Ao mesmo tempo favore- 
ce-se a transpiração por fricções seccas , feitas , seja com 
a. baeta embebida de algum vapor aromático , como o 
que sa exhala da baga do zimbro , ou do incenso , seja 
com escovas assaz brandas para que náo escureem a 
peile , o que tudo produz hum excitamento graduado. 
As fricções seccas feitas com as escovas de crina são 
muito familiares entre os Inglezes, que tem tirado este 
costume dos índios entre os. quaes he muito antigo. 

A 



147 

A liberdade das outras secreções devem cuidado- 
samente ser entretidas ; por isso todos os práticos per- 
mutem os fructos , e as uvas bem maduras , e a con- 
selháo purgantes repetido6 no tratamento da moléstia. 
He igualmente importante entreter a alegria , afastan- 
do da criança disposta às escrófulas , todas as idcas 
tristes , e lúgubres. O Professor Pinél fez huma obser- 
vação a este respeito , que nós temos tido occasião de 
repetir muitas vezes. As crianças abandonadas á carida- 
de publica , creadas em commum nos hospitaes , ou 
confiadas a amas mercenárias , sentem bem cedo , quan- 
to sua sorte he triste , e cahem desde a idade de sete , 
ou oiro anno$ çm huma melancolia, que lhes favorece 
o desenvolvimento das escrófulas. 

Porém supponhamos que vos he a presentado hum 
escrofuloso , oíTerecendo todos os sinaes característicos 
desta affecção , a fim de lhe determinardes com exacti- 
dão as re,;ras a seguir no tratamento da moléstia. Os 
remédios , que tendes a administrar , serão de duas sor- 
tes: por huns vos-proporeis a dissipar a fraqueza geral, 
e sobre tudo a atonia do systema lymnihatico , em 
quanto que os outros serão concernentes à .variedade 
dos sjmptomas. Estes podem com eíFeito exigir cuidados 
particulares , como acontece na inchação , e carie dos 
ossos, o engorgitamento das glândulas, e sua ulceração. 

Quando a, ulcera escrofulosa não tem o seu assen- 
to nas partes inerfiores, o descanço não he indicado 
no seu curativo ; o enfermo , muito tempo entregue á 
ca ma , perderia as forças , que o exercício conserva , 
e que são necessárias á terminação da moléstia. 

No tratamento das escrófulas tudo deve tender a 
reanimar a energia vital de todo o systema , e dos ór- 
gãos principalmente afectados. A febre tem sido util- 
mente, em muitos casos, excitada, e o tratamento de 
todas as affecções escrofulosas locaes consiste em exci- 
tallas , quero dizer , em lhe produzir huma inflamação , 
que destruindo o caracter crónico da moléstia, lhe ac- 
celere a cura. 

K ii Os 



Os amargos , os fortificantes aconselhados no tra- 
tamento tio escorbuto, çonvem sempre no das escrolu? 
las, e estas duas aSccgóes poJeriáo , até hum certo 
ponto, ser confundidas debaixo do ponto de vista The- 
rapeutico. Por. isso , o vinho de quina , o vinho, e os 
suecos anti-scorbuticos •, porém principalmente o elixir 
obtido pela infusão aikooiica dx raiz de genciana, em 
que se faz depois dissolver o carbonato de seda , pro- 
duzem bom eííeito tanto n' huma , corno n' outra mo- 
léstia. Neste elixir , os excitantes são felizmente asso- 
ciados aos tónicos ; ora , esta mistura de substancias 
fortificantes , e excitantes alkalinas , estabelece huma 
diííerença notável entre os anti-escroíulosos, e os anti- 
scorbuticos. 

Com effeito , correi a extensa lista dos remédios 
preconisados , em diversas épocas , para o tratamento 
das escrqrulas , e olhados como especificos , ahi encon- 
trareis as preparações saponaceas,, bebidas fortificadas 
pelo amoníaco , a potaça , ou a soda , e todos 03 saes 
alkalinos. Entre estes sáes deve-se pôr o muriato cal- 
, cario, de cjue Mr. Fourcroy obteve felizes efieitos 
na atrophia mesenterica , administrando na doze de do- 
ze a vinte e quatro grãos , não dando mais de huma 
oitava aos adultos ; t> muriato de baryta aconselhado 
por Hnfeland, e que as experiências feitas pelo Profes- 
sor Pinél, põem no numero dos melhores excitantes 
do systema limphatico ; a mesma baryta reduzida á pó 
fino , com que se pulverizáo as ulceras. 

Esta efncacia dos alkalinos unidos aos tonices , 
tinha feito pensar que a causa das escrófulas poderia. 
bem ser hum acido coagulando a lympha , á qual os 
alkalis tornaváo sua fluidez. Sem admirei:- esta hy- 
pothese chimica , contradicta pela impossibilidade de 
demonstrar a existência de hum acico particular nos 
humores de hum escrofuloso, e na qu?l hypothese se- 
não tem além disso feito conta com a acção vital , não 
se pôde negar , que os excitantes alkalinos paieçáo 
obrar espicialmente sobre o systema dos vasos , e das 

glan- 



glah falas lyrnphaVcas-. Sua efecia nas escrófulas a- 
cabaria. de provar , se houvesse precisão de provas , 
que hé na- inércia deste systema , que consiste essen- 
cialmente a affeeçáo escrofulosa. 

O. versos remédios tem sido empregados com vis- 
tas de produzirem huma reacção febril saudável. Qua- 
rin administrava o extracto da dedaleira , digitalis pur- 
púrea, àugmenundõ gradualmente a doze desde hum 
grão , até doze ; applicava também sobre as ulceras o 
sueco fresco da mesma planta ; o qual produzia nellas 
hum certo prori jo , e em alguns enfermos , huma ver- 
dadeira febre seguida da cura. He reanimando as força s- 
circulaícrias ,> qué as aguas thermaes sufpfiuiiicas , de 
Bonne , e de Barégc tem moiras vezes acertado a 
Bordeo no tratamento das escrófulas. Estas aguas aug- 
mentáo a transpiração , e produzem huma ligeira febre. 
Os marciaes unidos aos saponacios , obráo da mesma 
maneira ; Lalouette dava do seu sabão marcial desde 
quatro até doze grãos por dia. A febre considerada co- 
mo meio de curar as escrófulas , só deve ser 
excitada , ncs casos , em que não existem , senão 
simplices engorgitamentos , ou que ao menos as ul- 
cerações não fornèç-ãò huma grande quantidade de 
pus Seria extremamente perigosa em certas car ; es escro- 
fulosas: hé verdade, que se tem visto moderada , e 
ligeira ; ; porém como se obtém justamente o effeito 
desejado , pois que tal excitante administrado em fra- 
ca cloze pôde produzir o mais yivo excitamento , se- 
gundo a susceptibilidade do indivicV; í 

Omercurio tçm sido posto na primeira ordem en- 
tre os remédios chamados dissolventes da lympha ; não 
he de admirar, que no tempo, em que tomando o 
effeito pela causa , se olhava a coagulação deste humor 
nas glândulas como a causa essencial das escrófulas, 
se tenháo empregado as preparações mercuriaes no tra- 
tamento desta moléstia. Sabe-se hoje que na verdade , 
este remédio hé hum estimulante assaz enérgico âcf 
systema lymphatico , que o seu uso continuado , du- 
rara 



rante hum certo tempo dá nascimento a huma verda- 
deira febre mercurial , causada principalmente pelo ex- 
citamento dos absorventes ; porém náo se ignora, que 
este excitamento somente he momentâneo, e que hum 
estado de fraqueza , e de atonia he a sua consequência 
ordenaria. Por isso tem-se tornado mui reservados na 
applicaçáo do mercúrio contra as escrófulas ; emprega-sç 
sobre tudo nesta variedade de moléstia conhecida debai- 
xo do nome de oppilaçáo ou atrophia mesenterica. Da-se 
entáo debaixo da forma de oxido amalgamado com su- 
bstanc : as purgativas como nas pilolas de BelJosre (i), 
ou do muriato mercurial, simplesmente unido á goma. 
Estas pilolas de mercúrio doce sáo muito usadas no hos- 
pital de S. Luiz , e a associação do elixir anti-scorbu- 
tico ã seu uso , tem ahi produzido bons eífeitos. 

A' applicaçáo dos remédios geraes indicados , se 
devem ajuntar meios particulares segundo os sympto- 
mas , pelos quaes as escrófulas se manifestáo, e apar- 
te sobre a qual eltas exercem especialmente seus estra- 
gos. Porisso , se applicará sobre as glândulas engor gi- 
radas os emplastros dissolventes, ou resolventes, cães 
como o de achyláo gomado , o emplastro de Vigo 
aim mercúrio , o de sabáo , o de diabotanum , ou de 
cicuta , kc. E se estas applicaçóes emplastricas , náo 
produzem assaz promptamente a resolução dos tumo- 
res 



(i) A composição destas pilolas he a seguinte : 
Tome-se : De azdgue no estado metálico S 

t- Tartarito antimoniado de > ana' meia 

potassa. J onça 

lnture-se ate a total extineção dos dobes do mercú- 
rio, e junte-sc 

De diagrido "\ 

K. aná uhma onça 
— Jalapa em pó J 
Forme-se pilolas com qualquer charope de dous «rSos. 
O autor adiante indica a dose. b 

Not. do Traduc. 



1*1 

res, ou a sua supuração, por que ellas exercem estes 
dous eífeitos, sígundo á disposição das partes affecta- 
das, he preciso lardeir estas com o trociscos de mi- 
ttimt. Este meio activo convém nos casos em que as 
glândulas são extremamente duras , scirrosas , irnpermi- 
aveis aos líquidos , estado de obstrução , que he pre- 
ciso distinguir bem do simples engorgitamento da glân- 
dula , pois que , neste ultimo caso , assim como o ex- 
perimentou Soemmeringe , se deixa ainda penetrar pe- 
las injecções mercuriaes. 

Os meios tópicos , de que acabámos de fallar , 
são applicaveis ás glândulas postas debaixo da pelle ; j 
porém como se hade supprir o seu uso nos engorgi- 
tamentos glandulosos do pulmão , e do mesenterio í 
Reid assegura que não há melhor remédio contra a 
thisica escrofulosa, que a ipecacuanha administrada em 
pequenas doses , todos os dias , e mesmo duas vezes 
por dia ; as sacndiduras do vomito , o abalo , que re- 
sulta -das simplices . náuseas (porque os eméticos em 
pequenas doses produzem antes a disposição à vomi- 
tar, do que operáo huma evacuação real), devem po- 
derosamente concorrer a desengorgitar as glândulas 
lymphaticas dos pulmões. 

Em quanto ás glândulas engorgitadas do mesente- 
rio, na oppilaçáo, os purgantes repetidos são o me- 
lhor remédio; os purgantes mercuriaes, ou os purgan- 
tes tónicos , taes como a agua de ruibarbo , diariamen- 
te administrada , tem desobstruído estas glândulas , e 
curado atrophias mesentericas , :aracteiisadas pela dure- 
za e tumefacçáo do abdoméu , diarrheas serosas habi- 
tuaes > e huma magrezr, tál , que todas as partes pa- 
redão' atrophiadas. C riso provocado todos os dias pe- 
las cócegas dos hypocundrios , não he menos vantajo- 
so para a cura der.ta variedade da affecção escrofulosa. 
Nas agitações repetidas e convulsões , que as acompa- 
nhão, as glândulas sentem huma sacudidura muito fa- 
vorável á sua desobstrução. 

As ulceras escrofulosas > formadas espontaneamente, 

ou 



»5* . 
ou resultantes da abertura das tumores escrofulosos a- 
ppitemados , peccáo consta i: por falta de accáo ; 

6uas -bordas são duras, calosas, e de hum rubor livi- 
doj as suas superfícies descoradas, o puz , que delias 
corra privado de consistência ; deve-se lhe excitar a 
i^lammaçáo , ajuntando-se ao tratamento anti esc ror u- 
loso o uso local dos excitantes. A labaça cozia a, e 
applicada em forma de cataplasma , a barita ou terra 
pesada , com que se pulverizão , os banhos saponacecs , 
ou aromáticos , servirão a animallas. 

O desapego da pelle nos lábios retarda singular- 
mente a melhora das ulceras escrofulosas , que suece- 
dem à abertura dos abscessos deste género. Esta me- 
lhora se faz sobre tudo muito tempo esperar , logo 
que «c abrem muito cedo estes abscessos ; isto he , 
quando descobrindo de alguma sorte a supuração , se- 
não rem ««perado pelo amollecirnenio da massa engor- 
git»Ja. Porém além das durezas do fundo .da ulcera, 
que a supuração liquida mais difficilrnente depois , que 
anteí da abertura dos abscessos , os lábios ofterecem 
ferquenr* fiirm endurecimento caloso , e tanto nestas 
comr> fm outras , estas , calosidades , resultado de hu- 
ma inflamação prolongada , porém pouco activa , não 
se dissipáo , «enáo peia supuração, (i) 

O galvansmo , c a electricidade tem silo applica- 
dos com vantagem assim nos tumores , como nas ulce- 
rações escrofulosas ; o vivo excitamento que por estes 
meios se produz , accorda as propriedades vilães entor- 
pecidas , e determínão huma inflammaçio necessária. 
Pelo uso que fiz da pi.'a galvânica , me persuadi , que 
não era necessário empregalla mui forte : huma vez 
que o enfermo resenre abalos dolorosos na parte ulce- 
rada , que entáo s? torna sanguinolenta , (o excitamento 
he muito vivo, e excede o fim desejado. 

Os 

(i) Vede o artigo das feridas , que suppurao , como pela 
compressão se fazem cessar este? diversos obstaculoso à forma- 
ção da cicatriz. 



'5* 
Os outros effeitos da àffecçáo escrofulosa , taes 
eomo a inchação , c a carie dos ossos esponjosos , o 
engorgitamento das partes articulares , conhecido pelo 
nome de tumores brancos das articulações ; a rachites , 
outra moléstia do tecido ósseo , que he constantemen- 
te da natureza das escrófulas ; todas estas variedades 
exigem , alem do tratamento geral descripto neste arti- 
go , cuidados particulares , cuja importância merece ser 
estudada em obras mais extensas. 

â 

GÉNERO QUARTO. 

Ulceras Sypbiliticas. 

ST" Osto que existáo , entre a enfermidade venérea e 
a escrofulosa , sinaes de similhansa assaz sensíveis ; 
que huma e outra destas moléstias afectando especial- 
mente o sistema lymphatico , as membranas mucosas e 
o tecido ósseo , determinem na primeira , engor..;itamen- 
tos glanduiosos nas membranas , inRarnmaçóes e fluxos , 
( inda que a inchação e a carie dos ossos dependem tam- 
bém muitas vezes tanto da syphiles , como das escró- 
fulas ) a pesar da debilidade escrofulosa , na qual a aífec- 
çáo syphilitica e os mercuriaes com que se combate , 
lançáo todo o.^ystema, e do estado escrofulosod os infan- 
tes nascidos de pais infectados do vicio syphilitico ; com 
tu io as ulceras deste género difFerem essencialmente 
dos precedentes. 

A debilidade náo lfre forma o carater . a syphiles: 
se estabelece e propaga mesmo geralmente tanto mais 
prompta quanto o individuo he mais forte e vigoroso. 
Os remédios geraes. fortificantes e debilitantes náo sáo 
empregados senão accessoriamente no seu curativo ; a 
sua cura se obtém pe'a applicaçáo dos remédios parti- 
culares apropriados à sua natureza , os quaes pela sua 
efHcacia quasi constante tem sido olhados como especí- 
ficos. 

Em fim as ulceras venéreas sáo virolentas e con- 
ta- 



»54 
tagiosas , o pus que delias corre , applicado ás partes 
sáas , lhe transmite a enfermidade. Este ultimo caracter 
estabelece huma differença essencial entre estas ulceras 
e as que o escorbuto e as escrófulas entretém ou pro- 
duzem. Em váo alguns autores tem admettido hum 
vício escrofuloso, hum vírus escorbutico; toda a aftec- 
ção virolenta he contagiosa : por isso a enfermidade ve- 
nérea , as bexigas , a vaccina, a peste, etc. , são devi- 
das á hum principio particular distincto dd resto dos 
humores que infecta , próprio a comunicar a enfermi- 
dade pela inoculação. Nada de similhante se vè no es- 
corbuto e nas escrófulas ; o humor , que fornecem as 
ulceras destas duas enfermidades he incapaz de as pro- 
pagar. 

Depois de haver estabelecido as relações c as dif- 
ferenças desre género comparado aos precedentes , es- 
tudemos a enfermidade venérea; fazer a sua historia 
he expor a causa das ulceras syphiliticas que não são 
com eífeito mais , do que hum simptoma desta affec- 
çáo. 

<A enfermidade venérea existe na Europa somente 
depois da descoberta do novo mundo í Esta opin;áo , 
combatida por diversos autores , he a mais geralmente 
adoptada. He verdade que os livros sagrados (Lívitiqne 
chap. 15); Celso, liv. IV. chap. 21 ; Juvenal, s .tir. 
ii; Marcial, no sétimo e nono livro dos seus epigra- 
mas; Galeno e os Árabes; o Bispo Palladicus; os Mé- 
dicos arabistas dos séculos treze e quatroze , taes como 
Lanfranc , Salicet , Gordon , Arnaud de Ville neuve , e 
Guy de Chauliac , fallão , em diversos lugares de suas 
obras , de fluxos sanguíneos das partes genitaes , de 
ulceras , de tumores , de gangrenas , de excrescências , e 
ourros accidentes sobrevindos ás mesmas partes em 
consequência de excessos de deboches ; j- porém estes. 
simptomas , isoladamente descriptos e como indepen- 
dentes huns de outros , erão realmente syphiliticos ? 
Isto he o qne não promettemos decidir. A admiração 
de que todos os Médicos foráo tocados, quando, no 



155 
fim do armo 1494 , depois que Christovão Colombo 
tornou da sua primeira viagem ás Ilhas Caraibes, ap- 
pareceo huma nova moléstia , contagiosa e mortífera ; 
o temor que inspirou aos povos , victimas de seus es- 
tragos ; o modo com que foi rransmittida pelos Hes- 
panhoes aos Napolitanos , por estes ao exercito Francez 
empregado no cerco de Nápoles , e pelos Frnnçezes as 
aurras naçóos europeas as quaes lne chamarão mal 
francez ; tudo nos obriga a acreditar que nós devemos 
á America este funesto presente. 

F.sta conjectura não he destruída pelo que tem 
sabido a Sociedade Aziatica estabelecida em Calcutta 
peias suas sabias indagações. A enfermidade venérea 
era conhecida entre os Indianos desde hum tempo im- 
memoravel , e deide a mais alta antiguidade os Bramene» 
sab;r,o também o modo ce a curar. \ For que náo teria 
a enfermidade venérea tomado nascimento nestes paizes 
onde todas as tradições se concordão a por o berço da 
espécie humana , e náo teria ella sido espalhada sobre 
o resto da terra pelos mesmos homens nos quaes en- 
contramos de hum modo táo evidente os fundamentos 
de nossos cultos e das nossas leis? 

No tempo da sua primeira apparição na Europa , 
a enfermidade venérea se embraveceo com tanta y. ; 0len- 
cia , seu contagio era táo fácil , seus simptomas táo 
rapidamente mortaes , que as auctondades publicas latv* 
çaváo fora das cidades os indivíduos que eráo aíFscta- 
gos delia. He porisso que o Parlamenro de Fariz orde- 
nou aos galicados debaixo da pena de baraço ou de 
Forca o sahirem da cidade no espaço de 24 horas. A 
virulência da moléstia se tem gradualmente amorcecido ; 
as gangrenas do penis , do escroto , da garganta , e ou- 
tros effeitos familiares nos primeiros tempos da sua 
appariçáo, já raramente se observáo. js; He aciso por 
huma transmissão repetida , e por passar successivanr-"- 
te hum táo grande numero de indivíduos , que o virns 
venéreo terá experimentado huma alteração , que tem 
diminuído sua violência í Similhante á huma torrente 

cu- 



i 5 6 

cuja rápida carreira se enfraquece , logo que, do aper- 
tado leito, em que suas ondas se achavào clausuradas, 
espalhando-se por vastas campims, perde sua ferocida- 
de á medida que estende seus estrabos ? Ou antes o 
habito náo tem embotado a força de suas impressões , 
por se ter naturalizado ? 

A enfermidade trazida da America passava de hum 
paiz quente a hum oiifna- mais frio , e nada he mais 
próprio a augmentar-lhe a violência. Os desgraçados 
habitantes do porto de S. Paulo.no Canadá , acabáo de 
ser viciimas desta triste experiência ; a moléstia levada 
a esta colónia por marinheiros ínglezes ahi se mani- 
festou por efreitos táo, cruéis como aquelles da sua in- 
troducçáo na Europa , no rim do seculò qujnze. Sua 
passagens de hum paiz frio ou temperado a hum mais. 
quente , he ao contrario annunciada pelo adoçamcnto 
de todos os seus simptomas. A continuada e abundante 
transpiração debaixo áà zona tórrida , torna a enfermi- 
dade venérea táo supportavel , e lhe enfraquece de tal 
sorte os progressos , que os habitantes pouco se in- 
quietáo , e vivem tranquillos com hum hospede tão 
terrivel em outra parte. A enfermidade venérea he táo 
commum na America , no Peru , nas Antilhas , nas 
ilhas da Sociedade , que se poderia ahi olhar como en- 
démica. Os navegantes que a contrahem nestes paizcs 
Sao mui pouco incomodados em quanto ahi se dcmo- 
ráo , e algumas vezes a enfermidade se lhe náo decla- 
ra seraáo na volta quando chegão debaixo de latitudes me- 
nos temperadas. Pelo contrario os simptomas da enfermi- 
dade desapparecem ou se modificáo, quando passáo da 
Europa para America. O mesmo acontece nos nossos 
climas ; e a differença das tempeturas , segundo a va- 
riedade das estações , náo tem menos influencia sobre 
a intensidade da affecção syphilitica. Constantemente 
he exasperada nos primeiros frios do invemo f em 
quanto que os calores do verão lhe mitigão os simpto- 
mas , e favorecem a acçáo dos remédios com que se 
combate. Os sudoríficos tem em muitos casos sido bas- 

tanr 



*57 

tante para a sua cura ; náo sejamos pois surpreendi- 
dos que nos climas debaixo dos quaes a pelle vivámen-- 
te excitada se torna o assento de huma transpiração 
abundante , tornem esta afrecção mais benigna. 

As ulceras syph'lic ieas são o rezultado próximo de 
hum contacto impuro , ou antes dependem da inrecçáo 
geral , e se destinguem em secundarias e primitivas. 

As primitivas sobrevem raramente alguma horas de- 
pois do commerci.o impuro com mulher infectada , e 
commum he sobrevirem dons , - trcs , até dez dias de- 
pois i porém o coito não he o único caminho , pelo 
qual se possáo contrahir : beijos lascivos , qualquer to- 
que em huma parte da pelle escoriada , ou somente 
coberta do epidermes vermelho e humecido , como o 
dos lábios , da glande , sendo untados de algumas go- 
tas do virus , são capazes de as produzir. Guilherme 
Hunter contava nas suas lições sobre a arte cbstreticia , 
que huma parteira , muito procurada em Londres , foi 
accomettida de huma ulcera syphilitica no dedo indica- 
dor da máo "direita , por ter tocado huma mulher inífe- 
ctada cotn este dedo , em que ella tinha huma lige'ra 
escoriação. Antes de conhecer a verdadeira natureza des- 
ta ulceração , a parteira iníTcctou mais de oitenta mu- 
lheres prenhes sobre quem exerceo o tocar, (i) Huma 
crennça de peito , que traz de seu« pais o género da 
enfermidade venérea , bem depressa inlíecta sua ama , 
sobre tudo nos casos- , em que o bico do peto se acra 
com alguma greta , etc. Há indivíduos que gozão do 
fe'iz privilegio de frequentar impunemente, mulheres as 
mais infectadas , estes são quasi todos homens robus- 
tos , cujo prepúcio he tão curto , que a glande ex : ste 
habitualmente descuberta : por quanto a continuada fric- 
ção desta parte contra o calção tira aó epidermes sua 

de- 



(i) Certa indagação, que se faz com o dedo indicador, 
introduzido na vagina , para conhecer da existência do fet- 
to , ou da parte , que apprezenta. 

Not. do Trad. 



i 5 8 

delicadeza , e toma a absorvencia menos fácil. Observai 
tambr.n que aquellas pessoas que tem contrahido gali- 
co são mais susceptíveis de huma nova infecção. 

Conhece-se huma ulcera syphilitica primitiva, I. ° 
pelos sinaes commemorativos , tirados das circunstancias 
antecedentes , como da cohabitaçáo com huma mulher 
suspeita ; da existência de outros symptomas venéreos , 
donde a manifestação precede , accompanha , ou segue 
de mui perto aquellas da ulcera. Taes seriáo huma blen- 
norragia virulenta , com , ou sem inchaço da glande , e 
do prepúcio , phymozes , e paraphymozes , engorgita- 
mentos de glândulas lymphatieas inguinaes , ou bubóes j 

2.° Por ser, o seu assento nas partes que tem so- 
frido contacto impuro , taes como a glande , a superfice 
interna do prepúcio , os lábios , a lingua , huma escu- 
riação nos dedos, ou em outro qualquer lugar da pel- 
le branca. 

:$ . ° Pela forma com que ella se estabelece , e se 
propaga, corroendo as partes, estendendo se mais em 
largura do que em profundidade ; he precedida as mais 
das vezes por huma pequena pústula, cuja rotura dá 
sahida a hum humor acre , e límpido. 

4. ° Em íim pelo seu aspecto , assim como do 
estado das partes, que a rodeáo. Ella toma geralmente 
huroa forma arredondada, seus lábios «íais ou menos 
dentados , em lugar de ofrerecerem huma espécie de 
scarpa , ou chanfradura , como a maior parte das ulce- 
ras , sáo cortadas verticalmente sobre a sua espessura ; 
a superfície da ulcera he coberta de huma sorte da pel- 
le cinzenta, o humor., que ella fornece he viseozo , 
pouco abundante , espalhando hum cheiro sui generis ; 
cm fim , seus redores , e as partes subjacentes sáo in- 
flamadas , duras, e esta dureza com vermelhidão, e dor 
ardente, fornece hum dos principaes sinaes da enfermi- 
dade. 

A ulcera syphilitica secundaria tem o seu assento 
nas partes geniraes, na pharinge, na boca etc. Estabe- 
lecem-se mais facilmente nas membranas mucosas, do 

que 



IS 9 
que na pelle branca , e secca. No tegumento commum 
sáo assaz raras , à excepção das que produzem as ca- 
ries , e outras affecçóes venéreas. Tem assaz geralmen- 
te hum a forma arredondada , outras vezes semelhante* 
aos erpes corrozivos , ou phagedinicos , propagío-se de 
huma a outra parte destruindo a pelle , e cicatrizando- 
se de hum lado , em quanto que se estendem do ou- 
tro. Eu tenho visto ulceras desta espécie destenderem- 
se qaisi inteiramente pelo tcrpo dos enfermos , e não 
fazer de toda a sua superflce mais que huma vasta ci- 
catriz. Entre as variedades , que pôde offhrecer esta es- 
pécie , notarei certas ulceras redondas , cuja cicatrização 
commeça pelo cemro, de sorte que* no fim da eníer- 
midade , a ulcera forma hum anel de ulceração , que 
abraça huma cicatriz arredondada , e quando esta va- 
riedade da enfermidade faz progressos, o circulo uice- 
rozo se engrandesse , porém a cicatriz do centro aug- 
menta de largura, á proporção, que a circumferencia 
cresce. 

As ulceras chamadas primitivas não são sempre os 
primeiros symptomas da enfermidade venérea ; as que 
chamámos secundarias podem igualmente sobrevir nos 
primeiros tempos da enfermidade. He porisso que a 
evacuação mucoza impropriamente designada pelo ter- 
mo de gonnorrhéa ( a matéria , que a foima , provem 
das glândulas da uretra , e differe essencialmente do li- 
cor seminal ) , precede frequentemente os cancros , ou 
ulceras syphiliticas da glande, ou do prepúcio. Outtas 
vezes o enfermo contrahe o galico de assalto , isto he 
sem se declarar algum symptoma nas partes, que fo- 
rão expostas ao contagio , formando-se ulceras na gar- 
ganta , pustullas na pelle, inchaços nos ossos, etc. 

A suecessão admittida por hum grande numero de 
autores , entre os phenomenos syphiliticos , não deve pois 
ser ri ^orozamente concedida. He verdade que em con- 
sequência de hum contacto impuro , a enfermidade se 
manifesta nas partes submettidas a este contacto , que 
a blennorragia , os cancros do peni*, os bubóes das 

vi- , 



%6o 

Virilhas se declaráo depois do coito com huma pessoa 
infectada , que a estes symptomas desprezados , succe- 
dem ulceras na garganta , e no véo do paladar , nódoas 
na pelle, e.que em fim nos últimos períodos da afrec- 
çáo , os mesmos ossos sáo atacados, as le2Óes das par- 
tes genitaes , da.pelle, e das membranas mucozas se 
tprnáo ao mesmo tempo mais graves ; porem tst.?s fi- 
liações wp se observão constantemente; e se vem in- 
diviJuos nííèct t ->dos de pústulas , e de exostozes syph líti- 
cos , posto que as partes genitass náo tenh«o mostrado 
algum sinal de iníecç?o. 

Quando, a pezar da reunião dos s : nars commemo- 
xativos, e diagnósticos , reste ainda alguma duvida so- 
bre o verdadeiro caracter de huma uíceça julgada syph - 
lírica , ha hum meio próprio a destruir, ou a con.rumir 
as suspeitas ; este consiste na applicaçáo do unguento 
mercurial , dos calamelanos , ou outra preparação se- 
melhante , sobre a superfície ulcerada. O mercuro se 
torna aqui por seus eíFeitos huma pedra de verdadeiro 
toque ; ^ tiráo-se bons elieitos de sua applicaçáo, toma 
a ulcera huma cor vermelha , sua grandeza dim nue , a 
cicatriz começa a estabelecer se , e os redores da ulcera 
a desengorgitarem-se ? Náo se pôde então duvidar da 
natureza da enfermidade. 

A principal cauza das dificuldades, que obscurecem 
o diagnostico das ulcerações syphiliticas são devidas ao 
caracter náo venéreo de certas ulceras das partes geni- 
taes , na mesma occaziáo , em que ellas são a conse- 
quência da copula. Concebe-se que toda a applicaçáo 
excitante pôde dar lugar a escuriaçáo das partes geni- 
taes ; que as flores brancas , quando contrahem hum 
certo gráo de acrimonia devem produzir ulceras, ass ; m 
como fluxos; quantas náo são geradas por falta de 
cuidados , e de limpeza ! 

Só a experiência do mercúrio , para julgar das ul- 
ceras duvidozas, he que decide. Fica-se privado deste 
recurso nos fluxos blennorragicos , olhados pelos a - 
ti&os como fluxos do sémen; qualquer excitante appli- 

ca- 



eanS a membrana da metia, determina estes fluxos, 
que S2 declaráo doze horas, hum, ou muitos dias, e 
<i 1 nas vezes huma , xxi muitas semanas depois. O 
humor que fornecem as glândulas mucosas da uretra 
nesta inflamação catarral de seu canal , he igualmente 
verdoengo no principio , diminue em quantidade , es- 

»se , torna-se brinco por gráos , até que recobra suas 
qualidades naturaes , no fim da enfermidade, ou ella 
dependa de hum excitamento venéreo, ou de outra qual- 
quer cauza. Em fim a demora do fluxo , que se prolon- 
ga mais que os outros catarros , porque a passagem das 
ourinas renova continusdamente o excitamento , quan- 
do , quero dizer , o fluxo dura muitos me? es , táo 
violento , que todo o comprimento do canal he afTecta- 
do delle , e forma huma corda , que embaraçando a 
erecção do penis , torna esta extremamente doloroza ; 
he ainda duvidozo que a ulcera seja verdadeiramente 
sypMitica , pois que os autores , e Berjamin Bell entre 
outros, sustentáo que o virus da gonofrhéa, inteira- 
mente diferente do virus syphlitico , já mais communica 
esta ultima afecção. 

Com tudo a experienoia tem provado que se mui- 
tas blennorrSa gias simplece3 , tratadas por bebidas cal- 
mantes , e mucilaginozis , não tem tido consequências 
algumas funestas, a infecção geral era sempre a temer, 
quando sobre tudo a blennorrhéa tem sido terrivel , 
taes como aquellas , que na erecção o pénis fica cur- 
vaJo, e o sangue sabe em mais ou menos quantidade 
pelo orifício da uretra , e que se tem formado ulceras 
sobre a glande , ou prepúcio , durante o curso do 
fluxo. 

Tem-se pensado, que ulceras syphiliticas se for- 
maváo no canal da uretra , e fornecião a matéria dos 
fluxos blennorrhagicos. Morgagni, e depois deste gran- 
de Medico, huma multidão de aberturas cadavéricas 
tem mostrado , que a ulceração da membrana interna 
da uretra era excessivamente rara; que esta membrana 
na blennorrhazia era somente mais espessa, e mais a- 

L ver- 



í6i 

vermelhada, que no estado natur»l, e que em fim es- 
te espessamento da membrana tornando^se maior por 
en^orgitamentos repetidos , era a verdadeira cauza dos 
apertos da uretra , cujos tem sido , ha muito tempo , 
tomados falsamente por prizóes formadas pelas cicatri- 
zes das ulceras , de quem admittiáo a existência. 

As ulceras syphliticas podem ser ingenitas. Swe- 
diaur conta que a mulher de hum soldado drag«io deo 
á luz hum menino , que trazia na garganta huma ul- 
cera venérea no mesmo lugar , em que o pay tinha 
huma. 

As indagações de Mahon , e a observação diária 
náo deixáo alguma incerteza a este respeito. He fora 
de todo a duvida , que o feio sofre os funestos effeitos 
da affecçáo syphlitica no seio materno. He pois sem 
fundamento algum , que se tem querido attribuir os 
symptomas venéreos, que offerecem as crianças, depois 
do nascimento, ã infecção que tem adquirido esfregan- 
do com sua pelle delicada as partes ulcerades da may 
na acçáo do parto. 

He com tudo verdade que independentemente do 
contagio hereditário , de que o mesmo gérmen he vi- 
ciado , muitas crianças contrahem o gaiico na occaziáo 
da sahida do ventre materno , acontecendo isto tanto 
mais facilmente , quanto a pelle he mais vermelha , de- 
licada , e húmida , por quanto toda inteira está dispos- 
ta á absorvencia , sendo por este medo análoga a 
membrana , que forra os lábios , e as partes genitaes de 
hum e outro sexo. 

,Náo há em pathologia hum assumpto , que tenha 
mais excitado a imaginação dos autores sistemáticos , 
do que a ethiologia da enfermidade venérea. J. Hunter , 
e outros mais explicáo a propagação do mal pelas leis 
da sympathia , o maior numero admitte a existência de 
hum virus , o qual , absorvido pelos vazos lymphaticos 
corre os caminhos ordinários da lympha , altera , e ul- 
cera os orifícios absorventes , determina o engorgitamen- 
tOj e a supuração das glândulas desta natureza , e nos 

es- 



1*1 

estragos , que r exerce sobre rodas as partes da econo- 
mia, affecta principalmente os tecidos, em cuja* extro- 
cturas entrão em grande porção os vazos lymphaticcs : 
taes são os ossos , as membranas mucozas , e a pelle. 

Não há duvida, que existe hum virus syphilitico. 
Forma-se nas inflamações desta natureza, corrompe, e 
vicia os humores , sem que o sangue , sua origem com- 
irtufrt , p.iraça infectado delle. Este virus retido nas su- 
perfices das ulceras syohiliticas, pôde communicar a en- 
fermidade por inoculação ; triturado com hum oxido de 
mercúrio, ou hum sal msrcurial, perde sua viroiencia, 
e se torna incapaz de a propagar. Em huma palavra , 
a existência material deste ser he tão provada , como 
a existência do vírus escorbutico , escrofulozo he c'ii- 
merica. Observai como huma particularidade notável , que 
o vicio syphilitico se não oppoem á reunião das feridas , 
como acontece nas dispoziçóes escorbuticas , e eescrofu- 
losas , e que senão vè ulcera venérea nascer de huma 
ferida acciclental , em quanto que . as de huma outra natu- 
reza reconhecem frequentemente esta origem. Misturado 
com a lympha , e acarretado pelo sistema dos vazos absor- 
ventes , <não existem partes , sobre as quaes o viruS 
syphlitico não possa levar seus estragos: humas vezes 
os exerce sobre as membranas mucozas da urerra , da 
boca, da garganta, das foças razars, sobre a conjun- 
ctiva , sobre a membrana interna d.) recto, e determi- 
na a blennorrhagia , as ulceras da glande , e do prepú- 
cio , as da boca , da garganta , e do véo do paladar , a 
ozena , a ophthalmia venérea , o engorgitamemo vené- 
reo das paredes do recto ; outras vezes he á pelle , que 
faz resentir seus effeitos , occazionando-lhe nódoas , 
pústulas , e ulceras. O tecido cellular não está ao abri- 
go desta acção , tumores gommozos ahi se formão , 
sobre tudo junto ás articulações ; os ossos também são 
o assento delle, sua membrana exterior, seu mesmo 
tecido he afFectado na sua parte espongioza , rezulran- 
do disro os periostozes , os exostozes , e caries vené- 
reas. Em fim os cabellos, e as unhas cahern, os mus- 

L ii cu- 



164 

culcs se athrophião , e os orgáos dos sentidos se tornão 
paralíticos em certos Cazos, cm que a enfermidade está 
inveterada. Esta extrema diversidade dos syrr.ptomas , 
pelos quaes o vírus venéreo declara sua existência , as 
formas variadas , de que se pôde revestir , o 'tem íe to 
com razão considerar como hum verdadeiro Frotheo , 
t:uja perigoza natureza escapa em muitas occaziões aos 
olhos , os mais perspicazes. Felismente para a espécie 
humana tem-se descuberto no mercúrio huma podcroza 
arma contra este terrível inimigo 3 quazi tão variada 
como elle nas diversas preparações , debaixo das quaes 
o mercúrio pôde $es administrado , este metal o segue 
em suas diversas transformações , descobre-o debaixo 
dos véos os mais obscuros , e seguindo seu caminho 
insidiozo , alcança-o , encadea-o , e o destroe. 

A Therapeutica das ulceras syphiliticas se reduz 
quazi totalmente aos diversos modos, com que se pô- 
de applicar este remédio saudável. Não' formeis com 
tudo de sua virtude huma oppiniáo muito exagerada ; 
toda a exageração está longe da verdade. Ha ulceras , 
que rezistem teimozamente ao mercúrio , qualquer que 
seja a forma , debaixo da qual se administra ; ainda 
mais lhe aggrava consideravelmente os syrnptomas , se 
se continua na sua applicação : ei-lo-aqui descaído da 
qualidade especifica , que lhe tem sido muito .tempo 
attribuida. ^ Qual será o remédio , a que nós devamos 
dar esta denominação faustoza? 

Logo que em consequência de hum eommercio 
suspeito a huma uicera , ou cancro syphlitico se mani- 
festa nas partes genitaes do homem , ou da mulher , 
ha práticos , que a olháo como huma enfermidade ab- 
solutamente local no seu principio 5 e tratáo da sua 
prompta cicatrização, e a obtém tocando-lhe a supetíi- 
cie com pedra infernal , ou qualquer outro catheretico. 
Éu tenho obtido por este modo a cura das ulceras sy- 
philiticas sem empregar o. mercúrio , e sem que algum 
svmptoma consecutivo tenha provado que não foi ra- 
dical a cura. Porém devo na verdade declarar que mui- 
tas 



tas mais vezes ainda o successo saudável náo tem sido 
senão apparenre , e que poucos dias , ou mesmo logo 
depois do desaparecimento da ulcera , se tem manifes- 
tado os symptomas , que denotáo a affecçáo syphilitica 
geral , taes como as inflamações da garganta , como a 
ulceração das amygdalas. Por isso , sem renunciar a 
esta pratica , eu junto á cauterização o uzo interno do 
mercúrio , e a applicaçáo local dos fios untados no un- 
guento mercurial. 

M. P. 5 Banqueiro Portuguez estabelecido em Lon- 
dres , tinha vindo a Pariz , durante a curta paz , que 
suspendeo hum momento as querellas sanguinolentas da 
França , e da Inglaterra. Todo entregue aos entreteni- 
meuos, que. esta' capital offerece , bem depressa colheo 
os amargos fructos. Hum cancro venéreo da estensáo 
de huma polegada de diâmetro pouco mais , ou menos , 
se formou em menos de quarenta , e oito horas. Sendo 
eu chamado , e bem certificado pelas circunstancias 
antecedentes , assim' como pelo aspecto da ulcera , da 
sua natureza syphlitica , purguei o enfermo , e conse- 
quentemente o puz no uzo do charope de Cuzinheiro , 
(1) no qual muriato de mercúrio oxigenado era dis- 
sol- 



vi) A este charope "se dá o nome de sudorífico. Faz-ie 
d* maneira seguinte: 

Tome-se de Salsa parrilha duas libras. 

folha» de Sene limpas 

aniz y anáhumaoutava 

tolhas de rozas brancas 

assucar - - - 

aná três libras.' 

mel brnco 

Corta-se a salsa parrilha longitudinal, e transversalmen- 
te, faz-se macerar, e infundir por doze horas; com o nro- 
dueto desta maceração , e infuzão fas hum charope , que 
.se clarifica, e* se lança fervendo sobre a sene, ai rozas , e 
o aniz : depois de doze horas de infuiâo , eoa-se este charo- 
pe. Code Pharmaccutioue pag. 3 8b. M. Aíiber junta > este 



,5. 

} 
} 



\66 
solvido na dose de dez grãos por canada. Tomav* 
delle huma colher de sopa cada noite no vehiculo d e 
hum copo de leite quem» , entrava duas vezes na se- 
mana em hum banho , purgava-se todos os oito dias 
com seis pirolas de Belloste , tomando todas as ma- 
nháas duas destas pirolas. Este tratamento durou pouco 
mais ou menos seis semanas ; a ulcera se cicatrizou em o to 
dias. Appliquei-lhe a pedra infernal repetindo-a por três 
vezes , as duresas de que a ulcera estava cercada , se 
dissiparão no meio do tratamenro. Eu observarei de 
passagem, que em quanto existirem sinaes de cngorgi- 
tamentos abaixo das cictrizes , de que se cobrem as 
ulceras syphiliticas , a cura he incompleta. 

Chegado o vigessimo dia , todos os simptomas 
apparentes da affecçáo tinhão desaparecido; o enfermo 
sentia todas as manháas hum gosto de cobre na boca , 
a saliva era viscoza , emais abundante dòque do costu- 
me. Tudo annunciava que o ptialismo mercurial estava 
prompto a estabelecer-se. Fiz cessar totalmente o uzo 
do remédio, e terminei por dous purgantes ordinários 
dados com hum dia de entrevallo. Desde entáo o en- 
fermo, que tinha já passado em diversas épocas por 
muitos tratamentos anti-syphiliticos , gozou de huma 
perfeita saúde. 

Eu bem sei que muitos práticos tem condemnado 
este methodo , querendo que se deixem suppurar os 
cancros , e que se abandone o seu curativo ao trata- 
mento interno. - ( Porém para que devemos deixar subsis- 
tir huma ulcera destruidora de nossas partes , e na qual 
sf forma á cada instante o virus , cuja reabsorvencia 
infecta toda a economia ? < Os cáusticas applicados á 
ulcera venérea primittiva , náo destroem ou ao menos 
não concorrem a enfraquecer, e a desnaturalizar o vi- 
rus, e a sua applicaçáo não he aqui indicada pelos 

mes- 

charope dous grãos do muriato de mercúrio sobre oxigenado. 
A dose ordinária he ce huma a duas onças. 

Not. do Trad, 



i*7 

mesmos motivos que determináo a applicação dos caus^ 
ticos nas feridas venenozas í 

Ha com tudo entre o tratamento das ulceras vené- 
reas primirivas, C otra tamento das feridas venenozas , 
esta differença considerável, que a a^plicaçáo dos cáus- 
ticos forma a parte essencial da Therapeutica destas fe- 
ridas , em quanto que este náo he senáo hum meio 
accessorio no curativo das ulceras : hé preciso sobre tu- 
do esperar a cura pelo uso do mercúrio. 

?Qual he apreparação mercurial de que se faz uso 
com mais vantagem ? í Debaixo de que forma he mais 
uril sua administração ? < O caminho das fricções he 
preferível aos outros methodos de empregallo ? < Quaes 
são os inconvenientes que podem sobrevir á sua appli- 
cação ? ; Quaes sáo os meios , que a prudência indica 
para prevenir seus esrragos ? < He conhecido o modo 
de obrar do mercúrio ? ; Em fim quaes L sáo os outros 
remédios , que se lhe podem associar , ou mesmo substi- 
tuir-lhe quando sua acção he frouxa ou pernicioza? 

Segundo Berenger de Carpi , ao qual he devida 
a descuberta das propriedades do mercúrio no trata- 
mento das enfermidades venéreas , sabe-se que este me- 
tal puro, ou virgem hão goza absolutamente de alguma 
virtude ; náo tem acção contra ellas senão no estado 
de sal , ou oxido , e suas combinações náo tem o mes- 
mo grão de cfRcacia. 

Amais activa de todas he o muriaro oxigenado 
de mercúrio , veneno violento , remédio heróico , mas 
muitas vezes perigoso , ainda que se administre em pe- 
quenas doses. Vanswieten foi o primeiro que fez uzo 
desta preparação no tratamento do galico(i): 'dissolvia 



(i) O Autor não faz menção de que o nosso Portu- 
*uez o Doutor António Nunes Ribeiro Sanches foi quem 
participou a Vanswieten a descuberta da applicação do su- 
blimado nas moléstias syphiliticas. 

" Foi então que eu communiquei os effeitos deste re- 
médio a M. Barão Vauswieten , meu amigo , o qual por 



i68 
o mercúrio rio alkool dando esta dissolução por bebid a 
em huma certa quantidade à' agua. He ainda debaixo 
desta forma que este licor se administra, conhecido 
cem o nome de seu autor. A dose he de hum quarto 
de grão por dia , levanJo-se per grács até meio , e 
mesmo até três quartos de grío ; de vinte a vinre e 
cinco grãos be bastante no tratamenro ordinário. Iara 
abrandar a actividade do licor de Vansvt ieten se mittu-. 
ra com o leite quente , ou qualquer charope. O de co- 
zinhe ro já mencionado he o sen vehicrlo mais ordiná- 
rio. Esce charope, he incapaz de errar a syphiles ; po- 
rém ajuda muito a acção do sublimado , e torna a 
actividade deste remédio menos perigosa. 

A pezar destes correctivos, senão deve jamais 
dar a indivíduos , cujo peito he fraco , e delicado ; per 
que hemophthyzes , e ihyzicás mortaes tem í>ido mui- 
tas vezes produzidas por sua applicaçáo indiscreta. Este 
remédio não convém dar senão a pessoas frites, pou- 
co excitáveis , e doradas de robustez Hr.ma àis cinzas 
que tem au D rnentaJo o uzo do muriato oxigenado he 
a facilidade , com que se presta nos tratameuros occultos. 
A quantidade necessária para a cura completa da syphi- 
les , se pôde encerrar em hum pequeno vidro , que o 
enfermo esconde facdrp^nf is vistas curiozas , e indis- 
cretas ; pode misturalla ccultimente nas suas bebidas , e 
inJa que o gosto seja acre , eíle só o percebe , e não 
manifesta aos outros sua presença. Os vestidos senão 
çujáo ; em fim a commodinade que se tem encontrado 
em o tomar em pequenas doses , o tem feito adoptar 

qua- 



cartas me testemunhou seu reconhec/men^o, e ao depois pu- 
blicamente no 5 . volume dos seus Conmentarios sobre os 
Apriorismos de Poerliaave „. Des observationes sur les mala- 
dies veneriemes par feu M Antonie Nunes etc. pa<*. 7. 

Com tudo ja' hum Cirurgião Allemâo tinha feito uzo do 
sublimado na Sibéria nas moléstias venéreas ; porém fazia se- 
gredo da dose. Yejd-se a sokusdita Obra pa?. ?. 

Not. doTraduc 



\6(j 

quazi gera'mente. • Qual he o remecKo além da sobre- 
dito, que se pode propor nestas enfermidades , em que 
pudor obsta o declarar o verdadeiro caracter, e que cu-* 
ra muitas vezes fingindo ignorallásí 

O muriato de mercúrio doce , ou os calomélanos 
tem menos actividade; administra- se em pirolas , em 
fricções , misturado com a banha de porco , ou mesmo 
se cobrem com elle , depois de reduzido a pó subtil , as 
superfícies das ulceras syphiliticas esfregando-se seus 
redores. Clare o prescrevia em frcçóes na parte interna 
dos lábios , nas gengivas , nas fauces , para obter a 
cura completa. Porém não só tem o inconveniente de 
se dífficultar o introduza huma quantidade de mercúrio 
snFciente para exti^gUT o virus , mas ainda es r e me* 
thodo expõem mais , que algum outro aos acc;dentes 
da salivação, porque o mercúrio affecca mui facilmen- 
te , e com tanta maior promptidáo as glândulas saiivan- 
res , quanto se applica mais próximo destes corpos 
glandulosos. O metSolo de Cb.re só he appliçaJo á 
cura local das ulceras internas da boca , e do véo do 
paladar. 

O ox ; do cnzento de mercúrio , formando por sua 
mistura com as gorduras , o remédio conhecido debaixo 
do nome de unguento napolitano , he huma das prepa- 
rações a mas uzàda no tratamento da afTecyáo syphili- 
txa. Adm'nstra-se em frcçóes na dose de meia oura- 
va , até duas de cada vèz : basta quatro onças pouco ■ 
mais, ou menos deste unguento no progresso do trata- 
mento ord'nario. Untáo-se também as pranchetas com 
este unguento , e com ellas se cobrem os cancros e 
ulceras venéreas, sejio primitivas ou secundarias; em 
fim, o oxido cinzento de mercúrio entra na compozi- 
ção das.p'rolas mercuriaes , e das de Belloste , onde se 
encontra associado as substancias purgantes. 

A introducçáo do mercúrio por meio das fricções 
he o methodo o mais antigo , e talvez o mais seguro 
de administrar este remédio. D'spoem-se a pelle, ra- 
pando os cabellos , que a cobrem , e aiimpando-a por al- 
guns 



i 7 o 
guns banhos das impuridades , que a sujáo. Qualquer que 
seja a quantidade do unguento , que ahi se empregue , 
antes^ de fazer a applicaçáo delie , praticáo-se algumas 
fricções scccas sobre o lugar desta applicaçáo , na \ 
de augmentar a actividade das bocas absorventes (i) , c^- 
pois do que estende-se o unguento ao longo do mem- 
bro , e se esfrega com a máo guarnecida de huma luva 
feita de huma bexiga de porco , pelo espaço de meia 
hora pouco mais , ou menos. Se se servisse da máo sem 
luva , esta absorveria huma certa quantidade de mercn- 
rio. Tem-se visto pessoas empregadas nesta occupaçáo , 
faitando-lhe esta precaução , salivarem primeiro , que os 
mesmos enfermos. A parte interna dos nossos membros , 
onde a Anathomia ensina que estão postos os fe ; xes 
lymphaticos , os mais consideráveis , he o lugar qce se 
escolhe para applicar as fricções Náo somente se deve 
graduar a quantidade do unguento , que ahi se empre^i y 
mas ainda affàstallas , ou approximallas segundo a épo- 
ca do tratamento , e os efièitos que as fricções produzem. 
Por isso , se começará por hnma fricção de ' meia 
outava sobre a parte interna das pernas ; hum dia de 
intervallo separará esta primeira fricção da segunda , 
que será praticada sobre o lado interno das coxas ; met- 
ter-se-ha hum dia de intervallo entre esta , e a terceira, 
para a qual se escolheráô as regiões inguinaes , e parte 
inferior do abdómen ; a quarta será feita nos membros 



su- 



' 0) Nas fricções seccas , que o autor recommenda não 
deve haver a imprudência de as levar até' hum ponto, que 
estabeleça huma flogose , porque nestas circunstancias as bocas 
dos absorv entes estimuladas não absorvem o mercúrio ; este. 
se depozita na pereferia, e ahi se accumula com as repetidas 
fricções , e quando os absorventes adquirem o grão , que lhe 
he necessário para a absorvencia , esta se faz mui repentina- 
mente, e em grande quantidade ; então se podem desenvolver 
todjs os symptomas mãos ; que huma immoderada applica- 
çáo do mercúrio produziriaé 

Not. do Traduct 



'7* 

superiores , quando se não preferir o recomeçar pelas 
pernas. Estas quatro primeiras fricções de meia outava 
cada huma , e separadas por hum dia de descanso , se- 
rão seguidas de hum banho quente , e de quatro outras 
fricções de huma outava cada dia, sem intervallo. Ha- 
verá o cuidado de alimpar bem a pelle , antes de lhe 
reapphcar o novo unguento. Continua-se do mesmo mo- 
do , entremeando as fricções de banhos, de dias de des- 
canso , e de purgantes , segundo as indicações , que podem 
offerecer-se. Esta gradação essencial a observar previne 
huma mui prompta salivação. Pie bom que as gengivas 
se amolleção , que o enfermo resinta pela manhãa hum 
gosto a cobre na boca , e que experimente hum prin- 
cipio de afFecção. Fica-se seguro por isto da acção do 
mercúrio ; porém não he necessário , como se tem 
muito tempo julgado, que a salivação se estabeleça , 
para que a cura seja completa. Além d isto es.te ptya- 
lismo que esta a cima dos poderes da arte o suspendello , 
huma vez que elle está bem estabelecido , pôde por 
sua abundância , e sua duração lançar os enfermos em 
huma magreza mortal; tem-se ainda ma ; s observado 
que , em certos cazos o mercúrio sahe mui facilmente 
por esta salivação , e que em sua passagem rápida a- 
rravez da ecanomia , não tem tempo de alrerar o virus. 
Assim pois , bem longe de que estas salivações inmo- 
deradas assegurem a cura radical , tornão algumas ve- 
zes o tratamento inútil. Acontece o mesmo em certas 
diarréas , e suores mercuriaes , observados sobre enfer- 
mos excitáveis, aos quaes se tinha mui precipitadamen- 
te administrado o mercúrio a grandes doses. 

A impressão de hum ar frio e húmido , hum ca- 
lor considerável , entretido pelos vestidos nas partes su- 
periores provocão a salivação. He pois prudente conser- 
var o enfermo em hum quarto , onde o ar quente seja 
renovado cada dia , fazello dormir com o pescosso des- 
cuberto , e a. cabeça ligeiramente coberta. Ao menos , 
que não haja huma necessidade urgente, o enfermo 
náo deverá expor-se ao ar livre , sobre tudo quando 

he 



I 7 2 

he frio , e húmido , e como estas duas qualidades sáo 
sobre tudo dominantes , íogo que o sol tem deixado o 
horizonte ; he principalmente durante a noite que o 
enfermo o deve evitar (i) 

Náo se poderia insistir muito sobre a necessidade 
de huma recluzáo severa no tratamento das enfermida- 
des venéreas. Os enfermos, que vagão a seus negócios, 
estáo expostos a huma multidão de influencias , que corura- 
riáo, neutralizão , ou tornáo pernicioza a acçáo do re- 
médio. Inexactos a tomallos, contrahem novas enfermi- 
dades , antes de serem curados daquellas , de que sáo 
affectados. Eu eston persuadido , que he pela negligen- 
cia , com a qual as prescripções se executáo pelas pes- 
soas , que continuáo a vagar a seus negócios , que náo 
tem bom êxito muitas vezes os tratamentos melhor 
ordenados. He por esta cauza, que deve ser attrihuida 
a inefficacia do muriato oxigenado de mercúrio, cu'|o 
uzo náo cauza algum embaraço , e permirte aos enfer- 
mos de se entregarem as suas oceupaçóes acostumadas. 

He tanto mais importante de náo dar nos prjnci- 
pios , o mercúrio a grandes doses no tratamento das 
ulceras syphiliricas , por quanto cobertas com as pran- 
chetas untadas do unguento mercurial, absorvem huma 
grande quantidade desre remédio ; em nenhuma parte a 
absorvencia he mais activa do que nas superfícies ulce- 
radas , e isto explica a promptidão com a qual a sali- 
vação mercurial sa tem estabelecido nos enfermos , aos 
quaes se administraváo internamente fracas quantidades de 
mercúrio. Este effeito tem sobre tudo lugar , quando a 
ulceração he na vizinhansa das glândulas salivares. 

Os 



O) O nosso celebre Doutor Sanches , jà citado , diz no 
seu tratado de moléstias venéreas , que elle observou no 
Hospital de MOscow que dos doentes , que se achavão nas en- 
fermarias , só salivavão. aquelles que estavão mais próximos 
d;i- entradas d'ellas , porque a corrente do ar mais frio os í* 
tacav?.. 

Noí. do Traduc. 



17$ 

Os purgantes repetidos com as substancias rezino- 
sas as mais excitantes, os disteis, os pediluvios , &c. , 
são fracos remédios contra a salivação inmoderada. 
Hum meio , de que a expetiencia me tem demonscrado 
a utilidade em casos similhantes , he a applicaçáo da 
neve em circumíerencia da mandíbula inferior , combi- 
nada com os gargarejos frios, e acidulados. 

Taes são as preparações mercuriaes as mais usadas 
no tratamento das moléstias syphiliticas. Todas as com- 
binações , nas quaes entra o metal, taes como os óxi- 
dos rubros, o acitito, o tartrito , o niterato , a snifata 
de mercúrio, tem sido succes.si vãmente empregados, po- 
rem nernuma iguala em e-fficacia as três que vimos de 
indicar. O methodo das fricções , e as administrações 
debaixo da forma de bebidas , excedem tãobem aos ba- 
nhos , aos disteis , ás fumigações , e outros procedimen- 
tos , com a ajuda , dos quaes se tem procutado introdu- 
zi las. 

Podem-se combinar os três remédios, associar, por 
exemplo , o sublimado ás fricções , quando se trata de 
obter hum prompto alivio, A acção do primeiro he 
mais rápida , e he a este melhoramento quasi súbito 
que a sua applicaçáo procura , que he preciso attribuir 
a approvação de que elle goza. Pode-se ajuntar ás fric- 
ções o uzo interno das pirolas mercuriaes de todo o 
género. Porém em todas estas modificações do trata- 
mento , seja que se empreguem ao mesmo tempo muitas 
preparações mercuriaes , seja que se administre a mes- 
ma preparação debaixo de diversas formas , deve-se 
prudenciar em não exceder á doses , que o individuo pos- 
sa supportar. 

. Ignora-se ainda o modo de obrar do mercúrio no 
curativo das affècçóes syphiliticas ; < une-se ao vinis 
venéreo em virtude de huma afKnidade particular exis- 
tente entre elle, e esta cauza da eufermidade ? neutra- 
liza o virus combinando-se com elle da mesma forma , 
que a cal , a qual se une ao acido sulfúrico , e forma 
hum sál neutro , que lhe extingue a acidez ? Esta opi- 
nião 



174 
niáo nos parece mais verosímil. Tem-se com tudo sus- 
peitado, que o mercúrio não abra, senão pelo oxigé- 
nio, que leva com sigO, e que suas virtudes dependem 
da grande quantidade deste principio de que se carrega , 
assim como da facilidade , com a qual elie o abandona. 
Depois desta suspeita fundada sobre a inactividade com- 
pleta do mercúrio no estado metálico , sobre sua revivi- 
ficaçáo no corpo humano donde elle sahe (i) pela 
transpiração insensível , branqueando os anéis , é outras 
jóias de ouro , que com sigo trazem os enfermos , re- 
ducçáo , que se opera ainda , quando se coagula o r.lbo- 
mineo dos licores arrmaes com os sáes , ou oxides mer- 
curiaes , M. Fourcroy pençou que ourras sursta-cas 
igualmente oxigenadas , e susceptíveis de ceder este 
principio com a mesma facilidade , poderiáo substitui-lo 
na cura do gallico. 

Em consequência desta idéa , alguns Médicos es- 
trangeiros , e M. Aiyon , pharmaceutreo distinto , tem 
intentado substituir ao mercúrio a limonada nítrica , 
a banha de porco oxigenada pela mistura cem o mes- 
mo acido , que contem , assim como se sabe hum a 
grande porção de oxigénio fracamente unido á sua base. 
O acido nitrozo^ o acido cítrico, o acido muriati- 
co oxigenado , ou anres agua saturada com este gaz 
acido , e o muna to sobre-oxigenado de potassa tem sido 
empregado por Cruiskank com vantagem , -como se po- 
de ver na Obra de Rollo sobre a dinbetis saecharina , 
onde estas observações se achão consignadas. Se a em- 
cacia destes remédios oxigenados fosse igual á das pre- 
parações mercuriaes , rer-se-hiáo bem depressa abandona- 
do estes ultimes , pois que es outros não expõem aos 
tremores nervozos, e outros eífeitos funestos, de que 

he 



CO a Al?uma<? ve7es ahi Fca em hum a cerra quantidade. 
.Autores respeitáveis assejjurão terem encontrado nas celludas 
do tecido ósseo , e nas glândulas lvmphaticàs de pulmão , ele» 
bos de mercúrio puro ? e reconhecível por seu resplendor me- 
tálico. 



175 
He algumas vezes seguida a administração do mercúrio ; 
porem he preciso que se possa conceder huma inteira 
confiança ás virtudes do. oxigénio separado do metal. 

Experiências confirmativas tem sido tentadas e se- 
guidas , durante hum anno no hospital da escolla de 
Medecina de Pariz , debaixo das vistas dos commissa- 
rios nomeados para esta escolla. Muitos enfermos só 
tem experimentado hum alivio momentâneo pela po- 
mada oxiginada e a limonada nítrica ; hum mui pequeno 
numero se cem curado ; alguns tem soffrido recahidas de- 
pois de huma melhora apparente, de modo que comparan- 
do estes resultados com aquelles , que cada dia se tem 
obtido pelos methodos ordinários , vê-se que estes con- 
serváo a sua superioridade. Ha pois alguma cousa de 
inesplicavel no modo de obrar do mercúrio para a cura 
da enfermidade syphilitica ; suas virtudes sáo devidas 
evidentemenre a sua combinação com o oxigénio , po- 
rém esta combinação he necessária , pois que a acção 
separada dos dous princípios he nulla } ou menos eííi- 
caz. 

As ulceras syphiliticas secundarias sáo de huma 
cura longa , e mais difficil que as primittivas , sobre 
tudo quan lo ellas tem seu assento na pelle. Raras ve- 
zes existem sós , e se complicáo bem depressa com pústu- 
las a roda da fronte ( corona Veneris ) , e em diversas 
outras partes do corpo , de periostozes , de exostozes 
dos ossos do craneo ; da clavícula , da tibia , do ster- 
num &c , inchaços do -tecido ósseo accompanhados de 
dores osteocopus noctutnas , que o calor da cama aug- 
menta , e que os sedativos ordinários não podem alli- 
viar. Ora, como he raro que a affecçáo tenha chega- 
do a este gráo sem que o enfetmo tenha alguma cou- 
za intentado para o seu curativo, e que o mais ordi- 
nário tenha feito já muitas fricções , tomado o s ubli- 
mado , ou se tenha tratado de algum outro modo , a 
enfermidade he mais grave , o virus mais difficil a 
dezarreigar , que se não tivesse sido desnaturalizado pôr 
tentativas mal dirigidas, e que fosse ainda virgem de 

to* 



iy6 
todo o remédio , se esta expressão nos-póde ser permi- 
tida. Seja como tor, commeca-se o tratamento por 

fricções methodicamente dirigidas, juntando à isto o 
uzo das tizar.as feitas com os cozimentos de squina i), 
de salsa parrilha , de guaiaco , e outros ienhos sudo- 
ríficos. 

i^Jáo se deve ser surprehendldo de achar algumas 
vezes estas ulceras rebeldes ao mercúrio , fazendo pro- 
gressos mais rápidos, e tomando hum peor caracter 
durante a administração deste remédio. Se o enfermo 
se acha mal com os mercuraes , qualquer que seja a 
forma debaixo da qual se administra, devêmo-nos Imi- 
tar á applicaçáo dos sudoríficos , nos cazos desta espé- 
cie se emprega com utilidade no hospital dos venéreos , 
três copos por dia de hum forte cozmento de guaiaco ; 
pederi >se fazer ahi dissolver alguns grãos de potassa , 
ou de so_ J a , a fim de lhe augmentar a actividade. 

Quando a ulcera he complicada de hum inchaço 
doloroso nos ossos, se as dores são excessivas e cauzão 
a vigilia , une-se ao emplastro de V\go cum mercúrio 
cem que se cobrem estes rumores, numa dissolução de 
duas , ou três cucavas de ópio gemozo ; adminisrra-se , 
cada noute , algumas gotas do laudano liquido. T-m se 
visto esres meios socegar maravilhozamente as dores, 
e em outros casos , diminuillas sensivelmente , o qee he 
sempre huma grande vantagem. 

A fraqueza do mercúrio no tratamento das afFecções 
syphiliticas pôde ser devida a diversas causas ; a pr- 
meira , sem duvida são os erros o regimen da 
pine dos enfermos: sua inexactidão a tomar os re- 
médios, sua repugnância aos continuar muiro tempo 
ainda depois, oue os symptomas renháo desapparecido, 
precaução indispensável pata estirpar até as ulrmas 
rai/es do mal. A salivação indiscretamente provocada, 
e muito tempo entterida , as diarréas , os suores , oc- 

ca- 



(0 Raáix Chi/iac. Ou Smilcx China de Linnoeus. 

Not. do Trad. 



«77 
CflzionaJos por muito forces doses do remédio j o fin- 
cão mui rapidamente fora da economia , passa su- 
perficialmente sobre o mal, e não o pode curar. A 
íteqtíérue repetiçio do tratamenro rnereurial habitua nos- 
sos órgãos a elle , torn.mdo-os insensíveis á acção dj ; 
remeiios; táobem se observa que se administráo con 
tanto mais bom exitb , quanto o enfermo tem menoi 
frequentemente uzado delle: em alguns casos he neces- 
sário suspender por intervallos o uzo do mercúrio, a 
fim ue que a economia se torne mais sensível á sua- 
acçáo. 

Não somente as ulceras, e outros symptomas sy- 
phiiiticos sao algumas vezes rebeldes à acção do mer- 
cúrio , e se prolonga váamente a sua applicaçáo ; po- 
rém ainda este remédio pôde produzir eíf eitos táo fu- 
nestos, como o mal, ao qual se applica. Quando se 
insiste em administra-lo sem fructo , se torna de inútil 
prejudicial , muda o caracter das ulcerações , augmánta, 
as dores , occaziona movimentos convulsivos em diver- 
sas partes do corpo , ou paralysias dolorosas. Ha autx> 
res, que tem posto no numero dos eíFeitos prejudiciaes 
do mercúrio a magreza , que seu uzo occaziona ; quan- 
, do esta perda de gordura não he levada até o maras- 
mo , que a pailidez da pelle se não muda em huma 
cor livida e achumbada , deve-se olhar como huma pro- 
va da acção do remédio. Elle não produz , como al- 
guns dizem , huma febre indispensável ao successo da 
cura ; mas espalhado em toda a economia , imprime aos 
sólidos e aos fluidos huma alteração particular , na qual 
a debilidade forma hum dos principaes caracteres. 

Os adstringentes e os tónicos são os melhores re- 
médios a empregar nas affecções que peoráo pelo uzo 
continuado das preparações mercuriaesj os gargarejos, 
os banhos com o cozimento da kina , a infuzáo feita 
da casca de nogueira , o ar livre , hum regimen ana- 
leptico , os remédios anti-escorbuticos , a limonada , e 
outras bebidas aciduladas convém em todos estes casos : 
sua applicaçáo repara a economia fatigada das mesmas 

M «Hrí 



i 7 8 
impressões , levanta as forças dos órgãos abatidos , e 
permitte ao fim de hum certo tempo de lançar mão 
outra vez do mercúrio, se ainda existem vestígios da 
enfermidade syphilitica , ou de lhe dissipar os restos pe- 
lo uzo dos sudoríficos , do ópio , do alkali volátil , e 
outras substancias que se tem proposto para lhe substi- 
tuir no tratamento desta affecção. 

As tizanas, os arrobes e charopes sudoríficos, ra- 
ramente òccazionáo suores , os quaes se deveriáo espe- 
rar , se se julgasse peio seu nome , as suas virtudes. 
Tenho visto algumas circunstancias , ein que sem 
augmentar a transpiração de huma maneira sensivel , 
estes remédios dissipaváo os males sypKilicrcos os mais 
inveterados. Eu os tenho algumas vezes utilmente com- 
binado com os tónicos, e muitas vezes faço uzo de 
huma mistura de partes iguaes de charope de cozinhei- 
ro com charope anti-escorbutico na dose de duas a três 
onç?.s cada dia. 

O ópio associado ao mercúrio , e administrado em 
forma de pirolas , ou applicado sobre as ulceras syphi- 
liticas , tem em certos cazos singularmente accelerado 
a cura , porém he duvidozo que só elle procure a cu- 
ia certa, quando o enfermo não tem efeito uzo al- 
gum dos remédios mercuriaes. 

Peyrilhe pertende ter curado galicados mesmo mui- 
to antigos com o alkali volátil misturado nas bebidas. 

Este artigo excederia os limites que lhe prescreve 
a natureza desta Obra , se eu quizesse fallar dos inu- 
meráveis remédios gabados, como especificos na enfer- 
midade venérea: basta em -fim dizer, que todos os re- 
médios , qualquer que seja o segredo com que cobrem 
sua compozição , com qualquer arte , que o charlatanis- 
mo lhe mascara a natureza debaixo dos títulos os mais 
pompozos , não gozão de huma certa efricacia , se- 
não por meio dos saes mercuriaes , que nelles se encon- 
trão em dissolução. O arrobe anti-syphilico de Laffe- 
cteur conserva ainda muita voga, para qne se possa 
dispensar de se fallar nelfce. *Este «pzimento vegetal > 

que 



179 

que se suspeita a cana da grama , ( arnndo pkragmites <h 
Litin, ) ser a base , não he verdadeiramente efôcaz senão 
pelaaddiçá© de seis a dez grãos do sublimado ou mu- 
naco mercar;.'.! oxigenado em cada canada , e çjuantfò 
tem bom eífeito sem esta mistura', de que seu autor 
em muitos caso, táo faz hum mistério , he porque se 
fepplica nas enfermidades já tratadas pelo mercúrio , ou 
bem aos symptomas , que o uzo muito imprudente 
ia ste metal tinha agravado. 

GÉNERO QUINTO. 

Ulceras Herpeticas. 

Distancia que separa este género do precedente'" 
náo . he táo grande como poderiáo julgar aquelles que 
se contentariáo de examinar superficialmente suas relações. 
O herpes venéreo he o rmis frequente de todos ; as 
outras espécies nascem muitas vezes táobem da enfer- 
midade \enerea degenerada , isto he , desnaturalizada 
por tratamentos que náo tem tido o feliz successo ds 
a destruir. O estudo de todas as aíFecçóes crónicas sus- 
ceptíveis de occazionar as ulceras , me tem convencido 
que ha huma sorte de aiHnidide entre estas enfermida- 
des , e que ss poderia , em huma distribuição natural , 
considerallas como fazendo, todas parte da mesma famí- 
lia. O hospital de S. Luiz , táo vantajozo para as ob- 
servar em todos os seus períodos , debaixo das formas 
numerozas de que se podem revestir , e sobre hum 
grande numero de indivíduos juntos em hum mesmo 
lugar , me tem fornecido provas multiplicadas desta 
analogia. Náo he raro o ver erupções crustozas com- 
plicar as ulceras atonicas 3 eseorbuticas , e escrofulosas ; 
muitos svmptomas venéreos , taes como as manchas , 
as pústulas, &c. , são da natureza hetpetíca , ha huma 
espécie de tinha que se poderia olhar como hum her- 
pes do couro cabellozo ; em fim a similhansa he notá- 
vel ate nos princípios do reatamento donde os tónicos, 

M ii amar- 



i8© 

amargos , os saes mercuriaes , e alkalinos formão sem- 
pre a base. 

j Quem seria capaz de determinar as formas va- 
riadas debaixo das quaes os herpes se podem manifes- 
tar ? Existe hum herpes farnhozo , hum pustuiozo , 
hum miliar, hum herpes vivo corrozivo ou phagede- 
mico ; porem enganar-se-hia extremamente querendo res- 
tringir a estes quatro as peccos todos aquelles debaixo 
cos quaes a afFecçáo herpetica se manifesta. Existe 
hum herpes redondo , e hum crustozo , hum carcino- 
matozo , e sylindroides ; &c. &c. e todas estas varieda- 
des se encontrão fielmente deliniadas na grande Obra f 
que prepara o Doutor Alibert, meu amigo, e meu 
collega no hospital de S. Luiz. As figuras só podem 
pintar , o que as palavras náo podem exprimir ; porém 
não se deve prestar muita importância a esta varieda- 
des de forma, com as quaes os herpes se apprezentão ; 
qualquer diferensa, que tenháo estas erupções, o cara- 
cter da enfermidade he o mais das vezes o mesmo , e 
os methodos do tratamento absolutamente similhantes ; 
as únicas apparencias exteriores , úteis a estudar são 
aquellas, que fazem distinguir a origem venérea , ou 
escroluloza do herpes. He depois de sua cauza , que 
importa estabelecer as espécies desta affecçáo , por quan- 
to he depo;s do conhecimento desta cauza , que se- 
adoptáo os methodos curativos específicos, < Para que he 
lazer dos herpes pustulozos, farinhozos, miliares , crus- 
tozos, &c. , tantas especes separadas? ^ O mesmo her- 
pes , primeiro farinhozo , se náo torna elle crustozo , e 
depois corrozivo ? náo he ellle susceptível de se reves- 
tir succesivamente de todas eetas diversas formas duran- 
te a existência do seu curso , da mesma forma que os 
pássaros crescendo mudão muitas vezes de pennas í < 
As bases do tratamento variáo a pezar da variedade dos 
aspectos ? Náo reconheçamos pois outras especes d* 
herpes, que aquellas que se fundáo sobre suas cauzas, 
pois que o conhecimenro desta ultima fornece somente 
as bases verdadeiras do tratamento. Se nós náo uzamos 

des- 



i8i 

desta rezerva , plenamente encorremos na reprehenção 
que a eicolU de Coós dirigia nos Médicos de Cnido., 
por multiplicarem com excesso o numero das eníerrrn- 
dades , descrevendo cada symptoma , como huma afFec- 
çáo particular. 

Às pessoas , de quem a pelle he fina , delicada , e 
de huma extrema sensibilidade , sáo totalmente dispos- 
tas aos herpes , que certos autores tem julgado , que 
em todas estas aífècçóes, a susceptibilidade nervoza da 
membrana commum viciozamente se encontra augmen- 
tada. Estas nódoas herpeticas se manifestáo sobre tudo 
nas mulheres , nas partes do corpo que os vestidos co- 
brem , raramente sobre as máos , ou sobre o rosto ; as 
flores brancas, o habito da mastrupaçáo predispõem pa- 
ra os herpes ; algumas vezes sobrevem ao parto naquel- 
las mulheres que nao dão de mamar. Estas numerozas 
nódoas , irregulares , de hjum rubor pálido , e semelhan- 
te a cor de cobre , náo fazem sobre a pelle elevação 
sensível , e se esta membrana he menos dura ao tocar , 
e menos polida nos lugares , onde esta coberta delias , 
isto he devido principalmente ao estado farinhozo das 
nódoas , por sima das quaes o epidermes se despega eia 
escamas , por que he ao herpes lareiaceo , que se de- 
vem refferir. Como todas as affecçoes herpeticas , estas. 
nódoas tem hum caracter de instabilida le notável ; de- 
sapparecem (i) em huma parte para se mostrar em ou- 
tra, ou bem, curadas em apparencia , se mostráo de 
novo ao fim de hum tempo mais ou menos extenseu 
O pronostico náo he triste ; com tudo ellns se mostra» 
algumas vezes rebeldes a toda a espece de tratamento. 

A primeira couza , á qual se deve fazer attençáo. 
no seu tratamento , he à cauza de que ellas parecem, 
depender. Se a excitabilidade da pelle he mais viva, o, 

in- 



(i) Neste transporte d' herpes errantes, ou ambulantes,, 
os vazos lymphaticos obiáo. activamente ; seja que se car^ 
reguem de humor herpetico, seja que o deponha no lugar ,,, 
a onde o chama hum exciíamonto mais vivo. 



IS2 

individuo rervozo ; os banhos quentes , que convém em 
todas as affiscções herpeticas especialmente aqui devem 
ser indicados : os enfermos se devem abster da mas- 
trupação , logo que tenhão contra hido este habito vi- 
ciozo Huma mulher, que levava este abuzo mui lon- 
ge com sigo mesma , fatigada da abstinência , que eu 
lhe tinha prescripto , de novo a elle. se entregou; as 
nódoas tornarão a apparecer ; dissiparáo-se pelo regi- 
riteri , e remédios apropriados ; porém se a sua vaidade 
não fosse interessada a prevenir o retorno das nódoas , 
de que sua pelle muito branca se achava horrivelmen- 
te disrBrrfífei as recahidas seriáo frequentes. 

Existe entre o tcgumenro commum , e os órgãos 
da geração, huma correspondência sympathica , depôs 
d? milito tempo usada pelo deboxe. Conhece-sç a 
arte de chamar o prazer pelo caminho da dor, de 
acordir os sentidos embotados, e de provocar novos 
prazeres ' peia flagelação, urtigaçio , e outros meios 
desta espécie. O pequeno Tratado de Meibcmius, De 
Hiu jlagrorv.m in re Fcncrea , encerra mais de hum 
facto curiozo neste género. He deíicil de manter a or- 
dem , e fazer observar as leis da decência nas enferma- 
rias' dos herper'cos no hospital de S. Luiz. Em todas 
as aííecçoes cutâneas , ■ os órgãos da geração se acháo 
sympathica;?aente excitados ,' e os enfermos , sempre por 
suas indecencias notáveis, são algumas vezes atormen- 
tados de hrmta erecção sympthomatica (ih. 

Os banhos quentes repetidos, o uzo das pirohs 
saponaceas , huma t;zana feita com huma infuzão de 
fél da terra , e de scabioza , misturada com o Soro de 
leite; as fricções com a pomada feita com o oleO da 
abcb;ra , ao qual se ajunta cera branca, ou acitito de 
chumbo , podem ser administradas nos cazos , onde se 
olhão as nódoas como hum simples augmento , ou de 1 
huma aniquilação da excitabilidade da pelle. Convém 

com 

( ) Vede a excellente dissertação de 31. Duprcjt-Rony ■> 
sobre a Sat^riasis. 



eom tudo ajuntar ao uzo destas pomadas répereussivas 
o uzo dos purgantes assaz repetidos, para pôr os en- 
fermos ao abrigo das metastazes. 

Ha pouca diferença no aspecto . entre as nó- 
doas herpeticas furfuraceas , de que acabamos de fallar, 
e que nós cons ; deramos como o grão o mais ligeiro 
da affecçáo herpetica i e as nódoas sypkiiticas. Estas 
igualmente sáo irregulares , de huma cor similhante' ao 
cobre ; porem s?o hum pouco mais proeminentes , e 
tem o meio , debaixo desta analogia entre as simpieces 
nódoas , e as pústulas. He sobre tudo o exame do es- 
tado anterior , que serve a estabelecer huma distinção- 
muito mais necessária ; por quanto as nódoas venéreas, 
symptoma do galico ccniirmado , não cedem , senão aa 
tratamento anti-syphlitico. 

Os herpes pustulozos , e crustozos sáo dous aspe-. 
ctos , debaixo dos quaes hum herpes se offerece suecessiva- 
mente á vista do observador A enfermidade começa 
pela erupção de pústulas botonozas, cheias de hum 
humor algumas vezes turvo , e espessado , o mais das 
vezes fluido, e limpido ; a vessicula se rompe, o hu- 
mor corre , e dessecando-se forma crosta de hum cin- 
zento amarelhado ; estas crostas cahindo , deixáo tão 
depreça a peile sáa abaixo delias , e outras vezes tam- 
bém , depois de sua cabida a pelle parece ulcerada ; 
sua errozáo , abaixo das crosras , faz sueceder ao her- 
pes crostozo , o corrozivo , ou fagedenico. Estas codeas 
herpeticas tem huma superfice desigual , huma circum- 
ferencia irregular , a pelle he inflamada nas vezinhan- 
ças e redores delias , porém o rubor , que denota esta 
inflamação crónica , he arroxado , circunscripto , e aca- 
ba repentinamente em lugar de diminuir por gradações, de 
se confundir insensivelmente com a cor ordinária da pelle 
oomo se observa nos tumores inflamatórios. Os enfermos 
sentem neste lugar hnma comixáo , que os obriga a le- 
var ahi a mão ; arranhão-se, escoreáo-se, e fazem passar 
rapidamente o herpes do estado botonozo , ao estado 
crostozo, depois à aquelle de ulceração ou herpes vivo. 

Quan-" 



I?4 

Quando a ulcera herpetica está assim formada ,' 
esterde-se corroendo a pelle , que fornia os seus lá- 
bios , e ganha mais extensão , que profundidade. Vè-se 
tíom effeito herpes corrozivos muito superticiaes cobri- 
rem huma superike muito extensa ; as dores que se Jhe 
manifestão humas vezes sáo moderr.das , e outras vezes 
agudas , e ardentes ; a superfíce he de huma cor rubra , 
e viva, e os redores rubros, escamozos, ou botonozos. 

Os herpes venéreos , escrorulozos , e escorbuticos 
se reconhecem , não por seus caracteres particulares , 
mas sim por suas conexões com os outros simptomas 
da aífecçáo principal, ou que estes symntomas exiâvirj- 
do ao mesmo tempo que o herpes , dependão óa mes- 
ma cauza, ou que esta lhe tenha succedido. Com ef- 
feito as variedades da ligura , debaixo das quaes , as 
erupções herpeticas se podem offerecer, sáo totalmente 
riumerozas , que esta forma tão variável não pôde 
fornecer luzes certas sobre a cauza , e a natureza de 
suas diversas espécies. 

Confundem-ss frequentemente as pústulas venéreas 
com os herpes produzidos pela mesma moléstia , e a 
diferença he na verdade 'mui pouco considerável. Posto 
que estas afFecçóes cutâneas syphliticas possáo sobrevir 
em diversas partes do corpo , a resta , o rosto , assim 
como as mãos, sáo o seu assento o mais ordinário. 
Formão na testa a coroa de Vénus ; no rosto , e no 
msntu este herpes (meutagra , ) que parece ter sido co- 
nhecido dos antigos , e que se communicava petos 
beijos. 

Os herpes, assim como todas as enfermidades da 
pelle , sáo mais commum nos paizes quentes , do que 
debaixo dos climas temperados , ou nas regiões Sep- 
temptrionaes. O orgáo cutâneo, mais vivamente excita- 
do pelo calor e a luz solar, mus sensível e fatigado 
por huma transpiração mais abundante se torna o 
assento de exanthemas de toda a espécie : as afFecçóes 
leprosas, a eiephantiazes , o mal rubro, o yauWSf; o 
pian , &c. , sáo desconhecidas nos paizes do Norte , e 

rei- 



reináo endemicamente no Egypto , na Cayanna , na 
Java, <*;c. Nos paizes , em que nós vivemos he duran- 
te o verão que estas aflecçóes herpeticas se ceclaráo. 
Os primeiros frios do inverno fazendo na pelle hunu 
sorte de repercuçáo , curáo hum grande numero destas 
aífecções , e tornáo outras estacionarias. Eu conheço 
muitos indivíduos sujeitos a estes herpes periódicos , que 
desapparec áo nas estações frias, para tornarem a appa- 
recer nos primeiros calores. Aquelles , em os quaçs sua 
evis r enc ; a náo he tão essencialmente subordinada à in- 
fluencia das estações , esperimenráo hum melhoramento 
notável nas approximaçóes do inverno. 

As partes da pelle, onde a excitabilidade he maior 
sá<% '-tamberíi mais sujeitas ás erupções herpeticr.s, he 
por esta razão , qne tão frequentemente se desenvolvem 
no rosto . assim como nos tegumentos do penis , e no 
escroto. : Existe hum virus herperco capaz de infectar 
a massa dos humores, e de transmettir a enfermidade 
por via da inoculação í ; Os herpes sáo contagiosos pe- 
lo simples contacto? Se acreditasse-mos alguns autoras , 
não se hesitaria em responder a todas estas perguntas 
pela afirmativa ; porém , logo que se queira examinar 
com algum cuidado , fica-se embaraçado para as resol- 
ver. 

Com effeito , se a causa do herpes reside em hum 
virus , l porque náo he esta affecçáo sempre contagio- 
sa ? E só o contagio tem lugar no herpes vivo , corro- 
sivo , ou ulcerado , em que o puz fornecido pelas par- 
tes affectadns , he capaz de transmittir o excitamento 
as que toca, e de lhe fazer nascer hurjía inflamação 
análoga áquella , ds que he o produeto. Supurações 
herpeticas tem acontecido na membrana mucosa da ure- 
tra em consequência de certos herpes imprudentemente 
repercutidos. Pode-se pois admittir a existência de hum 
vicio herpetico , menos activo , que o venéreo , e .so- 
mente contagioso nos últimos períodos da enfermidade. 

A lepra, tão viYnha ao herpes, ainda que o nío 
digão os Nosologistas , mais desejosos de multipli- 
car 



car as espécies das d Azs , que de lhe procura-, 

rem os remédios, hç | ; osa pelo simples contacto. 

Sabc-se quaes eráo as precauções , que uzaváo os Ju-. 
deos para lhe impedir a propagação ; quantos lazaretos, 
forão constituídos , quando os Cruzados a trouxeráo da 
Terra Sancta ; porém , se o mal não lançou em nossas 
regiões raízes mais profundas , e n£o produzio ma-» 
iores estragos, faz-se necessário saber,; se he pelo ek 
feito destes bons estabelecimentos , ou antes , se como 
huma planta exótica , que enfraquece deba'xo de hum, 
céo estranho , náo pôde a lepra subsistir debaixo de 
hum clima tão diferente daquelle da Palestina ? Póde-r 
se de alguma sorte olhar este paiz como a terra natal 
desta enfermidade. Hum herpes , qualquer que seja , 
não pôde ser considerado como huma enfermidade ab- 
solutamente local , de que se pôde tentar sem perigo a 
cura radical. E por isso, quando o mesmo herpes seja. 
simplesmente farináceo , será necessário fazer combinar 
no seu tratamento os tópicos repercussivos com es pur- 
gantes repetidos. O estabelecimento de huma fonte , ne? 
cessaria na cura dos herpes crostozos', e corrosivos , 
náo seria huma precuaçáo inucii naquella do herpes 
furfuraceo. 

Entre os remédios , que se oppoé ás diversas eru- 
pções herpèticas , existem geraes , em quanto que ou- 
tros sáo particularmente accommodados , á causa da 
enfremidade , e ditferem como ella. He por sua indaga- 
ção , que he preciso commeçar o tratamento. Se o 
herpes tem huma origem venérea, só o tratamento 
antisyphilitico he capaz de curallo , applicando-se na 
forma prescripta no género precedente. Se he dependen- 
te da supressão do fluxo hemorroidal , da retensáo dos 
menstruos , ou de qualquer outra evacuação , o restabe- 
lecimento da secreção suprimida, he , o que he preci- 
so preieminarmente promover. 

Como a pelle aflectadi dos herpes se acha em hura 
estado de excitamento , e de eretismo bem sensi-vel, os 
banhos quentes repetidos tem a primeira ordem entre os re- 
me- 



1*7 
médio? geraes usados nestas enfermidades; diminuem a ten- 
sío restabelecem a excitabilidade no seu tipo ordinário , 
terna a dar á pelle a sua fíe\.b : lidaáe , e facilita a ca- 
hida das crestas nos herpes , que são cobertos delias. 
Lm quanto aos outros remédios síío extermamente te- 
merosos. Nác julgueis com tucio por sua multiplicidade, 
es recursos da arte no tratamento dos herpes; vè-se a- 
qui nascer a pc breza do seyo da abundância , e que 
em váo se rrecura hum remédio efficaz no meio de 
mil sem vrtude. Poderia se calcular com justiça a fra- 
queza da arte no tratamento de huma enfermidade pelo 
numero dos meios , que emprega no seu curativo. Se 
se tem suecessivamente ensaiado muitos , conclui com 
certeza que seus ensaios tem sido desgraçados , e que 
ainda se procura hum methodo mais eftícaz. 

A permanência des herpes , a extrema difficuldade , 
e mu : tas vezes mesmo a impossibilidade , que se en-< 
contra no seu curativo , permittem de fazer o ensaio 
de hum grande numero de remédios no seu tràfaméh- 
ro. Depois dos banhos quentes, e as tizanas amargas, 
as pilolas dissolventes de sabão , e de mercúrio doce 
tem a primeira ordem. Elias entretém o ventre lúbrico 
pelo excitamento que suscitão na membrana mucosa do 
tubo intestinal ; estes remédios afTastão os humores da 
superfície exterior , e previnem o perigo da repercução. 
As preparações antimeniaes , as infuzóes sudoríficas 
tem sido administradas com bom suecesso. Boeriíaave 
prescreveo a hum homem coberto de herpes , o retirar- 
se ao campo , pondo-o no uso da dieta branca , isto 
he que se alimentaria com lacticínios, com pão, e com 
ovos frescos. Não se tem observado o mesmo êxito 
em iguaes aífecções , apezar de se haver seguido este 
mesmo tratamento. A habitação no campo, o exercí- 
cio, os passeios em hum ar livre e puro, o regimen 
vegetal , a vida socegada e tranquilla , o uzo cos ba- 
nhos , e das aguas rhermaes , são com tudo os melho- 
res meies a oppôr ás aífecções herpeticas. A applicaçáo 
de hum vezicatorio - 9 ou de hum cautério concorre para 

o 



t«8 

seu curativo , ajudando-se ainda com os laxantes repeti- 
dos , assim como com a applicaçáo tópica dos corpos 
gordurentos relaxantes , e ligeiramente repercussives. He 
por isso que uzamos de huma pomada feita de partes 
jguaes do ceroto simples e flores de enxofre, e que em 
dous casos de herpes sobre o dorso das duas rnáos , 
temos ultimamente empregado os banhos locaes de co- 
zimento de sêmeas , e applicando compressas embebidas 
em huma forte dissolução de ópio durante a noute. 
Esra applicaçáo sedativa convém sobre tudo nos casos , 
onde o herpes faz soíírer huma dor ardente , e total- 
mente insuportável , que causa a vigília. 

Ha hum meio violento , porem erfiaz , e de que se tem 
tal vez muito tempo abandonado a sua applicaçáo no cu- 
rativo dos herpes , quero dizer , os vezicatorios applica- 
dos sobre a erupção herpetica. Este remédio convém 
sobre tudo , quando os progressos da enfermidade são 
suspendidos pelos remédios geraes , e que a desorgani- 
zação da pelle embaraça o estabelecimento de huma 
boa cicatriz. Eu o tenho empregado muitas vezes , e 
tirado dellc sempre bom êxito. Huma observação de 
Ambrozio Pare me animou , para pôr em pratica hum 
methodo, de que todos os autores tem exagerado o 
perigo. Este pai da Cyrurgia conta que huma rapariga 
veio a Pariz tendo a figura totalmente deforme, que 
p povo , julgando-a afíecrada da lepra , quiz embaraçar- 
Ihe a entrada na Igreja ; Pare lhe applicou hum vezi- 
catorio sobre toda a face , ec e três ou quatro horas 

,, depois , teve ella hum calor exces-sivo ria 

,, bexiga , e grande tumor no collo do útero com gran- 
,, des picadas : vomitava , ourinava , e obrava inces- 
„ santemenre , lançava-se sobre hum e outro lado , co- 
», mo se estivesse em hum fogo , e estava inteiramen- 
„ te variada , e febrecitante . . . . ; decidi-me que se 
3 , lhe daria leite a beber em grande quantidade , e tam- 
j, bem em disteis e em injecções, tanto no collo da 
„ bexiga como na madre. Similhantemente ella foi 
j, mettida em hum banho moderadamente quente , no 

qual 



i8j> 
„ qual se tinha fervido semente de linhaça , a raiz <? 
-, folhas de malvas , flores de viollas , meimendro , bel- 
35 droegas , conservando-se nelle algum tempo , para 
„ lhe dissipar as dores; depois sendo conduzida á ca- 
5) ma e enxugada, se lhe applicou sobre a regiáo lom- 
oar e á roda das pattes genitaes, o unguento rozado 
e popolião , encorporados com oxicrato , a fim de 
., moderar a intemperança de suas partes , e por estes 
5 , meios , os outros accidentes forão accalmados , e em 
„ quanto ao seu rosto foi inteiramente veziculado , e 
,, lançou huma quantidade de sania purulenta, e por 
,, este meio perdeo esta grande deformidade da pelle 
,, qne antes linha , e depois ele ser curada , nós lhe 
3 , demos attestação de que ella náo estava iníi- 
„ ciônada da lepra; e pouco depois da tornada pa- 
„ ra a sua caza , se cazou e teve lilhos perfeitos, e 
3, ainda vive sem que se ihe perceba ter tido a face 
„ escuriada. „ (2) 

O vezicatorio applicado a huma ulcera herpetica 
muda o modo de excitamento existente na porção da 
pelle enferma , substitue á inflamação herpetica , que he 
de sua natureza crónica e ulcerosa , huma iníhmmação 
activa donde nasce hum puz benigno, e se lhe segue 
huma cicatriz solida. Náo he só neste caso onde se 
substirue hum excitamento a hum outro mais pe.iigo- 
so , 0^ sem rallar da applicaçáo dos cáusticos rias feri- 
das venenosas , < como operáo estes remédios a cura das 
ulceras carcinomatozas ? ; Como a injecção no canal 
da uretra com huma dissolução da sulfata de zinco , 
pouco tempo depois que se tem exposto a infecção 
olennotragica , previne a evacuação mucoza ? < Náo he 
em desnaturalizado o effeito do. virus , em substituindo 
a phlogosis que este remédio tende a produzir por hu- 
ma inflammação benigna , cujo curso he limitado pas" 
sados alguns dias ? 

Nos herpes corrozivos, tiráo-se excellentes erfeitos 

dos 

£1) Des Veneris , liv. 21 , chap. $5. 



19® 
dos banhos «quentes. O Professor Boyer tratava hunn 
enrermft» cujo dorso estava coberto' da herpes corrozi- 
vos e mui dolorozos ; gemente o banho a podia, alli- 
viar, e por isso se demorava naiie três a quatro horas 
cada dia. He preciso tentar o tr.ram no ant' sypbililico 
em t^dos os herpes rebeldes. Estas enfermidades, a sim 
como nós o temos já dito , nascem frequen emente da 
enfermidade venérea degenerada, e cedem ao mercuro, 
que só pode então fazer r:can'vee?r sua verdalera ori- 
gem. Se sé repugna o<submetter>o enfermo ao tratamento 
mêrcurial, he preciso ao menos tentir os sudoríficos. 

Os herpes complicados com as escrófulas, e reco- 
nhecíveis pelos sinaes reunidos das duas aíFecçóes , par- 
ticjpão do estado dedebhj-de geral, e precisão ser 
excitados pela applieaçáo dos metaes. Aquentáo-se as 
erupções desta espécie approximando delias , em huma 
certa distancia , hum ferro em brasa ou escandecido. 
Esta applieaçáo do fogo no tratamento dos herpes tem 
sido seguida de alguma vantagem na pratica do hospi- 
tal de S. Luiz.' 

Em fim ha ulceras herpeticas , e sobre tudo as 
crostosas , que he perigoso curar , porque sua causa , 
que senão pôde destruir, repellida na pelle , leva á 
outra parte seus estragos , e não deixa o exterior senão 
para aíFectar com violência os órgãos do interior os 
mais importantes á vida. O Doutor Raymond , no seu 
'Tratado das enfermidades , que he perigoso curar falia 
dos inconvenientes unidos á desappariçáo dós herpes, < 
Porém em muitos casos , estes funestos errekos não de- 
pendem da ausência de huma evacuação a costumada ? Se 
se tem desprezado o restabelecella , e que o enfermo 
experimenta dlrRculdade na respiração , ou he assaltado 
de outras incommodidades , será preciso promptanienee 
repatar esta omissão, e nos casos em que os -accidentes 
persistáo se deve cobrir com hum largo vezicatorio a 
parte que foi o assento do .herpes , a fim de tornalo a 
chamar para huma parte, onde sua presença he seguida 
de menos prejuiso. 

GE- 



191 

GÉNERO SEXTO. 

• Ulceras Carcinomatosas. 

1 §L Um tão pequeno inrervallo separa estas ulceras dos 
herpes corrosivos ou fagedenicos , que he algumas ve- 
zes dirficil dífrtiriguilo. Ha com eíreito pouca diíferen- 
ça entre o herp.s vivo , e cercas ulceras corrosivas da 
pílle. A ulceração se propaga pela destruição das par- 
tes que ataca , o aspecto da ulcera , o estado de seus 
fabros s^.o quasi os mesmos nos dous casos ; nada he 
pois mais natural que pôr as ulceras carcinomatosas a- 
poz das aríscçóes herpeticas. 

O assento destas ulceras he as mais das vezes na 
face ; podem com tudo existir nas diversas partes do 
corpo. A pelle só he aíFectada no principio da enfermi- 
dade ; porém bem depressa a cava , e depois de haver 
destruído o dermes , corroe o tecido cellular , as carnes , 
e em huma palavra todas as partes subjacentes. A ul- 
cera carcinomatosa dos lábios , das faces , do nariz , das 
pálpebras , se annuncião com signaes de huma benigni- 
dade enganadora; he ordinariamente por huma pequena 
pustuia avermelhada , que principia ; a viva cummixáo 
que o enfermo experimenta, o obriga ahi levar a moo 
a cada instante; cossa-a , excita-a , e a escurea : a arra- 
nhadura se cicatriza huma ou duas vezes; porém sem- 
pre renovada , em lugar de se fechar , se engrandesse í 
seus lábios são elevados , duros , rubros e dolorosos , 
assaz semelhantes ás ulceras syphiliticas ; porém a dor 
he com tudo mais viva. 

' No princípio da enfermidade esta dor parece 'pro- 
duzida por agulhas, que atravessáo aparte enferma; 
porém á medida que a ulcera se estende em profundi- 
dade a supesncie , se torna pungente . isto he , que pare- 
ce , como no cancro , resultar de hum expedaçamento. 
As dores de que vimos de fallar , se fazem sentir por 
comentos , porém seus intervailos sáo prehenchidos pe- 
lo 



Ip2 

lo sentimento não menos incommodo de hum calor 
acre , e ardente. Em certos cises ha a ausência 
completa das, dores. Tenho muitas vezes observado no 
hospital de S. Luiz esta iniolencia perfeita de ulceras 
corrosivas, que tinhão destruiJo 'quasi a totalidade drs 
partes moiles da face , e atacado os ossos. Fica-se sem- 
pre surprehendido quando os desgraçados , cujo aspecto 
he amedrontado, não são advertidos por alguma dor 
da destruição a mais rápida , e a mais horrível. A ero- 
záo dos tecidos vasculares dá lugar a diversas hemor- 
ragias arteriaes , e veriozas, tanto mais consideráveis, 
quanto as vêas , e artérias são sempre mais , ou menos 
dilatadas ao redor da ulceração. 

A ulcera carcinomatosa não segue sempre o ca- 
minho que acabamos de indicar , muitas vezes sueced^ 
ás ulceras dos outros géneros , a hum herpes corrosi- 
vo , a hum cancro venéreo , que se reveste do caracter 
carcinomatoso , logo que substancias excitantes lhetem 
sido muitas vezes applicadas sem frueto. 

Os antigos, e os modernos, testemunhas dos prom- 
ptos extragps da ulcera carcinomatosa , tem querido 
oppor-lhe alguns remed ; os; porém mui tímidos na es- 
colha delles , e na sua appíicação , todos os seus ensaios 
tinhão s'do infruetuosos ; o mal era antes exasperado , 
que modificado: também desanimados por esces 'ensaios 
inúteis , oihaváo a enfermidade como incurável , e lhe 
daváo por nome o prece to de lhe não tocar : Nolli me 
tangere , ficai espectador tranquillo da destruição. Mais 
afrligidos que desanimados por huma denominação , 
que aceusava tão altamente a fraquesa da nossa arte , 
os práticos ousarão , no ultimo século tentar a cura 
de hum mal reputado incurável , e foráo assaz felizes 
em acertar ; le mbrarão-se que os cáusticos não erão 
prejudiciaes, senão pela timidez, com a qual se fazia 
a sua appíicação. Augmentarão-lhe a dose e a activida- 
' de, que queimando completamente de? huma só vze as 
partes atacadas , chegarão a obter a sua cura radical. 
Tal foi o resultado dos ensaies de Rousselot , e do ip- 

máo 



\ 9 \ 

mão Cosme : huns pós compostos de huma onça de 
sulfata cie mjrcurio oj situbrio , cie meia onça de san- 
gue cie drago, de huma outava de oxido de arsénico , 
de huma outava de chinello queimado , e reduzido, a 
pós Ihes-ssrviáo de cáustico. Cobrião a ulcera com hu- 
mi camada destes pós da grossura de -meia linha pou- 
co mais ou menos , reJuziáo assim a superfície a esca- 
ra que a supuração despegava ao fim de alguns dias ; 
debaixo desta escara achaváo huma cicatriz espessa , e 
esbranquiçada , que bem de pressa tinha cuberto a tota- 
lidade da ulceração 

A possibilidade de obter a cura he subordinada á 
de destruir a superfície ulcerada , em huma, ou quando 
muito em duas applicaçóes ; assim pois este methodo 
não convém senão nas ulceras corrosivas superíiciaes , 
limitadas á pelle, e ás. partes, que a tocão immediata- 
mente: quando a enfermidade tem lançado raizes mais 
profundas , não se faria senão apressar os progressos 
por excitamentos inúteis. Se nas ulceras do nariz, os 
ossos desta parte estivessem atacados , seria precizo ar- 
rancar a superfície ulcerada com instrumento cortante , 
depois applicar o cáustico , a fim de destruir o mal até 
ás suas raizes. He por náo haver distinguido os casos 
em que os cáusticos são applicaveis , daquelles , em que 
'o seu uzo náo faz , senão augmentar a actividade do 
mal , que estes remeJios esúo cahidos no discredito , 
que jainda conservão. Os Charlatões incapazes de fazer 
esta distincçáo , queimáo cegamente os cancros do pei- 
to e das glândulas , enfermidades totalmente diiTerentes 
do carcinoma , ou da ulcera corrosiva da pelle , elles 
obtém a cura em cercos casos muito raros , em que a 
massa cancerosa pouco espessa he destruída por huma 
só applicaçáo ; porém psoráo o estado dos enfermos, c 
lhe accelerão a morte , augmentando-lhe os soffrimen- 
tos , < quando , como he o mais .ordinário , o cáustico 
consome a penas a superfície do tumor:; porém qual 
será o remédio saudável , que senão tome hum veneno 
terrível nas máos de hum empírico ! 

N MM. 



194 

MM. Sabatier, Dubois, Boyer tem empregado 
frequentemente e com bom successo os pós cáusticos , 
de que temos dado a formula. Nós temas feito uso 
delles com não menos vantagem. As duas observações 
seguintes fornecem o exemplo do acerto o mais feliz , 
c o mais completo. 

Luiz Renand de idade de quatorze annos , trazia , 
havia quinze mezes , huma ulcera corrosiva no rosto. O 
mal tinha começado por huma pequena borbulha no 
lobo do nariz , e deste lugar se tinha pouco a pouco 
estendido á maior parte da face. O nariz , a parte ante- 
rior das faces estaváo corroídas; estendia-se desde as 
pálpebras inferiores até o lábio superior. O aspecto do 
individuo era horrível-, as dores supporraveis ; entrou 
no hospital de S. Luiz no verão do anno IX. e eu 
emprehendi o seu curativo. 

Depois de o ter perparado com dous purgantes , lhe 
appliquei os pós de Rousselot, compostos pela formu- 
la acima dita , com esta ligeira diffèrença , que em lu- 
gar dos pós de chinello queimado lhe misturei o ce- 
roto , a rim de converter estes pós em huma espécie 
de pomada , que era muito mais fácil de estender sobre 
a ulcera. Cobri toda a sua superfície , com huma ca- 
mada desta pomada, estendida em pranchetas da gros- 
sura de huma linha pouco mais ou menos. No dia im- 
mediáto á applicação , o enfermo disse ter sentido hu-» 
rha cõmmixão mui viva na ulcera ; os seus redores es- 
taváo vermelhos e inchados. Levantei o remédio , o 
qual tinha convertido a superfície ulcerada em" huma 
escara cinzenta : que cahio ao quarto dia. A ulcera 
appareceo logo vermelha , granulada , e fornecendo em 
pequena quantidade hum puz benigno ; a inflammaçáo 
oe seus lábios estava dissipada , a cicatriz se cstabéle- 
ceo rapidamente , em quinze dias náo existia mais de 
hum' tão grande mal senão huma ligeira ulceração no 
interno de cada nariz. Estas duas aberturas principiavão 
a tapar-se; a refpiração commeçava a ser diffícil, e o 
enfermo era obrigado a dormir com a boca aberta. Eu 

in- 



19* 
introduzi dous pedaço* de sonda de goma elástica , e 
quando a cicatrização foi completa lhe substitui doas 
pedaços de esponja preparada : estas precauções tea» 
conservado htwia grandeza surfictente nas abertuias, 
por onde o ar entra e sahe livremente nas fossas na- 
zaes. 

Nada he mais difficil que obter o curativo de hu- 
ma ulcera , cujo assento he no lobo do nariz , ou á 
roda delle porque o enfermo a excita continuadamente , 
comprimindo-a nas escreçóes das mueuzklades nazaes. 
Eu instrui a Renaud para fazer cahir estas mucosida- 
des na garganta , e deitallas fora, quando tivessem es- 
corregado ao longo do plano inclinado das forças na- 
zaes pela posição voltada da cabeça : teve huma reca- 
hida alguns mezes depois da sua sahida do hospital. 
Tornou a entrar , e obteve pelo mesmo meio huma 
cura mais solida. 

Deíset, bombeiro do hospital de S. Luiz tinha 
«pias: toda a face atacada por huma ulcera corrosiva, 
cujo assento principal era no nariz , e no lábio supe- 
rior. As pirolas de caiomelartos , e de estrato de cicuta , 
tos cozimentos amargos da bardana , da chicória selva- 
gem, da paciensia, do fel da terra, a scabiosa, etc. , etc, 
os banhos opiados , etc. tinháo sido váamente postos 
em uzo pelos Médicos do hospital. Irrstruido elle dos 
successos, que eu tinha obtido em alguns enfermos 
pela applicaçáo dos cáusticos , veio pedir-me que lhe 
fizesse a mesma applicaçáo. O exame do mal me con- 
venceo que elle tinha o meio entre o herpes corrosivo , 
e a ulcera carcinomatosa. Posto que as ulcerações ná» 
fossem mui profundas, a espessura inteira do lábio é 
da face estava inchada e endurecida ; huma sania icho- 
rosa corria em abundância. Eu lhe prescrevi o eotítr- 
nuar nas pirulas dos calomelanos , e na sua tisana amar- 
ga , e appliquei sobre cada numa de suas ulcerações a 
pomada de que tinha feito uso no enfermo preceden- 
te, depois de a ter com tudo enfraquecido pela misn- 
ra ide huma maior quantidade de ceroto. Eia necessa- 
N ii ria 



iy6 

rio que a suppuraçáo desengorgitasse as partes subja- 
centes, inchadas e endurecidas ; por isso logo que a 
escara mui delgada , que produzio a applicaçáo , foi 
despegada , fiz curar a ulcera com huma mistura de 
ceroto , e precipitado rubro , augmentando-lhe ou dimi- 
nuindo-lhe a quantidade desta ultima substancia , segun- 
do o gráo de excitamento ou de froxidáo , que lhe ob- 
servava, Ao fim de vinte dias a cicatrizaçáo> foi com- 
pleta. Eu tenho perdido o enfermo de vista no espaço 
de dous annos , e tudo me obriga a creditar que a cu- 
ra foi radical. 

He assaz difficil o explicar a prompta formação 
destas cicatrizes esbranquissadas , e espessas , de que se 
cobrem as ulceras carcinomatosas , pela applicaçáo de 
hum cáustico , que tem b nome impróprio de pós de 
Rou-Srdot , pois que sua formula existe-' nos livros mais 
antigos. Não he mui fácil ter idéas justas sobre a na- 
tureza desta inflammaçáo cancerosa , que destroe nos- 
sos órgãos. Sabe-se somente , que motiva huma impor- 
tuna preferencia para as partes da pelle dotadas de ex- 
citabilidade a mais delicada , e que as membranas mu* 
cosas análogas aos tegumentos communs , por sua es- 
tructura , são igualmente susceptíveis da mesma afFec- 
çáo nos órgãos , onde o sentimento he mais particular. 

Estes carcinomas internos , qualquer , que seja seu 
assento , na membrana mucosa do estômago , do recto 
ou do útero são constantemente mortaes, seja, pela. 
impossibilidade de levar ás superfícies ulceradas , cáusti- 
cos assaz eíficazes , seja pelos progressos , que tem 
feito a enfermidade , quando os enfermos recorrem aos 
soccorros. 

A ulcera carcinomatosa traz apôz si a desorgani- 
zação , ou o estado canceroso das partes que afíecta. 
He assm que em huma ulcera do útero ou do recto , 
se enconttáo as paredes destas vísceras espessadas , e 
mudadas em huma substancia cinzenta , toucinhosa , 
na qnal não existe distineçáo entre os solides , e 
os líquidos , onde as fibras e as laminas tem desappa- 

re- 



IP7 
.retido ; estado homogenio , apparencia inorgânica , na 
qual reside o caracter essencial do cancro. 

A estirpaçáo das partes tocadas das ulceras carci- 
nomatosas se pôde admittir não somente , quando o 
seu assento he nos lábios , porém ainda em diversas 
outras partes do corpo. Eu tenho praticado duas vezes 
com bom successo esta operação. Tratava se na primei- 
ra de hum cancro venéreo da largura de hum soldo , 
existente sobre o dorso do penis. Excitado por repeti- 
das cauterisaçóes sem fructo , sobreviveo aos outros 
symptomas syphiliticos destruídos pela applieaçáo ào 
mercúrio em fricções. Sua superfície estava doíorosa , 
e sanguinolenta ; seus lábios duros, rubros, e voltados. 
Não hesitei em separallo de hum só golpe com o bis- 
turim. Felismente senão estendia até os corpos carver- 
nosos; evitei levantando a pelle o ferir os nervos e os 
vasos, que se dirigem ao longo do dorço do penix ; 
-por esta opperaçáo substitui á ulcera carcinomatosa , 
huma ferida simples, que se curou no fim de huma 
suppuraçáo de alguns dias. Hum igual êxito foi o 
fructo de huma estirpaçáo simiihante praticada na occa- 
ziáo de huma ulcera mais larga , cujo assento era no 
braço direito. Se huma ulcera deste género tivesse lan- 
çado profundas raizes, se seus estragos se estendessem 
aos ossos, seria preciso amputar o membro; porém se 
a. existência da ulcera no tronco tornasse esta amputa- 
ção impossível , dever-se-hia recorrer á estirpaçáo pelo 
instrumento cortante seguida da cauterisaçáo pelo fogo , 
a fim de destruir tudo que pôde estar enfermo. 

* Ha huma sorte de degeneração do tecido cutâneo , 
que me parece participar áo mesmo tempo do herpes-, 
do cancro, e da ulcera carcinomatosa. Eu a tenho du.ts 
vezes observado. 

Madame *** mercadora de papel sentio no peito e 
no braço vivas dores; a pelle se inchou formando tu- 
mores alongados , e como selinaricos , cujo aspecto era 
■assaz simiihante ao de certas cicatrizes, quando amea- 
çáo de se abrir. As dores rezisuráo a todos os temedios inter- 



nos 



1S>8 

flos, elocaes. Erão pungentes e similhantes ás do cancro.' 
Fez-se a estirpaçáo das partes dâ pelle affectada. As 
feridas curaráo-se ; porém as dores se fizeráo sentir 
<3e novo , a enfermidade tornou a apparecer , e ainda 
dura. 

. Huma criança recebida no hospital de S. Luiz af- 
fectada dos herpes., appresenta sobre diversas pastes ca 
pelle , e sobre tudo nos braços tumores s.miihantes , 
também dolorosos , ofíerecendo o mesmo caracter de 
dores, o mesmo aspecto, e igualmente resistentes &Ò6 
•remédios anti-herpeticos. O êxito provável destas duas 
afecções será a morte dos enfermos. 

GÉNERO SEPTIMO. 

Ulceras Tinhosas. 

x\ Similhansa náo he menos sensivel entre à tinha , 
c o herpes, que entre esta ultima affecção e a ulcera 
carcinomatosa. Esta náo parece ser em alguns casos , 
senão huma modificação do herpes corrosivo. A tinha 
susceptível de se apresentar debaixo de formas tão va- 
riadas , como a affecção herpetica , se offerece , tão 
depressa debaixo do aspecto farináceo do herpes íuríu- 
raceo , asemelha-se as mais das vezes ao estado crosto- 
so, e outras vezes se mostra totalmente análoga, aos 
herpes fagedenicos : quanto seria difhcil aos mais hábeis 
o destinguir desta variedade de herpes , certas tinhas ul- 
ceradas. He pois com erro que os nosologistas tem tan- 
to insistido sobre a distincçáo das diversas espécies de 
tinhas, e que tem dado esre nome ás simplices varie- 
dades da enfermidade ; variedades que se succedem ás 
diversas épocas de sua duração. A mesma tinha pri- 
merito mucosa , ou furfuracea , pode passar gradualmen- 
te ao estado crostoso, e rugoso , depois vir a ser ver- 
dadeiramente ulcerada, ou pustulosa sem que a pesar 
destas diversas transformações mude realmente de natu- 
reza. He sempre n* sua base a mesma enfermidade, e 

o 



\99 

9 mesmo tratamento lhe convém. He verdade que a 
tinha affecta quasi exclusivamente o couro cabeíludo ; 
porem manifesta-se algumas vezes em outras partes do 
corpo. He com esta forma que eu tenho observado crostas, 
e laminas muito estensas sobre os membros , e sobre 
tudo no dorço onde a pelie tem por sua espessura, sua 
densidade , e sua adherencia intima ás partes que subja- 
sem , numa analogia tanto mais sensível com o couro 
çabeíludo , quanto se observa mais perto deste ultimo. 

i Devemos tratar separadamente as diversas varieda- 
des da tinha? Os Árabes distinguião cinco espécies del- 
ia , Sauvage leva o seu numero até nove , Vogel náa 
reconhecia , senão quatro , Muray as reduzio a duas , o 
Professor pinél estabeleo três. Desejando fixar a incer- 
teza , que nascia de huma tal diversidade de opiniões , 
attentamente observei a tinha em duzentos indivíduos , 
tratados ao mesmo tempo desta enfermidade no verão 
do anno X. Eu vi bem depressa , que suas formas eráo 
mais variadas , do que senão tinha julgado , por falta 
de não haver observado hum tão grande numero de ti- 
nhosos ; a comparação destas tinhas me convencco da 
espécie de gradação , que segue a natureza em todoí 
os seus actos , formas extremamente variadas , porém 
insensíveis , pelas quaes cila passa da tinha farinácea 
para a tinha ulcerosá. Desde então adoptei a idéa que 
senão tinha assaz multiplicado as espécies da enfermi- 
dade, se as cstabelicião sobre o fundamento frívolo da 
diversidade da forma 3 ou do aspecto, e que náo as ti- 
nhão assaz reduzido , se lhe náo consideraváo mais , 
que a natureza do mal. 

A tinha he huma enfermidade da infância ; he do 
primeiro ao septimo anno , que ella se declara as mais 
das yezes ; he assaz frequente até a época da puberda- 
de : então se torna muito mais rara; he ainda mais nos 
adultos, e náo sobrevem na velhice. He igualmente 
pouco commum o vela nos primeiros meses da vida , 
menos que senão queira considerar, como huma va- 
riedade da tinha ,_ a crosta láctea das crianças de mama i 

erup- 



200 

erupção depurativa, que com razão se tem arranjado 
entre as espécies desta enfermidade. 

As crianças , cuja pelle he secca , pouco transpa- 
rente , e coberta de sardas , são mais frequentemente 
affectadas delia ; os dous sexos parecem igualmente ser 
sujeitos á tinha. Em fim a falta de limpeza, o uso ha- 
bituai de huma nutrição grosseira , e indigesta as predis- 
põem singularmente. Pergunta-se j se a tinha he heredi- 
tária , e se se desenvolve mais particularmente em as 
crianças nascidas de pais aíFectados desta moléstia ? 
Esta influencia da herança tão sensível em muitos ca- 
sos, he aqui pouco notável, Primeiro a tinha prolon- 
gando-se e raramente nascendo depois da época da pu- 
berdade , náo he ordinário que os pais tenhao sido af- 
fectados delia : além disto a tinha parece ser huma en- 
fermidade depurativa, cujo assento no couro cabelludo 
he determinado pela tendência dos movimentos vitaes 
para a cabeça nas primeiras idades da vida. Com tudo , 
se as imperfeições as mais ligeiras, as feições do rosto 
menos sensíveis , são vesivelmente transmettidas pela 
geração j porque o filho de hum pai tinhoso durante 
a sua infância, não veria ao mundo, senáo com a 
enfermidade, ao menos com a dispoziçáo para a con- 
trahir ? 

Os filhos do rico são sujeitos a ella , como r os do 
indigente; he preciso confessar com tudo, que he mais 
rara nos primeiros , talvez porque melhor vestidos re- 
sistem mais á influencia do frio , ou porque usáo de 
melhores alimentos, e vivem mais isentos da sordidez. 
O contagio da tinha he difficil ; verdade he , que se 
tem communicado a muitos indivíduos da mesma famí- 
lia, que fazião uso do mesmo pente, ou da mesma 
escova para limpar seus cabellos , e que então a ino- 
culação podia ter sido tanto mais fácil , quanto os in- 
divíduos eiáo mais moços, tinhão sido escovados, ou 
penteados com mais força , e que o couro cabelludo 
apresentava alguma escoriação ; porém eu me tenho segu- 
rado por huma multidão de experiências , que náo ten- 
do 



201 



do a cabeça cscuriada os tinhosos podiáo "trocar seus 
barretes com as outras crianças , emprestar-lhes o seu 
pente , dormir com elles , e servirem-se dos mesmos 
vestidos , sem que estes contrahissem a enfermidade, 
Alguns impiricos tem ensaiado o inocular a unha , que 
julgaváo encerrada e nociva, e apezar dos seus esfor- 
ços, não tem tirado bons eífeitos nesta tentativa. 

Esta difhculdade , que se encontra , em determinar 
a tinha pela applicaçáo do puz , que corre das ulceras, 
depes da cahida das crostas , ou pela mesma matéria 
destas crostas reduzida a pó mui fino , nos confirma 
cada vez mais na opinião , que he huma affecção ver- 
dadeiramente saudável , e depurativa por meio da qual 
a narureza se desembaraça de huma superfluidade de 
humores, cuii retenção poderia ser nociva,; Não he 
huma tinha esta sarna crostosa, cujas erupções se mos- 
tráo principalmente na região occipital í Esta arfecçào 
qnasi sempre- complicada de • engorgitamentos das glându- 
las lymphaticas visinhas , he totalmente olhada como 
util/ e depurativa, devemos limitar-nos a entreter 3 
limpeza da cabeça, destruindo os piolhos, cuja enfer- 
midade parece singularmente favorecer a multiplicação , 
e a untar as crostas tinhosas seccas , e espessadas com 
«orpos gordurentos, como o ceroto , a banha de porco, 
a manteiga bem lavada , a hm de lhe 'provocar a queda. 
As curandeiras distinguem muito bem esta tinha da ca- 
beça , da verdadeira tinha. 

Depois da cahida das crostas da tinha, o couro 
cabelludo se mostra despido do epidermes, offerecendo 
hum rubor herpetico , e coberto de piquenas ulcera- 
ções, tanto mais profundas, quanto a enfermidade esta 
mais adiantada. O engorg ; tamento glanduloso não se 
limita nas glândulas occipitaes , e cerviçaes , das regiões 
inguinaes , da axilla , algumas vezes mesmo as do me- 
senterio participáò da àffècçáo. Este engorgitamento , 
€|ue em certos casos precede, as mais das ve.es acom- 
panha , porém o mais frequentemente ainda segue a 
erupção dos botões, ; indica isto a existência de hum 

prin- 



2<òl 

Principio humoral, espalhado em tcda a economia r' c - 
fluindo es caminhos da lympha, e que deve sahu a 
favor da erupção ? ou he devido á reabsorvencia r; i ma- 
téria , que secreta o couro cabelludo ulcerado ? A pri- 
meira supposiçáo me parece mais verosímil. 

Se a tinha tem durado muito tempo , e que , mui- 
to intensa , tem levado seus estragos ao corpo da mes- 
ma pelle , além do tecido reticular , eila determinado 
a cahida dos cabellos , que já mais renascem. He sem 
duvida neste estado que Ducante tem observado a en- 
fermidade, cujos bulbos dos cabellos são, segundo elie, 
o assento essencial. He verdade que neste gráo os bui-* 
bos estão lesados ; porém eiies ficáo intactos na ulce- 
ração superficial, e os cabellos arrancados repuilulão. 

A analyse chimíca das crostas tinhosas demonstra 
o, 70 de aibominio coagulo , o, 17 de gelatina, o, o 
5 de fusfata de cal, e huma pequena quantidade de 
agua ; < huma tão grande porção de albominio , e de 
gelatina não fotnece huma nova prova da natureza de- 
purariva da tinha ? e se pergunta porque esta erupção 
se faz pela cabeça ; não he isto responder , o mostrar a 
tendência dos movimentos , e das forças , variável se- 
gundo as idades , sensível na cabeça das crianças , deri- 
gindo se para o peito e seus crgáos no adulto , e sobre 
o abdómen nos velhos ? O augmento das partes , seu 
desenvolvimento commeçáo peia cabeça , e se acabáo 
pelas partes inferiores , os desarranjamentos pathalogi- 
cos seguem a mesma ordem , affectáo na mesma suc- 
eessão ; porque os órgãos devem ser tanto mais dis- 
postos ás enfermidades , quanto anutriçáo sua he mais 
activa , e o apparelho dos movimentos vitaes mais 
complicado. O exercício frequente dos órgãos dos sen- 
tidos , .sua viva excitabilidade , sua aptidão a resentir 
as novas impressões , de que elles sáo de alguma sorte 
assaltados , durante os primeiros annos da vida , a acti- 
vidade do cérebro , que combina , .associa , ou antes 
faz analyse das idéas , para a formação da intelligen- 
cia;; não se vê nisto huma multidão de causas de ex- 

ci- 



205 
eitamanto , que devem artrahir os humores para a ca- 
beça , e determinar nesta parte as aríecçóes da primei- 
ra idade? 

A tinha se termina espontaneamente, quando se 
lhe não faz algum remédio. A revolução , que conduz 
a puberdade diminuindo a tendência dos humores para 
a cabeça lhe effectua quasi sempre a cura. Algumas ve- 
zes com tudo ella resiste a esta crize natural , porém 
raras vezes se prolonga até o fim do terceiro setena- 
rio (isto he até os vinte e hum annos). Não he pre- 
ciso com tudo entregar a tinha a si mesma ; seus es- 
tragos prolongados poderiáo destruir completamente osca- 
bellos, ecausdr assim aalopecia, ou mesmo desorganisar 
o couro cabeiludo , e causar ulcerações do peor caracter. 

i Quaes são os meios de destru ; r esta aílecçáo , 
sem perigo dos que ella affecta? Devem ser banidos 
<lo seu tratamento os repercussivos ; porque se tem vis- 
to esta repercussão seguida de hidropesias , de tísicas , 
de inchaços articulares, de oppilaçóes etc- < Deve-se 
pois abandonar á natureza , e entrar a moléstia no do- 
mínio da medicina espectante ? < A enumeração de nu- 
ma multidão de remédios propostos contra a tinha , 
seja pelos modernos , seja pelos antigos provará , que 
senão tenha tido esta opinião d'ella? 

Todos estes remédios para o dizer com prevenção , 
*em por efTeito o mudar o modo do excitamento esta- 
belecido no couro cabeiludo, e de dirigir para algum 
outro emunctorio os humores , que para elle se derigem. 
He deste dobrado modo , que obráo os banhos com as 
dissoluções salinas , do sublimado , de amoníaco , etc. , 
o barrete , pelo qual se opera o arrancamento , as un- 
ções com o óleo de bagas de louro , e outros corpos 
gordurentos, aos quaes se mistura algumas substancias 
excitantes , os ligeiros cathereticos , o ceroto com o 
«nxofre > o oxido de carbonata , e de magnesia , as ca- 
taplzmas de cicuta e de meimendro , as pílulas dissol- 
ventes , saponacias , e mercuriaes , assim como os cosi- 

mentos amargos. 

Comr 



204 

Commeça-se por fazer raspar a cabeça dotinhozo, 
depois se lhe applica o excitante necessário para mudar 
o modo do exciçàmetltio. Desault applioavá duas , ou 
três- vezes no dia os banhos de huma dissolução de 
alguns grãos de sublimado, e de amoníaco; cobria a 
Cabeça nos mtervullos Sdcíã banhos com chtlftiaços embebi- 
dos no mesmo licor. He escusado o dizer que esta appl ca- 
ção immediata dos excitantes sò he possível na tinha 
furfuracea ; porque, n;.s outras variedades da moléstia, 
se deve commeçar por fazer cahir as crostas, e limpar 
o couro cabelludo , cobrindo successivamenre de muitas 
cataplasmas , ou de folhas de àtóelgas untadas de hum 
corpo gordurento. 

O methodo do arrancamento com o barrete he o 
mais doloroso , porém também he o mais seguro , e o 
mais geralmente usado ; consiste em cobrir a cabeça 
corri hum emplastro pegajoso de pez , farinha de sen- 
teio , e vinagre. Esta mistura he assaz tenaz quando 
se applica em hum pano de iáa , o qual só se despega 
arrancando os cabellos , e faz apparecer o tecido celíu- 
lar. Córta-se o pano do barrete em tiras triangulares 
reunidas por seus cumes , de modo que representem 
huma espécie de cruz de Malta , quando a estensáo da 
tinha exige que se applique sobre toda a cabeça. Quan- 
do este barrete tem permanecido applicado , durante 
hum , dous , três , ou quatro dias , se despega , e le- 
vantando suecessivamente cada tira , procedimento me- 
nos doloroso que a quelle pelo qual se arranca todo o 
barrete ao mesmo tempo. Quando se tem levantado o 
emplastro , "o couro cabelludo lança sangue , as papilas 
nervosas puxadas causáo muitas dores, lava-se a cabeça 
com hum cozimento muciíaginoso , e se torna apelicat 
o barrete , tantas vezes , quantas forem necessárias para. 
a extinção completa da tinha. Isto se renova pocco mais 
ou menos duas vezes na semana ; eu tenho com tudo 
experimentado , que a cura se apressava pelas applica- 
çóes mais frequentes feitas todos os dias , ou de dous 
cm dous dias. 

Quan 



205 

Quando a tinha não ccmprehende a totalidade do 
couro cabeiludo , he mais custoso o trataila pelo arran- 
camento , e se deve temer mais a sua renovação Ap- 
plicáo-se tiras separadas sobre todos os lugares aiíecta- 
dos , e quando a cura parece estar completa , rica-ss 
exposto a' mostrarem-se outros botões nos lugares , on- 
de os cabellos tinháo sido conservados. 

O methodo do arrancamento he preferido nos es- 
tabelecimentos públicos , primeiro , porcjue he o mais 
seguro, e se íica menos exposto a ver brotar de novo 
a tinha, quando a applicação do barrete tem sido suíR- 
mt-nteciente repetida , porém sobre tudo pela commodida- 
de de sua pratica. Os curativos se fazem com muitos dias 
de intervallo ; os enfermos que seguem o tratamento 
externo do hospital de S. Luiz, assistem em casa de 
seus parentes, e vem duas vezes na semana para, se lhe 
fazer levantar seus barretes , e recebem novos. Tem- 
se allegado contra este methodo a sua barbaridade , he 
a maior reprehensáo , que merece ; achão-no também 
extremamente extenso; he verdade que em certos casos 
o tratamento , cujo extensão ordinária he de três a seis 
mezes, se prolonga hum, dous., ou mesmo três annos ; 
porém os ensaios compararivos feitos sobre quasi du- 
zentos tinhosos com dez medicamentos , os mais acre- 
ditados , nos tem convencido que todos são sujeitos ao 
mesmo inconveniente. 

O ceroto misturado com igual parte de flores da 
enxofre he empregado para a cabar o curativo comme- 
çado pelo barrete, ou antes, se a rinha he ligeira e 
farinácea , o ceroto dito he bastante para todo o trata- 
mento. Acontece o -mesmo do pó de carvão, o qual 
como se sabe he hum verdadeiro oxido de carbonata , 
e não , como se tem julgado muito tempo , esta ul- 
tima substancia no seu estado de pureza. Misrura-se es- 
te pó com ceroto , manteiga lavada, ou antes coma 
banha de porco , e se cobre todos os dias a cabeça ul- 
cerada. O oxido .de magnesia tem recentemente sido 
preconizado ; porém nós o repetimos , numerozas expe- 

rien» 



io6 

rtencias nos tem demonstrado que estes excitantes tão» 
variados gozaváo quasi das mesmas virtudes ; que acu- 
ra he mais ou menos prompta , segundo a gravidade 
da tinha , e as despozições individuaes , antes que se- 
gundo os remédios empregados. 

Lede com desconfiança estas observações pompo- 
sas de curas promptamente obtidas pela applicaçáo de 
certas substancias ; o curativo he devido a ligereza da 
moléstia. A rebeldia da tinha , em certos casos , qual- 
quer que seja o remédio, que se lhe appliqne, se deve 
olhar de mais a mais como o resultado de hum esfor- 
ço depurativo. 

A coexistência dos engorgitamentcs glandulosos tem 
feito empregar as tizanas amargas , e os purguntes re- 
petidos no tratamento. Estes meios sáo úteis dando 
hum outro curso aos humores exuberantes; as fricções 
seccas sobre todo o corpo não sáo menos proveitosas 
para trazerem á pelle a transpiração ordinária , pouca 
abundante nos tinhosos. Em fim tem-se prosposto con- 
tra a tinha todos os remédios anti-escrofulosos , não 
que ella pertença ás escrófulas , ( posto que estejamos 
longe de pertendej que a tinha não tenha alguma ana- 
logia com esta ultima affecção) mas porque muitos 
tinhosos tem a fibra molle , e se dáo bem com o uso 
dos tónicos. 

GÉNERO OUTAVO. 

Ulceras psoricas , ou sarnosa*. 

J_ lj Xo ha huma classe de enfermidades, cuja hisro- 
ria esteja menos adiantada , que a das affecçóes cutâ- 
neas , e como as ulceras pertencem todas a esta ordem 
de lesões , não he de admirar que os livros só forne-- 
çáo a seu respeito , noções imperfeitas. Os antigos não» 
viáo nestas enfermidades senão acrimonicas de dive rsas 
espécies , e Boerhaave fez todos os seus esforços para 
as distinguir por caracteres hypotheticos. Que Wans- 

wie- 



207 
irieten em seus fastidiosos Commentarios , disserta cotv 
descendentemente sobre o aquor espécie de náo sei que , 
que senáo pôde exprimir nem na língua Grega , nem 
na Franceza, espécie de acrimonia que não consiste no 
acre propriamente dito , porém tem o meio entre o 
terresrre e o aeerbo , ou o austero ; sua linguagem par- 
ticular inintell-givel seduzirá aquelies, que admirío, o 
q b não podem entender. Lorry tentou o desenvolver 
este cahos , e a sua Obra sobre as enfermidades da 
peiie (Tratactus de morbis cutaneis*) ainda o melhor 
tratado sobre esta matéria , porém privado dos soccor- 
ros de algumas descobertas , que lhe devião os moder- 
nos fornecer sobre o systema lymphatico , náo tem 
feito de alguma sorte , senáo franquear o caminho para 
os seus suecessores. 

Entre os exanthemas chronicos náo existe hum , 
cujas varidades excedão em numero ás que a sarna po- 
de ofrerecer ; rio depressa se mostra de baixo da for- 
ma de pústulas miiiares esbranquiçadas mais on menos 
numerosas , e cheias de huma serosidade límpida ria 
<|uai muitos naturalistas tem achado hum insecto da es- 
pécie do oução (acams scabiei) cuja presença tem sido 
olhada como causa essencial da enfermidade. Outras ve- 
zes se desenvolvem pústulas rubras duras , e mais gros- 
sas ; n' outros casos se manifestáo pequenas ulceras 
crostosas , mais ou menos próximas humas de outras , 
etc. As denominações de sarnas simples , sarna miúda , 
ou rabugem , de psoriases , ou ronha etc. distinguem 
estas diversas variedades. 

A sarna he algumas vezes huma erupção critica , 
e saudável , pela qual se termináo diversas enfermidadss 
internas , sejáo agudas , sejáo crónicas. Conhece-se facil- 
mente que a limpeza he só a única cousa a recommendar 
nesta espécie de aíFecção , que desaparece bem depressa 
pelo uso dos banhos tépidos , e bebidas amargas. 

Outras vezes he o resultado de pouca limpeza. He 
a esta causa que ss deve attribuir a que nasce sem con- 
tagio no seio de huma família indigente. 

A 



2C8 

A estas sarnas • criticas , e espontâneas he preciso 
ajuntar a sarna contagiosa, produzida pelo insecto que 
alojando-se abaixo do epidermes excita a pelle , e de- 
termina a formação de pequenas vesículas Em fim ha 
erupções psoricas , das.quaes humas dependem do exci- 
tamento da pelle por fricções seccas muito ásperas , ou 1 
por fricções medicamentosas mais ou menos excitantes, 
durante que outras, análogas aos herpes, e servindo a 
ligar estes dous géneros de afFecçóes , parecem ser de- 
vidas como elles , seja a hum excesso de excitabilidade 
da pelle, seja d existência de hum principio espalhado 
nos nossos líquidos. 

He nos intervallos dos dedos, nas curvas das per- 
nas, e sobre o peito, que se mostráo ordinariamente 
os pequenos botões da sarna ; destas, partes se espalhão 
por todo o resto do corpo. Huma viva commixáo tem 
sido dada como o caracter delia. Ha com tudo certas 
erupções psoricas , cujo prorido he quasi nullo. He so- 
bre tudo* na sarna contagiosa caracterisada pela presen- 
ça do Guçao , que a commicháo he ardente , e se con- 
verte em huma dor picante , e acerba , quando os en- 
enfermos solicitados por huma necessidade irresistível, 
arranhão a pelle até escuriala. 

A sarna he em geral huma enfermidade pouco gra- 
ve 3o menos que ella não seja inveterada , ou compli- 
cada de huma outra affecção. Então he verdade que 
não somente resiste teimosamente aos remédios, porém 
ainda sua desapparição he frequentemente seguida de acci- 
dentes produzidos pela metastase dos humores sobre o pul- 
mão, ou qualquer ©utro órgão importante á vida. Estes 
inconvenientes ida sarna recolhida são bem reaes, posto 
que em muitos casos tenháo s<do suppostos , ou exage-* 
rados pela charlataneria. Tenho frequentemente obser- 
vado no hospital de S. Luiz como consequência da re- 
trogradação da sarna , abcessos frios , que se tormão 
nas vizinhanças das articulações ', huma matéria serosa 
misturada com grumos limphathicos sahe da abertura , 
da espécie de kysto , . de que estes abscessos sáo for- 
ma- 



209 

mados. São quasi sempre multiplicados ; eu tenho aber- 
to successivamente treze em hum mesmo individuo. 

Todas as idades , e todos os sexos são sujeitos á 
sarna. As crianças, e as mulheres são mais suscept veis 
d'eda por contagio ; a transmissão desta espécie he mais 
racil , durante os calores do verão , e o suor , do que 
nas circunstancias oppostas. 

Pódem-se suprimir sem temor , as sarnas recentes , 
e simplices , sobre tudo, quando ellas tem sido trans- 
mettidas pelo contacto. Basta para isto banhar todas as 
manháas o enfermo , e depois fazello untar com huma 
pomada ligeiramente excitante , e repercussiva , como a 
pomada citrina , ©u huma mistura da banha de porco , 
e ilores de enxofre , á qual se ajuntáo alguns grãos de 
muriato de amoníaco. A agua de sabão , a infusão de 
tabaco de fumo , os banhos com huma ligeira dissolu- 
ção de acitito de chumbo , a agua de muriato , etc ; em 
huma palavra todos os líquidos excitantes não são me- 
nos efRcazes. He útil o ajuntar á este tratamento ex- 
terno hum ou dous purgantes administrados antes das 
fricções , a fim de que algum accidente , nascido do 
embaraço das primeiras vias não vá perturbar a acção 
dos remédios; he preciso também repetir os meios 
purgativos quando a pelie se limpa de todas as bor- 
bulhas. Favorecem então a derivação dos humores , at- 
trahindo-os para a membrana mucosa do tubo intestinal 
que lhes serve de emunctorio. He por ter esquecido a 
precaução saudável de evacuar muitas -vezes no tempo 
da desapparição da sarna , que certos enfermos tem 
sofFrido diversos accidentes consecutivos. 

Os cosinaentos amargos de passiencia , de scabioza , 
e de almeirão são dados durante toda a extensão do 
tratamento. Estas tisanas entretém a liberdade do ven- 
tre , e são olhadas por alguns , como tónicas , e depu- 
rativas ao mesmo tempo. 

Quando a sarna he antiga , torna-se mais essen- 
cial ainda o fazer concorrer os remédios internos com 
o tratamento tópico. Náo se deve proceder ás fricções 

O se- 



210 

senío depois de haver devidamente evacuado as primei- 
ras vias com hum vomitório , e com repetidos purgan- 
tes. Estes últimos serão continuados cada dia em pe- 
quenas doses , e de modo , que entretenháo huma direc- 
ção habitual de humores para o tubo intestinal. Ob- 
tem-se este fim fazendo dissolver a sulfata de potassa 
nas bebidas amargas. Em fim a applicação dos evacuen- 
tes , e dos imargos deve ser prolongada , posto que 
não exista algum vestígio da erupção. Esta conducta 
poc ao abrigo dos inconvenientes , que nasceriáo da sua 
supressão muito repentina. 

2 A importância das precauções , que acabáo de ser 
indicadas , o perigo da repercussão da. sarna , são como 
se tem julgado as provas convincentes da existência de 
hum virus psoricoí; Porém para que he admittir hu- 
ma causa única para huma enfermidade , que nasce em 
circunstancias tão oppostas , e se apresenta debaixo de 
tantos aspectos? A causa próxima da sarna contagiosa 
he bem conhecida , e se a precipitada supressão desta 
sarna he perigosa , quando dura desde hum certo tem- 
po , isto depende menos do recolhimento de hum virus 
particular na massa dos humores , que do transporte 
das serosidades lymphaticas , que chamava para á pellfe 
o excitamento , qufe se tem suprimido pela destruição 
dos insectos. Os tegumentos cobertos de huma multi- 
dão de borbulhas devem ser olhados como hum vasto 
exundatorio , cuja supressão pôde arrastar as mais tristes 
consequências , se senão deshabittta pouco a pouco , a 
economia acostumada a desembaraça r-se pdr este cami- 
nho . de huma certa quantidade de fluido 

Quando cela negligencia das precauções, que a 
prudência exige, aífecçóes asthmaticas, inflamações 
crónicas , febres lentas etc. , resultem da repercussão da 
sarna , tem-se aconselhado de se tornar a chamar esta 
erupção inoculando-a ; o excitamento da pelle por ba- 
nhos muito quentes , por fortes fricções , por abluções 
com licores excitantes , taes como a agua de Mcttem- 
berg , que não he outra consa mais 3 que huma disso- 

lu- 



211 

lução de sublimado na agua destillada , o uso cont> 
miado dos sudoríficos internamente etc. tem sido acon- 
selhados para fazer sahir as sarnas recolhidas ; porém 
náo se poderia ser muito circunspecto na sua adminis- 
tração; antes de se decidir a eila , será preciso indagar 
attentamente se os accidentes de que se queixa o enfer- 
mo são realmente devidos á supressão da sarna , ou se 
elles devem ser attribuidos a outra causa. Eu tenho vis- 
to grande numero de indivíduos , que affligidos de do- 
res rheumaticas , ou gotosas } de dificuldades de respi- 
rar , de ophralmias , de diarreas rebeldes etc. etc. áo 
eessaváo de accusar as sfFecçóes psoricas , de que se 
ju!ga.váo ter sido mal curados. Bum attenro exame 
hr/endo-me algumas vezes reconhecer esta causa, me 
provava muitas vezes , que era com erro , que se lhe 
impunváo os effeitos devidos a estas enfermidades; e 
sem procurar o reproduzir a sarna , eu empregava com 
bom suecesso os remédios apropriados. 

Nesta ocCasiáo'eu observarei, que os enfermos se 
enganáo frequentemente sobre a òtigèm de sua enfer- 
midade. Tal mulher attribuc á abundância de seu leite, 
os fluxos venéreos, de que ella he atormentada, ou 
lhe chama flores brancas ; tal outra chama gotosas as 
dores evidentemente syphliticas ; isto náo soffre alguma 
incommodidade , para que o pratico a náo ©onsidere como 
huma consequência do galico. Livre de todos estes pre- 
juízos , aclarado por suas indagações sobre a verdadeira 
natuteza do mal , o medico remonta facilmente á sua 
causa, e se algum motivo obriga a enferma a calar- se., 
elle lhe náo applica hum tratamento menos convenien- 
te. 

A dificuldade, que se experimenta em curar certas 
sarnas , pôde ser devida á applicação viciosa dos tópi- 
cos. He por isso que as fricções muito ásperas , e 
muito repetidas , a applicação das pomadas rançosas , 
ou muito excitantes, determináo huma erupção, que 
se ajunta a da sarna, ou toma o lugar delia: engana- 
do pela similhança, o enfermo continua a esfregar-$e, 

e 



2I2 1 

e perpetua ' por este modo a enfermidade renoyando-lhe 
todos os dias a causa. 

Em hum caso desta espécie eu fiz suspender o 
tratamento interno , e me limitei em prescrever hum 
banho tépido , e hum brando laxante todos os dias. 
Bem depressa foi a pelle limpa : huma outra vez a 
pelle arranhada a presentava ulcerações superficiaes 
muito extensas , e muito dolorosas pelo descobrimento 
das papilas nervosas do dermes Eu remediei isto , aj ati- 
tando aos banhos tépidos , e aguas laxantes , a applica- 
çáo de huma pomada anodina , feita com huma mistura 
de ceroto , e de extracto gommozo de ópio , em peque- 
na quantidade. 

A complicação da sarna com os herpes , a enfer- 
midade venérea, o escorbuto , etc. não merece occu- 
par-nos. A sagacidade do leitor supprirá sem custo a 
esta omissão voluntária. Para a combater, basta com- 
binar o tratamento das espécies simplices ou tratar suc- 
cessivamente as affecções complicadas simultaneamente , 
tendo cuidado de começar pela mais grave. 



F I M. 



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