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Full text of "Crónica de tomada de Ceuta por el Rei D. João I"



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CRÓNICA 



TOMADA DE GEUTA 



EL REI D. JOÃO I 



"OMPOSTA POR 



GOMES EANNES DE ZURARA 



PUBLICADA POR ORDEM DA ACADEMIA DAS SCIENCIAS DE LISBOA 

, SEGUNDO OS MANUSCRITOS N,<" 368 E 355 

DO ARQUIVO NACIONAL 



FRANCISCO MARIA r.'^-'EV'=;s PEREIRA 




ACADEMIA DAS SCIENCIAS DE LISBOA 

Rua do Arco a Jesus, Ii3 

LISBOA 



AaOEMIA DAS SCIENCIAS DE LISBOA 

COMISSÃO DOS CENTENÁRIOS DE CEUTA E ALBUQUERQUE 



COMEMORAÇÃO 

DO 

QUINTO CENTENÁRIO 

DA 

TOMADA DE CEUTA 



TEXTOS HlSi . lOS 



CRÓNICA 



TOMADA DE CEUTA 



EL REI D. JOÃO I 



COMPOSTA POR 



GOMES EANNES DE ZURARA 

PUBLICADA POR ORDEM DA ACADEMIA DAS SCIÊNCIAS DE LISBOA, 

SEGUNDO OS MANUSCRITOS N.<>' 368 E 355 

DO ARQUIVO NACIONAL 



FRANCISCO MARIA ESTEVES PEREIRA 




ACADEMIA DAS SCIÊNCIAS DE LISBOA 

Rua do Arco a Jesus, Ji3 

LISBOA 



Coimbra — Imprensa da Universidade — 191 5 



17/6" 



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INTRODUÇÃO 



A Crónica da tomada de Cepta é a narração da conquista da 
mesma cidade por D. João I, rei de Portugal, efectuada em 
21 de agosto de 141 5. Esta narração é a mais circunstanciada 
e verídica que se conhece; e dela provêm todas as memórias e 
noticias, que escreveram os escritores posteriores. Esta crónica 
é a epopeia da primeira empreza cometida pelos Portugueses 
além mar; nenhuma obra literária, escrita em lingua portuguesa 
no século xv, a iguala em merecimento e valor estético; e a todas 
excede pela regularidade da narração e pela eloquência dos dis- 
cursos dos personagens ; nela sente-se por vezes perpassar um 
sopro épico, inspirado pela grandeza do feito, que foi preparado 
com grande cuidado e ponderação, efectuado com o maior valor e 
constância, e coroado de maravilhosa felicidade. Para poder 
avaliar-se a importância desta empreza seria necessário estudar 
previamente os seguintes assuntos relativos ás condições da 
cidade de Ceuta no principio do século xv: 

I Descrição da cidade : situação geográfica ; descrição topo- 
gráfica; edifícios notáveis; população; 

II. História: fundação; dominadores; estado social; 



VI 

III. Importância política e comercial para os reinos de Fez e 
■de Granada; 

IV. Valor estratégico; fortificações; guarnição militar com 
que era defendida ; 

V. Interesse que Portugal tinha no seu domínio; razões que 
determinaram a empreender-se a sua conquista ; 

VI. Meios empregados para efectuar a conquista: exército 
português, sua composição e armamento ; frota em que foi con- 
duzido ; desembarque e assalto da cidade ; 

VII. Meios de que se dispôs para manter a sua ocupação. 
Como porém estes assuntos, pela sua importância e pelos 

desenvolvimentos que demandam, devem ser objecto de memó- 
rias especiais, nós limitar-nos hemos a fazer preceder a crónica 
pelo esboço biográfico do seu autor, e pela descrição dos manus- 
critos de que alcançamos notícia, e das impressões que dela se 
fizeram até ao presente. 

Lisboa, 21 de agosto de igiS. 

Francisco Maria Esteves Pereira. 



VIDA DE GOMES EANNES DE ZURARA 



As notícias que se tem alcançado acerca da vida de Gomes 
Eannes de Zurara, comendador da Ordem do Cristo, guar- 
da-mór da Torre do Tombo e cronista dos reis de Portugal, 
não foram conservadas em nenhuma obra especial, esprita por 
autor contemporâneo ou de época próxima daquela em que êle 
viveu; mas tem sido recolhidas cuidadosamente dos seus próprios 
escritos, dos documentos relativos às mercês que lhe foram feitas 
e aos cargos que exerceu, e dos testemunhos dos escritores do 
século em que viveu ou seguinte, principalmente Mateus de 
Pisano (i), um dos homens mais instruídos do seu tempo em 
Portugal, mestre dei rei D. Afonso V, e contemporâneo de Zu- 
rara, João de Barros (2), autor das Décadas da Ásia, e Damião 
de Góes (3), insigne humanista, guarda-mór da Torre do Tombo 
e cronista dos reis de Portugal. Nos séculos xvii e seguintes 

(i) De bello Septensi, na Colecção de livros inéditos de história portuguesa, tomo i, 
Lisboa, 1790, p. 26-27 ; Alexandre Herculano, História de Portugal, tomo i, Lisboa, 1846, 
p. 9. Mateus de Pisano finou-se no mes de junho de 1466. (Chancelaria de D. Afonso V, 
liv. 14, foi. 96, V. Cf. Sousa Viterbo, Cultura intelectual de D. Afonso V, no Arquivo 
histórico português, tomo 11, p. 263. 

(2) João de Barros, Dos feitos dos Portugueses na Ásia, dec. i, liv. i, cap. n, e dec. i, 
liv. II, cap. I. I 

(3) Damião de Góes, Crónica dei rei D. Manuel, Lisboa, 1749, quarta parte, 
cap. xxxviii. 



VIU 

outros escritores trataram incidentemente da vida de Gomes 
Eannes de Zurara, a saber: Nicolau António (i), Jorge Car- 
doso (2), Diogo Barbosa Machado (3), João Pedro Ribeiro (4), 
o Visconde de Santarém (5), Sousa Viterbo (6), Gama Barros (7), 
D. Carolina Michaêlis e Teófilo Braga (8). Enfim no século xix 
a vida de Gomes Eannes de Zurara foi assunto de artigos espe- 
ciais de José Correia da Serra (9), Alexandre Herculano (10), 
Vieira de Meireles (i i), Inocêncio Francisco da Silva (12), Sotero 
dos Reis (i3), Rodrigues de Azevedo (14), João Manuel Esteves 
Pereira e Guilherme Rodrigues (i5). Recentemente Edgar Pres- 
tage (16), coordenando as noticias coligidas pelos escritores pre- 

(i) Nicolau António, Bibliotheca Hispânica vetera, lib. lo, cap. xii, § 695 e segs. 

(2) Jorge Cardoso, Agiologio Lusitano, tomo iii, Lisboa, 1666, p. 217. 

(3) Diogo Barbosa Machado, Biblioteca Lusitana, tomo 11, Lisboa, 1747, p. 385 e 386. 

(4) João Pedro Ribeiro, Memórias autênticas para a história do Real Arquivo, Lis- 
boa, 18 19. 

(5) Crónica do descobrimento e conquista de Guiné, Paris, 1841, p. viii a xii. 

(6) Sousa Viterbo, Gomes Eanes d'A:furara, na Revista portuguesa colonial e ma- 
rítima, vol. III, Lisboa, 1898, p. 817 a 826. 

~ (7) Dr. Gama Barros, História da administração pública em Portugal nos sécu- 
los XII a XV, Lisboa, i885, tomo 1, nota xiv, p. Sgô-Sgg. 

(8) Geschichte der Portugiesischen Litteratur von Carolina Michaêlis de Vascon- 
celos und Teófilo Braga, no Grundriss fiir Romanischen Philologie, Strassburg, 1897, 
II Band, 2. Abt. p. 256-257. 

(9) Colecção de livros inéditos de história portuguesa, (C. I. H. P.), publicados por 
José Correia da Serra, tomou, Lisboa, 1792, p. 207-213. 

(10) Alexandre Herculano, Gomes Eanes d' Azurara, em O Panorama, vol. m, Lis- 
boa, iSSg, p. 25o e 25i ; Opúsculos, vol. v, p. 10-16. 

(11) A. da C. Vieira de Meireles, Gomes Eanes d'Ajurara, em O Instituto, vol. ix, 
Coimbra, 1861, p. 72-75 e 107-108. 

( 1 2) Inocêncio Francisco da Silva, Dicionário bibliográfico português, tomo iii, Lis- 
boa, 1859, s. V., p. 147-149. 

(i3) Francisco Sotero dos Reis, Curso da literatura portuguesa e brasileira, 
Maranhão, 1866, vol. i, lição xiv, p. 193 a 209. 

(14) Rodrigues de Azevedo, Dicionário universal português, vol. i, Lisboa, 1882, 

p. 2l50-2l52. 

(15) Portugal, Dicionário histórico, corográfico, heráldico, biográfico, bibliográ- 
fico^ numismático e artístico, por [J. M.] Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues, vol. i, 
Lisboa, 1904, s. V, Azurara, p. 949 a 951. 

(16) Edgar Prestage, Tlie life and writings of Atirara, em The Chronicle 0/ the 
discovery and conquest of Guinea, vol. i, London, 1896, p. i a Ixvii, e vol. 11, London, 
1899, p. 353 e 354. 



cedentes, e ainda as que ele próprio alcançou depois de minu- 
ciosas investigações no Arquivo Nacional, escreveu a vida de 
Gomes Eannes de Zurara, narrando os sucessos da sua carreira 
oficial, e indicou os escritos que lhe são atribuidos. No estudo 
que se segue procuraram-se coordenar todas as notícias que 
alcançamos, coligidas dos escritos do próprio Gomes Eannes de 
Zurara, dos documentos em que se tem encontrado referências 
aos actos da sua vida, e dos escritores precedentemente nomea- 
dos, comprovando-as, rectificando-as e completando-as com os 
resultados das mais recentes investigações. 

Nome. — O nome, sobrenome e apelido encontram-se escri- 
tos de diversas maneiras: Gomes (Gomez); Eannes (Eanes, e 
anes); de Zurara (de zurara, da zurara, de Azurara). 

A palavra Gomes (Gomez) tem a forma de um adjectivo pa- 
tronímico, derivado de nome próprio de homem, e análogo a Vas- 
ques (de Vasco), Telles (de Tello), Fernandes (de Fernando), etc. 
O nome próprio de homem encontra-se em documentos do sé- 
culo X com a forma Gomec (Doe. de 985, Dipl. 92), Gomece 
(Doe. de 974, Dipl. 72), e do século xi com a forma Gomesius 
(Foral de Guimarães, Leg. 35 i), e do século xiii (Doe. de 1220, 
Inq. 75, 2.* classe, Dipl. 640). O apelido com a forma Gomez 
encontra-se em um documento de 985 (Doe. da Sé de Coimbra, 
Dipl. 92 e 202). 

O sobrenome Eannes é o adjectivo patrohímico, derivado de 
Johanne (lat. Johannes, gen. Johannis). Em alguns documentos 
do século XV a palavra parece dividida em duas, e escrita e anes 
ou e annes. 

O apelido de Zurara indica a povoação donde a família era 
natural. Em Portugal ha duas povoações, cujos nomes antigos 
eram Zurara ; modernamente porem, talvês por se supor que 
Zurara era um nome comum de significação conhecida, como 
Porto, Povoa, Guarda, Covilhã, Figueira, etc., se disse a Zurara, 
e depois Azurara. Atualmente uma das povoações do nome 



Azurara (antigo Zurara), é freguezia de S. Maria, do concelho de 
Vila do Conde, e situada a i quilómetro da mesma vila, na mar- 
gem esquerda e junto da fós do rio Ave. Esta povoação é men- 
cionada nas Inquirições sobre as honras e devassas dos julgados 
do termo do Porto (i), como fazendo parte da freguezia de S. Sal- 
vador de Pijdcllo do julgado da Maia na comarca d'entre Douro 
e Minho (2). A outra povoação, antigamente chamada Zurara, 
tem atualmente o nome de Quintella de Azurara, é freguezia de 
S. João Batista, do concelho de Mangualde, e a 5 quilómetros 
desta vila. No bispado de Vizeu, e comarca da Beira, havia 
uma comenda da Ordem de Cristo, denominada Comenda de 
S. Julião (ou de S. João) de Azurar, cujo rendimento era avaliado 
em i584 em 2O0í!£)OO0 réis (3), e em 1614 em 429ÍP000 réis (4); 
esta comenda era provavelmente situada perto da povoação 
atualmente denominada Quintella de Azurara. No cimo de um 
monte, perto de Mangualde, existem ainda as ruínas de um cas- 
telo, que, segundo é tradição, foi antigamente habitado por um 
mouro de nome Zurar, senhor da vila de Mangualde, e que do 
mesmo mouro proveiu o nome de Azurar ou Azurara, que teve 
o concelho de Mangualde, e pelo qual é designado nos forais que 
lhe foram dados por D. Teresa, D. Dinis, e D. Manuel (5). E 
possível que esta tradição tenha fundamento histórico, porque o 
nome de Zurara foi usado como nome próprio de homem pelos 



( 1 ) Corpus Cod. Latinorum et Portugalensium eorum qui in Archivo mwncipali Por- 
tugalensi asservantur, Portucale, 1891, p. i53. 

(2) No princípio do século xv os territórios da monarquia compreendiam o reino 
de Portugal e o reino do Algarve; o reino de Portugal era dividido em cinco comarcas, 
a saber : antre Douro e Minho, Trallos Montes, Beira, Estremadura, e antre Tejo e 
Odiana. Veja-se : Fernão Lopes, Crónica dei rei D. Fernando, cap. Ivi; Fernão Lopes, 
Crónica dei rei D. João /, primeira parte, cap. Ixviii ; Gomes Eannes de Zurara, Crónica 
da tomada de Cepta, cap. xxviii. 

(3) Livro em que se contêm toda a fajenda e real património dos reinos de Portu- 
gal, índia e Ilhas adjacentes, por Luís de Figueiredo Falcão, Lisboa, iSíg, p. 225. 

(4) Definições e estatutos dos Cavalleiros e Freyres da Ordem de N. S. Jesu 
Christo, Lisboa, 1628, p. 244. 

(5) Pinho Liai, Portugal antigo e moderno, vol. i, p. 29g-3oi. 



árabes de Espanha (i); o mesmo nome de Zurara tinha uma 
povoação do reino de Fez, situada perto de Arzila (2). 

No presente estudo adotou-se para o nome a forma Gomes 
Eannes de Zurara, porque é a que êle próprio escreveu por 
extenso em uma nota de registo de documento (3), datada de 2 
de novembro de 1456, e no traslado do foral de Alvares (4), 
datado de 24 de abril de 1462; e a que se encontra nos mais 
antigos manuscritos da Crónica da tomda de Cepta (cap. iii), da 
Crónica da conquista de Guiné, (cap. xcvii), e a usada por João 
de Barros (5) e Damião de Góes (6). 

Filiação. — Gomes Eannes de Zurara foi filho de Johanne 
Eannes de Zurara, cónego da sé de Coimbra e de Évora. Do 
pai não se encontram outras noticias senão a menção do seu 
nome e cargos em um documento (7) datado de 6 de fevereiro de 
146 1, redigido verisimilmente segundo declarações prestadas pelo 
próprio Gomes Eannes de Zurara. Nenhuma noticia a respeito 
do cónego Johanne Eannes de Zurara se encontrou nos livros 
das actas capitulares da sé de Coimbra, os quais começam em 
145 1, nem no cartório da sé de Évora, porque o mais antigo 
livro que existe das posses das dignidades desta sé começa em 
I de dezembro de i 547, e os livros das atas são posteriores a 
1450. 

Na Chancelaria de D. Fernando (liv. i, foi. 72 v, -73, r) está 



(i) Almacari, Analectes sur 1'histoire des Árabes d'Espagne, ed. Dozy, vol. i, p. 808. 

(2) Anais de Arzila, vol. i, p. 47, 55, etc. 

(3) Bula do Papa Calisto III, que principia Inter caetera, qiiae nobis, no Arquivo 
Nacional, gaveta 7.", maço i3.°, n.° 7. A nota é : E foy esta letra aqui lamçada em 
esta torre do tombo per nos Gomez e annes de Zurara comendador de pinheiro dapar 
de ssantarem que he da dita bordem de ,lbú xpõ e cronysta de Portugall e guarda moor 
da dita torre aos ij dias de nouembro do N." de xpõ do mjl e iiij<= Lbj annos. 

(4) Doe. XIII. 

(5) Dec. I, liv. I, cap. 11, e Dec. i, liv. 11, cap. i. 

(6) Damião de Góes, Crónica dei rei D. Manuel, Lisboa, 1749, quarta parte, 
cap. xxxviii. 

(7) Doe. XI. 



registada uma carta de legitimação de Maria Armes e de AfFonso 
Annes, filhos de Johane Annes, cónego de Lisboa, e de Catalina 
Afonso, datada de Lisboa de 20 de maio da era de 1408 annos 
(iSyi J. C). Ainda que não ha nenhum fundamento para iden- 
tificar o cónego da sé de Lisboa com o pai de Gomes Eannes de 
Zurara, comtudo é possivel, que Johanne Eannes de Zurara pri- 
meiro fosse cónego das sés de Coimbra e de Évora, depois exer- 
cesse igual cargo na de Lisboa. E porém mais provável que os 
dois Johanes Eannes fossem pessoas diferentes, e que o cónego 
das sés de Coimbra e de Évora adotasse o apelido de Zurara 
para se diferençar do cónego da sé de Lisboa. 

Não consta que o cónego Johanne Eannes de Zurara perfi- 
lhasse seu filho Gomes Eannes de Zurara. 

O nome da mãe e a sua família não são conhecidos; mas em 
razão do estado eclesiástico do pai, é de presumir que a mãe 
fosse da classe burguesa, criada ou manceba do cónego Johanne 
Eannes de Zurara. 

Naturalidade. — Não é conhecida a terra natal de Gomes 
Eannes de Zurara. Os seus biógrafos, fundando-se no apelido 
de Zurara, supozeram que Gomes Eannes nascera em uma po- 
voação daquelle nome. O mais antigo escritor, que faz menção 
da terra natal de Gomes Eannes, é Soares de Brito (1611-1699) 
no Theatrum Lusitaniae litterarium (i), e admite que Gomes Ean- 
nes era natural de Azurara da diocese do Porto; e deste parecer 
foi também Barbosa Machado (2). 

O primeiro escritor que afirmou que Gomes Eannes era 
natural de Azurara da Beira (Quintela de Azurara) foi José 
Correia da Serra (3), fundando-se no facto de Gomes Ean- 
nes ter solicitado dei rei D. Afonso V certos privilégios para 
dois almocreves moradores na vila de Castelo Branco, que rece- 

(i) Manuscrito da Biblioteca Nacional de Lisboa, U-4-22, p. 547. 

(2) Biblioteca Lusitana, tomo n, p. 385. 

(3) Colecção de livros inéditos de história portuguesa, Lisboa, 1792, tomo 11, p. 207. 



biam as rendas das propriedades que Gomes Eannes ali possuia, 
e as traziam para Lisboa, e que foram concedidos por carta 
datada de 23 de agosto de 1454^, devendo as mesmas proprieda- 
des ter pertencido à familia de Gomes Eannes (i). Deste pare- 
cer foram também Vieira de Meireles e Rodrigues de Azevedo. 
Deve porém observar-se que Quintela de Azurara é situada no 
concelho de Mangualde, do distrito de Vizeu, na província da 
Beira Alta, e não no distrito de Castelo Branco, na província da 
Beira Baixa. As rendas, a que se refere o documento acima 
citado, eram provavelmente provenientes das propriedades que 
constituíam as comendas da Ordem de Christo, denominadas 
Comendas de Alcains e da Granja do Ulmeiro, que Gomes Ean- 
nes de Zurara desfrutava em 1454; por isso que as mencionadas 
comendas eram efectivamente situadas no distrito de Castelo 
Branco, na província da Beira Baixa. 

Como o nome do pai de Gomes Eannes era Johane Eannes 
de Zurara, isto mostra que de Zurara era apelido de família, que 
fora tomado pelo mesmo Johane Eannes por ser natural de uma 
povoação daquele nome, ou por algum dos seus ascendentes, não 
podendo por isso ser indicativo da terra natal de Gomes Eannes. 

Data do nascimento. — Não é conhecida a data do nascimento 
de Gomes Eannes de Zurara; mas pode determinar-se com certa 
aproximação. 

Na Crónica da tomada de Cepta, acabada a 25 de março 
de 1450 (cap. cv). Gomes Eannes de Zurara diz (cap. xxiv): 
«E ajnda que naturallmente todollos homees depois que passam 
as três primeyras hidades, doestam mujto aquelle tempo em que 
ssom, dizemdo que elles uiram outro milhor mundo prasmando 
aquelle presente . . . certamente nom sse pode esto emtemder em 
mym, por quamto a minha hidade nom he semelhante aa daquelles 
que disse.» Isto significa que Gomes Eannes de Zurara em 1450 
não tinha ainda passado da terceira idade do homem. 

(i) Doe. VI. 



No Leal Conselheiro, composto por el rei D. Duarte, lê-se 
(cap. i): «As idades som per muytas maneiras repartidas; mas húa 
que põem os letrados, que bem me parece, chama ifancia ataa 
sete annos, puericia ataa quatorze [annos], adollecencia ataa 
vinte e um [annos], mancebia ataa cinquoenta [annos], velhice 
ataa setenta [annos], senyum ataa oitenta [annos], e daly ataa fim 
de vida decrepidue.» Não parece porém que Gomes Eannes de 
Zurara se referisse a esta divisão da vida do homem por idades, 
mas à divisão mais vulgar, atribuida a Galeno, que é como se 
segue: «As idades do homem são cinco; a primeira idade se 
chama infância ou puericia, e dura desde o nascimento até os 
14 annos; a segunda se chama adolescência, e dura desde os 
14 annos até os 25; a terceira se chama juventude ou mocidade, 
e dura desde os 25 annos até os 40; a quarta idade se chama 
virilidade, e dura desde os 40 annos até os 55; e a quinta se 
chama senectude ou velhice, e dura desde os 55 annos até o fim 
da vida.» (1) 

E pois de presumir que a terceira idade, a que se referiu 
Gomes Eannes de Zurara na passagem citada, seja a mocidade, 
que decorre desde os vinte cinco anos até aos quarenta; e por 
tanto êle não tinha ainda completado quarenta anos quando ter- 
minou a Crónica da tomada de Cepta, isto é, em i45o; o que quer 
dizer que tinha nascido depois de 1410. Por outra parte sabe-se 
que Gomes Eannes de Zurara começou tarde a sua instrução 
literária, isto é, provavelmente depois de ter passado a idade 
pueril, a saber, depois dos quatorze anos ; e como a composição 
da mesma crónica demonstra que o seu autor possuia uma adean- 
tada cultura intelectual, conclue-se do seu modo de dizer, que 
posto que não tivesse ainda completado quarenta anos, não estava 
longe de ter esta idade. E pois provável que Gomes Eannes de 
Zurara tenha nascido no segundo decénio do século xv, isto é, 
entre 1410 e 1420, e pouco depois de 1410. 

(1) O non plus ultra do lunario e pronostico perpetuo, composto por Jerónimo 
Cortez, trad. de António da Silva de Brito, Lisboa, 1727, p. 5. 



Criação e instrução literária. — São muito escassas as notícias 
àcêrca da criação e instrução literária de Gomes Eannes de 
Zurara. 

Segundo diz Matheus de Pisano (i), Gomes Eannes de Zurara 
chegou a idade madura sem ter nenhuma instrução literária ; 
mas por estas palavras não deve entender-se senão que, quando 
Gomes Eannes de Zurara começou a aprender a lêr e a escrever, 
já tinha passado a idade, em que era costume receber-se esta 
instrução, a saber, a infância ou puerícia, que dura até aos 
quatorze anos. 

E o próprio Gomes Eannes de Zurara que, em reconheci- 
mento, deixou memória da pessoa a quem deveu a sua educação. 
Na Crónica do Conde D. Pedro de Meneies, dirigindo-se a el rei 
D. Afonso V, diz (part. i, cap. ii) (2): «Eu com melhor vontade 
escrepvera juntamente com os outros vossos feitos, que sam assas 
dinos de grande memoria, se quer por vos mostrar algum conhe- 
cimento da longa criaçom e muita bemfeitoria, que per vossa 
merçe, usando de vossa acostumada virtude, de vós recebi; caa 
se algum saber em mim ha, posto que seja pequeno, com as 
vossas migalhas o aprendi.» E na Crónica do Conde D. Duarte de 
Meneses, dirigindo-se também a el rei D. Afonso V, diz (cap. i) (3): 
«Ca se todos vossos naturaaes som theudos e obrigados de o 
[vosso m.andado] cumprir e guardar, eu muito mais, cujas miga- 
lhas me criarão e os benefícios alevantarão do poo em que 
nasci.» ^ Enfim na Crónica da conquista de Guiné, dirigindo-se 
também a el rei D. Afonso V, diz (cap. xcvii) (4) : «E porque vós, 
muyto alto e muyto excellente Príncipe, . . . mandastes a mym 
Gomez Eanes de Zurara, vosso criado e fectura . . . que fizesse 
este livro.» De todas estas passagens resulta claramente que 
Gomes Eannes de Zurara deveu a sua criação e instrução literá- 

(i) Hic dum maturam jam aetatis esset, et nullam litteram dedicisset. (De Bello 
Septensi, C. I. H. P., i, p. 26-27). 

(2) C. 1. H.P.u,p. 219. 

(3) C. I. H. P, III, p. 9. 

(4) Crónica do descobrimento e conquista de Guiné, p. 462. 



ria a el rei D. Afonso V, que o tirou de classe humilde; e o pró- 
prio rei o confirma na carta datada de 6 de julho de 1454, pela 
qual o nomeou guarda das escrituras do seu tombo (1), pelas pala- 
vras: «polia muita criaçom que em elle temos fecto.» 

É sabido que nos séculos xv e xvi os moços fidalgos recebiam 
instrução literária no paço rial, onde lhe era ensinada a leitura, 
escrita, gramática portuguesa, e provavelmente também da lín- 
gua latina. Em uma memória sobre as mercês, que fez el rei 
D. Afonso V, escrita por D. Vasco de Ataíde, Prior do Crato (2), 
se diz que o mesmo rei «criou filhos de muy grandes fidalguos 
em muy grande numero e com muyto amor e afeiçam ... de si, 
asi em sua mesa como em sua camera.» 

É pois de presumir, que Gomes Eannes de Zurara, sendo 
ainda mancebo, fosse admitido no paço rial para ajudar o ser- 
viço da guarda e conservação da livraria e cartório; e que el rei 
D. Afonso V, sendo informado da boa disposição e natural incli- 
nação dele para os estudos, o mandasse ensinar como os filhos 
dos fidalgos, que eram instruídos no paço. 

Alem das notícias precedentes nada mais se sabe àcêrca da 
vida de Gomes Eannes de Zurara até ao ano de 1450; alguns 
biógrafos afirmam que êle despendeu os primeiros anos da sua 
mocidade no exercício das armas (3); mas é mais provável que 
êle fizesse serviço na livraria e cartório do paço rial durante o rei- 
nado dei rei D. Duarte e começo do reinado dei rei D. Afonso V, 
como ajudante de Fernão Lopes, guarda mór da Torre do tombo 
e cronista, a cujo cargo estava também a livraria rial (4). 

Erudição literária. — As obras compostas por Gomes Eannes 
de Zurara revelam pelas suas citações, que o seu autor possuia 
grande erudição literária, pouco comum entre os homens que no 

(1) Doe. V. 

(2) Provas da história genealógica da Casa real Portuguesa, tomo 11, p. 22. 

(3) Josá Correia da Serra, C. 1. H. P., 11, p. 208. 

(4) E. Prestage, The li/e and writings of Azurara, p. v. 



seu tempo viviam cm Portugal, e demonstram que os letrados do 
seu país acompanhavam de perto o renascimento do estudo dos 
escritores clássicos, iniciado na Itália e seguido na França e 
Hespanha. Os conhecimentos literários de Gomes Eannes de 
Zurara não eram provavelmente profundos, mas mostram-se 
muito extensos; é de presumir que fossem adquiridos no convi- 
vio com os mestres dos infantes, filhos dei rei D. Duarte, e pelo 
estudo dos livros que havia na livraria rial, que teve a seu cargo; 
estes livros eram na maior parte em latim, em que haviam sido 
escritos ou traduzidos, por ser então a Hngua universalmente 
usada pelos letrados de toda a Europa. Enfim o próprio Gomes 
Eannes de Zurara diz que «ca eu que esta estoria escpreui, lij 
muy gram parte das crónicas e liuros estoreaaes» (i). 

E muito extensa a lista das obras e dos escritores citados por 
Gomes Eannes de Zurara; são: 

Da Biblia: o Pentateuco, Parahpomenos, Esdras e Macabeus; 
os livros de Salomão e dos Profetas; os Evangelhos, as Epistolas ^^.i, 
canónicas ; e o livro apócrifo Pastor de Hermas. 

Dos antigos Santos Padres : S. João Crisóstomo, S. Gregório, 
S. Jerónimo e S. Agostinho. 

Dos Padres da idade média : S. Bernardo, S. Tomás de 
Aquino, Alberto o Magno. 

Dos escritores gregos : Homero, Hesiodo, Heródoto, Aristó- 
teles, que muitas vezes designa somente pelo titulo de filósofo, 
Josepho e Ptolomeu. 

Dos escritores romanos : César, Tito Livio, Marco TuUio 
Cicero, Ovidio, Salustio, Valério Máximo, Plinio, Lucano, os dois 
Senecas, o trágico e o filósofo, e Vegecio. 

Dos escritores da idade média : Paulo Orosio, Isidoro de Se- 
vilha, Lucas de Tuy, Rodrigo de Toledo, Pedro d'Ailly (Petrus 
de Alliaco ou Petrus Lombardus), Egidio, Frei Gil de Roma, João 
Duns Scoto. 

(i) Crónica da tomada de Cepta, cap. xxxix. 



Dos escritores italianos : Dante, Bocacio e Marco Polo. 

Dos escritores arábicos : o astrónomo Alfragan e Avicena. 

Vê-se enfim das citações feitas por Gomes Eannes de Zurara, 
que éle era lido nas crónicas e histórias da Hispanha e da França, 
e nos romances de cavalaria, tanto em voga no seu tempo em 
todas as cortes da Europa. 

Noções de cosmografia. — Gomes Eannes de Zurara possuia 
conhecimentos bastante completos dos sistemas geográficos anti- 
gos, sobre tudo pelo que diz respeito ao continente de Africa. 
Tem notícias dos estados da costa do norte de Africa desde o 
Egito até à Barbaria ; do reino de Etiópia sob o Egito ; da ilha 
de Meroe; do curso do rio Nilo; e cita as tentativas feitas na 
antiguidade para descobrir as suas fontes, e as conjecturas apre- 
sentadas para explicar as suas crescentes (i). 

Noções de astrologia. — Gomes Eannes de Zurara, em três 
passagens da Crónica da tomada de Cepta (cap. xlv, Ixviii e 
Ixxxvii), concluída em 1450, dá aposição (longitude) do sole da 
lua em dois dias do ano de 1415 ; assim: 

141 5, julho, 18; falecimento da rainha D. Felipa : longitude 
do sol, dois graus do signo de Leão, (4X So" + 2° = 122°) 
[cap. xlv]; 

141 5, agosto, 21 ; tomada da cidade de Ceuta: longitude do 
sol, seis graus do signo de Virgo (5 X So" + 6"= 1 56°) [cap. Ixviii 
e Ixxxvii] ; longitude da lua, um grau do signo dos Gémeos (2 X 
XSo^^- i°=5i<') [cap. Ixxxvii]. 

Seria bem interessante saber de que modo Gomes Eannes de 
Zurara obteve estes dados ; na falta de provas directas, recorre- 
remos a conjecturas. Segundo todas as probabilidades Gomes 
Eannes de Zurara deduziu as mencionadas posições do sol e da 
lua das taboas astronómicas, que Isaac ibn Sid, de Toledo, redi- 

(i) Veja-se Crónica da conquista de Guiné, cap. ii, iv, vui, lix, lxi, lxii e lxxvii. 



giu cm 12 52 por ordem de D. Afonso X, rei de Castela ; ou ainda 
das taboas astronómicas, que Jacob Carsono (ai-Carsi) calculou 
por ordem de D. Pedro IV, rei de Aragão (i336 a i386)(i). 
Umas e outras eram usadas pelos astrólogos da península hispâ- 
nica nos séculos xiii, xiv e xv ; mas inclinamo-nos a acreditar que 
Gomes Eannes de Zurara fez uso das Taboas Alfonsinas, por isso 
que as eras mencionadas por êle nos cap. Ixxxvii e cv da Crónica 
da tomada de Cepta são as mesmas que são dadas no começo das 
Taboas Alfonsinas e pela mesma ordem ; somente é de notar que 
a era de Diocleciano, que começou no ano de 284 de J. C, men- 
cionada nas Taboas Alfonsinas, foi substituída, nos dois capítu- 
los indicados da Crónica da tomada de Cepta, pela era de Alimus 
ou Acimus (Anianus?), que começou no ano de 444 de J. C. 
Nenhuma das taboas astronómicas, acima indicadas, é mencio- 
nada no catálogo dos livros do uso dei rei D. Duarte; comtudo 
este rei parece ter conhecido as Taboas Alfonsinas, porque no 
Leal Conselheiro (cap. xxvii) se exprime assim : «E aqucl honrado 
rei Dom Afonso estrollogo quantas multidões fez de leituras.» 
Deve observar-se que as Taboas Alfonsinas não dão imediata- 
mente a posição (longitude) do sol ou da lua em um determinado 
dia; mas é necessário efectuar alguns cálculos; do que resulta 
que Gomes Eannes de Zurara tinha noções bastante extensas de 
cosmografia, e sabia efectuar os cálculos para deduzir dos dados 
das taboas a longitude do sol, da lua e dos planetas em um 
determinado dia. 

Gomes Eannes de Zurara não conhecia as taboas astronómi- 
cas por mera curiosidade, nem sabia o seu uso somente por 
gosto especulativo; mas cultivava a astrologia, que tanto crédito 
gosava no seu tempo e ainda depois. Mateus de Pisano infor- 
ma, que Zurara era notável astrólogo (nobilis astrologus) (2). É 

(i) Gomes Eannes de Zurara não deduziu os dados astronómicos das taboas do 
Almanach perpetiium de Abraham Zacuto, porque esta obra foi composta em Sala- 
manca pelos anos de 1473 a 1478, e impressa pela primeira vez em Leiria em 1496, em 
Jatim. 

(2) De bello Septensi, C. I. H. P., i, p. 2G e 27. 



de presumir que os seus conhecimentos de astrologia tenham sido 
adquiridos pelo estudo da famosa obra de Cláudio Ptolomeu, 
Opus quadripartitum de astroriim judiciis (i). Da predilecção que 
Gomes Eannes de Zurara tinha pela astrologia, se encontram 
evidentes testemunhos nas suas obras: i." o horoscópio do in- 
fante D. Henrique, explicado na Crónica da conquista de Guiné 
(cap. vii); 2° a predição da perdurável memória da empreza diri- 
gida contra a cidade de Ceuta, que faz dizer a Frei João Xira no 
sermão que pregou em Lagos, conforme se lê na Crónica da 
tojnada de Cepta (cap. liii); 3." os razoamentos, que atribue a 
Azmede ben Filha, almocadem mayor de Tunes, predizendo a 
destruição da terra de África (Barbaria), expostos na Crónica da 
tomada de Cepta (cap. Iviii) (2). E não se deve estranhar o inte- 
resse de Gomes Eannes de Zurara pela astrologia, porque é bem 
sabido que esta sciência gosava de grande crédito nas cortes de 
Castela, de Aragão e de Portugal, nos séculos xiii, xiv e xv, posto 
que alguns homens esclarecidos não acreditavam nas influências 
siderais, como mostrou el rei D. Duarte, que na hora, em que 
havia de ser levantado como rei, sendo avisado por mestre Gue- 
delha (Guedalya), judeu, seu físico e grande astrólogo, de que era 
conveniente sobrestar no mesmo auto, em razão de não serem 
favoráveis as constelações dominantes naquela hora, o mesmo 
rei respondeu, que tal não faria, para não parecer que nele havia 
falta de fé e de esperança em Deus (3). 

Crónica da tomada de Cepta. — El rei D. Afonso V, ao tempo 
em que começou a governar o reino (1448), como soube que 
as memórias dos feitos dei rei D. João I, seu avô, não tinham 

(i) Visconde de Santarém, introdução da Crónica do descobrimento e conquista 
de Guiné, p. ix e x; E. Prestage, The li/e and writings of Azurara, p. xlvii e xlviii. 

(2) Outras alusões relativas à crença nas influências siderais se encontram nas 
obras de Gomes Eannes de Zurara, a saber : Crónica da tomada de Cepta, cap. xxxv, 
xxxvii e Iviiii ; Crónica da conquista de Guiné, cap. xxviii ; e Crónica de D. Duarte de 
Meneses, cap. xxxiv. 

(3) Rui de Pina, Crónica dei rei D. Duarte, cap. ii. 



sido acabadas de escrever, e considerando que com o decorrer 
do tempo se perderia a lembrança deles, mandou a Gomes Ean- 
nes de Zurara que inquirisse os feitos tão notáveis daquele rei, e 
deles fizesse memórias para servirem quando se houvesse de 
escrever a sua crónica (i). 

Os feitos dei rei D. João I, até ao tempo em que se tratou de 
fazer a paz com Castela, que se celebrou em 141 1, tinham sido 
escritos em crónica por Fernão Lopes, o qual não pode conti- 
nuar o trabalho por ser de muita idade e doente. Gomes Ean- 
nes de Zurara escreveu em uns cadernos as memórias dos feitos 
do mesmo rei a partir de 141 1, que foi a época em que se come- 
çaram os preparativos para a empreza da tomada de Ceuta ; e 
por isso foi desta empreza que principalmente se ocupou como o 
feito mais notável do último período da vida do mesmo rei. A 
Crónica da tomada de Cepta foi começada a escrever trinta e 
quatro anos depois da conquista da mesma cidade, isto é, em 

1449 (2); e foi concluída na cidade de Silves a 25 de março de 

1450 (3). 

O prazo de dois anos, quando muito, que Gomes Eannes de 
Zurara despendeu em escrever esta crónica, tem parecido es- 
casso (4), se se considera a extensão da mesma crónica, a minu- 
ciosidade com que são narrados alguns sucessos, e a forma polida 
e correcta da narração; isto faz presumir que antes de 1449 tives- 
sem sido escritas por êle ou por algum letrado (5) breves memó- 
rias, que Gomes Eannes de Zurara, naqueles dois anos, desenvol- 
veu, relificou e completou. Deve porém observar-se que a obra 
composta por Gomes Eannes de Zurara não foi considerada por 



(i) Crónica da tomada de Cepta, cap. iii. 

(2) Ibidem, cap. ii. 

(3) Ibidem, cap. xcvii. 

(4) Inocêncio Francisco da Silva, Dicionário bibliográfico português, tomo iii, 
p. 147 ; Edgar Prestage, TJie li/e and writings of Azurara, p. viii. 

(5) Veja-se o que Fernão Lopes diz na Crónica dei rei D, Fernando (cap. ilvii) a 
respeito de Martim Afonso de Melo, e Gomes Eannes de Zurara na Crónica da con- 
quista de Guiné (cap. xxxii) a respeito de Afonso Cerveira. 



ele mesmo senão como memórias auxiliares, que haviam de servir 
para a composição da crónica, sendo sua tenção de acrescentar 
ou diminuir as mesmas memórias em quaisquer logares que ao 
deante se julgasse que o mereciam por verdadeiro juízo (i). 

El rei D. Afonso V não se contentou de mandar somente a 
Gomes Eannes de Zurara, que escrevesse os gloriosos feitos dei 
rei D. João I, seu avô; mas ainda encarregou Mateus de Pisano, 
que tinha sido seu mestre, e que era, segundo diz Gomes Eannes 
de Zurara, «poeta laureado e hum dos suficientes filósofos e ora- 
dores, que em seus dias concorreram na chóstandade», que os 
posesse por escrito na lingua latina (2), evidentemente com o fim 
de tornar conhecidos tão memoráveis feitos entre as nações 
estrangeiras. Para esse efeito Mateus de Pisano compoz em 
latim a obra conhecida peio título de Livro da Guerra de Ceuta, 
em que se refere a tomada da mesma cidade. Esta obra é um 
sumário evidentemente extraído das memórias que já tinha escrito 
Gomes Eannes de Zurara, e estava concluída pelos anos de 
1460 (3). 

E bem de notar que a conquista da cidade de Ceuta, apesar 
de ter tomado parte nela el rei D. João I, e os infantes D. Duarte, 
D. Pedro e D. Henrique, seus filhos, e a principal nobrezia do 
reino, não foi assunto de nenhuma composição dos poetas do 
século XV. A única referência à mesma empreza, de que temos 
notícia, que seja dada nos escritos dos poetas do século xv, 
encontra-se na Tragedia de la insigne reyna Doiía Ysabel, com- 
posta por, D. Pedro, condestavel de Portugal e depois rei de Ara- 
gão, falecido em 1466; a passagem é como se segue: «Aquel 
glorioso rey que la su espada tan duramente íiso sentir a los 
Castèllanos, e los sus grandes exércitos passo en las partes de 
Africa, ganando a los Ysmaelitas la noble çibdat de Cepta (4).» 

(i) Crónica da tomada de Cepta, cap. iii. 

(2) Crónica do Conde D. Pedro, cap. i. 

(3) De bello Septensi, C. I. H. P., i, p. 3. 

(4) D. Carolina Michaelis ;de Vasconcelos, Uma obra inédita do Condestavel de 
Portugal D. Pedro, na Homenaje à Menendej y Pelayo, tomo i, Madrid, 1899, p. 698. 



o Cancioneiro Geral, coligido por Garcia de Resende, não 
contem nenhuma trova alusiva ao glorioso feito da tomada da 
cidade de Ceuta ; nem se encontra alusão alguma ao mesmo feito 
no Cancioneiro General de Hernando de Castillo, nem nos de 
Baena e de Stuniga. 

Subsídios e testemunhos empregados na composição da Cró- 
nica da tomada de Cepta. — O infante D. Pedro, segundo filho 
dei rei D. João I, compoz uma obra de filosofia moral, que tem 
por titulo Virtuosa bemfeitoria, a qual dedicou a seu irmão o 
infante D. Duarte, depois rei. O infante D. Pedro foi ajudado 
no acabamento da mesma obra pelo licenciado frei João Verba, 
seu confessor; e a obra estava concluída antes de 14 de agosto 
de 1433, em que faleceu D. João I. A mesma obra fez parte da 
livraria dei rei D. Duarte e da de D. Afonso V; e posteriormente 
existia na livraria do Mosteiro da Cartuxa de Évora. Atualmente 
ha noticia de quatro manuscritos desta preciosa obra: i.° o ori- 
ginal em códice de pergaminho na biblioteca municipal de Vizeu; 
2.° cópia em códice de pergaminho, em formato de fólio, de 
letra ao século xv, na livraria da Academia Rial de História 
de Madrid; 3.° cópia em livro de papel, de letra do século xix, 
na biblioteca da Academia das Sciências de Lisboa; 4.° cópia em 
livro de papel, de letra do século xix, na Biblioteca pública mu- 
nicipal do Porto. A Virtuosa bemfeitoria foi publicada pela Câ- 
mara Municipal do Porto, em 19 10, na Colecção de manuscritos 
inéditos. 

A Virtuosa bemfeitoria é dividida em seis livros, e cada um 
deles em diversos capítulos. No livro terceiro trata-se do modo 
como se deve pedir; o capítulo v tem por título : em que se mos- 
tra que a Deus devemos oferecer nossas petições; e o vi : ejii que se 
mostra que havemos de rogar aos santos por nossas petições. Estes 
dois capítulos foram adaptados por Gomes Eannes de Zurara à 
sua Crónica da tomada de Cepta, transcrevendo-os verbalmente, 
e quási completamente, no capítulo primeiro que serve de pró- 



logo à mesma crónica (i). Este facto explica-se facilmente, por- 
que Gomes Eannes de Zurara teve a seu cargo a livraria dei rei 
D. Afonso V; mas demonstra também o alto conceito em que a 
Virtuosa bemfeitoria era tida na corte depois da morte do infante 
D. Pedro, por isso que o cronista tomou dela dois capítulos para 
servirem de prólogo à Crónica da tomada de Cepta, que escrevia 
por ordem dei rei D. Afonso V. 

O próprio Gomes Eannes de Zurara declara no capítulo iii 
da Crónica da tomada de Cepta, que compoz esta obra segundo 
as memórias que lhe foram contadas por pessoas autorizadas, 
que assistiram aos conselhos e tomaram parte na execução da 
empreza, principalmente dos infantes D. Pedro e D. Henrique. 
Esta notícia, e outras espalhadas pelo decurso da obra, fazem 
crer, que, se a forma literária da Crónica da tomada de Cepta 
é devida a Gomes Eanni^s de Zurara, as notícias que contem, 
dos conselhos havidos para a sua deliberação, das medidas 
tomadas na sua preparação, e dos factos da sua realização, per- 
tencem ao infante D. Henrique. E é bem de presumir que este 
infante, no último quartel da sua vida, passando a maior parte 
do tempo no Algarve, ocupado nas expedições marítimas do des- 
cobrimento da costa ocidental de África, se comprazeria de recor- 
dar os gloriosos feitos dei rei D. João, seu pai, e os de seus 
irmãos os infantes D. Duarte e D. Pedro, e os seus, da sua moci- 
dade, do começo da sua cavalaria, na preparação e realização 
da tomada de Ceuta, e talvez ditá-los ao cronista. 

Outra obra, de que Gomes Eannes de Zurara se aproveitou 
para a composição da Crónica da tomada de Cepta, foi o Leal 
Conselheiro, escrito por el rei D. Duarte. Com efeito a notícia 
da doença, que D. Duarte, sendo ainda infante, sofreu, quando 
tinha vinte e dois anos, e el rei seu pai o encarregou do conse- 
lho, da justiça e da fazenda, dada por Gomes Eannes de Zurara, 
é extratada daquela que o próprio D. Duarte escreveu, como se 

(l) Doe. XKXII. 



pode verificar comparando a parte correspondente do capí- 
tulo xxix da Crónica da tomada de Cepta com a do capítulo xix do 
Leal Conselheiro, que ali é citado. 

A notícia, contida no capítulo xiii do Leal Conselheiro, rela- 
tiva ao conselho feito por el rei D. João I, quando estava na 
Ponta do Carneiro, entre Gibraltar e a Aljazira, e à deliberação 
do mesmo rei, serviu claramente a Gomes Eannes de Zurara para 
escrever o que sobre o mesmo assunto diz nos capítulos Ixii e 
Ixiii da Crónica da tornada de Cepta. 

Cavaleiro da casa dei rei, e mercê da tença de seis mil reais 
brancos — Por carta datada de 29 de março de 1451, el rei 
D. Afonso V fez mercê a Gomes Eannes de Zurara, que chama 
cavaleiro da sua casa e seu cronista, da tença de seis mil reais 
brancos em cada ano, a partir do primeiro de janeiro do mesmo 
ano, pagos da sua fazenda (i). Não se sabe a data, em que foi 
nomeado cavaleiro da casa dei rei; e o seu nome não se encon- 
tra no Livro das moradias da casa do senhor rey D. Afonso V{2), 
que foram desde 1462 a 1481 ; mas a omissão do seu nome neste 
livro pôde explicar-se, ou porque a mercê já tinha sido substi- 
tuída por outra mais rendosa, como adeante se verá; ou, o que é 
mais provável, porque Gomes Eannes de Zurara, não sendo 
fidalgo, não era contado em o número dos «cavaleiros fidalgos m. 

Cargo da livraria real. — Rui de Pina, na Crónica dei rei 
D. Afonso V, diz (3) que este «foy o primeiro Rey destes regnos, 
que ajuntou bóos liuros e fez liuraria em seus paços.» Pedro Ma- 
ris nos Diálogos de vária história transcreve (4) quási textual- 
mente as mesmas palavras. Parece que pelas palavras de Rui 
da Pina se deve entender que el rei D. Afonso V reuniu conside- 

(i) Doe. II. 

(2) Provas da historia genealógica da Casa Rial Portugueja, tomo 11, p. 23-48. 

(3) Rui de Pina, Crónica dei rei D. Afonso V, cap. ccxiii, na C. /. H. P., tomo i, 
p. 608. 

(4) Pedro Maris, Diálogos de vária história, Coimbra, ifgS, foi. igS, v. 



rável número de livros escolhidos, e instituiu nos seus paços uma 
livraria, que podiam fieqúentar as pessoas da corte mais afei- 
çoados aos estudos (i). Esta livraria foi estabelecida nos paços 
reais do castelo da cidade de Lisboa, e nela havia mesas para 
facilitar a leitura (2). 

Da guarda e conservação da livraria real foi dado o cargo a 
Gomes Eannes de Zurara por um alvará, cuja data não é conhe- 
cida, mas que foi antes de 14 de Julho de 1451, em que se pas- 
sou carta de quitação a Joham Rodrigues de Carvalho dos dinhei- 
ros que recebeu em Bruges, entre os quais eram vinte e uma 
libras e cinco soldos por cem dúzias de pergaminhos respança- 
dos, que entregou a Gomes Eannes de Zurara para os guardar na 
livraria dei rei, que estava na cidade de Lisboa (3). Nesta livra- 
ria havia escrivães de livros e iluminadores para fazer cópias de 
livros em pergaminho de preparação especial e de letra gótica ou 
francesa, e alguns com finas iluminuras a cores e ouro. Entre os 
escrivães de livros é mencionado Joham Gonçalves (4), escudeiro, 
que parece ter sido antes escrivão de livros do infante D. Pedro, 
e com o qual esteve na batalha de Alfarrobeira, sendo depois 
perdoado, e restituindo-se-lhe umas casas que possuia em Lis- 
boa (5); 1 entre os iluminadores menciona-se Gonçalo Eanes, cré- 
ligo, capelão e iluminador de livros, a quem el rei D. Afonso V 
fez mercê de 5.916 reais brancos por ano, pela carta de 3 de Julho 
de 1452 (6). 

Comendador da Ordem de Cristo. — Gomes Eannes de Zurara 
foi comendador da Ordem de Cristo. 



(i) Sousa Viterbo, A livraria rial, p. 3. 

{2) Doe. III ; Sousa Viterbo, A livraria rial, p. 3. 

(3) Doe. III. 

(4) Gomes Eannes de Zurara, Crónica da conquista de Guiné, cap. xcvii. 

(5) Sousa Viterbo, A livraria rial, p. 4; Chancelaria dei rei D. Afonso V, liv. 11, 
foi. 121 V., e liv. 37, foi. 45 V. 

(6) Sousa Viterbo, A livraria rial, p. 5; Chancelaria dei rei D. Afonso V, liv. 12, 
foi. 95 V. 



XXVII 

A Ordem militar de N. S. Jesus Cristo foi instituída a solici- 
tações dei rei D. Denis por bula do Papa João XXII, de 14 de 
março de iSig (i); os cavaleiros professavam as observâncias da 
regra e ordem de Calatrava (2); e os bens, que lhes tinham sido 
doados, foram divididos em comendas, como consta de um instru- 
mento datado de 11 de junho de i32i (3). Estas disposições du- 
raram até ao ano de 1449, em que D. João, bispo de Vizeu, por 
comissão do Papa Eugénio IV, e a instâncias do infante D. Hen- 
rique, que então era governador da Ordem e seu administrador, 
a reformou, e fez nova regra e novas definições (4) ; e estas se 
usaram até o ano de i5o3, em que se fizeram outras em capítulo 
geral por ordem dei rei D. Manuel, que era então o governador 
da Ordem (5). 

Não constam da regra e definições da Ordem de Cristo, esta- 
belecidas pela reformação de 1449, as condições a que deviam 
satisfazer aqueles que pertendiam ser recebidos na Ordem; mas 
é porem de crer que não seriam muito diversas das que se assen- 
taram no Capítulo geral da Ordem celebrado em i 5o3 ; no qual 
se estabeleceu que para um homem ser recebido na Ordem, poder 
ter comenda e ser mestre, havia de ser fidalgo ou escudeiro conhe- 
cido por bom, não ter menos de quinze anos nem mais de cin- 
coenta, e não ser aleijado nem fraco que não podesse tomar 
armas (6). A entrada para a Ordem era feita por ordenança e 
mandado do mestre ou governador (7). 

Não se sabe o ano em que Gomes Eannes de Zurara foi rece- 

(i) Definições e estatutos dos Cavaleiros e Freires da Ordem de N. S. Jesu Cristo, 
Lisboa, 1628, p. 54. 

(2) Ibidem, p. 54 e 58. 

(3) Publicado por António Eduardo Baião no Arqueólogo Português, tomo xiv, 
p. 1S7-164. 

(4) Definições e estatutos, p. 58. 

(5) A regra e deffiniçoões da ordem do mestrado de nosso Senhor Jhu xpõ, (i5o3), 
paleotipo da Biblioteca Nacional de Lisboa, reservado n." 127; e paleotipo do Arquivo 
Nacional. 

(6) Ibidem, cap. viii. 

(7) Ibidem, cap. lix. 



bido na Ordem de Cristo, porque até i 5o3 não havia livro de ma- 
trícula dos cavaleiros e comendadores (i), e se perderam os docu- 
mentos do cartório da Ordem anteriores ao começo do século xvi; 
sabe-se porém que elle deveu a sua entrada para a Ordem a 
mercê dei rei D. Afonso V (2). 

Em um documento datado de 1 4 de julho de 1 45 2 (3) e em outro 
de 17 de julho do mesmo ano (4), Gomes Eannes de Zurara é cha- 
mado comendador de Alcains; em outro de 23 de agosto de 
1454(5) é denominado comendador de Alcains e da Granja do 
Ulmeiro; e em outro de 9 de agosto de 1459 (6), é denominado 
comendador do Pinheiro Grande e da Granja do Ulmeiro. Parece 
resultar, destes documentos que elle resignou a comenda de Alcains, 
recebendo em troca a de Pinheiro Grande. 

Alcains é uma freguezia do orago de N. S. da Conceição, 
situada a 12 quilómetros de Castelo Branco, e do concelho da 
mesma cidade. A comenda de Alcains pertencia ao bispado da 
Guarda; o seu rendimento em i58o foi avaliado em 104ÍÍ1000 réis 
cada ano (7). 

Pinheiro Grande é uma freguezia do orago de Santa Maria, 
situada a 5 quilómetros da Chamusca, e do concelho desta vila. 
A comenda do Pinheiro Grande pertencia ao arcebispado de Lis- 
boa ; e em 1628, segundo avaliação feita muitos anos antes, ren- 
dia 55oííooo réis cada ano (8). 

Granja do Ulmeiro é uma freguezia do orago de S. Gabriel, 

(i) A regra e deffimçoóes da ordem do mestrado de nosso Senhor Jhu xpó, (i5o3), 
paleotipo da Biblioteca Nacional de Lisboa, reservado n.° 127, e paleotipo do Arquivo 
Nacional, cep. lix. 

(2) Per vossa mercee cavalleiro e comendador da Ordem de Xpõ. (Crónica da con- 
quista de Guiné, cap. xcvii, p. 462). 

(3) Doe. III. 

(4) Doe. XXX. 

(5) Doe. VI. 

(6) Doe. VIII. 

(7) Definiçõss e estatutos, p. 242; Luís de Figueiredo Falcão, Livro em que se con- 
tem toda a fazenda e rial património, Lisboa, iSíg, p. 280, n." 221. 

(8) Definições e estatutos, p. 236 ; Livro em que se contem toda a fazenda e rial pa- 
trimónio, p. 240, n.° 843. 



situada a i 5 quilómetros de Soure, e do concelho desta vila. A 
comenda da Granja do Ulmeiro pertencia ao bispado de Coim- 
bra, e o seu rendimento em i582 foi avaliado em iSoííooo réis 
cada ano (i). 

Crónica da conquista de Guiné. — No ano de 1452 el rei 
D. Afonso V, estando na cidade de Lisboa, disse a Gomes Eannes 
de Zurara, que desejava muito vêr postos em escrito os feitos do 
infante D. Henrique seu tio; e ordenou-lhe que procurasse saber 
com grande verdade a maneira de sua virtuosa vida e o pro- 
cesso dos seus memoráveis feitos (2). Gomes Eannes de Zurara, 
com as informações que obteve de pessoas que ainda então vi- 
viam, e que tinham servido o infante D. Henrique (3), e com as 
memórias que sobre as navegações, promovidas pelo mesmo in- 
fante, tinha escrito Afonso Cerveira (4), compoz a obra que tem 
por titulo Cróinca da conquista de Guiné. Depois de concluída 
a obra foi feita uma cópia em pergaminho por Joham Gonçal- 
ves, escrivão de livros dei rei D. Afonso V, a qual foi terminada 
na livraria do mesmo rei em 18 de fevereiro de 1453 (5); e Go- 
mes Eannes de Zurara enviou a el rei a mesma cópia, ilustrada 
com o retrato do infante D. Henrique (6), com a sua carta de 23 
de fevereiro de 14-5 3 (7). 

Guarda mór da Torre do Tombo. — No tempo dei rei D. João I 
a guarda do cartório das escrituras do reino, que era estabele- t'^-**^*-' 

(i) Definições e estatutos, p. 263 ; Livro em que se contem toda a fazenda e rial pa- 
trimónio, p. 235, n." 281. 

(2) Doe. IV ; Crónica da conquista de Guiné, cap. i, p. 3. 

(3) Crónca da conqusta de Guiné, cap. xxx, p. i56, e cap. xxxaii, p. lyS. 

(4) Idem, cap. xxxii, p. i65, e p. xii. 

(5) Idem, cap. lrvii, p. 463. 

(6) O manuscrito está depositado atualmente na Biblioteca Nacional de Paris, e 
serviu para a sua publicação da mesma crónica feita pelo Visconde de Santarém, em 
Paris, em 1841 ; esta impressão é acompanhada do facsimile do retrato do infante 
D. Henrique e da carta de Gomes Eannes de Zurara a el rei D. Afonso V. 

(7) Doe. IV. 



eido na Torre do Tombo no castelo da cidade de Lisboa, estava a 
cargo dos oficiais da fazenda real, como se vê pela carta de 22 de 
dezembro de 141 1, pela qual o mesmo rei ordenou com o fim de 
melhor guarda das escrituras, que os traslados delas se dessem 
por cartas feitas em seu nome pelos escrivães, que escreviam as 
mesmas escrituras (i). Parece que depois, talvez no reinado dei rei 
D. Duarte, o mesmo cartório passou a estar a cargo de um oficial 
próprio, que era denominado guarda mór da Torre do Tombo. 
Fernão Lopes, que fora escrivão da puridade do infante 
D. Fernando (2), e homem de grande saber e autoridade (3), era 
no tempo dei rei D. Duarte o guarda das escrituras do reino, 
que estavam na Torre do Tombo, no castelo da cidade de 
Lisboa; e foi encarregado pelo mesmo rei de pôr em crónica 
as histórias dos reis que antigamente foram em Portugal, assim 
como os grandes feitos dei rei D. João I; e em i534 o mesmo 
rei, atendendo a que Fernão Lopes já tinha dispendido muito 
trabalho nas mesma obra, e ainda havia de trabalhar muito, 
lhe fez mercê da tença de 14^5000 reais, para seu mantimento, em 
cada ano, em todos os dias da sua vida desde o primeiro dia de 
janeiro do mesmo ano, pagos aos quartéis do ano pelo seu tesou- 
reiro de Lisboa. ^A carta desta mercê foi dada em Santarém a 
c . ... 19 de março de 1484; e depois confirmada por el rei D. Afonso V 

'^*****^'**T*ah.^ por carta de 3 de junho de 1489 (4). O mesmo rei D. Afonso V, 
. ç^ ç^ em atenção aos grandes trabalhos, que Fernão Lopes tinha 

' ^ ^ * tomado e ainda havia de tomar para fazer as crónicas dos 

reis de Portugal, lhe poz de mantimentos 5oo reais em cada 
mês, durante toda a sua vida, pagos pela portagem da cidade de 
Lisboa. A carta desta mercê foi passada em Lisboa a 1 1 de 
janeiro de 1449 (5). 

(i) Doe. i; Correia da Serra, C. I. H. P., tomo 11, p. 20S. 

(2) Testamento do infante D. Fernando, na Crónica de D. João I, parte primeira, 
ed. Braamcamp, p. lii, e Crónica da tomada de Cepta, cap. iii. 

(3) Crónica da tomada de Cepta, cap. iii. 

(4) Doe. xxviii. 

(5) Damião de Góes, Crónica dei rei D. Manuel, quarta parte, eap. xxxviii, (doe. xxix). 



Em 1454, Fernão Lopes era já tão velho e fraco, que por si 
não podia bem servir o ofício de guarda das escrituras da Torre 
do Tombo; e por isso el rei D. Afonso V, com o aprazimento do 
próprio Fernão Lopes, confiando de Gomes Eannes de Zurara 
pela muita criação que nele tinha feito, e pelo serviço que dele 
tinha recebido e esperava receber, deu o cargo de guarda das 
escrituras da Torre do Tombo ao mencionado Gomes Eannes de 
Zurara com todos os direitos e proventos que pertenciam ao 
cargo, e pelo modo que o tinha tido Fernão Lopes. A carta 
desta mercê foi passada em Lisboa a 6 de junho de 1453 (i). 

Isenções concedidas a Garcia Annes e Afonso Garcia. — Em 
1454 Gomes Eannes de Zurara representou a el rei D. Afonso V, 
que elle recebia e esperava receber serviço de Garcia Annes e 
Afonso Garcia seu filho, almocreves e moradores na vila de Cas- 
telo Branco, por lhe arrecadarem suas rendas, procurarem suas 
cousas e lh'as trazerem para Lisboa, pelo que lhe pedia que lhes 
concedesse alguns privilégios. El rei, atendendo ao seu pedido, 
privilegiou os mencionados Garcia Annes e Afonso Garcia, em 
quanto Gomes Eannes de Zurara se houvesse por servido deles, 
isentando-os do serviço rial, do dos infantes e de outras quais- 
quer pessoas, determinando que lhes não tomassem contra sua 
vontade suas casas de morada, adegas ou cavalariças para serem 
dadas a outras pessoas para aposentadoria. A carta desta mercê 
foi passada em Lisboa a 23 de agosto de 1454 (2). 

Traslado do foral de Miranda. — El rei Dom Diniz deu foral 
à vila de Miranda, em Santarém a 18 de dezembro da era de 1 324 
(1286 de J. C.). No melado do século xv parece que se tinha 
extraviado o original do foral; pelo que os moradores da mesma 
vila solicitaram um traslado do seu registo na Torre do Tombo; 



(i) Doe. V. 
(2) Doe. VI. 



o traslado foi passado, é datado de i6 de fevereiro de i556, e é 
assinado por Gomes Eannes de Zurara (i). 

Registo da Bula: Inter caetera. — O Papa Calisto III, pela 
bula que começa pelas palavras : Inter caetera, dada em Roma a 
3 de março de 1455, outorgou e concedeu à Ordem de Cristo o 
espiritual de todas as ilhas desde o Cabo de Bojador e de Não 
por toda a Guiné até à índia, assim já adquiridas, como de todas 
as que depois se adquirissem, determinando que o descobrimento 
daquelas partes não podesse ser feito senão pelos reis do Portu- 
gal, confirmando juntamente as bulas de Martinho V e de Nico- 
lau V sobre o mesmo assunto. No transunto da mesma bula 
do Papa Calisto III, existente no Arquivo Nacional (Torre do 
Tombo), gaveta 7.", maço i3, n." 7, foi lançada no verso da folha 
a seguinte verba: 

«E foy esta letra aqui lamçada em esta torre do tombo per 
nos Gomez e annes de Zurara comendador de pinheiro dapar de 
Santarém que he de dita hordem de Jhú xpõ e cronysta de por- 
tugall e guarda moor da dita torre aos ij dias de nouembro do N." 
de xpõ de mil e iiij" Lbj anos.» 

Esta verba é muito interessante por ser de letra do próprio 
Gomes Eannes de Zurara, e conter o seu nome próprio escrito 
por extenso. 

Mercês que lhe foram feitas em i45g. — El rei D. Afonso V 
era muito liberal e generoso, e fazia muitas mercês aos seus ser- 
vidores (2). 

El rei D. Afonso V, por cana dada em Cintra a 7 de agosto 
de 1459, fez mercê a Gomes Eannes de Zurara, comendador da 
Ordem de Cristo, seu cronista, e guarda mór da Torre do 
Tombo, da receita de 1 235000 reais brancos em cada ano, a par- 



(i) Arquivo Nacional, gaveta i5, maço i3, número 21. 

(2) Pedro Mariz, Diálogos de vária história, Coimbra, iSgS, foi. 184, r. 



tir de I de janeiro de 1460, emquanto êle vivesse, a qual quantia 
já recebia da fazenda rial(i). 

O mesmo rei D. Afonso V, por carta dada em Cintra a 9 de 
agosto de 1459, deu licença a Gomes Eannes de Zurara, comen- 
dador do Pinheiro Grande e da Granja do Ulmeiro, seu cronista 
e guarde mór da Torre do Tombo, para poder despender até à 
quantia de ioííooo reais nas obras de melhoramento e reparação 
das casas dei rei, situadas perto dos paços do castelo da cidade de 
Lisboa, em que elle então morava, e para fazer uma cisterna nas 
mesmas casas; e ordenou, que se el rei lhe não podesse pagar 
logo todas as despesas que Gomes Eannes de Zurara tivesse feito 
nas mencionadas obras, ele e seus herdeiros possuíssem as mes- 
mas casas até que lhe fosse paga a dita quantia; e que depois as 
casas ficassem livres para el rei como dantes eram (2). 

Reforma dos livros de registo da Torre do Tombo. — No ano 
de 1459 el rei D. Afonso V fez cortes em Lisboa; e entre as mui- 
tas providências adotadas para o bom governo do reino, orde- 
nou a reforma dos livros de registo das escrituras do reino. 
Sabendo que no seu cartório da Torre do Tombo havia muitos 
livros de registo das escrituras do reis passados, onde os naturais 
faziam grandes despezas para procurar traslados dos documentos 
de que necessitavam, em razão da grande prolixidade das escri- 
turas, e porque os mesmos livros pereciam por serem velhos; 
ordenou que se tirassem para livros novos aquelas cousas que 
fossem substanciais, isto é, que se fizesse o sumário da parte útil 
dos documentos, e que se deixassem as outras cousas de que não 
havia razão de aproveitar a ninguém. El rei encarregou de 
fazer este trabalho a Gomes Eannes de Zurara, comendador da 
Ordem de Cristo, guarda mór da Torre do Tombo e seu cro- 
nista. Nos livros de registo assim reformados, e que se referem 
aos reinados de D. Pedro I, D. Fernando e D. João I, estão regis- 

(i) Doe. VII. 
(2) Doe. vm. 



tadas doações, privilégios, demarcações de termos, apresenta- 
ções, legitimações, aforamentos, coutamentos, morgados, confir- 
mações e outras cousas semelhantes (i). 

Da maneira como foi feita a reforma dos livros de registo diz 
João de Barros (2): «Fez ainda Gomes Eanes outra obra no 
tombo deste reyno que alumiou muyto as cousas delle, que foram 
os liuros dos registros, recopilando em certos volumes as forças 
de muyta scriptura que andaua solta, começando em el Rey Dom 
Pedro te el Rey Dom João de gloriosa memoria, isto por rezão 
de ser guarda mór do mesmo tombo, ofíicio muy próprio dos 
chronistas por ser húa custodia de toda a scriptura do reyno.» 

João Pedro Ribeiro (3) aprecia muito desfavoravelmente o 
trabalho de Gomes Eannes de Zurara; mas deve dizer-se que este 
se limitou a fazer em livros novos o sumário dos antigos livros 
de registo, que eram em mau estado; e que o desaparecimento 
dos livros antigos sucedeu entre i526 e i532, quando Tomé 
Lopes escrivão da Torre do Tombo servia de guarda mór (4). 

Registo de iim documento julgado falso. — Com a reforma dos 
livros de registo da Torre do Tombo liga-se um facto, que tem 
sido motivo para ser apreciada pouco favoravelmente a probi- 
dade de Gomes Eannes de Zurara como guarda mór das escritu- 
ras do reino. 

O Livro I da Chancelaria de D. Fernando é um códice de 
200 folhas de fino pergaminho, dispostas era 20 cadernos de cinco 
folhas duplas. O livro está encadernado em pastas de grosso 
papelão cobertas de linhagem cada uma com quatro taxas de 
metal amarelo. As' folhas do livro tem o'",46o xo^jSSo, e a parte 
escrita em cada página ocupa um rectângulo de o'",3ioxo'°,255; 
as folhas são numeradas no canto superior direito da página 

(1) Doe. IX. 

(2) Décadas da Ásia, dec. i, liv. i, cap. 11. 

(3) João Pedro Ribeiro, Dissertações cronológicas e criticas, tomo iv, p. 222-236. 

(4) Anselmo Braamcamp Freire, Arquivo histórico português, vol. iii, p. 288 e segs. 
e Um aventureiro na emprega de Ceuta, p. 23 a 27. 



recto com os números romanos j, ij, iij, iiij, y, vj, . . . CC. 
Em cada página a escrita está disposta em duas colunas de 
41 linhas, tendo cada linha 3o a 35 letras. A escrita é do tipo 
meio gótico e meio cursivo, do século xv, c perfeitamente legí- 
vel. Os títulos dos documentos são escritos com tinta vermelha, 
e os documentos com tinta preta. Nas margens ha pequenas no- 
tas, nas quais se indicam as folhas do hvro antigo em que o docu- 
mento era escrito. Alguns documentos são trasladados na inte- 
gra; mas da maior parte deles somente é dado o sumário, a data, 
c o nome do escrivão dei rei. O livro começa pelo seguinte pró- 
logo, que serve de termo de abertura : 

«Registos delrrey dom Fernando. 

Primeyro liuro delles. 

Segunda feira em amanhecendo aos xviij dias do mes de 
janeiro andados da era de çesar de mil iiij'^ e cinquo annos em a 
villa destremoz se finou o muyto nobre esclarecido e uirtuoso 
senhor elrrey Dom Pedro dos regnos de Portugall e algarue Rey 
per cuja morte nos ditos regnos soçedeo o muyto alto e magní- 
fico senhor e de grande e louuada memoria elrrey Dom Fernando 
seu filho, o qual em viuendo fez muytas doações de terras e pos- 
sissões, e deu muytos priuilegios a suas villas, e aforou muytos 
dos seus bêes próprios, e apresentou aas suas egreias e moes- 
teiros pessoas ydoneas, e legitimou e abilitou muytos ilegilimos 
nados. E outras muytas e boas obras fez que per seu registo 
passarom segundo se adiante segue, etc.» 

Depois da folha CC foi ajuntada outra folha, que está nume- 
rada com os algarismos 201; esta folha é de pergaminho mais 
grosseiro e amarelado, do que o do livro; e foi rasgada, mas 
acrescentada no canto inferior direito (página recto). Nesta folha 
está escrita a cópia de um documento, em uma só coluna, tendo 
41 linhas na página recto, e 17 linhas na página verso; a escrita 
é cursiva, mas bem legível, e do século xv; na parte que foi acres- 



centada faltam algumas palavras no fim das linhas; mas é fácil 
restabelecê-las. 

No alto da página recto da mesma folha 2ci está escrita a 
seguinte nota de letra diferente da do documento: «Esta carta 
he falça e não deve de estar aqui.» No fundo da mesma página 
está escrita estoutra nota de letra diferente da da anterior : 
«Esta carta he falsa.» 

Sobre toda a escrita da cópia do documento da página recto 
são traçadas duas linhas rectas, diagonais do rectângulo ocupado 
pela escrita, como para a trancar. Na página verso, no fim da 
cópia do documento, está escrita a seguinte nota de letra dife- 
rente da das notas anteriores, mas do século xv: «Esta carta 
atras em lugar de titolo diz que he falsa e que nam deue destar 
aquy, e nam se sabe per quem foy scripta nem a carta riscada 
como estaa, porem parece que deuya de seer per o oficial desta 
Torre do Tombo a que pertemçese e o podesse fazer e do caso 
soubesse pêra o poder afyrmar ajnda que nom consta per a letra 
nem per outro nehúu synal.» 

O documento copiado na folha 201, recto e verso é um carta 
dada por el rei D. Fernando em Santarém, aos 8 dias do mes de 
março da era de 141 1 (iSyS) e escrita por Afonso Pires (i). 
Nesta carta el rei D. Fernando diz que considerando os muitos 
serviços que recebeu de D. Frey Nuno Rodrigues, mestre da cava- 
laria da Ordem de Cristo, em muitos logares de seus reinos, e em 
outros diversos logares, no tempo da guerra que teve com el rei 
de Castela e de Leão, em que o serviu e serve mui lealmente por 
si próprio e com suas gentes com cavalos e armas à sua própria 
custa e dos bens da dita Ordem, faz doação ao mencionado mes- 
tre e à sua Ordem, da vida e de toda a jurisdição que tem, tanto 
no cível como no crime, nas vilas de Tomar, e de Pombal, e de 
Soure, e de Castelo Branco, e de Nisa, e de Alpalhão, e de Cas- 
telo de Vide e de Vila Franca de Xira, e em todos os seus termos 

(i) Doe. XXVI. 



das ditas vilas^ e em todas as outras vilas e logares da mencio- 
nada Ordem, em que ela tem jurisdição, a saber : nos logares e 
vilas em que o mestre e a Ordem de Cristo tem jurisdição e 
correcção, e das sentenças dos juizes e justiças das ditas vilas e 
logares apelam para o mestre e Ordem de Cristo. E para que 
esta doação seja firme, el rei demite de si a referida jurisdição e 
senhorio, e o transfere para a Ordem de Cristo. 

D. Frey Nuno Rodrigues, também chamado D. Nuno Freyre 
de Andrade, era filho de Rui Freire de Andrade e de D. Inez 
Gonçalves do Souto Maior, e foi o sexto mestre da Ordem de 
Cristo (i). A este D. Nuno Freire de Andrade deu el rei D. Pe- 
dro I seu filho bastardo D. João, para que o criasse consigo; e 
êle foi depois mestre da Ordem de Avis, e rei de Portugal (2). 
El rei D. "Pedro fez muitas mercês à Ordem de Cristo pelos ser- 
viços prestados pelo mesmo D. Nuno Freire; e no seu tempo se 
transferiu o convento e casa da Ordem, de Castro Marim para 
Tomar, o que se fez no ano de i356; e logo fez capitulo geral, 
em que presidiu o abade do mosteiro de Alcobaça (3). Quando 
el rei D. Fernando era em guerra com el rei D. Henrique de Cas- 
tela, mandou para Galiza por mar oito galés, de que era capitão 
Nuno Martins de Góes; e el rei, acompanhado de D. Álvaro 
Pires de Castro, de D. Nuno Freire, mestre da Ordem de Cristo, 



(i) Estatutos e definições, p. 90. 

D. Frei Nuno Rodrigues mandou edificar em Ferrreira do Zêzere uns paços, como 
consta da seguinte inscrição que se lê na parede lateral : «Em nome do Padre e do 
Filho e do Espirito Santo. Amen. Eis aqui a cruz onde crucificaram Jesus Christo filho 
de Deus vivo. Estes paços foram do mestre de Christo Dom Nuno Rodrigo, filho de 
Rui Freire de Andrade e de Dona Inez Gonçalves de Souto Maior, e foram começados 
em os cinco dias de Julho, era de mil e quatro centos annos, quando heram andados 
do seu mestrado 4 annos 7 ms. e 26 dias mais, quando reinava em Portugal o mui no- 
bre Rei Dom Pedro o Primeiro, quando herão andados de seu reinado cinco annos he 
xLiiii dias mais. Estas letras pintou Gonçallo Tenrreiro, mordomo mor, chanceller 
mor, Senhor de Soure.» Neste edifício são atualmente os paços do concelho de Fer- 
reira de Zêzere. (António Eduardo Baião, A villa e concelho de Ferreira de Zêzere no 
Arqueólogo português, tomo xiv, p. 148 e i5i). 

(2) Fernão Lopes, Crónica dei rei D. Pedro, cap. i. 

(3) Estatutos e definições, p. 60. 



de outros senhores e fidalgos, e de muita gente, foi por terra, e 
chegou a Tuy, onde foi bem recebido de Afonso Gomes de Lira, 
alcaide da cidade, e de todos os moradores dela (i). Pouco 
tempo depois de ali ter chegado, quando el rei D. Fernando soube 
que el rei D. Henrique vinha com todo o seu poder com inten- 
ção de lhe dar batalha, el rei D. Fernando deixou fronteiros nos 
logares que por êle tinham voz, e entre outros, na Corunha 
D. Nuno Freire, mestre da Ordem de Cristo, natural da mesma 
comarca, com quatrocentos homens de cavalo (2). Dom Nuno 
Freire foi mestre da Ordem de Cristo durante quinze anos, e 
faleceu em 1372(3). 

De uma sentença da Casa de Suplicação (4), dada em 12 de 
janeiro de 1479, consta que em uma demanda, que se movia 
entre certos homens moradores de Punhete e Eitor de Sousa, 
comendador da Cardiga da Ordem de Cristo, sendo oponente o 
doutor Lopo Gonçalves, como procurador da infanta D. Beatriz, 
irmã dei rei D. Afonso V, como tutora e curadora de seu filho 
D. Diogo, duque de Vizeu, regedor e governador da mesma 
ordem, foi apresentada perante o doutor João de Elvas, desem- 
bargador da mesma Casa de Suplicação uma escritura, que fora 
passada pela Torre do Tombo, cujo teor era a carta dei rei 
D. Fernando, doando à Ordem de Cristo a jurisdição, de que 
atraz se faz menção. Vista esta carta, el rei D. Afonso V man- 
dou que Afonso de Óbidos, que tinha a seu cargo a guarda das 
escrituras da Torre do Tombo, lhe mostrasse o livro dos registos 
dei rei D. Fernando, e o levasse à Relação para o mostrar aos 
seus desembargadores, e com elle fossem os escrivães da mesma 
Torre do Tombo. Afonso de Óbidos, em cumprimento da ordem 
dei rei, foi com os escrivães à Relação, levando consigo o dito 
livro do registo dei rei D. Fernando; e pelo exame ali feito se 

(i) Fernão Lopes, Crónica dei rei D. Fernando, cap. xxx. 

(2) Ibidem, cap. xxxii. 

(3) Estatutos e definições, p. 60. 

(4) Doe. xxvii. 



reconheceu, que a mencionada carta de doação estava escrita em 
uma folha ajuntada no fim do Hvro e por letra diferente da do 
escrivão que escrevera o mesmo livro. E perguntado Afonso de 
Óbidos, se êle sabia como o dito registo fora posto no fim do 
livro, respondeu que não sabia. E perguntado- Fernam de Elvas, 
escrivão da Torre do Tombo, .que trasladara o dito livro, se 
sabia como fora ali posto o dito registo no fim do livro, disse 
que não sabia, nem fizera tal escritura, nem conhecia a letra, nem 
sabia quem a tinha feito, nem achara tal registo nos Uvros velhos, 
dos quais êle trasladara os mesmos livros; porque se neles a 
encontrara, a trasladara, como fizera a outros semelhantes. E 
perguntado Rui Lopes, que também era escrivão da Torre do 
Tombo, se êle sabia como fora posto o dito registo no fim do 
livro, se conhecia a letra, respondeu que êle não sabia como o 
mencionado registo ali fora posto nem conhecia a letra. E per- 
guntado o mesmo Rui Lopes, se êle escrevera uma carta que 
fora apresentada pela infanta D. Beatriz por parte da Ordem de 
Cristo, que parecia ser traslado do mencionado registo, respon- 
deu que sim a escrevera. E perguntado ainda se a trasladara 
do dito livro ou de algum outro da Torre do Tombo; respondeu 
que não; mas que a verdade era, que Gomes Eannes de Zurara, 
guarda mór da Torre do Tombo, lhe dera o traslado dela escrito 
em papel, e que por ali a fizera. E logo o mesmo registo foi 
examinado com uma carta, que parecia ser trasladada do mesmo 
registo, feita por Gomes Eannes, clérigo, criado do dito Gomes 
Eannes, e comparada uma letra com a outra, se reconheceu ser 
toda igual. E tendo-se ordenado a Afonso de Óbidos que pro- 
curasse entre todas as escrituras da Torre do Tombo, se encon- 
trava algum registo ou carta, do qual fosse trasladado o registo 
que estava no fim do hvro; não se encontrou tal escritura, nem 
por registo, nem por carta, nem por livro velho nem novo. Em 
vista deste exame e inquirição o doutor Lopo Gonçalves desistiu 
da oposição que fazia por parte da infanta, por não ter procu- 
ração do cabido da Ordem de Cristo nem as suas escrituras. 



Depois de efectuadas outras deligências, o doutor João de Elvas, 
a quem o desembargo da demanda tinha sido cometido, consi- 
derando que a mencionada carta tirada do Torre do Tombo não 
foi encontrada no livro do registo dei rei D. Fernando, mas que 
foi posta e ajuntada falsamente no fim do livro, sendo este já 
acabado e encadernado, e por letra diferente da do escrivão que 
escreveu o mesmo livro; e como depois da data da dita carta, 
el rei D. Fernando determinou, por ordenação geral, que nenhuma 
pessoa de qualquer estado e condição que fosse, nem a Ordem 
de Cristo nem nenhuma outra ordem, tivesse nem podessse ter 
nenhuma superioridade de jurisdição, sem embargo de quaisquer 
cartas dadas por êle e pelos reis seus antecessores, com quais- 
quer clausulas ou prerogativas que fossem; e como assim pela 
dita ordenação, como por direito comum, as superioridades das 
jurisdições são tão conjuntas e unidas à dignidade e principado 
real do reis, que dele não podem ser tiradas nem apartadas, nem 
desmembradas, nem alheadas, por nenhuma maneira, pronun- 
ciou, declarou e julgou que a dita superioridade de jurisdição era 
dei rei e lhe pertencia, e que el rei a não podia tirar de si, nem 
dar a nenhuma pessoa nem ordem. 

De tudo o que precede resulta, que o Livro I da Chancelaria 
de D. Fernando, (foi. j a cc), foi escrito por Fernam de Elvas, 
escrivão da Torre do Tombo; que a folha 201 do mesmo livro 
foi ajuntada depois do livro ter sido escrito e encadernado; que 
o registo da mencionada fôIha 201 foi feito por Gomes Eannes, 
clérigo, criado de Gomes Eannes de Zurara, guarda mór da 
Torre do Tombo; que a carta de doação, apresentada por parte 
da Ordem de Cristo, foi escrita por Rui Lopes, escrivão da Torre 
do Tombo, de um traslado escrito em papel, que lhe dera Gomes 
Eannes de Zurara; e que na Torre do Tombo não se encontrou 
nehuma carta nem registo de livro velho ou novo, que contivesse 
a escritura da carta de doação. Todavia os factos apontados 
não provam que a doação não tivesse sido feita por el rei 
D. Fernando, porque nem todas as cartas passavam pela chan- 



celaria; mas são graves argumentos contra a veracidade da doa- 
ção não ter sido apresentada pela Ordem de Cristo o original da 
carta de doação devidamente selada, mas somente um traslado; 
não ter sido encontrada na Torre do Tombo nenhuma carta ou 
registo da doação; e o facto que se observa, que sendo a carta 
de doação datada de 8 de março da era de 141 1 (iSyS J.C.), 
nela se diga que D. Frei Nuno Rodrigues, mestre da Ordem de 
Cristo, ainda servia a el rei D. Fernando, sabendo-se que ele 
era falecido em 1372. 

Factos análogos aos precedentemente narrados, não eram sem 
precedentes : Fernão Lopes conta na Crónica dei rei D. João /(i), 
que a 14 de outubro de 1 884 o mestre da Ordem de Avis mandou 
decepar de mãos e pés e enforcar um homem, chamado Joham 
do Porto, que fora escrivão da câmara dei rei D. Fernando, por 
cartas que falsara do mesmo rei sendo vivo, e também do mestre 
da Ordem de Avis, depois que foi regedor do reino (2). 

Carta de D. Pedro, mestre da Ordem de Avis e condestável 
de Portug-al. — D. Pedro era o segundo filho do infante D. Pedro 
e de sua mulher D. Isabel de Aragão, e nasceu no ano de 1429. 
Por carta de 7 de Janeiro de 1448, dada pelo infante D. Pedro, 
regente do reino, em nome dei rei D. Afonso V, foi feito condes- 
tável de Portugal, sucedendo a seu tio o infante D. João; e depois 
da morte do infante D. Fernando, sucedida a 5 de junho de 1448, 
D. Pedro foi nomeado mestre da Ordem de Avis. Em 1445 foi 
armado cavaleiro pelo infante D. Henrique, seu tio, em Coim- 
bra (3); e por ordem de seu pai, acompanhado de muitos senho- 



(1) Fernão Lopes, Crónica dei rei D. João I, parte primeira, ed. Braamcamp, 
cap. clv, p. agi. 

(2) Um facto análogo, sucedido no tempo dei Rei D. Duarte, é referido por Fr. Jo- 
seph Pereira de Sant'Anna na Crónica dos Carmelitas, parte m, cap. xxi, n." 1247. No 
termo de aprovação do testamento do Infante D. Fernando, escrito por Fernão Lopes 
em 18 de agosto de 1437, foi testemunha um certo Joham do Porto; mas certamente 
não era aquele que fora enforcado em 1384. 

(3) Gomes Eannes de Zurara, Crónica da conquista de Guiné, cap. li, p. 234 e 235. 



res com dois mil cavaleiros e quatro mil peões, foi em socorro de 
D. João II, rei de Castela, e com êle assistiu à batalha de Olmedo, 
e regressou depois a Portugal. Depois que el rei D. Afonso V 
tomou o governo do reino, por motivo das intrigas que se move- 
ram contra o infante D. Pedro, seu filho D. Pedro foi privado 
dos cargos de condestável de Portugal e de mestre da Ordem de 
Avis; e em seguida ao desastre de Alfarrobeira, que aconteceu 
em 20 de maio de 1449, D. Pedro passou a Castela, e somente 
regressou a Portugal, quando el rei D. Afonso V o chamou 
para a empreza da nova Cruzada. O cargo de mestre da Ordem 
de Aa'Ís foi-lhe restituído por carta de 3o de maio de 1457; e 
pouco a pouco lhe foram restituídas quási todas as terras, que 
tinham pertencido a seu pai o infante D. Pedro. Em 1468 acom- 
panhou el rei D. Afonso V na sua expedição a Africa (Barbaria), 
regressando também com êle para o reino. Em 1460 estava em 
Avis, onde era a sede da Ordem (i). Em 7 de novembro de 1463, 
partiu novamente para Africa em companhia dei rei D. Afonso V; 
e estando em Ceuta, foi chamado pelos Catalães, que o tinham 
escolhido para ser rei de Aragão, que lhe pertencia por herança 
por parte de sua mãe ; com aprazimento dei rei, partiu de Ceuta 
em duas galés, que os seus parciais lhe tinham enviado, e desem- 
barcou em Barcelona no mês de dezembro sendo aclamado rei. 
Na mesma cidade residiu desde 3i de janeiro de 1464 até 3o de 
junho de 1466, em que faleceu, segundo dizem uns de consump- 
ção, segundo outros de peçonha (2). 

Quando D. Pedro estava em Avis, na sede da Ordem, rece- 
beu uma carta de Gomes Eannes de Zurara, na qual este se ofe- 
recia para lhe comunicar as novas da corte do que fosse suce- 

(i) Doe. X. 

(2) Acerca de D. Pedro, mestre da Ordem de Avis e condestável de Portugal, ve- 
jam-se : Damião de Góes, Crónica do príncipe D. João, cap. xvii, ed. Guimarães, Coim- 
bra, 1905, p. 5i, 52, 54; D. António de Sousa, História Genealógica da Casa Real Por- 
tuguesa, tomo II, p. 84-88; Balaguer y Merino, D. Pedro el Condestable de Portugal, 
Génova, 1881 ; D. Carolina Michaelis de Vasconcellos, Uma obra inédita do Condes- 
tável D. Pedro de Portugal, na Homenaje a Menende:^ y Pelayo, tomo i, Madrid, 1899, 
p. 637-732 ; Oliveira Martins, Os filhos de D João I, Lisboa, 1901, n, p. 141 e segs. 



dendo; a esta caria respondeu D. Pedro com outra (i), que na 
cópia existente tem a data de 1 1 de junho de 1406; esta data está 
evidentemente errada, e parece que deve lêr-se 1460 (2). Nesta 
carta, que contêm muitas expressões afectuosas, D. Pedro diz 
aceitar a sua oferta de lhe escrever as novas da corte; e mos- 
tra-se reconhecido por não se ter esquecido dele no meio das ocu- 
pações do seu cargo e dos seus estudos. A carta mostra não só 
que Gomes Eannes de Zurara se correspondia com as principais 
pessoas da corte, mas também que o seu carácter era apreciado 
muito favoravelmente por elas. 

Traslado do foral de Moreira. — El rei D. Afonso Henriques 
deu carta de foro (foral) aos povoadores do concelho de Moreira ; 
não é conhecido o ano, em que foi dada; mas como na carta se 
omite o nome da rainha D. Mafalda, e é nomeado seu filho 
D. Sancho com o titulo rei, e se mencionam outros filhos, con- 
clue-se que a carta de foro foi dada depois de 11 58, em que a 
rainha faleceu, e antes de 1 185, em que morreu D. Afonso Hen- 
riques. O foro de Moreira é, como na carta se diz, igual ao de 
Salamanca. O foral desta cidade serviu de modelo aos forais 
de vários logares do reino de Portugal, sobre tudo da província 
(comarca) da Beira, tais como de Trancoso, Moreira, Marialva, 
Aguiar e Celorico. Sabe-se ainda pelos mais antigos documen- 
tos, que as constituições ou foros de Salamanca estavam em 
vigor nos territórios que constituíram a monarquia portuguesa, o 
que não é para estranhar em razão da proximidade do reino de 
Castela, do qual antes o reino de Portugal tinha feito parte, e 
da conformidade dos usos e costumes dos povos dos dois paizes. 
Contudo nas cartas de foro, dadas pelos primeiros reis de Portu- 
gal, nem sempre foi transcrito fielmente o foral de Salamanca, 
que tinha sido tomado para modelo; mas nelas se encontram 

(i) Doe. X. 

(3) Cf. Edgar Prestage, Tlie life andwritings of Azurara, p. xxxvii, nota i ; e carta 
particular do General Jacinto Inácio de Brito Rebelo, de i5 de setembro de 1894. 



vários privilégios e regras de direito público, que faltam na- 
quele (i). O foral de Moreira foi confirmado porei rei D. Afonso II, 
sua mulher a rainha D. Urraca, e seus filhos D. Sancho, D. A. (?) 
e D. Leonor, por carta dada em Coimbra na era de i255 (1271 
J. C). 

Em 1460 os moradores da terra de Moreira representaram a 
el rei D. Afonso V, que o foral que tinham, era escrito de tal 
modo e em tal latim, que o não podiam entender; e pediram que 
lhe mandasse dar um traslado do registo do seu tombo. El rei 
D. Afonso V, por alvará de 2 5 de outubro de 1460, mandou a 
Gomes Eannes de Zurara, comendador do Pinheiro Grande e da 
Granja do Ulmeiro, seu cronista, e guarda mór do seu tombo, 
que lhes desse traslado do mesmo foral. Em cumprimento desta 
ordem Gomes Eannes de Zurara procurou nas escrituras da 
Torre do Tombo, e encontrou o foral pedido. Gonçalo Afonso, 
procurador do concelho de Moreira, requereu que lhe desse tras- 
lado do foral, e que se declarasse que quantia se devia pagar 
pelas três mealhas, de que no mesmo foral se faz menção, que se 
deviam pagar de portagem por uma carga de pão ou de vinho. 
Gomes Eannes de Zurara deu o traslado do foral em forma de 
carta; e no fim dela diz que fez todas as diligências para saber a 
quantia que se devia pagar da moeda, que nesse tempo era cor- 
rente, pelas três mealhas mencionadas no foral, perguntando-o 
às pessoas da cidade de Lisboa, que entendia que o deviam 
saber; e que achou que as três mealhas da moeda antiga equiva- 
liam a nove oitavas de prata (2); mas acrescenta, que atendendo 
à ordenação do reino, e que o baixo valor da moeda da época 
presente não permitia tão grande equivalência; e por quanto o 
foral de Moreira era semelhante, quanto à portagem, ao de Pal- 
mela, no qual se estabelecia que a carga de pão ou de vinho, de 



( 1 ) A. Herculano, Portugaliae monumenta histórica, Leges et consuetudines, tomo i, 
p. 435-439. 

(2) Cf. Fernão Lopes, Crónica dei rei D. Fernando, cap. Iv, onde se diz : «as 
mealhas nom eram moeda cunhada por si, mas era um dinheiro partido por meio.» 



besta grande, pagasse de portagem nove (reais) pretos, e de 
besta pequena, metade; Gomes Eannes de Zurara, julga que os 
nove (reais) pretos são postos no foral de Palmela por equivalên- 
cia com as três mealhas da moeda antiga. A carta com o tras- 
lado do foral de Moreira é datada de Lisboa a 22 de outubro de 
1460, e foi escrita por Pêro Cinza, e concertada pelo próprio 
Gomes Eannes de Zurara, que assinou com o seu sinal costu- 
mado. Conforme no principio da carta se diz, o foral que o 
concelho de Moreira tinha, era escrito em latim, e como o tras- 
lado, transcrito na carta, é em português, é de presumir que a 
tradução do antigo foral tenha sido feita pelo próprio Gomes 
Eannes de Zurara, como guarda mór da Torre do Tombo (i). 

O texto latino do foral de Moreira existe no Livro dos Forais 
antigos que pertenceu ao mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, 
e foi transcrito na carta de confirmação dei rei D. Afonso II, 
registada no livro da chancelaria do mesmo rei também escrita 
em latim; e a sua tradução portuguesa é dada na carta de 22 de 
outubro de 1460 (Forais antigos, maço 7, n." 3). O texto latino, 
conforme o Livro dos Forais antigos, e a carta de confirmação 
dei rei D. Afonso II, e a tradução portuguesa do mesmo foral, 
foram publicados por A. Herculano (2). Esta tradução portu- 
guesa, que segundo A. Herculano foi feita no século xv, é a da 
carta de 22 de outubro de 1460, que acima conjecturamos ser 
feita pelo próprio Gomes Eannes de Zurara. 

Perfilhação e doação feita por Alaria Annes. — Por carta dada 
em Évora a 6 de fevereiro de 146 1 (3), el rei D. Afonso V confir- 
mou a perfilhação e doação, que Maria Annes fez a Gomes Ean- 
nes de Zurara de um logar que ela tinha em Ribatejo, onde cha- 
mavam o Valbom, e de umas casas em que ela morava, situadas 
na freguezia de S. Julião na cidade de Lisboa. Este documento é 

(i) Doe. XII. 

(2) Portugaliae monuinenta histórica, Leges et comuetudines, tomo i, p. 436-439» 

(3) Doe. XI. 



muito importante pelas notícias que contêm, relativas à familia 
de Gomes Eannes de Zurara, pois que é o único documento, 
atualmente conhecido, em que se encontra o nome e estado de 
seu pai. 

Na carta de confirmação declara-se que perante el rei fora 
apresentado um instrumento público, feito e assinado por Pêro 
Vaz, tabalião na cidade de Lisboa, no qual se continha, que 
Maria Annes, piliteira, moradora na mesma cidade, declarara, 
que considerando o grande amor e amizade, que Johanne Annes 
de Zurara, cónego que tinha sido da cidade de Évora e de Coim- 
bra, sempre tivera a sua mãe Maria Vicente, e também a ela e a 
seu marido Lopo Martins, com quem estivera casada, e as mui- 
tas e boas obras que ele recebera sendo seu compadre e amigo; 
e considerando ela como aprouvera a Deus de lhe não dar filho 
nem filha, nem nenhum outro herdeiro legítimo, que à hora da 
sua morte herdasse os seus bens; e por ser em tal idade, que os 
não podia haver, sendo sempre seu desejo de os ter; e conside- 
rando ainda ela o grande amor e amizade que ela tinha e sempre 
tivera com Gomes Eannes de Zurara, comendador do Pinheiro 
Grande, depois da morte do pai dele até então, e as muitas boas 
obras e avisos, que dele recebera para encaminhar seus negócios; 
tomava e recebia, por modo de adopção, o dito Gomes Eannes de 
Zurara por seu filho legítimo e universal herdeiro de todos seus 
bens, como se dela tivesse nascido naturalmente por legítimo 
matrimónio; e lhe fazia doação entre vivos, como a seu filho 
adoptivo, de um seu logar que ela Maria Annes possuía no Riba- 
tejo, no sitio denominado Valbom, com todas suas vinhas, casas, 
lagar e horta, e também de umas casas, em que ela morava, 
situadas na freguesia de S. Julião da cidade de Lisboa, reser- 
vando ela para si todo o uso e fruto do dito logar e casas, em 
vida dela somente e não mais. 

Este documento foi considerado por José Correia da Serra 
como um testemunho da ambição de riqueza de Gomes Eannes 
de Zurara, e pouco consentâneo com as ideias da nobreza da 



XLVII 

época em que viveu (i); mas os termos em que o documento está 
redigido fazem suspeitar antes, que a doadora Maria Annes, filha 
de Maria Vicente, era também filha do cónego Johanne Annes 
de Zurara, ou que este mantivera relações de íntima amizade 
com a mesma Maria Vicente; e que o cónego Johanne Annes de 
Zurara houvera de outra mulher, cujo nome não é conhecido, o 
filho Gomes Eannes de Zurara; e que por tanto este e Maria 
Annes ou eram verdadeiramente meios irmãos por seu pai, ou 
assim considerados; e que, como Maria Annes, depois da morte 
de seu marido, fora assistida e dirigida em seus negócios por 
Gomes Eannes de Zurara, ela em reconhecimento e gratidão dos 
benefícios, o fizera herdeiro de todos os seus bens adoptando-o 
como filho, que era um modo de doação muito usado naquela 
época (2). 

Traslado do foral de Alvar e^, terra do mosteiro de Folques. — 
No mês de setembro do ano de 1819 Martim Gonçalves e sua 
mulher Maria Viegas, deram carta de foro (foral) aos homens, que 
povoavam a sua herdade de Alvares, a qual foi confirmada por 
el rei D. Denís. Em 1462 os moradores de Alvares representa- 
ram a el rei D. Afonso V, que o mesma carta de foro era já tão 
velha e caduca em alguns logares, que lhe não queriam dar fé 
nem prestar autoridade; e pediram-lhe que lhe mandasse dar um 
traslado do seu tombo. El rei D. Afonso V, por alvará de 10 
de abril de 1462, mandou a Gomes Eannes de Zurara, comenda- 
dor do Pinheiro Grande, seu cronista, e guarda mór da Torre do 
Tombo, que lhes desse traslado do mesmo foral. Em cumpri- 
mento da mesma ordem Gomes Eannes de Zurara procurou no 
livro dos forais, e nele encontrou o registo do foral pedido; e a 
requerimento do procurador do concelho de Alvares lhe deu o 
traslado do foral em forma de carta, datada de Santarém a 24 

(i) José Correia da Serra, C. /. H. P., tomo 11, p. 210. 

(2) Deste parecer é também E. Prestage, Tlie life atid writings of Aptrara, p. xxxi 
a xxxiv. 



de abril de 1462 (i). No fim da carta Gomes Eannes de Zurara 
diz que êle próprio fez a carta e a concertou por si por não 
haver escrivão na Torre do Tombo; e em seguida assina com o 
seu sinal costumado. 

Este documento é muito importante, não só porque é o mais 
extenso, que se conhece, escrito por mão do próprio Gomes 
Eannes de Zurara, mas também porque mostra que certas parti- 
cularidades da escrita da cópia da Crónica da tomada de Cepta, 
contida no Códice n." 368 do Arquivo Nacional, e que é a mais 
antiga, são devidas ao seu autor, isto é, ao próprio Gomes Ean- 
nes de Zurara. 

Factos do ano de 1463. — Em 14 de junho de 1463 Gomes 
Eannes de Zurara deu um traslado de documentos existentes na 
Torre do Tombo, relativos a certas terras pertencentes a D. Pe- 
dro de Castro. O original deste traslado, assinado por Gomes 
Eannes de Zurara pertenceu a Eça de Queirós, cuja mulher se 
dizia descendente do mesmo D. Pedro de Castro (2). 

Neste mesmo ano Gomes Eannes de Zurara alcançou dei rei 
D. Afonso V a concessão de duas mercês para um seu criado 
Pêro de Almada, filho de Álvaro Fernandes. Por carta dada em 
Lisboa a 22 de junho de 1463 (3), o dito Pêro de Almada foi no- 
meado juiz das sisas da vila de Almada, em substituição de seu 
pai, que tinha renunciado o mesmo oficio; e por carta de 23 
de junho de 1463 (4), o mencionado Pêro de Almada foi nomeado 
alcaide e meirinho dos ourivezeiros da Adiça, em substituição 
de seu pai, que falecera, pagando a el rei de foro e tributo, 
em cada ano, duas coroas de ouro velhas. No século xv 
dava-se o nome de ourivezeiros ao trabalhadores empregados na 
exploração de minas de ouro; e Adiça era uma mina de ouro 

(i) Doe. XIII. 

(2) E. Prestage, The life and writings of Azurara, p. xxxiv. 

(3) Doe. XIV. 

(4) Doe. XV. 



situada perto da vila de Almada, explorada no século xv, e depois 
até ao fim do século xviii (i). 

Crónica do conde D. Pedro de Meneies. — El rei D. Afonso V 
encomendou muitas vezes a Gomes Eannes de Zurara, que pro- 
curasse informar-se, e escrevesse os feitos, que por defensão da fé 
cristã e honra de Portugal obraram em Ceuta o conde D. Pedro 
de Menezes e os outros varões, que ali tão virtuosamente traba- 
lharam. A esta ordem dei rei juntou-se o requerimento de 
D. Leonor de Menezes, filha do mesmo conde, senhora muito 
virtuosa e de grande saber, que foi casada com D. Fernando, 
bisneto dei rei D. João I (2). Gomes Eannes de Zurara, em cum^ 
primento da ordem dei rei D. Afonso V, compôs a Crónica do 
conde D. Pedro de Meneses, na qual se referem os sucessos das 
guerras que os Mouros moveram para recuperar a cidade de 
Ceuta, no tempo que o conde D. Pedro de Menezes foi capitão 
da mesma cidade, isto é, desde a tomada de Ceuta em 141 5 até 
ao ano de 1437; ela é, como se diz no título, a continuação da 
Crónica da tomada de Cepta, escrita pelo mesmo Gomes Eannes 
de Zurara. 

Gomes Eannes de Zurara compôs (ajuntou e escreveu) a Cró- 
nica do conde D. Pedro de Meneses aproveitando não só as lem- 
branças daquelas pessoas, que serviram em Ceuta no tempo em 
que o mesmo conde foi capitão da cidade, e que lhas comunica- 
ram verbalmente; mas também as memórias, que antes tinham 
sido escritas, dos feitos notáveis que os Portugueses obraram em 
defensão da mesma cidade durante aquele tempo (3). 

Uma das memórias escritas, de que Gomes Eannes de Zurara 
se aproveitou para compor a Crónica do conde D. Pedro de Me- 
neses, foi a Crónica da tomada de Cepta escrita antes por êle 

(i) Sousa Viterbo, Gomes Eannes d' Azurara, na Revista portuguesa colonial e 
marítima, vol. iii, Lisboa, 1898, p. 818. 

(2) Crónica do conde D. Pedro de Meneses., parte i, cap. i. 

(3) Ibidem, C. I. H. P., tomo 11, p. 280, 3o8, 340, 422, 473, 476, 493, 523, 535, 536 
€56i. 



mesmo; alguns capítulos do começo da Crónica do conde D. Pe- 
dro de Aleneies, foram tomados de outros da Crónica da tomada 
de Cepta, transcrevendo-os uns verbalmente no todo ou em 
parte, outros dando-lhes nova redação com acrescentamento de 
notícias ou de simples desenvolvimentos retóricos (i). 

Gomes Eannes de Zurara começou a compor a Crónica do 
conde de D. Pedro de Meneies pelos anos de 1458, e concluiu-a 
na sua comenda do Pinheiro Grande, que é a par de Santarém, na 
véspera de S. João Batista, 2 3 de junho de 1463 (2). 

Procurador do jnosteiro e convento de Almoster. — Gomes 
Eannes de Zurara exerceu o cargo de procurador do mosteiro e 
convento de S. Maria de Almoster, da Ordem de S. Bernardo, 
fundado por D. Berengaria no reinado dei rei D. Denís. A pro- 
curação foi passada pela abadessa D. Isabel de Andrade, e pelas 
donas e convento do mesmo mosteiro ; e foi feita e assinada por 
Diego de Figueiredo, notário geral, no alpendre do mesmo mos- 
teiro, em 27 de dezembro de 1466, sendo testemunhas Frei Joham 
de Alemquer, monge do mosteiro de Alcobaça e capelão do dito 
convento, Pêro de Sousa, escudeiro do infante D. Fernando, já 
então falecido, e morador em Santarém, e João Lourenço, escu- 
deiro de Pêro de Saa. Pela procuração a abadessa e donas e 
convento do mosteiro de Almoster deram a Gomes Eannes de 
Zurara poderes bastantes para tirar quaisquer prasos ou afora- 
mentos ou arrendamentos de bens do mosteiro a quaisquer pes- 
soas que os tivessem e não pagassem os foros, pensões ou ren- 
das, a que eram obrigadas; e a emprazar de novo, aforar ou 
arrendar os ditos bens às pessoas e pelos preços que êle julgasse 

(i) Comparem-se os seguintes capítulos: 

Crónica Crónica 

do conde D. Pedro de Meneses : da tomada de Cepta : 

IV, V, %a xcjx, c 

VII e vni Cl 

xm Lxxxix. 

(2) Crónica do conde D. Pedro de Menejes, parte ii, cap. xl, C. I. H. f., p. 626. 



que era bem e proveito do dito mosteiro. Em seguida à procu- 
ração era escrita a carta de confirmação da mesma procuração, 
dada por D. Frei Nicolau, abade do mosteiro de Alcobaça e 
esmoler dei rei, e por autoridade apostólica padre abade visita- 
dor e reformador de todos os mosteiros da mesma ordem em 
Portugal. A carta de confirmação era assinada pelo mencionado 
abade D. Frei Nicolau, e selada do seu selo (i). 

Traslado do foral de A^er. — A petição dos moradores de 
Azer, Gomes Eannes de Zurara passou em 27 de julho de 1467 
uma certidão do foral de Azer (2). 

Administração de uma capela instituída na igreja de S. Maria 
Madalena da cidade de Lisboa. — Pelos anos de iSgo, pouco mais 
ou menos, faleceu um certo Gonçalo Esteves, natural de Cintra, 
o qual antes da sua morte tinha edificado uma capela sob a 
invocação de S. Clara, dentro da igreja de S. Maria Madalena, 
situada na cidade de Lisboa, na qual se mandava sepultar; e em 
seu testamento legou os seus bens à mesma capela, para que 
nela se cantassem perpetuamente certas missas. Durante os 
primeiros vinte anos parece ter sido cumprida a vontade do ins- 
tituidor da capela; mas depois os herdeiros e detentores dos 
mesmos bens deixaram de mandar cantar as missas, a que eram 
obrigados pela instituição da capela, apesar das solicitações dos 
priores e beneficiados da igreja de S. Maria Madalena, e de 
serem demandados em juízo, e ter havido contra eles sentenças, 
morrendo a maior parte deles excomungados por não darem 
cumprimento ao legado. Pelos anos de 1467 os bens da men- 
cionada capela estavam em posse de um certo Nuno Martins, 
morador em Cintra, que os houve por sua mulher Margarida 
Annes, que em linha direita descendia do mencionado Gonçalo 
Esteves, e de outros seus filhos com quem ela os tinha partido, 

(i) Cf. Doe. XIX e XXI. 

(2) Arquivo Nacional, gaveta 8, maço i, n." 17. 



o que não podia fazer por serem vinculados à mencionada ca- 
pela. El rei D. Afonso V, por carta dada em Santarém a 28 de 
julho de 1467(1), declarou que em virtude do disposto na orde- 
nação do reino, os bens da mencionada capela pertenciam a êle 
próprio, isto é, declarou a capela como vaga para a coroa real, 
podendo dar os bens da capela a quem houvesse por bem com 
o encargo de cantarem as missas estabelecidas; e por isso fez 
mercê a Gomes Eannes de Zurara, cavaleiro de sua casa, comen- 
dador da Ordem de Cristo, seu cronista, e guarda mór da Torre 
do Tombo, dos bens da dita capela com o encargo de fazer can- 
tar as missas estabelecidas, e de cumprir tudo o que tinha sido 
instituído no testamento do mencionado Gonçalo Esteves. 

José Correia da Serra observa que esta mercê de uma capela, 
que vagara para a coroa real, era muito assinalada para o tempo 
em que foi feita, porque naquela época era pouco comum este 
género de bens, isto é, a instituição de capelas, como foi nos 
séculos seguintes (2). 

Viagem a Alcácer Cegiier. — No ano de 1463, el rei D. Afonso V 
empreendeu uma segunda expedição contra os Mouros de Africa 
(Barbaria), partindo de Lisboa a 7 de novembro do mesmo ano. 
Damião de Góes, na Crónica do principe D. João (cap. xvii) refere 
os sucessos desta jornada pelas seguintes palavras : «No anno de 
M cccc Ixiii passou el Rei em Africa no mez de dezembro com 
tençam de tomar Tanger ahos mouros, ha qual empresa lhe 
sucedeo aho contrairo do que cuidaua, porque perdeo muita gente 
na viagem, por respeito da áspera tormenta que passou no mar, 
e assi polo combate que se deu ha cidade ahos vinte dias de 
janeiro de M cccclxiiij, e em húa entrada que elle mesmo fez polo 
seriam atee ha serra de Benacofu, onde hos Mouros mataram ho 
conde de Viana D. Duarte de Menezes, capitam e gouernador de 
Alcácer Ceguer.» Depois do cerco de Tanger el rei D. Afonso V 

(i) Doe. XVI. 

{2) José Correia da Serra, C. I. H. P., tomo 11, p. 209. 



passou a Ceuta, e dali a Gibraltar, onde se encontrou com D. Hen- 
rique, rei de Castella, e em seguida regressou ao reino, tendo 
passado em Évora a páscoa de 1464(1). 

Mas já antes destes sucessos, dous ou três anos, el rei 
D. Afonso V, estando em Aveiro, tinha escrito uma carta a Gomes 
Eannes de Zurara, seu cronista e guarda mór da Torre do Tombo, 
em que lhe ordenava, que deixando todas as outras ocupações 
do seu cargo, escrevesse a crónica dos feitos de D. Duarte de 
Menezes, capitão de Alcácer Ceguer (2). D. Duarte de Menezes era 
filho natural de D. Pedro de Menezes, conde de Viana e primeiro 
capitão de Ceuta; havia sido nomeado capitão de Alcácer Ceguer 
por carta de 16 de janeiro de 1459; pelos seus longos e leais ser- 
viços foi feito conde de Viana de Caminha por carta de 6 de julho de 
1450; e morreu em fevereiro de 1464 para salvar a vida dei rei 
D. Afonso V na entrada que fez até à serra de Benacofu (3). 

Gomes Eannes de Zurara julgou que para bem cumprir a 
ordem dei rei, de escrever os feitos de D. Duarte de Menezes, 
devia passar a Africa; as razões que o demoviam a esta jornada 
expõe êle mesmo na Crónica do conde D. Duarte de Meneses (cap. 11) 
pelas seguintes palavras (4) : «E porque segundo [diz] o philoso- 
pho, nunqua o conhecimento da cousa he tão fortemente conhe- 
cido per sua semelhança como per si mesma; entendi que me 
convinha passar em aquelas partes de Africa por duas rezões : húa 
porque naquela vila dAlcacer eram moradores, assy os adays, e 
almocadens, e escuitas, e outra gente do campo, que torom os 
principais meos per que se as cousas ordenaram e fizerom, 
sem cuja ordedura se minha estória nom podia ordenar nem ter, 
como outra gente que tinha vida ordenada naquela frontaria, os 
quaes como continuadamente andavam naquelle oficio seriam em 

(i) Damião de Góes, Crónica do príncipe D. João, cap. xvii, ed. Guimarães, Coim- 
bra, igoS, p. 52 a 56. 

(2) Gomes Eannes de Zurara, Crónica do conde D. Duarte de Meneses, cap. i, 
C 1. H. P., tomo III, Lisboa, 1793, p. 7. 

(3) Ibidem, cap. i. 

(4) Ibidem, cap. 11, C. 1. H. P., tomo iii, p. 10 e 11. 



melhor lembrança dos feitos, que os cortezãos, cujo sentido como 
som no regno, ha mais dentender a outras partes; e a outra por- 
que me pareceo que me convinha haver bom conhecimento per 
vista de todas aquellas comarcas, per que as nossas gentes anda- 
ram pellejando com seus imigos, pêra saber como eram assenta- 
das, e o modo que os Mouros tinham em pellejar; e isso mesmo a 
maneira per que os nossos entravam antre elles, e como haviam 
suas pellejas, e a audácia que os contrairos tinham em se defen- 
der.» Por estas razões Gomes Eannes de Zurara solicitou dei 
rei licença para visitar Alcácer Ceguer; mas el rei deferiu por 
muito tempo a licença, e não lha concedeu senão depois de ser 
muito instado. O mesmo Gomes Eannes de Zurara refere assim 
a sua viagem (i): «E no anno do nascimento de Christo de mil 
cccc Ixvij no octavo mes daqueste anno passei naquestas partes 
dAfrica, onde estive tanto tempo atee que o sol passou húa vez 
todolos signos do Zodiaco.» Desta passagem resulta que Gomes 
Eannes de Zurara partiu de Lisboa para Alcácer Ceguer em 
agosto de 1467, e que ali se demorou até julho ou agosto de 
1468. Damião de Góes (2) refere-se assim a esta viagem de Go- 
mes Eannes de Zurara : «No anno de M cccc Ixvij ... [el rei 
D. Afonso V] mandou no mes dagosto a Alcácer Ceguer Gomes 
Eannes de Zurara pêra se lá informar dos feitos e proezas do 
conde D. Duarte, e lhe fazer sua crónica, como fez, onde esteue 
hum anno, e ha crónica veo acabar aho regno.» 

Carta dei rei D. Afonso V. — Durante o tempo que Gomes 
Eannes de Zurara assistia em Alcácer Ceguer, el rei D. Afonso V 
escreveu-lhe uma carta de sua mão, datada de 21 de novembro 
sem indicação do ano, em resposta de outra que Gomes Eannes 
de Zurara lhe havia escrito (3). Esta carta é uma prova bem ma- 

(i) Gomes Eannes de Zurara, Crónica do conde D. Duarte de Meneses, cap. 11, 
C. I. H. P., tomo III, p. 1 1. 

(2) Crónica do príncipe D. João, cap. xvii, ed. Guimarães, p. 58. 

(3) Doe. XVII. 



nifesta da superior cultura intelectual dei rei D. Afonso V, e bem 
assim da grande estima em que o mesmo rei tinha os letra- 
dos (i). Esta carta, da qual somente existem cópias em alguns 
manuscritos dos séculos xvi e xvii (2), é sem dúvida autêntica ; 
Damião de Góes, na Crónica cio príncipe D. João, (cap. vj), certa- 
mente alude a ela na seguinte passagem (3) : «E deste tempo por 
diante se pode crer que continuasse Gomes Eannes, porque viueo 
muitos annos depois dei rei dom Afonso V ter tomado ahos mou- 
ros ha villa dAlcacer, onde ho mesmo rei ho mandou pêra ahi 
screuer os feitos que este conde de Viana dom Eduarte de Me- 
nezes e hos de sua companhia faziam em Africa, e lhe screuia 
cartas de sua própria mão, assaz bem scriptas e copiosas por 
serem de rei, fauor mui notauel, e pêra hos que tem cargo des- 
creuer tomarem cuidado de ho fazerem como a feitos de tam 
humanos e sclarecidos reis convém.» 

João de Barros, é ainda mais explícito; diz assim (4): «E assi 
[el rei D. Afonso V] mandou Gomes Eannes de Zurara seu cro- 
nista mór à villa dAlcacer Ceguer em Africa, pêra que com fee 
de vista podesse escreuer os feitos daquella guerra; ao qual 
escreueo húa carta de sua própria mão em louuor do traba- 
lho que la tinha, por razão da obra que fazia : e isto não com 
palavras taxadas e avaras segundo o uso dos príncipes, mas 
em modo eloquente e de pródigo orador, como quem se presava 
disso.» 

(i) «Suas palavras (dei rei D. Afonso V) no que queria dizer eram sempre bem 
ordenadas e entoadas com muy gracioso orgam, e per pena de seu natural escrevia assy 
bem, como se per longo ensyno e exercício de oratória artificialmente o aprendera; foy 
amador de justiça e de ciência, e honrou muyto os que a sabiam.» {Ruy de Pina, 
Crónica dei rei D. Afonso V, cap. ccxiii, C. I. H. P., Lisboa, 1790, tom. i, p. 608). 

(2) Além da cópia mencionada no fim do documento xvii, uma cópia da mesma 
carta está no princípio do manuscrito da Crónica do conde D. Duarte de Meneses, que 
pertenceu à Biblioteca do Paço das Necessidades (atualmente está na Inspecção geral 
dos arquivos e bibliotecas eruditas), e que fez imprimir José Correia da Serra {C. I. 
H. P., tomo III, p. 3 a 5); e outra copia do século xvii está a página 276 do volume da 
Colecção da Graça, atualmente na livraria do Arquivo Nacional, caixa 19. 

(3) Crónica do príncipe D. João, cap vi, ed. Guimarães, p. 12 e i3. 

(4) Décadas da Ásia, Dec. i, liv. 11, cap. 11. 



Alexandre Herculano diz da mesma carta (i) : «Este docu- 
mento prova quam bella era a alma daquelle monarca, a quem 
podemos seu receio chamar o ultimo rei cavalleiro; e cuja hon- 
rada memoria teem pretendido escurecer aquelles que só em seu 
filho encontram um grande homem. Vê-se nesta, carta que 
D. Aífonso V entendia que uma penna vale bem um sceptro, e o 
engenho um throno. De irmão para irmão não houvera mais 
afável e afectuosa linguagem, e mais generosas animações e 
mercês.» 

Das passagens precedentemente citadas, uma do próprio 
Gomes Eannes de Zurara e outra de Damião de Góes, resulta 
que aquele partiu para Africa em agosto de 1467, e que ali se 
demorou, assistindo em Alcácer Ceguer, durante um ano com- 
pleto, isto é, até Agosto de 1468; e como a carta dei rei 
D. Afonso V tem a data de 2 1 de novembro, e foi escrita em 
quanto Gomes Eannes de Zurara estava em Alcácer Ceguer, 
segue-se que a mesma carta é do ano de 1467. 

A D. Duarte de Menezes sucedeu no governo de Alcácer Ce- 
guer seu filho D. Henrique de Menezes, 4.° conde de Viana, e 
i.° conde de Valença, sendo nomeado capitão de Alcácer Ceguer 
por carta de i3 de março de 1464; é este D. Henrique de Me- 
nezes o conde, a que se refere a carta dei rei D. Afonso V. O 
mesmo D. Henrique de Menezes foi depois nomeado capitão de 
Arzila por carta de 27 de agosto de 1471 ; e el rei D. Afonso V 
lhe deu o título de conde de Loulé; faleceu em Africa, sendo 
capitão de Arzila, pouco antes de 17 de fevereiro de 1480. 

Crónica do conde D. Duarte de Meneies. — Esta crónica é ao 
mesmo tempo a vida do conde D. Duarte de Menezes e a histo- 
ria dos sucessos das guerras com os Mouros, desde a conquista 
de Alcácer Ceguer, em 1458, até ao ano de 1464. Foi composta, 
como já se disse, por ordem dei rei D. Afonso V, e começada 

(i) A. Herculano, Gomes Eannes d' Azurara, em o Panorama, vol. iii, p. 25o-i5i. 



antes de 1462 (i), e escrita pela maior parte em Alcácer Ceguer 
sob as vistas do conde D. Henrique de Menezes, filho de 
D. Duarte de Menezes, com as noticias e lembranças, que alcan- 
çou dele e dos portugueses que residiam em Alcácer Ceguer e 
dos Mouros moradores da mesma vila : e foi concluída depois 
que Gomes Eannes de Zurara regressou ao reino em 1468. 

D. Duarte de Menezes, antes de ser nomeado capitão de Ar- 
zila em 1458, tinha servido em Ceuta, primeiramente sob as 
ordens do conde D. Pedro de Menezes, seu pai, e depois em seu 
logar como capitão da cidade desde i43i, em que o conde 
D. Pedro de Menezes veiu para Portugal, até agosto de 1487, em 
que regressou a Ceuta. Os feitos, que D. Duarte de Menezes 
obrou em defensão da cidade de Ceuta, são contados na segunda 
parte da Crónica do conde D. Pedro de Meneies^ escrita por Go- 
mes Eannes de Zurara; e quando este compoz a Crónica do 
conde D. Duarte de Mene\es transcreveu verbalmente para esta 
crónica a parte daquela, que dizia respeito ao mesmo D. Duarte 
de Menezes (2). 

Traslado do foral de Gralhas. — El rei D. Dinis deu foral à 
aldeia de Gralhas, do termo de Montalegre, por carta datada de 
Lisboa, a 20 dias de setembro da era de 1348 (i3io J. C). Em 
maio de 1468 os moradores da mesma aldeia representaram a 
el rei D. Afonso V, que os ratos tinham roído a maior parte da 
carta do seu foral, de modo que se não podia lêr, e pediram que 
do seu tombo lhe mandasse dar um traslado. El rei D. Afonso V, 
por alvará de 21 de maio de 1468, mandou que Gomes Eannes 
de Zurara, comendador da Ordem de Cristo, seu cronista, e 

(i) Ataa este presente anno. (Crónica do conde D. Duarte de Meneses, cap. cxxi,. 
C. /. H. P., p. 294). 

(2) Este facto singular foi já notado por Ernesto do Canto no artigo, Bre\'es refle- 
xões sobre as Crónicas do conde D. Pedro de Meneses e de seu filho D. Duarte de 
Meneses capitães de Ceuta, por Gomes Eannes d'A:^urara, publicado no Boletim de 
bibliografia Portuguesa, sob a direcção de Anibal Fernandes Toma^, Coimbra, 1879, 
p. 40-51. 



guarda-mór do seu tombo, lhes desse o traslado do foral por 
carta assinada por êle e com o selo dei rei. Em cumprimento 
desta ordem Fernam de Elvas, escrivão da Torre do Tombo, fez 
a carta com o traslado do foral de Gralhas, que é datada de 25 
de maio de 1468; nela se declara que, por quanto Gomes Eannes 
de Zurara estava em Alcácer Ceguer por mandado e em serviço 
dei rei, assinou por êle a mesma carta Martim Alvarez contador 
dos contos da cidade de Lisboa, que para isso tinha licença e 
ordem dei rei por um alvará, que o mesmo escrivão certifica ter 
visto, lido e julgado bastante para isso (i). 

Emprazamento de umas casas do convento de Almoster. — Em 
21 de janeiro de 1471, Gomes Eannes de Zurara outorgou, como 
procurador do convento de Almoster, no instrumento de empra- 
zamento em três vidas, feito ao Dr. João Teixeira, do desem- 
bargo e petições dei rei, de umas casas que o mesmo convento 
possuía na vila de Santarém, na freguezia de S. Julião, devendo 
pagar 200 reais de foro e pensão pelo dia de Natal. O instru- 
mento de emprazamento foi escrito em Santarém, nas mencio- 
nadas casas, por Fernam de Torres, escudeiro dei Rei e notário 
geral (2). 

Traslado do foral de S. João de Rey. — A petição dos mora- 
dores de S. João de Rey, Gomes Eannes de Zurara passou, em 
20 de abril de 1471, uma certidão do foral da mesma vila. (Ar- 
quivo Nacional, Forais antigos, maço 1.°, n.° 11). 

Emprazamento de um olival do Convento de Almoster. — Em 22 
de fevereiro de 1472, Gomes Eannes de Zurara outorgou, como 
procurador do convento de Almoster no instrumento da renun- 
ciação feita por João Afonso, sapateiro, morador na vila de San- 
tarém, do emprazamento de um olival, situado no logar onde 

(i) Doe. XVIII. 
(2) Doe. XIX. 



chamam as Manteigas, do termo da mesma vila, e pertencente 
ao dito mosteiro e em favor dele ; e de emprazamento do mesmo 
olival, em vida de três pessoas a Diego Afonso, carpinteiro mo- 
rador na dita vila, com a condição de pagar ao mosteiro, de 
foro e pensão, duzentos reais brancos, em cada ano pelo Natal. 
O instrumento foi escrito em Santarém na pousada de Gomes 
Eannes de Zurara, que era junto da Gafaria, por Martim Alva- 
rez, criado e contador dei rei e seu notário público (i). 

Traslado do foral de Cintra. — A 5 de setembro de 1472, Go- 
mes Eannes de Zurara, passou como guarda-mór da Torre do 
Tombo, um traslado do foral do concelho de Cintra, a petição 
dos moradores de Cascais, pertencente ao mesmo concelho. (Ar- 
quivo Nacional, Forais antigos, maço i.", n." 1 1) (2). 

Traslado de privilégios da Ordem de Cristo. — A 5 de dezem- 
bro de 1472, Gomes Eannes de Zurara passou, como guarda-mór 
da Torre do Tombo, o traslado de alguns documentos relativos 
aos privilégios da Ordem de Cristo e ao couto do Gordam. (Ar- 
quivo Nacional, armário 17, maço 6, n." 5). 

Traslado de carta de certos privilégios da Ordem de Cristo. — 
A 17 de agosto de 1478, Gomes Eannes de Zurara passou, como 
guarda-mór da Torre do Tombo, o traslado da carta dos privi- 
légios concedidos, por el rei D. Fernando à Ordem de Cristo (3), 
do qual atrás se deu notícia. 

Emprazamento de um logar situado junto do rêgo de Alvalade. 
— Em 19 de dezembro de 1478, Gomes Eannes de Zurara outor- 
gou, como procurador do convento de Almoster, no instrumento 

(i) Doe. XX. 

(2) Veja-se Damião de Góes, Crónica dei rei D. Manuel, quarta parte, cap. xxxviii. 

(3) João Pedro Ribeiro, Memórias autênticas para a história do Real Arquivo da 
Torre do Tombo, Lisboa, 1819, p. 21. 



de emprazamento, em vida de três pessoas, a Inês Gonçalves, 
mulher que foi de Rodrigo Eanes Avangelho, morador na cidade 
de Lisboa, de um logar que o convento de Almoster possuía no 
rêgo de Alvalade, Junto da quinta da capela do Bispo D. Gil 
Alma, no termo da mesma cidade, que se compunha de uma vi- 
nha com suas oliveiras e árvores de fruto, e suas casas e lagar, 
com a condição de pagar ao convento, de foro e pensão, trezen- 
tos reais brancos e um par de frangãos, em cada ano pela Pás- 
coa da Resurreição. O instrumento foi escrito em Lisboa, no 
paço dos tabeliães, por Álvaro Afonso, tabelião geral dei rei (i). 

Procurador do convento de Ahnoster na comarca da Estrema- 
dura. — A 2 de abril de 1474, o mosteiro e convento de Santa 
Maria de Almoster, representado por D. Isabel de Andrade, aba- 
dessa, Inês dAfonseca, prioreza, Branca Rodrigues, sub-prioreza 
Maria Carvalhaes, celeireira, Brás Afonso, samchristão, e Isabel 
Dornelas, Beatriz Velha, Catalina Gil e Inez dAfonseca, consti- 
tuíram seu bastante procurador a Gonçalo Pires, criado qiae foi 
de Gomes Eannes de Zurara, comendador da comenda do Pi- 
nheiro Grande, e que Deus haja, para aforar e emprazar os bens 
que o mesmo mosteiro possuía fora da comarca da Estremadura, 
e receber as rendas, foros, pensões e dívidas do mesmo mosteiro; 
era pois já falecido naquela data Gomes Eannes de Zurara (2). 

Falecimento. — Resulta dos dois documentos precedentemente 
citados, que tem respectivamente a data de 19 de dezembro de 
1473 e 2 de abril de 1474, que Gomes Eannes de Zurara faleceu 
no intervalo de tempo decorrido entre as mesmas datas; mas não 
é conhecido o dia certo do seu falecimento, a localidade em que 
faleceu, e o logar em que foi sepultado. 

Dos antigos escritores somente Damião de Góes informa, que 



(1) Doe. XXI. 

(2) Doe. XXII. 



Gomes Eannes de Zurara viveu alguns annos depois de 1472, o 
que é confirmado pelos documentos precedentemente citados. 

Retrato de Gomes Eannes de Zurara. — No painel do altar de 
S. Vicente, atribuído a Nuno Gonçalves, do terceiro quartel do 
século XV, e que é denominado Painel do Arcebispo, atualmente 
depositado no Muzeu de arte antiga, está pintada, junto do ân- 
gulo superior esquerdo, uma figura, que José de Figueiredo, 
no seu livro O Pintor Nuno Gonçalves, julga ser o retrato de 
Gomes Eannes de Zurara, cronista e guarda-mór da Torre do 
Tombo (i). A figura representa um homem de sessenta anos, de 
corpo grosso, de rosto rugoso e sem barba, com um sinal, que 
parece cicatriz, na pálpebra superior do olho direito; é vestido de 
uma vestimenta escura abotoada até ao pescoço; a cabeça está 
coberta com um barrete preto, alto e de forma cilíndrica; e na 
mão esquerda tem um livro volumoso, encadernado e com fechos 
de metal. 

Aires de Sá, no artigo intitulado Frei Gonçalo Velho, publicado 
no tomo XXX da Revue Hispanique {2), considera a mesma figura 
como sendo o retrato do Frei Gonçalo Velho, comendador da Or- 
dem de Cristo. Para confirmar esta identificação, Aires de Sá cita 
uma passagem das Saudades da Terra, por Gaspar Frutuoso, na 
qual se conta que Frei Gonçalo Velho, estando em uma pousada 
lendo o Hvro de Horas, foi agredido com um virotão, sendo salvo 
pelo livro; e uma passagem da Crónica do conde D. Pedro de Me- 
neses (parte u, cap. ix), em que se refere que o mesmo Frei Gon- 
çalo Velho «recebeu uma ferida por acerca do olho, porque lhe ao 
deante conveiu perder gram parte da vista.» A esta identifica- 
ção, porém, não se inclina Afonso Lopes Vieira, na sua conferên- 
cia sobre Apoesia dos painéis de S. Vicente, considerando a mesma 

(i) José de Figueiredo, O Pintor Nuno Gonçalves, Lisboa, 1910, p. 63 a 65, e foto- 
tipía em frente da página 164. 

(2) Aires de Sá, Frey Gonçalo Velho, comentário, e.\trato da Revue hispanique. 
Paris, 191 4, p. 45 a 49. 



ligura como sendo o retrato de Gomes Eannes de Zurara. Deve 
ainda observar-se que o retrato de Frei Gonçalo Velho, comenda- 
dor da Ordem de Cristo, teria de preferência o seu logar no painel 
denominado dos Cavaleiros, do que no painel do Arcebispo (i). 

A identificação, proposta por Aires de Sá, também não foi 
aceite por José de Figueiredo, que diz que o sinal, que se observa 
na pálpebra superior do olho direito da mencionada figura, é 
resultado dos desastres sofridos pelo painel, e não um pormenor 
propositado do pintor; e que a identificação proposta por Aires 
de Sá está em oposição com o espírito iconográfico revelado na 
obra de Nuno Gonçalves e com regras especiais da época (2). 

D. Francisco Manuel de Melo nos Apólogos dialogais, refe- 
rindo-se a Gomes Eannes de Zurara, diz (3): «chronista antigo, 
tão cândido de penna como de barba». Não sabemos se este 
caracter físico, que D. Francisco Manuel de Melo atribue a Gomes 
Eannes de Zurara, é fundado na observação de algum retrato 
deste, ou em alguma notícia escrita ou tradição oral; ou se aquela 
frase é apenas uma figura de retórica, aludindo à singeleza de 
estilo das obras de Gomes Eannes de Zurara, e á circunstância 
deste ser um dos mais antigos cronistas dos reis de Portugal. 

Descendência. — Os cavaleiros e comendadores da Ordem de 
Cristo professavam o voto da castidade, que impedia ou anu- 
lava o casamento, o que primitivamente era rigorosamente obser- 
vado (4); mas depois, por dispensação da Papa Alexandre VI, os 
cavaleiros e comendadores podiam casar, e professavam a casti- 
dade conjugal (5). Não consta que Gomes Eannes de Zurara 

(i) Acta da sessão da Comissão dos Centenários da tomada de Ceuta e da morte 
de Afonso de Albuquerque, de 18 de janeiro de igiS. 

(2) Acta da sessão da 2.* Classe da Academia das Sciências de Lisboa, de 9 de de- 
zembro de 1915. 

(3) D. Francisco Manuel de Melo, Apólogos dialogais, Lisboa, 1721, p. 455. 

(4) Definições e estatutos dos cavaleiros e freires da Ordem de N. S. Jesu Cristo, 
Lisboa, 1628, p. 70. 

(5) Rui de Pina, Crónica dei rei D. Duarte, cap. viii, ed. A. Coelho de Magalhães, 
Porto, 1914, p. io3. 



fosse casado; mas deixou um filho e duas filhas de ínez Gon- 
çalves, os quais depois da morte de seu pai alcançaram a sua 
legitimação por cartas dei rei D. João II. Os filhos de Gomes 
Eannes de Zurara foram : 

1 . Catarina da Silveira, donzela da condessa de Loulé, legiti- 
mada por carta dada em Évora, a 22 de junho de 1482 (i); 

2. Gonçalo Gomes de Zurara, escudeiro da casa dei rei 
D. João II, legitimado por carta dada em Torres Novas, a 8 de 
abril de 1483 (2). 

3. Felipa Gomes, legitimada por carta dada em Torres No- 
vas, a 8 de abril de 1483 (3). 

Catarina da Silveira, pela sua carta de legitimação, não só 
podia haver todas as honras e privilégios, que de facto e de di- 
reito lhe pertencessem, como se fosse nascida de legítimo matri- 
mónio, mas também podia haver e herdar os bens de sua mãe e 
de outras pessoas, que lh'os dessem ou deixassem por testamento 
ou doações, e ainda podia suceder em morgados e quaisquer 
outras heranças e direitos, que lhe fossem doados ou deixados; e 
enfim era-lhe concedida a nobreza e o privilégio, que por direito 
e ordenação do reino deveria ter, como se fosse nascida de legi- 
timo matrimónio. 

E possível que a Inez Gonçalves, mãe dos filhos de Gomes 
Eannes de Zurara, fosse a mulher do mesmo nome, que foi casada 
com Rodrigo Eannes Avangelho, à qual o convento de Almoster, 
por instrumento datado de i de dezembro de 1473, aforou um 
logar situado no rêgo de Alvalade, termo da cidade de Lisboa, 
junto da quinta da capela do bispo D. Gil Alma, tendo outorgado 
por parte do convento como procurador o próprio Gomes Ean- 
nes de Zurara (4); todavia não se conhece documento algum que 
prove esta identificação. 

(i) Doe. XXIII. 

(2) Doe. XXIV. 

(3) Doe. XXV. 

(4) Doe. XXI. 



Trabalhos literários.- — Dos trabalhos literários atribuídos a 
Gomes Eannes de Zurara, são autênticos por sua própria decla- 
ração, a Crónica da conquista de Guiné, a Crónica da tomada de 
Cepta, a Crónica do conde D. Pedro de Meneses e a Crónica do 
conde D. Duarte de Meneses, das quais já atrás se deu notícia, e 
indicou a época em que foram compostas. Mas àlêm destes, outros 
trabalhos literários lhe foram atribuídos pelos escritores posterio- 
res; e esta atribuição mostra, que Gomes Eannes de Zurara go- 
sava, nos séculos xvi a xviii, de grande crédito como escritor, 
sobre tudo como cronista; e por isso diversos escritores procu- 
rarem autorizar as suas obras, fazendo-as divulgar sob o nome 
de Gomes Eannes de Zurara. 

Crónicas de D. João I, de D. Duarte e de D. Afonso V. — 
D. Duarte, sendo ainda infante, encarregou Fernão Lopes de 
escrever as crónicas dos reis de Portugal, que antigamente tinham 
reinado, assim como os feitos dei rei D. João I, seu pai (i). Gomes 
Eannes de Zurara informa que Fernão Lopes não pode chegar 
com a composição da Crónica dei rei D. João I senão até ao 
tempo, em que os embaixadores de Portugal foram a Castela 
primeiramente firmar as pazes com o infante D. Fernando, de- 
pois rei de Aragão, e com a rainha D. Catarina, que naquele 
tempo eram tutores de D. João, rei de Castela (2). Damião de 
Góes, na Crónica dei rei D. Manuel (quarta parte, capitulo xxxviij) 
diz o seguinte acerca da parte, que Gomes Eannes de Zurara 
teve na composição da Crónica dei rei D. João I, e nas dos seus 
sucessores D. Duarte e D. Afonso V: «E quanto a [crónica] dei 
rei Dom Duarte nom ai duuida senam que o texto substancial 
delia he de Fernam Lopez, e os razoamentos da ida de Tanger 
de Gomes Eanes de Zurara, que parece que por o volume ser 
pequeno lhe quiz acrecentar aquelles razoamentos, com o enterra- 
mento dei rei Dom Joam, que conuinha á terceira parte da sua 

(i) Doe. XXVIII. 

(2) Crónica da tomada de Cepta, cap. iij. 



crónica, se se fezera, que nam ao começo da dei rçi Dom Duarte 
seu filho, a qual se ve mui claro do stylo que he tocada de três 
príncipes, o primeiro de Fernão Lopez, o segundo de Gomes Eanes 
de Zurara, o terceiro de Rui de Pina. Nem he de crer que 
mandasse el rei Dom Afonso quinto Gomes Eanes de Zurara 
a Alcácer Ceguer pêra se la melhor informar dos feitos do conde 
Dom Duarte e os escreuer, sem ser acabada e apurada a crónica 
dei rei seu pai; porque quem era tão curioso de fazer vir em 
luz os feitos deste conde Dom Duarte, e do conde Dom Pedro seu 
pai, e os dos reis passados, que pêra se diuulgarem em lingua 
latina mandou vir de Itália Dom Justo frade da Ordem de S. Do- 
mingos, a quem por esse respeito fez bispo de Septa, não deuia 
de mandar começar a tal obra sem primeiro ordenar, que se aca- 
basse de todo a crónica dei rei seu pai. E pois tenho dito de 
todas estas crónicas, razão he que declare o que entendo da dei 
rei Dom Afonso V, a ordem da qual crónica mostra manifesta- 
mente ser tudo o que se trata des no tempo que el rei D. Duarte 
faleceo ate á morte do infante D. Pedro, de Gomes Eanes de 
Zurara, o que se também proua do capitulo xxxxiij da Crónica 
da tomada de Septa que elle compôs, onde diz, que do que se 
seguio, depois do falecimento dei rei D. Duarte acerca da morte 
do dito infante dirá ao diante. O qual Gomes Eanes de Zurara 
screueo também a tomada de Arzila, que foi no anno de mil 
quatrocentos setenta e hum, porque elle viueo alguns annos depois 
dos de mil quatrocentos setenta e dous, em que passou huma 
carta per mandado do mesmo rei Dom Afonso aos moradores 
de Cascaes do foral de Syntra, nam he de crer, que deixasse 
por escreuer feitos tão notaueis como o foram os da tomada de 
Alcácer, Arzila e Tanger, pois aconteceram em seu tempo; mas 
depois de seu falecimento nam acho quem foi o que continuou 
nesta crónica, no qual tempo foram as guerras dantre estes regnos 
e os de CasteUa, depois das quaes e de serem feitas as pazes, o 
que se mais screueo ate ho fim delia, o estylo e ordem mostram 
serem de Rui de Pina, ao qual, posto que se intitule autor de 



toda esta crónica, nem negarei o que se lhe deue por reuer e 
concertar o que nella fez Gomes Eanes e os demais escritores. 
De maneira que esta crónica dei rei Dom Afonso quinto foi 
começada per Gomes Eanes, e depois continuada per outros 
escritores, e finalmente acabada per Rui de Pina.» 

Do que precede resulta que os trabalhos de Gomes Eannes 
de Zurara, relativos à composição das crónicas do reis de Por- 
tugal, são: 

I." Fernão Lopes escreveu a primeira e segunda parte da 
crónica dei rei D. João I, até ao tempo em que os embaixadores 
de Portugal foram a Castela e firmaram as pazes, o que se fez em 
141 1 ; a terceira parte não foi nunca escrita. Dos feitos de rei- 
nado dei rei D. João I, desde aquele ano, até ao seu falecimento 
em 1432, somente foram escritas por Gomes Eannes de Zurara: 
a Crónica da tomada de Cepta, e como sua continuação a Crónica 
do conde D. Pedro de Meneies; a narração do falecimento dei rei 
D. João I, depósito do seu corpo na sé de Lisboa, e triumpho com 
que depois foi levado e trasladado ao Real Mosteiro da Batalha (i). 
A Crónica da tomada de Cepta e a narração do falecimento e tras- 
ladação dei rei D. João I foi muito mais tarde considerada como 
formando a terceira parte da crónica do mesmo rei, e impressa 
com esse título (2). 

2." Da Crónica dei rei D. Duarte, que tem o nome de Rui de 
Pina, os razoamentos da ida a Tanger (cap. x a xx). 

3." Da Crónica dei rei D. Afonso V, que tem o nome de Rui 
de Pina, a parte desde o tempo em que el rei D. Duarte faleceu 
até à morte do infante D. Pedro (até ao cap. cxxix). 

As partes das crónicas dei rei D. Duarte e dei rei D. Afonso V, que 
compoz Gomes Eannes de Zurara, foram depois reformadas por Rui 
de Pina, que exerceu o cargo de cronista desde 1 5 1 3 até que faleceu. 

(i) Crónica dei rei D. João I, dividida em três partes foi publicada pelas diligên- 
cias de D. Rodrigo da Cunha, bispo do Porto, e impressa por António Alvarez em Lis- 
boa no ano de 1644. 

(2) Veja-se a edição citada na nota precedente. 



Milagres do santo condestabre D. Nuno Alvares Pereira. — 
frei Joseph Pereira de Sant'Ana, na Crónica dos Carmelitas (i), 
conta que Gomes Eannes de Zurara compoz no tempo dei rei 
D. Duarte (143 3- 1437) um livro com a narração dos milagres, 
que Deus obrou pelos merecimentos do santo condestabre 
D. Nuno Alvares Pereira; e que no seu tempo (em 1745) o 
original manuscrito do mesmo livro se guardava no arquivo do 
convento de santa Maria do Carmo em Lisboa. Dos milagres 
narrados no mesmo livro fez o padre presentado frei Jorge Co- 
trim um sumário, que incluiu no seu Cannelo Lusitano; do qual 
o mencionado frei Joseph Pereira de SanfAna transcreveu 
para a Crónica dos Carmelitas (tomo i, parte iii, capítulo xxi) as 
notícias relativas aos milagres em número de duzentos (n."' io52 
a i25i). 

Não há outras notícias àcêrca do manuscrito da mencionada 
obra atribuída a Gomes Eannes de Zurara, nem da atribuída a 
Frei Jorge Cotrim, senão as que são dadas pela Crónica dos Car- 
melitas; por isso D. Carolina Michaèlis de Vasconcellos é de 
parecer, que a mencionada obra é uma piedosa fraude, inven- 
tada na primeira metade do século xvii com o fim de preparar 
materiais para a canonisação do condestabre D. Nuno Alvares 
Pereira (2). E com efeito nos sumários feitos por frei Jorge Co- 
trim, conforme são transcritos por frei Joseph Pereira de Sant'Ana, 
fazem-se alusões a pessoas que viveram em tempos posteriores 
ao falecimento de Gomes Eannes de Zurara; referem-se sucessos 
que repugnam à veracidade histórica, que se observa nas obras 
autênticas do mesmo cronista, e que não tem outro fundamento 
senão a crença dos fieis; e que os religiosos do convento de 
santa Maria do Carmo de Lisboa recolheram para aumentar a 
veneração do santo condestabre e o crédito do seu mosteiro; e 
por isso a atribuição da mesma obra a Gomes Eannes de Zurara 

(i) Crónica dos Carmelitas, por fr. Joseph Pereira Sant'Anna, tomo i, Lisboa, 
1745, parte iii, capitulo xxi. 

(2) E. Prestage, The life and writings of Azurara, p. vii, nota 2. 



é um artifício literário, com que se pretendeu dar crédito à obra 
com a autoridade do suposto autor. 

Crónica de D. Duardos, Princepe de Bretanha. — A Gomes 
Eannes de Zurara é atribuída a tradução em português de um 
romance de cavalaria, que tem por título, Crónica de D. Duardos, 
princepe de Bretanha, que se diz ter sido composta por Henrique 
Frusto, cronista inglês. Esta obra compõe-se de três partes, está 
ainda inédita, e só é conhecida pelas cópias manuscritas exis- 
tentes na Biblioteca Nacional de Lisboa. 

A primeira parte tem por título : «Chrónica do invicto D. Duar- 
dos de Bertanha, princepe de Ingalaterra, filho de Palmeiry e da 
Princeza Polinarda, do qual se contam seus estremados feitos em 
armas, e puríssimos amores, com outros de outros caualleiros 
que em seu tempo concorrerão. Composta por Henrrique Frusto, 
chronista ingres, e tresladada em português por Gomes Ennes 
de Zurara, que fes a Chrónica dei Rey Dom Aífonço Henrriques 
de Portugal, achada de nouo entre seus papeis.» 

Desta primeira parte existem três cópias na Biblioteca Na- 
cional de Lisboa, Mss. 6828 (U-2-100), 619(6-10-6) e 620(6-10-7); 
o primeiro destes manuscritos é o mais antigo, e data do século 
XVIII ; em duas destas cópias a obra tem oitenta capítulos, e na 
outra setenta e seis. 

Na cópia do Ms. 620 (B-10-7), que é do século xviii, o título 
da obra é: «Chrónica de Primaleão, emperador de Grécia, Pri- 
meira parte. Em que se conta das façanhas que obrou o Prin- 
cepe Dom Duardos e os mais Princepes que com elle se criarão 
na Ilha Perigosa do sábio Daliarte.» A composição da obra é 
atribuída a Guilherme Frusto autor hibernio; não é dado o 
nome do tradutor, mas somente o do copista Simisberto Pa- 
chorro. 

A segunda parte tem por título: «Segunda parte da crónica 
do Princepe Dom Duardos. Composta por Henrique Frusto, e 
tresladada por Gomes Enes da Zurara, autores da primeira parte.» 



Desta segunda parte existe somente uma cópia na Biblioteca 
Nacional de Lisboa, Ms. 6829 (U-2-101), do século xvii; a obra 
é dividida em oitenta e seis capítulos. 

A terceira parte tem por titulo : «Terseira parte da chronica do 
Princepe Dom Duardos composta por Henrique Frusto, e tresla- 
dada por Gomes Enes da Zurara, a autores da i.'' e 2.* partes.» 

Desta terceira parte também só há uma cópia na Biblioteca 
Nacional de Lisboa, Ms. 683o (U-2-102), do século xvm; a obra 
é dividida em trinta e cinco capítulos, mas termina abruptamente, 
parecendo que está incompleta. 

Não é conhecido nenhum cronista inglês ou irlandês de nome 
Henrique (ou Guilherme) Frusto (Frost); e o estilo e linguagem 
destas supostas traduções são muito dessimilhantes dos das 
obras autênticas de Gomes Eannes de Zurara; o que faz presu- 
mir, que a Crónica de Dom Duardos, contida nos manuscritos 
acima mencionados, não é tradução de um original inglês, como 
se afirma no título^ mas que é composição original de um escri- 
tor português anónimo, do século xvi, que quis autorizar a sua 
obra com o nome daqueles dois escritores, artifício literário 
muito usado pelos autores dos romances de cavalaria (i). 

Cronista. — Nos séculos xv e xvi floresceu em Portugal uma 
plêiade de cronistas, que com as suas obras fundaram os estudos 
históricos da sua nação, e muito contribuíram para apurar a 
língua portuguesa e fixar o estilo da prosa narrativa. Entre eles 
os que mais se distinguiram, foram : Fernão Lopes, Gomes Ean- 
nes de Zurara, Duarte Galvão, Rui de Pina, Damião de Góes, 
Francisco de Andrade, Fernão Lopes de Castanheda, Gaspar 
Correia, João de Barros e Diogo do Couto. Gomes Eannes de 
Zurara foi por ordem cronológica o segundo destes cronistas ; e 
as suas obras foram compostas entre os anos de 1448 e 1474, 
isto é, antes do começo do renascimento literário em Portugal. 

(i) E. Prestage, The life and writings qf Azurara, p. Ixiii a Ixvii. 



As crónicas compostas por Gomes Eannes de Zurara são do 
maior valor histórico; em primeiro logar o seu autor foi contem- 
porâneo dos acontecimentos, que nelas se referem; e as pessoas 
que o informaram, e cujo testemunho invoca, são as mais autori- 
sadas pela sua elevada posição social, por terem tomado parte 
nos mesmos acontecimentos, assistido a eles, ou pelo menos por 
terem residido nos logares em que eles se passaram. Na sua narra- 
ção parece ter sido inspirado somente pelo amor da verdade, não 
se movendo por nenhum respeito humano, nem por mesquinhas 
emulações; e tão verdadeiro é, que parece ter preferido deixar 
incompleta a narração dos acontecimentos, do que referi-los sem 
ter exacta informação de testemunhas de vista (i). Posto que 
confesse um ilimitado respeito pela autoridade rial, a sua crítica 
dos factos é imparcial e justa ; descreve os heróis com as eminen- 
tes qualidades que os distinguiram, mas sem encobrir as suas fra- 
quezas humanas. Os discursos, que êle põe na boca de muitos 
personagens, mostram que êle tomou como modelo as obras de 
Tito Livio e de Salustio, que lia e cita frequentes vezes; mas tem 
o cuidado de advertir o leitor, que os mesmos discursos são ape- 
nas lembranças, que lhe comunicaram os que os pronunciaram 
ou os ouviram (2). 

Gomes Eannes de Zurara evitou, o que não fez Fernão Lopes 
algumas vezes (3), o uso de linguagem livre, e não empregou 
palavras torpes, nem narrou factos obscenos; é sempre muito 
discreto, guarda o respeito devido à honra e o decoro à hones- 
tidade , e as suas obras podem ser Hdas sem hesitação nem rubor 

(i) Visconde de Santarém, Crónica do descobrimento e conquista de Guiné, Paris, 
1841, p. XI e XII. 

(2) E. Prestage, The life and writings of A:^urara, p. xlx a liii. 

(3) Veja-se na Crónica dei rei D. Fernando, (cap. liii) o dito, sem dúvida popular, 
ãcêrca do juramento do contrato do casamento do mesmo rei com a infante D. Leonor, 
filha de D. Henrique, rei de Castela ; na Crónica de D. João I, (primeira parte, cap. clviii, 
ed. Braamcamp) as palavras e cantiga de Fernão Gonçalves a sua mulher; e na Cró- 
nica dei rei D. Fernando, (cap. c e ciii) a narração dos amores do infante D. João com 
D. Maria Teles, e da morte desta : e compare-se com a notícia de Gomes Eannes de Zu- 
rara acerca da doença da rainha D. Filipa. (Crónica da tomada de Cepta^ cap. Rv). 



deante de todas as pessoas, qualquer que seja a sua idade ou 
sexo. 

Sob o ponto de vista literário as crónicas, compostas por 
Gomes Eannes de Zurara, tem sido apreciadas de modo diferente. 

Mateus de Pisano (i), grande humanista e contemporâneo de 
Gomes Eannes de Zurara, dá a este escritor o nome de grande 
historiador (magnus historiographus). 

João de Barros (2) diz que Gomes Eannes de Zurara no mis- 
ter da história foi homem assas diligente, e que bem mereceu o 
nome do oficio de cronista que teve; que o seu estilo é claro; e 
que se alguma coisa havia, até ao seu tempo, bem escrita das 
crónicas do reino de Portugal, era da sua mão. 

Damião de Góes (3) diz que Gomes Eannes de Zurara usou, no 
que escreveu, de algumas palavras e termos antigos, com razoa- 
mentos prolixos e cheios de metáforas ou figuras, que no estilo 
histórico não tem logar. 

José Correia da Serra (4) diz: «O estilo de Gomes Eannes 
de Zurara não he uniforme, parecem duas diversas vozes. A 
sua narração ordinária he singela, cheia de bom senso, e não 
falta de elegância ; mas de tempo em tempo lembra-lhe a agreste 
rethorica, que tão tarde tinha estudado, e ostenta, seja-me licito 
dizer assim, hum estilo de falsete. O primeiro era o que a natu- 
reza lhe tinha dado, o último era fruto dos seus mal sazonados 
estudos. Comtudo estes mesmos defeitos são agora interessantes 
para nos dar huma idea do saber e gosto daquelle século, e das 
suas frazes podem os estudiosos da nossa lingua tirar informa- 
ções do passado e algum proveito para o futuro.» 

Alexandre Herculano (5) faz a seguinte apreciação das crónicas 
compostas por Gomes Eannes de Zurara : «Do merecimento lite- 
rário de Gomes Eannes de Azurara diremos em breves palavras o 

(i) De bello Septensi, C. I. H. P., i, p. 26-27. 

(2) Década primeira da Ásia, liv. i, cap. 11 e liv. 11, cap. i. 

(3) Crónica do princepe D. João, cap. vi. 

(4) C. 1. H. P., II, p. 210. 

(5) Gomes Eannes d' Azurara, em o Panorama, volume 111, Lisboa, iSjg, p. 25 1. 



que entendemos. Pode-se de algum modo comparar ao italiano 
Alfieri, posto que pareça pouco exacta qualquer comparação entre 
um autor de crónicas e um poeta dramático. £ todavia muito ha 
em um que do outro se possa dizer : ambos chegaram a idade viril 
sem possuírem os rudimentos sequer das boas letras; nos escritos 
de ambos aparece o resultado desta falta de educação literária : 
ha em um e outro certa inflexibiUdade feroz, e ausência inteira 
daquelas graças de estilo, que nascem do coração, amaciado 
desde a infância pela cultivação do espirito; as concepções nas- 
cem-lhes do entendimento, como Minerva da cabeça de Júpiter, 
coberta, por assim dizer, de um arnez de ferro. Louva-se em 
Azurara, e de louvar talvez é, a sinceridade bravia, com que 
lança em rosto aos heroes, cujas façanhas escreve, os defeitos 
que tiveram, os erros e culpas em que caíram ; nisto se parece 
também de certo modo com Alfieri. Mas nós preferimos o sys- 
tema de Froissart e Fernão Lopes ; para cada um dos seus heróis 
havia nestas almas generosas um typo ideal, a que procuraram 
assimilha-los engrandecendo-os ; e por ventura que mais profícua 
é assim a historia ao género humano. Para acabarmos um 
paralelo, que poderíamos levar mais longe, notaremos a tendên- 
cia dos dois escritores, que colocamos em frente um do outro, 
para philosophar trivialidades, e ostentar elegâncias rhetoricas, e 
erudições suadas para eles, e impertinentes para os leitores. 
Move o riso ver o pobre Azurara a lidar pôr claro como a luz 
do dia, com a autoridade de S. Jerónimo, Salustio, Fulgencio, e 
casy todolos outros autores, que são temíveis as más linguas, 
como causa sono observar os tratos que o ilustre dramaturgo 
italiano dá ao juizo para nos fazer odiar a tyrania, acerca da qual 
escreveu um volume, cousa muito escvisada na moderna litera- 
tura. Todavia em ambos eles a sinceridade das intenções supre 
de algum modo a aridez e o vazio da obra. Posto porém que 
Azurara esteja em grau inferior a Fernão Lopes, não deixou de 
fazer com os seus escritos bom serviço a literatura pátria. João 
de Barros o tinha em subida conta, e até no estilo dele se com- 



prazia. Não assim Damião de Góes, que foi o primeiro a notar- 
Ihe as afectações rhetoricas. Infelizmente para Azurara, Góes era 
melhor juiz : e a posteridade confirmando a sentença do perspi- 
caz chronista de D. Manuel, rejeitou o parecer do historiador da 
índia.» 

O Visconde de Santarém (i) diz : «Pelo que respeita ao estylo 
do autor [Gomes Eannes de Zurara], diremos que Damião de 
Góes o reprova, em quanto que o grande historiador João de 
Barros, por certo melhor autoridade, o louva e aprova. Como 
quer que seja, o leitor julgará per si mesmo do estylo, em nosso 
entender admirável, dos capítulos ii e vi [da Crónica da conquista 
de Guiné] em um autor que escreveo quasi um século antes do 
nosso primeiro clássico.» 

A. da C. Vieira de Meireles (2) faz a seguinte apreciação de 
Gomes Eannes de Zurara, como cronista : «Como historiador, a 
critica não pode ser severa para Gomes Eannes. Coevo com os 
grandes vultos, cujas ações descreve, era-lhe dificuldade quasi 
invencível não se deixar entrar de ruins paixões. Mas a sua his- 
toria está ahi a dizer-nos, que nem respeitos humanos o move- 
ram, nem mesquinhas invejas lhe abalarem o animo. E se alguma 
cousa ha a exprobar-lhe é talvez a demasiada franqueza com que 
pinta e fulmina os erros dos seus heróis. Dotou-o a natureza 
Hberalmente, engrandeceu o historiador o património. A um 
juizo maduro e claro entendimento aliou Gomes Eannes não 
vulgar erudição, colhida nos bons mestres da antiguidade, e 
ainda que serôdia, germinou a semente, não caiu em torrão 
safaro, mas frutificou saborosíssimos frutos. Na sua veracidade 
como historiador não ha por-lhe escrúpulos o mais prudente. 
Naquelas páginas tão singelamente escritas ha mais que um 
reverbero de verdade, naquele estilo ás vezes tão desgarrado, 
adivinha-se inteira sinceridade. E quasi sem o querermos, toma- 
mos de improviso outro objecto, o estilo de Azurara. Paliando 

(1) Crónica do descobrimento e conquista de Guiné, Paris, 1841, p. xi. 

(2) Gomes Eannes d' Azurara, no Instituto, vol. ix, Coimbra, i8õi, p. 107 e 108. 



deste ultimo disse o Livio português, «se alguma cousa ha bem 
escrita das crónicas deste reino, é de sua mão» ; e Damião de 
Góes «que elle usava no escrever de algumas palavras e termos 
antigos, com razoamentos prolixos e cheios de metáforas ou figu- 
ras que no estilo histórico não tem lugar». Nós cremos que na 
frase de Barros vai exagerado encarecimento, e nas palavras de 
Góes ha calculado menospreço. Se o estilo de Azurara nem 
sempre lhe cai dos bicos da pena fácil e natural, se o colorido da 
frase desaparece as vezes num traço de erudição massuda, não 
ha todavia razão para o alcunhar de prolixo e sempre afectado. 
O historiador da descoberta e conquista de Guiné, o predecessor 
de Cadamosto, não carece de emprestados louvores; nos precio- 
sos livros que nos legou, está escrito o seu elogio.» 



MANUSCRITOS 



DA Crónica da tomada de Cepta por el rey Dom Joham o pri- 
meiro existem numerosas cópias manuscritas nas livrarias 
públicas e particulares de Portugal. As cópias de que 
obtivemos noticia, são as seguintes : 

Arquivo Nacional (Torre do Tombo) : 

1. Códice n." 368, do fim do século xv ou principio do sé- 

culo XVI, (A) ; 

2. Códice n.° 355, do princípio do século xvi, (B). 
Biblioteca Nacional de Lisboa : 

3. Códice n." 385, do século xvii, (C); 

4. Códice n." 3gi, do século xvi, (D); 

5. Códice de Alcobaça n.° 473 (moderno n." 317), do sé- 

culo XVII, (H). 
Museu etnológico de Lisboa : 

6. Códice E, 3238, do século xvii ou xvni, (E). 
Biblioteca do Paço de Ajuda : 

7. Códice 49-XI-65, do século xvi, (F). 
Biblioteca pública municipal do Porto : 

8. Códice n." 86, do século xviii, (M). 
Livraria de Anselmo Braamcamp Freire : 

9. Códice C, 33 1, do século xviii, (G). 
Livraria da Casa Cadaval : 

10. Códice (sem numeração), do século xvi, (N). 



Livraria do comendador José António Vieira Marques, de 
Braga : 

1 1. Códice (sem numeração), do século x-^q, (P). 

É provável que, àlêm dos manuscritos precedentemente men- 
cionados, existam ainda outros, quer nas bibliotecas públicas, 
sobre tudo de Évora, Coimbra e Braga, quer nas livrarias parti- 
culares. Galhardo (i) informa que D. Pedro Portocarrero y Guz- 
man, patriarcha das índias, de cuja livraria foi impresso o catá- 
logo em Madrid em 1708, possuía um manuscrito intitulado 
Crónica de Ceuta (2). Consta também existir um manuscrito da 
mesma crónica na Biblioteca Nacional de Madrid. 

A. Manuscrito do Arquivo Nacional (Torre do Tombo), có- 
dice n.° 368. 

Este manuscrito é um livro de íino pergaminho, composto de 
i3 cadernos, tendo cada um cinco folhas duplas. Os cadernos 
estão cosidos e ligados entre si, mas não tem pastas de encader- 
nação; guarda-se dentro de uma pasta de papelão atada com 
duas fitas de algodão. 

As folhas tem o°',390Xo°',290 ; em cada página a parte escrita 
ocupa um rectângulo de o'",29oXo"',235 ; a escrita de cada pá- 
gina está disposta em duas colunas, cada uma de 33 linhas ; 
cada linha tem em média 33 letras. 

A letra é do tipo gótico (francesa), de uma só mão ; as razu- 
ras, entrelinhas e aposições nas margens são muitas raras; a 
forma da letra é muito perfeita e bela, e do fim do século xv. 

As folhas são marcadas com numeração romana : J, ij, iij, . . . 
até cxxx; a numeração está escrita por cima do princípio da 
I,* linha da 2.* coluna da página recto (3). No fim da página 
verso da última folha de cada caderno, por baixo da 2.* coluna, 

(i) Ensaio de uma biblioteca espanola, por D. Bartolomé José Galhardo, Madrid, 
i863. 

(2) E. Prestage, The life and writings of Azurara, p. Iv, nota 1. 

(3) Esta numeração foi escrita evidentemente em época posterior àquela em que 
foi escrito o manuscrito sem atender, a que no princípio faltava um caderno (dez folhas). 



na margem exterior, está escrita obliquamente a primeira pala- 
vra da página seguinte. 

Os títulos dos capítulos são escritos a tinta vermelha; e a 
indicação do número de ordem do capítulo é dada depois do 
título. 

A letra inicial da primeira palavra do texto de cada capítulo 
é maiúscula, e está compreendida em um rectângulo de o",o35x 
o°',025 em média, formando um fundo escuro; a letra inicial é 
floreada, e está ligada com uma silva de folhas, fiores e frutos, 
que se estende pela margem esquerda dessa coluna em toda a 
altura da parte escrita da página; tanto a letra como a silva 
são finamente desenhadas a cores. A segunda letra da mesma 
palavra inicial é também maiúscula, mas da grandeza das letras 
do texto. 

Os sinais de pontuação são a vírgula, indicada por um traço 
rectilíneo oblíquo, e o ponto ; a sua distribuição não é bem con- 
forme com o sentido das frases. O começo dos períodos é indi- 
cado por um sinal formado por um arco de circulo, como cres- 
cente, com a convexidade voltada para a esquerda, e limitado 
pelo lado direito por duas linhas rectas paralelas entre si; este 
sinal é desenhado a azul, e muitas vezes os dois pequenos 
espaços compreendidos entre o arco e as linhas rectas são dou- 
rados. 

A cópia contida no códice n." 368 foi feita com grande cui- 
dado, e é muito correcta; contem diversas particularidades de 
escrita, de que em seguida se dá notícia. 

1. Abreviaturas. — As abreviaturas usadas são: cri, e, n (nh), 
os, per, pra, pri, que, ser, ds (Deos), Jliú (Jhesu), xpó (Christo), 
xpraãos (christaãos). 

2. Vogal i. — A vogal i, inicial de palavra, é representada 
por;(i); e o i, vogal subjuntiva do ditongo oral iti, é também 
representada pory, para evitar a confusão do ditongo ui com a 

(i) 0^' é sempre maiúsculo ; por isso fez-se imprimir Iffante, que é escrito Jffante. 



letra m. Os ii, i dobrado, é representado por ij (tijnha, perijguo, 
jmmijgo) para evitar a sua confusão com a letra n ou u. 

Em vez de z usa-se frequentes vezes j"; principalmente como 
vogal subjuntiva de ditcngo, ou para preencher o espaço do fim 
de linha. 

3. Vogais dobradas. — Os sons abertos das vogais í7, e & o, 
e o i tónico são muitas vezes representados pelas vogais dobra- 
das aa, ee, oo e ij, (ataa, ffee, oolhou, jmmijgos). 

4. Nasalação das vogais. — A nasalação das vogais é repre- 
sentada por m tanto antes de vogai e de b, m e p, como antes de 
todas as outras consoantes ; se porém o espaço disponível da 
linha não é suficiente para escrever o m, a nasalação é indicada 
pela letra n, ou por til colocado sobre a vogal nasal. 

É também representada por n a nasalação do e da terminação 
ente das palavras, como dereitamente ; e ainda muitas vezes a 
nasalação do u da palavra mundo. 

A nasalação das vogais dobradas aa, ee, 00, ini, é indicada 
pelo til colocado sobre as vogais de modo indeciso, parecendo 
todavia ser sobre a segunda vogal. 

5. Enfraquecimento das vogais a, i e o. — As vogais a e i, 
atonas enfraquecem algumas vezes, sendo substituídas por e, 
assim : rreiam (razão), deier (dizer), dereitamente (direitamente), 

fe:{estes (fizestes), /e:{e55e (fizesse), esteuesse (estivesse) etc. 

O o final da palavra co^no também enfraquece, se a palavra 
seguinte começa por o; assim : come homem (como homem). 

6. Queda do e final da palavra. — O e final de palavra, e 
átono, cai algumas vezes, sobretudo se a palavra seguinte começa 
por vogal : assim é escrito: ell (elle), daquell (daquelle), e Go7n- 
çaleannes (Gonçalo Eannes), Pedreanes (Pedro Eannes), Aliio- 
reannes (Álvaro Eannes), etc. 

7. Consoante c branda. — O som brando de c é representado 
por c (c com cedilha) tanto antes áe a, o e u, como antes de e e i; 
a cedilha todavia não é usada se a letra c é maiúscula e inicial de 
palavra, como em Cepta: mas é empregada em Çalla bem Çalla. 



8. Consoante g. — Usa-se intercalar a letra u depois de g 
sonoro, seguido de a ou o, como quando é seguido de e ou i, 
assim chegiiar, logiio. É provável porém, que ga, go, gii se les- 
sem 7^7, Jo, jii, como ge (je) e gi (JiJ; e por isso a intercalação 
da letra 11 indica somente que o som de g era sonoro e não fri- 
cativo. 

g. Consoante h. — A consoante h é usada sempre antes da 
vogal inicial de palavra monosilabica, assim : ha (á), he (é), hi (ahi), 
ho (ao), e algumas vezes antes da vogal inicial de palavra polisi- 
labica, como hordenamça (ordenança), Mn (um). A consoante h 
é também usada em seguida às letras / e jí, para representar os 
sons molhados das mesmas letras. 

10. Consoante r. — O som brando dor é representado por 
um só r. O som forte do r é representado por rr (r dobrado) ; 
mas se é inicial de palavra, umas vezes é representado por rr 
(r dobrado), e outras vezes por R (r maiúsculo) (i). 

11. Consoante s. — A consoante s é representada pelo f (s 
alto) no começo e no meio das palavras; no fim de palavra é 
representado por s (s baixo). 

12. Consoante V. — A consoante i^ é representada pela letra 
u, quer seja inicial de palavra, quer media, e mesmo seguida da 
vogal II. Raras vezes a consoante v é representada por um b, 
cuja haste não é vertical, mas inclinada para trás. 

i3. Consoantes dobradas (digrafos). — As consoantes dobra- 
das, cujo uso se observa, são : 

ff, usadas mesmo como inicial de palavra :^ee," 

11, usadas mesmo como final de palavra: tall, quall, batell; 

(1) Nas palavras da língua portuguesa o r tem o som forte : 
i.» No princípio da sílaba inicial; 

2." No princípio de sílaba média ou final sendo precedido de consoante. 
Nas palavras, compostas de palavra, que tenha r no princípio da sílaba inicial, e 
de um prefixo, aquele r conserva o som forte. 
O r tem o som brando : 

i." No princípio de sílaba média ou final sendo precedido de vogal; 
1." No meio de sílaba (som líquido) depois de b, c, d, f, g, (k), p, í ; 
3.° No fim de sílaba. 



mm, no meio de palavra ; jmmijgo ; 

rr, no começo e meio de palavra: rrainha, homrra; 

ss, usada mesmo depois de consoante; conisselho. 

É provável que pelas consoantes dobradas _^, rr, ss, iniciais 
de palavra, se quizessem algumas vezes representar as letras 
maiúsculas correspondentes/ee (Fé), rrey (Rey), ssenhor (Senhor). 

Na divisão das sílabas no fim de uma linha para a seguinte, 
as consoantes dobradas pertencem ambas à sílaba, com cuja 
vogal SC articulam, assim : I-ffante, hom-rra, com-sselho, etc. 

1 4. Clise. — O pronome complemento de verbo é geralmente 
escrito junto ao verbo (pospositivo) como formando palavra com 
elle, sem sinal de separação, ou de ligação (ifen). 

1 5. Endiadis. — A terminação mente dos advérbios, está geral- 
mente separada do adjectivo, assim: dereita mente (direitamente). 

A terminação quer é também separada das palavras qiiall, 
quaees, assim : qiiall quer (qualquer), quaees quer (quaisquer). 

Também se encontra a escrita : da quclle (daquele), por que 
(porque), bem avemtiiramça (bemaventurança). 

16. Haplologia. — Neste manuscrito observa-se um notável 
exemplo de haplologia ; o infante Dom Duarte é designado sem 
o título de Dom, somente por Jffamte Duarte; este uso provém 
verosimilmente da linguagem da corte, porque se encontra tam- 
bém em documentos contemporâneos registados na Chancelaria 
de D. João I. 

Esta cópia da crónica está incompleta; as suas lacunas são: 

I .'^ Faltam a folha de rosto com o título, e as folhas com a 
taboada dos capítulos. 

2.* (Cap. i-xj). Faltam os primeiros dez capítulos e a parte do 
undécimo desde o princípio até às palavras : determinaram taees 
conclusões. A primeira linha da i .^ coluna da página recto da 
folha J, começa pelas palavras : Mas pêro que o seu cuidado fosse 
assai de gramde. 

Esta lacuna corresponde com suficiente exactidão ao con- 
teúdo de dez folhas (cinco folhas duplas) ou um caderno. 



3." (Cap. xv-xvj). Na página verso da folha 8, a 2.^ coluna 
termina na 1 3. ^ linha com as palavras: grandes homêes pertee- 
çia, estando em branco as restantes linhas da mesma coluna. 
Falta a folha g (páginas recto e verso); a página recto da folha 10 
está em branco; e a primeira linha da i.* coluna da página verso 
da mesma folha 10.*, começa pelas palavras: ataa fim de panos de 
suas cores. 

Esta lacuna corresponde com suficiente exactidão às 20 linhas 
que faltam na 2.^ coluna da página verso da folha 8, e ás quatro 
colunas (2 páginas) da folha 9, parecendo a mais a página recto 
da folha 10. 

4.^ (Cap. xxxviii). Na 2.* coluna da página recto da folha 46 
estão em branco: a segunda metade da linha 25, faltando as 

palavras : aes cousas; e a primeira metade da linha 27 : çepiam 

a Lucano, onde porem nenhuma palavra parece faltar. 

5.* (Cap. Liv-Lxiii). A segunda coluna da página verso da 
folha 70 termina pelas palavras : ca deiiam que lhe noni fora 
aquello assi dito senorn por, e faltam as folhas 71 a 80 (cinco 
folhas duplas) ou um caderno. A primeira Unha da i." coluna 
da página recto da folha 8 1 começa pelas palavras : . . . çeria 
que todallas cousas que sse ataa llife\eram. 

Esta lacuna corresponde com suficiente exactidão ao con- 
teúdo das dez folhas que faltam. 

6.* (Cap. Lxxv-Lxxvij). A 22." linha da i.^ coluna da página 
verso da folha 94 termina pelas palavras : lhe parecia, estando 
em branco metade da mesma linha, e as restantes 1 1 linhas da 
I.* coluna, e a 2.^ coluna; falta a folha gS; e a primeira linha da 
I.* coluna da página recto da folha 96 começa pelas palavras: 
de ficar sem parte de tajnanha rriqueia. 

Esta lacuna corresponde com suficiente exactidão às 1 1 linhas 
que faltam na i." coluna da página verso da folha 94, à 2.' co- 
luna da mesma página, e as quatro colunas da folha gS, que 
parece ter sido cortada. 

7." (Cap. Lxxxij). A 24.* linha da i.* coluna da página verso 



da folha loi termina pelas palavras: orelhas niiijtos rrecorreram, 
estando em branco o termo da mesma linha e as restantes g li- 
nhas da mesma coluna, e a 2.* coluna da mesma página, e as duas 
colunas da página recto da folha 102; a primeira Unha da i.^ 
coluna da página verso da folha 102 começa pelas palavras: e 
aueram por boa dita. 

Esta lacuna corresponde com suficiente exactidão às 9 linhas 
da I.* coluna da página verso da folha loi, à 2.* coluna da 
mesma página, e às duas colunas da página recto da folha 102. 

8.* (Cap. LRij-LRiij). A última linha (33.*) da 2.* coluna da 
página verso da folha 1 14 termina pelas palavras: mas dos chris- 
taãos. Falta a folha 1 1 5 ; a primeira linha da i ." coluna da página 
recto da folha 1 16 começa pelas palavras: lançar suas ancoras. 

Esta lacuna corresponde às quatro colunas da folha 1 15, que 
parece ter sido cortada. 

9.'' (Cap. C). A primeira linha da 2." coluna da página recto 
da folha 1 24 tem escritas somente as palavras : em aquella, estando 
em branco o resto da linha, as outras 32 linhas da mesma coluna, 
e as duas colunas da página verso da mesma folha. A primeira 
linha da i.^ coluna da página recto da folha i25 começa pelas 
palavras : leixaram todallas doçuras da França. 

Esta lacuna corresponde aproximadamente às três colunas 
que faltam. 

Gomes Eannes de Zurara diz na Crónica da tomada de Cepta 
(Cap. iij), que por mandado dei rei D. Afonso V trabalhou por 
inquirir e saber as cousas que diziam respeito à tomada da 
cidade de Ceuta, e as escreveu em uns cadernos, com intenção 
de os acrescentar ou diminuir em quaisquer logares em que se 
julgasse que o mereciam. E de presumir do que precede, que se 
tenham extraviado dois cadernos do códice n." 368, e que quando 
se fez esta cópia, alguns cadernos do original estivessem em mau 
estado de conservação, e que fosse difícil a sua leitura, por ser a 
escrita muito emendada, por estar a tinta algum tanto desvane- 
cida, e por serem rotas algumas folhas, do que resultariam as 



lacunas que ficam notadas; e que o escrivão deixara os corres- 
pondentes espaços em branco com intenção de os preencher, 
depois por outra cópia que fosse achada. 

B. Manuscrito do Arquivo Nacional (Torre do Tombo), có- 
dice n." 355. 

Este manuscrito é um livro de bom pergaminho, composto de 
cinco folhas sem numeração, e de i 5 cadernos, tendo cada um 
cinco folhas duplas. O livro está encadernado, sendo as pastas 
grossas tàboas cobertas de linhagem e taxas de metal amarelo. 

As folhas tem o",525xo'°,38o; em cada página a parte escrita 
ocupa um rectângulo de o'",365 xo",25o; a escrita de cada página 
está disposta em duas colunas, cada uma de 35 linhas; cada 
linha tem 25 a 3o letras. 

A letra é do tipo gótico (francesa), de uma só mão; as rasu- 
ras, entrelinhas, e aposições nas margens são muito raras. A 
forma da letra é elegante, e do princípio do século xvi. 

As primeiras cinco folhas não tem numeração; as folhas dos 

i5 cadernos são marcadas com numeração romana J, ij, iij 

até cl; a numeração está escrita por cima da extremidade da 
i." linha da 2.'' coluna da página recto. 

Os títulos dos capítulos são escritos a tinta preta; a indicação 
do número de ordem do capítulo é dada no princípio do título. 
A letra inicial da primeira palavra do texto de cada capítulo é 
maiúscula, de grandes dimensões, tendo altura compreendida 
entre seis e dez linhas, e muito floreada; a segunda letra da 
mesma palavra é também maiúscula, mas da grandeza das letras 
do texto. 

Dos sinais de pontuação somente é usado o ponto; o começo 
dos períodos é indicado por um sinal semelhante ao usado no 
códice n." 368, mas de côr preta e sem dourado. 

A cópia da crónica está completa; todavia parece que primi- 
tivamente tinha sido escrita com as mesmas lacunas, que se obser- 
vam no códice n." 368, e que depois foi completada nos espaços 



em branco, que haviam sido deixados, com letra da mesma mão. 
Isto resulta, de que algumas vezes o texto, que foi escrito nos espa- 
ços primitivamente deixados em branco, não preencheu comple- 
tamente os mesmos espaços, e a escrita desta parte é mais larga 
e espaçada; outras vezes, por ser insuficiente o espaço deixado 
em branco, a escrita é mais apertada, do que na parte escrita 
primitivamente. 

No alto da página recto da primeiro folha sem numeração 
está escrito o título seguinte : 

Crónica da tomada 
da cidade de cepta 
per ElRey Dom 
Joham o primeiro. 
Por baixo do título, e quási ao meio da altura da página está 
debuxado o brazão de armas de Portugal usado no tempo dei rei 
D. Manuel^ sobre um rectângulo, dividido pelas diagonais e me- 
dianas dos lados em oito triângulos, alternadamente brancos e 
pretos. 

Nas folhas 2, 3, 4 e 5 sem numeração está escrita a tauoada 
dos capítulos. 

A crónica começa na página recto da folha J assim : 
Prologo de gome^ e 
annes de curara aa 
crónica da tomada de 
Cepta. 

Capitulo primeiro. 
Concruiam he de aristotiles no seg° liiiro da Natural filosofia 
que a nature^^a e o começo do mouimento he de folgança. 

A crónica é dividida em io5 capítulos, incluindo-se neles o 
prólogo. 

A crónica termina na página recto da folha cl pelas seguintes 
palavras : 

E o anno do regnado delRey Dom Affonso o quinto em hon^e 
anitos e duzentos e cinco dias. 



Esta cópia da crónica foi feita em época posterior à do có- 
dice n.° 368, mas com menos cuidado; o escrivão parece não ter 
copiado as palavras com a grafia que tinha o seu archetipo; con- 
tem alguns erros, que certamente provêm de ser difícil a leitura 
do archetipo, que provavelmente estaria em mau estado de con- 
servação ou roto em partes, muito emendado, e algum tanto des- 
vanecida a tinta da escrita. 

C. Manuscrito da Biblioteca Nacional de Lisboa, códice n." 385 
(B-4-II). 

Este manuscrito é um livro de papel, de 243 folhas, encader- 
nado com pastas de papelão. 

As folhas tem o'°,287Xo°',i6o; em cada página a parte escrita 
ocupa um rectângulo de o°',255xo'",i6o; a escrita de cada página 
está disposta em uma só coluna, de 32 linhas; cada linha tem 32 
a 45 letras. As folhas não estão numeradas. 

A letra é de três mãos, bem legivel, do século xvii. 

A crónica ocupa as folhas i a i83. 

O título é (foi. I , r) : 

Terceira parte da Coronica delRey Dom João o primeiro deste 
nome, em a quall se contem a tomada de çepta. 

O começo é (foi. i, r): 

Prelo giio 

Conclusão he de Aristotiles no 2° liuro da natural philosojia que 
a natureza he começo de mouimento e de folgança. 

Depois do prólogo segue-se a crónica dividida em 102 capí- 
tulos. 

O crónica termina pelas seguintes palavras: 

... e o anno do Reynado delRey dom Afonso o quinto em xj 
annos e ii.b. dias mays. 

Laus Deo. 

Depois segue-se a Crónica dei Rei D. Duarte por Rui de Pina. 

Este manuscrito pertenceu ao Colégio da Companhia de Jesus 
em Santarém. 



D. Manuscrito da Biblioteca Nacional de Lisboa, códice 
n.°39i (B-4-17). 

Este manuscrito é um livro de papel de 247 folhas, encader- 
nado com pastas de papelão. 

As folhas tem o",265 xo'°,i9o; em cada página a parte escrita 
ocupa um rectângulo de o'",24oXo"',i 10; a escrita de cada página 
está disposta em uma só coluna de 3o linhas; cada linha tem 35 
a 40 letras. 

A letra é de uma só mão, de fácil leitura, do século xvi. 

A esta cópia faltam no princípio cerca de 1 2 folhas, e começa 
pelas seguintes palavras do capitulo vi, na página recto da fo- 
lha 1 3 : nas gi'andes vertudes delRey Dom Joham. Agora diiião 
eles, he Portugal o maior e mais bem aventurado Reyno que ha no 
mundo . . . 

No fim faltam também provavelmente duas folhas; a cópia 
termina pelas seguintes palavras do capítulo ciiij na página verso 
da folha 23 1 : ... virtuosos homens forçosamente arn seu mereci- 
mento de seus grandes feitos, e por tanto dy... 

A divisão da crónica é em capítulos provavelmente io5 em 
número. 

Nas margens das páginas deste manuscrito, sobretudo no 
princípio, são escritas algumas notas de letra diferente da do 
texto e mais moderna ; estas notas são breves observações de 
carater moral, resumos do conteúdo no texto, indicações topo- 
gráficas da cidade de Ceuta, e notícias históricas. 

H. Manuscrito da Biblioteca Nacional de Lisboa, códice de 
Alcobaça n.° 473 (moderno n.° 317). 

Este manuscrito é um livro de papel de 200 folhas, encader- 
nado em pergaminho. 

As folhas tem o°';,3ooXo°',2io; em cada página a parte escrita 
ocupa um rectângulo de o'",255 xo"",! 55 ; a escrita de cada pá- 
gina está disposta em uma só coluna de 29 linhas; cada linha 
tem 35 a 40 letras. As folhas não estão numeradas. 



A letra é de uma só mão, bem legível, do século xvii. 
O título e começo é (foi. i, r) : 

Crónica da tomada da cidade de Cepta 
Por el Rey Dom João o primeiro 
Prologo de Gomei eamies depurara 
aa crónica da tomada de Cepta. 
Cap. prim.° 
Conclusom he de Aristóteles no segundo livro da natural filosofia 
que a natureza e o começo do movimento he de folgança. 
A crónica termina pelas seguintes palavras : 
... e o anno do Reynado delrrey Dom A.° o quinto em on^e 
annos e duzentos e cinco dias mais. 

E. Manuscrito do Museu etnológico português de Lisboa, 
códice E, 323g. 

Este manuscrito é um livro de papel de 201 folhas, desen- 
cadernado. 

As folhas tem o°',3 1 5 x o^jS i o ; em cada página a parte escrita 
ocupa um rectângulo deo'",23oXo°',i5o; a escrita de cada página 
está disposta em uma só coluna de 27 ou 28 linhas; cada linha 
tem 5o a 55 letras. As folhas estão numeradas de i a 201, 
tendo no fim mais sete não numeradas com a taboada dos capí- 
tulos. 

A letra é de uma só mão, de boa grafia, do século xvn ou 
xviii. A primeira letra do texto de cada capítulo é floreada^ 
O título é (foi. I, r): 

Terceira parte 
da Chronica Del Rei Dom Joam P.™ 
deste nome e dos Reis de Portugal o decimo. 
A qual trata a historia da tomada de Cepta 
Composta per Gomei eanes de 
Zurara Chronista mor 
dos Reinos e senhorios 
de Portugal. 



o começo é (foi. 2, r) : 

Conclitsajn he Daristotiles no secundo liuro da natural philoso- 
phia, que a natureia he começo de mopimento e de folgança. 

A crónica é dividida em io5 capítulos. 

A crónica termina pelas seguintes palavras : e o ãno do Rei- 
nado DelRey Dom Aff.° 5° em on\e annos e 2o5 dias. 

F. Manuscrito da Biblioteca do Paço de Ajuda, códice 
49-XI-65. 

Este manuscrito é um livro de papel, de seis folhas não nume- 
radas, seguidas de 283 folhas paginadas de i a 565, encadernado 
sendo as pastas de papelão cobertas de pergaminho. 

As folhas tem o'",3ioXo°',225 ; em cada página a parte escrita 
ocupa um rectângulo de o'",25o Xo"',i5o; a escrita de cada página 
está disposta em uma só coluna, de 29 a 33 linhas; cada linha 
tem, em média, 35 letras. 

A letra é do tipo gótico, de uma só mão, de boa grafia, do 
século XVI. 

O título é (foi. <3, r). 

Crónica: Da toma 

da Da cidade. De 

Cepta: Por Elrey dô Johão: o primeyro : 

As folhas b, c, d, e/(não numeradas) contêm a tauoada dos 
capítulos. 

O começo é (pág. i): 

Prologo De Gomes e anes de Zurara aa crónica da tomada de 
cepta : 

Capitulo primeiro. 

Comcrusão he de aristoteles no segúdo liuro da natural Filo- 
sofia . . . 

Depois do prologo segue-se : 

O principio da historia. Capitulo segundo. 

O tempo e gramde^a das obras nos cóstramgê fortemente que 
serenamos . . . 



o fim é (capitulo cb, pag. 565): 

E o ano do Reynado delRey dó afonso o qiiynto aos on^e anos 
e doiemtos e cinco dias mais. 

Laus Deo. 



M. Manuscrito da Biblioteca pública municipal do Porto, 
códice n.° g6. 

Este manuscrito é um livro de papel de i63 folhas numeradas, 
e mais 4 em branco, e encadernado em pergaminho. 

As folhas tem o^jZgS X o",2o5 ; em cada página a parte escrita 
ocupa um rectângulo de o"',23oXo°',i42; a escrita de cada página 
está disposta em uma só coluna de 32 linhas; cada linha tem 5o 
letras em média. As folhas estão numeradas no alto da página 
recto. 

A letra é de uma só mão, de fácil leitura, do século xviii. 

O título, escrito na capa, é : 

Tomada de Ceuta 

por Gomes Eanes d" Azurara. 

Tem 1 63 folhas. 

O começo é (foi. i , r) : 

Prologo de Gomes Annes da Zurara. 

Conclusão he de Aristóteles no segundo liuro da natural philo- 
sophia que a natureza he começo de movimento e de folgança. 

O fim é (foi. i63, v).- ' 

E poa-em concludindo este cap.° entendemos que ... todos os 
outros aião em grão reuerença essas sepulturas, e bendigão o seu 
nome ouuindo o processo de suas virtudes. 

Na margem lê-se a seguinte nota escrita de letra diversa da 
do texto: 

Na obra impressa ha ainda o cap. 104, etc. 

Outras notas marginais se lêem nas folhos 3, v., loi, v, e 
1 6 1 , 3^ relativas à comparação do manuscrito com a edição da 
crónica impressa em 1644. 



— xc — 

G. Manuscrito da livraria de Anselmo Braamcamp Freire, 
códice C, 33 1. 

Este manuscrito é um livro de papel, de 1 76 folhas numera- 
das, seguidas de quatro não numeradas, encadernado em pastas 
de papelão cobertas de couro. 

As folhas tem o°',298xo°',2oo; em cada página a parte escrita 
ocupa um rectângulo de o°',26oXo°',i7o; a escrita de cada página 
está disposta em uma só coluna, de 29 linhas; cada linha tem 5o 
letras em média. 

A letra é de uma só mão, de boa grafia, bem legível, do sé- 
culo XVIII. 

As primeiras três linhas da página recto da folha i são desenha- 
das imitando a letra gótica ; e a primeira letra do prólogo é floreada. 

A crónica ocupa as folhas 1-176; as três folhas seguintes sem 
numeração contem a taiioada dos capítulos com indicação das 
folhas em que começam; e a quarta folha sem numeração contem 
parte (cap. 142 a 2o5) da taiioada dos capítulos da 2."'' parte da 
Chronica dei Rei D. João I por Fernão Lopes, e por isso não 
pertence a este livro. 

A crónica não tem título. 

O começo é (foi. i^ r): 

Prologo de Gomes Eannes de Zurara a Chronica da tomada 
de Cepta. 

Concriiião he de Ai'istoteles no 2° lib. da natural Jilosop/iia, 
que a natureza e o começo de mouimento he de folgança. E pêra 
declaração desto aprendamos que cada húa cou^a tem calidade per 
a qual se demoue ao seu próprio lugar quando está fora delle, en- 
tendendo aly ser confirmado milhor . . . 

A crónica é dividida em io5 capítulos numerados seguida- 
mente, incluindo o prólogo. 

O íim é (foi. 1 76, v) : 

... E a era do primeiro Rej que foi em Portugal em 348 ; e o 
ano do reinado dElRej D. A.° o 5° em xi annos e 20S dias mais. 

Laus Deo. 



Por cima destas duas últimas palavras está escrito por letra 
de outra mão : 

Fim da Terceira Parte. 

A cópia deste manuscrito é muito correcta, e conserva muitas 
particularidades da grafia do códice B; sendo por isso provável 
que fosse feita delle. 

N. Manuscrito pertencente à Casa Cadaval (i). 

Este manuscrito é um livro de papel de 252 folhas numera- 
das e mais i3 não numeradas. 

A letra é do século xvi; o frontespício e as letras iniciais dos 
capítulos são floreadas. 

O titulo é : 

Chronica da tomada da cidade de Cepta por elRey Dom Joam 
o primeiro, por Gomes Earmes de Zurara. 

P. Manuscrito pertencente ao comendador José António 
Vieira Marques, de Braga. 

Este manuscrito é um livro de papel, de i8o folhas, encader- 
nado em pastas de madeiras cobertas de couro. 

As folhas tem o",35oXo°',25o. A escrita de cada página está 
disposta em duas colunas, cada uma de 36 a 38 linhas. As fo- 
lhas não estão numeradas. 

A letra é de uma só mão, de boa e elegante grafia, do século xvi. 
A primeira letra do titulo do livro, e a primeira letra do texto de 
cada capitulo são floreadas. 

O titulo é (foi. I, r): 

Tomada da miiy Nobre Cidade de çepta per ElT^ey dom Joham 
ho primeiro do nome e dos Rex de portugall ho decimo Aos xxj 
dias do mes dagosto de mil e quatro cêtos e quinze aunos composta 



(i) Catalogo resumido da preciosa colecção de manuscritos da Casa Cadaval, por 
Martinho da Fonseca, Lisboa, 191 5, p. ig, extracto do Boletim da Sociedade de Biblio- 
philos Barbosa Machado. 



por Gomei ^'^"(-'^ <^'^ lurara Corouista Moor dos Reinos e Senhorios 
de portiigall. 

O começo é : 

Comcrussão he daristytoteks no segundo Liiiro. da natural 
ffilossoffm que ha natiireia começo do mouimento e de ffolguamça. 
E pêra dedaraçam desto Aprendamos que cada híia cousa tem cali- 
dade pela quall se moue no seu propio lugar . . . 

A crónica é dividida em io5 capítulos numerados seguida- 
mente. 

O fim é (foi. 1 8o, v) : 

E ffoy acabada esta obra na cidade de sylluys no reyno do 
algarue xxv dias de março. Quando andaua a era do mundo em 
myll e doiemtos e om^e anos "íRomãos e a era do deluuyo ... E a 
era de noso Síior Jlm Xpõ em mill e quatro centos e cimquoemta 
anos . . . e a era do prymeyro %ey que foy em portuguall em tre- 
lemtos e quoremta e oyto, e o ano do Reynado dellRey dom afomso 
quimto aos om^e anos e do{emtos e cimquo dias. 

Depois lia outras palavras, algumas das quais estão riscadas, 
mas ainda pode lêr-se : 

Escrita pêra os aos xx dagosto bcrxxxj. 

Depois de outras palavras riscadas, está escrito : 
Deo gr a tias. 




fí ri..vtr!>}í:n}r:^ k^'^ /i^-^TíM 






IMPRESSÕES 



A 



Crónica da tomada de Cepta teve até ao presente duas im- 
pressões; a edição de 1644, e a de 1899-1900. 



Edição de 1644. 

Esta edição foi feita em um livro do formato de quarto de 
folha; cada folha tem o^jayS Xo",i75. 

O livro tem no princípio seis folhas sem numeração, sendo a 
primeira a folha de rosto, na segunda estão impressas as licenças, 
e na 3.% 4/, S.'' e 6.* o prologo. 

O rosto é assim : 

Chronica dei Rey D. Joam I, de boa memoria e dos Reys de 
Portugal o decimo. Terceira parte em que se contem a tomada de 
Ceita. Offerecida á magestade dei Rey Dom João IV. N. Se- 
nhor de miraculosa memoria. Composta por Gomei Eannes d' Azu- 
rara, Chronista mór destes Reynos, e impressa na linguagem antiga. 

Segue-se uma vinheta com a imagem de Cristo crucificado, 
tendo aos lados : 

Anno de 1644. 

No fundo da página : 

Em Lisboa. Com todas as licenças necessárias. A custa de 
António Aluarei, Impressor dei Rey iV. S. 



A crónica está impressa em 142 folhas paginadas de i a 288; 
a escrita é disposta em duas colunas, cada uma de 36 linhas, e 
cada linha de 20 a 25 letras, ocupando tudo um rectângulo de 
o'",245xo'",i5o. Os caracteres são do typo redondo, excepto 
os títulos dos capítulos e os discursos que são em tipo itálico 
(elzevir). 

A crónica termina na página 283; nas páginas 284 a 292 é 
impressa a narração do Fallecimento dei Rey D. Joham o I; nas 
páginas 298 a 298, o Epitaphio da sepultura dei Rey D. Joarn o 
Primeiro; nas páginas 299 a 307, o Testajnento dei Rey Dom 
Joam o I; nas páginas 3o8 a 3i3 (não numeradas) é impressa a 
Tauoada dos capitulas contidos nesta chronica; enfim na página 3 14 
(não numerada} está impresso no alto o brazão de armas de Por- 
tugal usado no reinado dei rei D. João IV, e depois o seguinte: 

Com todas as licenças necessárias. 

Foy impressa esta chronica dei Rey Dom Joam o I de boa me- 
moria em Lisboa, Por António Aluarei Impressor dei Rey Nosso 
Senhor. Anno de 1644. Acabouse de imprimir esta chronica dei 
Rey Dom Joham o Primeiro de boa memoria a seis de Agosto de 
mil seiscentos e quarenta e quatro, dia da Transfiguraçam de nosso 
Senhor. 

Esta impressão foi feita por diligencia de D. Rodrigo da Cu- 
nha, bispo do Porto (i). 

Edição de iSgg-igoo. 

Esta impressão foi feita em livros do formato de 1 2° de folha ; 
e tem cada folha o"", 190X0",! 25 ; a crónica está impressa em 
três volumes, tendo o primeiro i53 páginas, o segundo 157 pági- 
nas, e o terceiro 127 páginas. 

A parte impressa é disposta em uma só coluna cada uma de 
34 linhas, e cada linha de 35 a 40 letras; e ocupa um rectângulo 

(1) José Correia da Serra, Colecção de inéditos de história portuguesa, tomo ii> 
p. 211. 



de o'",i4oXo'°,o84. Os caracteres são do tipo redondo, excepto 
os títulos dos capítulos, que são em tipo itálico (elzevir). 

Esta edição é a reimpressão da edição de 1644, tendo sido 
modernizada a grafia das palavras e a linguagem ; não tem pois 
valor filológico ; foi feita somente com o fim de vulgarizar a cró- 
nica. 

Esta edição faz parte da Biblioteca dos clássicos portugue- 
ses, publicada sob a direcção de Luciano Cordeiro e Melo de 
Azevedo. 




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APÊNDICE I 



DOCUMENTO VI— A 



i3 DE DEZEMBRO DE 1455 



DOM Aífomso pella graça de Deus Rey de Portugall e do Algarue e 
senhor de Çepta. A quantos esta carta virenn fazemos ssaber 
que dona abadessa do mosteiro de Vairam nos enujou dizer como 
as outras prelladas que ante ftbrom no dito moosteiro perderom algúas 
scripturas que perteeciam aos dereitos e foros delle. E que por quanto 
ssom mujto necessareas aa dita bordem que nos pedia que lhe mandásse- 
mos dar o trellado delias em publica ftbrma. E nos visto sseu dizer e 
pidyr querendolhe fazer graça e merçee mandamos a Gomez Eanes de 
Zurara comendador da bordem de Christos [e guarjda moor do cartoreo 
em que esta o tonbo destes [nossos] Regnos e nosso cronjsta que lhe desse 
o dito trellado per aluara que f[oy fec]to em esta cidade aos xij dias de 
Julho per man[dado de...] gill scripuam da fazenda. O quall Gomez 
Eanes em conprimento de nosso mandado íFez buscar o dito tonbo onde 
foy achado em húu liuro que foy das Jnquiriçoões dei Rey dom Afomso 
comde de Bellonha huúa uerba que diz assy. 

Hic jncipit jnquisitio que vocatur píjdillus parrochianorum ecclesie 
eiusdem loci. domjnjcus zote eiusdem ville. Juratus et jnterrogatus quot 
casalia sunt in ipsa villa pTjdilli dixit quod sunt .Ixxx.v.^ casalia popullata 
et sunt .x.™ casalia despopullata. Jnterrogatus quot sunt jn dominy Regis 
dixit quod audiuit dici quot sunt três partes tocius ville et quarta pars 
est mjlitum et monasteriorum. et dixit quod illi xiij casalia que fuerunt 
do[mi]ny Petri Pelagij troitizendis. sunt modo monasterij Vairam et filio- 
rum et nepotum predicti domnj Pelagij, et etc. (i). 

(i ) Esta verba está reproduzida nas Inquisitiones, Portugaliae Monumenta histórica, 
tom. I, p. 480. 



XCVIII 

E outra uerba que diz assy. 

Hic jncipit inquisitio ville que vocatur Zurara et parrochianorum pre- 
dicte ecclesie pinjdilli. dominicus rromany eiusdem loci juratus et jnterro- 
gatus quot casalia habentur in ipsa villa. dixit quod C. 1. j. et sunt inde 
domine Regis .Cxxiij. et sunt despopuUata .vij. et omnia alya ssunt popul- 
lata. et dixit quod dompna Maior egee habet ibi .xiij. casalia et .ij. due de 
maladia. Et Majore egitanie habet ibi .viij. casalia et Monasterium Vairam 
habet iby .vj. casalya et etc. (i). 

As quaaes scripturas assy achadas a dita dona abbadessa pidyu que 
lhe dessem o trellado em publica forma. E dito Gomez Eanes lho deu 
segundo no aluara dei Rey era contheudo. Dante na cidade de Lixboa 
xiij dias de dezembro. El Rey o mandou per o dito Gomez Eanes de 
Zurara. Anno do naçimento do nosso Senhor Jhesu Christo de mil! e 
iiij"^ Lb. — Gomez Eanes Comendador, pagou xbij rreaaes. 

Arquivo Nacional, Cartório do Mosteiro de Vairão, maço 1 1, n.° 28. 



(i) Esta verba está reproduzida nas Inquisitiones, Portugaliae Monumenta histórica, 
tomo I, p. 48 J. 






APÊNDICE II 



NOTICIA DA TOMADA DE CEUTA 

DADA POR ABRAHAM BEN SAMUEL ZACUTO 

ESCRITOR JUDEU NO PRINCIPIO DO SÉCULO XVI 

ABRAHAM ben Samuel Zacuto (i) nasceu em Salamanca pelos 
anos de 1450. Em razão dos seus grandes conhecimen- 
tos de cosmografia e astrologia foi mestre na universidade 
de Salamanca e depois na de Saragoça. Estando Zacuto ainda 
em Salamanca, pelos anos de 1478 a 1478 (2), compoz em hebreu 
uma obra, que intitulou Biiir Liihot, Origem das táboas, da qual 
existem três manuscritos, um na biblioteca de Lyon, outra na de 
Munich, e outro na de Vienna (3). Quando em 1492 os reis de 
Castela D. Fernando e D. Isabel lançaram fora dos seus reinos 
todos os Judeus, que neles havia, muitos em número superior a 
vinte mil famílias entraram em Portugal com licença dei rei 
D. João II, para se embarcarem daqui para outras terras (4) ; 
entre eles veio Zacuto com sua família, que parece ter estabele- 
cido a sua residência em Beja (5). 

(i) Isaac Broydé, em The Jewish Encyclopledia, vol. xii, New York and London, 
1907, p. 627. 

(2) Joaquim Bensaude, L' astronomie nautique au Portugal à 1'époque des grandes 
découvertes. Berne, 1912, p. 22 e i-j. 

(3) Joaquim Bensaude, L'astronomie nauttque, p. 57. 

(4) Ruy de Pina, Chronica dei rei D. João II, cap. lxv ; Damião de Góes, Chro- 
nica dei rei D. Manuel, primeira parte, cap. x. 

(5) Gaspar Correia, Lendas da índia, lenda de Vasco da Gama, cap. iii, (tomo i, 
p. 10). 



Em 1439 el rei D. João II mandou dar a Ahraham Zacuto, 
astrólogo, dez espadins de ouro (i); o mandado de pagamento (2), 
datado de Torres Vedras, de 9 de junho de 1493, tem a assina- 
tura dei rei D. João II, e mais abaixo, em sinal de ter recebido 
aquela quantia, a de Abraham Zacuto em caracteres rabínicos; 
o mandado é do teor seguinte : 

Ruy Gill mamdamosuos que dees a Raby abraão estrolico dez 
espadijs douro que lhe mamdamos dar. E asemtarom em vosso 
caderno pêra voUo depois asynarmos. fejto em torres vedras a 
ix dias de Junho, pêro lomelim o fez de mil iiij'^1 Riij [annos]. Rey. 

"i2r-' Tipwma pirn na? nnnsíí '1^ (3). 
Pêra Ruy Gill que dee a Raby Abrão x espadins pêra o caderno. 

No verso: Alvará dei Rey para se darem a Raby Abrahão 10 espadins de ouro de 
mercê, a 9 de junho de 1493(4). 

Não se sabe que serviço Abraham Zacuto prestou a el rei 
D. João II, pelo qual lhe fez esta mercê; mas a denominação de 
astrólogo (estrolico) faz presumir que o serviço prestado tinha 
relação com a astrologia ; e é lícito supor que talvez fosse a indi- 
cação do método de determinar em qualquer dia do ano o logar 

(i) D. João II fez lavrar espadins de ouro, cujo valor era Soo reais. (Fr. Joaquim 
de Santa Rosa Viterbo, Elucidário, tomo i, Lisboa, i865, p. 295, s. v.). 

(2) Memórias da literatura portuguesa, tomo 11, p. 363; Sousa Viterbo, Trabalhos 
náuticos dos Portugueses, Lisboa, 189S, i, p. 326-327, n, p. 285. 

(3) Pontuando as palavras e desfazendo a abreviatura : 

ín^*n-;i ínn^ii '^nn')aii5'; 'nb'^in^. pwíi ir^ia? ^ttoá "lan^ 

«Do rabino Abrahão Zacut, astrónomo do Rei, seu Creador o conserve e mante- 
nha em vida.» (José Benoliel). 

A palavra «in significa propriamente explorator, inspector (Prov. 16, 2; 21,2); e 
foi traduzida por matemático por Ribeiro dos Santos. Neste documento corresponde 
certamente a estrolico. 

As três letras finais "i^n são as iniciais da oração usada sempre depois da assina- 
tura. Sobre a abreviatura veja-se Dalman, Aramaisch-neuhebraisches Worterbuch, 
Frankfurt a. M., 1901, anhang Lexikon der abbreviaturen, 1897, p. 5i. 

(4) Arquivo Nacional, Corpo Cronológico, parte i.', maço 2.°, doe. 8. 



do sol na eclítica (longitude) e a sua declinação, para o que se 
serviria das táboas do seu livro Biur Luhot; e que lhe daria uma 
cópia do mesmo livro, o qual, depois de traduzido em latim por 
José Vezinho, foi impresso em Leiria em 1496, e publicado sob 
o título de Almanach perpetinim (i). 

Gaspar Correia nas Lendas da índia (2) deu algumas notícias 
àcêrca dos trabalhos de Zacuto durante a sua permanência em 
Portugal, e que êle declara terem sido escritas em i56i (3); estas 
notícias são em resumo o seguinte. 

El rei D. Manuel, no começo do seu reinado (i4g5-i52i), 
querendo levar a efeito o descobrimento da índia, cujos prepara- 
tivos já começara el rei D. João II, e como era muito inclinado à 
astrologia (estrolomia), mandou chamar a Beja um judeu muito seu 
conhecido, que era grande astrólogo, chamado Zacuto (Çacuto) ; 
e falando com êle em segredo, encarregou-o de saber se o acon- 
selhava a empreender o descobrimento da índia. O judeu tornou 
para Beja, e depois de fazer as suas diligências, voltou a el rei, 
e o informou, que a província da índia era muito afastada de 
Portugal, separada por longas terras e mares, povoada de gente 
preta, e em que havia muitas riquezas e mercadorias, que cor- 
riam por diversas partes do mundo ; e lhe pronosticou que el rei 
descobriria a mesma índia, e em breve tempo submeteria ao seu 
domínio grande parte dela. El rei deu-lhe os agradecimentos 
por tão boas novas, e mandou-lhe que de tudo guardasse segredo. 
El rei D. Manuel fez capitão dos navios, em que mandou fazer o 
descobrimento da índia, a Vasco da Gama, o qual antes de sair 
de Lisboa falou a sós com o judeu Zacuto, o qual lhe deu muitas 



(i) Desta preciosíssima obra existe um exemplar na Biblioteca nacional de Lis- 
boa, reservado n " 169; e foi descrita por António Ribeiro dos Santos nas Memórias 
da literatura portuguesa, tomo iii, p. 363-366. 

(2) Gaspar Correia nasceu nos fins do século xv, embarcou para a índia em i5i2, 
na armada de que era capitão Jorge de Melo Pereira, regressou ao reino, passando os 
anos de i526 a 1529 em Lisboa ; voltou de novo para a índia, e faleceu em Goa, não se 
sabe ao certo o ano, mas entre i56i e i583. 

(3) Lendas da índia. Lenda de João da Novaj cap. viii (tom. i, p. 265). 



CII 

instruções para o que havia de fazer no caminho (i). Vasco da 
Gama partiu de Lisboa a 25 de março de 1497, ^ depois de che- 
gar a Calicut, na índia, regressou ao reino em setembro de 
1499 (2). El rei D. Manuel, porque era muito inclinado à astro- 
logia (estrolomia) praticava muitas vezes com o judeu Zacuto; e 
no ano de i5o2, depois da chegada da armada de João da Nova, 
que fora à índia, não tendo encontrado em seu caminho tempo- 
ral contrário, do que os pilotos não sabiam dar razão, Zacuto 
explicou a el rei que a causa disto era a diversidade da época 
das estações do ano, conforme os lugares, em que navegavam, 
eram situados ao norte ou ao sul da linha equinocial ; e infor- 
mou-o de que êle tinha feito observações àcêrca da declinação 
do sol para o norte e para o sul da linha equinocial, e de quanto 
tempo andava para um e outro lado da mesma linha, e até onde 
chegava ; e que de tudo fizera um regimento, em que se decla- 
rava, quanto em cada dia o sol estava afastado da linha equino- 
cial; de tal modo que os navegantes, que em qualquer parte 
tivessem vista do sol ao meio dia, ou de noite vissem a estrela 
do norte, e fazendo conta com a declinação do sol, saberiam o 
logar em que estavam, e navegariam por todo o mar. El rei 
D. Manuel encarregou-o de continuar os seus trabalhos, prome- 
tendo fazer-lhe muitas mercês. Zacuto fez um regimento da 
decUnação do sol para o período de quatro anos, de um bisexto 
até ao seguinte, por meses e dias, de quanto anda o sol cada 
dia, contando de meio dia a meio dia, tanto para a banda do 
norte da linha equinocial como para o sul da mesma linha. Fez 
também um instrumento de lâmina (pasta) de cobre com suas 
divisões e régua (alidade), ao qual deu o nome de estrolabio^ por 
meio do qual se tomava a altura do sol. O mesmo Zacuto ensi- 
nou a alguns pilotos, que el rei designou, a maneira de tomar 
com o astrolábio a altura do sol ao meio dia, e de fazer a conta 

(i) Gaspar Correia, Lendas da índia, LenJa de Vasco da Gama, cap. iii, (tom. 1, 

p. 9-M). 

(2) Idem, ibidem, cap. in e xxi (tom. i, p. i5 e i38). 



cm 



(calculo) do logar da observação pelas taboadas do regimento; 
e deu também umas cartas grandes com riscos de cores diferen- 
tes com os nomes dos ventos ao redor da estrela do norte, a que 
poz o nome de agulha de marear. Emfim o mesmo Zacuto ensi- 
nou também a maneira de tomar o ponto, em que se estava, 
pela estrela do norte, para servir quando o sol estivesse enco- 
berto. El rei D. Manuel teve por tudo isto grande contenta- 
mento, e fez ao judeu Zacuto grandes mercês. O mesmo Zacuto 
fugiu depois de Portugal com outros muitos judeus, e foi para 
Gulfó [var. Julfo) (i), onde morreu em sua erronia (2). 

Estas noticias àcêrca de Zacuto, escritas por Gaspar Correia 
em i56i na índia, sessenta anos depois dos acontecimentos que 
referem, quando já todas as pessoas que tiveram parte neles ou 
os presencearam, eram falecidas, e em logar tão distante de Por- 
tugal, onde poucos fidalgos ou pilotos portugueses haveria que 
os tivessem ouvido contar em primeira voz, tem um carácter 
pronunciadamente lendário, e parecem ter sido muito desfigura- 
das por confusão das pessoas e dos acontecimentos. Com efeito 
nem na Historia do descobrimento e conquista da índia pelos Por- 
tugueses por Fernão Lopes de Castanheda, nem nas Décadas da 
Ásia por João de Barros, nem nas Crónicas dei rei D. João II 
por Rui de Pina e Garcia de Resende, nem na Crónica dei rei 
D. Manuel por Damião de Góes, se faz alusão ao regimento da 
altura do sol e ao astrolábio, que Gaspar Correia escreveu que 
tinham sido feitos por Zacuto, nem aos seus ensinamentos sobre 
a navegação dados aos pilotos portugueses. 

Alguns escritores portugueses do século x\i conservaram a 
memória das pessoas, com as quais el rei D. João II e D. Ma- 
nuel determinavam os assuntos, que diziam respeito à navega- 
ção, à comosgrafía e aos descobrimentos marítimos; mas entre 
eles não é nomeado Zacuto. 

(1) Golete, próximo de Tunes (?). 

(2) Gaspar Correia, Lendas da índia, Lenda de João da Nova, cap. viii (tom. i 
p. 261-295). 



o P. Francisco Álvares, na Verdadeira informação das terras 
do Preste João, impressa em Lisboa em i 540, diz (cap. Ciij) que 
em Ethiopia Pêro da Covilhã lhe contara, que quando el rei 
D. João II o despachara a êle e a Afonso de Paiva, a 7 de maio 
de 1487, lhes dera uma carta de marear, tirada do mapamundo, 
e que foram presentes ao fazer desta carta o licenceado Calça- 
dilha, que depois foi bispo de Vizeu, o doutor mestre Rodrigo, e 
o doutor mestre Moisés, que aquele tempo era judeu, e que a 
carta fora feita em casa de Pêro de Alcáçova. 

João de Barros, que foi feitor da casa da Mina, conta (Dé- 
cada I, liv. IV, cap. 11), que el rei D. João II, quando se aplicou a 
continuar os descobrimentos marítimos, começados pelo infante 
D. Henrique, encomendou o negócio da navegação a mestre 
Rodrigo, a mestre Josepe judeu, e a Martim de Bohemia, que se 
gloriava de ter sido discípulo de João de Monteregio, os quais 
acharam a maneira de navegar por todo o mar, e de determinar o 
logar do navio tomando a altura, do sol pelo astrolábio, e que fize- 
ram taboadas da declinação do sol. O mesmo João de Barros conta 
(Década i, liv. iii, cap. xi), que el rei D. Manuel cometia as cousas 
que diziam respeito à cosmografia e aos descobrimentos maríti- 
mos a D. Diogo Ortiz, bispo de Cepta, mestre Rodrigo e mestre 
Josepe. Emfim Fernão Lopes de Castanheda na História do des- 
cobrimento e conquista da índia pelos Portugueses (liv. i, cap. 11) 
diz que el rei D. Manuel, assim como sucedeu no reino a el rei 
D. João II, assim também lhe sucedeu nos desejos que tinha de 
descobrir a índia ; e logo aos dois anos depois do começo do seu 
reinado entendeu no seu descobrimento, para o que lhe aprovei- 
taram muito as instruções que lhe ficaram dei rei D. João II, e 
seus regimentos para esta navegação. 

O licenceado Calçadilha era D. Diogo Ortiz de Vilhegas, que 
foi sucessivamente bispo de Tanger, de Ceuta e de Vizeu (i); 

(i) D. Diogo Ortiz de Vilhegas era natural de Calçadilha, no reino de Leão; foi 
filho de D. Afonso Ortiz de Vilhegas, de quem descendem em Castela os Marquezes de 
Vilar, e de D. Maria da Silva. Veiu para Portugal como confessor da princesa D. Joana, 



— cv — 

mestre Rodrigo era físico ; e mestre Josepe era o judeu José Vizi- 
nho, físico dcl rei D. João II, que, como já se disse, traduziu do 
hebreu em latim o livro Biiir Luhot de Zacuto, que foi impresso 
em Leiria em 1496, e publicado sob o título de.Almanach perpe- 
tuiim. E de presumir que as táboas do logar do sol na eclítica 
(longitude) e as da declinação, que faziam parte dos regimentos 
dados aos pilotos portugueses, fossem extraídas do Alvianach 
perpetiium, e que a isso se limitasse a interferência de Zacuto 
nos descobrimentos marítimos dos Portugueses. 

Em 1496 el rei D. Manuel, cedendo às solicitações dos reis 
de Castela, D. Fernando e D. Isabel, mandou sair de Portugal 
todos os judeus que se não convertessem a religião cristã (i). 



conhecida na história pelo título de Excelente senhora , e foi muito estimado dos reis 
D. João II e D. Manuel. 

Em 7 de maio de 1487, quando el rei D. João II despachou Pêro da Covilhã e 
Afonso de Paiva, que mandava a descobrir as terras do Preste João e a índia, deu-lhes 
uma carta de marear, tirada do mapamundo, que foi feita em casa de Pêro de Alcá- 
çova, sendo presentes o licenceado Calçadilha (D. Diogo Ortiz de Vilhegas), que depois 
foi bispo de Vizeu, o doutor mestre Rodrigo, morador às Pedras Negras, e o doutor 
mestre Moisés, a esse tempo judeu. (Francisco Alvares, Verdadeira informação das 
terras do Preste João, cap. ciii). 

Em 1491 el rei D. João II deu a D. Diogo Ortiz de Vilhegas o cargo de prior do 
Mosteiro de S. Vicente de Fora, e o nomeou bispo de Tanger; nesse mesmo ano el rei 
o encarregou, conjuntamente com mestre Rodrigo e mestre Josepe judeu, de examinar 
os planos de navegação que lhe viera propor Cristovam Colombo. Por carta de 11 de 
novembro de 1494 foi nomeado provedor mor de redenção dos cativos, e capelão mor 
da capela que nessa ano ordenara. Em zq de setembro de 1495 assistiu em Alvor à 
morte dei rei D. João II, o qual tanto confiava dele, que em seu testamento recomendava 
ao duque de Beja (el rei D. Manuel}, que no cumprimento dele se aconselhasse com 
D. Diogo Ortiz de Vilhegas. 

D. Diogo Ortiz foi transferido do bispado de Tanger para o de Ceuta ; não se sabe 
ao certo o ano, mas foi antes de i3 de março de 1S04; e por bula de 27 de junho de 
1405 foi nomeado bispo de Vizeu. El rei D. Manuel o encarregou do ensino e educa- 
ção de seu filho o princepe D. João depois rei. D. Diogo Ortiz de Vilhegas faleceu em 
Almeirim em iSiq, e foi sepultado no convento de Santa Maria da Serra da ordem de 
S. Domingos. Era considerado no seu tempo por letrado muito instruído e grande 
teólogo ; escreveu : História da paixão segundo os quatro Evan>{elistas, e Rudium 
cathecismum pentadecadeni, pequeno catecismo da doutrina cristã ; e ambas estas obras 
foram impressas. (Visconde de Paiva Manso, História eclesiástica ultramarina, tomo i, 
Lisboa, 1872, p. 40-42 e 62-65). 

(i) Damião de Góes, Crónica dei rei D. Manuel, primeira parte, cap. xviii, xx e xxi. 



Zacuto com seu filho Samuel saiu do reino, provavelmente em 
1497, ^ passou a Tunes, onde viveu alguns anos. Em i5o4, 
Zacuto, durante a sua residência em Tunes, escreveu uma obra, 
que intitulou Sefer ha-Juhasm, Livro de genealogias, compreen- 
dendo a história cronológica dos Judeus, desde a creação do 
mundo até i5oo. Quando os Castelhanos tomaram a cidade de 
Tunes, Zacuto abandonou a mesma cidade, e passou a Turquia, 
onde viveu até ao seu falecimento, que foi depois de i5io. 

O Sefer ha-Juhasin foi publicado por Samuel Salom, com 
muitas omissões e adições suas, em Constantinopla, em i566; e 
foi reimpresso em Cracóvia em i58o; em Amsterdam em 17 17; 
em Kõnigsberg em 1857; a edição completa da mesma obra foi 
publicada em Londres em 1857. 

Zacuto, no seu livro Sefer ha-Juhasin, faz menção da tomada 
de Cepta por el rei D. João I nos seguintes termos (ed. de Cra- 
cóvia, 1 58o, foi. i34,a)(i): 

niiuT' 11DM m p D12D ^Ti b:' ri':s5 iiuí* vcdTO 
diu sp^-iDST i<i^Vt2i22p V^ ^Dmwn "lapn wj, 

sti^piuiapia 1X3 niiDíí D-iiin-^m ■D■'01D^<rl í:spia 

«E no ano de [5] 175 [E. M.], D. João, rei de Portugal, tomou 
a cidade de Cepta, a qual foi edificada por mão de Sem, filho de 
Noé; ella está situada no mar do Estreito, que faz a separação 
entre Castela e África; e ali a largura do mar é de três parasan- 
gas; dizem, que [el rei D. João] a tomou, porque recebeu os per- 
seguidos e os Judeus de Castela. E [D. João] reinou oitenta 
anos.» 

(i) A cópia desta passagem, com tradução inglesa, foi-nos comunicada obsequiosa- 
mente pelo sr. L. D. Barnet, conservador (Keepei) da secção de livros orientais, im- 
pressos e manuscritos, do Museu Britânico. 



CVII — 

Esta passagem foi citada, mas truncada, por M. Kayserling 
na sua História dos Judeus em Portugal (i). 

Esta notícia merece especial consideração por ser dada por 
um escritor estrangeiro, que residiu alguns anos em Portugal; 
contudo as informações que contem necessitam de explicação. 

I .* Zacuto reíere-se à tradição, segundo a qual a cidade de 
Cepta foi fundada por Sem, filho de Noé. Gomes Eannes de 
Zurara na Crónica da tomada de Cepta (cap. ii) diz que Ahilavez 
(Abul Abbas), escritor árabe, conta que a cidade de Ceuta foi 
fundada por Sem, neto (sic) de Noé, 282 anos depois do dilúvio, 
isto é, no ano 559 + 233 = 792 E. M. 

2." Zacuto informa, que o estreito do mar, que faz a separa- 
ção entre Castela e Africa, tem a largura de três parasangas. 
Segundo Maçudi e Yacut, o grau de globo terrestre valia 2 5 para- 
sangas (2) ; e tomando para comprimento do grau o valor 1 1 0800°, 
a parasanga valia 4432™. A largura do estreito era pois de 
13296™, segundo a estimativa dos marinheiros do século xv (3). 

2i.'' Zacuto informa que D. João, rei de Portugal, tomou a 
cidade de Cepta porque recebeu os perseguidos e os Judeus de 
Castela. A palavra d-iDí:^, que L. D. Barnet traduziu por j^eríÉ?- 
cuted, segundo J. Benoliel diz-se dos Judeus portuguezes, hespa- 
nhois, etc. que foram obrigados a converter-se ao cristianismo. 
Em arameu 03^* significa arrancar, arrebatar, forçar, obrigar (Dal- 
man, Aramãiches-neuhebrãisches Worterbuch, s. v.). Não nos foi 
possível averiguar, que gentes quiz Zacuto designar pela palavra 
COijí*; Gomes Eannes de Zurara somente menciona entre os 
estranjeiros que vieram oferecer-se a el rei D. João I no tempo, 
em que preparava a frota para ir contra a cidade de Ceuta, um 

(i) Geschichte der Juden in Portugal, vou Dr. M. Kayserling, Berlin, iS^iy, p. 44, 
nota I. 

(2) Decourdemanche, Note sur Vestimation de la longueur dii dégré terrestre, no 
Journal Asiatique, xi série (ioi3j, turno 1, p. 431-432. 

(3) A largura mínima do Estreito de Gibraltar, entre a Punta Canales e a Punta 
Cires, é de i3 kilómetros. (Vivien de Saint-Martin, Nouveau Dictionaire de góogra- 
phie univerxelle, tomo 11, Paris, 1884, s. v. Gibraltar Detroit. 



grande duque de Alemanha e um barão (cap. xxxiij), três grandes 
fidalgos da casa (rial) de França (cap. xxxiij), um rico cidadão de 
Inglaterra (cap. 1); e também foi na frota um inglês criado da 
rainha D. Filipa. Quanto aos Judeus, que por aquele tempo 
vieram de Castela para Portugal, nenhuma notícia encontramos; 
é pois possível que Zacuto tenha confundido os sucessos do rei- 
nado dei rei D. João II com os de D. João I, e mencionasse os 
Judeus entre as gentes que tomaram parte na tomada de Ceuta, 
levado do zelo de exaltar a gente da sua nação. 

4.^ Como Kayserling já observou (i), a indicação dada por 
Zacuto, relativa à duração do reinado dei rei D. João I, é inexacta ; 
e por isso propoz, que em vez de phe (S5 = 80), se leia nun (d= 5o), 
pois que D. João I reinou cerca de cincoenta anos, desde 6 de 
abril de i385 a 14 de agosto de 1483, em que faleceu na idade 
de setenta e seis anos. 



(t) Geschichte der Juden in Portugal, von Dr. M. Kayserling, Berlin, 1867, p. 44, 
nota I. 








índice das matérias 



Pâg 

Introdução v 

Vida de Gomes Eannes de Zurara vii 

Manuscritos lxxv 

Impressões xcm 

Apêndice I. — Documento VI-A — i3 de dezembro de 1455 xcvii 

Apêndice II — Noticia da tomada de Ceuta dada por Abraham Ben Samuel Zacuto, 

escritor judeu no princípio do século xvi xcix 



TABOADA DOS CAPÍTULOS 

Prologo. Capitullo primeiro 3 

O principio da estoria. Capitullo ij 8 

Como o autor declara as rrezões por que esta força foy começada tam tarde. Ca- 
pitullo iij II 

Da tenção que elRey ouue de mandar rrequerer as pazes a Castella. Capi- 
tullo iiij 14 

Como os embaxadores forom a Castella e da rresposta que ouuerom. Capitullo v. 16 

Como os embaxadores tornarem de Castella. e como as pazes forom deuulgadas 

per todallas partes do rregno. Capitullo vj ig 

Como elRey Dom Joham enuiou rrequerer ao Iffante Dom Fernando a conquista 

de Grada. Capitullo vij 23 

Como elRey tinha vontade de fazer grandes festas em Lixboa pêra fazer seus 
filhos caualeiros. e como os Iffantes falaram acerqua dello antre sy que seme- 
lhante maneira de cauallaria nam era honrrosa pêra elles. Capitullo viij . . 24 

Como Joham Aflbnso veedor da fazenda falou aos Iffantes na cidade de Cepta e 

como os Iffantes falaram a seu padre. Capitullo ix 26 

Como elRey disse que nam queria detreminar nenhuúa cousa daquelle feito ata 
que soubesse se era seruiço de Deos de se fazer e como mandou chamar os 
letrados pêra o saber. Capitullo x 3o 



— cx 

Pág. 

Como os letrados tornaram com rreposta a elRey dizendo que era seruiço de 

Deos de se tomar a cidade de Cepta. Capitullo xj 34 

Como elRey moueo outras duviidas que tijnha pêra filhar aquells cidade. Capi- 
tullo xij 38 

Como os Iffantes fallaram amtre ssy açerqua daquellas duuidas e da rreposta 

que trouuerom a elRey. Capitullo xiij 42 

Em como elRey mamdou chamar o IfFamte Dom Hamrrique, e das rrezoões que 

lhe disse, e como determinou de hir tomar a cidade. Capitullo xiiij .... 46 

Como o Iffamte Dom Hamrrique leuou as nouas a seus jrmaãos e do gramde 

prazer que ouueram. Capitullo xv 48 

Como elRey mandou chamar o priol do Esprital e o capitam e do que lhes disse 

que auiam de fazer. Capitullo xvj 5 1 

Como o prioll e o capitam partiram de Lixboa e da embaxada que leuauam e 

das cousas que fezerom em sua uiagem. Capitullo xvij 54 

Como os embaxadores tornaram e da rreposta que trouueram. Capitullo xviij. 58 

Como elRey disse a seus filhos que duuidaua mujto começar aquelle feito, amte 

de o saber primeyramente a Rainha e o comdestabre. Capitullo xix 60 

Como a Rainha fallou a elRey no rrequerimento de seus filhos, e da rreposta 

que lhe elRey açerqua dello deu. Capitullo xx 62 

Como elRey pollo presemte nom quis determinar aa Rainha que elle auia de 
hir em aquelle feito, e como loguo mamdou emcaminhar as cousas que per- 
teeçiam pêra a frota. Capitullo xxj 66 

Como elRey e os Iffamtes determinaram a maneyra per que sse auia de fallar ao 

comde naquelle feito, e como lhe foy fallado e per que guisa. Capitullo xxij . 68 

Como elRey começou dauiar mais trigosamente sua hida, e como os Iffamtes 
tornaram dEuora, e como sse os Iffamtes Dom Pedro e Dom Hamrrique par- 
tiram pêra suas terras e das cousas que lia fezerom. Capitullo xxiij 72 

Como sse os Iffamtes forom todos três a Samtarem, e da maneyra que teueram 
em seu caminho, e do que fallaram a seu padre tamto que forom homde elle 
estaua. Capitullo xxiiij 74 

Como elRey mamdou chamar os do seu comsselho, e como os Iffamtes torna- 
ram aa corte, e das cousas que o Iffamte Dom Hamrrique rrequereo a seu 
padre. Capitullo xxv. 76 

Como elRey tomou juramento aos do comsselho, e per que guisa, e das palla- 

uras que lhe disse acerca de seu propósito. Capitullo xxvj 78 

Como o comdestabre rrespomdeo primeiro em aquelle comsselho, e das rrezões 
que disse, e como ho IfFamte Duarte e seus jrmaãos rresponderom e per 
que maneira. Capitullo xxvij 81 

Como elRey teue comsselho sobre ho emcubrimento daquelle propósito, e como 
foi determinado que mandasse desafiar o duque dOlamda, e a maneyra que 
elRey teue naquelle desafio. Capitullo xxviij 83 

Como Fernam Fogaça tornou com a rreposta de sua embaxada, e como sse as 
cousas passaram açerqua do corregimento da frota em quamto elle fez sua 
uiagem. Capitullo xxix 87 

Como elRey escpreueo aos fidallguos que sse fezessem prestes pêra hirem com 
seus filhos, e do gramde trafego que emtom era no rregno açerqua daquelle 
corregimento. Capitullo xxx 90 

Como em Castella ouueram estas nouas, e do comsselho que açerqua dello teue- 



— CXI — 

Pág. 

ram, e como determinaram demuiar a elRey seus embaxadores pera firma- 
rem as pazes. Capitullo xxxj 93 

Como aquelles embaxadores uieram a Portugall, e como deram aquella emba- 
xada a eIRey, e da rreposta que ouuerom, e como Dia Samchez morreo, e 
como sse o bispo tornou pera sua terra. Capitullo xxxij 97 

Como elRey dAragam emuiou seus embaxadores a elRey, e da rreposta que leua- 
rom, e como em este tempo uieram algúus estramgeiros offereçersse a 
elRey, e da maneira que com elles teue. Capitullo xxxiij loi 

Como os embaxadores delRey de Graada uieram a elRev, e do que lhe rreque- 
reram, e como traziam rrecado delRey ao Iffamte Duarte, e das cousas que 
lhe promettiam. Capitullo xxxiiij io5 

Como o Iffamte Dom Hamrrique ueo depois de janeiro fallar a seu padre, e 
como sse tornou pera o Porto, e da maneira que teue em sua armaçom. Ca- 
pitullo XXXV 109 

Como elRey escpreueo ao Iffamte Dom Hamrrique que partisse com sua frota, 

e como o Iffamte partio, e a hordenamça que leuaua. Capitullo xxxvj ... ii3 

Como Affomso Eannes chegou aos Iffamtes com as nouas da doemça da Rainha, 
e como por aquelle aazo aquelle gramde prazer em que estauam, foi tor- 
nado em tristeza. Capitullo xxxvij 116 

Como elRey disse aa Rainha determinadamente sua emtemçom, e da rreposta 
que lhe a Rainha deu, e como por aazo algúus que alli adoeceram de 
pestenemça elRey partio pera o moesteiro dOdiuellas, e como a Rainha 
ficou pera acabar suas deuaçoões, e como em aquelle dia adoeçeo. Capi- 
tullo XXXviiij ijj 

Como o Iffamte Dom Hamrrique e o comde Dom Affomso chegaram a Odiuellas, 

e como sse a door acreçemtou na Rainha. Capitullo xxxix 122 

Como a Rainha auia uerdadeiro conhecimento da sua morte, e das obras que 

açerqua dello fazia, e como deu o lenho da cruz a seus filhos. Capitullo R. i25 

Como a Rainha deu as espadas aos Iffamtes, e das rrezoões que lhes disse a cada 

húu, quando lhe daua a sua espada. Capitullo Rj 126 

Como a Rainha tomou a fallar outra uez ao Iffamte Duarte, e lhe emcomemdou 
os Iffamtes seus jrmaãos e Briatiz Gomçalluez de Moura e Meçia Vaaz sua 
filha, e assy todallas outras suas cousas. Capitullo Rij 129 

Como o Iffamte Dom Pedro rrequereo aa Rainha, que fosse sua merçee de lei- 
xar suas terras aa Iffamte sua jrmãa, e como lhe forom outorgadas. Capi- 
tullo Riij i32 

Como os Iffamtes pidiram a elRey que sse partisse dalli, e do comsselho que 
açerqua dello teueram, e as uisoões que a Rainha uio amte de sua morte. 
Capitullo Riiij i34 

Como a Rainha foy comumgada e humgida, e como fez fim do derradeiro termo 
de seus dias, e como o autor diz que em ella auia compridamente todallas 
quatro uirtudes cardeaaes. Capitullo Rv i38 

Como ho autor faz deuisom das uirtudes, e como diz que sse os Iffamtes pani- 

ram daquelle moesteyro pera Restello. Capitullo Rvj 141 

Como os Iffamtes teueram seu comsselho açerqua dos feitos primeiros, e como 
forom falliir a elRey, e tornarora outra uez a teer comsselho aaquella aldeã. 
Capitullo Rvij 144 

Como os Iffamtes e três dos outros do comsselho tornaram a fallar a elRey em 



a determinaçam de seus acordos, e das rrezoões que elRey açerqua dello 
disse, e como finallmente determinou a partida. Capitullo Rviij 147 

Como sse os líTamtes tornarom a Restello, e do auiamento que derom a todallas 

cousas que perteeçiam a sua uiagem. Capitullo Rix 149 

Como elRey partio dAlhos Vedros na gallee do comde de Barçellos, e sse ueo 
lamçar a Restello, e como no dia seguimte se foy com sua frota amcorar 
açerqua de samta Caierina. Capitullo L i52 

Como elRey em aquelle dia que partio fez sua oraçom muy deuotamente, e das 

cousas que em ella pidio. Capitullo Lj .... i55 

Como o meestre frey Joham Xira preegou amte a uista de todo o pouoo, e das 

rrezoões que disse. Capitullo Lij i56 

Como o meestre pruuicou a cruzada, e como per sua autoridade assolueo todos 

de culpa e pena. Capitullo Liij 160 

Como elRey partio de Lagos e sse foy a Faaram, e como dalli seguio seu cami- 
nho ataa que chegou com toda sua frota amte as Aljaziras. Capitullo Liiij . 1G4 

Como a frota chegou toda ante as Aljaziras, e como aly veo Pêro Fernan- 
dez Portocarreiro e os mouros de Gibaltar trazer seruiços a elRey. Capi- 
tullo Lv i65 

Como elRey teue conselho se leuaria logo sua frota sobre a cidade, e como aly 

Paro Fernandez mandou enforcar hum almogauere de Graada. Capitullo Lvj. 168 

Como elRey mandou passar as gallees da outra parte de Barbaçote, e do conse- 
lho que elle teue. Capitullo Lvij ... 169 

Como o autor falia nas grandes diuisoões que auia antre os mouros da cidade, 

e das cousas que uconteçerom no outro anno passado. Capitullo Lviij. . . 171 

Como a frota por azo da tormenta tornou outra vez aas Aljaziras, e como ao 

dobrar o cabo dAlmina as gallees forom em grande prigo. Capitullo Lix. . 174 

Da maneira que os mouros teuerom depois que a frota partio, e como se em ello 
pode consirar que Deos soomente foi aquelle que trouxe a fim da vitoria. 
Capitullo Lx 176 

Da visam que Fernam dAluarez Cabral vio açerqua do acontecimento do Iffante, 

e das rrezões que sçerca delo dezia. Capitullo Lxj 178 

Como elRey teue seu conselho se tomaria outra vez sobre a cidade de Capta, e 

das rrezoões que se no dito conselho passaram. Capitullo Lxij 180 

Como os outros do conselho disserom a terceira rrezam, e como por elRey foy 
determinado a ponta do Carneiro que queria jr sobre a cidade de Cepta. 
Capitullo Lxiij i83 

Como elRey ajmda teue comsselho açerqua do filhar da terra homde seria, e 

das rrazoões que disse ao Iffamte Dom Hamrrique. Capitullo Lxiiij i85 

Como a frota partio pêra hir sobre a cidade de Cepta, e das rrazoões que os es- 
cudeiros do Iffamte Dom Hamrrique ouuerom com elle. Capitullo l.xv . . 187 

Como o Iffamte Dom Hamrrique rrespomdeo aquelles escudeiros, e como a frota 

chegou dauamte a cidade. Capitullo Lxvj 189 

Como os da frota traziam per essa meesma guisa lume per sseus nauíos, e das 

temçoões que amtre ssi auiam. Capitullo Lxvij 190 

Como no dia seguimte os mouros e os christaãos trabalhauam em seus feitos. 

Capitullo Lxviij 193 

Como eIRey mamdou aparelhar huCa galleota, em que amdou auisamdo todoUos 

capitaães da frota da maneira que ouuessem de teer Capitullo Lxix. ... 195 



CXIII 

Pág. 

Como Çalla bem Çalla estaua muy anoiado, ueemdo como a determinaçam del- 

Rey de todo era filhar terra amte os muros de sua cidade. Capitullo Lxx . 197 
Como Martim Paaez capellam moor do Iffamte Dom Hamrrique fallou alguuas 

rrezoões em presemça de todos. Capitullo Lxxj 199 

Como o batell de Joham Fogaça foy o primeiro que sayofora, e como Ruy Gom- 

çalluez filhou primeiramente terra e desi todollos outros. ' Capitullo Lxxij . 202 
Como as nouas chegaram a Çalla bem Çalla de como os christaãos eram demtro 

na cidade. Capitullo Lxxiij 2o5 

Como os Iffamtes partiram dally, e das rrazoões que lhe Joham Affomsso ueedor 

do fazemda disse quamdo chegou a elles. Capitullo Lxxiiij 207 

Como o Iffamte Duarte foi filhar a altura do Cesto, e o IflTamte tornou aa rrua 

dereita. Capitullo Lxxv 209 

Como elRey e o IfFante Dom Pedro com todollos outros daquella frota filharam 

terra, e como Gonçallo Lourenço de Gomide foy caualeiro chegando aa 

porta da cidade. Capitullo Lxxvj 211 

Do gramde trafego que auia na cidade, e da maneira que os mouros lijnham em 

seu defemdimento. Capitullo Lxxvij 2i3 

Como o Iffamte Dom Hamrrique tornou aa rrua dereita, e das cousas que alli 

fez. Capitullo Lxxviij 214 

Como o Iffamte pelleiou alli muy gramde pedaço, e como Fernam Chamorro 

foy derribado. Capitullo Lxxix 216 

Como o Iffamte ali esteue duas oras amtre aquelles muros, e das rrezoões que 

o autor poõe açerqua de sua fortelleza. Capitullo Lxxx 219 

Como todos pemssauam que o Iffamte era morto, e como nehúu nom ousaua de 

passar aaquella porta com temor dos mouros, que estauam sobre os muros. 

Capitullo Lxxxj 220 

Como Garcia Moniz filhou atreuimento de passar aquella porta pêra hir buscar 

o Iffamte, e das rrezoões que lhe disse. Capitullo Lxxxij 222 

Como o Iffamte tornou outra vez aaquelle lugar domde amte partira, e como os 

mouros leixarom de todo o castello. Capitullo Lxxxiij 224 

Como o Iffamte Dom Hamrrique chegou omde estauam seus jrmaãos, e como 

Vaasco Fernamdez dAtayde foy morto. Capitullo Lsxxiiij 227 

Como elRey mamdou chamar ho Iffamte Dom Hamrrique, e das rrazoões que 

lhe disse. Capitullo Lxxxv 229 

Como Joham Vaaz dAlmadaã foy poer a bamdeira da cidade de Lixboa sobre 

as torres do castello, e jsso meesmo o comde Dom Pedro leuou a bamdeyra 

do Iffamte aa torre de Feez. Capitullo Lxxxvj 23 1 

Como ho autor declara o tempo em que a cidade foy tomada, e quaaes eram os 

trabalhos dos homees naquella noute. Capitullo Lxxxvij 233 

Como os christaãos em aquella noute traziam amtre ssy desuayradas ocupaçoões. 

Capitullo Lxxxviij 235 

Do gramde pramto que os mouros faziam sobre a perdiçom da sua cidade. Ca- 
pitullo Lxxxix 237 

Como elRey emuiou seu rrecado a Martim Fernamdez Portocarreyro alcayde 

de Tarifa por lhe noteficar sua uitoria. Capitullo LR 241 

Como mamdou elRey Joham Escudeiro aa casa delRey Dom Fernamdo dAra- 

gam e depois Aluoro Gomçalluez da Maya,.e das cousas que lhe emuiou 

dizer. Capitullo I.Rj 242 



CXIV 

Pág. 

Como ho autor falia na gramde mortijmdade, que sse fez em os mouros naquelle 

dia. CapituUo LRij 244 

Como os mouros no outro dia olhauam os muros de Cepta, e das rrezoões que 

deziam em seu louuor. Capitullo LRiij 247 

Como os outros mouros se uieram açerqua da cidade, e da escaramuça que tra- 
uaram com os christaãos, e como o Iffamte Duarte sayo a elles. Capi- 
tullo LRiiij 25o 

Como elRey mamdou chamar o seu capellam moor, e das rrezoões que lhe 

disse. Capitullo LRv 25 1 

Como o meestre frey Joham Xira preegou, e como os IfFamtes forom feitos ca- 

ualleiros. Capitullo LRvj 253 

Como elRey teue seu comsselho acerca da guarda da cidade. Capitullo LRvij . 257 

Como algúus daquelles do comsselho rresponderam a elRey. Capitullo LRviij . 259 

Como elRey determinou todauia de mamteer a cidade, e como daua emcarrego 

delia a Martim AfTomsso de Meello. Capitullo LRix 261 

Como o comde Dom Pedro rrequereo aquella fromtaria, e quaaes forom os que 

alli ficarom. Capitullo C 262 

Como elRey partio de Cepta e chegou ao Algarue, e como fez em Tauilla seus 

filhos duques. Capitullo Cj 265 

Como elRey despachou alli todos, e lhes fez merçee agradeçemdolhes mujto seus 

gramdes trabalhos. Capitullo Cij 267 

Como elRey partio do Algarue e chegou a Euora, e do rreçebimento que lhe foi 

feito. Capitullo Ciij 269 

Como ho autor mostra que todallas cousas deste mundo falleçem, ssenam a 

escpritura. Capitullo Ciiij 271 

Capitullo Cv, no quall o autor da graças a Deos em fim de sua obra 274 

índice dos nomes próprios de pessoas 277 

índice dos nomes próprios geográficos 283 



DOCUMENTOS 

I. — 22 de dezembro de 1449 287 

II. — 21) de março de 1451 » 

III. — 14 de julho de 1452. — Carta de quitaçam a Joham Roíz Carualho de todol- 

los dinheiros que rreçebeo em Framdes homde foy emuyado 288 

IV. — 23 de fevereiro de 1453. — Carta que Gomes Eannes da Zurara comenda- 
dor da bordem de Cbristo screueo ao Senhor Rey quando lhe enuyou este 

liuro [Crónica da conquista de Guiné] 289 

V. — 6 de junho de 1454 291 

VI. — 23 de agosto de 1454 » 

VII. — 7 de agosto de 1459 • . . . . 292 

VIII. — 9 de agosto de 1459. — A Gomes Eanes de Zurara licença pêra fazer 
quaaes quer obras e corregimentos que elle quizer em huíjas casas delRey 
que som nesta cidade de Lixboa a porta dos paços as quaaes elle e seus her- 
deiros teram e lhe nam seiam tiradas atee lhe nam seer paguo o que nellas 
despemder 293 



Pig- 

IX. — 1459. [Termo de abertura da Chancelaria de D. Pedro I] 294 

X. — II de junho de 14C0. — Carta do senhor Dom Pedro Mestre de Auis, e 

que depois foi Rey de Aragão filho do Infante Dom Pedro a Guomez Eanes 

de Zurara caronista e guarda mor da Torre do Tombo escrita per sua mão. 294 

XI. — 6 de fevereiro de 1461. — Gomes Eanes de Zurara confirmaçam de perfi- 

Ihaçam e doaçam que lhe fez Maria Annes pilliteira de húu lugar que ella 

tijnha em Ribatejo homde chamam Vali bom 2q5 

XII. — 22 de outubro de 1460. [Foral de Moreira] 297 

XIII. — 14 de abril de 1462. [Foral de Aluares] 3oi 

XIV. — 22 de junho de 1463. — Carta de D. Affonso V, nomeando Paro dAImada 

juiz das sisas da uila de Almadaã 302 

XV. — 23 de junho de 1463. — Carta de D. Affonso V, nomeando Pêro dAIma- 
da alcaide e meirinho dos ourivezeiros dAadiça 3o3 

XVI. — 28 de julho de 1467. — Aministraçam de huGa capella jmstituyda na 
egreia de samta Maria Madanella desta cidade de Lixboa per huú Gomcalo 

Esteuez naturall de Symtra a Gomez Eannes de Zurara 304 

XVII. — 21 de novembro de [1467]. — Carta delRei dom Affonso a Guomez 

Eanes da Zurara seu coronista. escrita per sua mão 3o5 

XVIII. — 25 de maio de 1468. [Foral de Gralhas] 307 

XIX. — 21 de janeiro de 1471 3q3 

XX. — 22 de fevereiro de 1472 3,1 

XXI. — I de dezembro de 1473 3,3 

XXII. — 2 de abril de 1474 3j5 

XXIII. — 22 de junho de 14S2. — Carta de legitimação de Catarina da Silveira. . 3i8 
XXIV. —8 de abril de 1483. — [Carta de legitimação de] Gomçallo Gomez da Zu- 
rara filho de Gomes Eannes da Zurara comendador da bordem de Christo . 320 
XXV. — 8 de abril de 1483. — [Carta de legitimação de] Felipa Gomez filha do 

sobredito [Gomez Eannes da Zurara comendador da hordem de Christo]. . » 
XXVI. — 8 de março da era de 141 1 (1373 J. C.) — [Carta de privilégios á Or- 
dem de Christo] „ 

XXXII.— 12 de janeiro de 1479. — A elRey semtemça comtra a hordem de 
Christo per que foy declarado e jullgado a ssoperioridade da jurdiçom çiuell 
de todallas terras da dita hordem seer do dito senhor e lhe perteemçer e a 
nam poder de ssy tirar dar nem transmudar em hordem nem em pessoa 
alguúa, e mais pronumçiamdo por nehtíus e de nehuu efeito todollos proce- 
dimentos que os offiçiaaes da dita hordem fezeram comtra certas pessoas 
moradores em a villa de Punhete sobre os canaaes do Zezer, e que fossem 

rrestituidos^ etc 323 

XXVIII. — 3 de junho de 1439 333 

XXIX. — 1 1 de janeiro de 1449 33^ 

XXX. — 17 de julho de 1452 „• 

XXXI. — [Extrato das] Definições e estatutos dos Cavalleiros e Freires da 

Ordem de N. S. Jesu Christo, Lisboa, 1628 (p. 201 a 2o3) 335 

XXXII. — [Extrato de] O livro da virtuosa bemfeituria do infante D. Pedro. . . 337 

Variantes do livro da virtuosa bemfeituria 3.3 

Correções importantes 



CRÓNICA DA TOMADA DA CIDADE 

DE CEPTA PER ELREY DOM JOHAM 

O PRIMEIRO 






"^>..<, "*->>..^. "■^>>..^, "*- 



:>■ — ^ 1 



>^.. 






PROLOGO DE GOMEZ EANNES DE ZURARA 
AA CRÓNICA DA TOMADA DE CEPTA. 



B, I, 



CONCRU: 
a nai 
racai 



Capitullo primeiro. 

.ONCRUSAM he dAristoteles no segundo liuro da natural filosofia que 
latureza he começo de mouimento e de folgança. E pêra decla- 
içam dcsto aprendamos que cada huua cousa tem calidade. per a 
qual se moue ao seu próprio lugar quando esta fora dellc entendendo ai}' ser 
confirmada milhor. e por aquella mesma propriedade faz assessegamento 
depois que esta onde a natureza rrequere. Exempro desto he a pedra 

10 que por sua graueza e peso descende ao lugar que lhe pertence, e depois 

que o percalça nom se moue mais. * Semelhauelmente cada hum homem B, i, 
tem deseio de conseruar sua vida aa qual sam necessárias muitas cousas 
sobre que elle nam ha possiçam. e por tanto ha mester que as peça 
por seu mouimento a quem entender que as pode outorgar, e depois que 

i5 as teuer cobrara folgança vsando delias segundo o que deue. E por 
quanto a grandeza de nosso Senhor Deos jnfindamente he liberal, a elle 
conuem que peçamos, esto se pode mostrar por alguíãas rrezoões. E pêra 
conhecimento da primeira saibamos que no primeiro liuro da lógica diz 
o filosofo que se alguíia propriedade conuem a duas cousas, e huúa a tem 

4. dAristoteles E, de aristoteles B, — 5. he começo de movimento e de folgança C E, 
e o começo do mouimento he de folgança B. — 7. estaa B. — 8. confirmado B — propie- 
dade E, propiedade B — faz I, fez B. — 9. depois E, despois B — enxempro B. — 11. mais 
E, mas B. — 12. deseio B. — i3. elle E, nelle B. — ha E, haa B. — i5. as teuer C, este- 
uer B. — 16. quanto C, tanto B — grandeza E, graueza B. — 17. conuem E, que em B — 
algúas B — rrezões B — 18. lógica E, gloria B. — ^ 19. propriedade E, propiedade B — 
e E, ovt B. 



— 4 — 

por azo da outra, lie necessário que tal perfeiçam compridamente se)a 

em a primeira, cujo exempro he aqueste. Certo he que a quentura 

nam conuem ao ferro esquentado se nam per o fogo. porem nam embar- 

B, I, V, I gante que ambos sejam quentes, ella * mais pertence ao fogo. Sobre a qual 

dereitamente podemos fundar nosso preposito em aqueste meo creendo !> 
que nenhum bem fazer nom conuem aos homcés se nom por azo do Senhor 
Deos. em cuja prouaçam diz o apostollo Santiago na sua primeira cano- 
niqua. que toda boóa doaçam e todo liberal outorgamento de cima des- 
cende do padre dos lumes que sobre esto esparge os rrayos da sua bon- 
dade. E por que nos tenhamos ousio de lhe pedirmos ajuda pêra todas lo 
nossas cousas, elle mesmo nos conuida no xj capitullo de sam Mateus, 
dizendo vinde a mim todolos que trabalhaes em vossos desfalecimentos 
e sooes encarregados, eu vos outorgarej' abondança do que deseiaaes. 
E no capitullo xvj do euangelho de sam Joam manda que peçamos e 
rreçebamos. Em que parece que sem reçeo o deuemos rrogar que nos i5 
ajude, pois que elle mesmo se oferece pêra nos outorgar o que lhe pedi- 
remos. Desy o disse o profeta em os xlix salmos dizendo a cada hum 
homem, chamame em o dia da tribulaçam e eu te liurarey e tu me 
louuaras. E o mestre das sentenças em a quadragésima quinta defini- 
çam do quarto liuro diz que a criatura rrazoauel deue dizer as cousas 20 
temporaaes aa verdade eternal pedindo aquello que bem deseia que lhe 
seja outorgado. E por nos rrazoaremos esto em sua presença nam 
B,i,v, 2 * cuidemos que entendera nouamente o que nam conhece, que escrito he 
em o euangelho que o nosso padre sabe as cousas que nos sam necessá- 
rias primeiro que as peçamos. E porem diz sam Gregório em o dialogo 25 
que o nosso pedir nam faz mudança em a desposiçam diuinal. mas faznos 
jmpetrar o que eternalmente se ordenou pêra seer outorgado per nossas 
petições. E por tanto em o xviij capitullo de sam Lucas se diz conuem 
de orar. entam cobraremos o que for bem rrequerido. porem deuemos 
poer em Deos toda nossa esperança que he poderoso pêra nos ajudar em 3o 
qualquer obra pêra que o rrequereremos. Empero esta sua ajuda nom 
poderemos assi per nos mesmos percalçar. por que elle des o começo 
fez em as criaturas cadeamento. per guisa que as virtudes do çeo nam 
vem aa terra que nam passem primeiramente per os corpos que sam 

3. ferro C, frio B. — 4. quentes E, om B. — 5. preposito E, propósito B — creendo 
C, querendo B. — 7-8. canónica E, cananiqua B. — 11. no E, nos B — xj C, om B. — 
18. liurarej B — quadragessima B. — 19-20. definiçam E, definçom B. — 21. aquello E, 
aquillo B — deseja B. — 22. e por nos C, e pêro nos E, e por que nos B — razoaremos B. 
— 25. dialogo E, dialego B. — 27. emperrar B. — 28. os xviij capitullos E, o xviij capi- 
tullo B. — 3i. esta E, por esta B. — 32. poderemos E, podemos B. 



antre ellas. nem se moue alguúa cousa de hum termo pêra outro que 
per ametade nam faça mouimento. Porem como de nosso criador jnfin- 
damente sejamos alongados, e no começo sam postos alguús corpos a que 
elle deu parte em sua gloria e com alguús delles nos temos alguúa natu- 

5 reza. compre que a estes rroguemos per nossas petições de que deseiamos 
auer bom desembargo, e per alguúas rrezoões se pode aquesto prouar. 
das quaaes a primeira se faz por aquesta maneira. * Quanto a petiçam he B, 2, i, 
mais humildosa e apresentada sem presunçam. tanto deue ser outorgada 
com maj^or vontade, porem como mais humildade mostre cada hum poendo 

•o em outrem sua fiança que se presumir de si mesmo, seguesse que com 
raayor vontade lhe deue seer outorgado o que demandar, pois toda sua 
esperança põem na bondade do Senhor e nos merecimentos de quem por 
elle pede. E por confirmaçam desto he scrito em o quinto capitullo de 
Job. que nos tornemos a algum santo por cujo merecimento nos seja 

'5 outorgado o que rrequerermos. A segunda rrezam he que todo aquelle 
que se conhece por vil e mizquinho em presença do que quer demandar, 
esperara com rrezam de nam seer ouuido e de o nam leixarem chegar 
pêra dizer o que ha mester, e por tanto deue de rrequerer a outrem 
que verdadeiramente peça por elle. E pois nos quanto aos corpos em 

20 aquesta vida somos muy cujos, depois de morte seremos muy torpe vianda 
de vermeés. e quanto aas almas diz o profeta em o salmo I que em 
maldade somos gerados e concebidos em pecado, mostrasse que deuemos 
rrogar quem nam tenha empacho de ao jnfindamente glorioso Senhor apre- 
sentar nossa enformaçam. nem duuidaremos se alguús santos esto podem 

25 fazer que no * sexto capitullo do apocalipse he scripto que a deuaçam das ''' -> •": 
nossas oraçoões sobe per maão do anjo aa presença de Deos. e no xij 
capitullo de Tobias se lee que lhe disse o anjo em como presentara suas 
oraçoões quando jejúaua e fazia esmollas e soterraua os mortos, em que 
parece que os anjos e os santos sam nossos ajudadores quando deuota- 

3o mente os rrequeremos. A terceira rrezam he aquesta. Neiçeo he o que 
se trabalha de jr soo per o caminho duuidoso. quem tem seguro e prouei- 

I . ellas I, elles B — outro E, o outro B. — 2. noso B. — 3. selamos B — algus B. — 
7. petição B. — 9. maior B — humildade E, humilde B. — 10. seguese B. — 11. maior B 

— demandar C E, demanda B — 1 3. capitulo B. — de E, om B. — 14. sancto B. — 1 5. re- 
querermos B. — 18. haa B — requerer B. — 19-20. em aquesta E, naquesta C, nesta B. 

— 23. rogar B — quem B, que CE — nam E, nom C, nos B — de ao jnfindamente C, de 
a infindamente o E, de jnfindamente ao B. — 23-24. presentar E, apresentar B. — 24, san- 
ctos B — esto E, jsto B. — 26-27. nos xij capitullos E, no xij capitullo B. — 27. dise B. 

— 28. orações — esmollas E, esmolla B. — 29. sanctos B. — 3o. razam B — se trabalha 
E, trabalha B. 



toso guiador. Por tanto as petições que fiizemos a Deos de serem 
quejandas de bem polia mayor parte sam duuidosas. e temos medeaneiro 
homem Christo Jesu segundo diz o apostolo sam Paulo em a primeira epis- 
tola a Timoteu. a elle nos tornaremos principalmente por nos encaminhar, 
pois em o xiiij capitullo do euangelho de sam Joam disse, ninguém vay 5 
a o diuinal padre senam por elle que he caminho e craridade do mundo. 
Oraremos humildosamente que por seus merecimentos se)a guardador dos 
nosos deseios e por sua misericórdia nos queira jmpetrar as graças que 
auemos mester. Ora falando da quarta rrezam entendamos que qual- 
quer que leixa cm as cousas necessárias a certa pratica pollo duuidoso m 
entender, nam tam soomente faz çimpreza. mas ajnda comete loucura. 

B, 2, V, I Porem como toda nossa * petiçam seja duuidosa de aprazer a Deos. por 
que diz a santa scriptura que nenhum sabe se merece odeo ou amor 
em sua presença, e com jsto somos certos que Deos outorga a muitos 
grandes merçes em aquesta e na outra vida por a bondade dos que as i5 
pedem por elles. mostrasse claramente que se nos queremos bem pedir 
daquesta pratica deuemos vsar. Em cuja prouaçam se lee em o xviij 
capitullo do genesi. que souertendo Deos as cidades de Sodoma e Go- 
morra liurou Loth aos rrogos do santo patriarcha Abraham. Quem souer- 
teo as cidades e liurou Loth ? E per vezes fora perdido o pouo de 20 
Isrrael per sanha de Deos se o nom abrandaram os rrogos do profeta Mou- 
ses. E o linhagem de Salamam de todo perdera a cadeira rreal se nam 
fora per elRey Dauid seruidor do muy Alto. E dereita rrezam he que 
pois aos homeés sam outorgadas m.uitas graças per azo daquelles que 
podem pecar, muito mais lhe deuem de seer feitas merçes aos rrogos daquel- ^5 
les que ja por sempre nam podem falecer. E por entenderemos como 
os santos rrogam por nos em a outra vida. saibamos que o mestre das 
sentenças diz em a xlv difiniçam do quarto liuro que as almas bem 
auenturadas que por a esperança diuinal rreçebem lediçe em a face de 
Deos entendem as cousas que se fazem de fora quanto he compridoiro 3o 

B, 2, V, 2 pêra seu prazer ou pêra nossa ajuda. Em que parece * que os santos nom 
dizem a Deos o que nos queremos, mas elle lhe mostra os nossos dese- 
ios querendo que per suas petições nos sejam compridos, porem a elle 
segundo cada hum teuer sua deuaçam se tornara deuotamente. per guisa 

2. queiandas B. — 5. os xiiij capitullos E. — 7. seia gardador B. — 9. quarta E, iiij" B. 
II. loucura E, locura B. — i3. sancta B. — i3. nenhuú. — 14. em sua E, e em sua B. 
17. os xviij B. — 19. rogos B— sancto B. — Abrahão B.— 20. Loth? I, Loth : B. — 21. rogos B. 
— 21-22. MousesE, Mousem C, Moyses B. — 22. o linhagem E, alinhagemB — Salamão 
B. — 23. razam B. — 24 homés B. — 25. de ser E, seer B — rogos B. — 26. por entender- 
mos como E, porem entenderemos B. — 27. sanctos B. — 3i. sanctos B. — 33. seiam B. 



que por onde o seu nequerimcnto nom poder abranger chegue o mereci- 
mento daquelle em cuja santidade poser confiança. Speçialmente orare- 
mos a virgem santa Maria senhora dos anjos que seja nossa auogada 
5 por sua merçe. porque as cousas que forem per ella rrequeridas pêra 
nos. sem tardança seram outorgadas. Ca diz santo Enselmo no iiuro do 
conçebimento virginal, que muitas vezes chamando os homeés aquesta 
senhora, mais trigosamente rrcçebem graça que se Jesu Christo fosse 
chamado, esto nam por ella teer melhoria sobre seu filho, mas por 

,Q quanto elle he julgador dos merecimentos de cada hum. nom embar- 
gante que ouça quem quer que o chama per justo juizo e rreteudo 
de outorgar o que nam he merecido de quem sua madre he chamada e 
rrequerida. posto que o pcdidor nam mereça de ser ouuido os mereci- 
mentos delia sam abastosos pêra comprir a petiçam do que for deseiado. 

,5 E por quanto eu sento de mim tanta fraqueza pêra continuar a seguinte 
obra. digo com toda humildade e rreverençia em aquesta guisa. Aquelle 
cuja graça per diuinal rresplandor enframou os corações dos seus santos 
apóstolos da perfeita sabedoria com espritual * eloquência, mande sobre B, 3, r, i 
mim alguija parte dos átomos daquella graça, que per minha rrudeza e 

2Q fraco engenho possa falar da franqueza e marauilhosos feitos deste virtu- 
oso e nunqua vencido príncipe senhor Rey Dom Joham aquello que em seus 
grandes merecimentos muy jnteiramente cabe. cuja estoria nos seguintes 
capitullos escreuer entendo, por que nam menos me parece que deue o 
seguinte feito e aos que de trás delle sam escritos auer autorizado rregisto. 

25 do que ouuerom os feitos do gram Macabeu e doutros muitos duques e 
príncipes que com suas obras a Deos muito prouuerom. Desy ponho 
fiúza em a deuina! madre mais gloriosa que outra persoal criatura e vir- 
tuosa pessoidor em sobre auondante comprimento, em cujo ventre de 
uirtuosa pureza fez a deidade graciosa morada e foy jerado fruito tem- 

3q poralmente homem, que eternalmente he Deos nosso remidor Christo 
Jesu. per que ella he exalçada sobre todas três jerarchias dos santos 
principados, que per este seu jnfindo merecimento pois ella de todas 
graças he ministrador. nam tanto por meus fracos rrogos como por a 



2-3. oraremos C E, poeremos B. — 4. per E, por B. — 5. sancto B. — 6. homeés] 
ad muitas vezes B. — g. hú B. — 10. retheudo E, pretendo B. — 11. de quem E, e quem 
B. — sua E, a sua B. — 12. requerida B. — 16. sanctos B. — 18. algija B — átomos I, 
atamos B, ramos CE. — 20. e] om B — senhor E, om B — Rei B. — 21. cabe C E, sabe 
B — 22. capítulos B — entendo C E, entendeoB. — 23. registo B. — 25. ponha B. — 25. de- 
uinal B, uirginal CE. — 27. pesoidor B. — 28. deidade B, diuindade E. — 29, homem que 
eternalmente he Deos C E, e Deos B. — remidor C, redentor B. — 3o. sanctos B. 



singular deuaçam que este glorioso príncipe na sua santíssima pureza 
sempre ouue. jmpetrara per mim tal graça que eu possa escreuer sua 
estoria segundo seus grandes merecimentos rrequerem. conhecendo que 
per mim nenhuúa cousa posso sem sua graça e ajuda, segundo he escripto 
B> 3, r, 2 per Avíçena em sua metafísica, dizendo que o*nam seer auemos de nos e 
o seer doutrem .ss. de Deos nosso criador, em cuja prouaçam diz sam 
Gregório que todallas cousas seriam tornadas em nenhuúa cousa, se as 
maãos do todo possante Deos as nam conseruassem. porque nenhuíia con- 
diçam he tanto jsenta que em fallecímento nam aja sua parte. 



O' 



O principio da estoria. Capitullo ij. 

IO 

tempo e grandeza das obras nos constrangem fortemente que scpre- 
uamos nos seguintes capitullos a gloriosa fama da muy notauel 
empresa tomada per este virtuoso e nunca vencido prinçipe senhor 
Rey Dom Joham. que seu preposito detreminou forçosamente per armas 
conquistar huija tam nobre e tam grande cidade como he Cepta. no qual '5 
feito consirando podemos esguardar quatro cousas .ss. grande amor da 
fee. grandeza de coraçam. marauilhosa ordenança, e proueitosa vitoria, 
a qual foy marauilhoso preço de seu grande trabalho. E passaremos ao 
presente polia declaraçam daquestas cousas, por que se dalguúa delias 
B, 3, V, I singularmente * falando pouco disséssemos nossa força seria jngrata. e se 20 
de todas assaz falássemos jnfinda pareceria, empero sob muita breuidade 
alguúa cousa diremos de cada huiJa. por que os leedores saibam como 
se o dito Rey em ellas ouue açerqua deste feito. Grande ardor foy o de 
sua fee em todas suas obras singularmente em esta. Ca todo seu prin- 
cipal mouimento foy per seruiço de Deos e grande deseio que tinha de 25 
emmendar alguúa cousa se a contra vontade de Deos fezera no tempo 
da guerra passada, e assi o dizia muitas vezes em sua vida quando se 
acertaua em ello falar. Que posto que elle ouuesse guerra muy justa 
com seus jmigos a qual era por defensam de sua terra, na qual suas 
armas muitas vezes forom tintas de sangue, que elle nom entendia dello 3© 

I . sua E, om B — sanctissima B. — 2. emperrara B. — 3. requerem B. — 4. nemhuSa 
B. — 7. nénhuQa B. — 8. nehúa B. — 9. conseruasse B. — 10. ij] segundo B. — 11. cõs- 
trange E, costrange B. — 12. mui B. — i3. virtuoso C, vitorioso B, venturoso E. — 14, 
propósito determinou B. — 16. esguardar E, esgardar B — da I, de BE. — 17. maraui- 
lhosa E, e marauilhosa B — e proueitosa C, proueitosa B. — 18. pasaremos B. — 21. 
fallasemos B. — 25. per E, om B — deseio B. — 26. algúa B. — 27. uida B — quando C E, 
quem B. — 28. elle C E, em elle B — mui B. 



— 9 — 

fazer comprida pendença senom lanando suas maãos no sangue dos jnfiees. 
O marauilhosa caridade de príncipe cuja semelhança em homem daquellc 
tempo nam foy achada, que com tamanho temor diuinal trataua suas obras. 
Por certo nom era sem rrezam que tam catholico e rrelligioso príncipe co- 
? brasse bem auenturados aquecimentos, pois sob o jugo da fee com tanto 
temor de Deos trataua seus feitos. Que scprito he per Valério Máximo no 
seu primeiro iiuro. que por que os Romaãos guardauam rreuerençia* aos 
deoses e sem sua vontade alguija cousa faziam, durou longamente o 
seu senhorio. E falando da grandeza de seu coraçam que poderemos 

IO dizer senam que foy huíía cousa mais pêra marauilhar que pêra falar de 
grandioso homem de tamanha jdade pouco seguro de seus jmigos. por 
que as pazes que com elles tinha nam eram tam firmes que se ligeira- 
mente nam podessem quebrar, mayormente nam sendo outorgadas por 
elRey. a qual cousa muitos consirauam que podia empachar sua obra. 

i5 mas elle com nenhuúa cousa pode rreceber embargo, ante com aquella 
firmeza e ardor da fee de que ja falamos desprezou todollos contraíres 
que o poderiam empachar pêra cobrar aquella vitoria que o seu coraçam 
profetizando chamaua. Nam se contentando ajnda per si soo cobrar 
este feito, mas de sevs filhos que tinha os quatro que aaquelle tempo 

20 eram pêra tomar armas leuou consigo, mas da postura de seus filhos e 
de como os três delles forom caualeiros falaremos ao diante mais compri- 
damente. leixando soomente o rregno sob gouernaçam de hum antigo 
caualeiro criado seu que era mestre dAuis. mas da ordenança de seus 
feitos foy cousa marauilhosa aaquelles que veuiam naquella jdade. a qual 

25 polia estoria ao diante será diuisada. E quem *compridamente em ello 
esguardar achara que nem o çerquo de Troya nem a passada de Cepiam 
em Affrica nam forom de tanta exçellençia. Pois da vitoria que lhe o 
Senhor Deos outorgou em fim de seus grandes trabalhos por contrairo 
de suas famosas cauallarias bem pode seer exempro a todollos príncipes 

3o do mundo. Muito suffiçientes estoriadores escreueram caualeirosos feitos 
e façanhosas estorias de muitos rreis duques e príncipes passados, mas 
por certo em escretura nam se achara em tam breue tempo huúa tam 
notauel e tam grande cidade filhada per força darmas. nam por que ella 
de muitos por sua grande nobreza nam fosse cobiçada e deseiada. mas 



1. comprida pendença E, pendença comprida C, om B — no E, do B. — 2. cuia B. 

— relligioso B. — 6. trataua E, trabalha B — per E, por B. — lõ. jaa B. — i-. coração 
B. — 19. seys C E, seus B. — 20. filhos E, feitos B. — 21. ao diante C, adiante B. — 25. 
ao diante C, adiante B. — 26. esguardar E, esgardar B — de Troya C. da Troya B E. 

— 27. uitoria B. — 3o. muito C E, om B. — escreueram E, escreuiam B. 



por certo com espanto tornauam seus rrostos os que esguardauam seu 
temeroso sembrante. Santo Agostinho que foy bispo em Aftrica daa 
testemunho da nobreza desta cidade e que de quantos senhores daquelia 
terra foy sempre deseiado seu senhorio. E conta delia Abilabez que 
foy grande doutor antre os mouros que esta cidade foy fundada de- 5 
pois da destruiçam do deluuio duzentos e trinta e três annos. e assi 
auia aaqueile tempo que ella foy filhada quatro mil e duzentos e oitenta e 
três annos. e auia oitocentos e dezoito annos que era em poder de mou- 
ros. E diz que o fundador delia foy seu neto de Noe. e que esta foy 
t^ 4' r, 2 * a primeira que elle fundou em toda aquella terra dAífrica. e que por lo 
tanto lhe pos nome Cepta que quer dizer em lingua caldea começo de 
fermosura. e diz que mandou escreuer huúas letras na primeira pedra que 
se pos no aliçeçe. Esta he a minha cidade de Cepta a qual eu pouoei pri- 
meiramente de companhas de minha geraçam. os seus cidadãos seram 
estremados de toda a nobreza dAffrica. Dias viram que sobre o seu i5 
senhorio se espargera sangue de diuersas naçoões e o seu nome durara 
ata o acabamento do derradeiro segre. E assi devees de saber que de- 
pois que esta cidade primeiramente foy fundada ata o tempo que a 
elRey Dom Joham filhou, nunqua foy nenhum prinçipe nem senhor que 
cobrasse seu senhorio per torça darmas. Por que ella foy primeiro de 20 
gentios como dito he. e depois foy conuertida aa fee de nosso Senhor Jehsu 
Christo. na qual durou ata o tempo que a o conde Juliam entregou aos 
mouros quando por vingança delRey Dom Rodrigo primeiramente os mou- 
ros passarom em Espanha segundo conta santo Isidro, e mestre Pedro, 
e Dom Lucas de Tuy. O cidade de Cepta diz o autor, antre todallas 25 
dAffrica cidade mais exalçada, muito fauorauees te forom as planetas e os 
sinos muito sogeitos aa tua costalaçam em que primeiro foy teu funda- 
is 4, v, I mento, pois tam * longamente guardaste tua virgindade em desprezo de 
tantos e tam rricos barões de que sempre foste tanto deseiada por te 
dares jnteira e saã a hum tam alto e glorioso Rey o qual te depois 3o 
tanto amou e tam valentemente defendeo. dina será a tua façanha de 
perpetua rrelembrança. Eras tu primeiramente de naçam barbara mais 

I. rrostos C, votos E, rrotos B. — 4. delia C, a huQ delia B, om E — Abilabez C E, 
abdabiz B. — 5. antre E, entre B. — 5-6. despois B. — 6. asi B. — 7. aaqueile C, aquelle 
B — foi B. — 9. foi B. ^ 10. dafriqua B. — 11. Cepta E,ceit B, Ceut C. — 12. húas. — i3. 
a minha E, minha B. — Cepta E, ceit B, ceut C. — 1 5. a nobreza E, nobreza B — dafrica 
B. — 17. ataaC, ate B. — 17-18. despois B. — 18. ata C, ateB. — 19. nenhum B, algum C. 

— 21. fee E, fe B — Jhú B. — 22. ata E, ate B. — Juliam CE, Jlha B. — 23. Rodrigo CE, 
RoB. — 26. dafrica B. — 28. guardaste CE, gardaste B. — 29. desejada B. — 3o. despois B. 

— 32 barbara CE, barbora B. 



baxa de todallas nações, e agora acompanhada e guardada per força de 
linhagem dos rreis dEspanha e da casa dlnglaterra. Partidas sam de ti 
as ençugentadas cerimonias do abominauel Mafamede e as suas mezqui- 
tas sagradas com oiio santo tornadas em templos do nom mortal Deos. 
5 em elles tratado o mistério do diuinal sacreficio. E qual cidade ha 
oje no mundo mais temida e preçada que ti. Por certo grande glo- 
ria te será quando pensares quanto nobre sangue he espargido por teu 
defendimento. Alegre e com grado deueras tu de rreçeber tal senhor. 
Ora com a graça de Deos começaremos nossa estoria departida em capi- 

«o tullos segundo rreal ordenança dos antigos estoriadores. empero nam 
será tam compridamente contada como foy o feito, por que nos começa- 
mos descreuer trinta e quatro annos depois da sua tomada, e afora os 
jmpedimentos que ao diante seram contados, no dito tempo faleceram casi 
a mayor parte das autorizadas pessoas que forom no conselho* e feito da B4, v, 

i5 dita obra que dello perfeitamente parece sabiam, e os que ficarom per 
que tínhamos rrezam. eram tam grandes senhores os quaaes polia exce- 
lência de seu estado forom sempre tam ocupados que perderam lem- 
brança de muy gram parte das circunstancias daquellas cousas, mayor- 
mente que o principal destes era o Iffante Dom Anrrique. o qual foy 

20 sempre tam ocupado nos feitos do rreino. desy teue sempre em elle 
muv grandes encarregos cuja força ocupou muito seu acordo em este 
feito, a calidade dos quaaes contaremos ao diante proseguindo nossa 
força. Porem tomando alguús pedaços que ficaram apegados nas pare- 
des do entendimento deste senhor cheas de muy grandes cuidados e çer- 

25 cadas de feitos estranhos com alguúas migalhas que de fora apanhamos, 
trabalharemos de fazer cousa que pareça jnteira segundo a forma do pro- 
cesso que se segue. 

Como o autor declara as rreiôes por que esta força 
3o foy começada tam tarde. CapituUo iij. 

QUAL foy o primeiro mouimento daquella demanda que era antre o 
rregno de Castella e o nosso de Portugal e desy todollos aquecimen- 
tos* que se dello seguiram Assaz tenho que fica declarado em hum r 5, r, 1 

I. todalas B. — 3. abominável E, abominabel B. — 3-4. mizquitas B. — 4. com olio 
santo CE, com eile sam todas B. — 5. haa B — 7. nobre E, noble B. — 9-10. capítulos 
B. — II. o feito E, feito B. — iS. ao diante E, adiante B. — i5. que ficarom C, seni- 
ficarom B. — 16. rrazam B. — 18. mui B. — 18-19. maiormente B — 22. ao diante E, 
adiante B. — 24. mui B. — 25. aigúas B. — 28. Como o autor C, em que o autor B. — 
3i. regno B. — desi B. — todolos B. — 27. seguiram E, seguiam B. 



12 

liuro que dello he escprito. o qual foy posto em ordenança per huúa notauel 
pessoa que chamauam Fe_rnam Lopez homem de comunal ciência e grande 
autoridade que foy escpriuam da puridade do Iffante Dom Fernando, ao 
qual elRey Duarte em sendo Iftante cometeo encarrego de apanhar os 
auisamentos que pertenciam a todos aquelles feitos, e os ajuntar e ordenar 5 
segundo pertencia aa grandeza delles e autoridade dos prinçipes e dou- 
tras notauees pessoas que os fezerom. E por quanto o dito Fernam 
Lopez nam pode mais chegar com a dita estoria que ata a tomada de 
Cepta. assi polia grandeza da obra que se naquelles feitos passados rre- 
queria. como poUos auisamentos dello serem caros e mãos dapanhar. lo 
e esto por que a dita estoria foy começada tam tarde, que muitas das 
pessoas que verdadeiramente sabiam eram ja partidas deste mundo, e 
as outras que ficarom eram departidas per o rreino. cada hum onde lhe 
a ventura ordenara de seer agalardoado de seu trabalho segundo a 
• parte de seu merecimento.) Ca nam foy algum que seruisse em alguúa i5 
maneira aquelle grande príncipe e senhor Rey Dom Joham que ficasse sem 
marauilhosa satisfaçam de seu seruiço. nom ajnda segundo a calidade de 
seu merecimento mais muito milhor e muy grandemente segundo em 
sua estoria em alguúas partes poderees achar, ca antre os rreis que 
H 5, r, 2 forom em Portugal* ata a sua jdade elle foy auido por mais grande, ca sua 20 
magnificência procedia da sua grande magnanimidade. E assi foy necessá- 
rio ao dito Fernam Lopez dandar per todallas partes do rregno pêra auer 
i comprida enformaçam do que auia de começar, e nam tam soomente per 
; aquelles que os ditos feitos trataram pode seer perfeita enformaçam. por 
quanto os mais delles eram chegados aa derradeira jdade onde a memoria 25 
perde muitas das primeiras cousas.) Ca os velhos per natureza per rrezam 
do esfriamento do sangue perdem muitas cousas que na mancebia apren- 
deram, como escreuia sam Jerónimo em huúa epistolla a Nipoçiano que 
sendo elle mancebo todallas cousas rretinha viuamente. mas depois que 
a cabeça foy caã e a face enuerrugada logo hum sangue frio lhe cercou So 
o coraçam. de guisa que muitas cousas que vira e aprendera na mance- 
bia esqueceram na velhice. E desy os grandes trabalhos em que aquelles 
velhos andaram com elRey em todo o outro tempo passado foy grande 
azo de se nam lembrarem de todo compridamente. Por cuja rrezam o 

2. chamavão B. — 3. escprivão B. — 5. avisamentos B — ajuntar E, juntar B. — 8. ata 
CE, ate B. — 9. assy B — pasados B. — 12. )aa B. — 14. agaiardoado E, com galardoado 
B. — i5. toi B — algúa B. — 16. Joam B — licase B. — 17. satisfação B. — 20. portuga] B 

— ataaB — ca C, eaB. — 21. magnanidade B — assi B. — 22. dandar C, de andar B. 

— 23. enformação B. — 26. muitas CE, muito B. — 28. amipociano B. — 3i. coração B. 

— 32. esqueceram E, esqueciam B. 



— i3 — 

dito Fernam Lopez despendeo muito tempo em andar per os moesteiros I 
e jgreias buscando os cartórios e os letreiros delias pêra auer sua enfor- I 
maçam, e nam ajnda em este rreino mas ao rreino de Castella mandou I 
elRey Duarte buscar muitas escreturas que a esto pertenciam, por 
5 quanto seu desejo nam era que os feitos de* seu padre fossem escritos se- b 5 v i 
nom mu}' verdadeiramente. E assi por esta tardança e polia estoria seer 
começada tarde o dito Fernam Lopez nam pode com ella chegar senom 
ata o tempo que os embaxadores deste rreino forom a Castella primeira- 
mente firmar as pazes com eIRey Dom Fernando dAragam e com a 

10 Rainha Dona Caterina que aaquelle tempo eram tutores delRey. ! E por 
quanto o muy alto e muy excelente prinçipe e senhor elRey Dom Affonso 
o quinto ao tempo que primeiramente começou de gouernar seus rregnos 
soube como os feitos de seu auoo ficauam por acabar, consirando como o 
tempo escorregaua cada vez mais. e que tardando de serem escritos 

i5 poderiam as pessoas que alij forom falecer, per cuja rrezam se perde- 
ria a memoria de tam notauees cousas, porem mandou a mim Gomez 
Eannes de Zurara seu criado que me trabalhasse de as ajuntar e escreuer 
per tal guisa que ao tempo que se ouuessem de ordenar em caronica 
fossem achadas sem falleçimento. E eu em comprimento de seu desejo 

20 por satisfazer a seu mandado como de meu senhor e meu rrey. me tra- 
balhey de enquerer e saber as ditas cousas e as escreui em estes cader- 
nos polia guisa que ao diante he conteúdo com tençam de as acreçentar 
ou minguar em * quaaesquer lugares em que for achado per verdadeiro b 5 v 2 
juizo que o merecem, como quer que segundo meu entender e autori- 

25^ dade daquellas pessoas per que fui anisado em ellas auera pouco falecimento. 

C Ca he cousa certa que nos feitos que muitos viram e sabem nunqua 

homem tantas vezes pode preguntar que sempre nam ache cousas nouas 

que saber, e jsto porque cada hum conta o feito por sua guisa, buscando 

muitos homeés que vissem huúa cousa e preguntando a cada hum per 

3o sij. achara que o primeiro nam concerta com o segundo nem o terceiro 
com o derradeiro quanto aas circunstancias da obra. E jsto sey eu bem 
por que o pratiquey per muitas vezes. Ora quando se esto faz em 
huija cousa pequena, que se fará no filhamento de huúa cidade ou no 
rreuoluimento de huiJa batalha campal, onde a ocupaçam de cada hum 

35 nam se pode mais estender que a defensam de sua vida em que elle tanto 

2. auer E, veer B. — 4. muytas B. — 6. assy B — ser B. — 8. ata E, ate B. — 9. dara- 
gão B. — 10. tutores CE, titores B. — 17. e annes B — me trabalhasse CE, trabalhasse 
B. — 19. achados B — 21-22. quadernos E, cadernos B. — 24. como quer que segundo 
meu entender] omB — e autoridade CE, e a autoridade B. — 26. uiram C. — 27. pergun- 
tar B. — 29. homes. — 34, húa. 



— 14 — 

tem que fazer que nam he de creer que per outra nenliuúa parte rreparta 
seu cuidado. E quem quiser escreuer os falamentos de todos seria 
huúa cousa defusa ou mais dereitamente jmpossiuel. ca elles nam se 
contentam de contarem o que sabem, mas ajnda acreçentam no que 
ouuem em muitas partes tam largamente per que fazem aquelles que 
am descreuer a sustançia dos feitos poer em muy grandes duuidas. de 
6, r, 1 guisa * que he mais segura parte preguntar a poucas e certas pessoas que 
demandar a todos o que perfeitamente nam am rrezam de saber. 



M' 



Da iençam que elRey ouiie de mandar rrequerer 

as pa^es a Castella. Capitiãlo iiij. lo 

AS he agora primeiramente de saber o grande desejo que elRey 
auia de ver acabados os feitos da guerra que era antre elle e o 
rregno de Castella. Nam por que elle em seu coraçam temesse o 
poder dos Castellãos nem doutras nenhuúas pessoas, ca assaz era desfor- 
çado e vallente em todollos casos perigosos, e quanto o trabalho e o espanto i5 
era mayor. tanto o seu esforço era mais grande segundo bem ouuistes 
nos grandes e perigosos lugares em que foy como os sosteue esforçada- 
mente. Nem ajnda auia elle rrezam de deseiar paaz por que lhe as cousas 
ata ali) nam acodissem segundo sua vontade, ca em todos aquelles feitos 
lhe a fortuna rrespondera milhor do que elle deseiara. per cuja rrezam 20 
os feitos daquella guerra eram per todallas partes do mundo muy nomea- 
dos e afamados, ajnda mais pollos dannos e perdas que os Castellãos 
B 6, r, 2 *rreceberam que elle nem os seus. Mas de tal guisa peleiaua que 
sempre peleiando parecia que buscaua paaz segundo se claramente 
mostrou per todos seus feitos, a qual cousa foy sempre muito louuada 25 
assi pollos doutores da santa jgreia como pollos filósofos estóicos e 
peripateticos. e per todollos outros autores estoriaaes assi gregos como 
latinos. Os quaaes todos juntamente e cada hum per si acordam esta 
seer a mais exçellente virtude que se pode achar no príncipe .ss. nas 
aduersidades seer forte e nas prosperidades vmildoso. ca per faleci- 3o 

2. cuidado] ca elles nam se contentam, add B. — 3. jmposiuel B. — 4. acrecentão 
B. — 6. de escreuer B. — 8. rezam B. — 9. Da tençam I, No qual se dirá a tençam B. — 
12. acabado B. — 14. Castellãos C, castelhanos B. — 14-15. desforçado E, de esforçado 
B. — 18. paz B. — ig. ataaly E, atelij B. — 21. mui B. — 22. e afamados CE, ca falamos 
B. — Castellãos C, castelhanos B. — 22. mas E, mais B. — 26. assi B — pellos B — filó- 
sofos C, phõfos B — estóicos C, estoricos B. — 27. peripateticos CE, peripatericos B — 
28. esta CE, esto B. 



— i5 — 

mento de cada huúa delias cairam ja muitos príncipes muy grandes que- 
das segundo conta Joham Bocaçio hum poeta que foy natural de Flo- 
rença. Nem entendaaes que elRey assi deseiaua a paaz por força de 
cansaço que ouuesse em sosteer os trabalhos da guerra, os quaaes sam 
5 per sij tam grandes que sobre elles nam ha outros mayores. Ca nom 
ha prinçipe que os continuadamente soporte que se lhe a velhice nam 
antiçipe ante muitos annos do que o a sua natureza rrequere. como o 
poderees veer na segunda década de Tito Liuio no dezeno liuro. onde fala 
das rrezões que ouue Anibal com Cepiam chamandose velho sendo elle 

10 cm jdade de xxxvj annos. somente poUo trabalho da guerra que sos- 
tcueia em Espanha e Itália per espaço de xvj annos. Ca se elRey Dom 
Joham este* cansaço e enfadamente sentira nam mouera logo tanto que B 6, v, i 
a paaz teue cobrada tam grandes cousas como acharees ao diante que 
moueo. E pois que medo das desauenturas da fortuna nem o espanto 

i5 da grande multidam dos jmigos nam foy o principal azo per que elle bus- 
casse paaz nem outrosy vontade pêra se afastar dos trabalhos e buscar 
rrepouso e assessego. a quem poderemos atrebuir esta sua vontade senara 
aquelles dous princípios que sam escritos na primeira tauoa pollo dedo 
de Deos dados a Mouses no monte Oreb. nos quaaes se ençarraram 

20 todollos outros segundo o diz a santa escpritura .ss. que amaua Deos 
sobre todallas cousas e o seu próximo como a sij mesmo. Amaua Deos 
em quanto cobiçaua e deseiaua de o seruir naquelle offiçio que a seu 
estado conuinha oftereçendo seu peito a rreçeber muitas chagas e feri- 
das nam rreçeando trabalho corporal nem espalhamento de sangue pollo 

25 seu amor. e o que mais caro era nam perdoar a sua vida por exalçamento 
de sua santa fee catholica. E posto que alguíjs neiçeos e couardos digam 
que a guerra dos mouros nam he o mayor seruiço que a Deos pode seer 
feito per os seus fiees christaãos. erram grauemente. ca se assi fora os 
muy nobres rreis dEspanha que lançaram os mouros delia depois da 

3o morte delRey Dom Rodrigo nam fezeram oje tam grandes milagres como 

Deos * por elles cada hum dia faz nas sepulturas onde jazem, nem se fezera B 6, v, 2 
tanto seruiço como se faz nas sees e moesteiros e jgreias que elles tam 
grandemente edeficaram e dotaram leixandolhes muy grandes rrendas 

I. delas B — mui B. — 3. assi B. — 4. soster B. — 5. sy B. — 7. ante CE, antes B — 
requere B. — 9. çepião B. — 1 3. ao diante E, adiante B. — 14. desauenturas C, auenturas 
B. — i5. foi B. — 16. paz B. — 17. asossego B — poderemos E, queremos B. — 18. princi- 
pius B. — 19. Oreb C, ores B. — 20. sancta B. — 21. si B. — 22. descjaua B. — 24. rre- 
çeando C, rrecebendo B. — 26. sancta fe B — digam CE, sigam B. — 28. ca se assy fora 
CE, que asssi forom B. — 3 1 . cada um dia CE, cada dia B. — 33. dotarão B — e leixan- 
dolhes B — mui B. 



— io- 
de que se manteueram e mantém muitas pessoas rreligiosas que cada hum 
dia iouuam e adoram o nome do Senhor, e os bem auenturados mártires 
que por exalçamento da sua santa fee se forom antre os mouros a rre- 
çeber coroa de martírio nam teriam taaes sedas como teem e possuem éter- 5 
nalmente ante o trono do emperador celestial. E amaua a o próximo em 
quanto se doya de qualquer danno que lhe viesse, ca posto que aquellas 
vitorias ouuesse contra elles sempre os rrequeria e amoestaua que toda 
via ouuessem paaz. E esto era forte cousa, que elle que auia de seer 
rrequerido por ella polia vitoria que auia. elle a mandaua rrequerer. 'o 
mas esto fazia elle a dous fins. o primeiro por que lhe pesaua de seu 
danno em quanto eram christaaos. e o segundo por que guerreando com 
elles nam podia auer lugar pêra seruir a Deos como deseiaua. Em este 
passo tem alguús pouco menos que ereges que todallas criaturas rrazo- 
auees de qualquer ley que seiam deuemos de contar por próximos, o i5 
que se assi fosse seria erro fazermoslhe danno de certa ciência, mas a 
esto posso eu daar aquella rreposta que ja dey em cima com outras 
muitas autoridades da santa escritura que eu bem poderia amostrar 
7. ■■; ' posto que* fraco letrado eu seja. as quaaes ficam por escreuer por que 

nam sam pêra declarar de todo em semelhantes lugares. Porem con- 20 
eludindo este capitullo o virtuoso Rey Dom Joham. em comprimento de 
seu gram desejo segundo os mandamentos de nosso Senhor, tanto como 
elle pode buscou e rrequereo paaz. a qual lhe Deos encaminhou conhe- 
cendo sua vontade polia guisa que ao diante ouuirees. 



Como os embaxadores forom a Castella e da rreposta 25 

que ouiierom. Capitullo v. 

DEPOIS da morte delRrey Dom Anrrique que foy filho daquelle Rey 
Dom Joham que veeo aa batalha, ficaram delle dous filhos .ss. hum 
filho que chamauam Dom Joham como seu avoo e huíja filha que 
ouue nome Dona Caterina como sua madre. E por quanto aquelle filho 3o 
delRey Dom Anrrique que sobçedeo no rregno em lugar de seu padre 
era de muito pequena jdade quando primeiramente começou de rreinar. 
ficaram por seus tutores a Rainha Dona Caterina sua madre que era 

1-2. cada um dia CE, cada dia B. — 3. sancta B. — 4. posuem B. — 9. avia B. — i3- 
14. rrazoauees C, rracionaaes B. — 16. jaa B. — 17, sancta B. — 19. todos B. — 20. Joam 
H. — 23. guisa] omh — ao diante E, adiante B. — 26. delrrei B — Rei B. — 28. Joã B. — 
3o. no C, o B. — 32. tutores CE, titores B. 



— '7 — 

jrmã da Rainha Dona Felipa e o Iffante Dom Fernando seu tio que 
depois foy rrey dAragam. E logo a cabo de tempo elRey enuiou seus 
embaxadores aaquelles tutores delRey com suas cartas de creença pêra 
* acertarem com elles as pazes antre ambos os rreinos assi e per aquella B 7, r, 2 
5 guisa que fosse achado per dereito que se deuia fazer, os quaaes em- 
baxadores eram Joham Gomez da Silua alferes delRey e rrico homem 
e do seu conselho, e Martini Dosem gouernador da casa do Iffante Duarte, 
e o doutor Beliago adayam da see de Coimbra, todos três e cada hum 
em seu estado eram notauees pessoas e de grande autoridade. E tanto 

10 que chegaram aa corte delRey e lhe deram suas cartas de creença come- 
çaram daçertar seus feitos com aquelles tutores delRey. os quaaes mos- 
traram logo poUo presente que eram bem contentes que a paaz se fezesse. 
com tanto que fosse buscado caminho como se bem e dereitamente 
podesse fazer. Deuees de saber que as boõas vontades daquestes eram 

i5 mouidas per esta guisa. Primeiramente a da Rainha procedia por causa 
do diuado que auia tamanho com a Rainha Dona Felipa cujos filhos eram 
primos com jrmãos do seu. e por ello deseiaua que ficassem antre elles 
taaes amizades per que ao diante nam ouuesse nenhuúa contenda antre sy. 
E o Iffante Dom Fernando trazia seus tratos no rregno dAragam pêra 

20 auer de ser rrey como ao diante foy. E esto era porque per morte 
delRey Dom Martinho que fora rrey daquelle rregno nam ficou nenhum 
seu filho nem neto que erdasse o rregno. e porem eram em contenda 
sobre a erança daquelle rreino. Rey Reinei que era rrey de Napole. e 
o Iff'ante Dom Fernando, e o * conde dVrgel padre que foy da molher do B 7, v, 1 

25 Iffante Dom Pedro, e o duque de Gandia. empero este nom pode muito 
seguir sua demanda por azo do padre que lhe pêra ello faleçeo. e ficaram 
os outros três em contenda. E por quanto o conde dVrgel era natural 
do rreino e se criara em elle sentia o Iffante Dom P''ernando que com 
qualquer parte de dereito que teuesse seria mais fauorizado no rreino 

3o que elle que era estrangeiro, por cuja rrezam tinha vontade de proceder 
poderosamente no rrequerimento daquelle feito. E por que elle cada dia 
estaua em esperança de se jr ao rregno dAragam com poderio de gentes 
pêra tomar posse do senhorio, sentindo que se a guerra dantre Portugal 

2. daragão B — emuiou B. — 3. tutores CE, titores B — crença B. — 4. acertarem 
E, aceitarem B — 6. Joã B. — 7. Iffante Duarte E, Iffante Dom Duarte B. — 8. e cada 
hum C, cada hum B. — 10. chegarão B — crença B. — 11. daçertar C, çertar B — tuto- 
res E, titores B — delRei. — 12. paaz B. — i5. precedia B. — 16. diuedo E, diuado B. — 
17. deseiaua E, se deseiaua B. — 19. Ifante B -^ daragão B. — 21. que fora rrei daquelle 
regno CE, oní B. — 22. erão B. — 24. dVrgel E, drogel B. — 25. e o duque E, e duque 
B. — 27. dVrgel E, drogel B. — 3o. razam B. — 3i rrequerimento CE, rregimento B. 
3 



e Castella ficasse aberta que nom poderia tam bem acabar seus feitos, 
por que era necessário que elle fosse o principal guiador delia, e que 
sendo ocupado em semelhante trabalho perderia de todo o rreino dAra- 
gam que lhe era tamanha honrra e acreçentamento. E porem nam soo- 
mente lhe prouue de se a paaz rrequerer em tal tempo, mas ajnda teue 5 
que lhe fazia Deos merçe por lhe trazer tamanha segurança pêra seus 
feitos. Empero ao tempo que lhe os embaxadores acerca dello falaram 
apartadamente, elle nom mostrou outra necessidade por que o fezesse 

B 7, V, 2 soomente por lhe parecer rrezam e dereito de se fazer e assi polia * boõa 

vontade que mostraua a elRey Dom Joham. E assi que toda a duuida e 10 
tardança daquelle feito ficou nas jgualanças que se auiam de fazer por 
causa dos danificamentos que forom feitos antre hum rreino e outro no 
tempo das guerras passadas, sobre os quaaes forom tiradas alguúas jnqueri- 
ções per todolios lugares do estremo assi de hum rreino como do outro, 
e per todas outras partes onde quer que os ditos danos forom feitos. Desy i5 
fezerom seus descontos, e finalmente firmaram as pazes antre ambos os 
rreinos em todo bom amor e concórdia pêra todo sempre, das quaaes 
forom feitos certos capitullos firmados per aquelles tutores delRey e per 
todolios outros prinçipaes do rreino ficando rresguardado de seer depois 
rrequerido a elRey Dom Joham de Castella ao tempo que fosse em jdade 20 
que firmasse e jurasse os ditos capitullos. por que dali ao diante nom 
os podesse contradizer nem rreuogar. E des}' os embaxadores delRey de 
Portugal per poder de suas procurações que pêra ello tinham muy sofi- 
çientes juraram e firmaram as pazes ata que os embaxadores de Castella 
viessem a este rreino e as firmassem de todo assi elRey e seus filhos 25 
como todallas outras pessoas grandes do rregno. E esto todo acabado 
forom dados pregões per todo aquelle lugar onde a corte era com toda 
solempnidade que a tal feito compria. e assi feitas cartas pêra todallas çida- 

B 8, r, 1 des villas e lugares * daquelles rreinos pêra que fezessem apregoar per 

todallas suas praças e rruas prinçipaaes a firmeza em que as ditas pazes 3o 
eram feitas, mandandolhe que dalij ao diante tratassem com os deste rregno 
com todo bom amor e concórdia. 



3-4. daragão B. — 10. Joam B — i3. os quaes E, as quaaes B — algúas CE, suas B. — 
i5. Desi B. — 17. boõ B — e concórdia C, concórdia BE. — 18. capitólios B — tutores 
CE, titores B. — 19. resguardado C, rresgardado B. — 20. Joam B. — 21. ao diante E, 
adiante B. — 22. desi B. — 23. muy E, muito B. — 24. firmarão B — ata E, ate B. — 28. 
assi B. — 29. pêra que C, per que B. — 3 1 . ao diante E, adiante B — 32. boõ B — con- 
cordial add etc. B. 



— 19 — 

Como os embaxadores tornaram de CastcUa. 

e como as pa\es forom deiiulgadas per todallas partes do rregno. 

CapitiiUo vj. 

COMO as nouas chegaram a Lixboa onde elRey estaua da vinda dos 
embaxadores mandou logo que lhe teuessem prestes suas pousadas, 
e os fez nobremente agasalhar assi pollo merecimento de suas pes- 
soas como per rrezam da embaxada que traziam. E desy teue seu conselho 
no qual os ditos embaxadores forom ouuidos da rreposta que traziam con- 
tando a elRey toda a maneira que se com elles teuera naquelle rregno de 

IO Castella. dandolhe as encomendas da Rainha e do Iffante Dom Fernando 
assi a elle como a seus filhos e a todallas outras grandes pessoas de seus 
rregnos. Desy enncgarom a Gonçallo Lourenço todallas screturas que 
traziam das firmezas das pazes, as quaaes logo alij forom lidas e pubri- 
cadas em presença delRcy e de todollos outros senhores que alij * eram. 

i5 E muito agradeçeo elRey aaquelles embaxadores o que assi trataram e 
encaminharam por seu seruiço. por que fora todo muy bem tratado e 
encaminhado. E depois que esto todo assi foy acabado mandou que se 
apregoassem logo aquellas pazes em aquella cidade com aquella festa e 
solennidade que tamanho auto rrequeria. E mandou jsso mesmo que 

20 fossem feitas cartas pêra todallas cidades e villas do rreino e pêra alguús 
nobres homeés que alij nam eram de presente, per as quaaes lhe fazia 
saber como per graça de Deos antre os seus rreinos e os de Castella 
eram firmadas pazes e amigauees lianças pêra todo sempre, e porem 
que lhes encomendaua que dessem por ello muitas graças a Deos. e 

25 que fezessem apregoar as ditas pazes cada hum em seus fugares. 
As quaaes cartas assi feitas e enuiadas foy feito per todo o rreino 
o que lhes elRey assi mandaua. Mas pêra falarmos dereitamente 
he bem que digamos a diuersidade das openiões que auia antre as gen- 
tes do rregno cada huijs em sua parte. E primeiramente todollos velhos 

3o e aquelles que auiam dereito juizo eram muito alegres ouuindo a çer- 
tidam daqueste feito e conuidauam seus amigos pêra suas casas e luga- 
res fazendo muy grandes conuites. nos quaaes faziam grandes despezas 
soomente por se alegrarem de tamanho bem. E nom podiam em ai 

2. todalas B. — 7. desi B. — 8. trazião B. — i3. as quaes E, aas quaaes B. — 1 5. assi 
B. — 16. muy E, muito B. — 18. aquelas B — aquella C, a qual B — - 20. fossem B 

— vilas B. — 26. foi B. — 27. mandaua CE, mandara B — falaremos B. — 28. hee B — 
diuersidade C, deuersidade B. — 29. todolos B. — 3i. pêra E, per as B. — 32. mui B. 

— 33. somente B. 



B 8, r, 2 



B8, V, I falar em quanto * assi estauam em seus ajuntamentos senam nas grandes 
virtudes delRey Dom Joham. Agora diziam elles. he Portugal o mayor 
e mais bem auenturado rregno que ha no mundo, que nos temos antre 
nos todallas boõas cousas que hum rregno abastado deue teer. Nos temos 
grande auondança de pam per tal guisa que nunqua a destemperança 5 
dos tempos pode seer tamanha que sempre em alguiãas de nossas comar- 
cas nom aja pam com que se as outras possam rrepairar. e ajnda quando 
os annos forem jguaaes da nossa auondança poderemos aproueitar a 
muitos de nossos amigos. Temos muitos vinhos e de desuairadas nações. 
de que nam soomente a nossa terra he abastada mas ajnda se carre- lo 
gam muitas naaos e nauios pêra socorrimento das terras estranhas. Pes- 
cados de maar e de rrio sam tantos e taaes que em outras nenhuúas 
partes do mundo nam sam achados em tamanha auondança. ca dos 
nossos portos se mantém muy grande parte da Espanha. Azeites e 
meles sam antre nos tantos e tam boõs que os nossos vezinhos am mes- i5 
ter de nos e nos nom delles. Carnes de todallas maneiras proueitosas e 
de grande sabor nas nossas serras e campos se criam pêra todollos tem- 
pos do anno quaaes e quejandas a natureza dos homeés saaos e doentes 
ham mester. Fruitas e legumes com todallas outras cousas naçem em 
nossas terras sem gram trabalho dos homeés. e assi auemos estas 20 

B8, V, 2 cousas em tamanha abastança que a *multidam delias nos faz desprezar 
sua vallia. E os nossos portos e ancoraçÕes sam tam seguros de todollos 
tempos contrairos que tarde ou per grande ventura rrecebem os nauios 
em elles nenhuijs dannos per que ajam rrezam de se perder. Ora pois 
que assi he que nos temos tanta auondança antre nos. qual cousa podere- 25 
mos mais rrezoadamente deseiar que a paaz. que sem ella nenhuúa cousa 
per grande e boõa que seja nam se pode em seu perfeito estado conser- 
uar. e os danos que se per sua causa seguiram assaz sam de muitos e 
grandes. Porem pois que Deos prouue de dar tanta vitoria e tanto bem 
a nosso bom Rey que nos procurasse a paaz cora o rregno de Castella. 3o 
temos grande rrezam de nos alegrar e rrogarmos a Deos polia saúde e 
estado delRey nosso senhor, que pois nos temos paaz com Castella todo 
outro poder do mundo nam no auemos que temer, ca nos da huQa parte 
nos cerca o maar e da outra temos muro no rreino de Castella. Ora 
daqui auante poderemos aproueitar nossos beés e vender nossos fruitos sem 35 
alguúa torua nem empacho, ja agora os nossos mercadores poderam jr 

1 . senão B. — 2. Johão B — he DE, o B. — 4. todalas B. — 5. per tal E, para tal B. 
1 1 . nãos B. — 20. grão B — 22. tão B. — 24. aiam B. — 27. per E, por B. — 29. beé B. 
— 3o. boõ B — paz B. — 3i. pola B. —33. outro E, o outro B. — 36. jaa B. 



seguramente per toda a Espanha a vender suas mercadorias de que nos 
poderam trazer muitas nobres cousas pêra guarniçam de nossas casas, e 
os nossos lauradores que morauam naquelle estremo tornaram a pouoar 
os casaaes e erdades que desempararam com temor dos jmigos. e nos 
5 * outros jaremos em nossas camas rrepousando sem esperança dos traba- B 9, r, 
lhos da guerra pêra que ajamos de seer chamados, nem ouuiremos os 
gemidos das molheres a que chegarem as nouas da morte de seus mari- 
dos. E quando andarmos polias nossas praças nom teremos nenhum 
temor de nos chegarmos ao ajuntamento de nossos amigos por rreçear- 

10 mos de ouuir as desauenturas de nossa terra, por que quando se as 
cousas rreuoluem per semeliiante maneira, a meude correm as nouas 
polias cidades e uillas as quaaes continuadamente nom podem seer ale- 
gres. Nos andaremoi; per nossas rromarias visitando as rreliquias dos 
santos por que possamos cobrar saluaçam pêra nossas almas, e quando 

i5 jouuermos em nossas camas chegados aa morte teremos vagar pêra 
fazermos nossas mandas e testamentos com grande segurança que se nos 
ajam de comprir nossas postumeiras vontades depois do acabamento 
de nossas vidas, e alegres nos partiremos deste mundo quando certa- 
mente soubermos que as nossas carnes se am de gastar nos çerimiterios 

20 daquellas jgreias onde dizimas dos nossos fruitos e as premiçias dos nossos 
gados demos aos nossos rreitores padres de nossas almas. E que será 
outra cousa a terra que nos gastar senom carne dos nossos padres e 
auoos. filhos e parentes, em cuja companhia nos aleuantaremos quando 
derradeiramente * formos chamados pêra hirmos juntamente aaquelle b 9, r, 

25 juízo no qual o filho da virgem detreminara nossas maldades como for 
sua merçe. os quaaes proueitos nos trouxe a bem auenturança da paaz. 
Outras departições muy contrairás daquestas eram antre os fidalgos man- 
cebos com todollos outros de sua jdade e assi alguús homeés que nam 
tinham outro bem senam esperança do ganho que lhe auia de seer dado 

3o por auantagem que fezessem no feito das armas. Certamente deziam 
elles. nam tinha elRey menos cuidado de trautar pazes com Castella que 
se elle tiuera perdido os milhores castellos de seu rreino. Que queria 
elle mais senom que os Castellãos viessem rrequerer pollos dannos que 
lhe cada dia eram feitos. Nos tinhamos agora tempo de cobrarmos de 

35 Castella camanha parte quiséramos, ca elRey he em muy pequena 

2. nobres D, nobles B — guarnição B. — 4. desempararão B. — 5. repousando B. — 
8. andaremos B. — 9. chegaremos B. — 10. nossas B — i5. jouueremos B. — 19. syrimi- 
terios D, ceremiterios E. — 20. igrejas B. — 21. nosas B. — 24. foremos B — hiremos B. 
— 25. uirgem B. — 3i. trautar E, tratar B. — 32. elle E, nelle B. — 33. Castellãos D, 
Castilhanos B. — 34. cobraremos B. 



jdade per cuja rrezam todo seu rreino se rrege per tutores os quaaes con- 
tinuadamente nam podem seer em nenhum acordo, e por qual quer 
pequena desauença que antre elles ouuera logo fora necessário que todo 
o rregno fora deuiso. que fora grande azo pêra nos fazermos nossas en- 
tradas per aquelle rregno de cujos rroubos enrrequeçeramos toda nossa 5 
terra, e os nobres liomées teueram tempo e azo de exercitar suas forças e 

B, 9, V 1 valentias segundo pertence aa viueza * de sua jdade. Quanto o trabalho 
fora milhor e a guerra mais continuada tanto elles teueram mais vsado o 
officio das armas e mais cousas e milhores e esprementadas com que 
poderam fazer grande empeçimcnto a seus jmigos o que agora será poUo lo 
contrairo. ca os mancebos perderam a milhor parte da sua jdade ou se 
hiram fora do rregno onde os galardoões dos seus trabalhos seram atri- 
buídos aos estranhos. Empero esta culpa nom he se nam da velhice, ca 
elRey e todos aquelles que algo seguiram nas primeiras guerras sam ja 
cansados e enfadados polia grande sofrença dos trabalhos que ouueram. i5 
e porem desciam rrepouso. pollo qual trabalharam trazer todollos feitos 
a este fim. ca se elles forom dos nossos dias nam se atrigaram tam 
asinha de buscar assessego pêra sy nem pêra o rregno. saluo se fora com 
outra muito maior auantagem. Quem será aquelle que possa em este 
mundo fazer cousa por santa e boõa que seja que aja daprazer a todos. 20 
quando aquelle que fez todallas cousas obrando tam justamente nam 
pode fazer cousa com que aprouuesse a todos, ca se for obra de siso 
he necessário que aborreça ao sandeu, e se for feito de fortaleza enteja 
ao fraco, e assi que cada huija cousa aborrece seu contrairo. Outras 

B, 9, V, 2 departições ouue em * aquelle feito como geralmente se faz em todas obras 25 
dos homeés das quaaes nam curamos, por que nam he bem que vamos 
pollo rrasto de todallas cousas. 



I . rezam B — tutores E, titores B. — 4. regno B — fazeremos B. — 5. regno B — enre- 
queceramos D. — *'). omeês B — teueram E, tiueram B — aazo B. — 7. viueza B, ardideza 
D — quanto B, e quanto E. — 8. milhor B, mayor E. — q. esprementadas DE, esperi- 
mentadas B. — 12. dos B, de E. — 14, algo B, o E — seguirão B^ — guerras primeiras D. 

— jaa B. — 20. e E, nem B — de aprazer B, daprazer E. — 23. aboreça B, avorreça D 

— ao D, o B — 2G. omeês B. 



— 23 — 

Como ElRey Dom Joham enuiou rreqiierer ao Iffante Dom Fer- 
nando a conquista de Grada. Capitullo vij. 

Assi trazia o muy nobre Rey Dom Joham prantado o amor da santa 
fee nas entranhas de seu coraçam que tanto que aquella paaz teue 
cobrada logo se trabalhou de maginar lugar e maneira como podesse 
fazer serviço a Deos segundo tinha desejo. E por quanto o rregno de 
Grada lhe pareçeo mais azado pêra a guerra que outro algum, fez saber sua 
entençam ao Iffante Dom Fernando, por quanto os rreis de Castella tem 
assi aquelle rregno casi em sogeiçam dizendo que he da sua conquista. 

IO que porem nam o deue guerrear nenhuúa pessoa sem sua autoridade e 
mandado, e jsto ficou assi tanto em vso des o tempo que os rrex dEs- 
panha tinham os mouros antre sy que ja agora comunalmente o am por 
dereito. E tanto que aquelle rrecado fo}' ao Iffante Dom Fernando deu em 
* rreposta que os feitos de Castella estauam assi empachados que elle por B, io,r, r 

i5 entam nom podia detreminar dereitamente a rreposta que naquelle feito 
ouuesse de daar. e também tinha sua demanda começada por parte do 
rreino dAragam a qual entendia proseguir ata auer comprimento de seu 
dereito. E que por ello tinha feitas tregoas com o rregno de Grada por 
certo tempo, e que elle rrepousasse assi ata as ditas cousas serem findas. 

20 e que se se a guerra com aquelle rreino começasse que elle o faria saber, 
e que entam poderia enuiar seu rrecado por declaraçam de sua vontade 
sobre a qual se teria conselho e lhe seria dada detreminadamente sua 
rreposta. 



I. Joam B — requerer B. — 3. nobre D, noble B — Joam B. — 4. paz B. — 5. logar B 
— podesse D, podessem BE. — 7. pêra a E, para B. — 8. entençam B, tençam D. — 
9. sogeição B — da B, de D. — 11. Rex B, reis D. — 12. jaagora B, jagora D. — i5. detri- 
minar B — que naquelle B, que lhe naquelle E.- — 17. a qual B, a que elle E — pro- 
seguir D, perseguir BE — ata E, atee B. — 18. tinha E, om B — feitas E, feito B. — 
19. ate B — findas E, finadas B. — 21. recado B. — 22. detriminadamente B. 



— 24 — 

Como clRey tinha vontade de fa\er g}-andes festas cm Lixboa 

pêra fa\er seus filhos caualeiros. e como os Iffantes falaram acer- 

qua dello autre sy que semelhante 7naneira de cauallaria nam era 

honrrosa pêra elles. CapituUo viij. 



E 



|M este presente capituUo nos he necessário que tornemos atras por 5 
trazermos nosso processo em sua dereita ordenança. Ca muitas 
vezes se acerta que jazem as primeiras pedras ao pee da obra espe- 

B, io,r, 1 rando por seu propio lugar, e as derradeiras sam postas * no fundamento do 
liçeçe quando o mestre da geometria laura em seu offiçio. Onde assi he 
verdade que ante muito do presente negocio o muy nobre Re}' Dom Joham lo 
dissera como tinhti grande vontade de fazer seus filhos caualeiros o mais 
honrradamente que se bem podesse fazer, e esto falara elle ja por vezes 
ante daquelle tempo e nam he duuida ser esta a principal cousa em que 
seu coraçam por aquelle presente fosse mais ocupado. Ca via ante seus 
olhos taaes três filhos baroÕes fortes e mancebos como de huúa jdade que i5 
pouco mais leuaua hum ante o outro que hum anno. os quaaes cada vez 
que pareciam ante seu padre lhe acreçentauam no desejo sobre o pri- 
meiro pensamento, como per qual maneira poderia mais honrrada- 
mente daar estado caualeiroso aaquelles filhos que lhe Deos por sua 
mercê quisera dar com tanta apostura de todallas cousas que a nobres 20 
príncipes conuinha. E falando sobre ello huiãa vez disse assi. Se me 
Deos por sua merçe traz assessego a este rreino per firmeza de pazes 
com Castella. eu quero ordenar huúas festas rreaaes que durem todo 
hum anno. pêra as quaaes mandarey conuidar todollos fidalgos e gen- 
tijs homeés que teuerem jdade e desposiçam pêra tal feito que ouuer em 25 

B, IO, V, I todollos rregnos * da christandade. e ordenarej* que nas ditas festas aja nota- 
uees justas e grandes torneos e muy abastosos conuites seruidos de todal- 
las viandas que se per todo meu rregno e fora delle possam auer. E 
desy danças e outros jogos seram tantos e taaes que assi delles como de 
todallas outras cousas as gentes que o virem tenham que sobre a gran- 3o 
deza delias nom se possam fazer outras maj-ores. E com esto darey tantas 

3. açerqua D, açerqa B — delo B. — 5. Em este B, Neste E. — 8. por seu B, por o 
seu D. — 9. liçeçe B, liçerçe D, alicece E. — seu officio E, seus officios B. — 10. muitos B 

— rey B — Joam B. — 12. onrradamente B ^ jaa B — por E, per B. — 1 3. a principal E, 
principal B. — 14. ocupado D, acupado B. — i5. varõis D. — 16. ante o B, ao D. — 18. qual 
D, qualquer B. — 21. conuinham B, convinha D. — 23. quero E, queria B. — 25. omeês B 

— 2G. dietas B. — 28. todos meus reinos E — delles E. — 29. desi B. — 3o. todalas B. — 
3i. delias E, dello B. 



— 25 — 

e tam grandes dadiuas principalmente aaquelles estrangeiros que a gran- 
deza e doçura dos benefícios que lhes eu assi fezer lhes ponha necessi- 
dade de os apregoarem grandemente antre todollos seus amigos, e em 
fim destas cousas farey meus filhos caualeiros. E esto fo}' assi dito 
■"i per eIRey. a qual cousa bem queriam todos que se posesse em obra. 
tanto que elRey ouuesse lugar pêra ello. Empero os Iffantes lembran- 
dosse quem eram e a aheza do sangue que tinham, posto que este feito 
a outros alguús parecesse grande a elles pareçeo muy pequeno, empero 
soportaromno assi em quanto o feito das pazes era em duuida. consi- 

10 rando que se se as pazes nom firmassem e a guerra ficasse aberta, que 
taaes cousas lhe viriam as maãos em que honrrosamente podessem rreçe- 
ber sua caualaria. mas depois que as pazes forom firmadas entenderom 
elles que nom ficaua hy cousa certa em que elles podessem seer caualei- 
ros polia guisa que o elles* deseiauam. E sendo hum dia todos três jun- h, io,v,2 

i3 tos e ajnda o conde de Barçellos com elles trauaram em aquella rrezam 
como cousa que nom andaua muito longe de suas lembranças, e esto era 
na camará de seu padre sendo elles apartados de sua presença, dandolhe 
lugar a alguús feitos em que por entam estaua ocupado, e tanto falarom 
naquelle feito de sua caualaria mouendose antre elles muitas rrezoões a 

20 concrusam detreminaram de o falarem a elRey. Vamos disserom elles 
falar a eIRey nosso senhor e padre, e digamoslhe que ordene alguúa 
cousa em que possamos fazer de nossas honrras. onde nos elle possa 
fazer caualeiros. como pertence aa grandeza de seu estado e a exçellen- 
çia de nosso sangue. Ca pois as pazes de Castella sam firmadas, e da 

25 parte de Grada nam temos esperança certa, nom ha hy pollo presente 
cousa nenhuúa azada em que possamos rreçeber estado de caualaria se 
nouamente nam for buscada. Ca polia maneira que sua senhoria tem 
vontade de o fazer todo he cousa de pequeno valor pêra a grandeza de 
tamanho feito, que por grandes que as festas sejam nunqua seu nome 

3o he de grande vallia pêra semelhante caso. por que semelhantes pessoas 
nos grandes feitos de fortaleza com grandes trabalhos e perigos vendo o 
sangue dos seus jmigos espargido ante seus pees soo he de rreçeber o 
grado de sua caualaria. E os filhos dos cidadãos e dos mercadores cuja 
honrra * nom se pode mais estender que a semelhante estado .ss. de serem H, 1 1, r, i 

2. benefficios B — lhe eu E. — 4. dicto B, dito E. — 6. logar B. — 10. se se E, se B. 
— II. viriam D E, veriam B. — 12. despois B. — 14. per a guisa E. — i5. rrezão B. — 
16. muito B, muy E. — 18. ocupado D E, acupado B. — 20. determinaram B, ordenarão 
D. — Vamonos D. — 22 . possa I, pode E, poder B. — 26. nenhúa B. — 'i-j. buscado B — 
polia B, per a E. — 29. seiam B. — 3 1 . perigos D E, prigos B. — 33. cuja B, a cuja D. — 
34. mais B, a mais. D. 



— 26 — 

caiialeiros. a estes he cousa conuinhauel de se fazerem festas e jogos, 
porque toda a torça de sua honrra esta na fama de sua despesa. O 
conde de Barcelos era mais velho que nenhum delles. o qual posto 
que falecesse na nobreza da geraçam quanto aa parte da madre, fezerao 
Deos tam virtuoso e de tamanha grandeza de coraçam que em todalias 5 
cousas de honrra escondia a baxeza do sangue da madre, e com jsto 
auia elle muy grande siso. pollo qual auia no rreyno grande lugar pêra 
conselho, quanto mais que elle fora ja fora destes rreinos per espaço de 
grande tempo, e fora per casas de grandes príncipes e senhores, onde lhe 
fora dada grande autoridade assi por seer filho de quem era como polia lo 
grandeza do seu corregimento. porque aalem dos seus corregimentos 
serem grandes e boõs leuaua consigo muitos senhores e grandes homeés 
com outros muitos fidalgos deste rregno de que sempre foy muy bem 
acompanhado, e foy tam longe a sua jda que chegou aa casa santa de 
Jerusalém, em esta viagem que elle assi fez aprendeo e soube muitas i5 
cousas que vio naquellas partes estranhas per as quaaes acreçentaua 
muito mais em seu proueitoso conselho. Assi que por todas estas cousas 
posto que os Iftantes fossem tam * prudentes e descretos tomaram porem 
grande ousio pêra falarem a seu padre quando viram que lhes o conde 
tam grandemente louuaua seu bom preposito. 20 



Como Joham Affonso veedor da fa:{enda falou aos Iffantes na 

cidade de Cepta e como os Iffantes falaram a seu padre. 

Capitullo ix. 

NAM eram ajnda estas rrezões de todo postas em fim quando hi logo 
sobrechegou Joham Affonso veedor da fazenda delRe3^ o qual 25 
posto que detreminadamente nam ouuesse certidam do preposito. 
polias congeituras do que vio entendeo que o feito em que aquelles senhores 
falauam era de grande peso. Ca em semelhantes cousas sam apartados os 
homeés anisados dos outros de grosso engenho, os quaaes por pequeno moui- 
mento que aconteça e faça entrepetam grande parte do que homem tem 3o 
na vontade. E porem Joham Affonso cuja crareza dentender fora a prin- 

— 2. na fama B, a fama E. — 4. geração B. — 5. vertuoso D. — 6. baixeza D. — 
7. legar B. — 14. sancta B. — i5. em esta E, e esta B. — 16. per B, pêra E. — 21. Joam 
B — veador E. — 22. Ceit DE. — 25. Joam. — 26. determinadamente B — ouuisse B — 
certidam E, a certidam B. — 27. do que E, que B. — 3i. em vontade E — João B — de 
entender B. 



— 27 — 

çipal causa de seu acreçentamento quando assi achou os Iffantes desejou 
de saber o fim de seu preposito por lhe parecer a calidade da sostançia 
de tamanha força de que nom podia *naçer senam hum feito grande e Bii,v, i 
pesado, e pediolhes de merçe que lhe quisessem dizer o fundamento de 
-'' sua entençam. E como quer que os Iftantes quisessem dessimular o pró- 
prio motiuo de seu rrezoado conhecendo como elle era homem sesudo e 
boõ e que tinha grande autoridade no rreino polia grande fiança que 
elRey seu padre em elle auia. vieramlhe a contar declaradamente sua 
entençam. Vossos pensamentos disse elle sam assaz de grandes e boÕs. 
'O e pois que vos taal vontade tendes eu vos posso assinar huúa cousa em 
que o podees bem e honrradamente executar. E esto he a cidade de 
Cepia que he em terra dAftriqua que he huija muy notauel cidade e 
muy azada pêra se tomar, e esto sey eu principalmente per hum meu 
criado que la mandey tirar alguús catiuos de que tinha encarrego, elle 
'5 me contou como he huúa muy grande cidade rriqua e muy fermosa. e 
como de todallas partes a çerqua o mar afora huúa muy pequena parte 
por que am sayda pêra a terra. E segundo o grande desejo de vosso 
padre e o vosso nam sento per o presente cousa em que mais honrro- 
samente podessees fazer de vossas honrras como no filhamento daquella 
*o cidade. E porem me parece que auereis bom conselho falardes em ello 
a elRey e pedirlhe que encaminhe como se faça. ca esto he cousa pêra 
ter em conta ca nom festas e conuites de comer e beber em que 
nam ha senam despesa de vianda* e ocupaçam de tempo, cuja memo- Bii,v, 2 
ria prescreue com pequeno louuor. Pois disserom elles que nam fala- 
25 uees esto primeiro a elRey contandolhe todas estas cousas per meudo 
pêra verdes o que rrespondia açerqua delo. Assi lho faley disse Joham 
Affonso e nam me parece que me rrespondeo como eu quisera, ante 
passou o feito como quem o tinha em jogo. Mas pêra esto milhor seer 
chegaiuos a elle assi como estaes todos quatro e falailhe no feito dizen- 
do dolhe todo o que sobre ello vos parecer, e pode seer que vos entendera 
milhor do que entendeo a mim. Os Iftantes disserom que era muy bem. 
Desy foromse assi todos quatro juntamente onde estaua seu padre e 

I. causa E, cousa B. — 2. preposyto B — calidade I, craridade B, qualidade E. — 
3. de que B, que E. — 4. pediolhes D, pedindolhes B. — 5. entençam E, tenção B. — 
6. conhecendo E, conhecimento B. — 10. assinar B, ensinar D. — 11. honrradamente B, 
onradamente E. — 12. Ceita D — de aflriqua B — notauel D, notable B.^14. tinha 
encarrego B, o tinha encarregado E — elle B, e elle E. — 16. muy B, bem D. — 17. grande 
B, gram D. — 18. sento E, sinto B. — 23. ocupação E, acupaçam B. — 24. perescreue B, 
prescreue E. — 25. esto E, jsto B. — 2G. rrespondia B, vos respondia E — lho faley B, 
o faley E — Joam B. — 28. jogue D — esto B, isto D. — 3o. parece E. 



começaramlhe de falar em todo o que passarom naquella camará, dizendo 
que posto que elle teuesse vontade de fazer assi aquellas festas com 
íj;randes despesas que a honrra que se delias seguia sempre seria pequena 
a rrespeito da obra que elle em ellas queria fazer. A qual cousa seria logo 
boõa pêra outro algum príncipe cujo nome e fama fosse de mais pequeno 5 
valor, mas que pêra elle que tantas e tam grandes cousas tinha acaba- 
das que nom era semelhante cousa pêra teer em grande estremo, rre- 
zoando açerqua dello esto e outras muitas rrezões cada hum segundo mi- 
Ihor as podia entender. Mas elRey cujo coraçam nom se mouia assi 
ligeiramente começou de se rrijr contra elles mostrando que tinha em lo 

B 12. r, 1 jogo suas palauras. como ante * fezera a Joham AfFonso. E este he o 
verdadeiro coraçam do magnânimo o qual logo no primeiro mouimento 
por grande que a cousa seja nom se derriba a consentir em nenhum pro- 
ueito nem perda que se lhe açerqua dello possa mostrar, mas estará posto 
em huija firmeza pollo qual liuremente consira quaaesquer azos ou i5 
estrouos que se lhe daquelle feito possam seguir, e assi rresponde passa- 
mente como quem nam tem a grandeza do feito em tal estima que lhe 
faça espanto. Os lífantes assi como homeés desejosos de semelhante 
nouidade. como quer que lhe seu padre aquella rreposta desse, nam se 
poderam partir assi ligeiramente de seu preposito ante consiraram em 20 
ello por alguús dias. e quanto mais em ello consirauam tanto lhe a cousa 
parecia milhor e mais honrrosa. E porem juntaramse outra vez e falaram 
antre sy o que ante consirara cada hum em sua parte, sobre todo ouue- 
ram seu conselho, e se tornaram outra vez a elRey mostrandolhe todo 
o que auiam consirado. porque quanto era o que a elles parecia a cousa 25 
era tam boõa que nam tinham senam que lha trouxera Deos a memoria 
por grande milagre. E assi forom a elRey auendo por boÕa detremina- 
çam de lhe falarem todavia nam soomente aquella vez mas outras mui- 
tas ata que lhe fosse outorgada, e ja esta derradeira vez falaram a 
seu padre com muito ma3'or peso como aquelles que teueram mayor 3o 

B 12, r, 2 espaço pêra cuidarem no feito, e a * jsso traziam muitas e soficientes rre- 
sões enduzidores a seu preposito antre as quaaes disserom que lhe pediam 
por merçe que esguardasse bem naquelle feito, ca sendo bem consira- 
das todallas partes de seu mouimento acharia que dandolhe Deos uitoria 

1. passara D. — 3. seria E, foy B. — 6. que pêra elle E, porque elle B. — 8. acerca B 
— esto B, estas D. — 9. coração B. — 11. Joam B. — 14. se I, om B. — 17. estima D^ 
estimo B. — 20. preposito D, propósito B — consiraram B, consirauam D. — 25. pare- 
cia B, pertencia D. — 27-28. detreminaçam D, determinaçam B. — 28. mas B, se nam 
D. — 29. ataa B — jaa B. — 3o. muyto maior B. — 3i. e a isso D, Hy se B. — 32. pro- 
pósito B. — 33. ca B, que D. 



— 29 — 

que acabaria três cousas muy grandes, as quaaes nenhum grande príncipe 
nam deuia dengeitar quando se lhe assi offereçessem como se a elle 
em tal caso offereçeram .ss. a primeira grande seruiço a Deos. ca se 
elle semelhante caso engeitasse tarde ou per grande ventura lhe sobre- 
uiria outro semelhante. E se vos senhor disserom elles todo este tempo 
trabalhastes por paaz afim de fazerdes seruiço a Deos. muito mais he 
rrezam que o siruaaes agora em este caso. pollo qual seguireis a boõa 
entençam dos bem auenturados rreis dEspanha de cuja linhagem deçen- 
deis per rreal geraçam. E a segunda cousa he honrra que se vos dello 
segue, ca posto que vos Deos desse muitas e grandes vitorias contra vos- 
sos jmigos esto foy em defensam de vosso rreino. a qual cousa em muitos 
lugares vos apresentaua a necessidade, porque vergonhosa cousa seria 
nenhum grande príncipe que possue nome rreal leixar guerrear seus rrei- 
nos que ante nam oferecesse sy e seu corpo pêra defensam delles. E esto 
he pollo contrairo. por quanto * vos por vossa jnleiçam própria sem cos- B i2,v, » 
trangimento de nenhuúa pessoa vos ofereceis a este perigo e trabalho 
nam por outra necessidade senam por seruiço de Deos e por acreçenta- 
mento de vossa honrra. E esto será assi como hum sello firme que 
poera grande firmeza em vossas vitorias. E a terceira cousa he a grande 
e boõa vontade que tendes de nos fazerdes honrradamente caualeiros o 
que por outra guisa nom podereis fazer de que se a vos e a nos siga mayor 
honrra pois que outra nenhuíia conquista nam tendes em que o possaes 
fazer. Porem vos pedimos por merçe que queiraaes sobre todo consirar 
prouendo sobre nossas rrezões com outras muitas que o vosso nobre e 
grande entendimento concebera, e nos rrespondaaes com efeito a nossa 
petiçam. a qual quanto a nosso juizo nam pode ser milhor nem mais 
dereita segundo as niuitas rrezões que vos açerqua dello auemos dito e 
outras muitas que leixamos perder. 



I. grandes B, boas D. — 2. dengeitar D, de engeitar B. — 3. tall D. — 4-5. sobre- 
ueria B. — i3. possue B, possuy D — i3-i4. rregnos D. — 14. antes B — delle B. — 
i5. jnleiçam B, enleyçam D — propia B. — iC). prigo B, periguo D. — 18. esto I, este B 
— assy B. — 19. em B, de D — uitorias B. — 20. bõa B — honrradamente B, bem e 
omrradamente D. — 20-21. o que por outra guisa non podereis fazer] om D. — 25. gram 
D — comçebera D — respondaes B. 



— 3o 



Bi2, V, 2 Como elRey disse que nam queria detremirar nenlniíia cousa 
daquelle feito ata que soubesse se era seruiço de Deos de se fa\er 
e como mandou chamar os letrados pêra o saber. Capitullo x. 



N' 



•EM aa verdade que posto que elRey fezesse aquellas mostranças de 
nom querer consentir no rrequerimento de seus filhos que a sua von- ^ 
tade nam era porem menos que aquella que cada hum delles tinha, 
mas quanto elle mais retardaua o feito tanto fazia mayor desejo aos Iffan- 
tes. e ajnda prouaua seus entendimentos e engenhos negandolhe o que elles 

B i3, r, I tanto deseiauam. * Porque as duuidas trazem muitas vezes azo pêra que 

a cousa seja milhor entendida, e por ello tem os velhos mestres em cus- '° 
tume de mouerem grandes e muitas questões aos seus nouos desçipollos. 
porque o trabalho que elles tomam a buscar as prouações traz grande 
acreçentamento aa sua sabedoria, porque a mayor parte de sua lógica he 
fundada em argumentos grandes e duuidosos em que os escollares apu- 
ram todallas partes das outras ciências. Bem ouuy rrrespondeo elRey o '^ 
que ata ora me dissestes, e posto que vossas rrezões sejam justas e rre- 
zoadas eu tenho ajnda outros contrairos pêra vos rresponder quando 
quer que sobre ello falarmos açerqua da detreminaçam. Empero ante 
que eu nenhuúa cousa rresponda quero primeiramente saber se esto he 
seruiço de Deos de se fazer, ca por muy grande honrra nem proueito ^° 
que se me dello possa seguir se nom achar que he seruiço de Deos nom 
entendo de o fazer, porque soomente aquella cousa he boõa e onesta 
na qual Deos jnteiramente he seruido. E porem vos vos hy pêra vossas 
casas e cada hum em sua parte consire quaaesquer duuidas que se possam 
seguir açerqua do seruiço de nosso Senhor Deos. e entre tanto mandarej' ^5 
chamar meu confessor e assi outros alguús letrados e falarey com elles 

Bi3, r, 2 toda a ordenança deste feito e * encomendarlhes ey que prouejam em 
seus liuros e conçiençias se per uentura terey alguúas duuidas em contra 
do que eu deuo de fazer segundo fiel e católico christão. e eu de minha 
parte consirarey em ello. e em fim de todo ao tempo que ouuer dauer 3o 
sua rreposta nos juntaremos todos e teremos nossa falia, onde se tratara 
de toda a sustançia deste feito sobre o qual detreminaremos se he bem 
de se fazer ou nam. Assi ficou elRey com aquelle encarrego e os lífan- 
tes e conde de Barçellos forom a suas casas, onde cada hum tomou seu 

I. determinar B. — 2. ate B. — 4. aa B, ha D. — 5. comsemtir D. — 9. azoo D. — 10. 
seia B. — II. decipolos D. — 16. atee agora D, atee ora B — disestes B — seiam B. — 
18. detriminaçam B, detreminação D. — 20. onrra B. — 21. posa B. — 24. se possam D, 
possam B. — 26. allgQs D. — 28. comçiençias D, conçiençia B. — 29. xpão B, crystão D. 
— 3o. elle B — dauer] om D. — 32. o qual D, a qual B — detriminaremos B. 



— 3i — 

apartamento pêra consirar com muito mayor deligençia as circunstancias 
e casos duuidosos que o proseguimento daqueile feito podia trazer quanto 
a fee e seruiço de nosso Senhor. E elRey mandou logo chamar o mes- 
tre fre}- Joham Xira. e o doutor frey Vasco Pereira que eram os seus con- 
5 fessores e o Iffante Duarte, e assi outros alguús prinçipaaes letrados que 
se naquella cidade poderam achar. E também fez chamar alguús prin- 
çipaaes do concelho ajnda que poucos fossem e sob grande segredo lhes 
disse por esta guisa. Amigos, fizuos aqui ajuntar conhecendo de vos que 
assi per natural entender como per auondança de ciência de que vos 

10 Deos guarneçeo antre todollos outros do meu rreino me poderees saam e 

* proueytosamente aconselhar em todo aquello em que minha alma possa B i3, v, i 
seer em alguúa duuida. e pêra esto sey certo que vos nam falleçeram três 
cousas prinçipaaes que se rrequerem pêra os conselheiros dos grandes 
senhores antre outras muitas que bem sabees que sam detreminadas em 

'5 todollos liuros que os antigos escreueram pêra jnsinança dos príncipes .ss. 
a primeira que ajam amor aaquelle príncipe ou senhor que ouuerem de 
aconselhar, porque o amor traz huúa necessidade polia qual moue o 
coraçam do seu possuidor a enquerer e buscar todallas cousas pro- 
ueitosas e honrrosas pêra aquella cousa que ama. Porque as cousas 

20 que descíamos pêra nossos amigos am naçimento daquellas que pêra nos 
queríamos, ca cada hum naturalmente deseía ao seu amigo o que pêra sy 
mesmo queria, e se os conselheiros dos rreis falleçessem desta paixam 
muitas vezes proueitariam a mayor força de seus conselhos. E porem 
disse nosso Senhor Jesu Christo aos seus apostollos depois que lhe rreue- 

25 lou seus segredos que lhe nam chamaria mais seus seruos, por que o seruo 
nam sabe a vontade de seu senhor, mas que lhe chamaria amigos por 
quanto os ja tinha ensinados na vontade de seu padre. E a segunda cousa 
que se rrequere ao conselheiro he que aja sabedoria, porque sem * ella B, i3,v,2 
nam poderia dereitamente aconselhar, ca posto que teuesse boõa von- 

3o tade se lhe falleçesse saber nam poderia muito aproueitar aaquelle que 
seu conselho ouuesse mester porque a boõa vontade sem a obra nam he 
cousa perfeita. E porem diz Salamam que dos conselheiros se auia de 
fazer hum antre mil. o que se entende principalmente porque da rre- 

3. Joguo D. — 4. frei Joam B — doutor D, doctor B. — 5. outros alguús D, alguQs outros 
B. — 7. sob B, so D. — 8. amjguos D — junctar D. — 10. guarneçeo I, garneceo B. — 
14. detriminadas B. — 16. ouueram D. — 18. coração B — do B, de D — posuidor B — 
possuidor] add. em que B — a B, ha D. — 20. pêra B, ter a D. — 21. ca I, a B — natu- 
rallmente D — deseja B — ao seu D, o seu B. — 24. despois D. — 25. seus I, 0111 B — 
o servo I, o seu seruo B. — ih. arniguos D. — 27. jmsynados D. — 28. que se rrequere I, 
se requeria B — he] om B, — 29. poderia D, podia B. — • 3o. falecesse B. — 3i. bõa B. 



— 32 — 

zam deue seer sabedor, e por que guisa e em que cousas se esta sabe- 
doria deue dentender seria sobejo de vos seer por mim rrelatado per 
extenso, porque sam bem certo que a vos nam falleçe por entender em 
este caso o que vos eu leixo por decrarar. E a terceira cousa que se no 
conselheiro rrequere he grande segredo, por quanto o rromprimento do 5 
conselho traz desfazimento da obra. e sabees como no tempo dos Romaãos 
que bem e proueitosamente rregiam a grandeza daquelle jmperio. huúa 
das cousas per que seus feitos sam tanto louuados per seus autores assi 
he por guardarem com grande delligencia a puridade de seus conselhos. 
E de eu seer bem certo que em vos ha comprimento de todallas estas lo 
cousas e que a mim pertence vossa natureza e autoridade, e ajnda a 
minha boõa vontade mo faz creer e afirmar, e porque comunalmente 

B, 14, r, I *em vos outros que aqui sooes presentes estaa toda a força do conselho 
que pertence aa saúde de minha alma e alguúa parte da que pertence 
ao corpo, vos rrogo e encomendo que com toda a vossa delligencia sS 
queiraes esguardar e consirar sobre todo o que vos agora entendo de 
prepoer. Ora he assi que posto que eu tanto trabalhasse por firmar as 
pazes em o rreino de Castella como vos outros todos sabees. esto Deos 
sabe que principalmente era por seruiço de Deos. e por muy grande 
vitoria que contra elles ouuesse eu nunca em minha vontade pude rreçe- 20 
ber nenhuija jntrinsiqua allegria soomente quanto era que pois elles 
queriam contra dereito e rrezam apremar as cousas de meus naturaes. e 
soomente porque meu senhorio nom deuia sogeiçam praziame porque Deos 
por sua grande merçe me queria dar esforço e ajuda como os podesse con- 
trariar o mao preposito que contra mim e contra meus rregnos auiam. 25 
Empero Deos he verdadeiramente sabedor e minha senhora virgem Maria 
a que muitas vezes pedia juda em minhas orações, que sempre lhe rroguey 
e pedi que per mim nem per meu azo nunca nenhuiJa geraçam dos chris- 

P '4, r, 2 taãos rreçebesse nenhum mal nem danno. ante pollo * seu amor todo o fauor 

e ajuda, deseiando sempre vcer algum azo per que pudesse empecer 3o 
ajnda que fosse com grande meu trabalho e perigo aos imigos de sua 
santa fee. E de tal seer meu desejo e vontade he bem certa testemunha 
o rrequerimento que eu açerqua dello começey fazer ao Iffante Dom Fer- 

2. demtemder D, de entender B. . — 4. decrarar D, declarar B. — 5. conselheiro I, 
conselho B — he B, hera D — rrompinnento I, comprimento B. — 9. gardarem B. — 10. 
ser B — haa B — todas B. — 12. comunallmente D. — 14. allma D — da D, do B. — 
16. esgardar B. — 21. jntrinçiqua D. — 22. apremar D, aprimar B. — aS. porque (i.") I, 
om B — nom D, e nom B — deuia D, deuida B. — 25. reinos D. — 26. Emperoo B. 
— 27. rogey B — 28. pedi B, pedia D. — jeraçam B. — 3o. desejando B. — 3i. prigo 
B, perigo I. — 32. sancta B — beem. — 33. Ifante B. 



— 33 — 

nando que ora he defensor do rregno de Castella per cuja rreposta senti 
que meu desejo nom se podia comprir segundo meu rrequerimento. K 
porque nam sentia cousa que poUo presente podesse toruar tal que 
quisesse meu estado, nam senti ai que podesse fazer soomente pedir 
3 a Deos que minha boÕa vontade rreçebesse por obra pois que por mim 
nom falecia de a comprir. Doutra parte consiraua na jdade de meus filhos 
e como os Deos por sua merçe quis fazer taaes em que com grande 
dereito deuem rreçeber estado de caualaria a qual pêra teer alguija seme- 
lhança de honrra pois que se por outra guisa nom podia fazer quisera 

,0 que fora em esta cidade com huiías muy grandes festas porque ao menos 
a sua grandeza trouxesse azo de se soar per as partes estranhas a honra 
deste feito. Mas elles consirando em ello antre s}^ tinham que se nom 
podia de semelhante maneira fazer cousa por grande que fosse que açer- 
qua de semelhante feito nom fosse pequena. * mouendome açerqua dello 

,5 muitas e justas rrezões por que deuia buscar outra cousa em que os 
fezesse caualeiros. as quaaes posto que me justas e rrezoadas parecessem 
nom podia porem mais fazer que o azo pêra semelhantes cousas nam 
se acha assi ligeiramente. E estando em jsto faloume Joham Affonso na 
cidade de Cepta como he grande e nobre e azada pêra se tomar, a qual 

20 cousa parece que soube per auisamento de hum seu homem que la en- 
uiou tirar aiguús catiuos. Empero eu assi pollo presente leuei o feito a 
jogo porque era cousa em que ajnda nam consiraua pouco nem muito. 
Mas os lífantes e o conde de Barçellos meus filhos a quem o dito Joham 
Affonso falou consiraram milhor em ello e falaramme ja per duas vezes 

25 mostrandome muitas rrezões por que me deuia de despoer a este traba- 
lho, sobre a qual cousa lhes eu nam quis dar nenhuúa rreposta ata que pri- 
meiramente nam saiba se o proseguimento deilo será seruiço de Deos. Ca 
vos digo em verdade que ajnda que entendesse de cobrar todo o mundo por 
meu. como eu sentisse que em alguúa parte nam era seruiço de Deos. eu 

3o o nam teria por vitoria nem o faria por nenhuiia guisa. Porem porque eu 
possa saber certamente se jsto he seu seruiço ou nam * vos fiz assi aqui 
ajuntar porque sento pollo grande conhecimento que tendes da ley de 
nosso Senhor Deos me podereis dello bem auisar. a qual cousa vos 
encomendo e mando que com toda deligençia queiraaes escoldrinhar assi 

3^ per vossos boõs liuros e santas escreturas. como polia alteza de vossos 
entendimentos e me tornees dello rreposta o mais cedo que bem poderdes. 

3. sentia cousa D, senti a cousa B — que D, e que B — trouar B. — lo. fora I, forem B — 
porque I, per que B. — n. honra I, ora B. — i3-i4. acerca B. — 14. selhante B. — 17. que 
ao B, ca o I. — 18. Joam B — 20-21. emuiou B. — 23. dicto B — 23-24. .loam affonso B. — 
24. jaa B. — 25. devia D, deua B. — 26. atee B. — 32. polo B. — 34. escoldrinhar D, escodri- 
nhar B.— 35. sanctas B. 
5 



34 



Como os letrados tomaram com rreposta a elRey 

di{endo que era seruiço de T>eos de se tomar a cidade de Cepta. 

Capitidlo xj. 



O 



s confessores sobre quem principalmente o encarrego desto ficaua 
nom tomaram aquelle feito com pequeno cuidado, assi polia neçessi- 5 
dade que os tanto costrangia a seguir os mandados delRey como 
polia sustançia do feito seer de tamanho peso que nenhum homem de saao 
entender nam o deuia de teer em pequena conta. E porem foramse logo pêra 
seus mosteiros e com grande cuidado proueram seus estudos per tal guisa 
que lhe nam ficou nenhuúa cousa por veer daquelles textos e glosas da sa- lo 
grada escretura em que os santos doutores detreminaram taaes conclusoões. 

A I, r, i *Mas pêro que o seu cuidado fosse assaz de gramde no escolldrinhamento 
desta duuida, com mujto mayor dilligençia e uoomtade filharam os Iffan- 
tes a força daquelle emcarrego. ca os seus pemssamentos numca podiam 
seer liures nem apartados daquella maginaçom, e tamto corriam per ella i5 
em diamte, que passauam pertodallas duuidas, e começauam eproseguiam 
o feito per tall guisa que sse esqueciam do pomto em que estauam, e 
uiamsse no me\'o daquella cidade emuolltos antre os mouros allegram- 
dosse com o espalhamento do seu samgue. E tamta duçura semtiam 
em taaes magmaçoões, que lhes pesaua quamdo sse lhe offereçia cousa 20 
per que sse tirauam delias. E porque assi como naturallnaente os 
feitos em que a maginaçam do homem he ocupada de dia, esses se 
lhe rrepresemtam depois que o sono tem ocupado seus semtidos, assi 
aquelles senhores polia gramde deleitaçam com que tomauam aquel- 
les cuidados, a mayor parte da noite depois de jazerem em suas camas, 25 
nam podiam seer liures da semelhamça daquellas cousas. E huúa uez 
lhes parecia que uiam gramde multidom de nauios carregados de gemtes 

A I, r, 2 darmas. outra vez uiam as torres da cidade * apemdoadas das suas bam- 
deiras. outra vez lhes parecia que sse achauam antre a força dos mou- 
ros, e que comtinuauam tamto sua pelleia, que per força os arramcauam 3o 
damtre ssi. E nom menos trabalhados achauam seus corpos, que depois 
de acordados semtiam alguú daquelle camssaço, tam gramde era ho tra- 
balho, em que a uoomtade passaua aquellas cousas. Nos tomemos o 
emtemdimento destas cousas como christaãos, como quer que mujtos dos 
amtijgos teueram, que mujtas das cousas que ham de uijnr, parecem aos 35 
homeés em semelhamtes tempos, segumdo escpreue Vallerio Máximo 

2. Ceita D. — 4. encarreguo D. — 5. tomauam D, — 7. pola B — sustançia I, estancia 
B — serB. — 1 1. sanctos B. — 12. cuidado E, cuido AB. — 20. quando A. — 25. iazerem A. 
— 32. daquell A. — 34. xpaãos A. 



— 35 — 

no seu primeiro liuro, e Marco Túlio no liuro da uelhiçe. O dia em que 
elRey auia dauer sua rreposta, foi assijnado aaquelles senhores e leterados, 
no quall cada huú disse sua emtemçom, segumdo a camtijdade de seu em- 
temder e saber, nom porem afastados de iiuú propósito. E assi por 
5 rreueremça da samta jgreia, como poUo primçipali emcarrego seer daquelles, 
fallaram primeiro os leterados e disseram assi. Em esta presemte matéria 
senhor disseram eiles, nom ouuemos mester de queimar mujtas camdeas 
rrequeremdo seu estudo, e esto he por nom seer cousa noua nem sob 
tall escureza posta na escpritura per que o seu* emtempto nos posesse em ^i ', v. i 

IO taaes duuidas, pêra cuja declaraçam nosso emtemdimento soomente po- 
dasse abastar, amte som cousas tamtas uezes limadas e desputadas, que 
em quallquer parte que homem uaa pella samta escpritura, pode achar 
muj largamente quallquer cousa que açerqua desto queira escpreuer. 
E pêra que som mais outras escprituras, soomente as estorias que 

i5 teemdes uos outros primçipes em nossas camarás, pellas quaaes uossos 
amteçessores ssom amte uossos olhos, e per ellas acharees o gramde 
millagre que nosso Senhor Deos fez por aquelle boom Rey Remigio, 
que prometeo os uotos ao apostollo Samtiago, pollo quail leemos que 
o bem auemturado apostollo uisiuellmente pareçeo em sua batalha, e 

20 per sua diuinall uirtude ouue em aquella batalha tamanha uitoria como 
sabees. em cujo testimunho lhe ajmda oje paguam aquelles uotos em 
todallas terras que aaquella sazom eram de christaãos. ElRev Dom 
Aftbmsso que foi na batalha das Naues, queremdo elle passar huúa serra 
pêra hir pelleiar com o gramde Miramollim de Alarrocos, seemdo eiie 

25 duuidoso de seu caminho polia gramde fragua que auia em aquella 
serra per homde elle de necessidade auia de passar, nosso Senhor Deos 
queremdo aprouar a boa emteemçom e deseio que em elle semtia, em- 
ulou* huú amgio do çeeo que o leuou per meyo daquella serra, mostram- A, t,v, 2 
dolhe caminho largo e chaSo, per que sua oste passasse, omde amte nem 

3o depois numca foi achado. Que foy senhor delRey Dom Fernamdo que 
tomou Coymbra aos mouros, e fez outras mujtas batalhas com elles no 
rregno de Castella. e delRey Dom Aftomsso seu filho, que tomou Tol- 
ledo. e do comde Fernam Gomçalluez, e do cide Ruy Diaz. e dos outros 
boõs caualleiros fiees e catholicos, que por amor de nosso Senhor Jesu 

35 Christo com tamtos e tam gramdes trabalhos e com tam gramde espa- 
lhamento de seu samgue passaram sua uida. Ou em que lugar alloiare- 
mos suas almas segumdo nossa piedosa creemça. senom na companhia 

2. elRej A. — 3. disse I, diz A — segundo A — camijdade A. — ló. antecessores A 
— Rei A. — 21. ajnda A. — 27. emteençom A. — 34-35. JhQ xpõ A. 



— Só- 
lios bem auemturados mártires, ca posto que elles nom morressem 
amte as seedas dos primçipes jmfiees, como mujtos daquelles samtos 
faziam, nom era porque o seu deseio se afastasse daquelle propósito per 
nehuQ rreçeo nem temor, amte com muy gramde fortelleza, armados da 
samta ffe, cometiam ardidamente os jmmijgos em tall guisa que rrijmdo 5 
esperaram a sua derradeira ora em meyo daquelles trabalhos. Mas pêra 
que lembro eu mujto exçellemte primçipe, outros nehuiis rrex nem senho- 

A, 2, r, I res, apartados de uossa * senhoria, pois teemos amte nossos olhos a memo- 
ria do muy notauell e fiell e cathollico christaão eIRey Dom Aftomsso Am- 
rriquez, cujas rrelliquias trautamos amtre as nossas maãos. Veede senhor lo 
os signaaes que trazees em uossas bamdeiras, e pregumtaae e sabee como 
e per que guisa forom gaanhados. os quaaes certamente de todallas par- 
tes mostram a paixom de nosso Senhor Jesu Christo, por cuja rreueremça 
e amor o bem auemturado Rey ofreçeo seu corpo em no campo dOuri- 
que ueemdo aquelles çimquo rrex como uossa merçee sabe. E comsijraae ,5 
jsso meesmo senhor, se elle duuidara se o seguimte trabalho era seruiço 
de Deos, nom teuerees uos oje esta muy nobre cidade nem a uilla de 
Santarém com outros lugares em uossos rregnos, homde foram per elle 
começadas mujtas e gramdes jgreias e moesteiros, e acabadas per os 
outros fiees e cathoUicos christaãos, em que o offiçio deuino com tamta 20 
sollempnidade cada huú dia he trautado e adorado. E se esto assy nom 
acomteçera, muy pequena parte ouuera no mumdo homde os mamdamen- 
tos do samto euamgelho cmteyramente forom guardados. Sayba uossa 

A, z, r, 2 merçee que o estado millitar nom he por outra cousa * tamto louuado 

amtre os christaãos, como por guerrearem os jmfiees, ca nom he neçessa- 25 
rio nem ha hi mamdamento de nosso Senhor Deos que façamos guerra a 
nehuijs christaãos, amte nos emcomemda que nos amemos huús aos outros 
como jrmãaos que deuemos seer em elle que he nosso Senhor, segumdo 
he escprito per sam Paulo em mujtos lugares de suas epistoUas. Bem he 
uerdade que todo o rrey deue guardar seu pouoo, assy como cousa que 3^ 
lhe he emcomemdada per nosso Senhor Deos. e assy como pastor deue 
de guardar suas ouelhas, nom tam soomente dos jmfiees, mas ajmda dos 
christaãos, quamdo per alguúa maneyra de soberba lhe quiserem empecer, 
ca mall auemturado he ho rrey em cujo tempo os seus senhorios rreçe- 
bem queeda. Mas esto porem deue cada huú de fazer com tamanha 35 
emgiminaçom e madureza de comsselho, que amte que nehuúa cousa 
comece, proueia e saiba se ha justiça e dereito em aquella cousa que 

8. vosso senhorio I. — i3. Jhú xpõ A. — i5. veemdo A, vencendo I. — 32. ajnda A. 

37. haa A. 



-37- 

per semelhamte maneira quer começar, ca nom deue seer a sua emteem- 
çom fazer ajumtamentos de gemtes por se delectar de amdar sobellos 
campos empeeçemdo a seus uizinhos, soomente deuem de guardar sua 
terra pella guisa que lhes he * emcomemdado. e tamto que teuerem sua a, 2, v, r 
j terra bem rrepayrada, deuem de leixar as armas e buscar a paz per 
quamtas maneyras poderem, como fazia o samto profeta Mouses, e outros 
alguús boõs duques guiadores do pouoo de Deos. mas os jmfiees 
per nenhuúa guisa deuemos comssemtir, em quamto pertinaçiamente 
quiserem aturar em sua peruersa teemçom. E o boom emperador Jus- 

10 tiniano que com tam.to trabalho fumdou as primeiras lex, e todollos jure 
comsulltos hordinadores do dereito çiuell, mujtas vezes nos amoestam e 
mamdam que arrimquemos de nos com toda nossa força esta maa e da- 
nada seita dos jmfiees. Ca sse o assy as sagradas lex jumtamente com 
os degredos dos samtos padres nom teuessem, quem daria ousio ao 

i5 nosso summo pomtifice uigairo geerall sobre toda a uniuerssall jgreia, 
cujo poderio creemos e comfessamos per autoridade do samto euamgelho, 
que he tam abastamte que pode legar e assoluer nossas almas assy e per 
aquella guisa que o teue primeiramente o apostollo sam Pedro, que nos 
desse assoluiçam perpetua quamdo dereitamente morrêssemos guerreamdo 

20 aos jmfiees. Ora senhor disserom elles, nom auemos por que acreçem- 
tar mais soma de paliauras, abasta que nos que aqui somos presemtes 
per autoridade da samta * escpritura, assy como homeés que ssem nosso A, 2, v, 3 
merecimento teemos graao na sacra theollesia, determinamos que uossa 
merçee pode mouer guerra comtra quaaesquer jmfiees ass}* mouros 

25 como gemtios, ou quaaesquer outros que per aiguú modo negarem 
alguú dos artijgos da samta ffe catholica, per cujo trabalho mereçerees 
gramde gallardom do nosso Senhor Deos pêra a uossa alma. E aalem 
desto nom ouçaaes cousa que uos açerqua dello seia dito. nem ajmda 
que uos pareçam uisoões em semelhamça de cousas diuinaaes nom lhe 

3o dees ffe. ca emtemdee uerdadeyramente que he ho espiritu malligno que 
uem pêra uos tirar de uosso boom e samto propósito. 



i5. pomtifico A, pontífice I — igreia A. — 22. come A, como I. — 25. alguum A. 



38 — 



Como elRey moueo outras diiuidas que tijnha pêra filhar aquella 
cidade. Capitullo xij. 



T 



\ODAS estas rrazoões forom alli allegadas em presemça delRey e outras 
mujtas de que nom curamos fazer expressa meemçom, assy per os 
Iftantes e comde seus filhos, como per os outros do comsselho. 5 
Empero elRey nom quis logo assy de presemte rrespomder nehuúa cousa, 
amte mamdou que lhe posessem assy todo em escprito pêra o elie 
railhor poder ueer e emgeminar com alguú assessego e rrepouso, 
e que depois tornaria a ello sua rreposta, como emtemdesse que era 

A, 3, r, I rrazom. e assy* lhe ficou aquelle escprito, o quall elle proueeo exami- lo 
namdo cada huúa cousa em sua sustamçia. Empero teem mujtos e 
eu que esto escpreuj com elles, que a necessidade nom era tamanha 
per que elRey assy ouuesse de rretardar aquella rreposta. mas que o 
fez por teer aazo de guardar mujto milhor seu segredo, por que de trimta 
e huúa uirtudes que ao primçipe som apropiadas, mujto lhe comuem que i5 
seia cautelloso, segundo escpreue samto Agustinho no liuro da cidade de 
Deos, louuamdo mujto em os Romaãos o seguimento desta uirtude. Nom 
tardou mujto elRey em proueer seu escprito, como aquelle cujo coraçom 
amdaua mujto açerqua da obra, se elle nom teuesse comtrayros que o 
rrazoadamente podessem empachar, e sobre todo a aficaçia de seus 20 
filhos, os quaaes traziam assy tall uiueza em aquelle rrequerimento, que 
numca o leixauom auer nehuú rrepouso em quamto eram açerqua 
delle. E huíj dia os mandou chamar todos quatro e fallou com elles 
em esta guisa. Pode seer que cuydarees que me le3'xo rrepousar na 
hordenamça do que me teemdes fallado com mimgua de uoomtade. a 25 
quall cousa certamente he mujto pollo comtrayro. ca posto que eu em 
esta hidade seia, nom daria nuamtagem a nehuú de uos de cubijçar a 

A, 3, r, 2 hora em * que sse este feito podesse acabar. Mas porque ui outros muy 
gramdes feitos e esprimentey seus gramdes carregos, conheço como som 
caros dacabar, a quall cousa ajmda a uos outros he escura de conhecer. 3o 
Disse outro dia como amte de dar nehuúa rreposta em este feito, queria 
saber se era seruiço de Deos, porque sobre esto deuemos fazer nosso 
alliçeçe quamto aa primeyra emtemçom. E quamto aa segumda deue- 
mos de saber se o podemos fazer ou nom. ca mujtas cousas som boas e 
deseiadas em alguúas uoomtades dos homeés, e falleçelhe porem o pode- 35 
rio pêra as poderem acabar. Porem ja ssey que esto emteiramente he 

10. assi. — 23. huum A. — 36. ia A. 



-39- 

scruiço de Deos. e quamto he do que perteeçe a elle que o deuo de 
fazer. Mas he agora de ueer, quamto eu som poderoso pêra o fazer, 
sobre a quall comsijraçom eu achey mujtas e gramdes duuydas, das 
quaaes primçipallmente direy çimquo, que nom tam soomente todas jum- 
5 tas, mas cada huúa per ssy he abastamte pêra empachar a fim daqueste 
feito, e querouos dizer quaaes som, por que possaaes conhecer a força 
da sua uallia. E primeiramente comsijro como pêra semelhamte feito se 
rrequerem muy gramdes despesas, pêra as quaaes hey mester mujto 
dinheiro, o quall eu nom tenho, nem sey pollo presemte * domde o aja A, 3, v, 2 

10 nem como. ca posto que o quisesse auer do pouoo lamçamdolhe alguús 
pedidos, acho que sse o fezer, que sse me seguem deilo duas perdas, a 
primeyra escamdallo do pouoo, e a segumda rrompimento do segredo. 
E segumdariamente comsijro como a cidade de Cepta he tam alomgada 
de nos, pêra cujo combate nom soomente auemos mester as gemtes deste 

i5 rregno. mas ajmda outras de fora se sse offereçerem pêra nossa ajuda, e 
estas gemtes ham de leuar armas e fardagees e outras bitualhas que lhe 
som necessárias, e nos auemos mester artelharias de mujtas maneyras e 
mantijmentos em gramde abastamça, porque nom sabemos camanho 
tempo estaremos sobre aquella cidade. Ora pêra todas estas cousas 

20 seerem passadas aalem, he necessária huiãa muy gramde frota de mujtos 
nauios e gramdes, afora os pequenos de que nom faço gramde comta. 
os quaaes nom ha em meus rregnos, nem posso achar caminho como os 
de fora possa auer nem per que guisa. E a terçeyra cousa acho que he 
a abastamça da gemte que nom tenho, porque como ja disse, nom tam 

25 soomente aquella que tenho* mas outra mujta mais me seria necessária se A, 4, r, i 
a rrazoadamente podesse auer. e eu nom tenho a de fora nem espe- 
ramça como a aja primçipallmente pollo falliçimento do dinheiro que 
semto em meu rregno. e sobre todo porque o nom posso auer de meu 
pouoo poUos empachos que uos ja disse, e assy que com as minhas 

3o gemtes me comuem soomente fazer todo meu feito. Mas que será por- 
que eu tenho gramde duuida e pouca seguramça no rregno de Castella. 
ca pode seer que semtimdo como som fora de minha terra, podersseam 
mouer comtra meu senhorio, a quall cousa será muy maa ao diamte de 
rrepayrar. porque achariam toda a terra despercebida, e sem nehuúa 

35 comtradiçom obrariam todo o que quisessem. E assy que por a segu- 
ramça desto comuijnha que eu leixasse minhas fromtarias ao menos 
acompanhadas dalguúa gemte. e se as quiser leixar, nom teerey abas- 
tamça pêra o que doutra parte ey mester. Ca a cidade de Cepta he 

4. direi I, tirey A. — 16. bitualhas 1, bitalhas A. 



— 40 — 

mu}' gramde e muy forte, pêra cujo combate e cerco ha mester mujtas 
mane3'ras de gemte. da quall se homem perfeitamente nom for perçe- 

A, 4i r, 1 bido, nom será outra cousa senom começar feito de cujo * doesto fique 
memoria pêra todo sempre. E a quarta duuyda que tenho he comsij- 
ramdo que posto que me Deos desse a uitoria que em elle comfio, o 5 
filhamento desta cidade me pode fazer mayor dano, do que proueito 
por quamto o rregno de Graada fica mujto mais aazado pêra sse poder 
comquistar. ora que proueito tenho eu daquelie rregno seer posto em 
sogeiçam dos Castellaãos, amte me he conhecida perda, por quamto som 
bem certo que a mym e a meus naturaaes teueram e teem muy gramde lo 
ódio. quanto mais ajmda agora em cujo tempo a memoria do seu uem- 
çimento esta tam rrezemte. e assy que o filhamento da cidade de Cepta 
pode seer aazo per que sse cobre e aja o rregno de Graada, da quall cousa 
eu per rrazom deuo estar em mayor esperamça de perda que de pro- 
ueito, por quamto ho acreçemtamento do seu senhorio fará menos fortel- i5 
leza aos meus pêra sua deftemssom, e a elles maior esforço e poder pêra 
uimgarem seus danos passados. E a quimta cousa me parece que he 
mujto pêra duuydar por todo sages ou descreto amte que comece a cousa, 
deue descoldrinhar ataa homde chega seu emcarrego, assy como aquelle 
que de todo se deue proueer e auisar, quanto mais nos feitos gramdes e 20 

A, 4, r, 2 pesados * de que homem nom deue tam soomente comsijrar as cousas pre- 
semtes mas as que ham de uijnr, nem ajmda temer e rreçear os casos 
duuidosos que cumunallmente aqueeçem, mas dos que podem aqueeçer. 
Ora seemdo assy que Deos nos queira fazer tamto bem que cobremos 
esta cidade a nosso poder, que nome ou que homrra nos uem sse ao 25 
diamte nom podermos manteer ou deffemder. nos certamente teeriamos 
duas duuidas muy gramdes sobre este pomto. A primeyra que nosso 
trabalho nom seeria mais senam como huú paao que homem lamça de 
sua maão, o quall soomente aproueita em quamto mata ou derriba, por- 
que ao depois fica em duuida de sse poder cobrar. E nos se esta cidade 3o 
cobramos se a nom podermos mamteer e defiemder, nom nos fica nehuúa 
cousa de que nos rrazoadamente possamos louuar. ca posto que mate- 
mos no seu filhamento gramde multidom de mouros, esto nom pode seer 
sem nosso dampno e perijgo. Quamdo ueemos que huúa alimária per 
seu bestiall semtir trabalha de sse emparar e deffemder de quallquer 35 
cousa per que espera fazer sua fim, ca esto lhe he dado naturallmentc 

A, 4, r, 1 des do começo de sua criaçom .s. que* busque mantijmento e morada 

6. do que I, ca por A.- — 8. de aquelle A. — 19. desculdrinhar A — chegua A. — 
23. duuidosos I, diuidos A. — 36. lhes A. — 37. busquem A. 



— 41 — 

e ajumtamento pêra fazer jeeraçom e detíemssom pêra ssy e seus fillios. 
E pêra esto forom prouijdas cada huOa cin seu graao de marauilhosas 
maneiras e detfemssoões per aquelle que criou a natureza, porque a 
huúas foy posta fortelleza em seus braços, assy como aos hussos e outras 
5 semelhamtes. e aos lioões poderio nos demtes e nas hunhas. e a outras 
deu fortelleza nos cornos, assy como aos touros e bois. e a outras deu 
estremada ligeiriçe, assy como a toda ueaçom e lebres que sse criam nos 
campos, a outras deu emtemdimento e emgenho que fezessem suas mo- 
radas nas cauernas dos montes e nas comcauidades da terra, em cuja 

IO profumdeza podessem teer sua deftesa. Mas por certo mais graada e 
mais iiberall foi a natureza ao homem damdolhe caminho e maneira como 
podesse aalem do naturall. per sua jmdustria e saber, buscar desuairadas 
maneiras dartcfiçios pêra sua deffcmssom, emcaminhamdolhe primeira- 
mente como fezessem ajumtamentos era certos lugares, e desy que os cercas- 

li sem de muros e de torres gramdes e fortes, e que fezessem espadas e lam- 
ças fachas dardos com todallas outras cousas que ueedes per que sse os 
homeés defemdem. pois emtemdees que os homeés que tall * emgenho A, 4, v 2 
teem ajmda que todo nom seia perfecto, que quamdo matarem delles alguús, 
que mataram delles aos outros. Certamente nom he de presumir o com- 

20 trairo. ca sse esto assy nom fosse toda sua uitoria seria de baixo uailor. 
mas quamto a fortelleza dos uemçidos he mayor, tamto a gloria dos uem- 
çedores fica mayor e mais exçellemte. Pois que nos queiramos gloriar 
na gramdeza e uailor do esbulho da cidade, esto he assaz de pequena 
uitoria, porque por muy gramde que a rriqueza seia, nunca poderá seer 

25 jguall aa gramdeza da nossa despesa, nem ha nenhuij que per sua uo- 
omtade queira empregar seu dinheiro em semelhamte mercadoria. Pois 
a homrra que deuia seer o primçipall preço e gallardom de nossos gram- 
des trabalhos, camanha pode seer quamdo nos ajmda nom seremos bem 
descamssados em nossas casas, quamdo ja ouuiremos as nouas per meyo 

3o das nossas rruas, de como os mouros ja estam em sua cidade buscamdo 
nouas maneyras de fortelleza aalem da que damte auiam, porque ja 
mais outra uez per semelhamte modo ligeiramente nom possam seer em- 
trados. Ca certo he que os aqueeçimcntos da perda trazem nouos auisa- 
mentos, se he em lugar a cousa que pêra auiso possa rreçeber * emmemda. A, 5, r, i 

35 E quamto a perda he mayor, tamto os auisos per seu aazo som buscados 
per mais proueitosa sotilleza, de que sse nos seguira a segumda duuyda. 
E esto he que os mouros que esteucrem em aquella cidade, rresistaram 

I. ajuntamento A. — 3. dcflenssoões A. — 6. assi A. — 8. outros A. — 17. defendem 
A. — 19. contrairo A. 



— 42 — 

nas tauoas de seus coraçoÕes a nembramça daquelle dampno e jmiuria, 
por cuja uimgamça carregaram suas fustas e nauios da Iroll de sua man- 
cebia, e uijram aos nossos do rregno do Algarue que jaram dessegurados 
em suas quimtaãs a rrouballos das uidas e dos aueres. E sobre todo 
perderemos esperamça de ja mais nehuúas nossas mercadorias pode- 5 
rem sem gram temor passar em nehuús nauios pêra nehuú porto nem 
cidade que aja no mar medeoterrano, polia diuisa que mujtas vezes per 
necessidade uaam fazer em aquella parte, e que ajmda quiséssemos 
poer caso nem certo que esta diuisa se poderia escusar, elles teeriam as 
taraçenas de sua cidade cheas de fustas e de nauios soomente afim dem- 10 
peeçer a nossos naturaaes. Pois a semtemça quall seria sobre as cabeças 
daquelles que assj' tomassem, nom he a mym necessário que uolla aja 
de declarar. Ora ueede que nos aproueitam tamtas e tam gramdes des- 
A, 5,r, 2 pesas com tamanha força de trabalho e cuydado com * esperamça de tam 

pequena uitoria. ca a força primçipall da homrra esta na mamteemça da i.s 
cidade, a quall eu nom uejo caminho nem maneira como sse per nos lom- 
gamente possa mamteer nem gouernar. Certamente eu diria que seria 
mujto milhor poermos em esqueeçimento o mouimento deste feito, que 
de o aballarmos nem seguirmos, pois esta soo cousa he abastamte, afora 
as outras quatro que som taaes como ouuistes, pêra nos empachar todo 20 
nosso propósito, e sse per uemtura alguú de uos emtemder que estas 
duuydas nom som justas nem rrazoadas, mostreme o comtrayro, e eu lho ' 
conheçerey segumdo for dereito e rrezam. 

Como os Iffamtes f aliaram amtre ssy açerqua daquellas duiddas e 

da rreposta que trouuerom a elRey. Capitullo xiij. 25 



Q" 



TJEM poderia declarar per escprito quanto aquellas pallauras del- 
Rey eram comtra o que os Iftamtes deseiauam, polias quaaes foy 
amtre elles huij silemçio, como se lhe fossem dadas outras 
alguúas nouas per que lhe certificassem alguúa perda que per rrezom 
deuesse delles seer mujto semtida. E por dizer uerdade, quamto aaquella 3o 
sazora nom podia no mumdo seer cousa que elles mais semtissem que o 
A, 5, V, 1 failiçimento * daquelle feito, empero porque o caso nom ficaua ajmda 
todo determinado per negaçom, tomaram ja quamto quer de comforto, 
emtemdemdo de proueer sobre os comtrairos que perteeçiam aaquellas 
rrezoões. Pareçeme diz aquelle que escpreueo esta estoria, que ueio os 3.s 

1 1. semtença A. — 33. quanto A. 



-43- 

emtemdimentos destes gramdes primçipes amdar per as uagas assy como 
a naao quamdo amda no alto mar, homde com fortuna de tempo com- 
trayro perde o conhecimento de sua dereita uiagem, cujos rregedores som 
amtre ssy em muy gramde desacordo, porque cada huú em semelliamte 
i tempo por mujto sabedor que seia, numca emteiramente comfia de seu 
saber, e mujto menos do conhecimento de nehuQ outro, porque quamdo 
as uoomtades som postas em alguú gramde temor, nom ha lii parte tam 
segura que lhe nom pareça duuidosa, quamto mais homde os homces tem 
alguúa esperamça de gramde homrra ou proueito quaaesquer comtrairos 

10 que lhe sobreuenham primçipallmente sam delles mujto semtidos. Bem 
assy segumdo juizo destes senhores estimado poUo trigoso deseio de suas 
uoomtades, nom lhe parecia que seu padre husaua na determinaçom 
daquelle feito, como quem deseiaua de o ueer * acabado. Porem acreçem- A, 5, v, 2 
tauam em suas oraçoóes, pidimdo aas uirtudes do çeeo que lhes apresem- 

i5 tasse a ora em que sse aquelle feito auia dacabar. Ora leixemos seus 
pemssamentos desuayrados, e concludamos na çertidom de sua rreposta. 
Homde auees de saber que elles tomarom a ssy a força daquellas rrezoões 
com todas suas circumstamçias e particullaridades, sobre as quaaes fallaram 
amtre ssy per tamtas uezes ataa que finallmente tornarom com a rre- 

20 posta a elRey seu padre. Senhor disserem elles, comsijramdo nos sobre 
todo o que nos uossa merçee tem dito, achamos que aa mayor parte de 
uossas duuidas teemdes muy sofiçicmtes comtrayros per os quaaes podees 
todauia determinar uossa hida, ca nom ha hi empacho que uos torue 
com tamto que a uossa uoomtade seia boa. Dissestes primeiramente que 

25 pêra tamanho feito era necessário abastamça de dinheiro, o quall uos nom 
teemdes nem podees auer. a esto senhor se podem achar mujtos rreme- 
dios, assy como per prouijmento de metall daquella sorte de que sse o dito 
dinheiro deua fazer, que sse pode auer per escaymbo de mercadorias, 
fallamdo uossa merçee com os mercadores de uosso rregno * per cujo A, 6, r, i 

3o trauto se esto mais ligeiramente pode emcaminhar. Doutra guisa se 
podem ajmda auer os ditos dinheyros. e esto he fazersse boom prouij- 
mento em uossas rremdas, abatemdo em alguiias despesas menos necessá- 
rias, e proueer aas outras que forem mester pêra uossa hida. e ajmda 
cada huúa das pessoas primçipaaes do rregno podem de suas rremdas 

35 fazer muy gramde parte de seus corregimentos. E assy como uossa 
merçee emtemdia de buscar dinheiro pêra as despesas das festas que 
tinhees uoomtade de hordenar pêra nos fazerdes caualleiros, assy pode- 
rees buscar pêra este feito em que ha mujtas e luayores auamtageés do 

8. honde A. — i3. daquell A. — 18. circustancias A. — 27. assi A. — Sy. uomtade A. 



— 44 — 

que sse no outro poderiam auer. E ajmda senhor comsijre uossa mer- 
ece quaratas uezes começastes em uossos trabalhos passados mujtos e 
gramdes feitos, em cuios começos nom tinhees abastamça de dinheiro com 
que tam soomente podessees cheguar aa meetade do feito, e prouue a 
nosso Senhor Deos de uos proueer pêra todo mujto milhor do que uos 5 
poderees pemsar. assy prazerá a elle por sua merçee de uos ajudar 
em este feito, que nom he menos de seu seruiço do que os outros 

A, 6, r, 2 eram. E ajmda senhor este he huú arripiamento que nenhuú * prim- 
çipe numca deue de tomar, porque numca homem pode teer tamanha 
abastamça de dinheiro, que lhe nom pareça que he pouco, nem as rrem- 'o 
das do rregno numca podem seer tam certas que homem nom pareça 
que som mujto aaquem do necessário. E quamto he senhor aos nauios 
que dizees que nom teerees em abastamça, jsto senhor he a mais pequena 
torua que uos neste feito podees auer. e jsto he por quamto uos pode- 
rees emuiar uossos rrecados per toda a costa de Galliza e de Bizcaya, '5 
e assy a Imgraterra e a Alemanha, e a outras partes domde uos podem 
uijnr nauios em gramde abastamça, de cuja uijmda homem deue tomar 
pequeno rreçeo, comsijramdo com quamta diligemçia elles ueem ao frete 
do sall e dos azeites e ninhos, quamdo quer que pêra ello som rrequeridos. 
E sobre todo poderees amtre tamto rrepayrar uossas gallees e fazer 20 
outras de nouo, e auisar os nauios que ha em uossos rregnos, que seiam 
prestes pêra aquelle tempo que uossa merçee hordenar de partir. E ajmda ' 
sse segue huú muy gramde proueito porque por aazo do chamamento 
destes nauios que assy mamdarees auisar pêra seu frete, correra a fama de 
uossa armada aa quall mujtos boõs homeés estramgeiros uijnram pêra ^5 

■A,6, V, 1 uos seruir * deseiamdo fazer de suas homrras. E quamto he aa terceira 
cousa em que mostraaes que temdes rreçeo da mimgua que uos a gemte 
pode fazer, espiçiallmente polia pequena seguramça que teemdes do 
rregno de Castella, por cuja rrezam uos he necessário leixar as fromtarias 
de uossa terra acompanhadas dalguúas gemtes, polia quall nom teerees 3o 
comprimento segumdo o que uos he necessário pêra tamanho feito, e 
esto senhor com a graça de Deos nora he pêra rreçear nem temer, ca em 
uosso rregno ha mujta e muy boa gemte e bem desposta pêra quallquer 
trabalho que a uosso seruiço e homrra seia necessário. E posto que assy 
fosse que de necessidade uos corauiesse de leixar uossas fromtarias rre- ->5 
payradas, ajmda hi aueria gemte pêra sse todo rremediar, quamto mais 
que com a graça de Deos nom ha hi rrezam por que sse espere seme- 

6. pensar A. — 8. arripiamento] arrependimento I. — 14. neeste A. — 22. aquell A. 
— 29. frontarjiis A. 



-45- 

Ihamte duuida. E esto por duas cousas, a primeyra polia firmeza das 
pazes que som amtre uos e elles, nas quaaes ha tamta força de juramen- 
to, que nom tam soomente amtre os christaãos, mas ajmda amtre os 
jmfiees seria feo de sse quebrar, e a segumda por quamto o Itfamte 
5 Dom Fernamdo que he a primçipal! pessoa do rregno, per cujo aazo 

se tall feito deuia mouer, he assy ocupado* em seus negócios, que A. 6, r, : 
nom he de creer que leixe a certa esperamça que tem dauer o rregno 
dAragom, por se tremeter de semelhamte nouidade, a quall ajmda ficaria 
em duuyda se lhe dariam os do rregno comssemtimento a ella ou nom. 

IO e sobre todo seemdo la a senhora rrainha nossa tia a que nom prazeria 
de semelhamte feito. Porem deuees teer seguramça pêra começardes 
uossos feitos sem rreçeo nem empacho que uos daquelle rregno possa 
uijnr. nem he bem que semelhamte duuida uaa fora de nosso segredo, 
porque os boós daquelle rregno teeriam rrezom pêra rreçeber dello 

n escamdallo polia pouca ffe que sse mostraria açerqua de suas uerdades. 
Ataa aqui chegaram estas pallauras segumdo achamos per uerdadeyro 
acordo daquelles senhores que hi estauam. e nom emtemdaaes que por 
semelhamte pallaura se deua emtemder que hi estaua outrem sse nom 
elRey e seus filhos, mas eu digo que o ouue per seu acordo, por quamto 

20 teemdo o lôamte Dom Pedro carrego do rregimento destes rregnos, me 
comtou gram parte deste feito com emtemçom de o assemtar logo de 
todo em crónica segumdo dello fiz alguíj começo. Depois me comtou 
assy o senhor Iftamte Dom Hamrrique duque de Viseu e senhor * de Coui- A, 7, r, 
ihaã, em cuja casa estiue alguús dias per mamdado do senhor Key. o 

25 quall dos ditos feitos auia mais certa nembramça que nehuiãa outra pessoa 
do rregno quamto aa sustamçia das primçipaaes cousas em que estaa a 
força da estoria, e esto era por duas cousas, a primeira e primçipall por 
quamto elle do uemtre de sua madre trouxe comssigo abraçada a seme- 
Ihamça da cruz de nosso Senhor Jesu Christo, por cujo amor e rreue- 

3o remça sempre teue muy gramde deseio de guerrear aos jmfiees, no 
quall uiueo e aturou toda sua uida como ao diamte será comtado. E 
esta declaraçom fiz aqui porque ueio em mujtas crónicas escpritas per 
muy sofficiemtes autores naçer muy gramdes duuidas por falleçimento de 
muy pequena declaraçom. E tornamdo a meu primeiro propósito digo 

35 que sobre a quarta rrezom, em que elRey dizia que filhamdo a cidade 
de Cepta daria aazo ao rregno de Castella como filhaste o rregno de 
Graada, sobre esto se fallou alguú pouco primçipallmente poUo Iffamtc 
Dom Hamrrique. E assy esta quarta duuida como a quimta ficaram por 

3. antre (1.») A. — 16. Ataa qui A. — 21». Jhú xpõ A. 



-46- 

aquella vez sem determinaçom. e esto foy por quamto elRej' per sua 
uoomtade se apartou damtre seus filhos mostramdo que por emtom nora 
•A, 7, r, >. * queria mais ouuir daqueilas rrezoões. 



Em como elRey mamdoii chamar o Iffamte Dom Hamvriqiie, e 
das rreioóes que lhe disse, e como determinou de hir tomar a cidade. 5 
Capitidlo xiiij. 

licAROM assy aquellas duas comclusoões pêra determinar nem porque 
a rreposta falleçesse aos Iffamtes pêra ellas, soomente per uoom- 
tade delRey como em cima he declarado. Mas nom passarom muj- 
tos dias quamdo elRey mamdou chamar o Iffamte Dom Hamrrique seu lo 
filho, e apartousse com elle dizemdo. Porque te ui outro dia fallar 
mais que nehuú de teus jrmaãos acerca do feito de Graada, quero que 
me digas agora emteyramente o que te parece. Senhor disse o Iffamte, 
todo o que eu emtom falley he a milhor parte do que sobrello emterado. 
nem era cousa que per minha determinaçom soo emtemdesse que sse i5 
aula dacabar, mas eu fallaua como quem tijnha taaes três ajudas acerca 
de ssy como eram meus jrmaãos. Mas agora que eu em minha parte 
soomente aja de dar emteira rreposta, pareçeme que me deue abastar 
minha pouca hidade e o pequeno conhecimento que tenho de semelham- 
tes feitos pêra minha escusa, e sobre todo a pequena deliberaçom que 20 
A, 7, V, I sobre ello tenho posta, empero por que ey de comprir uossos * mandados 
como de meu senhor e padre, assy como o milhor poder emtemder, direy 
o que me parece. Senhor disse elle, eu acho que todallas cousas que 
fazemos em este mumdo se rresolluem em três pomtos primçipallmente 
.s. no passado e no presemte e no uimdoiro. E quamto he ao passado, 25 
eu comsijro como ao tempo que Deos por sua graça quis que uos ouues- 
sees nome de rre}% como nom tinhees outra cousa senam huija muy 
pequena parte em esta cidade, ca o castello era comtra uos, e o castello 
dAlmadaã e de Simtra e de Torres Vedras e dObidos e de Samtarem,, e 
assy quasi polia mayor parte todollos outros do rregno. e quis Deos 3o 
por sua merçee emcaminhar uossos feitos per tall guisa, que sem gramde 
uosso danno uieram todos aa uossa obediemçia e sogeiçom. Pois nom 
menos deuuets esperar agora, que posto que aquelle rregno de Graada 
fosse de todo liuremente em poderio delRey de Castella, que ajmda uos 
ficaria poder com sua ajuda de lhe poderdes comtrariar quallquer danno 35 

2. — uõtade A. — 7. assi A. — 22. assi A. — 24. resoluem I, reuollucm A. — 34. delRej A. 



— Al — 

ou oífemsa que uos nouamente quizessem fazer, ca mais ligeira cousa 
uos seria de o fazerdes agora, que naquelle primeiro começo, * por mujtas A. 7, v, 2 
rrezoões que pollo presemte nom som necessárias de uos seerem declara- 
das pollo gramde conhecimento que delias auees. E quamto he ao pre- 
5 semie comsijro o seruiço de Deos e uossa gramde ffe e cristijmdade. e 
a rrezam que nam comssentem que uos ouuessees de neguar guerra 
comtra os jmtiees, por se delia seguir alguúa ajuda e fauor a elRey de 
Castella em acreçemtamento da nossa ffe, por mujto uosso jmijgo que 
fosse, porque os jmfiees per natureza uos querem mall e elle por açi- 

10 demte. E quamto he ao que ha de uijnr, eu tenho esto assy que o filha- 
mento daquella cidade nom pode seer aazo per nehuija maneira per que 
a amizade e paz que ora nouamente filhastes com aquelle rregno se aja 
por eilo de gastar nem destroir, amte o semto pollo comtrairo, porque 
elles conhecerem polia gramdeza deste feito a ardideza e boa despo- 

i5 siçom de uossos naturaaes. e jsso meesmo a marauilhosa fortelleza 
com que obrastes tamanho feito, e conheceram outrossy como o 
filhamento daquella cidade será gramde aazo pêra melhoramento da 
sua comquista. E quamdo de todo em todo em elles falleçesse tall 
conhecimento, ajmda sua maa uoomtade nom tijnha * pêra ello per- A, s, 1-, i 

20 feito comprimento denxucuçom, assy pella comquista nora seer tani 
ligeira dacabar, como depois de seu acabamento, nom sse lhe seguir 
menos cuidado de a comseruar e manteer. E sobre todo nosso Senhor 
Deos que he perfeiçom de todallas cousas, semtimdo a uossa boa uoom- 
tade e desposiçom será sempre polia uossa parte, homde dereitamente 

25 poderees dizer com ho samto propheta. Pois que o Senhor he na minha 
a)uda, nom temerey cousa que me faça o homem. E per esta guisa 
acabou o Iffamte Dom Hamrrique sua rreposta, da quall elRey seu padre 
foy mujto ledo. e assy com a boca chea de rriso lamçou os braços em 
elle, e lhe deu a sua beemçom. Ora disse meu filho, eu nom quero mais 

3o rreposta pêra a derradeira comclusom, por quamto eu meesmo a tenho 
comsijrada. e esto he que eu acho que nehuúa virtude nom pode seer 
em perfeiçom sem alguú exercício. E assy todollos offiçios cada huú 
em sua guisa, primçipallmente dos caualleiros em que sse rrequere for- 
telleza, o que se os fidallgos e outros boõs homeés deste rregno nom 

35 acharem em quem exercitar suas forças, he necessário que de duas cousas 

façom huúa. ou trauaram arroidos e comtemdas amtre ssy, * como sse A, 8, r, 2 
lee que fezerom os Romaãos depois que teuerom suas guerras acabadas. 

3. presente A. — 10. assi A. — 14 fecto A. — 14-15. disposiçom A, desposição 1. 
— 20. assi A. — 23. sentimdo A. 



-48- 

ou faram taaes dannos aos de Castella, per que seia aazo de sse as 
pazes quebrarem, a quall cousa eu nom queria per neliuúa guisa. E 
porem me parece que ajmda que pêra ali nom aproueitasse o filiiamento 
daqueila cidade, pêra esto soomente deuemos dauer por bem despeso 
todo nosso trabalho e gasto de dinheiro. E quamto he açerqua do mam- 5 
tijmento que pêra sua gouernamça ao diamte perteeçe. este carrego 
quero eu lei.xar de todo ao Senhor Deos, que assy como elle he pode- 
roso pêra fazer do pouco raujto, e de pequenas cousas mujto gramdes, 
assy poderá por sua gramde merçee abrir aazo e caminho, como sse 
aquella cidade gouerne e mantenha se for sua uoomtade de a trazer a lo 
nosso poder. E porem determino com a sua graça e ajuda de começar 
a proseguir este feito ataa o poer em fim, nom me falleçemdo alguúa 
daquelias cousas per que rrazoadamente deua seer estoruado. E pois 
uos Deos aqui trouxe em ora que eu esto assy ouuesse de determinar, 
prazme que uos seiaaes o messegeiro que leuees as nouas a uossos i5 
A, S, V, I jrmaãos, e lhe *declarees toda minha emtemçom per a guisa que uollo ja 
tenho dito. Bem he uerdade que todos aquelles filhos delRey tijnham 
muy gramde deseio de ueer aquelle feito posto em fim, mas nehuúa 
daquelias uoomtades nom era jguall da do Iftamte Dom Hamrrique, ca 
esto naçera com elle como ja disse. E porem assy como homem a que 20 
mujto prazia daquelias nouas asseemtou os jeolhos em terra e be3áou as 
maãos a seu padre dizemdo que lho tijnha em gramde merçee. 

Como o Iffamte Dom Hamrrique letioii as nouas a seus jrmaãos e 
do gramde prazer que ouueram. Capitullo xv. 



J 



A O Iffamte Dom Hamrrique sabia com quall uoomtade auia de seer 25 
rreçebido de seus jrmaãos, quamdo lhe leuasse as nouas daquelle 
feito, e porem com gramde trigamça e prazer sse foi a elles com- 
tamdolhe toda a uoomtade de seu padre segurado que passara com elle. 
De cujas nouas e rrecado os Iffamtes e comde ouueram tam gramde 
prazer como sse nom poderia dizer cousa que os mais allegrasse. e 3o 
porem cauallgarom logo todos cada huíi de sua casa, e foromsse ao 
A, 8, V, 2 paaço delRey pêra lhe * mostrarem agradecimento de tamanha merçee 
beyjamdolhe as maãos por ello, como aquelles que bem mostrauom que 
ataa aquelle tempo numca uiram prazer semelhamte. Nem elRey demtro 
em sua uoomtade nom semtia pequena lediçe ueemdo as uoomtades de 35 

8. grandes A. — 14. assi A. — 18. niuj A. — 20. assi A — come A. — 25. sabia] que 
sabia D. — 29. tam] om D. — 33. ata aquelle B, ataa quelle A. 



— 49 — 

seus filhos ass}' despostas pêra as cousas da homrra, polias quaaes conhe- 
cia todo o comprimento de suas uirtudes. Bem he uerdade que em 
todallas outras manhas que a gramdes homeês perteeçia, * conhecia elle B, 23, r, 2 
toda sua desposiçam. ca os via bem despostos a caualo e a pee. gran- 
5 des monteiros e caçadores, e ligeiros pêra correr e saltar, e lança- 
dores de barra e rremessam. e desenuoltos nas armas pêra justar, e 
assy pêra quaaesquer outros autos que a caualaria pertencessem. Nam 
porem que diga que todos igualmente auiam estas cousas em perfeiçam. 
ante digo que he erro em ello o que he em todalas cousas, que a uir- 

To tude que a huú falleçe em acabado comprimento he achada no outro. 
E assy em estes senhores, posto que em todos ouuesse boõa deligençia 
pêra experementar todallas cousas que a elles pertenciam, alguúas daquel- 
las cousas eram compridamente em hum que nam eram em outro, e 
naquelle que alguija cousa falecia acreçentauasse em elle outra, nam 

i5 porem que a nenhum delles falleçesse desposiçam boa pêra todo fazer. 
E deuees de saber que em cada huua ciência ou uirtude sam achados 
quatro graaos ou quatro deferenças. per os quaaes o entendimento sobe 
e deçe assy como per huúa escada pêra entender declaradamente* as B, 2J,v, i 
definições das cousas. E quanto aa uirtude temos quatro grãos per 

20 esta guisa .ss. bom. milhor. muito milhor. perfeito, assy como dizemos 
que ha hy temperança, continência, perseuerança. e o quarto modo destes 
se chama uirtude eroyca sobre a qual nam ha hy outra mayor. e poseram- 
Ihe tal nome porque os Gregos chamam aos seus príncipes erooes. e 
porem dizem que a estes conuem esta uirtude principalmente. E assy 

25 na çiençia sam achadas quatro deferenças .ss. a primeira que he a mais 
baxa se chama singular sustançia. sob a qual nam poderemos achar 
algúa outra. A segunda se chama sustançia comum a muitas ciências, 
a qual será principio de sua definiçam. se as primeiras sustançias 
esto rreçeber podessem. E a terceira se chama sustançia geral, a qual 

3o entra essencialmente na definiçam de outras muitas. E a quarta he 
chamada muito alta e muito geeral sustançia. que de soo sy com- 
prende todallas outras. E esto escreuemos assy porque os exempros 
sam azo a cousa seer milhor entendida. E porem eIRey todas estas 
boõas desposiçoões e autos de virtudes conhecia em seus filhos, mas 

I. pellas A. — 5. ligeiros] add desenuoltos Dl. — 7. assi B — pertencesse B. — 8. em 
D, e B. — 9. o que he B, e que he D. — 10. achado B. — 11. assi B. — 12. pertencia B. 

— i3. cumpridamente D. — i5. despossiçam B. — 17. quaees B. — 18. assi B. — 20. assi 
B. — 21. ha] om R — hy] om D. — 22. hy D, om B. — 24. assi B. — 25. achadas B, cha- 
madas D. — 28. difinçam B. — 3o. definçam B. — 3i. sostancia B. — 32. esto D, jsto B 

— assi B. — 34. despossiçoões B. 



— 5o — 

15,2-Sv, 2 nam era ajnda em certa segurança * com que coraçam soportariam os 
verdadeiros autos da fortelleza os quaaes principalmente sam nos trabalhos 
das guerras mais que em outra nenhuúa cousa, porque alij he presente 
muitas vezes perigo da morte, da qual o philosofo disse que era a fim 
de todallas cousas terribees e espantosas, e porem he o estado da caual- 5 
laria muito mais preçado antre os homeés. da qual cousa elRey via 
assjf aquelle começo per que auia grande parte do conhecimento de todo 
o que elle deseiaua de veer. Seus filhos passaram assy todas aquellas 
rreuerençias e agardeçimentos. e desy forom escorregando tanto por suas 
rrezões atee que elRey disse. A mim parece que o principal começo lo 
que a mim conuem fazer neste feito assy he. que primeiramente aja 
de saber o assentamento daquella cidade, e assy a fortelleza de seus 
muros e altura delles. ou como sam acompanhados de torres e de cara- 
manchões pêra saber quaaes artelharias me conuem de leuar pêra seer 
combatida. Outro sy conuem que saiba as ancorações que tem e com li 
quaaes ventos trabalham os nauios mais estando sobre ancora, e se per 
uentura as prayas sam assy liures e desempachadas que nossas jentes pos- 

B,24,r, 1 sam sair sem grande trabalho ou perigo. *ou que o mar he tam chegado 
ao muro que dos nauios mesmos se possa combater. Consirando açerqua 
desto quaaes pessoas la posso milhor enuiar. por quanto cumpre que 20 
seiam homeés descretos e entendidos, e taaes que possam bem todo 
prouer segundo he necessário pêra tal caso. e nam me parece que tenho 
outros que o milhor possam fazer que o priol do Esprital e o capitam 
Afonso Furtado .ss. o priol pêra deuisar a cidade e o capitam pêra aten- 
tar o mar com todallas outras cousas que a ello pertencem. Mas como 25 
seja que elles ajam lugar pêra jsto poderem veer e saber, sem seer enten- 
dida nem sabida a fim por que elles vam. pêra a qual cousa tenho von- 
tade de fingir huúa fermosa dessimulaçam. e jsto he que quero daar 
vooz que os enuio com embaxada aa rrainha de Cezilia. a qual ao pre- 
sente esta veuua e em ponto pêra casar, a qual cousa eu sey poUo jo 
rrequerimento que me ella enuiou fazer que me prouuesse de casar meu 
filho o Iftante Duarte com ella. e eu agora mandala ey rrequerer pêra o 
lifante Dora Pedro, a qual cousa eu sey bem certo que ella nam ha de 

B, 24, r,2 fazer, empero aproueitaraa muito semelhante * cometimento por quanto 

2. fortalleza B — quaees B. — 7. assi B. — 8. assi B. — 9. foram B. — 11. asy B. — 
12. assi B — fortaleza B. — 14. para B — quãees B. — 17. assi B — -despachadas B. — 
17-18. posam B. — 18. prigo B. — 19. considerando B. — 20. disto B — pesoas B. — ^22. 
hee B. — 24. diuisar B. — 24-25. atentar] deuisar D — 25. ello] elle D. — 26-27. enten- 
dido nem sabido. — 28. dissimulação B. — 29. com embaixada] om D. — 3o. poUo D, 
por o B. 



— 5i — 

meus embaxadores teram azo de hijr e vijr per açerqua daquella cidade 
onde poderam deuisar todo o que lhe por mim for mandado. Aos lôan- 
tes pareçeo muy bem a consiraçam de seu padre, e porem ficou a elRey 
o encarrego de poer todo em obra segundo o tinha consirado. 



^ Como elRey mandou chamar o priol do Esprital e o capitam e do B,24,v, i 
que lhes disse que auiam de fa\er. Capitullo xvj. 

ElRey mandou logo chamar o priol do Esprital e fezlhc saber como 
sua vontade era de os enuiar a casa da rrainha de Cezilia com sua 
embaxada. empero* que seu principal fundamento e tençam era B,24,v,2 

IO que elles deuisassem a cidade de Cepta de todalas cousas que ante dissera, 
porem que lhes mandaua que se fezessem logo prestes pêra seguir sua 
uiagem. Pêra a qual cousa logo mandou desembargarlhe dinheiros pêra 
alguús corregimentos que lhe fossem necessários, e mandou logo correger 
e aparelhar duas galles as milhores que estauam em suas taraçenas. as 

\5 quaaes foram assy corregidas de todallas cousas como se ouuessem 
dandar darmada. e esto era porque aalem da nobreza com que lhe 
conuinha de os enuiar segundo seus embaxadores. queria que fossem de 
tal guisa apercebidos que nam podessem rreçeber alguú dano dalguús 
mouros se os achassem. E mandou ajnda elRey fazer mu}' nobres 

20 librees de seu moto e deuisa pêra todos aquelles que nas ditas galles 
auiam de hijr. e jsso mesmo apendoar e atoldoar todas aquellas galles e 
des começo* ataa fim de panos de suas cores, a quall cousa numca ajmda A, io,v, i 
ataa aquelle tempo fora uista em nehuús nauios semelhamtes. e dalli 
auamte o começarom de poer em huso ataa ora que sse faz como 

25 ueedes. E per este modo forom assy as ditas gallees aparelhadas e cor- 
regidas, e os embaxadores despachados per tall guisa que em breue 
tempo começarom de seguir sua uiagem. E partimdo de Lixboa com 
aquella uoz e fama cheguaram sobre a cidade de Cepta homde lamçaram 
suas amcoras, mostrando que queriam dar alguú descamsso a sua gemte. 

3o E o priol asseemtado em sua gallee assy como homem muyto sages e 
discreto que era, oolhaua muy bem todo o assemtamento da cidade, como 
quem sabia a fim por que o fazia. E o capitam doutra parte com 

I. hijr B — vir B— acerca B. — 2. deuisar I>, auisar B. — 3. elRey] a elRey B. — 
7. ElRei B. — 14. tereçenas B, taraçenas D. — 1 5. quaees B. — 17. emuiar B. — 18. apre- 
çebidos B. — 19. ajnda] om D. — 20. dietas B. — 21. todas] om D. — 23. ataa quelle A. 
— 25. assi A. — 20. descansso A. — 3o. assi A — come A. — 3 1 . come A. 



— 52 — 

gramde auiso esguardaua sobre a praya, oolhamdo quall era mais liure 
das pedras pêra poderem em ella mais desempachadamente sahir as 
gemtes darmas, quamdo uiesse a ora do mester, e depois que foy noute 
solidou amdamdo em huú batell muy passamente todallas amcorageés 
que eram darredor da cidade, de guisa que polia mayor parte foi de todo 5 
em conhecimento. E no outro dia leuamtaram suas amcoras e seguiram. 

A, io,v,2 sua uiagem. Desy * cheguaram ao rregno de Cezillia homde era a rrainha, 
aa quall logo fezeram saber como alli eram. porem que fosse sua mer- 
çee de lhes emuiar mandado da maneira que ouuessem de teer. As 
quaaes nouas ouuimdo a rrainha mamdou que sse uiessem logo a sua >o 
corte, homde forom assy rreçebidos e agasalhados como comuijnha a 
emhaxadores de tamanho príncipe. E leixamdo suas maneiras que cada 
huú teem em seu senhorio como lhe praz por guarda de seu estado, 
finallmente depois que deram suas saudaçoÕes da parte delRey aa rrainha 
e apresemtaram suas cartas de creemça, deram sua embaxada per esta i5 
guisa. Muito alta e muito exçellemte senhora rrainha, nosso senhor 
elRey Dom Joham de Portugall uos faz saber per nos seus embaxadores, 
como nos dias passados uossa alteza emuiou a elle por rrezom do casa- 
mento de uossa senhoria com o Iffamte Duarte seu filho, da quall cousa 
elle fora mujto comtemte se o feito esteuera em aazo de sse poder aca- 20 
bar, e lhe nam fora fallado primeiramente da parte da Iffamte Dona Cate- 
rina jrmãa delRey de Castella, por cuja rrezom nom podia começar cousa 
alguúa em semelhamte auto, ataa que elle de todo fosse posto em fim de 

A, ii,r, I ssi ou de nom, quamto mais ajmda* que aquelle casamento he mujto 

proueitoso pêra ambollos rregnos, polia gramde discórdia que sse tam 25 
lomgamente amtre elles seguio. a quall posto que a Deos graças agora 
seja fijmda per firmeza de pazes que amtre elles som trautadas, que por 
aazo deste casamento se firmaram mujto milhor. E que esta foy a 
causa primçipall porque uossa embaxada nom ouue outra mais gra- 
ciosa rreposta. Empero que elle comsijramdo a desposiçom de uossa 3o 
hidade, e como ho Iffamte Dom Pedro seu segurado filho he huú prim- 
çipe dotado de mujtas uirtudes, do quall uossa senhoria seria muy bem 
casada, que lhe prazeria mujto que o dito casamento se firmasse. Porem 
que elle uos rroga e emcomemda que uos esguardees muy bem como o 
dito Iffamte he seu filho, e a muy rreall geeraçom de que desçemde assy 35 
da sua parte como de sua madre, da quall o dito Iffamte per seu meri- 
çimento nom falleçe alguúa cousa, e como lhe será dado tam gramde 

7. desi A — rreguno A — honde A. — 11. assi A. — 1 9. co A — Iffante A. — 29 prin- 
cipal A — uossa] nossa A. 



— 53 — 

casamento, como a exçelemçia de seu gramde estado comuem. E que 
auido sobre todo uosso boom comsselho, lhe erauiees uossa rreposta com 
effecto, creemdo que aalem de seer uossa homrra e proueito, farees 
cousa que uos elle mujto gradeçera. Sobre as quaaes pallauras a rrainha 

5 disse que elles se fossem por emtom pêra suas pousadas, e que ella 

fallaria com seus *comsselheiros, e que lhe daria sobrello sua rreposta. A, ii,r,?. 
Todos aquelles gramdes homeés que eram com a rrainha, esguardarom 
muy bem como aquelles embaxadores delRey de Portugall eram homeés 
de gramde autoridade, e que ass\' por ello como pollo muj' nobre corre- 
io gimento que leuauam, rrepresemtauam muy bem a gramdeza daquelle 
senhor que os la emuiaua. polia qual cousa poderam muy mall cuydar 
a dessimullaçom que jazia em aquelle feito. Desy começaram de trautar 
sobre aquella embaxada, da quall a rrainha era muy pouco comtemte, 
por quamto lhe parecia que seu estado rreçeberia abatimento, mamdamdo 

i5 ella primejTamente trautar casamento com ho Itíamte Duarte que era 
herdeiro no rregno, e tornar a casar com ho Ifíamte Dom Pedro que era 
sogeito a seu jrmaão por rrezam de sua primeira naçemça. Porem rres- 
pomdeo aos embaxadores delRey como ella por emtom nom estaua em 
pomto pêra dar rreposta a ssemelhamte feito, por alguús negócios que 

20 tijnha em seu rregno, nos quaaes de necessidade emtemdia trautar. 
porem que sse tornassem com boa uemtura pêra seu rregno, e lhe sau- 
dasssem elRey e a rrainha e toda a nobreza de sua geeraçom que com 
elle fosse em sua corte. Os embaxadores como quer que bem mostras- 
sem que lhe prouuera de *leuarem outra melhor rreposta, nom curarom A, ii,v, i 

25 de rrepricar mais sobre aquella matéria, porque bem sabiam que nom. 
era aquella a primçipall cousa de sua primeyra uiagem. E porem espe- 
diramsse da rrainha e meteramsse em suas gallees e tornaromsse pêra 
Portugall. mas nom lhe esqueeçeo de chegarem outra vez açerqua da 
cidade de Cepta fazemdo alguií mais rrepouso que o primeiro, pêra 

3o acabarem de todo o que lhe falleçera da primeyra uista. e tall maneira 
teueram em todo que lhe nom ficou nehuúa cousa por temtar daquellas 
que a elRey prazia de saber. Alguús mouros daquella cidade que 
depois do filhamento delia comsijraram sobre a uimda destas gallees, mal 
diziam a ssy e a fraqueza de seus emtemdimentos, por que tam tarde 

35 conheceram a sagazidade com que sse trautara sua destroiçom. e emtom 
se acordauam como uiram o prioll hir com sua gallee ao lomgo da 
cidade assy uagarosamente, como quem sse trabalhaua de a esguardar 

9. assi A. — 9-10. corrigimento A. — 12. desi A. — 19. semelhante A. — 28. acerca 
A. — 3õ. prior A. 



-54- 

com fememça. e assy chegarom a Lixboa. Empero elRe}' auia dias que 
estaua em Simtra e seus filhos com elle afora o comde de Barçellos 
que sse tornara pêra sua terra, por quamto elle ja era casado e lhe mam- 
A, ii,v, 2 dará seu padre que sse tornasse* pêra sua casa. 



Como o prioll e o capitam partiram de Lixboa e da embaxada 
que leuauam e das cousas que feierom em sua uiagem. Capi- 

tidlo xpij. 



P 



EQUENA tardamça fezeram as gallees depois que partiram de Cepta 
pêra chegar a Lixboa, ca o uemto foy muy prospero e as gallees 
uijnham muy bem aparelhadas, de guisa que lhe nom falleçia 'o 
nehuúa cousa pêra seguirem breuemente sua uiagem. E quis Deos 
assy hordenar que todo aquelle porto de Lixboa estaua muy bem acom- 
panhado de mujtas naaos e outros nauios pequenos, que uieram alli des- 
carregar suas mercadorias com emtemçom de hirem ao Algarue carregar 
de figo pêra leuarem a suas terras, por quamto o tempo da carregaçam '5 
era ja açerqua. E as gallees acertaram de trazerem assy sua uiagem 
hordenada, que huú domimgo a ora de missas apareceram aa boca da 
foz de Lixboa. e como era dia em que os homeês nom eram ocupados 
em nehuús trabalhos, começarom de correr pêra a rribeyra como 
comuúmente teem por custume quamdo alguú gramde nauio emtra per 20 
A, i2,r, 1 aquella foz. E as gallees com a deçemte da maree * fezerom tamanha 
detemça per aquelle rrio, que as gemtes teuerom espaço de comer, e 
tornarem a oolhar como sse uijnham chegamdo pêra a cidade, e certa- 
mente que era gramde prazer assy nos que estauam na terra como nos 
que uijnham per o mar, por quamto as gallees uijnham nobremente apem- 25 
doadas e toldadas, e cada huúa trazia duas muy rricas trombetas cujo 
soom allegraua os coraçoÕes daquelles que as estauam oolhamdo. e 
nom era pequeno descamsso aaquelles das gallees, ueemdo os ajumta- 
mentos que a gemte da cidade fazia pêra oolharem sua chegada, ca 
todas aquellas torres e muros eram cheos de homeês e molheres que sse 3o 
chegaram pêra alli por esguardarem a doçura daquella uista. E os mer- 
chamtcs estramgeyros eram mujto marauilhados com aquella nouidade 
que uiam no corregimento das gallees, o quall certamente era assy fre- 
moso e boom, que lhes fazia rrepresemtar muy gramde estado. Certa- 
mente diziam aquelles estramgeiros, este rrey de Portugall assy como he 35 

16. assi A. — 27. allegrauam A. — 35. assi A. 



— 55 — 

gramde em todos seus feitos, assy faz gramdiosamente todas suas cousas. 
Os outros da cidade mouiam amtre ssy gramdes perfias sofismamdo *cada A, 12, r, 2 
huú a fim daquella embaxada. E em esto chegaram as gallees dauamte 
a cidade homde ja estauam a mayor parte dos gramdes e boÕs que hi 
5 auia pêra acompanharem aquelles embaxadores, assy por seu merecimento 
como polia homrra da embaxada que traziam. E assy eram todos cegos 
no emtemder, que nom. auia hi alguú que podesse maginar outra cousa, 
senom que toda a força daquella embaxada fora soomente pêra trautar 
aquelle casamento. O rrepouso que os embaxadores fezerom na cidade 

10 foi pequeno, ca logo no dia seguimte fezerom saber a elRey as nouas de 
sua chegada, e amtre tamto emcaminharam suas bestas de guisa que 
aa quarta feira mujto cedo partiram pêra Simtra, homde os elRey mam- 
dou mu}^ bem rreçeber e agasalhar segumdo mereciam taaes pessoas, 
quamto mais por uijrera assy nouamente com semelhamte embaxada de 

i5 fora do rregno. E por quamto todoilos outros comsselheiros tijnham que 
aquelles embaxadores nom foram a outra cousa emulados soomente por 
trautar aquelle casamento, teue elRey maneyra de os ouuir logo primey- 
ramente peramte elles, homde compridamente disserom todoilos * aqueeçi- A, i2,v, i 
mentos de sua uiagem callamdo aquelle priínçipall que sse guardaua pêra 

20 outro mayor segredo. E porque a)mda esta dissimullaçom podesse seer 
melhor trautada, quamdo elRey ouuio determinadamente a uomtade da 
rrainha fez sembramte como que lhe desprazia de aquelle feito nom 
uijnr a fim, mas os outros dous lhe rrazoaram sobre os rremedios que 
lhe pareciam que eram necessários pêra tornar outra uez a rrepricar no 

25 comitimemto daquelle feito. ElRey nom desprezamdo seus rrezoados 
mostrou que era muyto milhor leixar assy o feito quedo per alguú 
espaço de tempo. Mas nom tardou mujto que o prioU e o capitam 
fossem auisados da maneira que auiam de teer quamdo lhe fossem dar 
o uerdadeyro rrecado daquella cousa por que os elle emulara, teemdo 

3o maneyra como os Iftamtes se chegassem aaquelle tempo pêra a camará 
de seu padre sob semelhamça dalguúa outra necessidade que cada huú 
figurasse aos seus por milhor emcubrimento daquelle segredo. Jumtos 
assy todos, primeyramente pregumtou elRey ao capitam polia rreposta 
de seu emcarrego. o quall sem outra sollempnidade de pallauras disse. 

i5 Senhor, eu nom trago outra rreposta senam que teemdes muy boa praya, 

e muy boa amcoraçam, e que *podees emcaminhar uossos feitos e hir A,i2, v,2 
mujto em boa ora quamdo quiserdes, ca a. cidade sem gramde tardamça 

5 meriçimento A. — 6. assi A. — 10. fezeram A. — 11. cheguada A. — i<i. callanJo 
A. — 22. fecto A. — 33. assi A. 



— So- 
corri a graça de Deos será posta em uosso poder. Assy aprazerá a 
Deos disse elRey. empero quero saber particullarmente a amcoraçam 
com todallas outras cousas que uos eu emcomemdey. Nom mais disse 
o capitam, senam que podees hir como ja disse que todo teemdes boõ 
e aa uossa uoomtade. e ajmda mais senhor emtemdo que nom tam 3 
soomente cobrarees aquella cidade, mas ajmda outros mujtos lugares por 
seu aazo uijram a uosso poder ou de uossa geeraçom. E esto senhor 
sey eu por huú marauilhoso acomteçimento que me acomteçeo quamdo 
era moço. do quall sempre trouxe muy gramde nembramça pollos mara- 
uilhosos aazos que sempre depois açerqua dello ui seguir, e porque lo 
uem a preposito, nom he mall de o saberdes per a guisa que me acomte- 
çeo. E foy assy. que elRey Dom Pedro uosso padre cuja alma Deos 
aja, mamdou meu padre fora deste rregno com huúa sua embaxada. e 
como quer que eu fosse moço de poucos dias, leuoume porem meu 
padre comsiguo pêra auer rrezam de ueer terra e apremder. E seguimdo i5 
nos assy nossa uiagem, chegamos a huú porto açerqua de huú lugar 

A,i3, r. I dAfrica que chamam* Cepta, homde me eu trabalhey de ueer alguúas 
daquellas cousas que me pareciam mais espiçiaaes. E amdamdo assy, 
chegueime a huúa fomte que alli estaua com huú muy nobre chafariz, 
homde me eu acostey huú pedaço tomamdo desemfadamente em ueer 20 
a fremosura dos cauallos que alli traziam a beuer, os quaaes eram mujtos 
e boÕs. e estamdo assy sobrechegou hi huú homem de comprida 
hidade, cujos auitos e barba eram manifesto sinall de sua uelhiçe. o quall 
chegamdosse a mim começoume de oolhar pregumtamdome domde era. 
e eu lhe disse como era espanholl. Nom uos pregumto disse elle, senom 22 
de que lugar sooes da Espanha. E eu lhe rrespomdi como era natu- 
rall da cidade de Lixboa. Essa cidade disse o uelho, em que rregno he. 
E eu lhe rrespomdi como era do rregno, de Portugall. E quall he o rrey 
que agora rregna em esse uosso rregno, disse o uelho. He huú muy boom 
rrey disse eu, que sse chama elRey Dom Pedro, lilho que foy do muy 3o 
nobre Rey Dom Affomso que foy na batalha do Sellado. o quall he 
huú rrey muy justiçoso e amador de seu pouoo. Que aiaaes prazer 
disse o uelho, dizeeme quamtos filhos baroões tem esse rrey. Eu lhe disse 

A, i3,r,2 como tinha três .s. o primeiro que auia * nome Dom Fernamdo, e outro 

Dom Joham, e o terceiro Dom Denis. E nom tem mais disse o mouro. 35 
Certamente nom disse eu, de que eu sayba parte. E elle começou de me 
rrogar que comsijrasse bem se tijnha outro alguú filho. E por uossa 

12. assi A. — 16. assi A — acerca A. — 17. da africa A. — iS. assi. — 32. que aiaaes] 1, 
Qu ueiaaes A. 



-57 - 

muy pequena hidade, nam me uijnha aa memoria uosso naçimento nem 
estado. Porem como quer que me aquelle uelho mujtas uezes aficasse 
rrequeremdome sempre que esguardasse bem se aalem daquelles três 
filhos tijnha elRey outro alguú. o quall lhe eu sempre negaua, e ajmda 
i mujtas uezes com juramento como aquelle a que nom podia uijr aa me- 
moria mais daquello que lhe sempre dizia. Empero aa fim ueemdome assy 
aficado delle, começey de comsijrar com fememça, ataa que me cayo no 
emtemdimemto a uerdadeyra nembramça de uossa naçemça. E emtom 
lhe disse, amigo, he muy gramde uerdade que elRey tem ajmda huú 

10 filho pequeno que chamam Dom Joham. mas eu nom me nembraua delle, 
porque amtre nos os filhos bastardos nom sam auidos em tamanha 
comta como os lídimos. Por jsso uos pregumtaua disse elle. e em 
dizemdo esta pallaura, deu huú muy gramde sospiro, e abaixou o rros- 
tro assy choramdo. Da quall cousa* eu fui mujto espamtado. e por elle A, i3,v, i 

i5 assv comtinuar em seu choro e tristeza, rrogueilhe mujto que me dissesse 
a causa que o a jsso mouera. E como quer que mo per mujtas uezes 
negasse, aa comclusom aficado de meus rrequerimentos disse, amigo, o 
meu choro nom he tamto como eu tenho rrezam, nem emtemdas que 
choro cousa nehuúa que seia presemte, mas poUo conhecimento que 

20 tenho da perda que a de uijnr a meus naturaaes e amiguos. E porque 
a tua uemtura te trouue aqui, nota bem o que te agora disser. Sabe que 
esse Rey Dom Pedro que uos agora teemdes por uosso rrey em esse 
rregno, nom ha mujto de uiuer, per cuja morte rregnara em seu lugar o 
Iftamte Dom Fernamdo seu primeyro filho, o quall será casado com 

25 huúa molher, per cujo aazo o rregno depois da morte de seu marido ficara 
em gramde rreuolta. e os outros dous filhos per emgano de sua cunhada 
seram lamçados em Castella, homde faram fim de seus dias. E finall- 
mente esse filho pequeno que tu uees menos preçado em comparaçom 
de seus jrmaãos, será ajmda em esse rregno como huúa pequena faisca, 

3o de que sse leuamta muy gramde fugueyra. ca dias uijram, em que elle 

primeiramente *uimgara a desomrra de seu jrmaão. e depois per escolhi- A, i3,v.v 
mento do pouoo será aleuamtado por rrey. o quall auera gramdes de- 
mamdas com o rregno de Castella, de que sempre ficara uemçedor. e 
elle será o primeiro rrey dEspanha que teera posse em Africa, e será o 

33 primeiro começo da destruiçom dos mouros, e ajmda elle ou os de sua 
geeraçom uijram a este chafariz dar de beuer a seus cauallos. Ora 
ueede senhor, quem estas cousas assy ouuio e as uio passar per aquella 
própria hordenamça, se creera que a cidade de Cepta he ja posta em 

G, assi A. — 7. consijrar A. — 17. aficado I, aficada A. — 27. finalmente A. 



— 58 — 

uosso poder. E porem torno a dizer o que ja disse, que podees hir com 
boa uemtura quamdo quiserdes, ca todo teemdes aa uossa uoomtade 
assy as prayas como as amcoraçoões. ElRey era homem que tijnha 
em pequena comta semeiiiamtes juizos. e porem começou de sse rrijr 
teemdo em joguo as pallauras dAífomsso Furtado, dizemdo que lhe 5 
dissesse todauia a çertidom do que lhe emcomemdara. ca bem sabia 
elle que o nom mamdara fora deste rregno primçipallmente ssenam 
aaquella fim creemdo que elle era tal! pessoa que saberia prouar e conhe- 
cer nom tam soomente semelhamte cousa, mas ajmda outro muyto mayor 
A, 14, r, I feito quamdo quer que fosse necessário. * e que porem passasse per aquel- 10 
Ias pallauras, e dissesse se aquella amcoraçom era sobre pedra ou sobre 
área, ou sobre bassa, ou se per uemtura era allí o mar tam alto que os 
gramdes r.auios podessem amcorar preto dos muros da çi4ade, ou se 
per uemtura por aazo das marees ou corremtes seriam os nauios em 
alguú trabalho na erachemte ou uazamte da maree. Todas estas rra- i5 
zoões prestaram pouco açerqua do capitam, ca elle per nehuQa guisa 
numca mais quis dizer do que tijnha dito. E emtom pregumtou elRey 
ao prioll que lhe dissesse ho assemtamento da cidade com todallas outras 
cousas que lhe emcomemdara. 



Como os embaxadores tornaram e da rreposía que trotiiieram. 
Capitullo xviij. 



S' 



ENHOR disse o prioll, de cousa que uisse nem achasse, nom uos ey 
de dar rreposta atee que me façaaes trazer quatro cousas .s. duas 
carregas darea e huú nouello de fita e meyo alqueyre de fauas e 
huúa escudella. Cuydaaes disse eIRey, que nom teemos aqui o capitam 
com suas profecias. E emtom começou de sse rrijr, e disse que leixasse 25 
A, i4,r,2 o jogo, e que lhe desse rrecado do que lhe pregumtaua. Senhor disse* o 
prioll, eu nom tenho custume de joguetar com uossa merçee, mas ajmda 
uos torno a dizer que sem as ditas cousas uos nom darey nehuúa rreposta. 
Ja elRey começaua de tomar alguú queixume pemssamdo que os emba- 
xadores nom arrecadarom seu feito per a guisa que lho elle mamdara. 3o 
Veede disse elle comtra seus filhos, que bem comçertadas duas rrepostas 
pêra homeés de tall autoridade, estoulhe pregumtamdo per as cousas 
a que os mamdei, e huú me falia em estroilomia, outro me falia em 
semelhamça de feitiços. Quem auia de cuidar que taaes dous homeés 

18. asemtamento A. 



-59- 

ouuessem de trazer semelhamte rrecado. Os Iffamtes conheçemdo quem 
era o prioll, nom podiam emtemder que etle tornasse de sua uiagem sem 
trazer certo rrecado. porem lhe disserem que sse arrecadara como delle 
comfiauam, que desse a rreposta a elRey seu padre. O prioll estaua 
5 rrijmdo porque uia que elRey nom conhecia sua teemçom, porem disse 
que ajmda que elle quisesse rrespomder que nom saberia sem lhe traze- 
rem as ditas cousas, as quaaes lhe forom trazidas per a guisa que as 
elle rrequeria. E tamto que as teue demtro em huúa camará meteosse 
demtro soo, e com *aquella área começou a deuisar sua embaxada per A,"4>v, i 

10 esta guisa. Tomou aquella escudella e fez logo o monte da Almina com 
toda a cidade assy como jaz com suas alturas e os ualles e fumdos delias, 
e desy a Aljazira cora a serra de Xemeyra assy como jaz em sua parte, e 
homde auia de fazer mostra de muro çercaua com aquella fita. e homde 
auia dassijnar casas poinha aquellas fauas, em tall guisa que lhe nom ficou 

i5 nada por deuisar. E depois que todo teue assy acabado, chamou elRey 
e seus filhos e disselhe. agora podees ueer a semelhamça dos meus feiti- 
ços, ora me podees pregumtar por todo o que uossa merçee for. e eu 
poderuos hey rrespomder com espiriemçia amte uossos olhos. Esguardou 
elRey muy bem toda aquella mostra como estaua, e desy o prioll come- 

20 çoulhe a deuisar todo, mostramdolhe logo toda a lomgura do muro como 
estaua da parte do mar. e quamto era acompanhado de torres, e de 
que altura era a mayor parte delias, e depois lhe mostrou o castello com 
todo seu assemtamento. e quaaes eram os lugares per homde a cidade 
podia rreçeber combate, com todallas outras cousas que a elRey prouue 

25 de saber. E como quer que o phillosofo digua que o conhecimento da 

cousa he mais forte conhecida per ssi meesma* que per sua semelhamça, A, i4,v,2 
nom rreprouamdo seu dito que seria escarnho pêra mym. certamente 
nom falleçeo nehuúa cousa daquellas que eram na cidade pêra ueer e 
saber, que todas hi nom fossem muy bem declaradas e conhecidas se- 

3o gumdo compria, da quall cousa elRey foy muy comtemte louuamdo mujto 
a boa discriçom do prioll, e mujto lhe pareçeo aquella cidade aazada pêra 
o que elle deseiaua. E depois dalguú pequeno rrezoado que sobre 
aquelle feito ouue, mamdou elRey que tirassem a área e aquellas cousas 
que alli <;stauam. e por cmtom nom sse fallou mais em cousa que 

35 aaquelle caso perteeçesse. 



1 1 . assi A — alturas I, altezas A. — n. desy A — assi A. — 14. dasijnar A. — 1 5. assi A. 



— 6o — 

Como elRey disse a seus filhos que duuidaua mitjto começar aquelle 

feito, amte de o saber primeyramente a Rainha e o comdestabre. 

Capitidto xix. 



V 



'iSTA assy aquella mostramça que o prioll fez, elRe\' comsijrou sobre 
todo per alguú pequeno espaço de dias. e depois que todo teue 5 
bem comsijrado, fallou com seus filhos em esta guisa. Comsijre}' 
açerqua de nossos feitos começados, e aciío que pêra sse bem poderem 
emxucutar, tenho dous muy gramdes jmpedimentos. O primeiro he a 

A, i5,r, 1 Rainha minha sobre todos mujto preçada e amada molher, a quall *por 

suas gramdes uirtudes e bomdades he assy amada de todos geerallmente, lo 
que sse elia em este feito nom da comssemtimento, nehuú dos do pouoo 
nem ajrada dos outros ma\'ores, numca poram maão em este feito com 
nehuúa fiúza nem esforço. O segumdo empacho he o comdestabre, o 
qual! sabees que ass}^ por sua muy boa uida como pollos gramdes e bem 
auemturados aqueeçimentos que ouue, tem assy as gemtes do rregno che- i5 
gadas a sua amizade, que sse elle per uemtura comtradisser este comsse- 
Iho, todos teeriam que nom era feito dereitamente. a quall cousa lhes 
faria menos esforço pêra nos ajudarem a ello quamdo fossem rrequeri- 
dos. Porem amte de nehuúa cousa he bera que ueiamos per quall ma- 
neira lhe faremos saber a determinaçam que em esto auemos, porque ao 20 
depois per seu desprazimento nom rreçebamos alguú peio. Os Iftam- 
tes forom alguú pouco descomtemtes no mouimento daquelle feito, pem- 
ssamdo que em ambas aquellas pessoas teeriam muy gramdes dous com- 
trayros, e esto comsijrauam per esta guisa. Primeyramente que a Rainha 
era molher, a quall segumdo sua natureza nom lhes poderia deseiar ne- 25 
huúa cousa perijgosa. E quamto era aa parte do comdestabre comsijra- 

A, i5,r,2 uam como era homem * uelho, e que toda sua mamçebia despemdera em 
tamtos trabalhos, dos quaaes per a graça de Deos auia dias que tijnha 
rrepouso com gramde e proueitoso gaiardom de seu merecimento, a quall 
cousa per uemtura seria aazo de o poer em duuida na esperamça da 3o 
uitoria que lhe daquelle feito podia uijr. Empero assy como homeés em 
que moraua huúa marauilhosa fortelleza, nom quiseram mostrar que 
aquelles eram os mayores jmpidimentos que naquelle feito podiam auer. 
E comsijramdo em ello, disseram a elRey que semelhamtes cousas nom 

1. duuidaria A, duuidaua I. — 4. assi A. — 9. muyto A. — 10. assi A. — i3. porram A, 
poram I. — i5. assi A. — 20. fazemos A. — 22. foram A. — 24. rrainha A. — 27. home — 
mancebia A. — 3 1 . assi A — come A. — 34. elRej A. 



— 6i — 

eram pêra tccr em gramde estima, porque disseram elles, tamto que a 
Rainha nossa senhora e madre for comtemte açerqua de nosso moui- 
mento. o comdestabre nom he homem que comtradigua nehuúa cousa 
que uos hordenardes por seruiço de Deos, e por acreçemtamento de 

5 uossa homrra e estado. Porem quamto aa Rainha, nos hiremos a ella e 
lhe fallaremos per tall guisa, que ella meesmo seia aquella que uos peça 
que nos outorguees o proseguimento daqueste feito. A elRey pareçeo 
boom comselho o que tijnham seus filhos, e disse que sse trabalhassem 
de o poer em fim, por quamto semtia que estes dous jmpedimentos tira- 

10 dos, nom tijnha outra * duuida per que leixasse de proseguir sua demanda. A,i5,v, i 
Os Iftamtes se forom logo aa Rainha, e apartaromna em seu estrado 
dizemdo per esta guisa. Senhora, bem sabe uossa merçee a alteza do 
samgue domde per graça de Deos uijmos a este estado em que de pre- 
semte somos, a quall nos acarreta comtinuadamente a muy gramdes cuy- 

i5 dados, porque possamos comsseguir a uirtude daquelles primçipes de cujo 
linhagem a Deos prouue de nos trazer a este mundo, e sobre todo com- 
sijramos a hidade em que somos, e como poderemos mais homrrada- 
mente rreçeber estado de cauallaria em alguú lugar, homde sse moues- 
sem alguijs gramdes feitos darmas ou trabalhos perijgosos, homde nossa 

20 uirtude podesse seer demostrada amte a uista de todos. Ca pois que 
os caualleiros primçipallmente forom hordenados porque amtre os outros 
homeés tenham auamtagem no feito das armas, quamto mais aquelles a 
que Deos quis dar nobreza de geeraçom, nos lugares homde sse prouam 
as forças e se esperimentam os coraçoões deuem mais homrrosamente 

25 rreçeber a hordem daquelle estado. E por quamto elRey nosso senhor e 

padre, deseiamdo nossa homrra* e acreçemtamento como de seus filhos A,i5,v,2 
quisera fazer gramdes festas e comuites pêra homrrar nossa cauallaria, 
da quall cousa nos per nehuú modo podíamos seer comtemtes comsijramdo 
o que dito he. e estamdo em esta duuida quis Deos que sobrechegou 

3o hi Johara Affomsso ueedor da fazemda, e fallounos em huúa cidade que 
he em Africa que chamam Cepta mostramdonos como era muy aazada 
pêra seer filhada, a quall cousa falíamos a elRey nosso senhor e padre. 
o quall emuiou alia o prioll e o capitam por deuisarem o assemtamento 
da cidade, se per uemtura seria tall como Joham Aftbmso dezia. ora sam 

35 ja tornados delia, e segumdo o rrecado que trouxeram a cidade he muy 
aazada pêra sse filhar auemdo boom auiamento pêra ello. E por quamto 
senhora nos teemos mujto gramde uoomtade de sse este feito poer em 



I. estimo A. — >. rrainha A — n. rrainha A. — 28. comsijrando A. — 37. fecto A. 



— 62 



fim. e semtimos que eIRey se nam quer despoer a ello assy despachada- 
mente como nos queríamos pidimosuos por merçee que primeyramente 
uos praza comssemtirdes em ello, porque semtimos certamente que oprim- 
çipall jmpedimento que elRey ha de teer, assy he a duuida que em estará 

A, i6,r, I nom sabemdo se uos aprazerá dello ou nom, por quamto *cuydara que 5 
por o amor que nos uos teemdes segumdo a comdiçom das outras mo- 
Iheres, nom uos prazerá que cometamos cousa de que nossas uidas fiquem 
em perijgo. e desy que lhe peçaaes da uossa parte, que seia sua merçee 
de nos emcaminhar como esto seia aposto em fim. Bem he uerdade 
rrespomdeo a Rainha, que eu uos tenho assy aquelle amor que quallquer lo 
madre per obrigaçam naturall deue teer a seus filhos, e ajmda mujto 
mayor por duas cousas. A primeyra pollo gramde amor que tenho a 
elRey uosso padre, assj' polias gramdes uirtudes que em elle ha, como por 
seer meu senhor e marido, e semtir que me tem tam gramde amor, como 
homem do mundo que o moor tem a sua molher. E a segumda, por uos i5 
Deos fazer taaes de que eu nom espero que possa naçer outra cousa 
senom aquella que rrequere o estado que teemdes, e o gramde linhagem 
de que deçemdees. Empero quamto pêra semelhamtes feitos, eu numca 
uos poderia priuar uossas boas uoomtades, amtes uos ajudarey a ellas 
com todas minhas forças e poder, e certamente que eu nom poderá oje 20 
ouuir nouas com que me mais prouuera, ca per semelhamte rrequeri- 

A, i6,r,2 mento * me fazees emtemder queiamdas uoomtades terees ao diamte, 
pêra obrardes aquellas cousas que sempre obrarom e obram aquelles 
rrex e príncipes de linhagem de que deçemdees. Porem a mim praz mujto 
de poer logo maão em este feito per tall guisa que com a graça de 25 
Deos, uossas boas uoomtades ajam effecto segumdo deseiaaes. 



Como a Rainha f aliou a elRey no rreqiieriínento de seus filhos, e 
da rreposta que lhe elRey açerqua dello deu. Capitulo xx. 

N'OM quis a Rainha poer aquella cousa em tamanha tardamça, per 
que parecesse que mimguaua na boa uoomtade que amostrara a 3o 
— seus filhos, e fez logo saber a elRcy como lhe era necessário de 

lhe fallar. porem que fosse sua merçee de lhe fazer saber a desposiçom 
em que estaua. Mas elRey husamdo de sua nobre cortesia, nom quis 
comssemtir, que sse ella metesse em tall trabalho, e disse ao messegeiro 

1. assi A. — 4. assi A. — 5. quanto A. — 8. desi A. — 9. posto I. — 10. rrainha A. — 
II. ajnda A. — i3. assi A. — 14. come A. — 26. segundo A. — 27. rrainha A. — 29. rrainha. 



— 63 — 

que lhe dissesse, que elle hiria homde ella estaua, como de feito logo 
foy. Senhor, disse a Rainha, eu uos quero rrequerer huúa cousa que 
he mujto comtrayra pêra rrequerer madre pêra filhos, porque comuú- 
mente as madres rrequerem * aos padres que arredem seus filhos dos tra- A, i6,v, i 
5 baihos perijgosos, teemdo sempre gramde arreçeo de quaaesquer danos 
que lhe possam acomteçer. eu tenho teemçom de uos rrequerer que os 
arredees dos jogos e das foligamças, e os metaaes nos trabalhos e perijgos. 
e esto senhor he per esta guisa. Vossos filhos e meus uieram oje a mim, 
e me comtarom todo o feito que tinhees passado açerqua da cidade de 

]o Cepta sobre que uos fallou Joham Affomsso ueedor da uossa fazemda, 
dizemdome como semtiam que uos nom despoinhees a emcaminhar seu 
filhamento segumdo elles deseiauam. porem que me pediam que me 
prouuesse de uos fallar em ello, e uollo rrequerer da sua parte e da mi- 
nha. E eu senhor esguardamdo como elles ueem de linhagem dempe- 

is radores e rrex e doutros muy notauees e gramdes primçipes, cujo gramde 
nome e boa fama he oje per as partes do mundo muy nomeada, nom 
queria per nehuúa guisa, pois lhe Deos por sua merçee quis dar a despo- 
siçom dos corpos e do emtemder, que elles per seu trabalho falleçessem 
de comsseguir os feitos daquelles que disse, e por tamto eu açeitey seu 

20 emcarreguo e me prouue mujto de seu rrequerimento, auemdo seu deseio 

por boom, pêra começo de sua noua hidade. Por o quall* uos peço por A,i6,v,2 
merçee que queiraaes emcaminhar como elles possam eixerçitar suas 
forças e prouar suas uirtudes segumdo deuem. pêra a quall cousa me 
parece que teemdes muy boom aazo, queremdo auiar que sse ponha em 

25 obra aquello que ja teemdes fallado. e aalem da parte que a uos acerca 
dello acomteçe, eu da minha uollo teerey em gramde merçee. Senhora, 
rrespomdeo elRey, tall rrequerimento me fazees uos de que eu rreçebo 
muy gramde empacho, e esto he por me rrequererdes primeyramente 
o que eu ouuera de rrequerer a uos, metendo a mim em prazimento 

3o aquello que per uemtura eu mujto duuidara de uos sem costramgimento 
de gramdes rrogos quererdes outorgar. Porem dou mujtas graças a 
Deos porque uos trouue a tempo de me tall cousa rrequererdes, da quall 
eu som mujto ledo e me praz de o poer em obra segumdo me rreque- 
rees, o que com a graça de Deos espero que uenha a proueitosa fim. E 

35 por quamto senhora me uos teemdes feito este rrequerimento, prazcruos 
ha que eu uos faça outro nom muy lomge deste propósito, que uos 
praza de eu seer homde nossos filhos forem assy como partiçipador de 
seus comsselhos, e companheiro de seus perijgos. Bem * foj' a Rainha leda A i7,r, i 

2. rrainha A. — húa. — 25. ia A. — 3o. comstamgimento A. — 32. tal A. 



-64- 

de ouuir todallas rrazoões que sse atee lli passaram, mas quamto aquelle 
pomto, bem mostrou que lhe nom prazia de ouuir semelhamte, e disse. 
Senhor, a mym seria mujto graue de poder com meu coraçom que outor- 
gasse semelhamte, ca per aquella guisa que a mim pareçeo rrezoado o 
rrequerimento que uos primeyramente fiz, per essa me parece quamto 5 
a meu juizo, o uosso fora de rrezam. por quamto aquello que meus 
filhos rrequerem he pêra gaanharem homrra que uos ja teemdes gaanha- 
da. a quall elles ajmda nom tem senam por rrezam de uos e daquelles 
primçipes e senhores de que deçemdem. e porem lhes he necessário de 
a buscarem agora, ssometemdo seus corpos a gramdes trabalhos e perij- lo 
gos, Hom rreçeamdo sua morte sse per alguú caso acomteçer, por che- 
garem aaquello que seus auoos percalçarom. ca por certo nom lhes fica 
pequeno emcarrego depois de uossos dias, de comsseguirem uossas uirtu- 
des e parte de uossa homrra. E pois que a Deos graças per mujtas partes 
do mundo he notório como uos per uossos gramdes merecimentos e tra- ib 
balhosos emcarregos cobrastes tamta homrra, que nom soomente ao 

A, i7,r,2 mais poderoso rrey do mundo * poderia abastar, mas ajmda três ou quatro 
se teeriam dello por comtemtes. e assj^ senhor me parece uossa hida 
escusada se uossa merçee for. ca sobre todo deuees de comsijrar na 
hidade em que sooes, a quall creo que he pouco menos de çimquoemta 20 
e dous ou çimquoemta e três annos. e como toda uossa mamçebia des- 
pemdestes em trabalhos por deffemssom e acreçemtamento de uossos 
rregnos. a quall cousa prouue a Deos de uos poer em termo e fim bem- 
auemturada. E que pois a elle prouue de assy seer, que mais honesto e 
mais rrazoado he que os annos que uos derradeyramente ficam pêra 25 
uiuer, despemdaaes em corregimento de uosso rregno e em ememda de 
uossos peccados. porque assy como a Deos prouue de uos homrrar o 
corpo em este mundo, que assy uos homrre a alma no outro, que de 
mouerdes agora nouas pelleias, das quaaes se pode seguir per uemtura 
que ajmda que depois queyraaes assessegar, o nom poderees fazer, por- 3o 
que os feitos se aqueeçem mujtas uezes per tall guisa, que com huúas guer- 
ras se começam outras, e som semelhamtes ao fogo que os lauradores 
pooem nos matos, os quaaes pemssamdo queymar huúa muy pequena 

A,i7,v, 1 mouta, queymam suas sementeyras. E deuees ajmda* de comsijrar como 

todallas homrras deste mundo caaem ao pomto de huúa soo ora. e por 35 
huíja muy pequena desauemtura perdem os homeées muy gram parte de 
suas homrras passadas, porque toda boa amdamça dos homeés comuú- 

18 assi A. — 24. assi A. — 27. assi A. — 28. assi A. — ?4. ajnda A. — 35. caãe A — 
hua A. 



— 65 — 

mente se julga polia fim, ca em nehuúa daquellas cousas que os homeés 
esperam em este mundo nom rrespomde menos a sorte e a fortuna que 
os feitos das pelleias. Porem de nossos filhos hirem e cometerem quall- 
quer cousa que lhe uos hordenardes. a mim parece que he bem. e que 
5 uos fiquees em nosso rregno. e aqueeçemdo o que Deos nom queira, que 
seus feitos nom soçedam segumdo sua uoomtade e nossa, milhor he que 
uos lenhaaes com que os uimgar ao depois, que a comtrayra fortuna 
abramger assy a uos como a todollas gramdes pessoas do rregno. ca 
necessário será se uos fordes, que nom fique no rregno nehuúa pessoa 

10 notauell sem uosso gramde costramgimento. E assy senhor, que minha 
teemçora he, que milhor he ficardes, que por nehuúa cobijça de homrra 
uos mouerdes de partir de uosso rregno. Todas uossas rrezoões senhora 
disse elRey, som pêra comsijrar quamto perteeçe aaquelle que * sse mo- A, 17,7,2 
uesse priínçipallmente por causa de homrra, o que certamente noai he em 

i5 013111, soomcnie me lembra como çuge}' meus braços em samgue dos 
christaãos. o quall posto que justamente fezesse, ajmda me parece dem- 
tro em minha comçiemçia que nom posso dello fazer comprida peem- 
demça, saluo se os muy bem lauasse no samgue dos jmfiees. ca deter- 
minado he na samta escpritura que a perfecta satisfaçom do peccado he 

20 cada huú per homde peca per alli auer peemdeniça. Pois que peemdemça 
posso eu fazer de quamtos homeés per m3'm e per meu aazo forom mortos, 
.soomente matar outros tamtos jmfiees ou niujto mais se poder por ser- 
uiço de Deos e eixalçamento da samta fe catholica. ca posto que eu qui- 
sesse fazer semelhamte ememda per oraçoões ou esmoUas, nom me parece 

25 que aueria perfeita satisfaçam, pois a peemdemça he desiguall do erro. 
ca o offiçio de rrezar primçipalimente he dos clérigos e frades e outras 
pessoas rrelligiosas. e a esmolla que a quisesse fazer, som dinheiros de 
minhas rremdas, dos quaaes eu nom posso semtir mingua, pois doutra 
quallquer parte meu estado ha de seer gouernado. E ajmda me *pareçe A, iS,r,i 

3o que segumdo este feito perfaço todas estas cousas, porque assaz desmolla 
será buscar dinheiros e mamtijmento pêra gouernar tamtas gentes como 
eu com a graça de Deos espero de leuar a esta samta rromaria. Pois 
quamto aas oraçoões pareçeme que assaz será Deos seruido per seme- 
lhamte modo, quamdo per sua graça aquellas casas em que sse agora 

35 serue e adora o nome de .Mafamede, cuja alma por seus justos meriçi- 
mentos he sepultada nas fumduras do jmferno, forem acompanhadas de 
clérigos e rreiligiosos, homde de noite e de dia se sirua e adore o seu 
sanito nome. Quamto senhor disse a Rainha, ao seruiço do Senhor Deos 

38. rrainha A. 
9 



— 66 — 

eu nom fallo nehuúa cousa, amte me praz e lhe dou mujtas graças por 
uos poer em tall propósito, ca nom poderia toruar nem seer comtrayra 
em nehuúa cousa que a seu seruiço tocasse, e elle que he sabedor de 
todalias cousas, sabe bem certamente que em minha uoomtade nam esta 
o comtrayro. 



Como elRey pollo presemte nnm quis determinar aa Rainha que 

elle auia de hir em aquelle feito, e como logiio mamdou emcaminhar 

as cousas que perteeçiam pêra a frota. Capitullo xxj. 



Q"i 



A, i8,r,2 ^ ^uEM poderia ouuir aquellas pallauras que sse amtre aquelles senho- 
res passauam, que nom ouuesse extrema follgamça. por certo lo 
bem disse Sallamam em seus prouerbios, que a mayor parte da 
bem auemturamça desta uida pêra quallquer homem esta em teer boa 
molher. Nem elRey nom era pouco ledo de ouuir assy aquellas palla- 
uras aa Rainha, das quaaes em sua uoomtade foy mujto comtemte. 
Empero nom quis determinar sua hida comsijramdo que sse a Rainha iS 
determinadamente soubesse que elle auia de hir que sse lhe rrecreçeria 
mayor trabalho desprito. da quall cousa se lhe poderia seguir alguú 
danno polia fraqueza de sua compreissom. mas a hida de seus filhos ficou 
logo posta em determinaçam. e logo elRey começou demcaminhar auiua- 
damente o corregimento que perteeçia pêra sua hida. E a prime3'ra 20 
cousa que loguo mamdou fazer foy prouijmento de suas tereçenas pêra 
saber parte dos nauios que tijnha e como eram rrepayrados, mamdamdo 
loguo trigosamente cortar madeyra pêra rrefazimento dalguúas gallees e 
fustas que lhe falleçiam pêra comprimento do numero que elle emtem- 

A,i8,v, 1 dia de leuar .s. quimze gallees e quimze fustas. E assy mamdou* loguo zS 
aparelhar carpemteyros e callafates, que obrassem nos ditos nauios. e 
desy guarniçoóes pêra elles com todalias outras cousas que lhe pertee- 
çiam. Mamdou ajmda elRey apanhar quamto cobre e prata sse pode 
achar no rregno. e assy mamdou trazer outro de fora fazemdo seu trauto 
com os mercadores pollo milhor modo que elle pode. em tall guisa que 3o 
a muy breue tempo teue delle muy gramde abastamça. E Joham Affomsso 
ueedor da fazemda proueeo logo todalias rremdas da cidade, e fallou 
com Ruy Pirez do Allamdroall que era thesoureiro da moeda nom lhe 
declaramdo porem o segredo, per tall guisa que as fornaças da moeda 

6. rrainha A — determinar A, declarar I.— 8. uijmte e huum A. — 10. exterma A. 
— 1 5. rrainha A. — 18. jda A. — j5. assi A. — 26. carpemteiros A. — 27. desi A. 



-67- 

forom loguo todas prestes, e despachadamente começaram de laurar. e 
tamanha trigamça se poinha naquelle lauramento que afora alguGs dias 
de mu}' gramdes festas todollos outros comtinuadamente de dia e de noite 
laurauam. Miçe Carlos almiramte foy logo anisado per mamdado delRey 
b que proueesse todollos mareantes cada huijs em seu estado, de guisa que 
despachadamente podesse fazer delles o que lhe elRey mamdasse. Gom- 
çallo Louremço de Gomide que era escpriuam da puridade mamdou logo 
fazer cartas em nome delRey pêra o escpriuam dos marauidijs, *e assy A,iS,r,2 
pêra todollos coudees e anadees dos beesteiros do rregno, que fezessera 

IO lofiuo seus alardos, e lhe emuiassem os quadernos delles homde quer que 
eile esteuesse. nos quaaes declaradamente fossem escpritas as hidades 
das pessoas e corregimentos que lijnham pêra seruiço delRe3\ Mas quem 
poderia escpreuer a multidom das semtemças que sse dauam sobre 
aqueste feito, ca o rrumor do pouoo era muy gramde ueemdo o aballa- 

i5 mento destas cousas, e posto que cada huú em sua parte se trabalhasse 
descolldrinhar aqueste segredo nom auia hij alguij que certamente sou- 
besse determinar o lugar pêra homde aquelle corregimento era. e as 
semtemças que sse dauam açerqua dello leixamos pêra outro capitulio, 
por quamto aquellas cousas nom sse faziam ajmda tam trigosamente como 

20 sse ao diamte fezeram. E deuees de saber que a dilligemçia que elRey 
mamdou poer na moeda e rremdas foy por nom lamçar pedidos, a quall 
cousa fez a duas fijns. A primeyra por quamto aquelle feito primçipall- 
mente era mouido por seruiço de Deos, e nom queria elRey que nehuúa 
pessoa de seu rregno teuesse aazo de rreçeber nehuíi escamdalio. E a 

25 segumda era, porque sse ouuera de lamçar pedidos, fora necessário de 

fazer *ajumtamento de cortes nas quaaes de necessidade se ouueram de A, i9,r, i 
declarar alguijas comjeituras ou partes do feito per tail guisa, que sse 
poderá emtemder a uerdadeira determinaçam que elRey sobre esto tijnha. 
Em este corregimento e cousas que elRey assy mamdou fazer sse poseram 

3o bem dezoito meses, no quall espaço os íffamtes fallaram a seu padre pidimdo- 
Ihe por merçee que quisesse poer mayor trigamça naquelle feito, ca posto 
que elRey mujto trabalhasse a elles nom parecia tamto, porque nas cousas 
que homem mujto deseia quamdo esta em esperamça de as cobrar numca 
o espaço pode seer tam pequeno que lhe nom pareça gramde. E aalem 

35 desto huúa das propiedades dos homeés mamçebos segumdo declara 
frcy Giil de Roma per autoridade do phillosofo na terceyra parte do se- 
gumdo liuro do rregimento dos primçipes, e Paullo Virgerio na emsi- 
namça dos moços fidallgos, he seerem trigosos e arreuatados em seus 

1. foram A. — 8. assi A. — 25. lançar A. — 27. algúas. — 29. assi A. — 36. rroma A. 



— 68 — 

feitos, e esto por nez;im do esquemtamento do samgue que em elles 
naturallmente he naquella hidade. E tamto lhes parecia aos Iffamtes 
que esta cousa se fazia de uagar, que disseram a seu padre que pemssa- 
uam que elle queria cessar do propósito que com elles determinara. Bem 
A, 19, r, 2 sabees disse elRey, como amte * que fallassemos aa Rainha uos disse que 5 
nom podia em este feito fazer nehuúa cousa que o primeyramente ella 
e o comdestabre soubessem, e pois da Rainha ouuemos seu prazimento, 
comuem que fallemos ao comde, por cuja rrazom nom posso mais trigo- 
samente despachar meus feitos pêra auiar o que me he necessário. Os 
Iffamtes disseram que era muy bem que sua merçee emcaminhasse como 10 
sse logo posesse em obra de sse fallar ao comde, porque ao diamte teues- 
sem certa determinacam do que auiam de fazer. 



Como elRey e os Iffamtes determinaram a maneyra per que sse 
auia de fallar ao comde naquelle feito, e como lhe foy f aliado e per 

que guisa. Capitullo xxij. ,5 

ElRey e os Iffamtes eram aaquelle tempo em Samtarem quamdo sse 
estas cousas amtre elles forom falladas, homde determinaram que 
este feito nom fosse fallado ao comde per escprito nem messegeiro 
soomente que elRey lho dissesse persoallmente. e que pêra sse esto 
fazer mais fora de sospeita que o Iffamte Duarte e o Iffamte Dom Ham- 20 
rrique partissem logo caminho de rriba dOdiana leuamdo comssigo mon- 
A,i9,v,i teiros e caçadores, e que amdassem assy despemdemdo dous * ou três 
meses em seus desemfadamentos, ataa que elRey e o Iffamte Dom Pedro 
passassem o Teio e se fossem chegamdo comtra alguú lugar que fosse 
mais açerqua domde quer que o comdestabre emtom esteuesse. O i5 
Iffamte Duarte auisou loguo seus offiçiaaes como se fezessem prestes 
pêra comtinuar seu caminho, e escpreueo a Martim Aftbmsso de Melloo 
porque era huú fidallgo gramde caçador e monteyro fazemdolhe saber 
como elle e o Iffamte Dom Hamrrique seu jrmaão hiam follgar comtra 
aquella parte, porem que lhe rrogaua que elle esteuesse prestes com 3o 
suas aues e caães. e que esso meesmo auisasse quaaesquer pessoas que 
semtisse que tijnham desposiçom pêra ello. E loguo os Iffamtes parti- 
ram sem toda sua gemte emtemder o tall segredo soomente no monte e 
caça. e amtre tamto elRey esteue em Samtarem ataa que lhe pareçeo 

4. secar A. — 5. ante A — rrainha A. — 6. o A, a I. — 7 rrainha A. — 11. diante A. 
— 16. Santarém A. — 17. foram A. — 22. assi A. 



-69- 

que era tempo de partir, e tamto que passaram os dous meses loguo na 
segumda semana do terçeyro mes elRey fez emcaminhar sua partida. E 
porque sua teemçom fosse miliior dessimullada, disse huú dia comtra o 
Iffamte Dom Pedro per tall maneyra que o ouuissem todos. Ja agora 
5 uossos jrmaãos *cuydaram que nom ha mais na caça nem no monte que A, lo, v,2 
quamto elles sabem, empero meu filho ajmda eu quero ueer se lhe 
posso leuar auamtagem, porque uos outros homeés mamçebos pemssaaes 
que nos outros nom sabemos as cousas tam perfeitamente como uos. 
mas prazemdo a Deos nos partiremos ora daqui, e hiremos ueer estes 

'O montes homde eu ja mujtas uezes achey mujtos e gramdes porcos, e sse 
a Deus prouuer de nos aparar cousa em que nos desemfademos, podere- 
mos ueer quamdo nos ajumtarmos quaaes forom milhores monteyros. 
Aquelles senhores e fidaligos que eram com eIRe}' começarom mujto de 
departir naquelia montaria, de guisa que todo o emtemdimento da corte 

i5 nom era por emtom em outra cousa senam no corregimento que pertee- 
çia pêra aquelle caminho. Partio elRey loguo daquella uilla de Samta- 
rem, e o Iffamte Dom Pedro com elle. e correram loguo aquella rribeyra 
de Muja, desy foromsse aa rribeyra de Soor que he açerqua de Curuche. 
e rrepousarom alli alguij pouco, e por quamto o comdestabre aaquelle 

20 tempo estaua em Arrayollos, emcaminharom sua hida comtra Monte 
Moor, e esto muy de uagar. E amte que partissem daquella rribeyra 
de Soor* disse elRey comtra o Iffamte. Certamente eu acho ja agora A,2o,r, i 
minha casa desfeyta de boõs caães espiçiallmente dallaãos. ca me parece 
que estes que tiago, ou he porque os mais delles som nouos e nom 

25 forom ajmda bem emcarnados, ou per uemtura nom ssam boõs de 
sua naturaleza, nom tem conhecimento das matas desta terra, como 
teem das outras da Estremadura homde forom criados. Pois disse- 
ram alguús dos que hi estauam. Senhor seria bem mamdardes saber 
parte a casa dalguús fidaligos desta comarqua se teem alguús caães que 

3o uollos emuiem espiçiallmente pêra aquella rribeyra de Lauer em que 
sempre sohees dachar gramdes porcos e boõs. Nom emtemdo que apro- 
ueita disse elRey, por quamto o meestre dAuis que he huú homem que 
sempre tem mujtos e boõs, sey que será ja com meus filhos, ou lhe em- 
ulariam pedir os milhores que teuesse. ca assy fezerom a Martim Affom- 

35 sso de Meloo. mas emtemdo disse elle, que o comdestabre terá alguú 
boom que nos possa emuiar. Se uossa merçee for disse o Iffamte, escpre- 
uerlhe ey eu, por quamto me ueem mais a geito que a uos, por seer alom- 
gado de minhas terras, e uijr aa corte despercebido de semelhamte des- 

7. mancebos. — 22. soor. — 3.S. condestabre — terra A. — 38. semelhante A. 



A, 2o,r,2 emfadamento. EIRey disse* que era muy bem comsijrado. e todollos 
outros assy disseram como sse comuQmente faz amtre os senhores, que 
quallquer cousa que dizem em louuor ou doesto, todos comsseguem seu 
propósito, e tamto sse pos esto em husamça em nossos dias, que aiguGs 
fumdamdo sobre ello jmteresse, filhauom semelhamte geito por offiçio. 5 
mas do que sse dello seguio, fallaremos adiamte depois do acabamento 
destas cousas, passamdo primeyramente pollos feitos do rregnado delRey 
Dom Joham e Dom Duarte, por quamto em seus dias neiíuú daquestes 
achamos que amte sua presemça ouuesse auamteiado fauor. Ora tor- 
namdo a nosso propósito, o escpriuam foy logo chamado ao quall foy lo 
mamdado que fezesse logo huúa carta em nome do Iftamte Dom Pedro 
pêra o comdestabre. na quall depois de suas emcomendas, lhe fazia 
saber como elRey seu padre e elle eram partidos de Samtarem com em- 
temçom de sse desemfadarem per aquelles montes, e que por quamto 
elle uiera de suas terras aa corte aforrado mais com emtemçom de i5 
desembarguar seus feitos, que de amdar a monte, que lhe rrogaua que 
sse teuesse huú boom allaão de filhar que lho emuiasse, por quamto 
aquelles que seu padre trazia nom eram taaes que amtre elles ouuesse 

A,2o,v, I nehuú spiçiall. *E esta carta foy logo feita e assijnada, e o moço destri- 

beyra prestes pêra a leuar. mas foy necessário de a leuarem ajmda aa 20 
camará do Iffamte pêra lhe elle poer o sinete, e esto era porque aalem 
daquelles seellos que o seu escpriuam trazia, custumaua elle sempre 
trazer huú com que aseellaua alguúas cartas espiçiaaes que a elle prazia. 
E ao tempo que lhe ouue de poer aquelle sinete teue tall modo que fez 
huú escprito per sua maão mujto secretamente, no quall fazia saber ao 25 
comde como a elRey seu padre era necessário de fallar com elle alguúas 
cousas sustamçiaaes e de gramde segredo, porem que lhe emcomemdaua 
que elle dessemullasse per alguúa boa maneyra, como bem podesse che- 
guar a Monte Moor, homde elRey seu padre loguo açerqua emtemdia de 
seer. A quall carta assy emuiada, quamdo o comde uio a alma que em 3o 
ella uijnha, como homem sages e discreto, callou muy bem aquelle segredo 
fazemdo ao moço alguúas pregumtas muy alomgadas daquelle propósito 
.s. polia saúde delRey e de seu filho, e desy dos desemfadamentos que 
trazia em suas montarias. Sey disse elle, que elRey meu senhor ouue 
nouas da boa esqueemça que seus filhos ca trazem em seus montes, e 35 

A,2o,Vj2 quis uijr tomar sua parte, por liie elles nom* leuarem a auamtagem. mas 
mujto me pesa porque nom tenho agora taaes caães com que liie possa fazer 

2. assi A. — 4. preposito A. — 5. jnteresse A. — ig. asijnada A. — 29 elRej A. — 
32. preposito A. 



— 7' — 

seruiço. empero amtre estes que tenho, sera buscado o millior pera seruiço 
do senhor Ifiamte Dom Pedro que mo emuia pedir. Desy fez loguo fazer 
a rreposta assy de praça, como o líTamte fez a que lhe emuiou. dizemdo 
que de seus desemfadamentos lhe prazia mujto, mas que lhe pesaua por 
5 nom teer cousa tam espiçiall como elle deseiaua pera lhe fazer seruiço. 
Empero que daquelles aliaãos que auia em sua casa lhe emuiaua o mi- 
Ihor. e que lhe pedia por merçee que quallquer outra cousa em que elle 
eirtemdesse que o poderia seruir, o nom ouuesse dello por escusado. 
EIRey foy assy fazemdo sua uiagem ataa que chegou a Monte Moor. e 

10 tamto que o comde soube que elle alli estaua, disse comtra os seus. Que 
pois elRey seu senhor alli era tam preto que nom som mais de três 
legoas ajmda que gramdes seiam, que lhe seria desmesura nom lhe hir 
fallar auemdo tamto tempo que o nom uira. Porem emcaminhou loguo 
sua partida, e foy fallar a elRey. E assy loguo como chegou lhe foy fal- 

i5 lado todo o feito passado, dizemdolhe elRey que posto que ja alguúas 

* cousas teue<=se começadas de hordenar, que nom eram porem com deter- a,2i, r. i 
minaçom de sse o feito poer em exucuçom, ataa seer fallado a elle. 
porem que lhe rrogaua que lhe dissesse o que lhe daquelle feito parecia, 
O que a mim parece rrespomdeo o comde, he que este feito nom foy 

20 achado per uos nem per outra nehuúa pessoa deste mundo, soomente 
que foy rreuellado per Deos queremdouos abrir aazo e caminho per que 
lhe fezessees este tam espiçiall seruiço, per que uossa alma amte elle 
possa rreçeber gramde meriçimento. E pois que a elle praz de sse ser- 
uir de uos em este feito, hi nom ha mais que escolldrinhar. ca assy como 

25 a elle prouue de o trazer amte os olhos de uosso conhecimento, assy lhe 
prazerá por sua merçee de o trazer a proueitosa fim. E uos por merçee 
nom çessees de obrar em ello, de guisa que por uossa mimgua nom fal- 
leça nehuúa cousa do que pera semelhamte feito perteeçe. E em esto 
chegarom os IfFamtes Duarte e Dom Hamrrique domde amdauom em 

3o seus desemfadamentos. e sem outra mostramça de comsselhos nem de 
falk secreta semtiram a uoomtade do comde, e breuemente se partiram 
cada huús pera sua parte .s. elRey e o Iffamte Dom Pedro pera Samta- 
rem, e os IfFamtes Duarte e Dom Hamrrique * pera Euora, e o comde pera A,2i,r,2 
Arrayollos. 



12. assi A. — i5. aigúas. — i6. fecto A. — i8. mumdo A. — 24. assi A — conhecimento 
A, entendimento I. — zí. assi A. 



72 



Como elRey começou dauiar mais trigosamente sua hida, e covio os 

Iffamtes tornaram dEuora, e como sse os Iffamtes Dom Pedro e 

Dom Hamrrique partiram pêra suas terras e das cousas que lia 

fe{erom. Capitullo xxiij. 



O 



espaço foy pequeno que os Iftamtes esteueram em Euora, porque 
tamto que souberam que seu padre era em Samtarem, loguo par- 
tiram daquella cidade e se forom pêra elle, homde seu ajumta- 
mento nem durou mujto, porque o Iftamte Dom Pedro e o Iftamte Dom 
Hamrrique se forom loguo pêra suas terras. E eIRey e o Iffamte Duarte 
ficarom alli damdo auiamento mais trigoso aas cousas começadas, do 'o 
que sse ataa lli fezera. E o Iffamte Dom Pedro e o Iftamte Dom Ham- 
rrique teueram tal! maneyra em seu caminho, que sse o desemfadamento 
de rriba dOdiana foy gramde, aqueile nom foy menos, ca tamto que 
chegaram a Coymbra, loguo o Iff"amte Dom Pedro fez buscar quamtos 
desemfadamentos se poderam achar pêra folgamça de seu jrmaao e sua. «5 
e com esto gramde abastamça de uiamdas de que sempre forom gouer- 
B,2i,v,i nados em quamto esteueram per as terras* do Iffamte. E per semelhamte 
fez o Iftamte Dom Hamrrique tamto que emtraram na comarqua da 
Beyra, homde elle tijnha seu senhorio. Mais fez ajmda o Iffamte Dom 
Hamrrique por acreçemtar seus desemfadamentos. ca hordenou logo 20 
como sse fezessem huúas nobres festas em Viseu, pêra as quaaes mamdou 
comuidar o comde de Barçellos seu jrmaao com todoUos senhores bispos 
fidallgos e outros boõs homeés que auia em aquella comarqua. aos quaaes 
fez saber como aquellas festas se auiam de começar em uespera de na- 
tall, e auiam de durar ataa dia dos rrex. porem que lhes prouuesse de ^5 
teerem tall maneyra em sua uijmda, que aaquelle tempo fossem alli, ou 
primeyramente se o fazer podessem por aazo de suas pousemtadorias 
serem milhor auiadas. E pêra esto mamdou o Iffamte a Lixboa e ao 
Porto por pannos de sirgo e de laã e brolladores e alfayates pêra fazerem 
suas liurees e momos segumdo pêra sua festa rreallmente perteeçia. e 3o 
desy uiamdas forom buscadas per todallas partes mais abastadamente 
que sse poderam achar. Alli forom trazidas mujtas carregas de cera 
que sse despemderam em mujtas tochas, assy de seruir como de damças, 
A,2i,v,2 bramdoões* e uellas e contos em tamanho numero que casy seria empos- 

siuell de sse poderem comtar. Alli forom outrossy de todallas uiamdas 35 

3. Hanrrique A. —.7. foram A. — 21. mandou A. — 28. esto I, jsto A. — 3i. foram 
A. — 32. foram A. — 35. foram A — outrossi. 



-73- 

daçucar e comseruas que sse poderom achar no rregno em muy gramde 
abastamça. e assy de todallas maneyras despeçias e outras fruytas uer- 
des e secas que compriam pêra sua festa seer abastada, e também uie- 
ram alli piparotes de maluasia com mujtos outros uinhos bramcos e uer- 
5 melhos da terra de todallas partes homde os auia miihores. E quamdo 
ueo aa uespera de natal! eram )a todas estas cousas prestes, e assy 
mujtos corregimentos de justas e outros arreos de desuayradas maneyras. 
e a cidade e aldeãs darredor eram todas cheas de gemte de guisa que 
parecia a alguus estramgeiros que per alli passauam que aquelle ajumta- 

10 mento nom era senam corte de rrey. Em aquellas festas ouue muy 
gramde prazer, porque auia em ellas mujtos senhores e gramdes com 
mujtas maneyras de desemfadamentos. e sobre todo a abastamça que 
era muy gramde de mujtas deleitosas uiamdas. ca nom sse acha que 
em todos aquelles dias ouuesse nehuú falliçimento, per que aquella festa 

i5 em alguúa parte podesse seer* abatida. E deuees de saber que o Iftamte A,2i,r, i 
Dom Hamrrique foy huú homem cujos feitos e estado amtre todos seus 
jrmaãos teue mayor auamtagem de rrealleza, leixamdo o Iftamte Duarte a 
que per dereita soçessom comuijnha de o fazer. E como quer que sse 
estas festas começassem com-emtemçom de nom seerem em ellas outras 

2o pessoas de gramde estado afora aquellas que ja dissemos, o Iftamte 
Duarte que estaua em Samtarem com seu padre, tamto que soube as 
nouas daquelle ajumtamento, ouue muy gramde deseio de seer em elle. 
e loguo como passou o dia de janeiro ouue liçemça de seu padre, e 
escolheo seis fidallguos os mais gemtijs homeés de sua casa, com alguú 

25 outro pequeno corregimento. e assy aforrado partio de Samtarem, e 
trigou tamto seu amdar que posto que os dias fossem pequenos e os 
caminhos maaos, chegou a Viseu a taaes horas que ouuio ajmda ho offi- 
çio de uespera dos rrex com seus jrmaãos. Mas quem poderia dizer o 
acreçemtamento da festa que aquelles senhores fezerom com sua uijmda. 

3o E no outro dia forom as justas muy gramdes nas quaaes justou o Iftamte 
Duarte e aquelles gemtijs homeés que com elle uieram. e da outra parte 
justáramos Iffamtes, e os mais * daquelles fidallguos e gemtijs homeés que a, 22,r,2 
eram com elles. e todo aquelle dia sse despemdeo naquellas justas e 
damças e outros desemfadamentos. alli ouue momos de tam desuayra- 

3.'i das maneyras, que a uista delles fazia muy gramde prazer a quamtos alli 
eram, e ajmda a mujtos de fora que o souberom. E no dia seguimte 
disse o Iff"amte Dom Hamrrique ao Iftamte Duarte seu jrmaão. Senhor, 

I. conseruas A. — 1 1. muytos A. — 12. rnuytas A. — i3. muytas A. — 3o. foram A — 
muj A. 



— 74 — 

pois que uossa merçee foy de uirdes a esta terra homde nos estamos nom 
como cortesaãos mas como homeés que comtinuadamente seguíamos o 
monte, seia uossa merçee filhardes de huúa liuree que aqui teemos feyta 
pêra nos outros os montejTos. O Iffamte disse que lhe prazia mujto. a 
quall liuree foy rrepartida per alguús daquelles fidaligos e gemtijs homecs. 
e posto que ella nom fosse de mujto finos pannos, era porem de mujtos 
deseiada, porque a nom dauam ssenam a espiçiaaes homeés. 



Como sse os Iffamtes forom todos três a Satntarem, e da maueyra 

que teueram em seu caminho, e do que f aliaram a seu padre tamto 

que forom homde elle estaua. Capitullo xxiiij. 



K 



A,22,v, í i GABADAS assy aquellas festas como teemdes ouuydo, partiramsse* os 
Iffamtes com seu jrmaao caminho de Samtarem, e o comde de 
Barçellos e os outros senhores e fidaligos espediramsse delles e 
tornaramsse pêra suas terras. E os Iffamtes todos trcs teueram amtre 
ssi tall maneira .s. o Iffamte Dom Hamrrique fez a despesa a seus i5 
jrmaãos em quamto forom per a comarqua da Beyra. e o Iffamte Dom 
Pedro depois que forom na Estremadura, e o Iffamte Duarte em quamto 
esteueram em Samtarem. e esto todo fezeram amtre ssy tam abastada- 
mente, que o segumdo nom estudaua em ali, senam como sobrepoiaria ao 
primeyro, e o terceiro ao segumdo. empero tam gramdemente foy todo 20 
feito e hordenado, que nom tijnha em que leuar auamtagem huú ao outro. 
A Deos diz o autor, e como posso eu fallar em estas cousas, que sse me 
nom demouam as amtredanhas da uoomtade pêra auer delle huúa sahu- 
dosa lembramça. ca assy como os emfermos sse deieytam em comsijrar 
os desemfadamentos da saúde, e os uelhos em comtar os boõs aqueeçi- 25 
mentos das cousas passadas de que elles teem alguíja parte, nom menos 
follgamça seemto em mym em comsijrar e saber as cousas daquelle 

A,i2,v,2 tempo. E ajmda que naturallmente todollos homeés * depois que passam 
as primeyras três hidades, doestam mujto aquelle tempo em que ssom, 
dizemdo que elles uiram outro milhor mundo prasmamdo aquelle pre- 3o 
semte, buscamdolhe nouas maneyras de falleçimentos pêra ajudarem seu 
propósito, o qu€ segumdo nosso emtemder nom he tamto polia malldade 
das cousas daquelle tempo como polia fraqueza da sua hidade. Certa- 
mente nam sse pode esto emtemder em mym, por quamto a minha hidade 
nom he semelhamte aa daquelles que disse, nem a Deos graças ssom 35 

2. come bis A. — 9. tanto A. — lo. foram A. — 16. foram A. — 17. foram A. 



-75- 

assy apassionado per jnfirmidade, per que me anoje a uida presemte, 
soomente me despraz, porque nom uejo huú tempo semelhamte aaquelle. 
ca todollos senhores do rregno naquelles dias amauam mujto seu prim- 
çipe, e o primçipe a elles. amtre os quaaes auia huús geeraaes desemfa- 
5 damentos. e os çidadaáos tijnham amtre ssy comcordia e amizade. Como 
os Iffamtes chegaram a Samtarem, forom rreçebidos de seu padre e de 
toda a outra gemtilleza da corte com muy gramde prazer e desemfada- 
mento. e o Iffamte Duarte em cuja pessoa e casa emtam era a gemti- 
lleza do rregno, teue emcarrego de fazer a custa a seus jrmaãos, em 

IO quamto esteueram em* aqueila uilla com seu padre. E como quer que A, 23,r, i 
elles assy amdassem em suas follgamças e desemfadamentos, nom per- 
diam porem cuydado de acabar aqueste feito em que ja tijnham fallado, 
pareçemdolhes que sse allomgaua mais do que seu deseio queria. Ca 
segumdo achamos des que neeste feito primeyramente foy fallado ata 

i5 aquelle pomto eram passados melhoria de três annos. e acordaram amtre 
ssy de fallarem em ello a seu padre, o que assy fezerom pedimdolhe por 
merçee que posesse aquelle feito em alguú certo termo, pêra elles emca- 
minharem seus feitos segumdo lhe perteeçia. Ao que lhe eIRey rres- 
pomdeo e disse esto. Nom foy ajmda fallado a nehuú dos do meu com- 

20 sselho, e tenho determinado pêra o sam Joham a Deos prazemdo fazer 
ajumtamento de comsselhos em Torres Vedras, homde emtemdo propoer 
este feito e determinar o termo certo em que com a graça de Deos aja- 
mos de partir. E porque a coreesma era ja açerqua, partiramsse os Iffam- 
tes Dom Pedro e Dom Hamrrique e foromsse pêra Temtugall, homde 

25 jumtamente teueram a coreesma. E porque nossos feitos de todo leuem 
sua dereita hordem, diremos aqui o que falleçeo em este outro capitullo 
passado por acreçemtar no boom auiso que * elRey teue em sua herde- A,23,r,2 
namça. Homde he de saber que queremdo clRey chegar a Monte Moor 
que era húua uespera demtrudo ouue nouas como seus filhos em aquelle 

3o meesmo dia chegauom a Euora. e porque semtio que elles nom poriam 
gram tardamça de uijr a elle sabemdo sua uijmda. o que lhe por aazo do 
comdestabre que hi auia de uijr poderia fazer alguúa prosumçom. mam- 
doulhes logo dizer que sem nehuQa tardamça se partissem logo dalli, e 
tornassem outra uez a comtinuar sua momtaria. ca posto que fosse 

35 coreesma a mamçebia rrelleuaua todo. e que depois que assy amdassem 
alguús dias tornassem pêra Monte Moor. A quall cousa os Iffamtes 

i. assi A. — 6. foram A. — i5. ponto A. — i6. assi A. — 19. disse. Esto não foi ainda 
falado I. — 31. ajuntamento A. — 28. honde A. — 29. dentrudo A. — 3o. porriam A. — 
35. assi A. 



-76- 

poserom em obra, e loguo aa quarta feyra acabado ho offiçio da çijmza 
partiram caminho de Beja. ca outro tempo passado amdarom per Elluas 
e per outros lugares de rriba dOdiana. E tamto que assy passaram 
alguús dias, fezeram a uolta pêra Monte Moor, e no caminho açerqua 
de Porteil mataram huú muy gramde husso que emuiaram a seu padre 
mamdamdolhe dizer pallauras graciosas, de que seu padre ouue gramde 
prazer. E do que sse amtre elles mais passou fica escprito no outro 
capitullo amte deste. 



A,23,v, I Como elRey mamdou chamar os do seu comsselho, e como os Iffam- 

tes tornaram aa corte, e das cousas que o Iffattite Dom Hamrrique lo 
rrequereo a seu padre. Capitullo xxv. 



G 



OMÇALLO Caldeyra soomente foy aquelle que era escpriuam da 
camará delRey, a que a puridade deste segredo foy rreuellada. 
e esto era porque Gomçallo Louremço escpriuam da puridade 
cujo criado elle fora, nom podia per ssi soo escpreuer tamta escpritura is 
como perteeçia pêra este feito, e porem foy reuelado assy aaquelle por 
semtirem delle que era homem que o guardaria. Certamente elle tomou 
dello tamanho cuydado, que posto que depois da tomada de Cepta mujtos 
annos uiuesse, numca foy homem que lhe em ello ouuisse fallar soomente 
per gramde uemtura. e ajmda aquello que fallaua sob muy gramde cau- 20 
tella e temor. Aaqueste Gomçallo Caldeyra foy dado carrego de fazer 
as cartas, per que elRey mamdou chamar aquelles do comsselho que 
auiam de seer com elle em Torres Vedras, e com todo esto elRey nom 
çessaua demcaminhar seus feitos o mais despachadamente que podia. E 
passada a festa da páscoa, os Iffamtes partiram de Temtugall, e foramsse 25 
A,23,v.2 *pera Simtra homde seu padre estaua e teuera aquella festa. E outrossy 
o comde de Barçellos e o comdestabre e o meestre de Christo e o meestre 
de Samtiago e o meestre dAuis e o prioll do Espitall, e Gomçallo Vaaz 
Coutinho, e Martim Aífomsso de Melloo, e Joham Gomez da Sillua, 
com todollos outros senhores e fidallgos que auiam de seer em aquelle 3o 
comsselho, ueheramsse chegamdo pêra aquelle lugar homde lhes era 
mamdado que uiessem. E chegamdosse aquelle tempo elRey partio 
de Simtra, e foy foUgamdo per aquella comarqua de Lixboa caminho 
de Torres Vedras, e amte desto chegamdo elRey a Carnide, o Iffamte 
Dom Hamrrique que mujto deseiaua per seu corpo fazer alguúa cousa 35 

8. ante A. — 1 3. poridade A. — 27. xps A. — 32. honde A — elRej A. 



— 77 — 

auamtajada, chegou a seu padre e disse. Senhor, primeiro que per 
estes feitos mais uaades a diamte, porque semto que com a graça de 
Deos uaão ja per tall uia que uijram a boa fim. eu uos peço por merçee 
que me outorguees duas cousas .s. a primeyra que eu seia huú dos pri- 
í) meyros que filhe terra quamdo a Deos prazemdo chegarmos dauamte a 
cidade de Cepta. e a segumda he que quamdo a uossa escalia rreall for 
posta sobre os muros da cidade, que eu seia aquelle que uaa primeyra- 
raente em ella que* outro alguú. ElRey ooihou comtra elle com comte- A,24,r, i 
nemça toda chea de rrijso, e lhe rrespomdeo per esta guisa. Meu filho, 

10 uos ajaaes a beemçam de Deos e a minha, por teerdes tam boa uoomtade 
pêra meu seruiço, e pêra acreçemtamento de uossa homrra. empero 
poUo presemte eu nom uos rrespomdo a nehuúa dessas cousas, mas pra- 
zemdo a Deos eu uos rrespomderey a ellas em outro tempo mais per- 
teeçemte pêra sse dar que agora. Assy chegou elRey aaquella uilla 

i5 de Torres Vedras, homde sse ajumtarom com elle todos aquelles senho- 
res que forom chamados pêra aquelle comsselho. e amte que sse ne- 
huija cousa fallasse, disse elRey ao comdestabre. Por quamto este feito 
he assy árduo e gramde, eu som em muy gramde duuida de o mouer a 
estes como per noua determinaçom. ca posto que eu uerdadeyramente 

20 delles conheça que ssom todos muy boõs e deseiadores de meu seruiço, 
acho porem que todollos homeés teem cada huú seu desuayro nas com- 
diçoÕes e uirtudes, e que assy nom som todos em huú coraçom e uoom- 
tade. e pode seer que poemdo eu este feito determinadamente em seu 
juizo, que a semelhamça do perijgo com a mimgua da fortelleza, poderá 

25 poer em alguús taaes duuidas * que leixamdolhas homem limar per rrezam, A,24,r,í 
fará aos outros tamanho rreçeo, que pode seer aazo de sse este nosso 
feito leixar dacabar. Porem queria saber a maneyra que uos parece que 
deuo teer, pêra me poder segurar daquesta duuida. Senhor, disse o com- 
destabre, uossa comsi)raçom me parece muy boa, mas o rremedio pêra 

3o ello me parece que será bem que uos nom mouaaes esta cousa como quem 
a moue nouamente, mas como cousa que teemdes determinada por justa 
e boa. ca pois uosso primçipall mouimento foy por seruiço de Deos, a 
elle primçipallmente deuees de leixar a determinaçom do comsselho. e 
o que a uos perteemçe he firme propósito pêra o poerdes em fim com a 

35 sua graça e ajuda, e o que a estes do uosso comsselho quiserdes dizer, 
nom seia por uos elles comsselharem se he bem de sse fazer ou nom. 
mas soomente que lho dizees por seu auiso. e assy por uos elles dizerem 

3. uiiram A. — i3-i4. perteemçemte A. — i8. árduo I, arduu A. — 22. sam A. — 
28. duuyda A. — 28-29. condestable I, comde A. 



-78- 

e comsselharem os milhores aazos e caminhos per que este feito possa 
acabar. E pêra sse esto milhor emcaminhar, uos hordenarees que eu 
falle primeyro no comsselho que outro nenhuú. e eu com a graça de 
Deos hordenarey minha falia per tall guisa, que nehuú delles nom aja 
A,24,v, I rrezom * depois que eu fallar, de comtradizer uosso propósito. A elRey 5 
prouue mujto daquelle comsselho. e mamdou loguo chamar seus oíBçi- 
aaes, aos quaaes mamdou que fezessem prestes aquellas cousas que per- 
teeçiam pêra corregimento da casa em que elle auia de teer seus com- 
sselhos. a quall era huúa salla deamteyra que esta em aquelles paaços ■ 
de Torres Vedras, homde esta a capella. e foy todo assy corregido como lo 
compria aa exçellemçia de seu estado .s. o asseemtamento delRey em 
meyo, e os bamcos dos outros de huúa parte e da outra. E o dia em 
que sse esto ouue de começar, era huúa quimta feyra, na quall elRey e 
seus filhos ouuiram huúa missa de Samto Spritu ofhçiada com gramde 
sollempnidade, por tall que a sua samta graça lhe podesse dar uerdadeyro i5 
conhecimento de todo o que naquelle feito por seu samto seruiço emtem- 
diam de fazer. E dalli ficou a elRey sempre por deuaçom ouuyr seme- 
Ihamte missa cada somana em aquelle dia. nom tam soomente ajmda elle, 
mas todos seus filhos o cusiumarom sempre em suas capellas em quamto 
uiuerom. 



Co7no elRey tomou juramento aos do comsselho, e per que guisa, e 20 
das pallauras que lhe disse acerca de seu propósito. 
Capitullo xxvj. 



y 



A,24iV,2 -r TTijMDA a hora em que aquelle comsselho auia dauer fim, e jumtos 
aquelles senhores e fidallgos em aquella salla, amte que elRey 
fallasse nehuúa cousa do que deseiaua, disse. Aquellas cousas zS 
soemos auer por fortes e ásperas, as quaaes per alguú aqueeçimento com- 
tra nosso deseio nouamente acomteçem. porque a husamça das cousas 
geera menos preço delias, e a uos assy parecera alguú pouco graue 
esta nouidade que ora emtemdo de fazer, a quall per uemtura cuyda- 
rees que he feita com mimgua de fiamça, ou com alguúa noua sospeita 3o 
que tenho comtra alguús de uos, ou per uemtura comtra todos, o que 
certamente nom he assy, amte uos tenho por boõs e leaaes e amadores 
de minha homrra e seruiço, e assy conheço que fuy sempre de uos leall- 

1 . consselharem A. — 3. nehuum A. — 1 5. uerdadey A. — 23. Vjimda A. — 29. alguum 
A. — 3i algúa A. 



— 79 — 

mente seruido e acomsselhado. Ca sse assy fora, que eu dalguú de uos 
teuera duuida ou sospeita, bem poderá buscar aazo per que o afastara 
de meus comsselhos. mas esto que eu faço, he huúa amoestaçam, a 
quall ho peso e a gramdeza do feito rrequere. E nosso Senhor Deos 
5 quamdo foy a sua transfiguraçom em monte Tabor, nom ouue por mall de 
amoestar aaquelles três apostollos que apartou comssyguo, que callassem 
o segredo daquella* çellestriall uisom. como quer que aquelles três eram A,25,r, i 
os primçipaaes, que elle sempre tijnlia quamto aa humanidade no seo de 
seus comsselhos por testimunha de seus segredos. Porem amte que eu 

IO nehuúa cousa falle comuosco daquello sobre que aqui fostes chamados, 
quero que me façaaes preito e menagem que guardarees fiellmente todal- 
las cousas que eu de presemte comuosco fallar. e que as nom direes a 
nehuúa pessoa per pallaura nem per escprito. amte afastarees todo aazo 
e geito per que sse nehuúa cousa que ao dito feito perteeça possa saber 

!.■) nem emtemder. Todos disseram que lhe prazia, empero cada huú era 
duuidoso amtre ssy pemssamdo que cousa podia ser aquella sobre que 
sse fazia tam nouo fumdamento. E emtom lhes deu elRey juramento no 
lenho da uera cruz e sobre o liuro dos euamgelhos, que guardassem assy 
todo aquelle segredo como dito he. E esto assy acabado começou elRey 

20 seu propósito em esta guisa. Amigos, este dia foy sempre de mym mujto 
deseiado. ca bem sabees quamto minha uoomtade sempre foy chegada 
ao amor de todollos christaãos. e esto podees claramente emtemder com- 
sijramdo como seemdo guerra amtre mym e o rregno de Casteila, quam- 
tas uezes * fuy rrequerido delRey de Graada, oftereçemdome gemtes pêra A,25,r,2 

25 me ajudarem a destroyr ou deneficar meus comtrairos. a quall cousa 
sempre emgeitey, conheçemdo que posto que me trouuesse proueito, que 
nom era rrezam tomar tall ajuda seemdo elles jnmijgos da nossa samta 
ffe. Outrossy fuy per elles rrequerido pêra lhes dar de mym e de meus 
rregnos paz perpetua, ou tregoas por alguú tempo, offereçemdosse por 

3o ello a meu seruiço per suas cartas e rrecados. a quall cousa menos quis 
outorgar auemdo tall amizade e comcordia por maa e desonesta, e que 
seemdo a elles fauor que he uituperio de nossa ffe, pois a uida delles em 
este mundo segumdo sua emtemçom he por seu doesto. E sabees 
outrossy que em todollos feitos passados, posto que per graça de Deos 

35 sempre ouuesse uitoria de meus emmijgos. numca em meu coraçom pude 
deseiar outra cousa se nom paz. nom porque esta cobijça ouuesse auem- 
dome por camssado de semelhamtes trabalhos, soomente nembramdome 
que eram christaãos, cujo dano eu mujto semtia. e como e quamtas 

14. perteemça A. — 29. rregnnos A — alguum A. — 33. mumdo A. — 38. muyto A. 



— 8o — 

uezes eu esta paz deseiey e busquey com elles, manifesto he amtre o 
conhecimento de uos outros. E porque nosso Senhor Deos uerdadeyra- 

A,52,v, I mente conhecia meu deseio, e com que temçom* me mouia a rrequerer a 
dita paz, prouuelhe por sua merçee de a trazer a esta fim que sabees. a 
quall cousa eu nom tiue nem tenho por menos uitoria, do que tiue 5 
o uemçimento da batalha rreal, na qual! se determinou muy gram 
parte de nossa duuida. E porque naquelles tempos passados eu sem- 
pre deseiey fazer alguú tall seruiço a nosso Senhor Deos, per cujo 
gramde trabalho e perijgo podesse satisfazer per meriçimento alguija 
oflemssa, se a comtra sua uoomtade per myra ou per meu aazo lo 
teuesse feita, e trazemdo assy este cuydado, mujto a meude rreuoll- 
uia meu emtemdimento escolldrinhamdo homde ou como lhe poderia 
fazer aquelle seruiço. empero nom me podia uijr aa memoria lugar 
aazado em que ho fazer. E porque eu podesse emtemder que o meu tra- 
balho nem escolldrinhamento era de pouca sustamçia e uallor amte a sua i5 
muy perfeita e alta sabedoria, mu}' ligeyramente me apresemtou amte a 
jmagem do conhecimento per aazo nom maginado nem pemssado, como 
lhe este seruiço perfeitamente poderia fazer filhamdo a cidade de Cepta, 
mostramdome logo certos aazos e caminhos per que mais ligeyramente 

A,25,v,2 poderia acabar meu deseio. E porque semti e soube a gramdeza * daque- 20 
Ha cidade, e a muitidom das gemtes que em ella mora. e comsijramdo 
outrossy como he nas partes daalem deste nosso mar, rretiue assy este 
segredo sem uollo deuulgar por duas cousas, a primeyra por saber se 
teeria pejo no auiamento de meu feito, quamto aas pazes de Castella. e 
a segumda por auer certo conhecimento se aueria alguús empidimentos 25 
em minha passagem. E ora que ja de todo som auisado fizuos aqui 
assy ajumtar por duas cousas, a primeyra por me ajudardes a dar graças 
a nosso Senhor Deos que me tam boa e tam homrrada cousa trouxe aa 
maão, em que o podessemos seruir. o que deuees de fazer com mujto boa 
uoomtade, porque todos os que aqui estaaes fostes comigo naquelles meus 3o 
primeiros trabalhos, por cuja rrezam eu som mujto ledo de auerdes )sso 
meesmo comigo parte em quallquer cousa que eu faça por salluaçam de 
minha alma. e a segumda pêra rreçeber de uos auiso e comsselho, como 
milhor e mais proueitosamente possa cobrar a fim do dito feito, e ajmda 
a terçeyra por uos auisar que vos façaaes prestes daquellas cousas que 
forem necessárias pêra corregimento de uossa hida. 



I. desegey A. — 6. no A. — 8. desegey A — alguum A. — i5. ante A. 



Como o comdestabre rresponideo primeiro em aquelle comsselho, e 
das * rre^oões que disse, e como ho Iffamte Duarte e seus jrmaãos a, 20, r, 1 
rrespomderom e per que maneira. Capiíullo xxvij. 

POSTO que elRey despemdesse pouco tempo em apremder çiemçia, 
todas suas pallauras porem eram ditas com muy gramde autori- 
dade, e tamto que elle assy teue acabada sua rrezam, a pri- 
meyra uoz que deuera seer do Iffamte Duarte, ficou ao comdestabre 
segumdo per elRey fora hordenado, teemdosse porem tal! maneyra que 
alguú dos outros nom podesse emtemder que era feito de certa sabedo- 

10 ria. e como quer que o comdestabre fimgidamente rrefusasse mujto de o 
fazer, empero ouueo de fazer de rrogo do Iffamte aperfiamdo sobre ello 
primeyramente alguú pouco. E aqui auees de saber que sempre ata 
aquelle tempo se custumaua no comsselho dos rrex fallarem primeyra- 
mente as mayores pessoas, e desy as outras, deçemdo cada huúa per seu 

i5 graao ata a mais pequena, e dally auamte ficou em huso de fallarem 
primeyramente as mais pequenas, e per semelhamte sobirem hordenada- 
mente pêra cima ataa chegarem aa mayor. a quall certamente he huúa 
muy boa maneyra pêra todoilos comsselhos dos gramdes senhores, por- 
que quamdo as mayores pessoas* faliam primeyro, as mais pequenas A,2Ó,r,2 

20 tomam rreçeo de comtrariarem o que as mayores disseram, ajmda que 
lhe pareça o comtrayro. Que arguymento de pallaura senhor, rrespom- 
deo o comdestabre, posso eu fazer nem outra nehuúa pessoa que aqui seia 
amte uossa presemça que pareça rrezoado soomente dizeruos como pro- 
feta. Esto he feito ao Senhor, e he marauilhoso amte os nossos olhos. 

25 Nem uos nom queyraaes meter este feito no comto dos outros, porque 
as outras cousas sobre que uos filhaauees comsselho ajmda que justamente 
o fezessees, era porem pêra buscar certos caminhos per que mais ligeyra- 
mente podessees segurar uossa uida e homrra, e assy de uossos sogeitos 
e naturaaes. mas este feito soomente perteeçe ao seruiço de Deos e 

3o saluaçam das almas, uossa e daquelles que uos em ello seruirem. e 
quamto a alma he mais nobre que o corpo, tamto nosso Senhor Deos 
toma mayor cuydado demderemçar os comsselhos daquelles que sse 
mouem pêra sua saluaçom. Porem eu nom semto outro comsselho que 
uos em ello dar, soomente que o carrego deste feito primçipallmente 

35 leixees a Deos, rremereçemdolhe o cuydado que teue e tem de uossa 

3. rresponderam A. — 4. despendesse A. — 7. Iffante A. — 10. condestable I, comde 
A. — 12. atee A. — 20. o que I, as que A. — 22. condestable I, comde A. 



— 82 — 

A,2G,v, 1 saluaçom. * e eu de minha parte ponho ley a mym meesmo de lhe dar 
mujtas graças por ello, polia parte que a mim acomteçe. E assy como 
uos serui em todailas outras cousas, assy uos seruirei em esta. e ajmda 
quamto a cousa he miihor e mais proueitosa, tamto poerei em ello mayor 
uoomtade e diliigemçia. Em acabamdo esta pallaura, sse aleuamtou ; 
domde estaua, e foi poer os giolhos amte elRey, e em lhe beyiamdo a 
maão disse. Eu uos faço esta rreueremça teemdouos mujto em merçee 
de me aazardes cousa em que uos sirua em meu offiçio de cauallaria em 
que me Deos por sua merçee pos, seemdo cousa tamto de seu seruiço. 
Depois que o comdestabre acabou suas rrazoÕes, fallou o lífamte Duarte lo 
per esta guisa. Pois que o comdestabre, que he huú homem que foy em 
tamtas e tam boas cousas per seu corpo, homde gaanhou tamtas e tam 
gramdes homrras como tem per seus boõs merecimentos, ha por tam 
boom uosso propósito e fumdamento nom achamdo comtradiçam aiguQa, 
que posso eu hi dizer, que ajmda per mim nom fuy em nehuúa cousa perij- i5 
gosa nem de temor, soomente follgar mujto por me Deos trazer aazo em 
que possa fazer de minha homrra. e por ello dou mujtas graças a Deos, 

A,2G,v,2 e a uos tenho em gramde merçee por uos prazer de auiar cousa* em que 
uos possa seruir com tamto seruiço de Deos e acreçemtamento de minha 
homrra. E em acabamdo estas pallauras leuamtousse em pee, e foy bey- 20 
iar a maão a seu padre, e per semelhamte maneyra fezeram seus 
jrmaãos, de cujas pallauras nom curamos de fazer expressa memçom, 
porque comuiãmente todas faziam este propósito. Ora quall pemsaaes 
que auia de seer neiíuú dos outros por ousado que fosse em faltar, que 
teuesse atreuimento de comtradizer o fumdamento daqueile propósito. 25 
ca nom emtemdaaes que ajmda que a emtemçom delRey fosse tam boa 
como era, que hi nom ouuera alguús debates sobre que sse poderam 
seguir mujtas rrazoões, se aquelli maneira nom fora primeiramente com- 
sijrada. Porque assy como nosso Senhor Deos pos gramde desuairo nas 
comtenemças dos homeés, assy lhe prouue que nos emtemdimentos fossem 3o 
desiguaaes. e dizem os amtijgos, que esta soomente he aquella cousa 
que no mumdo foi miihor rrepartida, porque nehuú homem nom teem tam 
pouco siso que sse delle nom comtemte ssem cobijça dauamtagem que 
em outrem conheça. Empero foi rrequerido aaquelies que dessem suas 
vozes cada huíj segumdo miihor emtemdesse. mas nom ouue hi alguú 35 

A,27, r I que soubesse dizer o comtrayro. Mas Joham* Gomez da Siliua que era 
huú homem forte e ardido, cujas pallauras sempre traziam jogo e sabor, 

9. tanto A. — 10. suas] sas A — Iffante A. — 20 leuamtouse A. — 25. fundamento A. 
— 3o. assi A. — 3i. antijgos A. — 36. comtrairo A. 



— 83 — 

leuamtousse em pee. Quamto eu senhor, disse elle comtra elRey, nom 
ssei ali que diga ssenom rruços aalem. E esto dezia elie, porque elRey 
e os mais dos que aili estauam tijnham ja as cabeças cheas de caãs. E 
elRey e todollos outros começarom de sse rrijr. e assy folgamdo fezeram 
fim de suas falias, quamto aaquelle propósito. 



Como elRey teue comsselho sobre ho emcubrimento daquelle propó- 
sito, e como foi determinado que mandasse desafiar o duque dOlam- 
da, e a maneyra que elRey teue naquelle desafio. 
Capituílo xxviij. 

,o /^ OBRE estas cousas passadas teue elRey seu comsselho, per que ma- 
^V neira poderia milhor emcubrir o auiamento da sua frota, porque 
^^ todos teuessem em ello olho, e perdessem cuydado de emquerer a 
çertidom daquella uiagem. E pêra esto foi achado huú muy proueitoso 
rremedio .s. que o duque dOlamda fosse logo desafiado, e pêra esto 

i5 hordenaram que Fernam Fogaça que era ueedor do Illamte Duarte, fosse 
portador daquelle desafio, e alli ficou loguo determinado, que pêra o 
outro sam Joham que seria dalli a huú anno, fossem* todos prestes cada A,27,r,2 
huú omde ouuesse dembarcar. E feita a embaxada que Fernam F^ogaça 
auia de leuar, foi loguo despachado, de guisa que em breue tempo fez 

20 sua uiagem. e tamto que chegou a casa do duque, fezlhe saber como 
elle era a elie emuiado da parte delRey Dom Joham de Portuga!!, 
segumdo lhe dello fazia certo per sua carta de creemça, porem que lhe 
pedia por merçee que lhe assijnasse tempo em que lhe podesse dizer 
comprldamente sua embaxada. O duque rrespomdeo que elle se fosse 

25 por emtam pêra sua pousada, e que elle comsijraria quamdo poderia seer 
despachado, e que lho faria saber. Fernam Fogaça tamto que foi na 
pousada, muy secretamente fez saber ao duque como lhe era mujto nece- 
ssário de lhe primeiro fallar apartadamente, por quamto aquello que lhe 
emtom assy auia de dizer era a primçipall causa de sua uijmda. e o 

3o que lhe depois emtemdia de dizer de praça, nom era senom cautcilosa- 
mente por milhor emcubrimento de seu propósito, ao duque prouue 
mujto de fazer seu rrequerimento. e assy emcaminhou como secreta- 
mente lhe desse sua audiemçia. E tamto que Fernam Fogaça foi com 
elle, disse. Senhor, uossa merçee poderá bem saber, como elRey Dom 

4. assi A. — 10. consselho A. — 14. dolanda A. — 24. embaixada A. — 25. comsira- 
ria A. — 27. muj A. 



-84- 

A,27.v, I Joliam de Portugall meu senhor, se faz ora prestes* com todos os senho- 
res de seu rregno pêra auer de fazer huú gramde feito por seruiço de 
Deos, e acreçemtamento de sua homrra. e esto he, que elle emtemde em 
este anno seguimte de hir sobre os jmmijgos da samta ffe. E que por 
quamto a elle prazeria mujto de sua uerdadeira emtemçom seer emcu- 5 
berta por mayor descuydo dos ditos jmfiees, que acordara de uos mam- 
dar desafiar, porque os que uissem assy este corregimento, nom tenham 
aazo de sospeitar a çertidom do que elle deseia. Porem uos rrogua que 
uos praza rreçeber assy este desafio com mostramça de o auer por firme, 
pêra cuja comfirmaçam façaaes alguúa maneyra de perçebimento. e lo 
que prazerá a Deos que lhe trazera alguúa cousa aa maão pêra acreçem- 
tamento de sua homrra, em que uos elle poderá amostrar o agradeci- 
mento de uossa boa uoomtade, e despesa que em uosso perçebimento 
fezerdes. O duque rrespomdeo que elle agradecia mujto a elRey de o 
querer fazer sabedor de tamanho segredo, o quall lhe certificaua que elle i5 
guardasse muj bem. e esto dezia o duque, porque Fernam Fogaça lhe 
comtou toda a uerdade do feito, e que quamto era ao desafio, que elle 

A,27,v,2 daria açerqua dello tall maneira, que* elle ouuesse por bem empreguado 
o atreuimento que em elle teuera. Tornousse Fernam Fogaça pêra sua 
pousada, e o duque ficou em seu paaço. e a cabo de dous dias lhe 20 
mamdou dizer que elle ouuesse assy paciemçia, por quamto elle queria 
mamdar chamar seus comsselheiros, em cuja presemça queria ouuir a 
sustamçia de sua embaxada. ca bem era de presumir que huú tara 
homrrado primçipe como era elRey Dom Joham, nom poderia a elle em- 
ular ssenam com cousa de gramde peso e autoridade. E porem mamdou 25 
loguo o duque fazer suas cartas pêra todos aquelles gramdes senhores de 
sua terra, per as quaaes lhes fazia saber como alli estaua huú embaxador 
delRey Dom Joham de Portugall. o quall lhe trazia huúa embaxada. 
porem que lhe mamdaua que trigosamente fossem com elle, por quamto 
nom emtemdia de ouuir delia nehuúa cousa fora de sua presemça. E em 3o 
esto fazia o duque duas cousas muy sages. a primeira fazia emtemder 
aaquelles que os tijnha em gramde comta, pois nom queria ouuir seme- 
Ihamte cousa ssenam em sua presemça. e a segumda fazia gramde ser- 
uiço a elRey, porque estamdo alli aquelles ao tempo de seu desafio seria 

A,28, r, I aazo de seer deuulgado* com mayor autoridade e firmeza. Depois que 35 
todo foi prestes, e o duque posto em seu estrado, fez chamar Fernam 
Fogaça, e lhe mamdou que dissesse todo o porque alli fora uijmdo. 

1 1 . algúa A. — 21. assi A — quanto A. — 23. embaixada A. — 27. embaixador A. — 
28. purtugall A — embaixada A. — 36. estrado I, estado A. 



— 85 — 

Senhor, disse elle, o mujto alto e mujto exçellemte primçipe elRey Dom 
Joham de Portugall meu senhor, uos emuia dizer per uirtude da carta de 
creemça aa uossa merçee apresemtada, que a elle sam per mujtas uezes 
feitas gramdes querellas e queixumes per seus súbditos e naturaaes de 
5 mujtos rroubos e dannos, que lhe os moradores de uosso senhorio ham 
feito e fazem cada huii dia, nom queremdo leixar passar liuremente as 
mercadorias dos ditos seus naturaaes per os mares e portos de uosso 
senhorio, e ajmda per outros de fora homde elles podem abramger, 
fazemdo rrepresarias emjustas e nom certas, sobre as quaaes sse ham 

10 socorrido aa uossa merçee pidimdouos dereito e justiça, pois aquelles 
danadores em o dito tempo eram uossos súbditos e naturaaes, e habitam- 
tes em os ditos uossos senhorios, e uos poderoso de os castigar e corre- 
ger. aa quall cousa nom quisestes proueer com a dita justiça, amtes 
posestes os negócios em dillaçoões * tramssitorias. Sobre o quall os ditos .A,28,r,2 

i5 denificados se tornarom aa sua merçee, nom achamdo em uos satisfaçam 
nem justiça, no que sse mostra uos dardes a eilo fauor e comssemti- 
mento. quamto mais ajmda que sua merçee ha por certo que uossos offi- 
çiaaes em uosso nome rreçeberam o dereito das mais das cousas, no que 
sse mostra uos dardes a ello comssemtimento e fauor. Porem sua alta 

20 senhoria queremdo prouueer sobre as ditas cousas, uos rrequere que lhe 
façaaes loguo emmemda delias cora perfeita satisfaçam, doutra guisa que 
elle ha por desafiada uossa pessoa e todas uossas terras e senhorio pêra 
fazer em ellas guerra per mar e per terra, e que porem uollo faz saber 
por seerdes auisado de sua parte como perteeçe aa sua alteza de uos 

25 auisar em semelhamte caso. Gramde queixume mostrou o duque ouuimdo 
assy aquella embaxada, e todoilos outros que eram com elle per seme- 
lhamte guisa ficaram muy espamtados. e emtam mamdaram a Fernam 
Fogaça que sse sahisse fora da casa pêra elies fallarem em aquelle feito. 
O duque mostraua todauia que nom podia auer nehuúa paçiemçia. dizem- 

3o do, que nom soomente elRey* de Portugall. mas que toda a Espanha nom A,28,v, i 
temia nehuúa cousa. E deuees de saber que esta desafiaçom trazia muy 
justa coor. porque certo era que os naturaaes daquelle duquado faziam 
muy gramdes rroubos no mar em os nauios destes rregnos. mas tamto 
aproueitou aquella embaxada, que jamais numca sse fezeram como sse 

35 amte faziam, primçipalmente porque o duque ficou mujto amigo delRey, 
por aquella fiamça que em elle teuera. Alguús dnquelles comsselheiros 
ouue alli, que disseram que seria bem de o duque emuiar a elRey sua 

17. ainda I, ajuda A. — 26. assi A — embaixada A. — 33. rregunos A. — 34. embaix.i- 
da A. 



— 86 — 

rreposta bramda. por quamto disseram elles. Senhor, este rrey de Portu- 
gall he huú homem forte e ardido e bem esqueemçado. e todos seus 
naturaaes som homeés que ham husado as armas, e estam agora brauos 
e argulhosos polias gramdes uitorias, que ouuerom comtra o rregno de 
Castella. e sobre todo elRey he homem que uio ja mujtas cousas, e 5 
posto que uos ora este rrecado assy emuiasse, certo he que ja teera todos 
seus feitos corregidos. e amte que uos uos possaaes perceber, uijnra sobre 
uos com todo seu poder, ca bem ha dous annos disse huú delles, que eu 

A,28, v,2 ouuy a huú mercador que uijnha de Bruges, que eram hy *nouas que 

elRey fazia rrepayrar sua frota, e mamdaua fazer outra de nouo com lo 
outros gramdes corregimentos de guerra, de que sse percebia callada- 
mente. e pois elle teem pazes feitas com Castella, bem sse moítra 
segumdo este rrecado, que aa uossa homrra se fazia toda esta festa. E 
por merçee nom queiraaes pollo mall que quatro ladroóes de uossa terra 
querem fazer, meter uossa pessoa e senhorio em proua nom certa, ca esta i5 
espiriemçia nom sse deue fazer senam sobre os derradeiros rremedios, pois 
em ella pemde a homrra e uida. Outros ouue hi que rrezoaram pollo 
comtrairo, mas o duque todauia nom podia abramdar de seu queixume. 
E emtom fez chamar Fernam Fogaça, e com sua comtenemça mujto áspera 
começou de lhe dar sua rreposta em esta guisa. Segumdo parece, este 20 
uosso Rey ficou assy posto em argulho dos boõs aqueeçimentos que ouue 
nos tempos passados comtra seus uizinhos. empero pois ssesudo he, 
deue de comsijrar, que nom morrem todos de sob huúa maça. e que 
em este meu senhorio assy ha homeés que sabem ho offiçio da cauallaria 
como no seu. e que nom teem menos uoomtade de me seruir, que os 25 

A,29,r, I seus teem a elle. Porem uos* lhe dizee que a mym praz mujto de sua 
uijmda, e que elle me achara prestes quamdo uier. e que lhe faço certo 
que o uaa rreçeber a quallquer lugar homde sua frota uier portar. E pêra 
esto lhe mamdou fazer sua cana de creemça, e desy mamdou que sse par- 
tisse quamdo quisesse. Mas depois que foi noute. mamdou o duque por Fer- 3o 
nam Fogaça muy secretamente damdolhe suas emcomemdas muy graciosas 
pêra elRey com outras mujtas pallauras de rregradiçimento. e sobre todo 
fezlhe merçee, e mamdou que sse tornasse mujto em boa ora pêra seu 
rregno. Nem Fernam Fogaça nom ficou tam simprez que lhe muy bem nom 
soubesse agradecer per suas boas pallauras polia parte delRey seu senhor, 35 
toda a boa maneira que elle em aquelle feito teuera. E assy fez fim de 
sua embaxada. 

6. assi A. — 7. ante A. — 21. assi A. — 24. assi A. — 29. desi A. — 36. assi A.' — 37 
embaixada A. 



-87- 

Como Fernam Fogaça tornou com a rreposta de sua embaxada, e 

como sse as cousas passaram açerqua do covregimento da frota em 

quamto elle fe{ sua uiagem. Capiíullo xxix. 

BEM mostrou o duque dOIamda que tijnha uoomtade de fazer prazer 
a elRey, porque tamto que seu embaxador Fernam Fogaça partio, 
elle logo fez saber a todollos lugares de seu senhorio, como per 
certos rrecados que auia* delRey de Portugall era necessário de seer prés- A, 29,r,2 
tes, por quamto o mamdara desafiar. E assy começou de sse correger 
dallguúas cousas, que em todo seu senhorio nom podiam em ali emtemder 

IO senam que todauia tijnham guerra aberta com o rregno de Portugall. 
ElRey depois que sse Fernam Fogaça partio, começou mujto mais trigo- 
samente de correger todallas cousas que lhe compriam pêra boom auia- 
mento de sua partida, mamdamdo logo fazer prestes certos escudeiros 
com suas procurações abastamtes, os quaaes mamdou per toda a costa 

i5 de Galliza e de Bizcaya, e a Imgraterra, e a Allemanha fretar nauios 
grossos, quamtos sse podessem achar, a quall cousa nom era senam 
huú manifesto pregom que corria per mujtas partes da christijmdade 
daquesta armaçom que elRey assy fazia, e porque as nouas de lomge 
sempre fazem a cousa mayor do que he, posto que o corregimento delRey 

20 fosse muy gramde, ajmda a fama era mujto mayor. E em sse corregemdo 
estas cousas e outras mujtas sobrechegou Fernam Fogaça com seu rre- 
cado, do quall mujto prouue a elRey. e mamdou que sse deuulgasse per 
todo o rregno que os primçipaaes capitaães desta armada auiam de seer 
os Iffamtes * Dom Pedro e Dom Hamrrique. mas nom quis que sse A,2o,v, 1 

23 deuulgasse determinadamente que auiam de hir sobre o duque dOlamda. 
empero que em sua uoomtade bem lhe prazia que o creessem assy todos, 
porque semelhamte maneira demcobrimento fazia parecer a cousa mais 
certa aaquelles que a presumiam. E ajmda que sse determinadamcnie 
dissesse, nam leixariam alguús de conhecer que a disposiçom daquella 

3o terra nom rrequeria taaes artefiçios, como elRey ao presemte mamdaua 
fazer, e comsijramdo em ello poderiam comgeitorar a outra mais çerla 
determinaçam. E em esto tijnha elRey maneira, que quamdo llie falla- 
uam açerqua daquella hida, assessegaua sua comtenemça per tall guisa, 
que lhes fazia emtemder que nom era aquelle o lugar certo pêra homde 

35 elle fazia seu perçebimento. Doutra parte mouia questoÕes e fazia figu- 

I. embaixada A. — 5. embaixador A. — 8. assi A. — 9. dalguCas A. — 10. rregnno A. 
— 17. xpijmdade A. — 18. assi A. — 23. rregnno A. — 26. assi A. — 34. logar A. 



ras, que queriam rrepresemtar a comquista daquella comarqua, homde elle 
deseiaua que sse presumisse. Ora que seria que estamdo elRey em 
estes çeumes daquelie segredo, sobrechegou a elle huú homem pêra 
arrecadar seus feitos, e trouxelhe a cidade de Cepta toda debuxada assy 

A,29,v.? perfeitamente como ella esta. e como quer que aquelle* homem seme- í> 
Ihamte emtemçom nom trouuesse de sospeitar alguúa cousa daquelie 
segredo, elRey foy em gram trabalho amtre ssi meesmo, pemssamdo que 
sua uoomtade era descuberta per prosumçom dalguús, a quall mouera 
aaquelle homem de lhe trazer assy aquella figura, pareçemdolhe que lhe 
prazeria com ella segumdo o deseio que tijnha. Empero elRey teue tall lo 
auisamento ao tempo que lhe assy aquello foi apresemtado, que nom fez 
mostramça de nehuij comtemtamento, nem ajmda segumdo crcemos fez 
nehuúa comta de semelhamte figura, amte a menos preçou de todo. Bem 
poderemos certamente emtemder, que a uoomtade de Deos era dem- 
caminhar todauia como elRey ouuesse a uitoria daquelie feito, quamdo i5 
aquelle simprez homem fora de nehuúa presumçom que a semelhamte 
negocio tamgesse, mouido per graça espiçiall, a quall elle nom conhe- 
cia nem sabia, lhe apresemtaua assy aquella figura, per que mais ligei- 
ramente podesse tirar alguúas duuidas, sse as em sua uoomtade tijnha 
açerqua da comquista daquella cidade. Outrossy depois do acabamento 20 
daquelles comsselhos, determinou elRey como toda a gemte da comarqua 
da Beyra e Trallos Montes e damtre Doyro e Minho, embarcasse na 

A,3o,r, I cidade do Porto. * e mamdou ao Iffamte Dom Hamrrique que sse fosse aa 
comarqua da Beyra, e que fezesse ajumtar todollos coudees e anadees, 
assy daquella comarqua como da outra de Trallos Montes, e que per 25 
seus liuros fezesse apurar toda a gemte que fosse pêra seruir, damdolhe 
os quadernos dos alardos que ja amte desto mandara fazer, os quaaes 
em ssi tijnha Gomçallo Louremço como dito he. E per esta meesma 
guisa mamdou ao comde de Rarçellos que teuesse carrego da comarqua 
damtre Doyro e Minho. E a gemte da Estremadura, e damtre Tejo e 3o 
Odiana, e do rregno do Algarue determinou que embarcasse na cidade 
de Lixboa sob capitania do Irtamte Dom Pedro, ao quall leixou emcarre- 
guo da apuraçam das gemtes destas três comarquas per a guisa que a 
tijnham seus jrmaãos das outras. E porque os uassallos e toda a outra 
gemte que auiam dauer comtia e solido, podessem auiar milhor seu corre- 35 
gimento, mamdou que lhes paguassem as ditas comtias e solido. E 
mamdou outrossy ao Iffamte Duarte seu filho, que teuesse por elle emtei- 

4. assi A. — 8. prosunçom A. — 9. assi A. — 11. assi A. — 18. assi A. — 20. outrossi 
A. — 25. assi A. — 37. outrossi A. 



ramente carrego e rregimento da justiça e da fazemda de todo ho rregno. 
E era emtom o Iffamte Duarte aaquelle tempo que lhe esto foi cometido 
em hidade de uijmte e dous annos. e porque estes dous* trabalhos som A,3o,r,3 
muy gramdes, e elle era homem mamçebo, e nom os auia acustumado, 
i quamto mais que os tomou com muy gramde cuidado, poemdo em elles 
gram dilligemçia. ca mujto cedo se leuamtaua da cama, e ouuia suas 
missas, de guisa que a pouco espaço depois de soll saydo era ja na rre- 
llaçom, homde estaua comtinuadamente ata as homze e doze oras. e 
loguo como acabaua de comer, daua audiemçias muy gramde espaço, e 

IO sem filhar gramde rrepouso tornaua a desembargar pitiçoões ou proueer 
feitos da fazemda, de guisa que pêra seu descamsso lhe ficaua muy pe- 
quena parte da noute. O que foi causa per que sse geerou em elle doemça 
de humor menemcollico. a quall se acreçemtaua em elle ajmda mujto 
mais comtinuamdo em ello, seemdo homem mujto gracioso e mujto ma- 

iS uioso de comdiçom, que numca soube a nehuú homem dar maa reposta, 
e aquella door segumdo sua naturali propiedade he anojarsse da gemte, 
e querer sempre apartamento. Eram em aquelle boõ primçipe duas muy 
gramdes pelleias. porque per sua comdiçom queria estar amtre a gemte, 
e ouuir graciosamente seus rrequerimentos. e aquella triste einfirmidade o 

20 costramgia a auorreçer todas aquellas cousas. * Empero tamta era a uir- A,3o,v, i 
tude e boomdade em elle, que uemçia a malldade da door, e seguia sua 
boa natureza e comdiçom, de guisa que de muy poucos homeés era conhe- 
cido que em elle tall padiçimento auia. Por certo diz o autor, gram 
espramdiçimento fazia no mundo tamta bomdade e uirtude de primçipe, 

25 da quall me aparto dollorosamente leixamdo de fallar em ella por tornar 
aas outras cousas, ca por çertó bomdades dos homeés daquelle tempo 
eram nada em comparaçom da sua. Mas do marauilhoso rremedio que 
elle achou pêra sua cura, seria proueitoso a quallquer que semre alguú 
padiçimento desta emfirmidade, se leesse per aquelie liuro que elle compôs 

3o que sse chama ho liall comsselheiro, homde achara o rremedio daquella 
cura compridamente escprito aos uijmte e três capitullos. E assy forom 
rrepartidos os emcarregos do rregno per os Iffamtes e comde de Barçe- 
llos. c a elRey soomente ficou cuidado de suas artelharias e armas com 
todallas outras cousas, que perteeçiam pêra auiamento de sua frota, e 

35 pêra sse estas cousas milhor poderem emcaminhar, foisse elRey chegamdo 
comtra a cidade de Lixboa, pêra dalli mamdar mais ligeiramente perceber 
todas suas cousas. 

4. mancebo A. — i3. a I, o A. — 18. per I, a A. — 24. mumdo A. — 3o. ho liall] holl- 
tall A, o Leal I. — 3 1. assi A — foram A. 



— 90 



A,3o,v,2 Como elRey escpreueo aos fdallgiios que sse fedessem prestes pêra 
hirem com seus filhos, e do gramde trafego que emtom era no rregno 
açerqua daquelle corregimento. Capitullo xxx. 



01 



UEM poderia aaquelle tempo fallar em outra cousa senam em armas 
e em perçebimento de guerra. Ca loguo elRey escpreueo a todo- 5 
lios senhores e fidallgos e liomeês de comta suas cartas de perçe- 
bimento. nas quaaes lhe fazia saber como elle por seu seruiço e homrra 
do rregno, tijnha hordenado demuiar seus filhos .s. o Iffamte Dom Pedro 
e o IlTamte Dom Hamrrique por capitaaes de sua frota pêra o seruirem 
no que elle mamdasse, com os quaaes lhe prazia que fossem aquelles a lo 
que elle assy escpreuia. porem que lhes mamdaua que sse fezessem logo 
prestes pêra hirem com elles em a dita frota, e lhe fazerem primeira- 
mente saber as gemtes com que o emtemdiam de seruir, pêra lhe desem- 
bargar seus dinheiros e hordenados pêra corregimento seu e das ditas suas 
gemtes. E com esto era o feruor tam gramde no rregno, que em todo- i5 
lios lugares as gemtes nom trabalhauam em ali. porque huús amdauam 
em alimpar suas armas, outros em mamdar fazer bizcoitos e sallguar 

A,3i,r, I * carne e mamãjmentos, outros em correger nauios e aparelhar guarniçoões, 
de guisa que ao tempo da necessidade nom sse achassem dalguúa cousa 
falleçidos. Mas primçipallmente era este trafego na cidade de Lixboa e 20 
do Porto, porque comuiJmente nom auia hi alguú que fosse liure deste 
cuydado. e tamta e tamanha era a rreuollta no corregimento destas 
cousas, que quamdo fazia tempo callado, claramente ouuiam o arroydo 
per muy gram parte dos lugares de Ribatejo. E em uerdade era fre- 
mosa cousa de ueer. ca per toda aquella rribeyra jaziam naaos e nauios, 25 
nos quaaes de dia e de noute amdauam callafates e outros mesteiraaes, 
que lhe rrepayrauam seus falliçimentos. Doutra parte jaziam mujtos bois 
e uacas decepadas, e alli mujtos homeés huús a esfollar, e outros a cortar 
e sallguar, outros a meter em tonees e botas em que auiam dhir. Os 
pescadores e suas molheres tijnham cuidado de abrir e sallgar as pesca- 3o 
das e caçoões e rrayas, e semelhamtes pescados, dos quaaes todollos 
lugares em que o soll tijnha mayor assessego eram cheos. Os offiçiaaes 
da moeda de dia e de noute numca seus martellos estauam quedos, per 

A,3i,r,2 tall guisa que ajmda que* huú homem braadamdo dissesse alguúa cousa 

amtre aquellas fornaças, escassamente podia seer emtemdido. E os teno- 35 

3 da quell A. — 11. assi A. — 14. e] om A, e I. — 17. alimpar] e correger add. na 
margem A. — 29. de hir A. — 32 luguares A. 



— 91 — 

eiros nom eram pouco trabalhados em fazer e rrepairar as uasilhas pcra 
os uinhos e carnes e outros mamtijmentos. alfayates e tosadores em apa- 
relhar panos e fazer liurees de desuairadas guisas, cada huú segumdo lhas 
o senhor delias mamdaua fazer, carpemteiros em emcaixar bombardas e 
5 troõs e emderemçar todallas outras artelharias, as quaaes eram mujtas 
e gramdes. cordoeiros em fazer guimdaressas e estremques e caabres 
e outra mujta cordoalha de linho, que faziam assy pêra os nauios da terra 
como pêra os de fora, ca todo se rrepayraua em este rregno. Quem 
seria aquelle que destimtamente podesse comtar os trabalhos, que auia 

10 amtre aquellas gemtes. ca nom era alguij que fosse escusado daquelie 
emcarr^go. ca posto que os uelhos per rrezom de sua hidade soubessem 
que auiam de ficar, nom tijnham porem pequeno cuidado descolldrinhar 
quall seria certamente a parte, pêra homde aquella frota auia de fazer 
sua uiagem. e sobre esto tijnham gramdes departiçoões, ca este offi- 

t5 cio primçipalmente leixão a natureza aos uelhos, por rrezom das mujtas 

cousas que *uiram e sabem, e porque ssom ja liures das paixoões, as A,3i,v, i 
quaaes aos mancebos nom leixam liure poder pêra cuidarem dereitamente 
as cousas, e como quer que os seus cuidados fossem tam agudos, nom auia 
hi porem nehuú que podesse determinar a çertidom daquelie feito. Ca 

2o huús diziam que elRey mamdaua a lífamte a Imgraterra pêra casar em 
aquelle rregno muy homrradamente. e que hiam seus jrmaãos com ella 
com aquelle poderio de gemtes e corregimentos de guerra, pêra ajudarem 
elRey seu primo a comquistar o rregno de Framça. Outros diziam que 
hia sobre o rregno de Naapuli, porque a rrainha estaua uiuua, e que 

25 escpreuera a elRey que emulasse ta huii de seus filhos pêra casar com 
ella, e rreçeber o senhorio do rregno. e que desta meesma uiagem 
auiam de fazer semelhamte no rregno de Cezilia. e que por isso em- 
uiaua elRey assy aquelles dous filhos por rrezam dos dous casamentos. 
Outros disseram que elRey no começo daquella demamda que ouuera no 

3o rregno de Castella, que prometera dhir em rromaria aa casa samta de 
Jerusalém, por tall que o Senhor Deos lhe desse uitoria comtra seus em- 
mijgos. e que por quamto lhe o Senhor Deos dera assy aquelle * estado, A,3i,v,2 
e os de seu comsselho nom eram em acordo que elle fosse fora de seus 
rregnos, que emuiaua la seus filhos assy poderosamente por duas rrazoões. 

35 A primeira por comprirem a rromaria por elle, e poderem passar per 
todollos lugares sem rreçeo de nehuúa pessoa, dizemdo ajmda que quamdo 

2. e tosadores I, tosadores A. — 4. em I, om A. — 7. assi A. — 20. Iffante A. — 
25. elRej A. — 27-28. enuiaua I, emuiara A. — 28. assi A. — 3 1 . jhrim A. — 32. quanto A 
— assi A. — 34. assi A. — 36. luguares A. 



— 92 — 

alia fora o comde de Barçellos, que esta fora a primçipall cousa de sua 
hida .s. que o mamdara seu padre com emtemçom de ueer aquella samta 
cidade e os portos e amcoraçoões que auia em este mar medeoterrano 
naquelle porto de Jafta omde faz sua fim. e esto he quamto a este mar 
que emtra pollo estreito de Cepta. E a segumda era por trazerem 5 
aquelie samto sepulcro com todallas outras samtas rreliiquias que sse 
podessem achar em aquella cidade e termos delia. Outros diziam que 
auiam -dhir sobre a cidade de Bruges por certas rrazoões que allegauam 
que elRey lijnha de o fazer, as quaaes aquy nom declaramos por extemsso, 
porque ssom tamtas e com tamtas particuUaridades sem proueitoso efleito, lo 
que teuemos por milhor de as leyxar, por dar lugar aas outras cousas. 

A,32,r, I Outros disserom que os Iffamtes todauia auiam dhir * sobre o duque 
dOlamda, per a guisa que ja ouuistes. ca posto que aquelie segredo assy 
emfimgidamente fosse callado, aquelles que hiam com Fernam Fogaça o 
comtauam a seus amiguos. e quamto lhes elles mais emcomemdauam i5 
que fosse em segredo, tamto o elles mais asinha descobriam, porque aquella 
cousa he mais asinha quebramtada, que em ssi traz mayor força de deflesa, 
quamdo per medo dalguúa penna se nom leixa de quebramtar. Disse- 
rem ajmda alguús outros, que por quamto em Auinham aaquelle tempo 
estaua ho amtipapa que sse chamaua Clemente septimo, ao quall obedecia 20 
toda a Espanha, afora este rregno de Portugall. que elRey como fiell e 
cathollico christaão, que sempre teuera com ho papa de Roma, teemdo 
uerdadeiramente que aquelie era o dereito uigairo de nosso Senhor Deos 
em lugar do apostollo sam Pedro, e uerdadeiro pastor na samta jgreia, 
emuiaua seus filhos queremdo desfazer tamanha diuisom como estaua aS 
amtre os christaãos. e que os Iflamtes hiam assy poderosamente, porque 
sse per ueratura alguijs daquelles seus súbditos quisessem tornar a ello, 

A,32,r,2 que os Iffamtes leuassem tamanho poder que lho * podessem comtrariar. 
Outros disserom que aquella frota primçipallmente hia sobre Normamdia, 
porque elRey achaua que tijnha dereito em ella, por rrazom delRey Dom 3o 
AfFomsso que fora uisauoo de seu padre elRey Dom Pedro, o quall fora 
comde de Bellonha. Outros fallauam outras mujtas cousas tam desuay- 
radas que seriam lomgas descpreuer, porque he determinado na samta 
escpritura, que homde uerdade sse escomde, alli sse multiplicam mujto 
mais pallauras. E como quer que assy estes desuairos e outros mujtos 35 
auia amtre elles, nom era porem alguú que podesse certamente nem 
assy apalpando fallar na cidade de Cepta. soomente quamto achamos que 

8. de hir A. — i3 assi A. — 17. da A. — i6. assi A. — 29. disseram A. — 35. assi A. 
37. assi A. 



-93- 

huú judeu seruidor da Rainha Dona Fillipa que chamauam Yuda Negro, 
que era gramde trobador segumdo as trobas daquelle tempo, em huQa 
troba que emuiou a huú escudeiro do Iffamte Dom Pedro que chamauam 
Martim Affomsso da Atouguia, comtamdolhe as nouas da corte, disse todas 
estas cousas que dissemos e outras mujtas, amtre as quaaes no derra- 
deyro pee da quarta troba disse, que os mais ssesudos emtemdiam que 
elRey hiria sobre a cidade de Cepta. Mas esto emtemdiam que elle nom 
* soubera tamto por nehuú sinall certo que uisse, soomente per juizo des- A,32,v, i 
trellomia em que elle mujto husaua. 



,0 Como em Castella ouueram estas nouas, e do comsselho que açerqua 
dello teueram, e como determinaram demuiar a elRey seus embaixa- 
dores pêra Jirmarem as pa^es. Capitullo xxxj. 

TODOLLOS homeés segumdo semtemça do philosofo no primeiro liuro 
da tramsçemdemte philosofia, naturallmente desciam saber, e aques- 
te naturall deseio nos mostra o çeguo, a que nosso Senhor Jesu 
Christo pregumtou que era o que deseiaua. rrespomdeo que lhe desse 
uista, nom determinamdo que uisse huija cousa nem outra, porque na 
samta escpritura por saber ueer sse poõe, segumdo disse o propheta no 
quarto uerso do oitauo salmo. Porque eu uerey os teus çeeos obra dos 

20 teus dedos, etc. mostramdo que aquella uista era a perfeita sabedoria, 
que elle emtemdia de percalçar depois do trespassamento desta uida. 
Mas sobre esta semtemça do philosofo sse faz huú fremoso argumento, 
sse per uemtura este deseio, a que assy nos moue a natureza, he quamto 
aas cousas que perteeçem a alma, sse quamto aas do corpo, sobre o 

25 quall argumento breuemente emtemdamos que em ambas ha lugar, 

teemdo cada* huúa parte seus graaos apartados, cuja declaraçom pollo A,32,v,2 
presemte nom he pêra nosso processo. E fallamdo deste deseio que per- 
teeçe aas cousas do corpo, saibamos que este deseio he partido em quatro 
partes, porque huú deseio he aqueile que homem deseia de saber nom 

3o soomente a outra fim, senam por filhar em ssi huú desemfadamento que 
o emtemdimento rreçebe, quamdo ha perfeito conhecimento da cousa 
sobre que tem duuida, cuja experiemçia cada huú pode ueer cm ssi. 
ucemdo nouamcntc alguú homem ou molher que elle per uemtura conhece, 

I. rrainha A. — 5. muytas A. — 9. em A, de I. — 1 1-12. embaixadores A, emb;ixa- 
dores I. — i3. segundo A — phillosofo A. — 14. transçendemte A. — i5-i6. Jhu xpõ A. 
— 22. sentemça A — se A. — 23. se A — assi A — quanto A. — 25. ha] aa A. 



— 94 — 

mas nom he em certa nembramça domde nem de quamdo ha delle este 
conhecimento, e posto que lhe proueilo nem perda tragua, empero o 
emtemder naturallmente deseia chegar a esta sabedoria, e cobramdoa 
seemte foligamça. Outro saber he quamdo o homem apremde alguiia 
ciemçia, per cuja fim espera rreçeber homrra ou proueito. e quamdo a 5 
percallça, seemte foligamça por rrezam da homrra e do proueito, mas nom 
por outra fim. Outro saber he quamdo aiguii deseia saber alguúas 
cousas sotijs taaes que elle magina que poucos sabem, e quamdo as per- 
calça seemte lediçe possoymdo em ssi meesmo huú emtrimssico pra- 

A, 33,r, I zer, comsijramdo como elle he em* perfeito conhecimento daquello que lo 
poucos sabem. O quarto deseio de saber he quamdo homem deseia de 
saber aquellas cousas, de que nom he certo se lhe uijmra dano ou pro- 
ueito. e mujto mais ajmda trabalhem os emtendimentos por saber a çer- 
tidom daquellas de que certamente esperam rreçeber dano, que das outras 
de que sse segue proueito. ca soomente o temor he aazo de filharem os i5 
homeés comsselho. Cujo mouimento foi em alguús daquelles primçipaaes 
do rregno de Castella. ca ouuimdo as nouas como este feito creçia cada 
uez mais, teueram muy gramde cuidado de saber o primçipall mouimento 
delRe}^ mas este deseio nom era saluo por aquella derradeira rrezam 
que ja dissemos, temendo ho dano que lhe podia vijr, e diziam amtre 20 
ssi. Como pode seer que elRey aja de fazer armada nem tamanho 
ajumtamento de gemtes, pêra hir sobre o duque dOlamda, seemdo 
amtre elles tam poucas emjurias passadas, ca posto que o elRey assy 
mamdasse desafiar, seria a outra fim, mas nom ja porque a sua uerda- 
deira teemçom seia dhir sobre elle. E sobre, esta duuida alguús Genoe- 25 

A,33,r, 2 ses estamtes na cidade de Lixboa escpreueram a outros *seus parceiros 
estamtes em Seuilha, rrecomtamdolhe todo ho ardimento que sse trazia no 
rregno de Portugall acerca do auiamento daquella frota, e posto que 
sse alguúas cousas dissessem de desuayradas maneiras, os mais dos sse- 
sudos crijam que todo se fazia pêra hirem sobre a cidade de Seuilha. 3o 
porem que elles fossem auisados de tirarem de hi sagesmente suas mer- 
cadorias e cousas, de que emtemdiam rreçeber alguú dano em abati- 
mento de sua fazemda. E com estes rrecados e mujto mais com a pro- 
sumçom que sse fazia manifesta, se ajumtarom aquelles uijmte e quatro 
da quadra de Seuilha, e teueram sobre ello gramdes comsselhos. sobre 35 
os quaaes escpreuerom ao comsselho delRey .s. aa rrainha e a alguús 
outros gramdes senhores que eram com ella. por quamto o Iffamte Dom 

8-9. percalçani semtem A. — 23. assi A. — 25. de hir A. — 25-26. Jenoeses A. — 
28. purtugall. 



-95- 

Fernamdo era ja rrey dAragam, e estaua em seu rregno proueemdo sua 
terra. Chegou assy este rrecado a Pallemça homde elRey estaua, sobre 
o quall se fallarom mujtas cousas, amtre os quaaes fallou prímçipallmente 
huú bispo de Aauila, a que aquelle rrecado de Seuilha em espiçiall fora 
5 emcomemdado, por quamto elle era naturall daquella cidade, e esto 

fallou elle assy, porque mujtos daquelles do comsselho deziam que * nom A, 33,v, i 
era pêra fallar em semelhamte cousa, que bem era de presumir que sse 
elRey Dom Joham teuera uoomtade de cometer semelhamte cousa, que 
nom mamdara la seus embaxadores rrequerer paz. Senhores, disse o 

IO bispo, mujtas mais uezes dam as cousas comsselho aos homeés, do que 
os homeés dam aas cousas, e sobre todo a experiemçia que he meestra 
de todallas cousas nom certas, e porem o que os de Seuilha rrequerem 
nom he sobre fumdamento uaão, ca nom ha tam simprez em este rregno, 
que nom semta que semelhamte ajumtamento, quall se faz no rregno de 

o Portugall nom seia mujto pêra temer e arrecear, ca nom tam soomente nos 
outros que somos seus uezinhos, mas ajmda os alomguados de seu rregno 
pem.ssam semelhamte cousa, e comsijram bem ho dano que sse lhe dello 
pode seguir, ca aquelle he auido por prudemte e ssesudo que comsijra 
as cousas amte que uenham. ca por jsso disseram os uelhos amtijgos que 

20 ho homem percebido he meo combatido, e aquelle boom caualleiro Dom 
Joham Manuell por tamto pos naquelle liuro que fez, que sse chama 
o comde Lucanor, huíi exemplo que acomteçeo a amdorinha com as 
* outras aues, que faz mujto a este propósito. Certo he que o rregno de A,33, v,2 
Portugall he cercado todo de mar de huúa parte, e da outra o cercam 

25 estes nossos rregnos. ca ajmda ata agora nom sse acha que alguú dos 
rrex de Portugall teuesse outra comquista, em que tamto tempo nem tam 
gramdemente trabalhasse como com a guerra destes rregnos, leixamdo 
aquelle primeiro rrey, que sse ocupou em despelar mujtos daquelles luga- 
res que tijnham os mouros, nem ajmda aquelle nom foi de todo liure, 

3o ca mujtas cousas achamos em as crónicas amtijgas que sse passaram 
amtre elle e este nosso rregno. Mas pêra que fallo eu em estas cousas, 
abasta o que ja disse .s. que elles nom tem com quem ajam comtemda 
senam comnosco. pois como pemssaremos que elRey agora aja de fazer 
armada pêra hir buscar nouas comquistas nom auemdo nehuúa causa pêra 

35 ello. He boom pêra crcer aquelles que nom tem ssiso, que elRey aja de 
fazer huúa armada, em que ha quatro annos que emtemde e despemde 
dinheiro, e nom tam soomente aballa pêra ella as cousas de seus rregnos, 

1. daragom A. — 2. assi A. — 3. os I, as A. — 6. assi A. — 9. embaixadores A. 



-96- 

mas ajmda mamda per todallas partes da chrijstamdade buscar nauios e 
A,34,r. . armas pêra hir * sobre o ducado dOlamda. Por certo as jmmijzades nem os 
danos nom ssam passados amtre elles tam gramdesnemtaaes, que por rre- 
zam delles sse ouuessem de mouer tamanhas cousas, nem ajmda elRey he 
homem que por semelhamtes cousas cometidas por pessoas uijs e de tam 
pequeno preço, ouuesse de mamdar dous seus filhos fora de sua terra com 
tamanho poder, mas por certo o feito que assy amda callado, alguúa gramde 
cousa ha de parir. E os Genoeses estamtes em Lixboa que semeihamte 
escpreueram, alguúa cousa conhecem e sabem, porque fezerom tall auiso a 
seus amigos. Porem meu comsselho he que em quamto a cousa assy esta, lo 
que a cidade de Seuilha seia logo auisada, e os muros rrepayrados e os 
almazeés prouijdos. e que as portas seiam muy bem fechadas, e as chaues 
emtregues a homeês fiees. e que seia mamdado a todollos fidallgos e 
caualleiros comarcaãos daquella cidade, que sse uenham logo pêra eila. 
e façam comprir e guardar todas estas cousas, como semtirem que per- li 
teeçe pêra seguramça da dita cidade, e proueiam todallas galees e nauios 
que esteuerem nas taraçenas, que lhe nom falleça nehuúa cousa pêra 
A,34,r,2 sse aproueitarem delias* quamdo comprir. Depois que o bispo acabou sua 
falia, estaua hi amtre aquelles senhores o adiamtado de Caçorlla, que era 
huú fidallgo mujlo ssesudo, posto que mujto uelho nom fosse, o quall se 20 
estaua sobrrijmdo em quamto o bispo fallaua. He bem disse elle, que 
nos ajamos de tomar o temor por todollos outros, a que per uemtura 
ma3'or parte desto perteeçe. Como poderiamos nos fazer nehuij moui- 
mento pêra nos percebermos, que nom fezessemos muy gramde jmjuria 
a elRey de Portugall teemdo com elle nossas pazes e liamças firmadas. 25 
e auemdo hi tam cheguado diuedo, como ha amtre nosso rrey e seus 
filhos, e seemdo elle huij primçipe tam gramde e tam nobre, e que aja- 
mos de sospeitar delle que aja de quebrar sua uerdade e sua fte, homde 
numca sse acha que semeihamte fezesse. E o que os Genoeses de Lix- 
boa escpreueram nom he cousa rrezoada, que sse por ello aja de mouer 3o 
o comsselho delRey. ca o feito daquelles nom he outra cousa senam 
saluar aquelle dinheiro que teem, porque em elle esta toda a sustamçia de 
sua uida e homrra. Porem o que a mim parece açerqua dello, he que 
nos nom façamos mudamça açerqua de nehuúa cousa, per que sse possa 
A,34,v, I * sospeitar que nos teemos rreçeo de cousa alguúa, que sse naquelle rregno 35 
faça. mas que ajamos nossas pazes por boas e firmes como he rrezam, 
que numca Deos quisesse que a uerdade sahisse em semeihamte caso 

I. xpimdade A. — 8. em Lisboa I, om A. — 10. assi A. — 19, antre A. — 20. fidall- 
guo A. — 22. alamos A. — 23. perteemçe A. — 25. purtugall A. 



— 97 — 

damtre os senhores e primçipes. ca sse assy fosse, gramdes malles se 
rrecreçeriam dello. E porque ajmda esta cousa fique mais firme e mais 
segura, podemos a elRej^ emuiar nossos embaxadores pêra tomarem 
juramento a elRey segumdo ficou determinado, quamdo seus embaxadores 
5 daqui partiram, e este mouimento será justo e honesto, e podere- 
mos per elie fazer dous gramdes proueitos. O primeiro será que sse 
elRe}' jurar as pazes como he de creer que faça, ficaram nossos feitos 
todos seguros, e sse per uemtura eile teem em uoomtade de fazer outra 
cousa, loguo poera alguúas escusas ao nam fazer, do que sse eile nom 

10 pode escusar que nom fique perjuro e emfamado. e nos poderemos 
emtom emtemder por quallquer pequena duuida que elie ponha, que 
todo seu fumdamento he pêra nos empeeçer. e emtom teeremos rre- 
zom de nos percebermos descubertaraente e sem nehuú prasmo. Alli 
estauora em aquelle comsselho muy gramdes* senhores, ca estaua hi A,34,v,2 

i5 o duque dArjona, e o meestre de Callatraua, e o prioll de sam Joham, 
e o comde de Benauemte, e o arcebispo de Tolledo, e o bispo de 
Burgos, e huú adayam de Samtiago que era muv gramde doutor, e assy 
outros mujtos doutores e caualleiros, que alli leixara elRey Dom Fernamdo 
pêra determinarem as duuidas, que sobreuiessem ao comsselho delRey 
seu sobrinho, e estes todos fallaram amtre ss}', auemdo seus debates 

20 açerqua daquelle feito, e finallmente acordarem que o comsselho do adiam- 
tado era boom. e porem mamdaram loguo fazer a embaxada, e emiegeram 
pêra ella ao bispo de Momdanhedo e Dia Samchez de Benauides. 



Como aquelles embaxadores iiieram a Portugall, e como deram 
aquella embaxada a elRey, e da rreposta que ouuerom, e como 
Dia Samchei morreo, e como sse o bispo tornou pêra sua terra. 
25 Capitullo xxxij. 

NOBREMENTE mamdou a rrainha correger aquelles embaxadores, assy 
pollo que perteeçia aa exçellemçia do estado de seu filho, como 
por serem os primeiros que uieram a este rregno depois da morte 
3o delRey Dom Hamrrique. Os quaaes partidos* de Castella traziam em A,35,r, 
ssi muy grande duuida de acabarem o porque uijnham, tamanho era o 
espamto que lhe poseram açerqua do mouimento delRey comtra a cidade 

I . assi A. — 3. embaixadores A. — 4. embaixadores A. — 11. duueda A. — 17. assi A. 
— 19. duuedas A. — 21. embaixada A. — 23. embaixadores A — purtugall. — 24. em- 
baixada A. — 27. embaixadores A — assi A. — 2!^. perteemçia A. 
i3 



de Seuilha. a quall openiom lhes fazia pemssar que seriam mall rreçebi- 
dos e pior agasalhados. Empero acharom o feito mujto pollo comtrayro 
do que o elles esperauam. ca tamto que elRey ouue nouas de sua uijmda. 
mamdou loguo huú escudeiro ao estremo que os fezesse muy bem rre- 
çeber em todoilos lugares do rregno por homde elles uiessem. O quall 5 
escudeiro leuaua poder abastamte delRey, per que lhe fezesse dar abasta- 
damente todallas cousas que lhe fezessem mester, sem lhe seer leuado por 
ello nehuú preço de dinheiro soomente todo aa custa delRey. E quamdo 
assy aquelles embaxadores uiram semelhamte começo, prouuelhes mujto, 
do quall loguo mamdaram rrecado aa rrainha e aos de seu comsselho, lo 
fazemdolhe saber aquelle boom gasalhado, que lhe elRey de presemte 
mamdaua fazer. Mas quamdo elles chegarom açerqua de Lixboa, homde 
eIRey estaua, alli poderam elles de todo conhecer quamto a sua primeira 

A, 35,r,2 openiom * jazia em erro. ca mamdou elRey pêra elles muy gram parte dos 

boõs que auia em a cidade, e tamto que forom amte elle, rreçebeos muy i5 
graciosamente de sua pessoa, do que elles sobre todo forom mais com- 
temtes. Senhor, disse o caualleiro, elRey nosso senhor e a rrainha sua 
madre uos emulam mujto saudar, e o duque com todoilos outros de sua 
uallia se encomemdam em uossa merçee. e os outros fidallgos e cauallei- 
ros com toda a outra gemtilleza da corte emuiam beyjar uossas maãos e 20 
emcomemdar em uossa merçee. As quaaes emcomemdas assy dadas, 
forom rreçebidos per elRey com aquella mesura e cerimonia que comuij- 
nha a seu estado e boa uoomtade. E emtam lhe deram a carta de 
creemça, e lhe apresemtaram sua embaxada em esta forma. Muy pode- 
roso e sereníssimo primçipe, senhor elRey. o bispo de Momdanhedo e 25 
Dia Samchez de Benauides súbditos e naturaaes e feituras do mujto alto 
e mujto poderoso sereníssimo jllustrissimo primçipe, senhor elRey de Cas- 
tella e de Leom uosso sobrinho, nosso senhor, notificamos aa uossa mer- 
çee como amte a sua rreall magestade forom uossos embaxadores .s. 

.'^,35,v,i Joham Gomez da Sillua uosso alferez moor, e o doutor* Martim Dossem. 3o 
e o doutor Belleago, os quaaes com uossa autoridade e poder trautaram 
com a senhora rrainha e com elRey Dom Fernamdo, que emtoni era 
Iffamte, como tutores do dito senhor, pazes perpetuas firmes e ualledoyras 
pêra todo sempre amtre a sua rreal senhoria com todos seus rregnos e 
senhorios e terras, e uossa alteza com todos seus rregnos e senhorios e 35 
terras, sobre as quaaes forom feitos huús capituUos, em que emteira- 

I. pensar A. — 2. contrairo A. — 9. assi A — embaixadores A. — 16. foram A. — 
19. emcomendam A. — 21. emcomendar A — assi A. — 22. foram A. — 24. embaixada 
A. — 27. prinçipe A. — 29. embaixadores A. — 33. tetores A. — 34. antre A. — 36. foram A. 



— 99 — 

mente se comtem a forma das ditas pazes, e a maneyra como sse deuem 
firmar e guardar. E por quamto os ditos senhores tutores e curadores 
delRey fezeram juramento soUemne, segumdo pêra tall auto compria. e 
assy todollos outros primçipaaes daqueiles rregnos, passamdosse todo assy 
b em presemça dos ditos uossos embaxadores, segumdo dello tomaram 
suas escprituras pruuicas. os quaaes embaxadores, juraram outrossi em 
uosso nome e de uossos filhos, per uirtude e poder de uossas procura- 
çoões que pêra ello leuauam soffiçiemtes e abastamtes, ficamdo rresguar- 
dado aos ditos tutores de emuiarem ao diamte seus embaxadores, pêra 

IO seer tomado persoallmente o dito juramento* de uossa merçee, e assy de A,35,v,2 
todollos outros a que perteeçe semelhamte juramento. E porque depois 
dos ditos trautos passados, se seguiram outros negócios naquelle rregno, 
primçipallmente os feitos delRey Dom Fernamdo, nom poderam emuiar 
aa uossa merçee rrequerer o dito juramento. Porem porque as ditas 

i5 pazes seiam firmes e rratas, elRey nosso senhor per autoridade da rrainha 
sua madre e dos outros de seu comsselho, nos mamdou como seus 
embaxadores que firmássemos o dito juramento, e lhe leuassemos dello 
nossas escprituras pruuicas, nas quaaes sse comteuesse todo o auto que 
sse açerqua dello passasse. Ora mujto alto e mujto poderoso primçipe, 

20 aa uossa senhoria praza emcaminhar como o dito juramento seia feito, por 
tall que as ditas pazes se guardem e firmem, segumdo per uossos emba- 
xadores foi trautado e firmado. Acabada assy a sustamçia daquella em- 
baxada disse elRey. Como quer que em todallas outras cousas os gram- 
des primçipes tenham maneira de rretardarem alguú pouco suas rrepos- 

25 tas, pêra auerem rrezam de sse comsselhar. quamto açerqua desta pre- 

semte mujtos dias ha* que eu tenho auido meu comsselho. ca por tam A, 3r',r, i 
firme tiue e tenho quallquer cousa, que aquelles meus embaxadores em 
meu nome trautassem, como sse a eu per minha própria pessoa fezera. 
E por tamto me praz mujto de fazer o dito juramento, per a guisa que 

3o me per uos he rrequerido. e daqui em diamte trautar com todallas cou- 
sas de meu sobrinho per aquella guisa que trauto com as minhas, tecmdo 
seus naturaaes com os meus aquella maneira que he rrezam. E quamto 
ao juramento disse elRey, que pêra sse fazer como compria, que elle 
mamdaria chamar alguQs dos primçipaaes do seu rregno que alli nom 

35 estauam. e que emtom emcaminharia como elles fossem despachados 
segumdo seu rrequerimento. E assy fezeram fim quamto em aquelle dia 

2. titores A. — 3. fizeram I, fazerem A. — 4. assi bis A. — .'>. embaixadores A. — 
6. embaixadores A. — 9. titores A — diante A — embaixadores A. — 10. assi A. — 
12. rregnno A. — 17. embaixadores A. — 21-22. embaixadores A. — 22. assi A. — 22- 
23. embaixada A. — 27. embaixadores A. — 36. assi A. 



das cousas suso ditas. E os embaxadores ouueram nobres pousadas, e 
sse amte eram bem agasalhados e prouijdos das cousas que lhe faziam 
mester, dalli auamte ho forom mujto milhor. ca elles eram em aquella 
cidade, homde a elRey uijnham mujtas cousas deleitosas espiçiallmente 

A, 36 r,2 pescados frescos, de que elles em * allguijas partes de seu rregno som mall 5 
prouijdos. elRey tijnha maneira de os mamdar abastar de todo. E dcsy 
quamdo foi tempo. elRey e seus filhos fezeram seu juramento assy e per 
aquella guisa que fora feito em Castella, de que os ditos embaxadores 
tomaram seus estormentos e escprituras, segumdo semtiram que compria 
pêra seguramça de seus feitos. Mas porque aalem da dita embaxada lo 
elles traziam outras alguGas cousas que auiam de rrequerer. assy como 
tomadas dalguús nauios, ou danos que sse sempre fazem amtre os uizi- 
nhos dos extremos, foilhes necessário destarem ajmda alguús dias na 
corte pêra rrequererem aquellas cousas, no quall espaço se seguio que 
aquelle caualleiro Dia Samchez de Benauides adoeçeo. e como quer que i5 
per mamdado dclRey fosse muy bem curado, a emfirmidade era tall de 
que per necessidade ouue de fazer fim de sua uida. da quall cousa a 
elRey desprougue. e assy lhe mamdou fazer muy homrradas eyxequias. 
e aa sepultura forom a mayor parte dos boõs homeés que auia naquella 
cidade per mamdado delRey. E assy dello como de todo outro gasalhado 20 

A,36,v, 1 que lhe elRey mamdou fazer, o bispo foi muy comtemte. * e assy louuaua 
mujto elRey per todollos lugares per homde hia, quamdo se tornou pêra 
sua terra, ca loguo em breue tempo foi despachado. E auees de saber 
que depois que estes embaxadores emtraram em Portugall, ataa que sse 
o bispo tornou, sempre forom mamteudos elles e seus homeés e bestas aa 25 
custa delRey, assy gramdemente como elle custumaua de o fazer. E em 
fim forom dadas ao bispo gramdes dadiuas de joyas douro e de prata e 
panos e penas de gramde uallia. as quaaes com outras cousas forom 
aazo, per que aquelles seruidores que uieram com os ditos embaxadores^ 
comtra sua natureza louuauom mujto a gramde manifiçemçia delRey. 3o 



I. embaixadores A. — 4. deleitosas] e deleitosas A. — 6. desi A. — 7. assi A. — S. em- 
baixadores A. — 10. embaixada A. — 11. assi A. — 18. assi A. — 19. foram A. — 20. assi 
A. — 21. mandou A — comtente A — assi A. — 24. embaixadores A — purtugall A — 
2G. assi A. — 27. foram A. — 28. e penas] om I — foram A — 29. embaixadores A. 



CotJio elRey dAragam emiiioii seus embaxadores a elRey, e da 

rreposta que leuarom, e como em este tempo uieram algiiús estram- 

geiros offereçersse a elRey, e da maneira que com elles teue. 

Capitullo xxxiij. 

5 "r~\0's que ja dissemos dos embaxadores de Castella, e de todo o que 

I — ^ sse seguio em sua embaxada, digamos agora todolios outros em- 

-*- baxadores, que uieram a elRey por rrezam daquella armada que 

assy * fazia, ca a fama delia como ja dissemos, era muy gramde, que soaua A,36,v, 2 

per todallas partes, e espamtaua mujto os coraçoões dos homeés espiçiall- 

10 mente daquelles que eram mais cheguados a este rregno. E foi assy que 
tamto que em Castella foi determinado que os embaxadores uiessem a 
Portugall, logo alguús daquelles senhores do comsselho escpreueram a 
elRey Dom Fernamdo fazemdolhe saber todo o feito como passara, ca 
posto que elle esteuesse assy alomguado, nom sse fazia nehuiia cousa de 

i5 peso em Castella que a elle nom soubesse, e esto era porque os mais 
daquelles eram sua feitura, e assy como lhe fezeram saber a partida 
dos embaxadores, assy lhe escpreueram depois toda a rreposta que leua- 
ram. Mas emtom ficou a elle outro mujto mayor cuydado, porque com- 
sijrou em ssi, que pois elRey de todo seguraua o rregno de Castella, fir- 

20 mamdo as pazes per juramento como dito he, que poderia seer que seria 
a uerdadeira temçom de hirem comtra elle ou comtra alguú lugar de seu 
senhorio. E este pemsamento tijnha elle assy, por quamto ouuera o 
rregno per aquella guisa que ja ouuistes, do quall auia tam pouco que 
* estaua em posse, e foralhe dito como ho comde dOrgel, que pemssaua teer A,37, r, i 

25 mayor dereito no rregno que elle, ueemdo como ja per ssi nom podia 
cobrar nome de rrey, que escpreuera a elRey Dom Joham, como elle era 
assy forçado do seu. e que pois naquelle rregno nom podia cobrar dereito, 
que lhe prouuesse de o ajudar, e que com pequeno mouimento que elle 
fezesse açerqua dello, seria de todo posto em posse delle, ca os mais e 

3o mayores daquelle rregno nom obedeciam a elRey Dom Fernamdo senam 
per força, ca conhecido era a todos, que o rregno justamente perteeçia a 
elle mais que a elRey Dom Fernamdo. E que sse a Deos prouuesse 
delle cobrar assy a dita posse, que elle nom queria filhar nome de rrey. 

1 . daragom A — embaixadores A. — 5. embaixadores A. — 6. embaixada A. — 6-7. 
embaixadores A. — io. assi A. — 1 1. embaixadores A. — 12. purtugall A. — 14. assi A. — 
1 6. assi A. — 17. embaixadores A — assi A. — 21. luguar. — 22. assi A. — 23. rreyno A. 
— 27. assi A. — 29. postoj ponto A, I. — 33. assi A. 



mas que elle tijnha duas filhas pera casar, e elle jsso meesmo a Deos gra- 
ças tijnha filhos, que as casasse com dous delles. com tamto que o que 
casasse com a mayor, tomasse logo nome de rrey dAragam. e que ao 
outro filho seria dada terra em aquelle rregno, em que podesse uiuer 
homrradamente. e que per seu falliçimento lhe ficaria o seu comdado com 5 
toda sua terra. E como quer que nehuúa cousa disto fosse fallada a 
elRey Dom Joham, he porem certo que foy assy dito a elRey Dom Fer- 

A,37,r,2 namdo. e de o elle creer nom era ssem rrezom, * por quamto elle estaua 
assy em aquelle rregno, homde era quasi estramgeiro. e conhecia bem que 
ajmda que o seu dereito fosse mayor, que mujtos daquelles que lhe obe- lo 
deçiam, quiseram amte o comde por seu rrey por aazo da natureza que 
auia com elles. ca bem conhecia que seu obedeeçimento era mais cos- 
tramgido que per uoomtade, porque obediemçia costramgida numca sse 
pode possuir sem gramde sospeita. E porque os seus lhe conheciam 
assy aquelle cuydado, e que lhe prazia de ouuir quallquer cousa de moui- i5 
mento de cada huú de seus comtrairos, trabalhauamsse de saber todo o 
que açerqua dello podiam e deziamlha. e queremdolhe comprazer, muj- 
tas uezes lhe afirmauam o que nom sabiam, de que sse seguiam penas 
jmjustas a alguús. ca jsto he huúa cousa que faz a mujtos primçipes 
gaanhar gramdes jmmijzades com seu pouoo. e os malles que sse dello 20 
seguiram, manifestos ssam a todos aquelles que sabem as crónicas amtij- 
gas. Nom era esta cousa pera elRey Dom Fernamdo nom creer, tra- 
zemdo comssigo tam manifesta coor. e porem mamdou loguo fazer prestes 
seus embaxadores, os quaaes emuiou com suas cartas a elRey Dom Joham. 

A,37,v, 1 E leixamdo a prollixidade das outras cousas, * breuemente chegarom, e 25 
tamto que forom em pomto de seer ouuidos, disseram a elRey per esta 
guisa. Senhor, elRey dAragam nosso senhor uos faz saber, como ha 
mujto tempo que ha nouas que uos uos perçebees de guerra, e que elle em 
quamto uosso perçebimeuto nom foi mujto ssoado, sempre pemssou que 
era alguúa cousa pequena, mas depois que ouue certas nouas, que mam- 3o 
dauees perceber todallas gemtes de uosso rregno, e buscar per diuersas 
partes naaos e nauios pera fazer gramde ajumtamento de frota, que em- 
temdeo e emtemde que huú tam alto primçipe como uos nom pode mo- 
uer semelhamte feito senom a alguú gramde fim. e que quamto a çerti- 
dom do feito he mais duuidosa, tamto he mayor rrezom que sse proueja 35 
sobre ello. E porque amtre as mujtas partes que sse determinam açer- 

6. fallado A. — 7. elRej A — assi A. — 9. assi A. — i5. assi A. — 19. jnjustas A. — 
24. embaixadores A. — 23. chegaram a este reyno, e 1, om A. — 26. foram A. — 29. muyto A. 
33. entende A. 



— io3 — 

qua de uossa armaçam, primçipailmente ssom duas que a elle perteeçem 
.s. que alguQs seus comtrairos uos moueram partido, que os ajudassees a 
cobrar aquelle rregno, poemdouos em esperamça de o darem depois a 
cada huú de uossos filhos, e a outra he, que emuiaaes * sobre o rregno A,37,v,2 
5 de Cezillia, de que elle teem tamta parte como sabees. Porem que elle 
uos rrogua, que comssijrees a boa uoomtade que elle sempre teue a uos e 
a todos uossos feitos, e o dereito que elle teem naquelles rregnos. o quall 
ja foi uisto e determinado per o samto padre, e assjf per todoUos leterados 
e sabedores dos ditos rregnos. por cuja rrezom elle foy posto em posse e 

10 rrecebido por rrey e senhor como bem sabees. E que uos nom queiraaes 
mouer comtra elle por nehuúa esperamça de proueito, que uos açerqua 
dello seia mouido, nom auemdo justa rrezam pêra ello. e que sobre todo 
pêra obrardes segumdo perteeçe aa uossa preclara magnifiçemçia, praza- 
uos que lhe emuiees dizer açerqua de todo uossa uoomtade. ca elle 

• 5 posto que lhe estas cousas fossem ditas, numca determinadamente em seu 
coraçom pode caber, que uos semelhamte mouimento fezessees nom auemdo 
mais justa causa, porque uos conhece por justo e dereito em todos uossos 
feitos, e assy obrador de gramdes cousas. ElRey nom quis mais alom- 
guar rreposta, porque nom era cousa que perteeçesse ao comsselho. Vos 

20 direes disse elle, a elRey Dom Eernamdo meu amigo, depois * que lhe der- A,38,r,i 
des minhas saudaçoões, que elle saiba certamente que meu ajumtamento 
nom he comtra elle, nem comtra cousa que a elle perteeça. ca sayba 
elle que com milhor uoomtade ho ajudaria a gaanhar outro rregno, em que 
elle teuesse alguúa justa parte de dereito, que de lhe dar fadigua sobre 

25 aquelle que elle teem gaanhado, do quall Deos sabe que me prouue e 
praz mujto. E que sse per uemiura eu teuesse determinado de dizer este 
segredo a alguú primçipe semelhamte, que elle seria o primçipall. mas 
que prazemdo a Deos muy cedo saberá certo rrecado da minha emtem- 
çom. Nom auemos aqui porque escpreuer os gasalhados nem as mer- 

3o çees, que elRey fez aaquelles embaxadores. ca esto auia elRey auam- 
taiadamente amtre todollos primçipes do mundo. Mas elles forom mujto 
comtemtes delRey, e mujto mais o foy elRey Dom Fernamdo, depois que 
lhe os embaxadores comtaram a booa uoomtade que tijnha pêra elle e 
pêra toda sua homrra. E porque as nouas eram taaes com que a elle 

35 tamto prazia, com gramde dilligemçia lhas comtauam aquelles seus em- 
baxadores. e assy toda a maneira que elRey tijnha em seu estado, e *o A, 38,r,2 

6. comssirees A. — 8. assi A. — i8. assi A. — ig. consselho A. — 21. ajuntamento A. 

— 22. contra (2.°) A — perteemça A. — 3o. embaixadores A. — 3i. mumdo A — foram A. 

— 34. embaixadores A — boa A — uoontade A. — 35-36. embaixadores A. — 36. assi A. 



— I04 — 

corregimento da sua frota, e primçipallmente louuauam a apostura dos 
Iftamtes. e de todo mujto prazia a elRey Dom Fernamdo. Certamente 
disse elle, sempre conheci elRey Dom Joham seer huij muy auamtaiado 
primçipe. e em todos seus feitos sempre sse mostrou gramde e uirtuoso. 
e elle que este feito assy moue, nembreuos que a de seer huúa cousa nota- 5 
uell e gramde, cuja fama será de muy gramde preço, e ajrada emueja de 
mujtos primçipes do mundo. Outrossy uieram em este emsseio a elRey 
huQ gramde duque dA-llemanha e huij barom com elle pêra o seruir em 
aquelle feito, e o duque disse a elRey, que ouuimdo nouas de sua arma- 
çam, que partira de sua terra com emtemçom de o seruir. porem que lhe 'o 
pedia por merçee, que lhe declarasse ho lugar certo pêra homde armaua 
sua frota, porque pêra tall poderia seer, que nom seria rrezam de o elle 
seruir em ello. ElRey rrespomdeo que elle tijnha determinado por seu 
seruiço de nom rreuellar aquelle segredo a alguúa pessoa fora de seu 
comsselho. e que ajmda saberia que nem todollos do comsselho eram dello i5 
sabedores, soomente alguiis certos e espiçiaaes. porem sse a elle prou- 

A,38,v,i uesse dhir assy com elle* por acreçemtar em sua homrra, que lho teeria 
em seruiço, e lhe faria por ello merçee. O duque rrespomdeo que sua 
determinaçam nom era tall, senam per a guisa que lhe ja dissera, porem 
que com sua liçemça se queria tornar caminho de sua terra. ElRey mam- 20 
doulhe fazer merçee segurado rrequeria a seu estado, e desy emcaminhou 
pêra Samtiago, e dhi caminho de sua terra. E o barom ficou com elRey, 
e o seruio depois muy bem, segurado fezeram outros mujtos estramgeyros, 
que uieram fazer de suas homrras em este feito, amtre os quaaes prim- 
çipallmente forom três gramdes fidallgos gemtijs homeés da casa de 25 
Framça. e o primçipall delies auia nome Mosse Arredentam. e o segurado 
Perribatalha. e o terceiro Gibotalher. empero nehuíj delies nom uijnha 
tam grarademente corregido como o gram baram. ca trazia comssigo qua- 
reemta escudeyros fidallgos gemtijs homeés, que depois prouaram muy 
bem per seus corpos na tomada daquella cidade. E posto que estas em- 3o 
baxadas e cousas assy uaao jumtamente, nora seiam porem apropriadas 
aaquelles tempos, ca aratre huúas e as outras se metiam alguús espaços, os 

A,38,v,2 quaaes homem * destiratamente nom poderia escpreuer. porque as crónicas 
que leuam semelhamte hordenamça, nom podem leuar mais certa declara- 
çom, saluo aquellas que leuam os feitos comtados de huú anno ao outro, 35 
semelharates aquellas a que os Romaãos chamauam anaaes. porque auia 

2. Iffantes A. — 5. assi A. — 7. mumdo A. — 17. assi A. — 21. desi A. — 25. foram A. 
28. come A. — 3o-3i. embayxadas A. — 3i. assi[A. — 32. antre A. — 35. contados A. 
— 36. aquelles A I. 



— io5 — 

hi hordenamça que sse escpreuessem os feitos de cada huú comssuU apar- 
tadamente, e porque elles nom rregnauam raais que huú anno, era 
necessário que sse fezesse cada huú anno o dito liuro. Empero ajmda 
estes liuros tijnham outro nome, ca lhe chamauam os liuros dos dias fas- 
5 tos. e era fasto em sua limguagem como dia comuinhauell pêra pelleiar 
ou fazer outros gramdes feitos, a quail cousa sempre era mu}' bem 
esguardada per ho rregimento das rrodas çelestriaaes. e ora uemçessem 
ou fossem uemçidos, todauia auiam de fazer escpreuer todo seu acomte- 
çimento. e ao dia em que elles uemçiom, chamauam fasto s. dia comui- 

10 nhauell, e ao dia em que lhes nom comuijnha pelleiar, chamauam nefasto, 
porque tamto quer dizer em nossa própria limguagem fasto, como bem 
auemturado, e nefasto nom bem auemturado. A quall *hordenamça nos A,39,r,i 
nom podemos guardar em esta obra, por seer começada tam tarde como 
ja ouuistes. e trautada em tam gramde segredo, por cuja rrezara ouue em 

i5 aquelles feitos muy poucas escprituras que ao depois parecessem, soo- 
mente aquellas que sse fezeram depois do comsselho de Torres Vedras, 
quamdo ficou determinado de sse deuu'lgar a partida dos Ifíamtes. E as 
cousas que sse emtom escpreuiam, nom eramsenam hordenamças, que sse 
geerallmente fazem em todallas armaçoões, em que ha de seer alguúa 

20 multidom de gemte. o que ajmda nom foi feito senam no derradeiro 
anno. e sobre todo as cousas forom muy gramdes e emburilhadas huúas 
com as outras, por cuja rrezam nom se poderam escpreuer per outra 
guisa, ca as mujtas cousas nom ssom assy ligeyras de abraçar, ca aquelle 
que acha as rrodas do carro apartadas, alguú tempo ha mester pêra as 

25 ajumtar. 



Como os embaxadores delRey de Graada iiieram a elRey, e do 

que lhe rrequereram, e como tra{iam rrecado delRey ao Iffamte 

Duarte, e das cousas que lhe promettiam. Capitidlo xxxiiij. 



F 



liCA agora pêra dizer de como elRey de Graada emuiou seus emba- A,39,r,2 

3o |~^ xadores a elRey de Portugall. ca sse os outros rrex christaãos 

tijnham rrezam dauer temor, mujto mais tijnha elle, comsijramdo 

quamtas uezes emulara seus rrecados a elRey pcra cobrar sua amizade 

e seguramça de paz, e numca ha delle poderá auer. Que poderia agora 

sospeitar ouuimdo as nouas de tamanho ajumtamento, cuja fama espam- 

1. ordenamça A. — 10. lhes] elles A. — 21. foram A. — 23. assi A. — 24. haa A. — 
26. embaixadores A. — 29-30. embaixadores A. 



— io6 — 

taua mujtos primçipes da chrijstamdade. quamto mais que os mouros 
forros que uiuem em este rregno, ueemdo assy aquelle ajumtamento como 
homeés, que nom perderam aquella amizade com todollos outros mouros 
que a sua seita rrequeria, numca çessauam de pregumtar quall era o 
uerdadeiro propósito delRey. E nom he duuida que este segredo lhe 5 
nam fora rreuellado, segumdo a gramde deligemçia que elles tijnham de o 
saber, sse alguú dos do rregno, afora aquelles que ja dissemos, ouuera aazo 
de o saber. Empero apalpamdo assy depois que uiram que elRey segu- 
raua Castella e Aragam, sospeitaram que aquelle ajumtamento nom podia , 
seer senam sobre o rregno de Graada. e assy ho escpreuerom a elRey lo 

A,39,v, I de Graada per suas cartas. O quall * ouuimdo assy aquellas nouas de 
tamtas partes, emuiou seus embaxadores a elRey, os quaaes eram 
certos mouros de gramde autoridade, leuamdo seus trugimaães que lhe 
emterpretassem a linguagem. E elRey assy como tijnha custume de rre- 
çeber bem todollos estramgeiros, rreçebeo a elles segumdo seu estado. i5 
E quamdo foi tempo de darem sua embaxada, disserom. ElRey nosso 
senhor uos emuia dizer, como depois que este uosso senhorio esta em 
posse de rregno, numca amtre os seus naturaaes e os uossos foi achada 
tall discórdia, per que leixassem de trautar huús com os outros, trazem- 
dosse daquelle rregno ao uosso gramdes mercadorias e do uosso ao seu. 20 
E que aalem de todo o dito senhor uos teue sempre em sua uoomtade 
muy gramde amor, primçipallmente por uossas gramdes uirtudes e boom- 
dade. a quall o costramgeo emuiar a uos per mujtas uezes seus presem- 
tes, como o que numca fez a nehuú rrey christaão. Porem disseram elles, 
que porque alguijs seus naturaaes tijnham rreçeo de uijr a seus rregnos 25 
com suas mercadorias como amte soyam, por aazo das nouas que auiam 

A,39,v,2 do corregimento da sua frota, sospeitamdo *que per uemtura poderia seer 
comtra alguú dos lugares de seu senhorio, e outros mercadores de seu 
rregno leixauam de leuar suas mercadorias rreçeamdo que lhe fossem 
rretheudas per elle ou per seu mamdado. que lhe prouuesse por euitar 3o 
assy aquella sospeiçam de lhe emuiar certa seguramça, que huíis e os 
outros podessem estar e comtrautar amigauellmente como sempre feze- 
ram. na quall cousa lhe faria huúa gramde graça, a quall elle prazemdo 
a Deos emtemdia demmemdar com outra semelhamte ou mujto mayor 
quamdo lhe rrequerida fosse. Nom ssei que rrezam teem os mouros 35 
rrespomdeo elRey, de teerem semelhamte sospeita nem os meus natu- 

2. assi A. — 8. assi A. — 10. assi A. — 11. assi A. — 12. tantas A — embaixadores A 
— a elReyJ add de Portugal I. — 14. assi A. — 16. quando A — embaixada A. — 25. seus] 
uossos I. — 27. sua] uossa I. — 3 1 . assi A. 



— loy — 

raaes jsso meesmo, teemdo tam pequena çertidom de minha uoomtade, 
porque ajmda que eu assy raamde correger minhas gemtes pera emuiar 
meus filhos por meu seruiço, a uerdadeira temçom dello esta muy lomge 
de seu conhecimento, nem ueio que rrezam podesse teer que parecesse 
5 rrezoada pera fazer semeihamte seguramça. Porem uos lhe dizee que eu 
nom emtemdo fazer com elle nem com outra nehuúa pessoa tall emnoua- 
çam, pois que a numca fiz em todos* meus dias. E porque esta he a A,4o,r,i 
comclusom de meu propósito, uos podees hir mujto em boa ora quamdo 
uos prouuer. Os mouros semtiram que per aquella rreposta nom leuauam 

IO nehiiúa seguramça, faliaram aa Rainha por ueer se poderiam emcaminhar 
o feito per outra guisa, ca tall auisamento traziam delRey de Graada. o 
quall era que a rrica forra, que era a primçipall das molheres daquelle 
rrey mouro, emuiaua dizer aa Raynha Dona Fellipa, como elRey seu senhor 
e marido emuiara seus embaxadores a este rregno rrequerer alguúas 

ij cousas a elRey, as quaaes a ella prazeria mujto que fossem bem auiadas. 
E por quamto ella sabia quamto os boÕs rrequerimentos das molheres mo- 
uiam os coraçoões dos maridos, quamdo lhe rrequeriam alguijas cousas 
em que tijnham uoomtade, que lhe rrogaua que por comtemplaçam sua lhe 
prouuesse filhar emcarrego de rrequerer a elRey a rreposta daquelle feito, 

20 poemdo em ello todo seu bom deseio, de guisa que a uoomtade delRey de 
Graada seu senhor e marido fosse posta naquella fim que elle deseiaua. 
E que pois ella tijnha filha pera casar, que em breue tempo poderia ueer 
o agradecimento de sua boa uoomtade. ca lhe çertificaua* que lhe emuia- A,4o,r,a 
sse pera ella o milhor e mais rrico emxouall que numca fora dado a 

25 nehuúa primçeza moura nem christaa. Mas quem auia de seer aquelle 
que mouesse a Rainha pera fallar em tall partido, ca a Rainha era huija 
molher mujto amiga de Deos, e segumdo suas obras filhara de muy maa- 
mente emcarreguo de nehuQ emfiell pera lhe procurar alguú fauor. 
quamto mais ajmda que era naturall dHimgraterra, cuja naçam amtre as 

3o do mumdo naturallmente desamam todollos jmfiees. Eu nom sei rres- 
pomdeo ella, a maneyra que os uossos rrex teem com suas molheres. 
mas amtre os christaãos nom he bem comtado a nehuúa rraínha nem a 
outra nehuúa gramde primçesa de sse tremeter nos feitos de seu marido, 
quamto em semelhamtes casos, pera os quaaes elles teem seus comsseihos, 

35 homde determinam seus feitos segumdo emtemdem. e as suas molheres 
quamto melhores ssam, tamto com mayor dilligemçia se guardam de que- 
rerem saber o que a ellas nom perteeçe. ca conhecem certamente que 

2. assi A. — 10. rrainha A. — i3. rrainha A. — 14. embaixadores A. — 18. contem- 
plaçam A. — 20. rrainha bis A. — 33. princesa A. — 36. dilligençia A. — 3y. perteemçe A. 



— io8 — 

seus maridos com seus comsselheiros teem mayor cuidado do que aa 
homna de seu estado perteeçe, do que ho ellas podem coniieçer. Ver- 

A,4o,v, 1 dade he que * ellas nom som assy afastadas de todo, que lhe nom fique 
poder de rrequerer o que lhes praz. mas estes rrequerimentos ssom taaes, 
que os maridos nom ham rrezam de lhos neguar. e alguúas que o comtrairo b 
fazem, nom ssom auidas por emsinadas nem discretas. Porem uos direes 
aa rrainha uossa senhora, que eu lhe agradeço sua boa uoomtade. mas 
que ella poderá de seu emxouall fazer o que lhe prouuer. ca com a graça 
de Deos a minha filha nom falleçera emxouall pêra seu casamento. E 
uos rrequeree uosso feito a elRey meu senhor, ca elle he tall que sse lhe lo 
uos rrequererdes o que he rrezam, que uoUo fará com muy boa uoomtade. 
Os mouros semtiram que nom tijnham boom rrecado na Rainha, proua- 
ram de temtar o Iftamte Duarte pêra ueer, se com suas gramdes prome- 
ssas o poderiam emclinar a sua deuaçam. e foromsse a elle e disseromlhe 
como elRey de Graada seu senhor era huO homem que mujto deseiaua i5 
teer amizade com seu padre, e per comsseguimte com elle e com toda a 
casa de Portugall. e que pêra elle creer que sua uoomtade era tall, que 
poderia bem saber de todollos mercadores e outros quaaesquer naturaaes 

A,4o,v,2 deste rregno, como eram trautados * tam docemente e com tamto fauor 

leyxamdolhe trazer suas mercadorias e trautar com seus naturaaes, assy 20 
como sse fossem súbditos dalguú rrey mouro com que elle ouuesse muy 
chegada liamça de samgue. Por cuja rrezam disserom elles, senhor, nos 
emuiou ao dito uosso padre com sua embaxada, da quall creeo que uossa 
merçee auera ja certa emformaçam. porem senhor, porque elRey de 
Graada nosso senhor, mujto deseia cobrar aquella seguramça que rreque- 25 
remos, elle uos emuia dizer que por quamto elle sabe que elRey uosso 
padre ha dobrar em este feito primçipallmente por uosso comsselho. que 
uos rroga que por sua comtemplaçom uos praza filhar emcarrego do dito 
rrequerimento, de guisa que polia boa uoomtade que uos em ello poser- 
des, possa uijnr a fim de seu deseio. E por uos nom auerdes uosso tra- 3o 
balho por mall despeso, que elle uos promette assy como rrey que he, de 
uos fazer huú tall seruiço, que em todallas partes do mundo seia no- 
meado por gramde. pêra seguramça do quall uos será feita per nos 
quallquer firmeza que uossa merçee demamdar, e ajmda se mester fezer, 
abastamte fiamça. Os primçipes desta terra, rrespomdeo o Iffamte, nom 35 

A,4i,r, 1 * ssom acustumados de uemder suas boas uoomtades por preço de dinheiro, 
ca husamdo per semelhamte modo teriam mayor rrezam de sse chama- 

3. assi A. — 12. rrainha A. — 20. assi A. — 22. liança A. — 23. embaixada A. — 
3i. mal A — assi A. 



— log — 

rem mercadores que senhores nem primçipes. Porem uossas promessas 
som escusadas acerca de semelhamte caso. ca nom tam soomente esse 
presemte que elRe}' diz que me emuiara, mas que me fezesse seguramça 
que me daria todo seu rregno per semelhamte modo, eu ho nom rreçe- 
beria delle, nem poderia fazer a elRe_v meu senhor e padre nehui: rrequi- 
rimento, senom aquelle que fosse justo e rrazoado. E elRey de Graada 
uosso senhor nom ha porque tomar taaes coçeguas, nom auemdo mais 
justa causa pêra ello. E desta guisa se tornaram os mouros pouco com- 
temtes de tall rreposta. 



'O Como o Iffamte Dom Hamrrique ueo depois de Jatieirnfallar a seu 
padre, e como sse tornou pêra o Porto, e da maneira que teue em sua 
armaçom. Capitullo xxxv. 

JA me parece que tenho tempo de leixar estas cousas, e fallar nas 
outras que ssom mais cheguadas ao auiamento da frota. Empero 
amte direy huú pouco das boas uoomtades que todos traziam pêra 
*seruir elRey em aquelle feito, porque cada huú trazia tamanha lediçe em A,4i,r,2 
seu corregimento, como sse determinadamente soubesse que sem nehuú 
perijgo auia dauer uitoria. nem lhes fazia nehuú empacho a duuida 
que tijnham do luguar certo, que nora sabiam pêra homde auia dhir. E 

20 era emtom a gemte do rregno rrepartida em duas partes, porque auia hi 
huús que seruiram elRey em todos seus trabalhos, e eram cumunall- 
mente pouco mais ou menos assy como de huúa hidade. e os outros eram 
os filhos daquestes, os quaaes traziam em ssi muy gramdes deseios de 
cheguarem aos meriçimentos de seus padres. Ca assy como os filhos 

25 dos gallgos geerallmente seguem a natureza de seus padres, assy os filhos 
dos boõs homeés comuúmente se cheguam aaquelle offiçio, em que seus 
padres husarom per que mereceram. Nom fallo dalguús que per sua 
desuairada costellaçom perdem sua boomdade. ca assy ha hi outros que 
per sua naçom nom som obrigados a seguir uirtude, e dalhe Deos graça 

3o que sse cheguam a ella e a seguem, per que cobram depois homrra, ca 
em todallas cousas se toma a mayor parte poUo todo. Mas pêra este 
corregimento nom seer tam perfeito como todos tijnham *em uoomtade, A,4i,v,i 
sobreueyo huú muy gramde empacho, porx^ue começaram de morrer de 

2. ssomente A. — i8. a I, aa A — duueda A. — 20. gente A. — 22. assi A. — 23. gran- 
des A — 24. assi A. — 25. assi A. — 26. comuunmente A. — 28. costollaçom A — assi 
A. — 29. naçom] nacença I. — 33. grande A. 



— lio — 

pestenemça na cidade de Lixboa e também no Porto, e esto foi se- 
gumdo deziam por aazo dos nauios que uieram de mujtas partes, e em 
alguús delles auia pestenemça. E porque esta emfirmidade segumdo diz 
samto Isidoro no Etimollogicum he comtagiosa, fez muy gramde dano 
no auiamento daquella frota, primçipallmente na morte da Rainha, que 5 
sobre todo foi mais semtida. Nom podemos failar dereitamente, que 
alguú do rregno teuesse mayor cuidado dauiar o que lhe perteeçia, que 
o Iffamte Dom Hamrrique. ca tamto que passou o mes de janeiro, ueo 
failar a seu padre, comtamdolhe o pomto em que leixaua todallas cousas, 
e dizemdolhe outrossi que lhe pedia por merçee, que lhe desse seu rregi- lo 
mento per escprito, da maneira que auia de teer. Meu filho disse elRey, 
a mim nom praz que uos pollo presemte leuees outra ordenamça nem 
rregimento, senam uossa boa discreçom e a boa uoomtade, que eu em 
uos seemto pêra me seruir. mas leuarees huúa minha carta, per que uos 
obedeçam todos assy como a capitam geerall. e outra semelhamte darey i5 

A,4i,v,2 a uosso jrmaão o Iftamte Dom Pedro. *E uos partijuos logo pêra a 
cidade do Porto, e trigayuos quamto a uos possiuell for, que façaaes uijr 
essa frota delia, mas seede auisado que o mais que poderdes, escusees 
demtrar na cidade, senam quamdo for mujto necessário. E assy partio o 
Iffamte domde seu padre estaua, que era de Sacauem, homde elle sem- 20 
pre esteue, depois que a pestenemça foy gramde em Lixboa, ataa que a 
Rainha adoeçeo. E o Iffamte teue tall modo em seus feitos, que naque- 
lles três meses seguimtes auiou todas suas gemtes e armas e mantijmen- 
tos per tall guisa, que no começo do mes de mayo foy demtro na cidade 
do Porto, homde loguo começou dar trigoso auiamento a sua frota, e zS 
fazer emcaminhar todallas cousas, que pêra ella perteeçiam tam bem e 
tam hordenadamente, que nem sua noua hidade nem falleçimento de pra- 
tica de taaes feitos nom o poderam empachar, que nom rreçebesse gramde 
louuor de seu marauilhoso trabalho, ca deziam aquelles uelhos que era 
mujto pêra marauilhar, huú homem de hidade de uijmte annos seer tam 3o 
deestro e tam desempachado pêra auiar tamanho feito. E sse Tito Liuio 

A, 42,r, I diz o autor, louua tamto no liuro da segumda guerra, a *prudemçia de 
Cepiam, porque estamdo em Cezillia hordenou tam bem sua frota pêra 
passar em Africa, seemdo elle em hidade açerqua de trimta e çimquo 
annos, e auemdo ja cometidas mujtas pelleias per mar e per terra, como 35 
nom louaremos este primçipe seemdo em hidade de uijmte annos, sem 
auer conhecimento de semelhamtes feitos per certa pratica, soomente 

1-2. segundo A. — 4 etimollogiarum A. — 6. semtido A. — 7. de auiar A. — 9. ponto 
A. — i5. assi A. — 18. delia] de la I. — 19. assi A. — 28. grande A. — 35. muytas A. 



— Ill — 

quamto era huúa naturall emclinaçam, que em elle auia pêra cometimento 
de gramdes feitos. Nem falíamos aqui darmaçam do Iffamte Dom Pedro, 
porque posto que o nome fosse seu, o cu\'dado era primçipailmente del- 
Rey seu padre e do Iffamte Duarte. E com todas estas cousas nom 
5 esqueeçia ao Iliamte Dom Hamrrique de mamdar fazer muy rricas 
liurees, as quaaes hordenou que leuassera todollos capitaaes que eram 
hordenados sob sua capitania. E em trautamdo estas cousas cheguauamsse 
uijmdo pêra a cidade todollos senhores e fidallgos, que auiam dhir com ellc. 
AUi chegou Ayres Gomçalluez de Figueyredo nobre caualleiro, seemdo 

IO em hidade de nouemta annos, corregido com seus escudeiros e gemte de 

pee, e elle com sua cota uistida, cuja comtenemça parecia pouco * dhomem A,42,r,2 
de sua hidade. e quamdo o Iffamte o uio cheguar a elle pêra lhe beyiar 
a maão, começou de sse rrijr e disse. Ja me parece que homem de tam- 
tos annos deuera de filhar rrepouso, por descamsso de tamtos trabalhos. 

[5 Eu nom sei disse o caualleiro, se os membros por rrezam da hidade em- 
fraqueçeram, mas a uoomtade nom he agora menos do que foi em todo- 
llos outros trabalhos, que eu leuey com uosso padre. Por certo disse elle, 
eu nom poderá auer mais homrradas eixequias pêra minha sepultura, que 
amte de meus dias seer em aqueste feito. Per esta guisa fezeram dous 

20 escudeiros Bayoneses, que por mujtos seruiços que fezeram a elRey na 
guerra, lhes dera alli muy boas teemças em que uiuessem, porque eram ja 
homeés de hidade pouco menos que Ayres Gomçalluez. os quaaes se 
forom ao Iffamte rrequerer que lhes mamdasse dar seu prouijmento pêra 
sua jda. Assaz he disse o Iffamte, o que uos teemdes trabalhado, eu 

25 uos tenho mujto em seruiço uossa boa uoomtade. pareçeme que he bem 
que fiquees, ca ja a uossa hidade nom he pêra mais trabalhos. Os escu- 
deiros per nehuúa guisa quiserom ficar, amte mostraram suas *comte- A,42,v, i 
nemças queixosas, quamdo lhe foi fallado que ouuessem de ficar. Pois 
que será disse o Iffamte, porque as armas que tijnha som ja todas rre- 

3o partidas, e nom teeria assy prestes com que uos armasse. Nom he boom 
homem disserom elles, aquelle que per nehuúa necessidade uemde suas 
armas, e nos posto que per alguúas uezes nos fezessem mimgua nossos 
sólidos per falleçimento da pagua, e a teemça depois que nos foi asse- 
emtada, as nossas sempre esteueram comnosco. Porem o mantijmento 

35 nos daae segumdo uossa hordenamça, e das armas nom tenhaaes cuidado. 
Muito ledo foi o Iffamte de suas booas uoomtades. e aalem do seu hor- 
denado lhe mamdou fazer merçee, conheçemdo que era mujto pêra agra- 

2. Iffante A. — 5. mandar A. — 9. seendo A. — 19. dias] add. acabados I. — 22. ay- 
ras A. — 23. foram A — mandasse A. — 27. amtes A. — 3o. assi A. — 33. per] pêra A. 



112 

çer a homeés de tall hidade semelhamte deseio. Nom sey diz o autor, 
se falle aqui como gemtio. mas por certo eu pemsso que os ossos dos 
finados deseiauam seer uestidos em carne, liomde jaziam gastados em suas 
sepulituras, pêra seerem companheiros de seus filhos e paremtes no ajum- 
tamento daquelle feito. E dereitamente poderemos dizer que sse os uiuos 5 
tijnham lediçe, que as almas daquelles que per rresplamdor diuinall sabiam 

A,42,v, ! a uerdade desto* se allegrauam mujto mais. Pêra cuja prouaçam he bem 
que saibaaes o que acomteçeo a huú frade da hordem de sam Domim- 
gos, que estaua em aquella cidade do Porto, o quall no segumdo dia 
das ladainhas, seemdolhe mamdado que ouuesse de preegar na proçissom lo 
do outro dia, se alleuamtou depois do primeiro gallo, e estamdo amte o 
altar da uirgem Maria fazemdo sua oraçam, amte que emtrasse a seu 
estudo, lhe pareceram marauilhosas uisoões, amtre as quaaes lhe pareçeo 
que uija amte a uirgem Maria elRey Dom Joham, estamdo armado com 
os jeolhos em terra e as maãos aleuamtadas comtra o çeeo, homde lhe i5 
apresemtauam huija espada, cujo rresplamdor parecia aaquelle boom ho- 
mem que nom tijnha comparaçam. mas o portador daquella espada nom 
conheçeo elle, como quer que a sua uista quamto ao seu conhecimento lhe 
parecia cousa diuinall. E porque este boom homem era simprez, nom 
quis comtar esta uisom, senam a huú outro frade seu amiguo que era sam- 20 
christaão daquelle moesteiro. Oo como as almas daquelles boõs homeés 
que morriam em aquella pestenemça, partiam suydosas dos corpos, nom 

A,43,r, I tamto por aquella naturall suydade com que sse as almas* partem das 
carnes, como por nom ueerem a fim daquelle feito. Aa diziam elles, 
morte sem rremedio, fim de todallas cousas terribees, sobre cujo empereo e. 25 
senhorio nom ha poder nehuúa cousa criada de ssoo no uello daalua, e 
amte cujo braado tremem todallas cousas que sse neste mundo mouem. 
E porque trigauas tamto teus dollorosos passos pêra nos leuar daquesta 
uida. porque nos nom leixauas alguú pequeno espaço pêra ueermos a 
fim desto, homde teueras rrezoado tempo pêra te emtreguar de nossa 3o 
diuida, se as nossas almas te faziam mimgua pêra pouorares as casas do 
outro mundo. Bem auemturados seram aquelles que rreçeberem os der- 
radeiros goUpes amte os olhos de seus senhores, aos quaaes seus parem- 
tes e amigos comtaram as chaguas, porque depois os filhos rreçebam 
homrra pollo meriçimento de seus padres, e o seu nome depois da 35 
uitoria nom poderá escorregar damte o conhecimento dos que depois 

6. rresplandor A. — 10. mandado A. — 16. boo A. — 21. xpaão A. — 22. suydosos A. 
— 24. nam A. — 26. de sso no uello daalua] de soo nouello da alua D, de sob novela 
dalma C, de sob nouello da lua I, de soo ho uello da lua (?). — 27. mumdo.— 3i. diueda A. 



— ii3 — 

uierem. Mas nos nom ajmda dos que ham de uijr, mas de todollos pre- 
semtes, nossas mortes ssom esquecidas, ca o trabalho do presemte 
negocio nom lhes daa uaguar que sse possam apartar pêra* chorar nosso A,43, r,2 
falieçimento. Era alli o trafego tamanho em aquella rribeira, que de dia 
5 nem de noute numca estaúa soo. nem os marinheiros nom eram pouco 
camssados em arrimar tamanha multidom de frasca. E com esto as estra- 
das e caminhos eram cheos de carros e de bestas, que uijnham carregados 
com mamtijmentos e armas das terras daquelles fidallgos, e doutras cousas 
que lhe compriam pêra sua hida. E aquelles que tam asinha nom podiam 
10 despacharsse da terra, trigauaos o Iffamte per suas cartas, de guisa que 
nom aballasse sua frota, e elles ficassem comtra suas uoomtades. 



Como elRef escpreueo ao Iffamte Dom Hamrrique que partisse com 

sua frota, e como o Iffamte partio, e a hordenamça que leuaua. 

Capitullo xxxvj. 

i5 ^^— ^ADÂ dia elRey auia nouas do corregimento da frota que estaua na 
I cidade do Porto, assy por as cartas que lhe o Iffamte escpreuia, 

^— ^ como per outros mujtos que cada huú dia hiam de huQa cidade 
pêra a outra, ca segumdo o tempo nom podiam os caminhos estar muy 
liures, por quamto aquelles fidallgos esperauam dhir aa cidade de Lix- 

20 boa, e mamdauam * porem seus honveés e cousas diamte cada huú se- A,43,v, i 
gumdo lhe compria. E escpreueo elRey ao Iffamte, que tamto que aque- 
lles primçipaaes fossem prestes, que partisse loguo mais trigosamente que 
podesse. porque tamto que elle uiesse com sua frota, emtemdia loguo 
a auiar a outra de Lixboa, de guisa que ao tempo que tijnha hordenado 

25 partissem. E como o Iffamte foy prestes pêra partir, mamdou aparelhar 
huúa fusta, na quall mamdou huú seu escudeiro, que charaauam Affomso 
Eannes, que depois foi comtador daquella cidade, o quall leuaua rrecado 
a elRey, como o Iffamte seu filho partia ja da cidade do Porto com sua 
frota. E logo o Iffamte mamdou a todos que sse rrecolhessem pêra seguir 

3o sua uiagem. e era fremosa cousa de ueer o corregimento daquella frota, 
porque todallas naaos e gallees e outros nauios eram nobremente apem- 
doadas com balssoões e pemdoões pequenos das coores motos e deuisa 
do Iffamte. e porque eram todos nouos e bem acompanhados douro, 
dauam mujto gramde uista. e as gallees eram toUdadas de finos panos 

3. daaj da A. — i6. assi A. — 19. de hir A. — 20. mandauam A. — 26. mandou. — 2Ó- 
27. affomseannes A. — 27. contador A. 



— 1(4 — 

A,43,v,2 daquelles motos e deuisa que ja disse. * e os capitaães das gallees eram 
estes que sse seguem .s. o senhor Ifíamte, e o comde seu jrmaao, e 
Dom Fernamdo de Bragamça filho do Ifíamte Dom Joham, e Gomçallo 
Vaasquez Coutinho marichall, e Joham Gomez da Sillua alferes delRey, e 
Vaasco Fernamdez dAtayde gouernador da casa do Iffamte, e Gomez 5 
Martimz de Lemos ayo que fora do comde de Barçellos. e assy eram 
sete gallees e sete capitaães. E assy estes como todollos outros que hiam 
nas naaos, de quallquer comdiçom que fossem, que capitania dalguúa 
gemte teuessem, leuauam a liuree do senhor Iffamte, a quall era de panos 
de sirgo, e outra de finos panos de laã, rrepartida polio comtrairo. por- lo 
que as mayores pessoas ouueram as liurees de pano de laã, e as outras 
de menos estado uestiam os panos de sirgo. E porque falíamos nos capi- 
taães das gallees he bem que saybaaes dalguús primçipaaes que hiam da 
outra frota .s. Dom Pedro de Castro filho de Dom Aluaro Pirez de Cas- 
tro, e Gill Vaaz da Cunha, e Pêro Louremço de Tauora, e Diego Gomez i5 

A,44, r, I da Silua, e Joham Roiz de Saa, e Joham Aluarez Pereyra, e Gomçallo 
Eannes de Sousa, e Martim Aftomso de Sousa, e *Martim Lopez dAzeuedo, 
e Luís Alvarez Cabrall, e Fernam dAluarez seu filho, e Esteuam Soarez 
de Melloo, e Mem Roiz de Refoyos, e Garcia Moniz, e Ayres Gomçall- 
uez de Figueyredo, e Pa}^ Roiz dAraujo, e Vaasco Martimz da Albergaria, 20 
e Aluaro da Cunha, e Fernam Lopez dAzeuedo, e Aluaro Fernamdez Maz- 
carenhas. Todos estes leuauam a liuree do Iffamte, e assy outros alguús 
fidallguos e escudeiros, cujos nomes nom podemos perfeitamente saber. E 
quamdo foi o dia daquella partida, era amtre todos aquelles da frota muy 
gramde allegria, ca todollos nauios eram acompanhados de trombetas e 25 
outros estormentos, cujo ssoom espertaua seus coraçoÕes pêra seerem alle- 
gres. E aimda auiam outro aazo pêra seerem muyto mais ledos, ca em 
aquelle dia forom todos uestidos de nouo, a quall cousa per sua nouidade 
sempre traz alguii acreçemtamento de follgamça em no coraçom de quall- 
quer, e mujto mais no dos homeés mamçebos, cuja clara esperiemçia nom 3o 
ha mester outra proua. E aalem daquella liuree que assy o Iftamte deu 

A,44,r,2 aaquelles senhores e fidallgos, e assy geerallmente a todollos seus, cadahuú 
delles daua aos seus * apartadamente sua liuree como lhe prazia. Mas 
porque seria gramde prolixidade escpreuermos a deuisa de cada huij, abasta 
soomente que a do Iffamte eram huúas capellas de carrasco bem acompa- 35 
nhadas de chaparia, e por meyo huús motos que deziam uoomtade de bem 
fazer, e as suas coores eram bramco e preto e uijs. Todollos boõs homeés 

6. Martimz] miz A. — 7. assi A. — 16-17. gomçalleannes A. — 19. ayras A. — 22. assi 
A. — 28. foram A. — 3o. mancebos A. — 3i assi A. 



— ii5 — 

da cidade que alli ficauam, se espediram em aquelle dia do Iffamte oftere- 
çemdolhe seu seruiço. porque aalem de em elle auer huúa graça simgullar 
pêra todos aquelles que com elle trautauam, por quamto elle era naturall 
daquella cidade, tijnha espiçiall cuydado dos moradores delia pêra rrequi- 
5 rimento de seus feitos, por cuja rrezam era muy amado delles todos, e 
o tijnham casi por seu çidadaão. Tamto que as nouas cheguaram a Lix- 
boa da uijmda do Iffamte Dom Hamrrique, loguo elRey mamdou ao 
Iff'amte Dom Pedro que fosse rreçeber seu jrmaão. pêra cuja hida logo 
forom prestes as outras oito gallees que alli estauam, e assy todollos ba- 
io tees e nauios pequenos que auia na frota, nas quaaes hia primeyramente 
o Iffamte Dom Pedro, e na segumda o meestre de Christus, e na terceira 
Dom Affomsso, e na quarta * o prioll do Espitall, e na quimta o almiramte, A,44,v, i 
e na sexta seu filho miçe Carlos, e na septima o capitam, e na oitaua 
Joham Vaaz dAlmadaa. e o comdestabre com todollos outros senhores, 
i5 que eram hordenados pêra hir com o Iff^amte Dom Pedro, forom nos ba- 
tees de suas naaos e assy em alguús nauios pequenos. E sse a frota que 
uijnha do Porto era bem apemdoada e tolldada, esta outra que partia de 
Lixboa nom era menos, empero todo era dos motos e deuisa delRey. 
e assy começaram de fazer sua uiagem caminho da foz comtra homde os 
20 outros uijnham. E o Iffamte Dom Hamrrique trazia tall hordenamça em 
sua frota, que parecessem primeiramente per a foz os nauios pequenos, 
e depois as naaos gramdes, e após ellas as gallees, das quaaes a mais 
derradeira era a do Iffamte. e desy todollos nauios começaram damdar 
brollauemteamdo ao traues daquelle mar fazemdo sempre deuisa sobre a 
25 gallee do Iffamte. E pollo espalhamento que assy faziam, era aquella 
frota de todos estimada em mujto mayor numero, e assy amdaram huú 
pedaço ataa que sse jumtou huúa frota com a outra, homde aquelles 
jrmaáos ouueram amtre ssi muy gramde prazer, como aquelles cuja ami- 
zade * amtre os uiuos nom foi outra semelhamte. Ca certamente taaes A,44,v, 2 
3o çimquo filhos assy obediemtes a seu padre e amigos amtre ssi, numca sse 
achou em espcrituras que os alguú primçipe teuesse. E assy forom aque- 
lles senhores jumtamente acompanhados de sua frota ataa que cheguaram 
aaquelle lugar, homde ho Iffamte Dom Hamrrique depois mamdou fazer 
huúa egreia, a quall sse agora chama samta Maria de Belleem. 



I. da cidade] na margem A. — 9. foram A — assi A. — 11. xps A. — i3. karlos A. 

— i5. foram A. — 16. assi A. — 19. assi A — 25. assi A. — 26. assi A. — 28. grande A. 

— 3o. assi A. — 3i. foram A. 



— ii6 — 

Como Affomso Eatvies chegou aos Iffamtes com as nonas da doemça 

da Rainha, e como por aquelle aaio aquelle gramde prazer em que 

estauam, foi tornado em tristeza . Capitullo xxxvij. 



H 



o quamto minha uoomtade deseiaua cheguar aa fim daquesta uito- 
ria sem alguú amtrepoimento de tristeza, mas a çegua fortuna 5 
com seus tristes aqueeçimentos nom quis que a nossa gloria fosse 
liure dalguú triste acomteçimento. nem ha cousa amtre os uiuos mais 
certa que o mouimento das cousas terreaaes. E por tamto se determina 
em phiiosofia que a dereita deriuaçom do tempo he seer duramento do 
mundo em perseueramça mudauell. o quall he departido em quatro lo 
partes, segumdo o desuairo quaternário do çircoUo do çeeo que he cha- 

A,45,r, I mado zodiaco, o quall em cada huúa quarta tem * três sinaaes chamados 
per nomes desuayrados danimaaes, os quaaes se rregem amtre os homeés 
per quatro ternários de meses, em que som desuayradas emfruemçias, que 
geeram em os homeés nouos falleçimentos. E porem huii philosofo, cujo i5 
comsselho rrequeria huii homem pêra comssollaçom da tristeza que tijnha 
per morte de seu padre, lhe disse. Amigo, nembrete depois que naçeste 
quamtas uodas e allegres desemfadamentos ouueste. e soporta em pa- 
çiemçia este triste aqueeçimento que te ueyo. ca o mouimento do mun- 
do por tall comdiçom foy assy hordenado, que nom leixasse nehuúa cousa 20 
em perdurauell assesseguo. Ora pois que assy he, uaamos per nossa esto- 
ria em diamte sem rreçeo. homde auees de saber, que tamto que os 
Iffamtes cheguarom com sua frota aaquelle porto de Restello segumdo ja 
dissemos, mamdaram alli lamçar as amcoras de seus nauios. e a outra 
frota fazia amdamdo suas uoltas ao traues daquelle mar, tamgemdo suas 25 
trombetas e estormentos que traziam, como homeés que queriam mostrar 
aos outros que estauam em na terra, a gramde lediçe que traziam seus 

A,45,r,2 coraçoôes. Nem o Iftamte Dom Hamrrique nom estaua * pouco ledo assy 
polia uista de seus jrmaãos e de toda a outra gemte da corte, que o alli 
uiera rreçeber, como por trazer assy sua frota bem aderemçada de todo o 3o 
que lhe compria. mas porque a sua gloria nom fosse de todo acabada, 
chegou alli Affomsso Eannes, aquelle seu escudeiro que trouxera o rrecado 
a elRey de sua uijmda, e lhe disse como a Rainha sua senhora e madre 
estaua doemte. Empero disse elle, que nom ficaua a dita senhora tam 

1. affomseannes A. — 2. rrainha A. — 5. a I, om A. — 7. ha I, he A. — 10. mumdo 
A. — i5. phillosofo A. — 19-20. mumdo A. — 20. assi A. — 21. assi A. — 28. assi A. — 
3o. assi A. — 32. affomsseannes A. — 33. a elRey I, delRey A. 



— 117 — 

aficada de sua door. per que elle deuesse tomar nehuúa tristeza, amte 
lhe fora dito que a primçipall causa daquella emfirmidade era por aazo 
da gramde abstinemçia que fazia em seus jeiuús e oraçoóes. ca posto 
que ella em toda sua uida tosse huúa das primçesas do mundo de mais 
5 simguilar deuaçom, ajmda que nos outros tempos quisesse jeiuúar, eralhe 
defteso per seus abades com acordo dos físicos, ca por aazo da fraqua 
compreissom que tijnha, determinauam os ditos físicos que a dita absti- 
nemçia seria muy perijgosa pêra sua uida, e porem cessaua de a fazer. 
Ca determinado he per samto Agostinho, que cada huii tenha tall tempe- 

10 ramça em seu jeiuií ou oraçom, per que lhe fíque liure poder pêra husar 

das outras uirtudes. ca doutra guisa seria omeçido* de ssi meesmo. A,45,v, i 
Mas depois que a Rainha foi certa da hida de seus filhos, ca ajmda ata 
aquelle tempo nom sabia da delRey nem do Itfamte Duarte, ca posto que 
lhe damte fosse fallado como ja ouuistes, elRey nom quis que o ella sou- 

i5 besse ata açerqua da sua partida, por lhe arredar o coraçom de cuidado 
que semtia que ella filharia. AUi nom curou ella de físicos nem de com- 
fessores, mas jeiúaua mujto a meude, e fazia gramde oraçom aalem do 
que tijnha custumado. ca tamto que era manhaã loguo sse hia aa egreia, 
homde estaua ataa o meo dia. e tamto que comia e filhaua huú pequeno 

20 rrepouso, loguo tornaua a sua oraçom. Mamdaua uisitar as casas dos 
samtos, e dar gramdes esmollas aos pobres, e fazer outros beés por acre- 
çemtar seu meriçimento. E de como lhe elRey comtou determinada- 
mente sua temçom, e desy o seguimento de sua door, ataa que a Deos 
leuou deste mundo, ouuirees agora em os seguimtes capitullos. 



25 Como elRey disse aa Rainha determinadamente sua emtemçom, e da 
rreposta que lhe a Rainha deu, e como por aa^o dalguús que alli 
adoeceram de pestenemça elRey partio pêra o moesteiro dOdiuellas, 
e * como a Rainha ficou pêra acabar suas deuaçoóes, e como em A,45v.2 
aquelle dia adoeçeo. Capitullo xxxviij. 

3o "|~^ORQUE toda a primçipall fim dos autores estoriaaes esta no rrecomta- 

I — ^ mento das uirtuosas pessoas, porque a sua clara memoria per 

-^ nehuú perlomgamento de hidade possa seer afastada damte os 

presemtes, a quall cousa por certo traz c-omssigo duas muy proueitosas 

fijns. A primeira em quamto amoesta aaquelles que ueem e oueem o 

4. mumdo A. — 12. despois A. — i3. Iffante A. — 23. desi A. — 24. mumdo A — 
capitólios A. — 32. afastado A. 



— ii8 — 

memoriall das suas iiirtuosas obras, o quall certamente he aquelle espe- 
lho, que Sócrates gramde philosofo mamdaua que os homeés mamçebos 
esguardassem a meude, por tall que os boõs feitos de seus amteçessores 
fossem a elles proueitoso emsino. ca assy como no beesteiro nom pode 
seer conhecida auamtagem, se amte que faça seu tiro nom teem certo 5 
sinall. assy nehuú boom homem nom poderia obrar perfeitamente ho auto 
dalguúa uirtude, se nom trouuesse amte os olhos a jmagem dalguíã tam 
uirtuoso, cuja proueitosa emueja lhe mostrasse o uerdadeiro caminho pêra 
cheguar aa fim de seu deseio. A segumda fim he porque sse os homeês 

A,46, r, 1 semtissem que pollo falleçimento de sua *uida, se acabaria toda sua rre- lo 
nembramça, certamente nom sse poeriam a tam gramdes trabalhos e 
perijgos, como ueemos que sse manifestamente poõe. a quall cousa foy 
o pnmçipall aazo per que os primeiros autores se esforçaram a compoer 
estorias. Ca naturallmente toda criatura rresoauell deseia duraçam, por 
cuja rrezam os primeiros philosofos, semtimdo este naturall deseio, pem- i5 
ssamdo que a morte nom uijnha aos homeés per ley determinada, soo- 
mente por corrompimenio dos humores, sse trabalharam mujto de bus- 
car certo artefiçio, per que os manteuessem em duraçam, hordenamdo 
proueitosas uiamdas segumdo a callidade das compreissoões. e assy bus- 
caram leitoayros e meezinhas, per que arredassem as emfirmidades do 20 
corpo, mas depois que conheceram que em aquello nom auia nehuú pro- 
ueito, disseram que por quamto o homem era feito de mujtos comtrairos, 
que per necessidade auia de falleçer. E Aristotilles, que desto tomou 
muy espiçiall cuidado, disse naquelle liuro que sse chama segredo dos 
segredos, que emuiou a Alexamdre açerqua da fira de seus dias, que çer- 25 

A,46,r,2 tamente elle se marauilhaua do homem que comia pam* de trijgo e carne 
de dous demtes, poder naturallmente falleçer. E depois que os homeés 
determinadamente conheceram que per ssy meesmos nom podiam durar, 
buscaram certas maneiras de semelhamça, per que elles fossem aos pre- 
semtes em certo conhecimento. Huús tezeram tam gramdes sepulturas jo 
e assy marauilhosamente obradas, cuja uista fosse aazo de os presemtes 
pregumtarem por seu possuydor. Outros fezeram ajumtamento de seus 
beés auemdo autoridade deirrey, per que o fezessem moorgado pêra ficar 
ao filho mayor, de guisa que todollos que daquella linhagem deçemdessem, 
ouuessem rrezam de sse lembrarem sempre daquelle que o primeiramente 33 
fezera. Outros sse trabalharam de fazer tam exçellemtes feitos darmas, 
cuja gramdeza fosse aazo de sua memoria seer eixemplo aos que depois 



2. mancebos A. — 4. fosse A — assi A. — 6. assi A. — 19. assi A. — 3i. assi A. 



— 119 — 

uiessem, por cuja rrezom homrrauam mujto todollos autores das taaes 
cousas, como diz Vallerio que fazia Cepiam a Lucano, e assy outros 
mujtos aos seus autores. E porem dezia Alexamdre ho gram rrey de 
Macedónia, que elle seria bem comtemte de trocar a prosperidade que lhe 
i os deoses tijnham aparelhada, e afastar sua maão de toda* parte que lhe A,46,v, i 
no çeeo podiam dar, por auer huií tam alto e tam sumrao autor pêra seus 
feitos, como ouuera Achilles em Omero poeta. E huií rromaão seemdo 
pregumtado em huú comuite, qual! era a cousa que mais deseiaua, disse 
que saber certamente que depois de sua morte seus feitos seriam assy 

!o compridamente escpritos como os elle fezera. Creo que o dezia, porque 
fora três uezes leuado no carro do triumpho, e ouuera homze coroas, 
daquellas que sse dauam aaquelles que primeiramente emtrauam em 
alguúas cidades ou villas, ou gramdes nauios quamdo era em pelleia de 
mar. E nom soomente filharam os amtijgos cuidado descpreuer os 

i5 feitos dos uirtuosos homeés, mas ajmda das uirtuosas molheres, assy como 
sse acha nas estorias da Briuia da rrainha Ester e de Judie, e assy nas 
obras de Tito Liuio de Lucrécia de Virgínea e doutras semelhamtes. E 
sse estes autores assy quiseram rrenembrar os feitos uirtuosos, daquesta 
pequena culpa mereceremos nos ao diamtc escpreuemdo ho acomteçi- 

20 mento e uirtuosa fim desta Rainha, cujas gramdes uirtudes ssom dignas 
de gramde memoria. Ja dissemos a maneira como lhe seus filhos falla- 
ram, e como lhe elRey fallara em Simtra, e * como sua hida e do Iffamte A,46,v,2 
Duarte nom ficara posta em determinaçam. Ora sabee que depois que 
elRey de todo teue seus feitos auiados pêra partir, queremdolhe deter- 

25 minadamente declarar sua uoomtade, estamdo huú dia follgamdo na 
camará da dita senhora, seemdo hl açerqua de seu estrado Briatiz Gom- 
çalluez de Moura e sua filha Meçia Vaasquez, começou eIRey de hor- 
denar suas departiçoÕes per tall guisa, que chegou aa comclusom de sua 
uoomtade. Senhora disse elle, como quer que ao tempo, que me 

3o fallastes açerqua da hida de nossos filhos, eu por estomçe nom determi- 
nasse soomente a hida do Iffamte Dom Pedro e do Iffamte Dom Hamrri- 
que, e pêra elles primçipallmente hordeney todo este feito, comsijramdo 
como faria gramde agrauo a nosso filho o Iffamte Duarte, seemdo 
elle de tall hidade e tam deseioso de prouar sua força, nom horde- 

35 nar como elle fosse em tall feito, e desy a mim nom seria bem cabido 
de os mamdar assy sem minha presemça, pois per graça de Deos 

I. homrrariam A, honrauão I. — 1-2. taaes cousas] B I, lac. A. — 2. a Lucano] prec. 
lac. — 7. archilles A. — 9. assi A. — i5. assi A. — 16. assi A. — 18. assi A. — 23. despois 
A. — 35. desi A. 



som em tempo de lhe poder mostrar a emsinamça, que apremdi de semc- 
Ihamtes feitos por comtinuaçom de raujtos dias, e sofrimento de gram- 

A,47.r, 1 des trabalhos e mujtos perijgos. e pêro que uos alguúas uezes tocasse 
açerqua da uoomtade que tijnha dhir neste * feito, agora uolla declaro, 
que a Deos prazemdo, eu emtemdo dhir e leuar comiguo assy o Iffamte 5 
como seus jrmaãos. E como quer que a Rainha dos outros dias pas- 
sados semtisse a uoomtade que elRey trazia dhir naquelle feito, ouuym- 
doo assy determinadamente, nom pode soster sua comtenemça, que nom 
mostrasse em ella, que auia gramde semtimento. ca posto que assy 
fosse uirtuosa como ja ouuistes, a natureza das molheres em semelhamtcs lo 
casos nom pode seer tam esforçada, que nom faça mouer o coraçom a 
alguúa tristeza, mas Briatiz Gomçalluez e sua filha, ouuimdo aquellas 
pallauras, soltarem de todo seus olhos em lagrimas. E a Rainha tor- 
namdo a sua rrezom, disse a elRey, nom como cabia dizer a molher, mas 
como quem fallaua per rrespeito daquella linhagem de que deçemdia. i5 
^'erdade he senhor disse ella, que eu uos pedi que mamdassees uossos 
filhos em este feito, e uos disse loguo emtom, quamto me parecia seer 
rrazoado de uos nom hirdes. e de uos agora mamdardes o Iffamte 
segumdo dizees, conheçemdo quamto lhe he compridoyro, como quer que 
gramde semtimento por ello ouuesse, meu geesto numca o poderá mos- 20 

A,47, r,2 trar. Mas a uossa hida me faz que me nom abaste ssiso nem emtemder, 
pêra me rreteer de nom mostrar * o que semtia. Mas pois uos por bem 
ouuestes e auees dhir, a Deos praza que uossa hida emderemçe per 
tall guisa, que seia mujto a seu seruiço e uossa homrra e de uossos filhos 
e bem de uossos rregnos. E desy comtra as outras que estauam cho- 25 
ramdo com gramde semtido. Amigas nom auees porque chorar, porque 
o choro em taaes casos nom he cousa que aproueite, amte uos rroguo 
que daqui em diamte husemos do que a nos e a nosso offiçio perteeçe, e 
esto he emcomemdarmos a Deos este feito mujto aficadamente fazemdo 
taaes obras e beês, per que mereçamos seer ouuidas. e nom tam soo- 3o 
mente ajmda per nos, mas per todas aquellas pessoas, per cujo uirtuoso 
merecimento simtamos que este feito pode seer ajudado, ca certo he que 
em taaes cousas presta mujto a oraçom, segumdo se mostrou nos feitos 
da ley amtijga, que polia oraçom que fazia Mouses, quamdo o pouoo dos 
Judeus pelleiaua, rreçebiam mayor ajuda, que per suas próprias forças. 3j 
E nos assy oremos menos preçamdo todo trabalho e camssaço que sse 
nos em ello possa seguir, façamos outros beês, per que nossas oraçoÕes 

4. de hir A — assi A. — 7. assi A. — 8. assi A. — 17. mandardes A. — 22. dehir A. 
24. desi A, disse I. — 35. assi A. 



seiam dignas de seer ouuidas amte Deos. e esto he milhor que espar- 
gimento de lagrimas nem outra nehuúa* maneira de gramde tristeza. E A,47,v, i 
acabamdo esto disse a elRey. Senhor, eu uos peço por merçee que sse 
me Deos quiser dar dias de uida, que chegue ataa o tempo de uossa par- 
5 tida, que uos façaaes uossos lilhos caualleiros presemte mym, ao tempo de 
uosso embarcamento com senhas espadas, que lhe eu darey e com a 
minha beemçam. ca posto que seia dito, que as armas das molheres em- 
fraqueçem os coraçoões dos caualleiros, bem creeo que segumdo a gee- 
raçom de que eu uenho, numca seram emfraqueçidos por as rreçeberem 

IO de minha maão. Ao que elRey rrespomdeo que lhe prazia mujto. E a 
Rainha mamdou no outro dia chamar Joham Vaasquez dAlmadaã, ao 
quall disse que lhe mamdasse fazer três espadas, e as mamdasse guarne- 
cer muy rricamente douro e daliofar e de pedras preciosas, e que tamto 
que fossem acabadas que lhas trouxesse. E desy proseguimdo ella em 

li suas oraçoões, tamto que era manhaã loguo sse hia aa egreia, homde 
estaua ataa o meo dia. e tamto que era uespera loguo sse a ella tornaua 
outra uez, e assy estaua ataa noute, que sse tornaua pêra sua casa. 
homdé a despesa do seraão nom era em damças nem em outros nehuijs 
desemfadamentos deste* mundo, soomente em sprituall comtemplaçom. A,.i7,v,2 

20 E aalem desto mamdou a Rainha per mujtos moesteiros gramdes esmo- 
llas, e assy a outras alguQas pessoas que ella sabia que eram de boa uida, 
emcomemdamdolhe que toda sua primçipall emtemçom fosse emcomem- 
dar a Deos, que lhe prouuesse por sua piedade trazer aquelle feito a pro- 
ueitosa fim. E estamdo assy alguús dias, seguiosse que adoeceram algu- 

25 úas pessoas de pestenemça em aquelle lugar de Sacauem. e esto era por- 
que a pestenemça amdaua muy gramde em Lixboa, como ja ouuistes. e 
por seer tam preto, a comuersaçom da gemte que era necessário que 
teuesse huiJa com a outra segumdo a necessidade do tempo, nom podia 
seer que o dito lugar fosse lomgamente liure daquelle padecimento. E 

3o como elRey soube que assy alli adoeceram aquellas pessoas, disse aa 
Rainha que seria bem que sse partissem loguo amte de comer. Senhor 
disse ella, uos uos podees partir, e eu depois que acabar meus offiçios, me 
partirey. ca molher tam uelha como eu, nom deue auer medo de peste- 
nemça. E esto dezia a Rainha, porque ella era emtom de hidade de çim- 

35 quoemta e três annos. Pois que senhora disse elRey, uos assy querees, 

podello fazer, mas peçouos que o mais cedo *que poderdes, uos partaaes A,4>^,r, i 
deste lugar. E emtom sse partio elRey caminho do moesteiro dOdiue- 

14. desi A. — 17. assi A. — 19. mumdo A — spúall A. — 21. assi A. — 24. assi A. — 
3o. assi A. — 35. assi A. 
16 



lias, e a Rainha nom quis partir ataa meyo dia, como )a dissera. E 
estamdo assy cm na egreia, lhe deu a door de pestenemça. nom porem 
que ella semtisse que era semeliiamte emfirmidade, soomente maginaua 
que seria alguúa outra door, que lhe uijmria por parte de sua fraqueza, 
segumdo lhe ja outras uezes uiera. E assy partio caminho do dito 
moesteiro. 



Como o Iffamte Dom Hamrnqiie e o comde Dom Affomsso chega- 
ram a Ociiitellas, e como sse a door acreçemtou na Rainha. 
Capihdlo xxxix. 



H 



E aguora pêra fallar como as nouas foram tam asinha a clRey, como lo 
sse a Rainha semtia. ca por aazo daquelle aar corruto que assy 
amdaua, nom podia nemguem semtir nehuúa emfirmidade, que 
loguo poUo presemte cuydasse que era outra cousa. Mas tamto que a 
Rainha chegou, loguo a elRey foy ueer, assy como aquelle que de sua em- 
firmidade tijnha ma3'or cujaiado que outra nehuúa pessoa. E mujto foi i5 
ledo quamdo lhe achou tam boa mostramça de comtenemça, polia quall 

A,4S,r,2 lhe pareçeo que sua emfirmidade nom era cousa de nehuú perijgoo. *E 
em este emsseio, seemdo ja porem passados três dias da emfirmidade da 
dita senhora, chegou hy o Iftamte Dom Hamrrique e o comde Dom 
Affomsso, com todollos outros senhores e fidallgos que uijnham em sua 20 
frota, os quaaes loguo no dia seguimte que cheguaram a Restello, forom 
a Odiuellas fazer rreueremça a elRey e aa Rainha e ao Iffamte Duarte. 
E muy graciosamente forom rreçebidos delRey, e espiçiallmente o Iflamte, 
ca mujto ledo fora elle, quamdo no dia passado lhe fora comtado poiio 
meudo, como a frota uijnha do Porto, e a hordenamça que trazia, e sobre 25 
todo a gramde dilligemçia que o Iftamte teuera em dar a todo auiamento. 
Bem parece meu filho disse elle, que o emcarrego que uos eu dey, nom 
foy filhado per uos como per homem de uossa hidade, ca segumdo me 
comtarom, toda uossa frota ueem muy bem auiada, como per homem 
que teem uoomtade de me seruir e acreçemtar em sua homrra. e bem 3o 
podees dizer, que teuestes mayor dilligemçia em uosso corregimento, do 
que o nos teuemos no nosso, pois que fostes prestes primeyro que nos. 
Emtom. forom fallar aa Rainha, da quall a força do gramde prazer fez 

A,4^,v, I escomder ho* padecimento da emfirmidade. ca assy o rreçebeo com tam 

2. estando A — assi A. — 5. assi A. — 11. assi A. — i3. presente A.— 14. assi A. — 18. 
emsejol, asseio A — jníirmidade A. — 21. foram A. — 23. foram A. — 28. foi A— come A. 



— 123 — 

boa comtenemça, que pouco parecia molher semtida de tamanha door. 
Mas da lediçe que o Ifiamte Duarte trazia, era cousa que poderia pollo 
presemte seer mall comtada. porque ajmda ata aquelle tempo sua hida 
esteuera emcuberta, per a guisa que esteuera a delRey. por cuja rrezam 
5 lhe fora necessário, posto que elle bem soubesse que auia dhir, mostrar 
fimgida tristeza, por fazer creer aos outros a çertidom de sua ficada. 
Nem tijnha outrossi ousio dauiar nehuús corregimentos de sua pessoa por 
arredar todollos aazos, per que aquelle segredo podesse seer comrrompido, 
soomente quamto mamdara a Joham Vaasquez dAlmadaã que fezesse 

jo correger muy bem a sua gallee, por quamto hordenaua dhir em ella. E 
assy com aquella lediçe e boa uoomtade que trazia, rreçebeo seus jrm.aãos 
e toda a outra boa gemte que com elles uijnha. e por certo nom era 
emfimgida a boa uoomtade que elle naquelle feito trazia, per a quall se 
podia conhecer parte da gramdeza de seu coraçom. E posto que o 

i5 tempo fosse pequeno, nom lhe falieçeo nehuija cousa pêra seu corregi- 
mento. ca tam bem e tam compridamente ouue todallas cousas, que per- 
teeçiam pêra corregimento * de sua pessoa, como sse des o começo daque- A,48,v,2 
lies feitos mamdara hordenar seu corregimento. E bem he de creer, que 
sse a doemça da Rainha nom fora, que ajmda o Iffamte Dom Hamrri- 

20 que fora delle mujto milhor agasalhado, ca alem do gramde amor que 
lhe auia, mujto sse desemfadara em fallar no começo daquelles feitos, de 
como os Deos trouxera por sua graça a tempo de os poderem proseguir. 
Ja o Iflamte Dom Pedro aaquelle tempo estaua na frota, como aquelle 
que tijnha a capitania de todallas naaos. e assy tijnha a sua naao certo 

25 sinall, per que ouuesse de seer conhecida amtre todallas outras, ca leuaua 
huú gramde estemdarte, auamtajado de todollos outros, e huQ foroll de 
noute segumdo custume. mas a capitania de todallas gallees era JelRey. 
E depois que o Iffamte Dom Hamrrique fallou aaquelles senhores, torna- 
romsse ambos os Iftamtes e comde pêra a frota, pemssamdo que a 

3o doemça da Rainha nom era aquella que depois pareçeo. ca loguo no dia 
seguimte o Iff"amte Duarte mamdou chamar os Iflamtes seus jrmaãos, 
fazemdolhe saber, como a Rainha sua senhora e madre sse semtia mujto 
mall. Os quaaes loguo trigosamente cauallgaram e se forom a * Odiue- A,4o,r, i 
lias, domde numca depois partirem ataa o acabamento da dita senhora. 

35 Nem foy sua tristeza pequena quamdo cheguaram aa Rainha, e a acha- 
ram tam aficada da door, tomamdo muy gramde cuidado de a seruir 
assy em aquelle presemte, como depois, e de lhe fazer buscar todollos 

IO. quanto A — em] com A I. — 24. capitonia A. — 25. antre A. — 27. capitonia A. 
28. despois A. — 33. foram A. — 37. assi A. 



— 124 — 

rremedios que ssc podiam achar pêra aliuamento de sua emfirmidade. 
E posto que todos gramde cuidado dello teuessem, o primçipall emcarre- 
guo era do líiamte Duarte, o quall com gram dilligemçia numca podia 
dar seu cuidado a outra cousa, senam a pemssar e rrequerer todallas 
meezinhas e cousas que perteeçiam pêra rremedio da Rainha. Nom ssey 5 
diz o autor, em quamtas maneyras louue tamta uirtude de primçipes. por 
certo se o próprio emtemdimento daquelle preçepto, que foy escprito 
na segumda tauoa que diz, que aquelle que homrrar seu padre e sua ma- 
dre uiuera lomgamente sobre a terra, he quamto a esta uida corporall, 
bem creo que estes deuiam compridamente seer aquelles. Certamente lo 
assy forem sempre obediemtes a elRey seu senhor e padre e aa Rainha 
sua madre, que nem aquelle filho de Vemturia CorioUa, de quem Vallerio 
faz memçom, nem outros nehuús que seiam emmentados na escpritura, 
A,49,r/2 nom* sse podem jguar a estes. E esto nom emtemda alguú que sse diz 

por fallar de graça, ca eu que esta estoria escpreui, lij muy gram parte '5 
das crónicas e liuros estoreaaes, e numca em elles achey semelhamte. 
Todollos outros cuidados da guerra em aquelles dias forom esqueeçidos. 
e soomente a ocupaçom era em ouuir físicos e çellorgiaães, e em fazer 
poer em execuçom todallas cousas, que elles hordenauam pêra saúde 
daquella senhora, como quer que seus rremedios e trabalhos pouco 20 
prestassem, porque a door se acreçemtaua mujto mais aa Rainha, ca a 
determinaçom da fim nom teem alguú certo rremedio, ca escprito he. 
Posuisti términos eius etç. Da quall cousa elRey estaua muy anojado, 
como aquelle que conhecia a perda que sse lhe seguia per morte de tam 
boa molher, com a quall auia uijmte e sete annos que estaua casado, ssem 25 
nehuú amtrepoimento de desacordo, que amtre elles ouuesse, amte 
mujto amor e comcordia como ja ouuistes. E tamanho era o semtido 
que elRey tomaua polia emfirmidade da Rainha, que sse lhe priuaua o 
comer e dormir, por cuja rrezam mujtos presumiam que sse lhe segue- 
ria alguíja gramde emfirmidade por aquelle aazo, se nom fora o seu 3o 
gramde esforço. 



I. aliuiamemo I. — 2. prinçipall A. — 1 1 . foram A. — 17. foram A. — 25. uijnte A. 



— 125 — 

Como a Rainha aiiia nerdadeiro conhecimento da sua morte, e das A,49,v.i 
obras que açerqua dello fa^ia, e como deu o lenho da cru^ a seus 
filhos. Capitullo R. 

JA falley em outro luguar daquella semtemça do philosofo, como todo- 
llos homeés naturallmente desciam saber, e falley tam soomente 
deste naturall deseio, quamto aas cousas corporaaes, assy como 
cousas que ssom dadas ao homem como primçipios do uerdadeiro saber. 
Ca toda sabedoria em este mundo seria de pouco uallor, soomente em 
quamto per ella podemos cheguar aaquelle uerdadeiro conhecimento das 

ío obras, per que a alma rreçebe saluaçom, porque todo saber sem Deos nom 
he saber, porem toda a fim da uirtuosa uida he no uerdadeiro conheci- 
mento de Deos. E porque ja mujtas uezes falíamos das gramdes uirtu- 
des que auia em esta Rainha, he de saber como lhe nosso Senhor Deos 
quis dar conhecimento do uerdadeyro saber, mostramdolhe a escuridade 

i5 da presemte uida per jmtrimsico amor, que lhe deu de ssi meesmo com 
certo conhecimento da fim da sua uida. E posto que o juizo dalma seia 
soomente no comspeito de* nosso Senhor Deos, o quall segredo quis que A,4g,v,2 
nom soubesse nehuúa pessoa uestida em esta carne humana, todollos 
sabedores, espiçiallmente sam Thomas, que por comtemplaçom diuin;Ul 

20 sobio ao monte do uerdadeyro saber, tem que quando a criatura açerqua 
de sua fim ha uerdadeyro conhecimento do Criador, e se arrepemde 
amargosamente dos seus peccados, que o juizo deste he uerdadeyra salua- 
çom. O quall signall sse pode conhecer per aquelles, que era semelhamte 
tempo fallom com seus abades quaaesquer falleçimentos que semtem em 

25 sua comçiemçia, segurado aquelle samto comsselho que o propheta em- 
ssina no sallrao dizemdo. Eu tornarej' per todollos meus annos atras, 
alimpamdo as amtredanhas da minha comçiemçia pêra te rrecoratar as 
amarguras da rainha alma. Per o quall arrepemdimento poderemos uer- 
dadeiramente saber, como aquesta sarata Rainha cobrou a uerdadeyra 

3o beraauemturamça. ca posto que mujto a meude fosse comfessada em 
todollos outros tempos, depois que sse assy a emfirmidade esforçou em 
ella, fallou muy compridamente com seu abade, e em satisfaçom dal- 
guús emcarregos se os tijnha,* mamdou fazer mujtas esmollas e outras A,5o,r,i 
gramdes obras de piedade, dizemdo mujtas rrezoões em arrepemdimento 

35 de seus peccados, as quaaes faziam gramde.comtriçom aaquelle seu cora- 
fessor. E acabado esto fez chamar seus filhos, e disselhes. Deos sabe 

3. R] quoremta A. — 4. phillosofo A. — 8. mumdo. — i3. esta Rainha I, este Rey A. 
— vestida A. — 3i. despois A. 



— 126 — 

camanho deseio sempre tiue de ueer a ora, em que uos uosso padre 
fezesse caualleiros. e pêra ello mamdey fazer e guarnecer três espadas. 
e pois a Deos apraz que eu em este mundo nom ueia tamanho prazer, elle 
seia louuado por todo. E loguo mamdou saber parte, se lhe emuiara ja 
Joham Vaasquez as ditas espadas, e disseromlhe que nom. Pois disse 5 
ella. Vaão loguo trigosamente a Lixboa, e façammas trazer. Quisera 
meus filhos, disse ella comtra os Iffamtes, daruos agora as espadas, em que 
uos amte falley, mas por nom seerem aqui, leixo de uollas dar. empero 
daruos ey agora o uerdadeyro escudo da fortelleza e defiemssom, que he 
o lenho da uera cruz. e de menhaã a Deos prazemdo, uos darey as espa- lo 
das. E emtom mamdou trazer huúa cruz daquelle uerdadeyro paao, em 
que nosso Senhor Jesu Christo padeçeo, e partio em quatro partes, se- 
gumdo os quatro braços que estam na cruz. e deu a cada huij dos Iffam- 
A,5o,r,2 tes* seu braço, e o quarto guardou pêra elRey seu senhor. Meus filhos 

disse ella, eu uos rroguo que uos rreçebaaes esta preciosa jo3'a, que uos eu i5 
dou com gramde dcuaçam, e que creaaes perfeitamente na gramde uir- 
tude que Deos em ella pos, e como he perfeito rremedio pêra todollos 
perijgos dalma e do corpo, e quem nella teem uerdadeira feuza, cobra 
escudo firme e forte pêra sua deffemssom, comtra o quall nom pode em- 
peeçer nehuij emmijgo sprituall nem temporal!, espiçiallmente comtra os 20 
jmfiees. E nom tam socmente he deffemssom comtra elles, mas ajmda 
destroimento, segumdo se comta no seu offiçio o quall diz. ffugij partes 
auersas. ca uemçeo ho liam, o quall he Jesu Christo que nella padeçeo. 
E eu uos rroguo filhos, que sempre comtinuadamente o comuosco quei- 
raaes trazer, ca nom sabees os dias nem as horas dos perijgos. E elles 25 
lhe beyiarom as maãos, e lho teuerom mujto em merçee, em fim do quall 
lhes lamcou a sua beemcam. 



Como a Rainha deu as espadas aos Iffamtes, e das rre\oÓes que lhes 
disse a cada hiai, quamdo lhe daua a sua espada. 

Capitullo Bj. 3o 



z 



A,5o,v,i r--yELLO de gramde amor mostrou sempre a Rainha* aos Iffamtes, espi- 
çiallmente açerqua deste tempo em que fallam.os. a quall cousa 
per elles foy sempre mujto conhecida, espiçiallmente aquelle lenho 
da cruz, que lhe assy foy dado, o quall elles filharam com muy gram 



?. mumdo A — nom] om. A, nom I. — 7. as] om. A, as I. — 12. JhOxpo A. — 20. spQall 
A — contra A. — 23. Jhfl xfJo A. — 25. perijgoos A. — 34. assi A — foi A. 



127 — 

deuaçom, e assy o trouxeram sempre comssiguo em todollos dias de sua 
uida. E tarato o trazia comtinuadamente o Iffamte Duarte, que depois de 
Rey, ao tempo do seu finamente o soterrarem com elle, e depois de muytos 
dias foi nembrado que o leuaua comssigo, e foy necessário de abrirem a 
b coua em que jazia, pêra lhe tirarem o dito lenho, o quall ouue a rrainha 
sua molher. E o Iftamte Dom Pedro nom sabemos que maneyra teue 
com o sseu, empero bem he de creer, que homem tam cathoilico como 
elle era, nom partiria de ssy cousa tam boa nem tam samta. Mas do 
Iffamte Dom Hamrrique podemos nos dar certo testimunho, porque ao 

IO tempo que escpreucmos esta estoria, elle auia hidade de çimquoemta e 
seis annos, ffallamdo açerqua desto nos disse, que numca lhe nembraua, 
depois que lhe o dito lenho fora dado, que o teuesse fora de ssy, soo- 
mente huú dia, que o tirara per esqueeçimento em desuestimdo a camisa. 
E ouuimos depois* a Luis de Sousa, claueiro dordem de Christo, seu A,5o,v,3 

i5 camareiro moor, e filho de Gomçallo Roiz de Sousa, que quamdo sse o 
dito Iffamte finou, que lhe tirara o dito lenho da cruz, e o dera a elRey 
em Euora com o sinete e o seu liuro de rrezar. E em acabamdo assy 
estas cousas, chegou hi Joham Vaasquez dAlmadaã, que trazia feitas e 
guarnecidas aquellas espadas em que ja falíamos, com as quaaes mujto 

20 prouue aa Rainha pêra com ellas comsseguir seu boom propósito. E 
tamto que as teue em seu poder, fez cheguar pêra açerqua de ssy seus 
filhos, e tomou a espada maj^or, e disse comira ho Iftamte Duarte. Meu 
filho, porque Deos uos quis escolher amtre nossos jrmaãos pêra seerdes 
herdeiro destes rregnos, e teuessees o rregimento e justiça delles, a quall 

25 uos ja elRey uosso padre tem cometida, conheçemdo uossas uirtudes e 
boomdades, tam compridamente como sse ja fosse uossa, eu uos dou 
esta espada, e uos emcomemdo, que uos seia espada de justiça pêra rre- 
gerdes os gramdes e os pequenos destes rregnos, depois que a Deos prou- 
uer que seiam em uosso poder, per falleçimento delRey uosso padre, e 

3o uos emcomemdo seus pouoos. e uos rroguo que* com toda fortelleza A,5i,r,r 
seiaaes sempre a elles deftemssom, nom comssemtimdo que lhe seia feito 
nehuú desaguisado, mais a todos comprimento de dereito e de justiça. E 
ueedes filho, como diguo justiça, justiça com piedade, ca a justiça, que em 
alguúa parte nom he piedosa, nom he chamada justiça mas cruelldade. 

35 E assy uos rroguo e emcomemdo que queiraaes seer com ella caualleyro. 
E estas espadas mamdei assy fazer pcra as dar a uos e uossos jrmaãos 
amte de uossa partida pêra uos elRey meii senhor fazer com ellas caua- 

1. assi A. — 2. dcspois A — de I, om A. — 3. de I, om A. — 14. xpõs A — 3i. com- 
sscmtindo A. — 36. assi A. 



— 128 — 

lleiros presemte mym como ja disse, mas a Deos prouue de nom seer 
assy. Porem uos rroguo que sem empacho uos queyraaes filhar esta de 
minha maão, a quall uos eu dou com a minha beemçom e de uossos auoos, 
de que eu deçemdo. E como quer que seia cousa empachosa de os 
caualleiros tomarem armas de maão das molheres, eu uos rroguo que uos 3 
nom queiraaes teer açerqua desta que uos eu dou, semelhamte embarguo. 
Ca segumdo a linhagem domde eu deçemdo, e a uoomiade que tenho pêra 
acreçemtamento de uossas homrras, numca emtemdo que uos por ello 

A, 5i,r,2 empeeçimento nem dano possa uijnr, *amte creo que a minha beemçam 

e delles uos fará gramde ajuda. E o Iffamte Duarte com gramde obe- lo 
diemçia pos os joelhos em terra, e lhe beyiou a maão, dizemdo que elle 
compriria o que lhe ella assy mamdaua com mujto booa uoomtade. O 
que certamente elle numqua esqueeçeo em todos seus dias, amte o com- 
prio mu}' perfeitamente, como adiamte será comtado. E a Rainha ouuim- 
dolhe assy aquellas pallauras prouguelhe mujto, e alçou sua maão e lhe i5 
lamçou a sua beemçam. E depois tomou a outra espada, e chamou o 
Iffamte Dom Pedro, e disselhc. Meu filho, porque sempre des o tempo 
de uossa mininiçe uos ui mujto chegado aa homrra e seruiço das donas e 
domzellas, que he huúa cousa que espiçiallmente deue seer emcomemdada 
aos caualleiros, e porque a uosso jrmaão emcomemdei os pouoos, emco- 2& 
memdo ellas a uos. as quaaes uos rroguo que sempre ajaaes em uossa 
emcomemda. E elle lhe rrespomdeo que lhe prazia mujto, e que assy o 
faria sem nehuúa duuida. E emtom sse assemtou em joelhos, e lhe bey- 
iou a maão, E ella lhe disse que lhe rrogaua que fosse com ella caua- 
lleiro, dizemdolhe outras mujtas rrezoões, como ja dissera ao Iffamte 25 

A,5i,Vji Duarte, e sobre todo lhe lamçou sua* beemçam. Mas he de comsijrar 
com quaaes comtenemças os Iftamtes poderam ouuir semelhamtes palla- 
uras, ca no trautamento de semelhamte rrezoado nom podia seer, que 
escusassem gramde multidom de lagrimas, as quaaes posto que as elles 
forçosamente rreteuessem, suas comtenemças estauam muy tristes ouuym- 5o 
do as pallauras da Rainha, ditas a elles com tamto amor e com tam 
gramde ssiso e conhecimento de sua morte. E ella outrossi ueemdo ho 
gramde semtido, que os filhos auiam de seu padecimento, aalem da sua 
door, auia por ello gramde tristeza. Ajmda nos fiqua por dizer da ter- 
ceira espada, que foi dada ao Iffamte Dom Hamrrique, o quall a Rainha j5 
chamou dizemdo. Meu filho, chegaiuos pêra ca, uistimdo ella sua com- 
tenemça de nova lediçe, e emchemdo sua boca de rriso muy hones- 
tamente, e disse. Bem uistes a rrepartiçom, que fiz das outras espa- 

2. assi A. — 10-1 1. obeditncia A. — 12. assi A. — 22. assi A. — 20. escusasse A. 



— i2g — 

das que dey a uossos jrmaãos. e esta terceira guardey pêra uos, a 
quall eu tenho que assy como uos sooes forte, assy he ella. E por- 
que a huú de uossos jrmaãos emcomemdei os pouoos, e a outro as donas 
e domzellas, a uos quero emcomemdar todollos senhores, *cauallei- A,5i,v,2 
5 ros fidallgos e escudeiros destes rregnos, os quaaes uos emcomemdo 
que ajaaes em uosso espiçiall emcarreguo. Ca pêro todos seiam delRe\', 
e eile delles tenha espiçiall cuidado, cada huii em seu estado, elles porem 
aueram mester uossa ajuda pêra seerem mamteudos em dereito, e lhe see- 
rem feitas aquellas merçees que esteuer em rrezom. ca mujtas uezes 

10 acomteçe, que per emformaçoões fallsas e rrequerimentos sobeios dos 
pouoos os rrex fazem comtra elles o que nom deuem. Pêra o quall 
emcarreguo uos eu escolhi, conheçeindo de uos quamto amor lhe sempre 
ouuestes, e uoUos emcomemdo, porque aalem de uossa boa uoomtade 
uos seia posto por necessidade. Eu uos dou esta espada com a minha 

li beemçam, com a quall uos emcomemdo e rrogo, que queiraaes seer caua- 
lleiro. Nom poderia bem declarar per escprito a gramde tristeza com 
que o Iftamte Dom Hamrrique estaua, porque aalem das boas uoomtades 
de seus jrmaãos, elle auia rrazom de a teer mujto mayor, como no 
seguimte capitullo será comtado. Senhora disse o Iffamte, uossa merçee 

20 seia mujto certa, que em quamto me a uida durar, teerey firme nem- 

bramça de todo aquello que me ora assy * emcomemdaaes, pêra compri- A, 52,r, i 
mento do quall ofereço todo meu poder e boa uoomtade. E emtom lhe 
beyiou a maão, dizemdo que lhe tijnha mujto em merçee aquella espada 
que lhe assy daua, a quall elle nom sabia estimar a nehuii preço. E a 

2b Rainha ouuimdolhe assy aquellas pallauras esforçousselhe a uoomtade 
pêra rrijr, e alçou a maão, e lamçoulhe a sua beemçam. 



Como a Rainha tornou a f aliar outra uei ao Iffamte Duarte, e lhe 
emcomemdou os Iffamtes seus jrmaãos e Briatii Gomçalluei de 
Moura e Meçia Vaa^ sua filha, e assy todallas outras suas cousas. 
3o Capitullo Kij. 

EM mostrou a Rainha em aquellas pallauras, que assy disse ao 

Iffamte Dom Hamrrique, que o amaua espiçiallmente. e por 

tamto dissemos no capitullo amte .deste, que elle auia rrazom de 

teer em ssy mayor tristeza, que nehuú de seus jrmaãos. e podemos 

2. assi (2.°) A. — 8. manteudos A. — ig. capitólio A. — 21. assi A. — 25. assi A. — 
2í). assi A. — 3i. assi A. — 33. capitólio A. 
17 



— i3o — 

ajmda emtemder que a Rainha semtia per diuinall comsijraçom, quaaes e 
queiamdas uirtudes auia dauer o Iffamte seu filho ao diamte. E posto 

A,52, r,2 que ja agora rrazoadamente em ellas podessemos fallar, leixemoUas pêra 
depois por failarmos de cada huúa cousa * em seu próprio lugar. E 
quamto aa emcomemda que lhe sua madre deu, elle a mamtéue tam com- 3 
pridamente como lhe prometeo. e desto som eu bem certa testimunha, 
porque uiuemdo com elRe}' Duarte, cuja alma Deos rreçeba na bemauem- 
turamça do çeeo, ui per mujtas uezes seus gramdes rrequirimentos, que 
fazia por mujtos senhores fidallgos e caualleiros, pellos quaaes rreme- 
diauam seus feitos, e acreçemtauam em suas homrras. Vi outrossi que 10 
ao tempo que a Rainha Dona Lionor foy em desacordo com ho Iffamte 
Dom Pedro, mujtos fidallgos e escudeiros deste rregno forom em tempo 
de sse perder, se nom acharam em elle emparo a ajuda. E sobre todo 
aquello que elle tijnha, numca foi neguado a todos aquelles, que sse a elle 
socorriam, fazemdolhe mujtas merçees a cada huú segumdo seu estado. i5 
E depois que a Rainha ass}' deu as espadas a seus filhos, como ja ouuis- 
tes, disse ao Iffamte Duarte. Filho, eu uos rroguo que pois uos Deos fez 
em este mundo senhor de uossos jrmaaos, que uos tenhaaes espiçiall 

A,5í,v, 1 cuidado delles, e os ajaaes por uossos espiçiaaes seruidores, homrramdoos 

sempre quamto* em uos for, e fazemdolhes aquellas merçees, que mere- 20 
cem de seer feitas a taaes e tam boós jrmaãos, como em elles teemdes, 
porque nom creaaes que outros melhores seruidores que elles podees 
teer. nem queiraaes amte elles prepoer outros nehuús. ca quamdo uos 
nembrar que ssom meus filhos e de uosso padre, que uos tamto ama- 
mos, com rrezam deuees creer, que elles nom podem ali deseiar senam 25 
uossa homrra e seruiço. E posto que alguús por emueia sse emtremetam 
de uos dizer alguúa cousa comtra elles, numca lhe dees comprida ffe, 
amte os ouuy sempre, e bem creo que acharees, que elles numca sse par- 
tem daquella uerdadeira temçom, que deuem teer a seu senhor e jrmaão. 
Por certo diz o autor, esto guardou o Iffamte Duarte muy espiçiallmente, 3o 
o que eu uy muy bem, quamdo o Iffamte Dom Hamrrique ueo de Tam- 
ger, porque alguús daquelles fidallguos que com elle forom, queremdo 
emcobrir seus falleçimentos, deziam alguúas cousas comtra o Iffamte, aas 
quaaes seu jrmaão nom quis dar nehuúa ífe, amte dezia que seu jrmaão 
nom poderia fazer cousa que nom fosse justa e boa. mas que elles o 35 

A, 52,v,2 deziam por se escusar, do que comtra elles rrazoadamente podia seer 
dito. *E nom tam soomente guardaua esto amtre seus jrmaãos, mas 

4. logar A. — 5. quanto A — manteue A. — 16. despois A — assi A. — 18. mumJo A. 
— 20. quanto A. — 23. amtej anatre A, a I. — 3i. Iffante A. — 3i-32. tanger A. 



— i3i — 

ajmda amtre todallas pessoas de seu rregno. ca tamto era elle boom, 
que tarde e per gramde força podia creer nehuú mall de nehuúa pes- 
soa, e bem creo, segumdo ja disse em outro lugar, que nom he esta 
pequena uirtude pêra quallquer primçipe, espiçiallmente pêra aquelles, 

•5 e n cujo rregimento he posta a uara da justiça. Outrossy disse a Rainha, 
uos emcomemdo Briatiz Gomçalluez de Moura e Meçia Vaaz sua filha, 
que ssom molheres que me teem bem seruida, e sabees na comta em 
que as sempre tiue. e assy uos emcomemdo todallas outras minhas ser- 
uidores e criadas. Ao que o Iffamte rrespomdeo, que lhe tinha mujto em 

IO merçee de lhe leixar tall emcomemda, a quall elle comprida o melhor 
que podesse. e que a Deos aprazeria de o ajudar per tall guisa, que sua 
uoomtade e mamdado fosse em perfeyta execuçom. E emtam disse ao 
Iffamte Dom Pedro e ao Iffamte Dom Hamrrique. Filhos, deuees de creer 
firmemente que Deos hordena todallas cousas, como elle ha por bem. e 

i5 todollos boõs deuem de comformar sua uoomtade ao seu querer. E a 
elle prouue por sua merçee de hordenar que uosso jrmaão fosse herdeiro 
deste rregno e uosso senhor, *da quall cousa uos deuees de seer mujto A,53,r, i 
comtemtes, comsijramdo que pois seruidores auees de seer, de o serdes 
de huú uosso jrmaão mais uelho que uos. o quall conhecidamente he tam 

20 boom como uos sabees, e uos tamto ama. e do seu pouco segumdo a des- 
posiçom da terra uos deuees mais comtemtar, que do muito doutro nehuú 
primçipe, ajmda que fosse mayor do mundo, e porem o deuees sempre 
seruir e amar com gram uoomtade e deseio. E os ItTamtes com gramde 
mesura rrespomderam aa Rainha que lhe tijnham mujto em merçee seme- 

25 Ihamte comsselho. o quall elles com a graça de Deos poeriam em obra 
muy compridamente. por que aalem da rrezam a natureza e o samgue 
que com elle auiam, os costramgeria pêra ello. A quall cousa foi per 
elles muy bem guardada, ca em todollos dias do dito senhor o seruiram 
e amaram com gramde uoomtade e obediemçia. 



I. antre A — tanto A. — 2. grande A — nemhuúa A. — 8. asíi A — 21. comtentar A. 
■ 22. mumdo A. — 25. pooriam A. 



— l32 



Como o Jffamte Dom Pedro rrequereo aa Rainha, que fosse sua 

merçee de leixar suas terras aa Jffamte sua jrmaã, e como Ihcforom 

outorgadas. Capitullo Riij. 



N' 



OM me posso partir deste rrazoado, posto que o seu rrecomtamento 
A,53,r,2 j "^1 me cause tristeza, conheçemdo quamto* a sua comtemplaçom he 5 
proueitosa pêra emsinamça daquellas pessoas, que uerdadeira- 
mente querem comsseguir uirtude. Creemos que ja fiqua escprito no 
outro uoUume, em que sse rrecomtam os feitos passados delRey Dom 
Joham, quamtos filhos elle ouue da Rainha sua molher, e como nom 
ouue mais de huúa filha, que depois foy duquesa de Bergonha, a qual! lo 
aaquelle tempo era molher de perfeita hidade. E ueemdo a Rainha sua 
senhora e madre em aquella desposiçom, apartousse dalli com as outras 
senhoras e domzeilas, homde estaua com gramde tristeza rrogamdo a 
Deos polia saúde da dita senhora. E depois que ella assy rrepartio suas 
emcomemdas como ja ouuistes, chegousse a ella Briatiz Gomçalluez de lí 
Moura, e disselhe. Senhora, pareçeme que todoUos do rregno a uosso 
filho o Iffamte auees emcomemdado, e nomteuestes nembramça daiffamte 
uossa filha, que he molher e em tall hidade como sabees, aa quall he mais 
necessário seer emcomemdada a elle, que outra nehuíia pessoa. A meu 
filho, rrespomdeo a Rainha, todallas minhas cousas som emcomemdadas 70 
espiçiallmente minha filha, de que elle sabe que eu tenho tamanho cui- 
A,53,v, 1 dado. e porem nom curey de lhe fallar em ello, semtimdo *que elle he 
tall, que lhe nom fará mimgua de lhe seer mais dito per mym. O Iffamte 
Dom Pedro que hy estaua disse aa Rainha. Senhora, sse uossa merçee 
fosse, a mim parece que seria bem chamarem elRey, e lhe pedirdes que 25 
as terras que uos teemdes, que seia sua merçee de as dar aa Iftamte uossa 
filha pêra seu soportamento, em quamto hi outra rrainha nom ha. E os 
Irtamtes ajudamdo a rrazom de seu jrmaão, disseram que lhe parecia que 
era mujto bem de sse fazer assy. Sobre o quall o Iffamte Dom Hamrrique 
foy fallar a elRey seu padre per mamdado da dita senhora, dizemdo como 3o 
lhe a Rainha emuiaua pedir, que cheguasse a ella pêra fallar com elle 
alguúas cousas que lhe era necessário, no que elRey nom pos nehuúa 
tardamça. Senhor disse ella, de todos quamtos som em este rregno, de 
que eu tenha carrego, eu nom ssey quem uos aja demcomemdar em esta 
ora em que estou, porque de todos semto que teemdes espiçiall cuidado, 35 

5. quanto A. — 14. despois A — assi A. — 17. emcotnendado A. — 19. emcomen- 
dada A. — 2g. .Tssi A. 



— i33 — 

primçipallmente daquelles que meus ssom e me seruiram, segumdo as 
merçees e bem que lhe sempre fazees. bem creo segumdo as gramdes 
uirtudes que Deos em uos pos, que depois de minlia morte Uio farees 
assy * compridamente e ajmda mujto milhor. Mas porque uossa senhoria A,53,v,2 

5 bem sabe, como a Iftamte uossa filha ha ja de sua hidade açerqua de dez 
e noue annos, e como tem forma comprida de molher. e que depois de 
minha morte todallas senhoras donas e domzellas, que amdam em minha 
casa, he necessário que fiquem a ella, e que ella as soporte com a uossa 
merçee e ajuda, porem eu uos peço que as terras que eu de uos tijnha, 

10 que lhe façaaes delias merçee, atee que a Deos praza lhe trazer casamento, 
ou que uenha rrainha a este rregno, ajmda que eu espero em Deos, que 
uos a casarees muy cedo como he rrazom. E como quer que elRey fosse 
homem de tamanho coraçom como ja ouuistcs, poUo gramde amor que 
auia aa Rainha, ouuimdo as suas pallauras nom sse pode teer que nom 

i5 chorasse, e assy com os olhos chcos dagua lhe rrespomdeo. Senhora, 
eu ssom mujto ledo de comprir todo esto que me uos rrequerees. e mais 
ajmda lhe faço merçee e doaçom de todallas joyas e baixella e corregi- 
mentos, que de uos ficarem e a mym perteeçerem. E ella disse que lho 
tijnha mujto em merçee. E a Iffamte que ja hi estaua, lhe* foy beyiar A,54,r, i 

20 a maão, e aa Rainha sua madre, e per semelhamte guisa fezeram os 
Iftamtes todos três que presemte estauam. Nom falíamos aquj do Iftamte 
Dom Joham nem do Iftamte Dom Fernamdo, por quamto os mandara do 
dito moesteiro, por rrazom da dita pestenemça que assy amdaua amtre 
elles. comsijramdo por quamto eram assy moços, que lhe poderia aquelle 

25 aar mais asinha empeeçer, porque huú delles auia quimze annos, e o outro 
doze. e assy ficaram em este rregno com a Iffamte sua jrmaã sob a 
gouernamça do meestre dAuis, a que o rregimento do rregno ficou emco- 
raemdado. E por acabarmos de todo as emcomemdas da Rainha, auees 
de saber que depois que sse assy elRey partio delia e a Iftamte sua 

■jo filha, ficaram os Iftamtes todos três. e o Itíamte Duarte se apartou com 
os fisicos e çellorgiaães pêra fallar com elles em rrazom da cura, que per- 
teeçia aa Rainha sua madre. E ficamdo os outros Iftamtes jumto com 
ella, assy fraqua como ella estaua lhes começou de dizer. Porque sem- 
pre uos uy em huQ amor e uooratade, sem auer amtre uos nehuúa desa- 

35 ueemça per obra nem *pallaura, assy como uerdadeiros jrmaãos, uos rro- A,54,r,2 
guo e emcomemdo, que assy como uos ata aqui amastes, assy uos amees 
daqui em diamte em seruiço de nosso Senhor, e sempre uossos feitos 
hiram de bem em milhor. e nom auera nehuú no rregno que uos possa 

i3. pcllo A. — 22. Itíantc- A. — 3i-32. pertecmçia A. — 35. vos A. — 3ó. assi (bisj A. 



- i34- 

empeeçer. E se fordes desua3Tados e jmmijgos, nom auera em uos a 
lorça que ha, seemdo ambos em huú amor. como claramente podees 
emtemder poUo exemplo da frecha, de que em nossa terra ha huúa estoria, 
em que sse diz. que ligeiramente pode huú homem quebrar huúa e huúa, 
e pêra quebrar mujtas jumtas compre mujto mayor força. E os Iffam'es ? 
lhe disseram que prazeria a Deos, que assy o fariam. E certamente sem- 
pre amtre elles foy gramde amor. e nom tam soomente quamto aas 
uoomtades de demtro, mas ajmda per certos synaaes de fora. ca nos 
motos e deuisas assy tomaram ambos casi huúa semelhamça. ca o 
Iffamte Dom Pedro trazia no seu moto deseio, e a sua erua era carualho. «o 
e o moto do Iffamte Dom Hamrrique era tallamte de bem fazer, e a sua 
A,54,v, I erua carrasco, e ajmda sse acertara, que a rrepartiçom das* terras era 
ass}' jumta huúa com a outra. Mas do que sse depois seguio açerqua 
da morte do lífamte Dom Pedro, fica huú gramde processo pêra sse com- 
tar ao diamte, homde perfeitamente poderees saber, quamto o Iffamte Dom "5 
Hamrrique trabalhou por saluaçom de seu jrmaão. e mujtos que em 
esto fallarom, nom como homeés que emteiramente sabiam a uerdade, 
disseram que o Iffamte poderá dar uida a seu jrmaão, se teuera boa 
uoomtade de o fazer. O que he certo que sse fora comtra outra alguúa 
pessoa, que elle trabalhara em ello como por ssi meesmo. mas comtra 20 
seu Rey e senhor, achou que o nom podia fazer sem quebramtar sua 
lealldade, o que elle dezia que nom faria, nom tam soomente por seu 
jrmaão mas por mill filhos, ajmda que os teuera. nem ajmda por salua- 
çom de ssy meesmo, posto que por sua deffemssom se podesse saluar. 
Das quaaes cousas a obra foy manifesta testimunha. 2-"^ 



Como os Iffamtes pidiram a elRe\^ que sse partisse dal li, e do coni- 

sseílio que acerca dello teueram, e as uisoóes que a Rainha uio amte 

de sua morte. Capitullo Riiij. 



S' 



E quiséssemos julgar determinadamente quall era o lugar, que nosso 
A,54,v,2 ^^ * Senhor tijnha aparelhado a alma da Rainha, bem poderíamos dizer, 3o 
jullgamdo as cousas do outro mundo polias çircumstamçias daqueste, 
que era aquelle omde os bem auemturados teem o seu perdurauell allo- 
iamento. ca dito he per a boca da uerdade, que da auomdamça do 
coraçom falia a boca. porque cada huú numca profetiza, senom daquello 
que deseia. e quem ouuyo taaes rrazoões como a Rainha dezia amte 35 

3. pcllo A. — 6. assi A. — 7. quanto A. — 27. ante A. — 29. logar A. — 3 1 . mumdo A. 



— i35 — 

de sua fim, bem poderia jullgar que as nom fallaua senam per spiritu pro- 
fético, segumdo podees ueer per as seguimtes pallauras. Ca estamdo 
assy, depois que tallou a seus filhos, seemdo elles assy jumto com sua 
cama, começou o uemto de sse esforçar em tall guisa, que o semtiam 
5 aquelles que estauam na casa. e a Rainha pregumtou que uemto era 
aquelle que assy corria. E os Wamtes disseram que era aguiam. Creo 
disse el!a, que boom seria este pêra uossa uiagem. Respomdeolhe o líTamte 
que era o milhor que hi auia. Que cousa tam estranha disse ella, eu 
que tamto deseiaua de ueer o dia de uossa partida, em que pemssaua 

10 tomar tamanho prazer, por rrezam da uoomtade que tenho de ueer uossa 

cauallaria, segumdo compre * a uosso rreall estado, e agora eu seer tama- A,55,r,t 
nha causa da torua delio. e de mais seer certa de a nom poder aqui 
ueer. A Deos prazerá senhora, disse o Iftamte Duarte, que uos o uerees 
tam compridamente como deseiaaes. ca posto que agora seiaaes em 

i5 tall pomto por rrazom de uossa emfirmidade, outros mujtos forom ja 
mujto mais doemtes, e prouue a Deos de lhe dar saúde, assy lhe prazerá 
por sua merçee de a dar a uos, porque nos ueiaaes fazer caualleiros, e 
partirmos nossa uiagem como deseiaaes. A Deos prazerá disse a Rai- 
nha, de me nom dar em este mundo tall prazer, porque emtemdo que 

20 sse mo aqui desse, que me mimguaria alguúa parte da bemauemturamça 
do outro, ca espero na sua merçee, que pois llie praz de eu aqui nom 
auer prazer, de mo dar no outro mundo, homde me será mais proueito 
pêra a saúde perdurauell. E o Iffamte tornou a rrepetir, que todauia ella 
aueria prazer neste mundo, como amte dissera, e ueria o que deseiaua. 

25 E ella como molher, que das cousas temporaaes nom tijnha nehuú sem- 
tido, começou de dizer. Eu sobyrei no alto, e do alto uos uerey. e a 
minha doemça nom toruara* a uossa hida. ca uos partirees per festa de A,55,r,2 
Samtiago. Do que todos forom mujto marauilhados, duuidamdo mujto que 
tall cousa podesse seer. porque dalli ata aquella festa nom auia mais 

3o doito dias. e per nehuú modo podiam cuidar, que sse sua hida podesse 
emcaminhar em tam breue tempo, segumdo a disposiçom das cousas, 
ca sse a Rainha uiuesse, auia mester mais tempo pêra sahir daquella fra- 
queza em que ja estaua, e de rrezam elles nom deuiam fazer nehuú mo- 
uimento, ataa que ella fosse em milhor pomto. e sse ouuesse de morrer, 

35 comuijnha de lhe seerem feitas suas emxequias, como perteeçia a seu 
rreall estado. E parecia a cada huú que esto comsijraua, que era nece- 
ssário de passarem primeiro alguús dias, amte que elRey passasse o sem- 

S.assi A. — 6. assi A. — i6. assi A. — iq. mumdo A. — 20. minguaria A. — 22. mumdo 
A. — 24. mumdo A. — 29. ataa quella A. — 35. perteemçia A. 



— i36 — 

timento de tamanho nojo, pêra auer de tomar comsselho acerqua de sua 
hida. Empero a samta Rainha fallaiia como quem o sabia, ca assy foi 
perfeitamente comprido, como ao diamte será comtado. Porque a ora da 
morte he a mais forte cousa e mais terribeil, que sse pode achar amtre 
todallas cousas do mundo, homde teem mujtos que as almas ssom assy 3 

A,55,v,i apressadas com as jmfernaaes* uisoÕes, que lhe alll aparecem, que o 
espamto lhe faz perder a uerdadeira fortelleza. ca posto que nossa Senhora 
fosse tam fora de peccado, como todos uerdadeiramente creemos, nom 
pode comssemtir na dita ora em semelhamtes uisoões, segumdo se lee, 
que pedio ao seu filho que lhas nom mostrasse, pois quamdo ella que he lo 
madre de Deos e a mais samta amtre todallas criaturas, teue este rreçeo. 
que pemssamento deue seer o nosso, quamdo pemssarmos o estado em 
que somos, primçipallmente os primçipes terreaaes que tamanho lugar 
teem de pecar, os quaaes posto que mujto uirtuosos seiam, nom podem 
porem segumdo diz Sallamam, amdar de cote sobre as brasas, que nom i5 
escalldem seus pees, nem trazer o foguo em seu seeo, que sse lhe nom 
queimem os uestidos. Pollo quall se escpreue no apocallipsse. Nome 
teés que uiuas, e es morto, e porem ham perijgoso porto. Ca assy 
como o gramde nauio e mujto carregado ha mester mais sabedores e 
fortes marinheiros, que outro mais pequeno, assy comuem aos gramdes 20 
senhores sobre os outros homeés. e deuees porem de creer, que assy 

A,55,v,2 como* elles teem liure poder sem prema de nehuú superior pêra peccar 
em esta uida, assy teem gramde meriçiménto na outra aquelles que per 
uirtude o leixam de fazer, e assy lhes he ma3'or exçellemçia prometida 
no outro mundo, segurado uerdadeiro testimunho do euamgellista que 25 
disse. Que rrespramdeçiam assy como soU. E mujtas estorias ha hi de 
mujtos e gramdes primçipes, porque Deos fez mujtos millagres. assy 
como sse acha daquella samta Rainha Dona Isabell, que foy molher del- 
Rey Dom Denis, que jaz em samta Clara de Coymbra, aa quall foy rre- 
uellado o dia da sua morte, e delRey Dom Pedro, que seemdo partido 3o 
desta uida, per boom espaço tornou a sua alma outra uez aa carne pêra 
comfessar huú soo peccado, sem cuja penitemçia nom podia rreçeber bem 
auemturada gloria. E esta Rainha Dona Fellipa, que estamdo naquelle 
pomto que ja ouuistes, lhe apareçeo nossa Senhora pêra lhe dar uer- 
dadeyro esforço pcra passagem daquella hora forte, ca depois destas 35 
cousas que ja dissemos, ella emderemçou seu rrostro pêra cima, teemdo 

A,56,r, I seus olhos dereitamente comtra o çeeo, sem nehuú * mudamento de com- 

5. mumdo A. — G. jnfernaaes A — visoões A. — 17. pello A. —20. assi A. — 23. assi A. 
— 24. assi A. — 25. mumdo A. — 26. assi A. 



- .37- 

tenemça. e fo}' uisto em ella huú aar todo cheo de graça, o quall todos 
uisiuellmente conheciam que era sprituall, jumtamdó suas maãos, como 
teemos em custume de fazer quamdo ueemos o corpo do Senhor, e 
disse. Gramdes louuores seiam dados a uos minha Senhora, porque uos 
5 prouue do alto me uijrdes uisitar. E ass}' filhou a rroupa que lijnha sobre 
ssy, e a beyiou, como sse beyiasse luiúa paz. Quamdo os Iftamtes uijram 
assy estas cousas, conheceram bem que aquelles eram os derradeiros 
synaaes do conhecimento da morte de sua madre, e comsijraram que 
seria gramde empeeçimento, se eIRey sfíu padre alii esteuesse. ca sabiam 

10 mujto certo, segumdo o gramde amor que lhe auia, que estamdo alli 
quamdo ella morresse, que nom poderia teer aquella temperamça, que lhe 
compria pêra guarda de sua saúde, e foromsse a elle assy jumtamente 
dizemdo. Senhor, porque semtimos que a senhora Rainha he era tall 
pomto, que em breue tempo fará fim de sua uida, pareçenos que he bem 

i5 que uossa merçee sse parta daquy pêra alguúa parte, porque o mall nom 
aja rrazom de seer mayor, sobreuimdouos alguíía gramde emfirmidade 
* pollo aazo de uosso gramde nojo. o quall com menos pena semtirees nom A,56,r,2 
teemdo amte os olhos a força do caso, porque o auees de semtir. E bem 
uos parece, rrespomdeo elRey, que eu aja de desemparar a ssemelhamte 

20 tempo huíja molher, com que tam lomgamente niamtiue companhia, por 
certo hi sse pode seguir quallquer caso que a Deos aprouuer, mas eu per 
nehuú modo nom partirey dapar delia, em cuja companhia me Deos 
faria merçee de me leuar pêra o outro mundo. Porque querees uos 
senhor, disseram os Iftamtes. aazar dous muy gramdes malles por uossa 

25 estada sem esperamça de nehuú proueito. O primeyro, que semtimdo- 
uos a Rainha açerqua de ssi, acreçemtarlhees mayor trabalho, quamdo lhe 
lembrar que ja uos mais nom ha de ueer. ca posto que a sua uoom- 
tade seia comforme aas cousas do outro mundo, em quamto a alma esta 
na carne, he necessário que a humanidade rrequeyra o que he de sua 

3o natureza. O segumdo he que uos estamdo aqui, he necessário que estees 
a todos seus offiçios, c que a ueiaaes depois de fimda. a quall uista uos 
trazera aa comsijraçom mujtas cousas, cuja nembramça * acreçemtara o A,56,v, i 
uosso gramde nojo, de que sse uos depois pode seguir alguúa emfirmi- 
dade que será mujto peor. Porem uos pedimos por merçee, que uos nom 

35 apartees daquello que sempre husastes .s. rrezam e comsselho, mayor- 
mente sobre cousa tam assijnada. Pois que assj' he, rrespomdeo elRey 
comtra o Iftamte Duarte, uos mamdaae chamar todollos do comsselho 

2. jumtando A. — 5. assi A. — 6. beyjoii A. — 12. foranisse A — as.si A. — 16. sseer 
A. — 17. pello A. — 20. mantiue. — 23. mumdo A. — 24. grandes A. 
18 



— i38 — 

que aqui ssom, e fallaae com elles, e o que acordardes que he bem que 
eu faça, isso farey. E breuemente o comsselho feito, determinaram que 
todauia elRey se deuia partir dalli, e sse passar aalem do Tejo a huú 
luguar que chamam Alhos Vedros, como sse de feito partio. Mais daquelle 
triste espidimento que elle fez da Rainha sua molher, quamdo a foi ueer 
amte que sse partisse, nom posso eu fallar tamto como deuia, porque a 
força das lagrimas me embarguam a uista, que nom posso escpreuer, 
comsijramdo em cousa tam triste, ca sse me apresemta amte a jmagem 
do emtemder, como o uerdadeiro e leall amor he mais forte cousa daque- 
llas que a natureza em este mundo jumtou. do quall Sallamam disse no 
camtar dos camtares que era forte como a morte. 

A,56,T,3 Coffio a Rainha foy comumgada e humgida, e co7nofe\fim do de- 
rradeiro termo de seus dias, e como o autor di{ que em ella auia com- 
pridamente todallas quatro uirtudes cardeaaes. Capitullo Rv. 



G 



RAMDE tristeza semtiram os Iffamtes quamdo certamente souberam, i5 
que a morte de sua madre per nehuú modo se escusaua. e 
fezeram loguo chamar os físicos e cellorgiaães pêra fallarem com 
elles açerqua dallguús rremedios que sse podessem achar, pêra que ao 
menos seu padecimento nom fosse tamanho, e acordarem os ditos físi- 
cos que era bem que a Rainha se mudasse pêra outra cama mais baixa, 20 
pêra lhe aquella seer corregida como compria. Mais ella que no çeeo 
tijnha firmadas as àmcoras da sua uoomtade, tamto que foy assy mudada, 
rrequereo que lhe trouxessem o corpo do Senhor, e foilhe loguo trazido. 
e ella com todo acatamento e rreueremçia como melhor pode, alleuamtou 
suas maãos, e disse mujtas pallauras de gramde deuaçom, pedimdolhe com 25 
gramde humilldade perdom de seus peccados, e saluaçom pêra a sua 
alma com tamta humilldade e graça sprituall, que a quamtos hi estauam 
A,57,r, I * parecia que eram ditas per alguíi amjo çellestriall. E depois que rreçebeo 
sua comunham, foi humgida, e amostrou que sse semtia de huija perna 
afum.do do joelho, e uista per os físicos assy honestamente como era rra- 3o 
zom, acharam que tijnha huú cabrumculo, o quall foy bem conhecido 
que era cousa noua. porque atee alli nom lhe semtiram outra door, se- 
nam huiiía leuaçam. E posto que semtissem que com nehuú rremedio 
podia rreçeber saúde, mamdaram porem que lhe furassem aquelle cabrum- 
culo, dizemdo loguo, que nom podia mais durar per determinaçom da 35 

18. dalguús. — 22. assi A. — 27. spirituall A. — 28. anjo A. — 34-35. cabrumcullo A. 
35. de A, da I. 



— i3g — 

física, que ataa ho outro dia que era huúa quimta feyra. na quall pouco 
mais de meo dia a dita senhora mamdou chamar os clérigos, e disse que 
começassem ho offiçio dos mortos. E ella com todo seu emtemdimento 
ouuimdo o dito offiçio per tall guisa, que quamdo alguú delies erraua, eila 
5 o corregia. e em sse acabamdo a derradeyra oraçom, ella corregeo 
todo seu corpo e nembros hordenadamente, e alleuamtou seus olhos 
comtra o çeeo, e sem nehuú trabalho nem pena, deu a sua alma nas 
maãos daquelle que a criou, pareçemdo em sua boca huú aar de rrijso, 
como quem fazia escarnho da uida deste mundo.* ca assy ha de seer A,57,r,2 

10 segumdo teemçam dalguús doutores, que o homem que dereitamente ha 
de uiuer, uenha a este mundo choramdo, e se parta delle rrijmdo. Os 
Iflamtes teueram seu comsselho açerqua da emterraçam da Rainha, e 
acordarom porque o tempo era queemte, ca era quamdo o soll estaua 
em dous graaos do signo do liom, que a soterrassem de noute, o mais 

i5 secretamente que sse fazer podesse. e no outro dia polia manhaá, lhe 
foy feito ho offiçio segumdo compria aas eixequeas de tamanha senhora. 
empero eu creo, que nom seria tam gramde em este mundo, como lhe 
seria feito no outro. Os líiamtes forom em aquella noute uestidos de 
burell, e assy todollos outros casy polia mayor parte, ca todollos boõs 

20 do rregno eram jumtos em aquella cidade, e nom auia hi alguú, que de 
seu moto próprio, nom tomasse doo por ella. ca certamente perdiam 
em ella muy gramde esteeo pêra todas suas homrras e acreçemtamentos, 
segumdo ja ouuistes. que nem ajmda aa ora da morte lhe pode esquee- 
çer demcomemdar todollos estados do rregno a seus filhos, como aquella 

25 que delies todos tijnha espiçiall cuidado. Por certo diz o autor, nos 

poderíamos *aqui fallar mujtas rrazoões acerca do gramde doo que foy A,57,v,i 
feito por esta senhora, as quaaes nos parece que sse deuem escusar, 
comsijramdo como seu rrecomtamento nom trás homrra aas gramdes 
uirtudes daquella senhora, cujo falleçimento escpreuemos. porque todos 

3o certamente sabemos, que no dia que emtramos em esta presemte uida, per 
ley determinada somos jullgados aa morte, ca nossa uida nom he senom 
huúa tralladaçam, que fazemos do uemtre ao sepuUcro, segumdo diz Job. 
E porque per nossa uijmda nos ssom mostrados em este mundo dous 
caminhos .s. huú de uirtude, e outro de deleitaçom, segumdo os poetas 

35 fimgem que Hercolles achou no deserto, e o caminho da deleitaçom he 
aquelle, que nos leua dereitamente ao jmferno, e a morte dos que este 
cammho seguem, deuemos chorar por suaperpetua danaçam. Mas com o 

1. quinta A. — 5. acabando A. — 7. contra A. — 11. mumdo A. — i5. pclla A. — 
17. mumdo A. — 33. per nossa uijmda A, nesta vida I — mumdo A. — 3õ. jnlcrno A. 



— 140 — 

falleçimento daquelles que uaão per o caminho das uirtudes, nos deuemos 
dallegrar tamto, quamto mais nos a sua bem auemturamça perteeçe per 
naturall diuedo, ou ajumtamento damizade. E por tamto dezia Ouuydio 

A,57,v,2 poeta. Nom me homrre nehuú com lagrimas,* nem uaa ao meu emterra- 

mento com choro, porque nom deue com rrazom chorar a morte, que 5 
me leua aa uida jmmortall. E Xenofomte comta, que Cyro o mayor 
estamdo pêra morrer dezia. Oo meus mujto amados filhos, nom quey- 
raaes cuidar que como me eu partir de uos, que me tomarey em nehuúa 
cousa, nem serey em alguú luguar. porque quamdo eu comuersaua com- 
uosco, certo he que nom podiees ueer a minha alma, mais emtemdiees lo 
que moraua em este corpo polias cousas, que me uiees obrar. Pois 
aquella meesma alma creede que me ficara pêra sempre depois de minha 
morte, a qual emtom perfeitamente começara de uiuer. e porem nom 
me queyraaes chorar com door. Mais poderia alguém dizer per autori- 
dade do sabedor. Quall dos homeés poderá este caminho certo saber. >5 
ca escprito he que nemguem sabe, se merece ódio ou amor na presemça 
de nosso Senhor. Ao que eu dereitamente posso rrespomder, que de 
tamta çiemçia comprio Deos ho emtcmdimento dos homeés, que legeira- 
mente podem conhecer polias obras de cada huii, per quall destes cami- 

A,58,r, 1 nhos faz sua uiagem. * E porque ja disse que a uirtude era aquelle cami- 20 
nho, poUo quall podíamos cheguar aa uerdadeira uida, quero dizer como 
esta Rainha uerdadeyramente seguio este caminho, per homde com rra- 
zom nom deuemos chorar seu falleçimento. Gramde cuydado teueram 
os amtijgos sabedores descolldrinhar uerdadeiramente quaaes em tama- 
nho numero ssom estas uirtudes, per que assy auemos de fazer nossa uia- 25 
gem, porque ellas ssom assy como proueitosas bailisas que ssom postas 
em alguij uaao perijgoso, em cujo passamento os homeés teem alguúa 
duuida de poderem falleçer. e huús disseram que eram trijmta e huúa 
uirtudes, outros disseram que nom mais de omze. e breuemente deter- 
minaram que posto que hi mujtas aja, que soomente quatro ssom aquellas 3o 
que nos podem dereitamente emcaminhar. por tamto lhe chamarom uir- 
tudes cardeaaes, porque cardam em latim quer dizer couce, em que sse 
a porta rreuolue. que per semelhamte guisa se rreuoluem todallas outras 
uirtudes sobre o couce daquestas, que som justiça, prudemçia, esperamça, 
fortelleza. as quaaes a Rainha ouue em muy exçellemte graao. e ajmda 35 

A,58,r,2 as * outras três, que sse chamam theollogaaes segumdo no seguimte capi- 
tullo será comtado. 



6. Cyro I, tijro A. — 25. assi A. — 32. cardam A, Cardo I. — 36-37- capitólio A. 



— 141 — 

Como lio autor fa\ deuisovi das uirtudes, e como dii que sse os Iffam- 
tes partiram daquelle moesteyro pêra Restello. Capitullo Rvj. 

JUSTIÇA he a primeyra uirtude e a primçipall de todas, a quall segurado 
diz Séneca he tall uirtude, que nom tam soomente perteeçe aaque- 
lies que ham de jullgar, mais ajmda a cada huúa criatura rrazoauell 
pêra jullgar a ssi meesmo. A quall uirtude era muy perfeitamente em 
aquella senhora, ca assy trazia sua uida justamente hordenada, que numca 
achamos que a alguúa pessoa fezesse emjuria per nehuú modo. porque 
suas pallauras sempre eram ditas muy mamssamente, e fora de toda esca- 

>o tema, fazemdo mujtas amizades, per que sse escusaram gramdes jmiurias 
e malles. ca tamto que sabia que alguús sse queriam mall, loguo traba- 
Ihaua de os auijr per ssi ou per alguijas pessoas rrelligiosas. e mujto 
lhe prazia de despemder hi alguúa cousa do seu, se emtemdia que pêra 
acabar seu deseio era necessário. Numca do alheo mamdou tomar 

i5 nehuúa * cousa forçosamente, nem comtra uoomtade de seus donos. Trouxe A,58,v, i 
sua uida assy hordenada, que todalias cousas que pêra ella eram necessá- 
rias, eram compradas ou auidas segumdo a uoomtade daquelles que as tij- 
nham. Da uirtude da prudemçia seeria sobeio fallar em camanho graao 
husou delia em todollos seus feitos, e porque ja disse assaz do claro conhe- 

20 cimento, que teue pêra seguir todalias uirtudes. ca a prudemçia nom he 
outra cousa senam huú abito ou clara desposiçom, per que o homem per 
jmtrimsico conhecimento pode rreçeber comsselho pêra sse arredar das 
cousas maas, e sse acheguar aas boas. Em outros rramos se parte esta 
uirtude assy. em huúa que sse em grego chama sienesis, e outro ciballea, 

25 de que a nos nom comuem fallar. A uirtude da temperamça foi mujto 
louuada em esta senhora, porque em todalias cousas achamos, que uiueo 
muy temperadamente. Seus trajos forom sempre mujto honestos assy 
hordenadamente, que nem eram de tam baixo uallor, que per seu aazo 
naçesse prosumçom descaçesa ou menos preço, nem assy altamente obra- 

3o dos, que per sua uista mostrassem aos outros huiía * conhecida louuaminha. A,58,v,2 
Mujto louua o philosofo a todalias molheres silemçio e ocupaçom, a 
quall cousa certo era achada em ella em gramde sofRçiemçia, ca tarde 
e per gramde uemtura fallaua sem necessidade, e as suas pallauras 
sempre eram ditas com a comtenemça baixa e muy mamssamente rrazoa- 

35 das, nem sse parecia em ella o geito que mujtas senhoras tomam em fallar, 

4. perteemçe A. — 7. assi A. — 9. manssamente A. — 11. alguús que A. — i5. uoon- 
tade A. — 22. jntrimsico A. — 29. assi A. — 3 1. muyto A — phillosopho A. — 32. achado 
A. — 33. grande A. — 34. mansamente A. — 35. muytas A. 



— 142 — 

que leixam a mane3'ra que lhes perteeçe, e faliam apareçemça como mo- 
ças criadas em mimos, a sua comtenemça sempre era baixa, e o rros- 
tro a meude uistido de huú aar cheo de honestidade. E seu comer nom 
era por deleitaçom, soomente por sosteer a uida. nem o seu cozinheiro 
nom era mujto costramgido pêra buscar nouas maneiras diguarias. 5 
Jeiúaua tamto como a sua natureza podia sofrer, e mayor trabalho tij- 
nha o físico em a costramger que comesse pêra ajudar a natureza, que o 
comfessor tijnha em a rrepremder da sobegidom. Amaua mujto a uene- 
rosa castidade, e assy fazia gramde homrra a todallas pessoas que a 
mamtijnham. Nom sse deleytaua em jazer lomgamente na cama depois 10 

A,59,r, 1 das oras rrazoadas, mas mujto primeiro do que a sua * natureza e seu 
estado rrequeriam, era leuamtada. A mayor parte da sua ocupaçom era 
em rrezar, e todollos dias rrezaua as oras canónicas segumdo ho custu- 
me de Sallusbri, e as oras de nossa Senhora, e dos mortos, o os sete 
sallmos com outras mujtas deuaçoões. e mujtas uezes rrezaua o sallteiro i3 
todo, e outras oras certas uigilias, segumdo a hordenamça de sua deua- 
çom. E o tempo que lhe ficaua, nom era despeso em proueer o cofre das 
joyas nem corregimentos de seus toucados, mais em proueitoso eixerçiçio 
obramdo per suas maãos alguúas obras perteeçemtes a seu estado, nas 
quaaes mujto a meude fazia ocupar todallas molheres de sua casa, polias 20 
arredar dalguQs aazos comtrairos da sua fortelleza. nom quero dizer mais, 
porque a fim da sua uitoria he manifesta proua de sua gramde uirtude. 
E pois que ja disse destas quatro uirtudes, que perteeçem a emcaminha- 
mento da bem hordenada uida, quero dizer das outras três, que ssom 
chamadas theollogaaes, que jmteiramente perteeçem a alma. Nom foi 25 
pequena sua ffe, quamdo por amor do Senhor Deos lhe prouue trabalhar 
sua uida por chegar aa fim de seu deseio, conheçemdo que o perfeito bem 

A'5q r,2 era o rregno dos çeeos. E assy amaua todollos * guiadores da nossa samta 
fíe, e auia gramde ódio aos jmfiees. e nom he duuida que o Iftamte 
Dom Hamrrique seu filho ouue aquella meesma empressam demtro no 3o 
seu uemtre, a quall o fez ao depois sempre comsseguir aquelle deseio, 
segumdo ao diamte em nossa estoria será comtado. A sua uerdadeira 
esperamça sempre foi em Deos e nas suas uirtudes, ca numca foi achado 
que temtasse outras maneyras de pouca firmeza, soomente teer sua espe- 
ramça uerdadeira naquelle Senhor, em cujo seruiço deseiaua uiuer e aca- 35 
bar. o quall deseio lhe Deos comprio, como ja ouuistes. Da sua cari- 
dade nom direy tamto, quamto com rrezam se pode dizer, ca sua rri- 
queza toda era thezouro de pobres, fazemdo mujtas esmollas segumdo ja 

8. muyto A. — 9. assi A. — 12. leuantada A. — 19. perteeçentes A. — 28. assi A. 



— 143 — 

teemos dito. Ella tijnha niujtas merçee3Tas em todas suas terras, 
e em todollos moesteiros, em que auia pessoas rrelligiosas e de boa 
uida, daua em cada huú anno ajuda pêra seu mamtijmento. e assy 
pêra casar horfaas e criar meninos. Requeria a elRey que husase 

5 de piedade com alguQas pessoas, em que a justiça nom auia tamanho 
lugar, e fazia outros mujtos beés em comprimento das obras da cari- 
dade. Por todas estas cousas * cobrou assy a bem auemturamça deste A,59,v, i 
mundo, como do outro, ca em este mereçeo naçer da mais alta geera- 
çom, que auia amtre todollos primçipes christaãos, e muy aposta de 

10 seu corpo, com exçellemçia de uirtudes. e ouue liuú dos homrrados prim- 
çipes do mundo por marido, comstituido em dignidade rreall, o quall a 
amaua mujto. e assy ouue filhos, de que numca uio nojo, amte teue rre- 
zam de sse allegrar mujto com elles, porque conhecia que nehuúa rrai- 
nha do mundo tijnha filhos semelhamtes a elles. ouue rriqueza e ser- 

i'5 uidores mujto obediemtes e seguidores de sua uoomtade. Assy que em 
este mundo nom auia mais que auer. e pêra merecer a gloria do outro, 
lhe deu nosso Senhor a sua graça, que seguisse o caminho das uirtudes, 
per que mereçeo de cheguar aaquella fim que ja dissemos. Morreo em 
sua cama acompanhada de seus fihos. ouue assaz espaço em sua door 

20 pêra fazer os derradeiros offiçios que a christaãos perteeçem. ca durou 
treze dias em sua emfirmidade. Ouue uerdadeiro conhecimento do Se- 
nhor Deos com gramde arrepimdimento de * seus peccados. Sua com- A,59,y,z 
çiemçia desemcarregou, sem nehuú trabalho se partiu deste mundo mos- 
tramdo taaes synaaes amte de sua morte pollos quaaes conhecemos uer- 

25 dadeiramente que he no lugar dos samtos, domde conhecem quamtas 
treeuas jazem sob a claridade de nosso dia. Pois como poderemos com 
rrezom chorar a sua morte, amte altamente deuemos de nos allegrar 
aquelles a que praz da sua bem auemturamça. e creamos certamente que 
nosso Senhor Deos mamdou por ella aas prisoões deste mundo, porque 

3o a sua alma lamçaua amte os seus pees, que lhe pedisse piadosamente uito- 
ria pêra seu marido e filhos, com saluaçom de todo ho outro poboo des- 
tes rregnos. que por aazo de sua morte seus filhos podessem seer mais 
homrradamente caualleyros. ca sse ella uiuera, seus filhos forom feitos 
caualleiros em Portugall, segumdo lho elRey tijnha prometido, que lhe 

3i nom fora tamanha homrra, como foi de o seerem em terra dAíTrica em 
huúa tam homrrada cidade depois do acabamento de tamta uitoria. Ora 

3. assi A. — 4. horfaãos A, orfas I. — 7. assi A. — 8. mumdo A. — 11. mumdo A. — 
12. assi A. — i5. assi A. — 16. mumdo A. — 20. perteeçem] perteem A. — 23. mumdo A. 
— 25. logar A. — 26. dia] dija A. — 20- mumdo A. — 33. foram A. — 36. despois A. 



— 144 — 

A,6o, r, i fazemdo fim deste capitullo, auees de saber que * tamto que aquella samta 
Rainha foi posta em sua sepulltura e feitas suas exéquias, os Iffamtes se 
partirom dalli acompanhados daquelles senhores e fidallgos. e sse forom 
pêra huúa aldeã que esta acima daquela jgreia, que o Iffamte Dora Ham- 
rrique mamdou fazer, que chamam Samta Maria de Belleem, e a aldeã ha 
nome Restello por rrazom daquella amcoraçam que alli esta, que sse 
chama per essa meesma guisa, e alli esteuerom ataa que a frota partiu, 
como adiamte ouuirees. 



Como os Iffamtes tciieram sen comsselho açcrqna dos feitos primei- 
ros, e como forom faltar a elRey, e tornarom outra uei a teer com- 
sselho aaquella aldeã. Capitullo Rvij. 



P 



OR aazo daquelle forte acomteçimento era feito em todo aquelle 
ajumtamento huú geerall silemçio, com que todos amdauam nom 
menos pemssosos, do que eram de ledos amte daquelle feito. E 
assy como todos amdauam uistidos de doo, assy tirarom todollos arreos i5 
que tijnham as gallees e nauios, de guisa que nom parecia a frota outra 
cousa senom aruores dalguúa mata, a que a força do foguo priua das 

A,6o,r,2 folhas e fruito. E nom* sabiam faliar em outra cousa senam das gramdes 
uirtudes que auia na Rainha, nas quaaes nom auia hy alguú que podesse 
achar comtrayro. E mujto duuidauam de sse fazer nehuú mouimento 70 
açerqua do que era começado, ca deziam que tamanhos três synaaes, 
como nosso Senhor Deos em aquelle feito mostrara, nom eram pêra teer 
em joguo .s. a gramde pestenemça que dias auia que amdaua amtrelles, 
polia quall ja falleçeram mujtas e boas pessoas. E o segumdo fora o cris 
do soll, que foi amte alguiãs dias da morte da Rainha, em tamanho graao 25 
como amte na memoria daquelles que emtam eram, nem depois ataa 
este presemte numca foy uisto. ca duas oras comtinuadas esteue cuberto 
per tall guisa, que pareciam todallas estrellas, e assy todollos outros 
sinaaes do çeeo, que geerallmente parecem depois que o soll passa ho 
oçidimtall orizom, e o crespucoUo nos traz a escuridade da noute. E o 3o 
terçeyro foy a morte da Rainha, que sobre todo era mais semtida. Os 
Iftamtes tamto que forom em Restello como ja ouuistes, fallarom loguo 
amtre ssi que maneira deuiam teer açerqua de seus feitos, e acordarem 

A,6o,v, i * que era bera de hirem faliar a seu padre, a quall cousa loguo em aquella 

I. capitólio A. — 3. foram A. — i5. assi (bis) A. — 26. despois A. — 29. despois A. 
— 32. foram A. 



-145- 

noute segLiimte poserom em obra, ca pouco mais de mea noute mamdarom 
fazer prestes os batees, e sse forom Alhos Vedros, em tall guisa que 
quamdo era manhaã estauam com seu padre, o quall acharam muy 
anoiado, uestido de panos timtos. E quamdo outrossj' uio os filhos ues- 
5 tidos de burell, rrenouousse em sua uoomtade huúa muy doorosa nem- 
bramça da Rainha sua molher. e com elle estaua o comde de Barçellos 
seu filho, e Gomez Martimz de Lemos. Senhor disserom os Iffamtes, 
comsijramos de uos uijr fallar açerqua destes feitos, pêra sabermos a 
maneira que querees teer, e fazermos segumdo semtirmos uossa uoom- 

10 tade. Meus filhos rrespomdeo elRey, bem ueedes no pomto em que 
estou, e que cuidado deue de seer o meu, comsijramdo em tamanha perda 
como perdi, cuja nembramça me traz tamanho nojo, que nom sei cuydar 
em outra cousa. Porem leyxo este emcarreguo a uos, disse elle comtra 
o Iffamte Duarte, que com uossos jrmaãos, e com esses outros do com- 

i5 sselho fallees açerqua deste feito, e o que acordardes me fazee saber pêra 

eu comsijrar sobre ello. e determinar* o que milhor e mais proueitoso A,óo,v,2 
parecer. E loguo sse os lâamtes tornarom sem outra deteemça pêra 
Restello, e fezerom chamar aquelles do comsselho que estauam mais 
prestes, os quaaes per comto forom quatorze comtamdo hi os Iffamtes, 

20 cuios acordos forom partidos em duas partes .s. sete a cada huúa parte. 
E os lífamtes todos três e quatro dos do comsselho eram era acordo, que 
todauia elRey deuia partir, como primeiramente tijnha hordenado, porque 
deziam que tamanhas despesas como ja eram feitas, e taaes prouijmentos 
com tamtos trabalhos rremediados e buscados, nom deuiam assy de 

25 passar em uaão. quamto mais pois aquello fora mouido primçipall- 
mente por seruiço de Deos, se nom deuia leixar dacabar por nehuúa 
cousa, nem auia hi rrezom per que sse justamente leixasse de fazer, ca 
posto que assy a Rainha falleçesse, sua morte a tall feito nam deuia fazer 
empacho, ca a Rainha nom era mais que huúa molher, cuja morte nom 

3o trazia outra torua pêra seu propósito, soomente 'a tristeza que elles por 
sua causa filhauam. a quail prazeria a Deos que abramdaria a boa 
amdamça da uitoria. Quamto *mais que a fama deste feito era tam A,<H.r, i 
deuulgada per mujtas partes do mundo, que todos pemssauam que tama- 
nho mouimento nom podia parar sem cometimento dalguú gramde feito. 

35 polia fim do quall estauam cada dia em esperamça de ouuir certo rre- 
cado. a quall cousa seria muy uergonhosa assy pêra elRey como pêra 
todo o rregno, quamdo soubessem que por semelhamte aazo o leixauam 

20. foram A. — 3i. abramdaria] ajudaria I. — 33. mumdo A. — 34. grande A. — 
36. assi A. 



— 146 — 

de poer em fim. Os outros sete acordauam que todauia elRey por nehuú 
caso deuia partir. Por certo deziam elles, se uos dizees que por esto seer 
seruiço de Deos o deuemos primçipallmente de seguir, bem sse mostra 
que lhe nom praz de semelhamte mouimento. por quamto amte os nossos 
olhos traz tam manifestos synaaes, per que de rrezam deuemos creer que o 5 
nosso mouimento he comtrayro de sua uoomtade. Que cousa tam maraui- 
Ihosa pemssaaes, que he o dano que esta pestenemça fez e faz cada dia em 
tamta boa gemte, como per sua causa falleçeo e falleçe. e nom he duuida, 
que depois que forem todos demtro nos nauios, que sse nom açemda mujto 
mais, ca o ajumtamento a fará mujto mais açemder, e o rremedio pro- 10 

A,f>i,r,2 ueytoso pêra ello seria de sse espalhar * agora esta gemte, e he certo que 
nom poderia tamanho foguo estar muyto que sse nom apaguasse. E sse 
nos agora partissemos, pode seer que assy como morreo a Rainha, morre- 
ram outras pessoas taaes, cujo dano trazera mujto gramde perda. Deue- 
mos ajmda mujto rreçear tamanho dano, como rreçebemos na morte i5 
daquella senhora, porque soomente as suas oraçoões eram abastamtes 
pêra nos liurarem de quaaesquer perijgos. ca bem mostrou nosso Senhor 
Deos sj'naaes açerqua da sua morte, per que mujto deuemos semtir a 
perda de seu falleçimento, do quall nom ha nehuú, posto que de pequena 
comdiçom sela, que nom tenha muy gramde semtido. Certamente nos 20 
lhe mostraríamos sinall de pouco amor, perdemdo em tam breue tempo 
memoria de sua morte, nom tomamdo sequer alguú espaço per que o 
mundo conhecesse o semtido que tijnhamos de sua morte, mas logo 
assy tirados dos choros de sua sepultura fazermos partida, nom seria bem. 
E que ajmda qtiisessemos leixar estas cousas, teemos outro muy gramde 25 
empacho, que he mujto pêra comsijrar. e esto he que por aazo da doemça 
da Rainha sse desauiaram mujtas cousas, pêra corregimento das quaaes 

A,6i,y,i nom ha mester menos de huú mes. *pois nos somos agora casi em fim de 
julho, e quamdo huú mes passasse, seriamos em fim dagosto, que he ja 
começo do jmuerno, em que sse nom deue começar semelhamte feito. E 3o 
assy que por todas estas rrezoões se deue por agora escusar a eixecuçom 
desta cousa. Sobre estes dous comtrairos ouue em aquelle comsselho 
muy gramde debato, no quall dizem alguús que o Iffamte Dom Pedro rres- 
pomdeo alguúas rrezoões mais ásperas do que deuia ao comdestabre, 
porque disseram que o comde era huú daquelles que mais afirmaua que 35 
elRey deuia ficar, empero nos nam o soubemos determinadamente, nem 
o Iffamte Dom Hamrrique nos em ello fallou. creemos que o fez por 
escusar alguú prasmo, que ouueram aquestes que estas uozes mamtijnham. 

2. ser A. — 8. duuyda A. — 24. assi A. — 3i. assi A — eixucuçom A. — 33. grande A. 



— 147 — 

Como os Iffamtes e três dos outros do comsselho tornaram a f aliar 

a elRey em a determinaçam de seus acordos, e das rre^oões que 

elRey açerqua dello disse, e como finallmente determinou a partida. 

Capitullo Rviij. 

5 i" OGUO em aquelle dia aquelle comsselho foy posto em determinaçam, 

I de guisa que a noute seguimte hordenaram os Iffamtes de tornar 

-■— i com * a rreposta de todo a seu padre, mas porque elles todos três A,6i,v,2 

eram de huija parte segumdo ja ouuistes, disseram os outros que tijnham 

a outra, que fossem outros três pêra dar cada huú sua rrezam segumdo 

10 a alegara, e os Iffamtes disseram que era muy bem. E teueram tall 
maneira em sua partida, que quamdo era menhaã ao domimguo seguimte 
forem com seu padre segumdo fezeram o dia damtes. ElRey se apartou 
loguo com elles em huú alpemdre, que estaua naquellas casas liomde 
pousaua, e o Iffamte Duarte disse todallas rrezoões que os outros allega- 

i5 uam, comtrariamdo a hida delRey, damdolhe ajmda melhores emtem- 
dimentos e mais claros, do que lhe os outros que alli estauam deputados 
pêra ello poderom dar. Em fim pregumtoulhes se queriam ajmda aalem 
daquello dizer alguúa cousa, e elles disseram que nom. ca tam bem o 
rrazoara polia sua parte, que elles semtiam de ssy que nom poderam mi- 

20 Ihor dizer. Mujtos fallarom depois açerqua daquelle rrazoamento que 
assy fez o IfTamte, auemdo por gramde marauilha tomar assy aquellas 
cousas na memoria e rreteellas per extemsso, louuamdo mujto a clareza 
de seu emtemder. outros * porem de mais dura creemça nom podiam A,b2,r, « 
emtemder senom que artefiçiallmente tomara o Iffamte assy aquellas cou- 

25 sas, ca per outra guisa nom maginauam que sse podesse fazer, como 
quer que em ello fossem emganados. ca aquello era assaz de bem 
pouco pêra as outras mujtas uirtudes, que lhe o Senhor Deos outorgara. 
Acabadas assy aquellas cousas que perteeçiam a primeira rrezom, disse o 
Iffamte per essa meesma guisa as outras, que a elle e aos de sua parte 

3o perteeçiam. ElRey ouuidas assy aquellas rrezoões, descobrio sua cabeça 
que tíjnha cuberta com seu doo, e disse. Mujto me pesa porque cm tam 
boas pessoas he achado nehuú falliçimento de fraqueza em semelhamte 
caso. ca certamente eu cuidara, que posto que eu por causa de minha 
gramde tristeza, ou por outro alguú aazo quisera ficar, que elles me cos- 

35 tramgeram pêra ello, comsselhamdome que todauia seguisse minha uia- 

II. dominguo A. — 12. foram A. — i3. logo A — alpemdere A. — 14. Duarte] dom 
duarte A. — zi.assi (bis) A. — 24. assi A. — 28. assi A. — 3o. assi A. — 32, nehuú] alguú I. 



— 148 — 

gem. Porem comsijramdo açerqua de todollos empachos que elles pose- 
ram em minha hida, cuja força primçipaUmente esta em estes acomteçi- 
mentos que sse ora seguiram, comtamdo pollo mais forte ho falliçimento 

A,62,r.2 da Rainha que Deos aja. creemdo que o aparecimento * destes sj'naaes he 

muy gramde amoestaçam de nossa ficada, o que eu todo emtemdo 5 
pollo comtrairo, porque notório he, que pêra proseguimento de tamanho 
feito nom compre mais que hirmos arrepemdidos e purgados de nossos 
peccados, emclinamdo ao Senhor Deos nossas almas, tornamdonos a elle 
de todo coraçom, fazemdo penitemçia dos erros passados que comtra elle 
cometemos, e demamdamdolhe mu}' humilldosamente que nos liure de 10 
nossos jmmijgos, e que lhe praza dar gloria a seu nome, exallçamdo a sua 
samtaffe, quebramtamdo e destroimdo todollos seus comtrayros com a sua 
própria uirtude. Esto deuemos tamto com mayor dilligemçia fazer, quamto 
a nossa teemçom he mouida a mais certa fim. a quall humilldade nos nom 
poderemos mostrar milhor nem mais compridamente em outra aiguúa t5 
cousa, como sofreemdo com boom coraçom todollos casos comtrayros, pois 
creemos certamente que per elle som hordenados. ca lhe nom fazemos 
em ello tamanho seruiço, como fazemos de nosso proueito. porque 
necessário he, que Deos huse das suas creaturas como lhe prouuer. 
Quall he o caualleiro que ha demtrar em alguiãa justa, que nom proua 20 

A,62,v, I primeiro seu * cauallo. e huú dia uee com que assessego soporta ho 
arroido e peso das armas, outro com que força toma o trabalho, e assy 
todallas outras cousas. Pois que sabemos nos, se nosso Senhor Deos per 
estas cousas nos quis prouar. ca o ouro proua o fogo. e os casos da for- 
tuna prouam os boõs homeés. Certamente eu creo que todas estas cousas 25 
que assy acomteçeram, ssom mais porque Deos per ellas nos mostra a 
çertidom da uitoria que o comtrayro, porque a fim da tristeza he lediçe, 
e a fim da lediçe he tristeza. E nos que agora somos tristes, prazemdo 
a Deos começamdo nosso feito seremos ledos, porque todallas cousas 
depois que cheguam a moor alteza, nom ham lugar de mais sobir. E a 3o 
nossa tristeza nom poderá seer moor pêra todos em ella teermos parte, 
que morrer huúa semelhamte pessoa, em cujo falleçimento nom ha hi 
algui! por de pequena comdiçom que seia, que com rrezam nom mostre 
semtido. E sua perda quamto a nos fallamdo dereytamente, nom faz 
outro dano, soomente huúa suydosa nembramça, a que nos sua presemça 35 
por rrezam de seu falleçimento acarreta, que quamto he pêra rrogar a 
Deos por nos, certo he que nehuíia pessoa em esta uida por uirtuosa que 

3. pello A.— i3. dilligençia A. — 22. assi A. — 26. assi A. — 3i. pêra] por I. — 
35. lembrança A. 



— 149 — 

seia, nom he* tam dina de ouuir uiuemdo em este mundo, como depois A,62,v,2 
que he apartada desta miserauell casa que he a carne, cujos apetites 
comtinuadamente nos costrangem a peccado. E assy emtemdemos que 
nosso Senhor Deos, queremdo mais limpamente ouuyr suas oraçoões, lhe 

5 prouue de a tirar damte nos, porque sollta deste corporal! carçer, a sua 
alma mais liuremente podesse comtemplar na diuinall magestade procu- 
ramdo a nossa uitoria. E pêra nos isto firmemente creermos, ponhamos 
amte os nossos olhos as marauilhosas cousas, que lhe acomteçerom amte 
de sua morte, polias quaaes certamente sabemos, que a sua alma esta 

IO em bem auemturado rrepouso. Porem por todas estas rrezoões eu deter- 
mino com a graça do Senhor Deos de seguir todauia minha temçom por 
seu seruiço. ca doutra guisa nom me parece que faria o que deuo. O 
comde de Barçellos que alli estaua, fallara ja com elRey açerqua daquello, 
comsselhamdoo que todauia seguissie seu propósito, e assy fez em aquella 

i5 ora que ajudou mujto a temçom dos Iftamtes. e per semelhamte fez 
Gomez Martimz de Lemos, que era huú homem de gramde ssiso, pollo 
quall elRey daua gramde autoridade a seus comsselhos. 



Como sse os Iffamtes tornarom a Restello, e do auiamento que A,63,r, i 
deroTii a todallas cousas que perteeçiam a sua uiagem. 
20 Capitullo Rix. 

QUAMDO os Iftamtes semtirom de todo a uoomtade de seu padre, 
ouuerom gramde rrefrigerio pêra seu nojo passado, e ass}' dis- 
serem que lhe tijnham mujto em merçee semelhamte determina- 
çom. Ora que será senhor, disseram os outros três que alli estauam, ca 
25 ajmda nom teemdes todo acabado, porque huúa das mayores duuidas que 
achamos, assy he que o descomçerto que sse fez na frota por aazo da 
morte da Rainha, nam sse pode tam asinha emcaminhar, que ao menos 
nom seia necessário esperar huú mes. E a uossa frota disse eIRey com- 
tra o Iffamte Dom Hamrrique, assy esta descomçertada que lhe seia neçe- 
3o ssario aquelle espaço pêra sse tornar a auiar. O descomçerto senhor que 
ella tem disse o Iff"amte, he que uos podees logo agora meter em ella, e 
partir quamdo quiserdes, ca a mayor deteemça será em alleuamtar as 
amcoras e aparelhar as uellas. Pois que -assy he disse elRey, toda minha 
deteemça será daqui ataa quarta feyra, e depois siguame quem poder. 

I. ouuir] ser ouuida I — mumdo A — despois A. — 3. assi A. — 19. perteemçiam A. 
21. sentirem A. — 22. noio A — assi A. — 26. assi A. — 28. seja A. — 20. assi A. — 33. assi A. 



— i5o — 

A,63,r.2 E uos meus * filhos tornayuos loguo a uossa frota, e fazee dar a todo tall 
auiamento, que quarta feira a Deos prazemdo possamos partir. E porque 
o feito das armas nom ha mester tristeza nem choro, nem rroupas de 
doo, amte rrequere que os caualleiros se guarneçam das melhores cousas 
que teuerem, porque a sua uista lhes allegre os coraçoões, como sse 5 
escpreue que faziam os Romaãos. porem uos tiraae loguo uosso doo, e 
uistiuos como amte sohijeis, e ajmda milhor. e assy daae auiamento a 
todollos outros que o façom. e outro tempo com a graça de Deos esco- 
lheremos em que sse possa mais rrazoadamente fazer nosso doo. Os 
Iffamtes partiram logo caminho da frota, e o Iffamte Dora Hamrrique lo 
comuidou a seus jrmaSos pêra jamtarem com elle em sua gallee. e 
tamto que forom em ella, trouxeram loguo os uistidos aos outros Iffamtes, 
e elle uistiusse jsso meesmo, e mamdou apemdoar toda sua gallee, e disse 
aas trombetas que sse posessem na mayor altura, e que fezessem em 
seus estromentos todo sinall de lediçe que podessera. E como era li 
domimgo, e os homeés por rrezam das calmas estauam todos jugamdo e 

A,63,v. 1 follgamdo em seus nauios. ca o mais que * podiam, escusauam a cidade 
por causa da gramde pestenemça que nella amdaua. e quamdo ouui- 
rom o soom das trombetas, de que tijnham por emtom pequena espe- 
ramça, fiquaram amtre ssi meesmos mujto marauilhados. empero pem- 20 
ssarom que os Iffamtes nom estauam alli. e que por ello aquelles seus 
trombetas com pouco auisamento filharam assy aquelle ousio. E alguiis 
daquelles capitaães que alli estauam., quiseram mamdar rrequerellos que 
sse callassem. mas quamdo lhe os seus disseram como a gallee estaua 
toda apemdoada, e que aallem do soom das trombetas ouuiam em ella 25 
charamellas e outros estromentos, bem criam que era todo feito a outra 
fim. e trigosamente mamdaram aparelhar seus batees pêra saber parte, 
que queria seer aquella nouidade. E os que pousauam nas aldeãs, ou 
amdauam follgamdo ao lomgo daquella praya, mujto asinha se chegarem 
aa rribeyra pêra seerem certos do que aquello queria seer. em breue 3o 
tempo forom tamtos os batees darredor da gallee do Iftamte, que queriam 
jugar as punhadas quall poderia primeiro chegar ao bordo. E depois 

A,63,v,2 que souberam a determinaçam* do feito, poserom logo mujta trigamça em 
tornarem a correger seus nauios per a guisa que ja estaua aquella gallee. 
Em uerdade era fremosa cousa de ueer huúa frota, que polia menhãa 35 
parecia alguúa mata que perdera as folhas e o fruito, e em tam breue 
tempo tornaua a parecer huú tam fremoso pumar acompanhado de muj- 

7. assi A. — 12. foram A. — 18. neella A. — 19-20. esperança A. — 22. assi A. — 
26. feito] o feito A. — 82. despois A. — 35. pella A. 



— i5i — 

tas folhas uerdes e frolles de mujtas coores. ca assy eram os pemdoóes 
de desuayradas guisas, e que camtauam em elle mujtas aues de gracioso 
soom. ca os estromentos nom eram poucos, ca em cada nauio estauam 
estromentos de desuayradas guizas. os quaaes todo aquelle dia a huúa 
b uoz numca fizeram fim de tamger. Nom tardou mujto que as nouas 
chegaram aa cidade, as quaaes fezeram em ella huú nouo aluoroço. por- 
que todos estauam ja casi despercebidos de semelhamte mouimento, por 
cuja rrezom lhes foy necessário de sse trigarem pêra tornarem todo a 
correger. ca o espaço era muy breue pêra sse mouer tamanho feito. 

IO e forom logo dados pregoões, que ataa terça feyra per todo o dia fossem 
todos rrecolhidos a sua frota. Boom he de comsijrar que mamdado tam 
trigoso* de semelhamtes cousas, nom lhes daria gramde espaço pêra dor- A,64,r, i 
mir. Mujtas cousas fallaria aqui se quisesse, açerqua dos desuayrados 
juizos que sse dauam sobre aquella partida, espiçiallmente a gemte do 

i5 pouoo, culpamdo mujto elRey, porque fazia semelhamte mouimento. 
dizemdo que o prioll do Espitall com suas sotillezas mouera primeira- 
mente aquelle feito, e que elle tiraua ajmda elRey agora de seu ssiso. 
Outros diziam que elRey nom quisera partir, posto que aquelle ajumta- 
mento assy esteuesse feito, uistos os marauilhosos sinaaes que lhe acom- 

20 teceram, mas que o prioll jmduzira os Iffamtes, e que elles como homeés 
mamçebos deseiadores de cousas nouas, aficaram seu padre tamto que o 
fezeram partir comtra sua uoomtade. Ora bom pay deziam elles, ca pa- 
lhas foy a perda da Rainha pêra a que muy cedo ha de seer. ca nos 
outros nom partimos senam como homeés, que queremos temtar Deos. 

25 e elRey cuyda que com estes filhos ha de tomar a garça no aar, porque 
os uee assy homeés de proU e desemuolltos nas manhas, e que nom ha 
mais na força das armas que quamto elles sabem. Ajmda* he de ueer A,64,r,2 
queiamdos homeés seram, depois que forem nos perijgos. ca elles atee 
aguora nom prouaram como sabe o ferro frio. Mas a culpa deste feito 

3o nom he tamto de nehuú delles, como doutros mujtos senhores de Portu- 
gall que ssom homeés diosos, e que teem esperiemçia de mujtas cousas, 
que lhe deuiam de comtradizer. e que ao menos comssijrassem taacs sinaaes 
como acomteçem cada dia no çeeo e na terra. Quem cuydaaes deziam 
outros, que ha de teer atreuimento de fallar a elRey em tall cousa, ca 

35 mais de três anos auia, que elle tijnha este feito começado, e ajmda nom 
sabia outrem senam os Iffamtes e o prioll. e he certo que aquella hida, 

I. assi A. — 4. guysas A. — 5. nunca A. — 7. cassi A. — 14. gente A.— 20. jnduzira 
A. — 21. mancebos A. — 22. bom I, boa A. — 26. assi A. — 28. despois A. — 28-29. ^^^^ 
aguora] atee guora A. 



— l52 — 

que elle fez a Castella nonrfoy senam per mamdado delRey, nem a pri- 
sam em que o teueram, nom foi feita senam açijmte. Ora diziam outros, 
callayuos, ca nos ho ouuimos a pessoas que ham rrezam de o saber, que 
eIRey nom quisera hir uistas as cousas que acorateçeram, se o líTamte 
Dom Hamrrique nom fora. ca diziam todos que a frota nom podia seer 5 
prestes se nom passamte de huú mes. por cuja rrezom elle quisera 
fiquar, se lhe o Iffamte nom dissera que fosse na sua, que estaua de todo 
A,64,v, I prestes. Nom foy ail diziam *os outros, ca elRey sempie teue este filho 
por mais homem, que nehuij dos outros pêra feito darmas. e assy sse 
gloriaua estranhamente de fallar em elle, quamdo lhe disseram que trazia lo 
sua frota bem corregida do Porto, empero ajmda he de ueer, ca gramde 
deferemça ha de tratar os porcos monteses na Beyra, a pelleiar com os 
homeés armados que sse sabem defíemder. elles cuydam que sam as 
justas daqui, que sse nom quer nemguem atreuer de os hir emcomtrar. 
Sobre todo praza a Deos que seia por bem, o que aa bofte esta em duuida, i3 
segumdo muitos sesudos presumem, comsijramdo os duuidosos casos que 
sse açerqua dello podem seguir. 



Corno elRey partio d Alhos Vedros na gallee do comde de Barçellos, 

e sse ueo lamçar a Restello, e como no dia seguimte se foy cotn sua 

frota amcorar açerqua de sanita Caterina. Capitullo L. 

2C 

EM este pequeno espaço que teemos dito, se fezeram prestes casi a 
ma}'or parte de todoUos, que auiam de hir em aquella frota, e 
omde amte pediam espaço de huij mes, lhes abastaram três dias, e 
ajmda nom de todo acabados. Aa quarta feira se meteo elRey na gallee 
do comde Dom Aftomsso, e foromsse pêra elle os Ifíamtes e mujtos 25 
A,64,v.2 daquelles * senhores que alli eram, e ueo aquella noute cear e dormir a 
Restello. a quall nos podemos bem afirmar que foy milhor uigiada, que 
por uemtura fora a noute da naçemça de nosso Senhor Jesu Christo, 
porque o arroido era tam gramde na frota, que os homeés huijs com os 
outros nom sse podiam emtemder. e aquella praya nom era menos allu- 3o 
miada de tochas e acompanhada, que sse sse em ella fezeram festas dal- 
guú gramde primçipe. e nom menos era o trafego na cidade, por aazo 
das mujtas cousas que lhe eram necessárias pêra sua uiagem. No dia 
seguimte, que era uespera de Samtiago uijmte e quatro dias do mes de 
julho, partio elRey dalli, e mamdou lamçar amquoras, e foy aquella noute 35 

1. ell A. — 7. lhe I, lho A. — 9. assi A. — 28. Jhú xpõ A. — 35. lamçar A, leuar I. 



— i53 — 

açerqua de samta Caterina. Este pouso que assy elle fez tam preto, foy 
pêra dar aazo que sse rrecolhesse a jemte com mayor trigamça. mas no 
outro dia, que era dia de Samtiago mamdou dar aas trombetas da sua 
gallee, porque tamto que fora em Restello sse sahira da outra. E assy 
5 como deram aas trombetas na sua, assy deram em todollos outros nauios, 
fazemdo sinall aos marinheyros que desfalldrassem, o quall em huú pomto 
foy posto em obra. e assy emcaminharam com boauemtura* caminho A,c,5,r,i 
da foz. ElRey como ja disse leuaua a capitania das gallees, e o Iffamte 
Dom Pedro das naaos, ieuamdo cada huú seu foroU pêra rregimento das 

10 outras. E porque aiguús quereram saber quaaes eram estes primçipaaes 
que hiam com elRey, escpreuemollos aqui. empero nom lhe guardamos 
nehuOa hordenamça no escpreuer, porque achamos que per nehuij modo 
o poderíamos fazer. Era primçipallmente depois delRey o Iffamte Duarte, 
e o Iffamte Dom Pedro, e o Iffamte Dom Hamrrique, e o comde de 

i5 Barçellos, e o meestre de Chrísto Dom Lopo Diaz de Sousa, e o prioll do 
Espitall Aluoro Gomçailuez Camello, e o comdestabre, e o alm.iramte 
miçe Lamçarote, o marichali Gomçallo Vaaz Coutinho, o capitam Affomsso 
Furtado de Memdoça, Joham Gomez da Sillua alferez delRey, o comde 
de Viana Dom Pedro alferez do ItTamte, Dom Fernamdo de Bragamça 

20 filho do Iffamte Dom Joham jrmaão que fov delRev, Dom Affomsso de 
Casquaaes, Dom Joham de Crasto, Dom Fernamdo seu jrmaão, Dom 
Aluoro Pirez de Castro, Dom Pedro seu filho, Dom Joham de Loronha, 
Dom Hemrrique seu jrmaão, ISIartim Affomsso* de Mello guarda moor A,ó5,r,2 
delRev, Joham Freyre dAmdrade, Lopo Aluarez de Moura, Gill Vaaz 

25 da Cunha, Vaasco Martimz da Cunha, Diego Gomez da Sillua, Gomçallo 
Eannes de Sousa, Pêro Louremço de Tauora, Aluoro Nogueyra, Joham 
Alvarez Pereyra, Joham Rodriguez de Saa, Martim Vaaz da Cunha, 
Affomsso Vaaz de Sousa, Gomçallo Louremço de Gomide escpriuam da 
puridade, Nuno Martimz da Sillueyra, Joham Affomsso de Samtarem, 

3o Ayras Gomçallues de Figueyredo, Gomçallo Nunez Barreto, Aluoro 
Meemdez Cerueyra, Meemdo Affomsso seu jrmaão, Diego Lopez de 
Sousa, Gomçallo Eannes dAabreu, Vaasco Fernamdez Coutinho, Aluoro 
Perevra sobrinho do comdestabre, aquelle cujos filhos ao depois teueram 
carrego da criaçom delRey Dom Affomsso, como adiamte será comtado, 

35 Gomez Martimz de Lemos, Joham Affomsso de Brito, Diego Aluarez 
meestre sala, Luis Aluarez Cabrall, Fernam dAlluarez seu filho, o doutor 

I. assi A. — 2. jente A. — 4. assi A. — 10. queriam A. — i3. despois A. — 23. AfTom 
A. — 25. Martimz] miz A. — 25-26. Gomçalle annes A. — 27. Rodriguez] noiz A. — 
29. Martimz] miz A. — 3i. afTom A, — 32. Gomçalle annes A. — 35. Martimz] raiz A. 



— i54 — 

Martim dOssem, Diego Fernamdez dAlmeyda, Diego Soarez dAlbergaria, 
Aluoro da Cunha, Aluoro Fernamdez Mazquarenhas, Joham Affomsso 
dAllamquer, Gomçallo Pereyra de Vouzella, Ruy Vaaz seu jrmaão, Gom- 

A,65,v, 1 çallo Pereyra das armas, Lopo Diaz dAzeuedo, Martim * Lopez dAze- 

uedo, Fernam Lopez dAzeuedo, Gomçallo Gomez dAzeuedo alcayde 5 
dAllamquer, Johane Meemdez de Vaascomçellos, Ruy de Sousa, Nuno 
Vaaz de Castello Bramco, Lopo Vaasquez, Fero Vaasquez, Gill Vaas- 
quez, Paj'o Rodriguez, Diego Soares, Joham Soarez, todos estes jrmaãos 
de Nuno Vaasquez, Ruj' Gomez dAlua, Garcia Moniz, Paay Rodriguez 
dAraujo, Joham Fogaça, Vaasco Martimz do Carualhal, Fernam Vaas- lo 
quez de Sequeyra, Fernam Gomçalluez dArqua, Esteuam Soarez de 
Mello, Meem Rodriguez de Refoyos, Vaasquo Martimz dAlbergaria, 
Joham Vaasquez dAlmadaã, Pêro Vaasquez, Aluoro Vaasquez seus 
filhos, Aluoro Gomçalluez dAtayde gouernador da casa do Ifíamte 
Dom Pedro, Vaasco Fernamdez dAtayde gouernador da casa do Ifíamte i3 
Dom Hamrrique, Pêro Gomçalluez Mallafaya, Luis Gomçalluez seu 
jrmaão, Joham Rodriguez Taborda, Pêro Gomçalluez de Curutello, 
Joham dAtayde, Joham Pereyra, Aluoro Peixoto, Pêro Peixoto, Bem- 
bendim de Barbudo, Pedro Eannes Lobato, Ruy Vaasquez Ribeyro, 
Diego Lopez Lobo, Aluaro Eannes de Cernache, Aluoro Ferreyra, que 20 
depois foy bispo de Coymbra, Gomez Ferreyra. Todos estes senhores 

A,r)5,v,2 fidallgos eram capitaaes de jemte *mujta ou pouca, cada huú segumdo seu 
estado. E afora estes eram com elRej' aquelles estramgeiros que ja 
dissemos, e huú rrico cidadaão de Imgraterra, que chamauam Momdo, 
que ueo a seruiço delRey com quatro ou çimquo naaos e mujtos arche}'- 25 
ros e outra gemte. Ficarom jsso meesmo no rreyno per todallas comar- 
quas fidallgos rrepartidos pêra guardar as fromtarias, e sobre todos o 
meestre dAuis que ficaua em pessoa delRey. 



8. Rodriguez] roiz A. — 9. dAlua A, da Silua I — Rodriguez] roiz A. — 10. Martimz] 
miz A. — 12. Rodriguez] roiz A — darrefoyos A — Martimz] miz A. — 17. Rodriguez] 
roiz A. — 18. Pêro Peixoto] na margem A. — 18-19. Belendim de Barbuda I. — 19. Pedre 
annes A. — 20. Aluara annes A. 



— i55 — 

Como elRey em aquelle dia que partio fe:{ sua oraçom muy deuota- 
mente, e das cousas que em ella pidio. Capitidlo Lj. 

GRAMDE foy sempre a deuaçom que elRey teue em todos seus dias, 
segumdo ja disse no prolloguo daquesta estorea. e dizem que 
_, em aquelia sesta feyra que ouue de partir, teemdo seu altar 

corregido, em desfalldramdo as uellas de sua frota se pos em jeoihos, e 
alieuamtou os olhos e as maãos comtra o çeeo, e disse. Senhor, porque 
tua emfimda merçee e piedade amtre as tuas gramdes e marauiihosas 
obras feitas per teu jmfimdo poder, te prouue trazeres a mym teu pequeno 

,o seruo a este estado, em que me poseste * por tua graça, damdome rreynos A,tj6,r, i 
e terras a rreger e mamdar, no quall me fezeste mujtas e gramdes mer- 
çees, primçipallmente damdome ajuda e esforço pêra comtrariar meus 
jmmijgos, e agora me chegaste a este tempo, prazate por tua samta 
merçee que te nembres de mym e deste teu pouoo, de que me deste 

i5 emcarrego que somos aqui ajumtados pêra fazer teu samto seruiço, e nos 
queyras dar uitoria comtra os jmmijgos da tua samta ffe, guardamdo a 
satisfaçom de nossos peccados pêra outro tempo. E uos minha senhora 
uirgem Maria, que sempre de meus feitos fostes uogada, prazauos comti- 
nuardes em minha ajuda, porque pollos uossos meriçimentos eu rreçeba 

20 uitoria daquello que sabees, que com tamanho deseio uou rrequerer. O 
uemto frio nas uellas começou de lamçar a frota polia boca da foz, a 
quall cousa era tam fremosa de ueer, que aquelles que o uiam nom 
podiam cuydar, que sobre semelhamte prazer auia outro mayor. E de 
todo o ajumtamento daquelles que ficarom em Lixboa, era pollos muros 

25 dalcaçoua e assy per todollos outros lugares, domde sse bem podia ueer 

a sahida daquella frota, na quall cousa* todos nom semtiam pequena A,6t>,r,2 
follgamça saluo alguús que elRey per necessidade mamdara ficar. Oo 
Senhor deziam elles, camanho amor mostraste ao pouoo de Portugall, 
quamdo lhe deste semelhamte primçipe pêra seu rregimento. Bem 

3o auemturado foy o dia em que o seu naçimento apareçeo em este mundo, 
ca elle por certo pos a uerdadeira coroa sobre a cabeça do seu pouoo. 
Vaa deziam elles, com tamta boa uemtura, que a fama da sua uitoria 
faça emueja a todollos primçipes do mundo. E alli queria cada huú 
çerteficar que sabia a uirtude daquelle segredo, mas nom porem que o 

35 nehuú soubesse certamente, outros se qxieriam trabalhar de saber o 
numero da frota, como quer que seu trabalho açerqua dello prestasse 

1. aquell A. — i3. emmijgos A. — 25. assi A. — 27. foUganca A. — 3o. mumdo A. 
3i. ell A. — 33. mumdo .K. 



— i56 — 

pouco. E assy esteueram em suas departiçoões com pouca nembramça 
de comer nem beuer. e mujtos delles tijnham os rrostros clieos dagua, 
nom podemdo rreteer a força de suas lagrimas amte a gramdeza de 
sua marauilhosa allegria, nom sse queremdo dalli partir ataa que os 
montes de Cezimbra escomderam toda a uista da frota. Assy correram 
todos aquelles nauios sua uiagem, de guisa que ao sábado sobre a tarde 
A,66,v, 1 * começarom de dobrar o cabo de sam Vicemte. e por rrazora de certas 
rrelliquias que alli jaziam, mesurarom todas suas uellas em dobramdo o 
cabo por sinall de rreueremça. e aquella noute foi a frota toda jumta- 
mente amcorar na bahia de Laguos. E ao domingo seguimte sahio 
elRey em terra, e teue loguo alli seu comsselho, no quall foy determinado 
que sse deuulgasse claramente toda a uerdadeira emtemçom daquelle 
mouimento. porem foy mamdado ao meestre frey Joham Xira que pree- 
gasse, porque todo o pouco podesse uerdadeiramente saber quall era a 
emtemçom, por que sse elRev mouera a fazer aquelle ajumtamento. 



Como o meestre frey Joham Xira preegou amte a uista de todo o 
pouoo, e das rre{o5es que disse. Capitidlo Lij. 



M" 



UJTAS uezes falley nos capituUos amte deste, com quamto cuydado 
e dilligemçia foy sempre guardado o segredo daqueste feito ataa 
este pomto, que ja a sua rrotura nom podia trazer nehuú dano. 20 
e porem determinou elRey com acordo de seu comsselho de seer alli - 
deuullgado, pêra a quall cousa mamdou preegar ao meestre frey Joham 
A,C6,v,2 Xira, o quall auisado do que auia de dizer sobio * em seu pullpito pêra 
auer de preegar amte aquelle pouoo. E ajmda que lhe muy breue espaço 
fosse dado, elle assy como homem mujto abastado de çiemçia fallou 25 
mujtas cousas de gramde autoridade, das quaaes nos apanhamos alguúas 
pequenas partes, assy como as podemos apremder segumdo a lomgura do 
tempo por acompanharmos nossa estoria. Creo disse elle, que depois 
que elRey nosso senhor teue determinada a emxucuçom deste feito, 
forom amtre uos outros desuayrados juyzos açerqua de sua emtemçom, 3o 
nom cora pequeno deseio de saber o seu uerdadeiro propósito, elle assy 
como primçipe mujto sesudo, acaudellamdosse dos danos que poderiam 
acomteçer a uos e a elle, guardou sempre seu segredo, como compria aa 
gramdeza de tamanho feito. Agora homrrados senhores, que serate que 

1. os] o A. — 5. assi A. — i5. aquell A.— 18. Mvitas A. — 20. ponto A. — 24. aquell 
A. — 25. come A. — 3 1. assi A. 



- i57- 

he rrazoado de uos seer rreuellado, uos faz saber que comsijramdo elle 
as mujtas e gramdes merçees, que Deos teem feitas a estes seus rreynos 
e a uos outros seu pouoo, damdolhe tamtas e tam gramdes uitorias com- 
tra seus jmmijgos, polias quaaes trouxe seus feitos a este fim. e porque 
5 em trautamdo assy aquellas primeiras cousas, * ajmda que comtra sua A,67,r, i 
uoomtade fosse, se fezerom mujtos danos comtra os christaãos, dos 
quaaes elle sempre mujto deseiou fazer comprida peemdemça. nom por- 
que elle semtisse sua comçiemçia por ello agrauada. ca pequena culpa 
merece o que erra sem comssemtimento de sua uoomtade, mas porque 

10 das boas uoomtades he, segumdo diz sam Bernardo, conhecer homem 
culpa omde culpa nom tem. quis elle mouersse de fazer tall seruiço a 
nosso Senhor Deos, per que merecesse pêra ssi e pêra uos outros parte 
na sua gloria, o quall por certo nom podia seer ma3'or que guerrear 
os jmmijgos da nossa samta lie catholica. Ca aquelle que pode comtra- 

i5 dizer ao erro e nom o comtradiz, por esse meesmo comssemtimento 
parece que o aproua, segumdo he escprito na terçeyra causa e na ter- 
çeyra questam do degredo, dizemdo que aquelle que pode comtradizer 
e empachar aos maaos e nom o faz, nom he outra cousa saluo darlhes 
fauor a sua malldade, e nom carece descrupoUo da sospeyçom da compa- 

20 nhia escomdida, o que manifestamente uee o peccado comtra a samta 
ffe, e nom o comtraria. E pois tall como este, que he outra cousa se- 
nom semelhauell aaquelles jmmijgos que o fazem. poUo quall *he digno A,67,r,2 
e merecedor daquella meesma culpa, e assv deue por Deos seer juUgado. 
Ca como diz o apostoUo no primeiro capitullo da sua epistolla aos Romaãos, 

25 que nom soomente aquelles que ssom comtra a fte sam dignos de morte, 
mas ajmda os que o comssemtem nom lho comtrariamdo com todas 
suas forças. Polia quall cousa parece aquelle que sse teem por cathol- 
lico e uerdadeyro christaão, e com toda sua força nom sse despoõe a 
deffemder a sua samta ffe, nom he uerdadeiro caualleiro nem nembro de 

3o Jesu Christo, nem teem parte alguúa com elle, e que he pior que cada 
huú daquelles jmfiees. Ca todo aquelle que uiue sob alguúa ley, he theudo 
de sse poer a perijgo de morte polia guardar e mamteer. Ca diz Tullio 
no primeyro liuro dos offiçios, e o philosofo no terceiro liuro das eeticas, 
que aquelle he uerdadeiramente forte, que uiuamente sofre a morte por 

35 deftemssam de sua ley. Ora quamdo o homem he obrigado a deflemder 
as leys de sua terra, quamto mais deue seer polia ley de nosso Senhor 

4. emmijgos A. — 7. muyto A. — 14. emmijgos A. — 17. contradizer A. — 20. many- 
festamente A. — 22. emmijgos A. — 23. assi A — pella A. — 29. membro A. — 33. phil- 
losofo A. 



— i58 — 

Jesu Christo, polia quall somos certos, que posto que moyramos em esta 
uida, uiueremos sempre na outra, segumdo da testimunho sam Leam papa 
na uiçesima terçia causa e na oitaua questam dos degredos dos samtos 

A,f)7,v, I padres, omde diz. *Tyraay todo pauor e espamto, e estudaae em pelleiar 

esforçadamente comtra os jmmijgos da samta ífe. ca Deos todo pode- 5 
roso sabe, que sse alguú de uos outros morrer, que morre polia uerdade 
da ffe e saluaçom da sua ley. pollo quall elle meesmo lhe dará o 
çellestriall guallardom. poemdo exemplo de Moyses coudell do seu 
pouoo, ca tamtos perijgos e trabalhos sofreo por deffemssom da sua ley. 
Porem elRey nosso senhor assy como uerdadeyro caualleiro se mouco lo 
primçipallmente pêra fazer seruiço a nosso Senhor Jesu Christo empee- 
çemdo aaquelles, que em doesto da sua ley uiuem na terra que elle 
primeiramente deu aos christaãos. Ca podees saber que a cidade de 
Ccpta com toda a outra mourisma depois da sua paixom foy comuertida 
aa sua samta fie, na quall durou ataa o tempo do comde JuUiam que a i5 
per sua uoomtade deu aos jmfiees. os quaaes tornaram as suas samtas 
egrcias em mizquitas, tiramdo dhi as cousas samtas e lamçamdoas em 
nosso doesto per lugares cujos e uijs. e dalli fezeram depois mujtos 
danos na Espanha, pollos quaaes nos justamente podemos fazer aquelle 
pramto, que sse escpreue no segumdo capituUo do primeiro liuro dos 20 

A,67,v,2 Macabeus, que fez aquelle samto barom Matias* sobre a cidade de Jeru- 
salém dizemdo. Guay de mym, porque naçi pêra ueer a destruyçom da 
samta cidade, uemdoa posta nas maaos dos jmmijgos. e as cousas 
samtas lamçadas em çugidade. e o seu templo feito assy como homem 
sem homrra. e os uasos do seu samto sacrifício som leuados catiuos, e 25 
tornados em husos abominauees e cujos, e toda a fremosura lhe he qui- 
tada, e a que era liure, agora he feita serua amte a uista de nossos olhos. 
O quall samto barom depois deste chamto, que assy fazia com tamanha 
door pollo abatimento da sua ley, e mouido com zello de uirtude, muy 
housadamente matou huii Judeu de seu pouoo sobre a ara, omde 3o 
pubricamente em presemça de todos queria fazer sacrifício aos jdollos, e 
matou outrossy huú gemtio delRey Antioco, porque o rrequeria que 
fezesse aquelle abominauell sacrifício, elle loguo começou a dar gramdes 
uozes cham; mdo os seus dizemdo. Todo aquelle que teem zello da ley, 
saya depôs mym. E assj' morou com elles com gramdes trabalhos no H5 
deserto, ataa que lhe ueo o tempo da morte, amte da quall os comfor- 

9. tantos A. — 10. nosso senhor elRev AI — assi A. — 14. maurisma A. — 1 5. fe A.. 

— 18. despois A. — 19. pellos A. — 20. pranto A. — 21-22. Jhrlm A. — 23. emmijgos A 

— 14. iissi A. — 28. despois A. — 3o. matou] mamdou A, matou I. 



-i59- 

tou todos, que perseuerassem todos fiellmente pelleiamdo e padeçemdo 
por amor da ley de seu Senhor Deos* dizemdo. Agora filhos mujto ama- A,68,r, i 
dos, sede amadores da ley, e daae uossas almas pollo testamento dos 
padres, e acordaayuos das obras que elles fezerom em suas geeraçoões, 
5 e rreçeberees gramde gloria e nome perdurauell. Ora homrrados senho- 
res, elRey nosso senhor uos faz a saber, como por todallas rrezoões 
suso ditas, sua emtemçom he com a graça do Senhor Deos hir sobre a 
cidade de Cepta, e trabalhar quamto elle poder, polia tornar aa fie de 
nosso Senhor Jesu Christo. porem uos emcomemda que ajumtees em 

IO uos meesmos todas uossas forças, pêra cobrardes uerdaJeira fortelleza 
segumdo sua emtemçom, e auerdes com elle parte de seu gramde meri- 
çimento. e arredaae de uos openioões que alguOs outro dia traziam em 
Lixboa, pareçemdolhe graue mouimento o que elRey assy queria fazer, 
e jsso meesmo o doo que mamdou tirar tam em breue polia morte de sua 

i5 molher. o quall juizo certamente foy assy deliberado, como de prim- 
çipe mujto uirtuoso e conhecedor de todo bem. O quall bem deuees de 
saber, que teue mayor semtido da morte de sua molher, que outra 
nehuúa pessoa, empero por fazer limpamente o seruiço de Deos, tirou 
de ssy pollo * presemte todo synall de tristeza. E em esto nom fez elle A,68,r,2 

20 cousa noua. ca rrecomta Vallerio Ma.ximo no seu primeiro liuro, e Tito 
Liuio no liuro da segumda guerra, que auemdo os Romaãos huúa batalha 
com Aniball açerqua do rrio de Canas, morreram dos Romaãos de 
demtro da cidade quaremta e sete mill e trezemtos e trijmta e quatro, 
afora seus amygos e liados, de que morreram casy numero jmhjmdo. 

25 pollo quall nom ficou molher em Roma, que nom fosse timta de doo. 
empero acabados os trijmta dias, forom todas uestidas de uestiduras 
bramquas. e assy leyxarom todo outro synall de tristeza, soomente por 
sacrificarem mais allegremente suas animalias amte os altares de seus 
deoses. Da quall cousa poderemos tirar dous rrespeitos. o primeiro ho 

3o estimo em que aquelles tijnham a morte de seus filhos jrmaãos e parem- 
tes, ca era amtre elles auida por homrrada e digna de gloria, quamdo 
a rreçebiam por deffemssam ou acreçemtamento da sua própria terra, 
e porem tijnham que nom deuia per elles de seer tam lomgamente cho- 
rada, segumdo era o gramde açemdimento e feruor que tijnham açerqua 

35 das cerimonias e sacrifícios de seus * deoses, pois que sobre tamto espar- A,68 v, i 
gimento de seu samgue comtra a naturall jmclinaçom de suas uoomtades, 
soomente com uoomtade de rrelligiam sse arredauam de toda tristeza. 

i3. assi A. — 14. enbreue A. — i5. assi A. — 21. guerra] graça A. — 24. casi A 
— jnfijmdo A. — 25. pello A, — 26. foram A.— 3õ. jnclinaçom A. 



— i6o — 

A quall cousa por certo he a nos muy gramde doesto, quamdo estes que 
certamente sabiam que as almas daquelles dereitamente hiam ao jmferno, 
que rrezam teemos nos de chorar a morte daquella, que sabemos que he 
na companhia dos bem auemturados samtos. Ca uisiuellmente ulmos 
s}'naaes amte os nossos olhos, per que o com gramde rrezam deuemos 3 
creer. quamto mais em semelhamte auto, pêra o quall allegremente 
deuemos emderemçar nossas uoomtades, tamto mais certamente sabe- 
mos que a sua fim he saudauell e digna de gramde meriçimento. 

Como o meestre priniicoii a cni\ada^ e como per sua autoridade 

assolliíeo todos de culpa e pena. Capitullo Liij. 10 

EPOis que o meestre assy acabou sua rrazom, quamto era aaquelle 
processo em que tomara seu fumdamento, disse. Homrrados senho- 
res, todo o que uos ata aqui disse, foy dito e fallado per autoridade 
e mamdado delRey nosso senhor, mas o que uos agora quero dizer, será 

A,68,v,2 diio como de meu offiçio, porque nos outros nom * somos senam como i5 
atallayas no pouoo de Deos, pêra o auisar comtra seus jmmijgos corpo- 
raaes per escprituras, segumdo he escprito em mujtas pollos samtos 
profetas, espiçialimente em o terceiro e em os xxxiij capitullos dEzechiell, 
omde diz aos semelhamtes pastores que os ha feitos atallayas sobre o 
seu pouoo ameaçamdoos que sse nom forem dilligemtes em amoestar 20 
todollos seus errores peccados perijgoos e danos, em que de presemte 
estam ou ao diamte poderem estar, que a morte e danaçam que lhe por 
eilo possa uijnr, que a demamdara de suas mãaos, e comdenara por ella 
o seu samgue delles meesmos. E per essa meesma guisa se querella o 
profeta Jeremias em a lamemtaçam e pramto que fez sobre Jerusalém, 25 
dizemdo que os seus profetas e sacerdotes forom causa de seu catiuciro 
e destruyçam, segumdo mais compridamente se declara no segumdo capi- 
tullo, homde diz. Os teus profetas te uiram cousas fallssas e loucas, e 
nom te mostrauam a tua malldade, pêra te prouocarem a penitemçia. 
Ca em semelhamtes tempos disse o meestre, ssom as nossas armas neçe- 3o 
ssarias .s. a pallaura do Senhor Deos, presemtamdo os seus samtos sacra- 

A,r,o, r, I mentos aos fiees e cathollicos christaãos, por que a sua* fim possa seer 
segumdo perteeçe aa sua samta rrelligiam. Assy como he escprito no 

2. jnferno A. — 5. ante A, — i3. ataa qui A. — 14. mandado A. — 17. per escpiitu- 
ras] e espirituaes I. — iq. semelhantes A. — 21. perigos] na margem A. — 25. allamen- 
tacam A — Jhrlm A. — 2G. foram A. — 33. assi A. 



— i6i — 

meesmo capitullo do deuteronomyo, que chegamdosse a ora da batalha, 
esteuesse o sacerdote diamte da face da hoste, dizemdo. Ouue Isrraell, 
e uos outros que querees cometer pelleia comtra uossos jmmijgos, nom 
aja medo em uossos coraçoões, nem queyraaes temer nehuúa cousa 
5 com o seu espanto, nem queyraaes fugir com o seu temor, ca nosso 
Senhor Deos em meo de nos pelleiara comtra nossos auerssavros, 
por que uos liure do seu perijguo. E esto meesmo comfirma sam 
Tomas jn secumda secumde R q. no artijgo segumdo, homde trauta 
esta matéria, comcludimdo que ajmda que aos prellados e clérigos 

IO nom comuenha pelleiar, pêro a elles primçipallmente comuem e he 
justo e meritório animar e emduzir e esforçar a todollos fiees chris- 
taãos, por que justamente possam pelleiar polia maneira que ja tenho 
dito. Açerqua do quall propósito diz sam Leam papa, fallamdo de ssi 
meesmo na xxiij causa e na oitaua questam do degredo, que elle fez 

i5 ajumtar o seu pouoo comtra os mouros, que era fama que uijnham a 
huú porto de mar. e elle per sua própria pessoa ssahio com elles. E 
porem husamdo de meu oííiçio, *uos rrequeiro e rrogo a todos quamtos A,6o,r,2 
aqui presemtes sooes, que comsirees bem em uossas comçiemçias quaaes- 
quer peccados, malles, ou erros, que tenhaaes cometidos, e que peçaaes 

20 ao Senhor Deos perdam deiles com todo coraçom e uoomtade, e façaaes 
delles penitemçia, auemdo firme propósito de uos guardar de pecar daqui 
em diamte. Polia quall cousa serees assoUtos de culpa e pena, per uir- 
tude de huúa letera que o samto Padre outorgou a elRey nosso senhor 
ueemdo seu samto deseio. A quall letera logo alli de presemte o mees- 

25 tre pruuicou. em fim da quall fez a assolluçom a todos, e disse. Ami- 
gos, deuees de teer, que a uida destes jmfiees nom he amtre nos per 
uirtude da sua própria força, soomente por uoomtade do Senhor Deos. 
ao quall praz dar lugar que nos dem fadiga e trabalho, porque nos 
afregidos e trabalhados per o poder de tam uijs jmmijgos, conheçamos os 

3o mujtos erros que comtra elle cometemos, e nos tornemos a elle per uer- 
dadeira penitemçia. e nos assy tornados ao uerdadeiro caminho, possa- 
mos delle rreçeber esforço e ajuda pêra os destroir. os quaaes ata aqui 
eram por sua gramde piedade soportados, * nom sem gramde escomdido a,6q,v, i 
juizo. Ca assy como nosso Senhor Deos no tempo do patriarca Abraão 

35 soportaua aos gemtios jmmijgos da sua fle soomente por correiçom do 
seu pouoo. assy mamtem agora aquestes amtre nos em uista de nossos 

I. do deutoronomio I, do uteronomyo A. — 5. com I, om A. — lo. prinçipallniente 
A. — 17. quantos A. — 20. e façais I, façaaes A. — 24. ueendo A. — 25. prouicou A. — 
— 26. jnfiees A. — 32. ataa qui A. — 36. mantém A. 



102 

olhos, fazendo dano a mujtos dos nossos jrmaãos, soomente a fim de nos 
amoestar e castigar, homde sse lee que Deos disse aaquelle samto 
patriarca. Tu hiras a teus padres, e serás emterrado em tua uilhiçe, 
pêro em a quarta geeraçam tornaram aca .s. os que de ti deçemderem, 
ca ajmda nom ssom compridas ataa este tempo presemte as malldades 5 
dos que esta terra possuem. Pois se nos teuermos em elle comprida 
esperamça, he de creer que nos ajudara comtra toda esta maa geera- 
çom. que por certo nom será a nos pequena gloria e liomrra, amtre 
todoUos pouoos que forom em esta Espanha, seermos os primeiros que 
passamos em Affrica, e começamos de poer o jugo da ffe sobre os pes- lo 
cocos dos jmfiees. E assy teeremos dous muy gramdes proueytos. o 
primeiro he a saluaçom que sabemos certamente que rreçeberemos pêra 

A,6i;),v,2 nossas almas, e o segumdo homrra muy gramde amtre * todos nossos 
uizinhos, e memoria perdurauell que fiquara pêra todo sempre, em quamto 
hi ouuer homeês que possam fallar. e nom ajmda aquelle nome que os i5 
gemtios cobrauam por suas uitorias e façanhas, ou que alguús primçipes 
christaãos ajmda rreçeberam por quererem ssoiugar seus uizinhos sem 
causa justa nem honesta, mas rreçeberemos o uerdadeiro nome, porque 
o fazemos soomente por amor e homrra daquelle, que por acorrer a 
nossa miséria e comdenaçam em que éramos, e liurarnos delia, nom 20 
duuidou deçemder do çeeo, e poersse amtre nos, uistido de nossa humani- 
dade, em a quall padeçemdo pos sua alma por nos, ataa seer morto na 
cruz e liurarnos. Em o que, como diz sam Pedro no segumdo capi- 
tullo da sua primeira canónica, nos deu exemplo marauilhoso, pêra que 
siguamos as suas peegadas. Em cuja prouaçom diz sam Joham no ter- 25 
çeiro capitullo da sua primeyra canónica, que assy como elle morreo 
por cada huú de nos, assy deuemos nos morrer se for mester, por saúde 
e saluaçom da sua samta ffe, dizemdo. Em esto conhecemos a caridade 

A,70,r, t de Deos, por quamto elle pos * sua alma por nos, e nos outrossi deuemos 

poer nossas almas comtra aquelles que brasfemam o seu samto nome. 3o 
Que como em este corpo glorioso da egreia millitamte, cuja cabeça he 
Jesu Christo nosso rremijdor, seiamos todos seus nembros. e todallas 
perfeiçoões dignidades e rriquezas e estados nos selam despemssadas per 
Deos, por que com ellas ajudemos e siruamos na sua samta casa, doem- 
donos da desomrra que foi feyta nas suas samtas egreias, seemdo torna- 35 
das em seruiço dos jmmiigos da ffe, assy como se fosse feita a nos mees- 
mos, segumdo mais largamente nos emsina o apostollo nos doze capitullos 

6. pessuem A. — 9. foram A. — u. assi A. — (3. antre A. — 24. canónica I, crónica 
A. — 26. assi A. — 3o. santo A. — 32. membros A. — 36. emmijgos A — assi A. 



— i63 — 

da epistolla que emuiou aos Romãaos, e em outra semelhamte que sse 
escpreueo aos de Corimtio. E mujtos exemplos da samta escpritura uos 
poderia aqui emmemtar, se nom semtisse as uossas uoomtades tam imcli- 
nadas a todo bem. Empero por acabar meu offiçio, uos quero aqui poer 
5 huú breue exemplo do gramde amor, que huúa samta molher teue açer- 
qua do seruiço de Deos e da sua samta fie. a quall foy aquelia samta 
madre dos Macabeus. ca como assy fosse, que ella uisse sete filhos estar 
postos em duros e graaues* tormentos, por mamdado daquelle maao rrey A, 7o,r,2 
Antiocho, por quamto nom queriam fazer comtra a ley do seu uerda- 

lo deiro Deos e comer carne de porco, esta gloriosa molher com o amor 
da lev e da homrra de Deos, esqueeçeo o naturall diuido que cora os 
filhos auia. e espertouos a sofrer doorosa morte sobre sua carne mees- 
ma, que sse geerara em o seu uemtre. amoestamdo os filhos com uoz 
nam de molher, mais de forte e samto barom que morressem polia lev 

i5 do seu Deos. Domde assy he escprito delia no septimo capitullo do 
segurado liuro dos Macabeus, das cousas que disse, e corao esforçaua os 
filhos, quarado os uio em os tormentos, e por tamto madre assy maraui- 
Ihosa em tamta maneira he dina de boa memoria, a quall ueemdo sete 
filhos perecer sob espaço de huú dia, sofriao com boom coraçora polia 

20 fiell esperamça que tijnha em Deos. e assy amoestaua fortemente com 
uoz paternall a cada huij delles em esta maneyra dizemdo. Nom ssey eu 
em que maneyra parecestes em meu uemtre. ca eu nom uos dey ho spi- 
ritu nem a alma nem a uida, nem ajumtey os nembros de cada huú de uos. 
mas ho criador do mundo, o quall primeiramente formou a natureza de 

25 todallas* cousas, e achou o naçimento e começo de todollos homeés. e A,7o,v, i 
elle uos dará outra uez com misericórdia o espiritu e a uida, assy como 
agora menos prezaaes a uos meesmos polias suas lex. E disse ao pos- 
tumeiro filho, aue misericórdia de mym, que te trouxe noue meses em o 
meu uemtre, e te dey leite três annos, e te criey e trouxe ataa esta hidade. 

3o rroguote filho, que esguardes ao çeeo e aa terra e a todallas cousas que 
ssora era ella, e conheças que de nehuúa cousa as fez Deos, e a geera- 
çom dos homeés, e assy será feito em ti esforço polia sua merçee, que 
nom temas este carniçeyro. mas seemdo feito dino com teus jrmaãos, 
rreçebe morte. A quall cousa o mamçebo com muy boom coraçom 

35 sofreo. e depois a madre com gramde comstamçia e com aquelia bem 
auemturada esperamça que em seu coraçom tijnha, rreçebeo coroa de 

I. semelhante A. — 7. assi A. — g. Amtioco. — 17. assi A. — 18. dina I, digna A. — 
20. assi A. — 22. uentre A. — 23. a I, om A — membros. — 24. mumdo A. — 32. assi A. 
— 34. mancebo A. 



— 164 — 

martirio. E pois aquella molher cuja natureza he fraca, tam esforçada- 
mente comsselhaua os filhos que sofressem morte por seruiço de Deos, 
quamto mais seemdo ajmda da ueliia ley, aos quaaes segumdo diz o 
apostollo. Todallas cousas em fegura acomteçeram. que amostramça 
posso eu fazer a uos outros, que sooes fiees nembros de Jesu Christo, 
A,7o,v,2 * comprados pollo seu samgue precioso. E porque disse em cima que a 
memoria desto duraria pêra todo sempre amtre os homeés, quero que 
saybaaes que sse os juizos estrollogos som uerdadeiros, segumdo apremdi 
dalguús sabedores, que sabiam a ora em que sse primeiramente este 
feito determinou, por emtrar Martes em sua exaltaçom em casa de Vénus 
de ssahimento do Soll, e a Saturno emtomçe que he o signo de Libra, 
significador das cousas rrenembradores, mostra que a memoria desto ha 
de durar, e sse ha de poer em escprituras, cujo tresumto será leuado a 
a mujtas partes em rrenembramça de uossos boõs feitos. 



Como elRey partio de Lagos e sse foy a Faaram, e como dalli 
seguia seu caminho ataa que chegou com toda sua frota amte as i5 
Alja^iras. Capitullo Liiij. 



K 



GABADAS assy aquellas pallauras do meestre, todos teuerom muy boa 
uoomtade pêra seguir seu emsino, sse elles crerom que aquella 
determinaçom que lhes elRey fazia saber, era uerdadeira, o que 
elles tijnham mujto pollo comtrayro do que o tijnham da primeira, ca 20 

B,89,r, 2 deziam que lhe nom fora aquello assy dito, senom por * esconder a outra 
mais certa determinaçam que elRey tinha ordenado. He mao de conhecer 
deziam elles, estas praticas que elRey traz por encubrir sua vontade. 
Sabe ja todo o mundo que vay pêra Cezilia, e agora nos quer fazer 
entender que vay sobre a cidade de Cepta. tal he agora esta como a 25 

B,89,v,i outra, que disseram * agora ha hum anno, que auia dir sobre o duque 
dOlanda. dizeilhe que busque outra mais fremosa encuberta, que quanto 
esta muito ha que a sabiamos. Assi esteue ali elRey ata quarta feira 
que partio pêra Faram. e porque em seguindo sua viagem encalmou o 
vento, foilhe necessário de estar aly ata outra quarta feira, que eram sete 3o 
dias do mes dagosto, e entom partio viagem do estreito. E a sesta feira 
hum pouco ante de noite ouueram uista de terra de mouros, e aly 

5. membros A, — 10. Martes I, mares A. — 14. rrelembramça A. — 17. aliaziras A — 
18. assi A. — 21. pello A. — 22, deziam B, diziam A — assi A. — 23. elRei B — orde- 
nada Dl. — 24. deziam I, diziam B. — 27. diseram B. — 28. fermosa B. — 29. ata I, ate 
B — 33. ouuiram B, ouueram I. 



— i65 — 

mandou elRey que fezessem andar todollos nauios de mar em roda, por- 
que nom era sua vontade entrar polia boca do estreito senom de noite, 
cremos que seria, por que os mouros de terra nom podessem tam asinha 
saber a viagem, que elRey queria leuar. Tanto que foy a noite começa- 

5 ram de caminhar polia boca do estreito, e em aquela noite aqueçeo aly 
hum pequeno caso, de que se ouuera de seguir muy grande prigo. ca 
foi assi. que por quanto aquella gallee de Joam Vaaz, em que hia o 
Iffante Duarte, tinha cheiro por azo de sua bondade, sahiose o lífante delia, 
e foise pêra a gallee do Iffante Dom Anrrique seu jrmaão. e aqueçeo 

10 de se acender fogo em huúa alanterna, pollo * qual foy grande aluoroço 8,89, v,2 
dentro na gallee. e o Iffante Duarte que jazia em cima da c aberta por azo 
da calma que era grande, lembrouse de seu jrmaão, e abrio trigosamente 
a porta, e o Iff"ante Dom Anrrique tomou a alanterna assi como estaua 
ardendo e a pos em cima, e o Iff"ante Duarte a lançou na agoa. e o 

i5 líTante Dom Anrrique tomou em sy menencoria pensando que lhe empo- 
lassem as maãos, e lhe fezesse empacho ao tempo da necessidade, mas 
alguús que hy estauam, lhe ensinarom pêra seu rremedio que posesse as 
maãos no mel, e que seria seguro daquelle danno, como de feito foy. 
ca posto que ao depois pelassem aquelles coiros das maãos, nam leixou 

20 porem de trabalhar, como se nam teuesse algum empacho, bem he ver- 
dade que este rremedio he proueitoso. Mas assi pollo presente, segundo 
a força do fogo foi grande, se a forte compreysom do Iffante nam fora, 
nam poderá assi trabalhar, que primeiro nam passaram alguús dias. 
empero todos aquelles coyros forom pelados ao depois, em quanto o 

25 fogo abrangeo. 



Como a frota checou toda ante as Alja^iras, e como aly veo Pêro 

Fernande\ Portocarreiro e os mouros de Gibaltar trazer seriiiços a 

elRey. Capitullo Lv. 

BEM he de consirar qual esperança os mouros de Gibaltar teriam, B,9o,r, i 
quando vissem chegar tamanha soma de frota tam preto de seus 
termos, porque ao sábado sobre a tarde foy ancorar antre as 
Al)aziras, a qual cousa pos muy grande espanto antre todollos mouros 
daquella parte. E pollo presente nam souberam outro rremedio senam 

I. maar B. — 6. perigo B, perijguo D. — 8. vondade B. — 9. galee B. — 1 1. galee B. — 
i5.-i6 empolassem I, empolase B. — 16. mãos B. — 18. foj B. — 19. pelasse B — não B. 
— 20-21. uerdade] e uerdade B. — 23. asi B — pasaram B. — 24. despois B. 



— i66 — 

ajuntar as milhores cousas que se poderam auer, e leuaramnas em pre 
sente a eIRey. Senhor disserom aquelles que lhe o presente leuauam, 
os vezinhos e moradores desta villa de Gibaltar vos enuiam este seruiço, 
nam cousa jgoal a excelência de tamanho príncipe, mas como se pode 
auer per semelhantes pessoas, çerteficandouos que vos nam he oferecido 5 
com menos vontade, do que seria a elRey de Graada nosso senhor, se 

B,i)o,r,2 presente fosse. Porque * sentimos e creemos que todo seruiço que vo5 
fezermos, elle o auera por tam bem empregado como em sy mesmo. E 
vos enuiam pedir por merçe, que nam ajaaes por mal de elles mandarem 
fechar suas portas e poer rrecado em sua villa. ca o fezeram por duas lo 
cousas, a primeira porque lhes foy certificado que nam quiserees dar 
segurança de vossa frota a elRey de Graada, quando vola enuiou rreque- 
rer. a segunda porque alguús daquelles mouros mancebos nam tenham 
liure poder pêra sair fora da villa. ca poderia seer que se trauaria antre 
huús e os outros tal escaramuça, per que vossa merçe aueria alguíia i5 
sanha, e por ventura podia ser aazo de vos mouerdes de todo contra 
elles. o que poderá seer que agora nam tendes em vontade. Porem por 
lhe fazerdes merçe e os tirardes deste cuidado, vos pedem que lhe man- 
dees declarar vossa vontade açerqua do que a elles pertence, polia qual 
cousa seram muito mais obrigados a vosso seruiço do que ata aqui forom. 20 
E se eu rrespondeo elRey, nam quis a elRey de Graada fazer semelhante 
rrogo, que mo tam aficadamente mandou rrequerer, que rrezam teeria 

B,9o,v, I * agora de o fazer, pois a determinaçam deste feito ajnda nam esta fora 
daquellas pessoas, que sam ordenadas pêra meu conselho, quanto pêra dar 
semelhante segurança, quanto he ao presente lhe dizei que lho tenho muito 25 
em seruiço, e que me praz de lho rreçeber, por entender de lhe fazer 
merçe em alguúa outra cousa fora daquesta, que me de presente rreque- 
rees. Os mouros ficaram muy tristes ouuindo semelhante rreposta, por- 
que quanto elles podiam entender, todo o mouimento daquelle feito se 
ordenara por causa de sua estroiçam. pêra a qual cousa nam auia mester 3o 
mais certa proua, que a uista da frota que viam rrepousada e ancorada 
ante a face da sua terra, a qual cousa lhes fazia acarretar desuairados 
pensamentos, porque as adeuinhas das vontades sobre os males duuidosos 
sempre aduzem tristes cuidados. Em Tarifa tinha elRey de Castella por 
fronteiro e alcaide huú nobre caualeiro, que fora natural destes rrcgnos. 35 
jrmaão da condessa Dona Guiomar, tio do conde Dom Pedro de Meneses, 

I. poderom B. — 12. uosa B. — i2-i3. requerer B. — 14. uila. — 19. uosaB. — 10. ate 
qui B. — 22. rogo B — requerer B. — 26. receber B. — 27-28. requerees B. — 28. reposta 
B. — 'ii. repousada B. — 33. douidosos B. — 35. regnos B. — 36. Menesses B. 



— lõy — 

o qual se chamaua Martim Fernandez Portocarreiro. E assi aqueçeo 
que o dia passado, quando a frota chegou a cabeça do estreito como 
ja ouuistes, os de Tarifa ouuerom * vista delia, e porque viam tamanha B,9o,v,2 
multidamde frota, como nunqua virom nem esperauamem aquelle estreito, 
5 estauam em sy muito marauilhados, mas a cabo de pouco amainaram 
todallas vellas, e como eram longe e sobre a tarde, os de Tarifa que 
estauam olhando disserom certamente, que aquello eram fantasmas. Mas 
hum português que hi estaua, disse, mais asinha creo eu que he aquelle o 
poder delRey de Portugal meu senhor, que outra nenhuúa vaã seme- 
io Ihança. Pois disserom os outros, que todallas aruores de Portugal fossem 
desfeitas em madeira, e todollos homeés se tornassem caipinteiros, nam 
poderiam em toda sua vyda fazer tamanha multidam de nauios. Vos 
verees disse elle, muito cedo aquillo que agora chamaaes fantasmas, car- ' 
regadas de boas gentes darmas com as bandeiras de Portugal passar 
i5 perante os vossos olhos. A. qual cousa nenhum dos outros podia creer. 
porque alem da multidam da frota, quando os nauios assy andam, e muito 
mais se os homem vee de longe, parecem dez tanta soma. O português 
teue cuidado de dar vista a rribeira pêra veer a çertidom * do que elle B, (ji.r. i 
sospeitaua. e quando no outro dia era manham, a frota começaua ja 
20 de passar per dauante os muros da villa, e pêra ajnda seer a sua vista 
mais fremosa, açertarase em aquella manham huúa grande neuoa que a 
encobrio toda, senam quando elles ouuirom o soom das trombetas e dos 
outros estromentos que se tangiam em todollos nauios, cujo som parecia 
a elles cousa çelestriai. em esto rrompeo a força do sol, e pareçeo a 
25 frota que passaua sua viagem. Mas qual seria aquelle que podesse fazer 
outra cousa na villa, que leixasse de veer tamanha fremosura. Certa- 
mente disse Martim Fernandez, bem pareça esta obra ordenada per 
eIRey Dom Joham. pareçeme quando consiro nos feitos deste homem, 
que he huú sonho, que me parece quando jaço dormindo. Consiray 
3o bem, disse elle contra os outros que aly estauam, que nunqua vistes 
nem ouuistes que nenhum rrey dEspanha nem doutra nenhuúa parte per 
sy soo ajuntasse tamanha multidom de frota. E tanto que a frota anco- 
rara ante as Aljaziras, mandou logo Martim Fernandez fazer prestes 
hum grande presente de vacas e de carneiros, e mandou com ellas Pêro 
Fernandez seu filho fazer seruiço a elRey. 



2. pasado B. — 6, eram I, era B. —7. purtugues R. — 8. purtugal B. — i3. booas B. 
— 19. jaa B. — 28. Joham I, Joam B. — 29. hee B. — 33. ante l, antre R — fazer prestos 
Martim Fernandez B D, Martim Fernandez fazer prestes I. 



— i68 — 

B,9i,r,2 Como elRey teue conselho se leuaria logo sua frota sobre a cidade, 
e como aly Pêro Fernandes mandou enforcar hum almogauere de 
Graada. Capitullo Lvj. 



C 



jOMO ali chegou Pêro Fernandez com aquelle presente, logo ouue 
hum batel em que foy falar a elRey a bordo da gallee, e depois 5 
que elle beijou a maão, disse. Senhor, meu padre Martim Fer- 
nandez uos enuia pedir por merçe, que se entenderdes que vos elle em 
alguija cousa pode seruir, que façaaes delle conta como de cada hum 
dos outros de vossa casa. E uos enuia dizer que porque elle tem em 
si encarrego daquella villa por elRey de Casteila seu senhor, que vos 10 
nam pode vir per si fazer aquella rreuerença que he theudo segundo 
vosso grande estado, nem esso mesmo se pode fazer prestes pêra se hir 
comuosco pollo encarrego que teem. mas queruos fazer seruiço de mym 
que sam seu filho em hidade e despossiçam pêra vos poder seruir em 

B,9i,v, 1 qualquer cousa que me vossa merçe * mandar. E porque entende que ha i5 
ja dias que sooes no mar, e que auereis mester algum rrefresco pêra 
vossos caualeiros e fidalgos, vos enuia aly aquelle gaado, o qual vos pede 
por merçe que rreçebaaes delle em seruiço como de cousa vossa. ElRey 
foy muito ledo com aquelle oferecimento de Pêro Fernandez, e disse. A 
boa vontade de vosso padre rreçebo eu por grande seruiço, e por ello lhe 20 
farey merçe e assi a vos, quando quer que me for rrequerido. e quanto 
he as vacas e carneiros, dizeelhe que eu tenho prouisam por agora, que 
me abaste pêra mim e pêra minha frota, e que aquello sento que será 
milhor pêra elle pêra gorniçam de sua fortaleza. Pêro Fernandez tanto 
que foy fora do batel, caualgou em hum genete que trazia, e começou de 25 
lancear todo o gaado ao longo daquella praya. e os da frota quando 
aquillo viram, mataram todallas vacas e carneiros, e proueitaramse delias 
cada hum como milhor podia, o que elRey e todollos boõs que aly 
eram, teuerom a grande bem aaquelle fidalgo. Mas outro seruiço fez elle 
que lhe elRey muito mais agradeçeo. ca ouuindo o dito Pêro Fernan- 3o 
dez dizer como hum grande almogauere do rregno de Graada andaua aly 

B,Qi,v,2 salteando os moços que* sayam a fruita, como entam leuaua hum, traba- 
lliouse de o filhar, e trouxeo ali preso em huús pardieiros velhos que ali 

2. almogauere D í, almogauer B. — 5. galle B. — 6. elle B, lhe Dl. — 9. emuia B. 

— TI. fazer per sy D — reuerença B, — i5. vosa B. — 16. refresco B. — 17. guado B — 
peede B. — 18. récebaes B. — 19. leedo. — 20. booa B — padre I, pay B — recebo B. — 
21. requerido B. — 22. vaquas B — dizelhe B — 27. matarão B. — 29. beem B — ele. 

— 3i. regno B. 



— 169 — 

estauam, antre os quaaes era huúa torre que tinha ameas, e ali o mandou 
enforcar. Mas o mouro nam rreçebeo pequena honrra em sua justiça, que 
foy acompanhado de muita e muy boõa gente, que com boÕa vontade o 
hiam veer. os quaaes tanto que o viram enforcado, o atassalharom todo 
5 as espadas, e esto fez Pêro Fernandez com muy boõa vontade sem em- 
bargo do rreino de Castella teer entam paazes com o de Graada. Mas 
estes seruiços nom lhe forom a elle mal agradecidos, e logo aly elRey 
lhe mandou dizer que lhe rrogaua, que tanto que fosse em seu rregno o 
veese veer, como de feito depois veeo. onde lhe foy dado soomente por 

10 elRey mil dobras douro em huúa copa. dizendo que lhas mandaua pêra 
hum cauallo, fora outras muitas joyas que forom estimadas em outro 
tanto valor, e com todo esto lhe fezerom os Iffantes cada hum per sy 
mu)' grandes mercês, de que elle foy muy contente. E estando assy 
elRey em aquelle lugar, teue seu conselho de jr sobre a cidade a segunda 

i5 feira seguinte, e em fazendo naquelle dia sua viagem, sobreueo huiia 

*muy grande çerraçam, que fez grande empacho a toda a frota pêra gouer- B, 92,r, 1 
nar dereitamente onde queria, e porque as correntes sam ali muy grandes, 
lançarom toda a frota das naaos caminho de Malega, a fora huúa em que 
hia Esteuam Soarez de Mello, e as gallees e fustas e outros nauios 

20 pequenos forom em aquelle mesmo dia ante a cidade, onde a toruaçam 
era antre os mouros por semelhante chegada, empero nam grande, por 
quanto elles nam uiram ajnda toda a frota junta tam preto de sy como 
viram as gallees. nem podiam cuidar que elRey hya sobre aquella cidade, 
porem fecharom suas portas, e poseromse per cima mais por veer ca por 

25 se defender. 



Como elRey íj^andoii passar as gallees da outra parte de Barba- 
çote, e do conselho que elle teue. Capilullo Lvij. 

DEPOIS que os mouros virom de todo as gallees ancoradas sobre o 
seu porto, forom ja algum tanto perdendo de sua primeira 
segurança, especialmente Çalabençala e assi alguús daquelles 
velhos da cidade, por cuja rrezam escreuerom logo a todos aquelles 
lugares* daly açerqua, que se veessem com suas armas e corrcgimentos, 6,92, r,2 
ata que vissem que podia seer aquella vinda, outros disserom que 

2. recebeo B. — 5 boa B. — 6 reino B — pazes R — Grada B. — 8. rogaua B — regno B. 
— 18. nãos B. — ig. galles B. — 21. era] om D. — 23. galles B. — 24. per] por D.— 25. defen- 
sar B D. — 26. galles B. — 29. jaa B. — 3o. Çallabençalla B — assv B.— 3i.perD. — 
32. dalij B.— 33 ataa B. 



— lyo — 

logo como a frota parecera pollo estreito, aquelle rrecado fora enuiado. 
Mas de qu^qiier guisa que fosse, o espaço podia seer pequeno, porque 
ao sábado ouuerom elles primeiramente vista da frota, e a segunda 
feira chegou sobre a cidade, e daquelles mouros que estauam sobre os 
muros, começaram alguíãs datirar com troõs e beestas contra os da frota. 5 
no que bem mostrauam que tinham perdida toda a esperança de paz. E 
como quer que assi trabalhassem de fazer seus tiros, nom podiam muito 
empecer a nenhum dos christaãos. porque os nauios estauam bem afas- 
tados do muro a fora a gallee do almirante, a qual logo no começo foy 
ancorar mais perto da praya que as outras, onde estaua muy sogeita ao '» 
prigo daquellas setas, mas elle por nenhuúa guisa se quis dali mais afas- 
tar, como quer que lhe fosse dito per alguúas pessoas, aos quaes elle 
rrespondia. Que pois que o a ventura aly primeiramente acertara, que aly 
queria esperar qualquer prigo que lhe veesse. que pois que elles aly vee- 

ii,in,'/, 1 rom pêra jr pêra diante, nom era rrezam que elle tornasse atras. * Certo '5 
que elle foy sempre em sua vida muy esforçado homem darmas, e por 
tanto nom queria que por elle passasse cousa grande nem pequena, que 
nom pertencesse ao nome que tinha. Alguús daquelles mouros mance- 
bos sahiram a praya a escaramuçar com os christaãos. e os christaãos 
jsso mesmo sairom nos batees, e andauam ao longo daquelia praya tirando 20 
huús aos outros, e assi trauaram sua escaramuça hum grande pedaço. 
e alguús daquelles mouros filharem hum penedo, que estaua no mar, 
pêra teerem dal}^ milhor aazo pêra empecer aos christaãos. mais Esteuam 
Soarez conheçendolhe aquella auantajem foy rrijamente a elles, e tomou- 
Ihes o dito penedo, e assi andarom hum grande pedaço, ata que dos 25 
mouros morrerem alguús, e os outros ouuerom por seu barato de se 
rrecolherem pêra a cidade. Aa quarta feira que era véspera de sancta 
Maria dagosto, teue elRey seu conselho de se passar da outra parte da 
cidade, onde se chama Barbaçote, com tençam desperar ai}' as naaos que 
a corrente lançara em Malega como ja dissemos, e depois que ala foy, 3o 
porque vio que as naaos punham grande tardança em sua vinda, man- 
dou o Iffante Dom Anrrique que fosse na sua gallee pollo Iffante Dom 

B,92,v,2 Pedro seu jrmão, e que dissesse a toda a outra frota que * trabalhasse 
muito de se ajuntar com elle. E o Iffante Dom Anrrique partio aa 
quarta feira açerqua da noite, e começou de seguir sua viagem, e polia 35 
vista do forol, que a naao do Iffante Dom Pedro trazia, logo em aquella 

1. emuiado B. — 6. beê B. — 7. muito] om D. — 10. sogeito B D. — 11. elle] el B. — 
i3. acertara B, lançara I. — 14. perigo B. — i5. elle] el B. — 17. pasasse B. — 23. dalij B 
— enpeçer B. — 25. ataa B. — 27. vespora D. — 29, ali B. — 3o. jaa B. — 32. galle B. — 
3G. nao B. 



— lyi — 

noute mesma a gallee de seu jrmão chegou a ella. Senhor disse o Iffante 
Dom Anrrique, elRey nosso senhor e padre manda que vos vades logo 
em esta minha gallee, porque quer teer conselho açerqua do filhar da 
terra, se será em aquella parte de Barbaçote onde ja esta, se tornara 
5 destoutra parte onde primeiramente esteuemos, e que mandees jsso 
mesmo rrecado per todallas outras naaos daar auisamento que se traba- 
lhem o mais que poderem de fazerem sua viagem dereitamente aaquelle 
lugar onde as gallees estam. Nom sey porque maneira senhor, liie rres- 
pondeo o Iffante Dom Pedro, que aja de partir assi e leixar esta gente. 

10 na qual sento bem que será muj' grande desconsolaçam, alem da que 
trazem ja polia pestenença que anda antre elles, como pollo anojamento 
que os saãos trazem dos mortos e doentes, e outrosy o enfadamento 
do maar que poucos homeés soportam de boõa uontade. empero dou- 
tra parte consiro que vaão ao mandado delRey, quanto mais seer cha- 

i5 mado per tal pessoa como vos. E entam mandou daar auisamento a toda 

a outra frota* que se trigassem o mais que podessem segundo elRey B, Q3,r, i 
tinha mandado. E os Iffantes ambos foromse em sua gallee. E a sesta 
feira polia manham cedo hindo assi sua viagem, aconteçeo que hum pei.Ke 
hia voando pollo ar e cayo dentro na gallee, com que os Iffantes aquelle 

20 dia ouuerom algum rrefresco. e porque esta estoria escreui, nunca vy 
semelhante, o rrecon'o assi por me parecer cousa marauilhosa, e algum 
tanto afastado da natureza segundo meu juizo. 



Como o autor falia nas grandes diuisoáes que atiía antre os mouros 
<^a cidade, e das cousas que aconteçerom no outro anno passado. 
a5 Capitullo Lviij. 

POR certo diz o autor, a mim conueria falar per muitas mr.nciras, se 
eu quisesse contar toda a mayor murmuraçam que auia antre os 
mouros, depois que as gallees primeiramente lançarom ancoras 
dauante a cidade. E diremos primeiramente o que aconteçeo naquelle 
3o março passado, em que elles teuerom o seu Ramadam, o qual se começara 

a xxvij dias de feuereiro, * quando a liãa fazia hum bisexto segundo o B,i)3,r,2 
conto dos seus annos, porque elles trazem a sua era segundo o costume 

I. galee B. — 4. jaa B. — 6. recado B. — S. galees B. — 8-9. respondeo B. — 10. na I, 
no BD — becm B. — 11. consolação D. — 12. trazem I, traziam B D. — 18. pella B — 
hú B. — icj. pello B. — 20. algú B. — 27. cornar] otn D. — 28. gallcs B. — 29. disse- 
mos B D. — io. Ramadão B, que he o jejum add I — 3 1 . luQa B. 



— 172 — 

da lua. e porque o circulo da lua he mais pequeno que o do sol, tor- 
nam elles sempre atras onze dias com o começo daquelle jejum, a que 
elles chamam Ramadam. e em pouco menos de três annos tem acabada 
a volta de sua rroda, em que ha xix bisextos. e assi dam os dias do anno 
solar iij'^lxv, e do anno da lúa iij^^lxiij e huúa ora e xvij menutos e corenta 5 
e noue pontos mais. E porque os mouros em aquelle tempo fazem suas 
austlnençias, assi como nos outros fazemos em nossas coresmas, pensam 
elles que quaaesquer sinaaes que naquelle tempo apareçam, ou sonhos 
assinados per que elles muito crem. ca dizem que per húua de quatro 
cousas vem a qualquer homem os sonhos quando dormem, a primeira 10 
per sobegidam da vianda, de que o estamago este empachado, a segunda 
per mingoa de mantimento, a terceira per força de pensamentos que o 
homem traga de dia em alguúa cousa, e a quarta per rreuelaçam diui- 
nal. ,Ora foy assi, que naquelle Ramadam que ja dissemos, forom três 
partes da lúa criz. e pareçeo logo seguinte na nouidade da outra lúa '5 

B,()3,v, 1 huúa estrella açerqua delia de mayor grandeza e rresplandeçimento, * que 
outra nehuúa que ouuesse no çeo daquellas mil vinte e duas, em cujo 
conto alguús astrólogos poserom o numero das estrellas de que se possa 
filhar alteza. A qual estrella durou assi antre elles toda a circulaçam da 
lúa. cuja vista a elles trouxe grande cuidado, e muito mais porque hum ^o 
daquelles seus mouros sanctos durando o tempo do jejum sonhou que 
via aquella cidade cuberta dabelhas, e que polia boca do estreito vinha 
hum liam com huúa coroa douro na cabeça, e que trazia muito grandes 
bandos de pardaaes depôs si, que comiam todas aquellas abelhas. Por 
cuja rrezam Çalabençala fez ajuntar quantos sabedores se poderom achar 25 
per toda aquella terra, antre os quaaes veo aly hum grande estroliquo, 
que era almocadem mayor na cidade de Tunez, grande sabedor cm mui- 
tas cousas de sua seita especialmente em estrolomia, ao qual chamauam 
Azmede ben Filhe, e tanto que assi forom juntos, teuerom seu conselho 
na mizquita mayor. onde forom rrecontadas todas estas cousas passadas, 3o 
sobre as quaaes ouue mui grandes debates. Mas aquelle almocadem 
nunqua falou palaura, antes meteo as maãos de so huúa aljuba que trazia, 
e a contenençia muito triste, e os olhos baxos contra a terra, sospirando 

8,93, v,2 muito a meude, * se leixou estar acerca de duas oras sem nunqua dar 

nehuúa rreposta a cousa que lhe preguntassem. em fim costrangido per 35 

1-2. tornarão D — 5. iij^lxiij B, trezentos sessenta e oito I. — 11. esta D. — i3. algúa B. 

— 14. jaa B — 18. estrologos D. — 19. a circulaçam D, circulaçam B. — 24. bandas BD 

— pardaesB — despos B. — 25. razam B — Çalabençalla B. — 26. veo B, vyo D. — 28. cou- 
sas] om D. — 29. bem B. — 3o. recontadas B — todas] o?n D — pasadas B. — 3 1 . debates 
B D. — 32. mãos B. 



-173- 

Çalabençala aleiíantou sua cabeça, e pos a mão em sua barba que tinha sem 
nenhum cabello preto. Dou o demo disse elle, taes mouimentos e taes 
sinaaes. ca o curso do mundo anda fora de toda sua ley, e os pranetas 
perderam sua certa carreira, ou a destroiçam de toda a terra dAfriqua he 
5 aparelhada, ca semelhantes três sinaaes nunqua me lembra que os lesse, 
que assi parecessem sobre hum efteito. Verdade he que o cris da lua 
traz muitas vezes pestelença, outras vezes fome ou discórdia, mas 
estrella nunqua foy homem que a visse ante a face da terra senam agora. 
Bem he que eu acho que elia parece certos tempos do anuo em terra da 

"O índia maior, mas nam que acompanhe a lua nem siga seu curso, como fez 
agora esta. Chamamlhe alguús dos nossos autores Oriam, porque traz 
figura despada, e dizem alguús que a sua jnfluençia traz fogo e sangue, 
ca ella he huúa daquellas estrelias que cayo do cabo do Carneiro, segundo 
he declarado nos textos de Tolomeu. E porque a calidade daquellc 

i5 sino que se chama Aries, he quente e seco. dizem que traz esta estrella 
consigo fogo. e porque outrosy os primeiros autores a poserom em figura 
despada, he forte * sinal, ca se o planeta do Saturno, que he estrella que 8,94, r,i 
empece aa praçeira desuiada de seu curso, nam me anojara tanto como 
esta. e sobre todo o cris que ante pareçeo, me faz ajnda a esperança 

20 muito pior. ca acho poUos almenaques, que quando os mouros outra vez 
perderam Espanha, que outro semelhante cris foi visto primeiramente, e 
ajnda nam tam forte como este. porque acho que aaquelle tempo mais 
estaua na casa do Escorpião, o qual com o seu cabo ardente apremaua 
Júpiter em sua alteza. E Vénus que he nossa planeta vejoa triste e fora 

25 de toda alegria. Mercúrio outrosy que lhe deuia dacorrer, que sua tri- 
gança que traz pollo çeo, acho muy afastado de sua companhia. Ora 
que leixassemos estas cousas, soomente aquelle sonho he abastante pêra 
nos poer muy grande espanto, porque creo que tendes em vossos escpri- 
tos, como no tempo do grande Mirabolim, que a primeira vez que passou 

3o desta terra em Espanha, andaua hum mouro cauando em huúa sua orta 
açerqua desta cidade, e tirando a pedra de huús aliçeçes velhos achou hum 
mármore, em o qual era esculpida huúa jmagem de hum nosso propheta 
que chamauam Brafome de Marrocos natural, sob cujos pes estauam 
escritas huúas letras em quatro rregras que deziam assi. Da casa dEspa- 

35 nha sairá hum liam com três cachorros seus filhos, acompanhado de 

I. sua D, húa B. — 2. o B, ao I — taes (i")] taees B. — 5. sinaes B. — 7. pestenença D. 

— 9. do annoj om D. — 12. algús B. — r3. húa B. — i5. que I, om B. — 16. a I, om BD. — 
17. do B, om I. — 18. enpeçe B — desuiada B, designada I. — 21. perderão B. — 25. que 
(2 °) B, por I. — 26. achoo D. — 28-29. escritos I, espritos B. — 29. pasou B. — 32. liúa. 

— 34. cassa B. 



— 174 — 

*^)94> ■", 2 gnindc frota, carregada de muitas gentes, * e apremara a tua nobre cidade. 
O cidade, e do seu xemel vira o destruidor das partes d Africa. Mou- 
ros fogij, e nam queiraaes esperar o brandimento de sua espada. E assi 
concerta esta profecia com o sonho deste mouro, porque diz que via liam 
coroado polia boca do estreito, outrosy as abelhas sinificamos nos outros. 5 
e os pardaaes sam os christaãos. ca semelhante vio hum mouro em Cor- 
doua em sonhos, quando os mouros a perderam. Porem o meu conselho 
he que nos socorramos aa prouidençia diuinai, fazendo nossas orações 
mu}' deuotamente que nos liure de tamanho prigo. E pêra jsto seer bem 
feito, compre de escreuerdes a alguús lugares, onde sintaaes que estam lo 
alguijs rrelligiosos que lhe praza rreçeberem este feito em sua enco- 
menda, o que eu creo que elles faram de necessidade, porque estes 
sinaaes assi pertencem a elles como a nos. senom tanto que aquelle 
sonho dos pardaaes que filhauam as abelhas, sinifiqua que o dano seria 
primeiro em esta cidade. E será bem que se tenha todo bom auisamento i5 
cm quaaesquer estrangeiros que aqui sejam, de guisa qne nam tenham 
azo desguardarem os muros da cidade, nem os leixem andar soltamente 
per onde elles quiserem, porque nam sabe homem a tençam que trazem. 



B,94,v, I Como a frota * por aio da tormenta tornou outra vei aas Aljaiiras, 

e como ao dobrar o cabo dAlmina as gallecs forom em grande prigo. 20 
Capitullo Lix. 

FICARAM OS mouros muy desconsolados ouuindo assi aquellas nouas 
de sua destroiçam. empero foi em jsto como he em todallas 
cousas, que quamdo am de seer nam podem leixar de seer. e a 
fortuna cega os entendimentos dos homeés, que se nam sabem desuiar 25 
daquellas cousas que lhe sam ordenadas. Que cousa foy dAnibal, que 
com tanta fortaleza correo toda Itália fazendo tantos e tam marauilhosos 
fcitcs darmas, e aa derradeira costrangido da fortuna rrequeria piadosa- 
mente paz a seu jmigo capital Cepiam. E Pompeo naquella derradeira 
batalha que ouue com Júlio seu sogro nos campos dEmaçea, pêro teuesse 3o 
tamanho poderio, elle mesmo confessa que a fortuna forçosamente o 
tirara do seu entender pollo trazer aa batalha, afim de se mostrar. E 
Gayo César quando foy a ora de sua fim, como quer que tamanho 

2. O cidade B D I, om C — uira I, viram B, vvrão D. — 7. a I, om B D. — q. perigo B. — 
1 1. Pellegiosos B. — i5. boõ B. — 19. tromenta D, tormenta B. — 27. Italiia B. — 3o. Jelio 
B — deemacea B. 



-175- 

sabedor fosse, e lhe tantos sinaaes fossem * rreuelados em declaraçam de B,g4,v,2 
sua morte, nunqua porem se pode desuiar de seu cruel aquecimento. E 
assi o deziam alguús daquelles mouros sabedores, a quem preguntauam, 
que pois elles sabiam que elRey hia sobre a cidade, e passaram tantos dias 
5 sem lhe fazer nenhum nojo, porque nam punham em si e em seus muros 
milhor guarda, quanto mais sendo assi auisados per aquelles sinaaes que 
ja viram. Verdade he deziam elles, que nos tínhamos esse auisamento. e 
bem poderamos em treze dias, que elRey andou darredor de nos sem nos 
fazer nenhum empeçimento, a afortalezar muito mais nossa cidade, e fazer 

,0 pêra nossa guarda mil rremedios se teueramos jndustri;'. . mas as rrodas 
çelestriaaes nos tinham assi atados, que éramos feitos qua.-i immouibles. e 
por tanto nam era em nosso liure poder rreçeber nenhum conselho nem 
auisamento sobre a cousa determinada. Depois que os lííantes forom assi 
com seu padre como dito he, toda a outra frota se a)untou em aquclle dia 

]5 segundo lhes ficara mandado. ElRey teue seu conselho, no qual se determi- 
nou de filhar a terra em dereito de huúas saleguas que ahv estam. nas quaacs 
se aconteçeo que alguús dos christaãos sairam fora, assi como homeês de 
pouco siso, e sairam os mouros a elles. e começaram de se emburilhar 
por tal guisa, que morreo hum christaão. * pollo qual se a frota pos em 6,95, r,i 

20 tamanho aluoroço, que quiserom a mayor parte delles sair fora, se nam 
fora com temor delRey, que o mandou defender muy rrijamente. Porque 
certamente fora huiã muy grande prigo, por azo da grande multidam dos 
mouros que estauam muy açerqua, e doutros muitos que se poderam rre- 
creçer. os quaaes todos emburilhados fora azo de grande perdiçam, e 

25 muito mais dos christãos que dos mouros, assi polia auantagem do lugar 
como polia pouca ordenança que antre si leuauam. E estando assi elRey 
em este conselho pêra filhar aly terra, sobreueo huúa grande tormenta, 
pollo qual foi necessário que se elRey dahy partisse pêra outra parte, 
poique o lugar era tal que a frota nam podia alj' rrepairar, mas esto foi 

3q enuiado polia graça de Deos segundo adiante será contado, e assi forom 
as gallees em muj' grande prigo ao dobrar da ponta da Alniina. e as naaos 
nam poderam tam asinha fazer sua volta. E andando assi rrepairando ao 
mar abrandou a tormenta, e quando quiserom seguir a viagem das gallees, 

I . declaração B. — 4. passaram I, pasaua B. — 6. sinaes B. — 7. jaa B — diziam B. — 
8. derrador B. — 10. garda B. — 11. jmmovybyles D. — i3. detreminada B. — i5. ficara 
B, fora ja D— se D, om B. — iC. saleguas B, sallgas D, salgas I. — 18. emburilhar D, 
embrulhar B. — 22. mui B. — 23. mouros] muros B. — 27. alij B — sobreueo I, sobre B 
— tromenta D, tormenta B. — 28. pollo D, polia B — dahij B. — 2<i. ali repairar B D, 
alli pairar I — foi I, oní B. — 3i gales B — mui B — perigo B — nãos B. — 32. pode- 
rão B — repairando B, pairando I — ao I, o B D. 



— 176 — 

que eram tornadas as Aljaziras onde primeiro esteuerom, lançouas a cor- 
B,95,r,2 rente a via de Malega segundo ante fezerom. Do qual aballamento* que 
assi aquella frota fez, os mouros ouuerom muy grande prazer, como 
quer que se em ello muito enganauam. porque aqueile foi hum muv grande 
azo, per que a cidade foi tam asinha tomada, segundo adiante será contado. 5 



Da maneira que os mouros tcuerom depois que a frota partio, e 

como se em ello pode consirar que Deos soomente foi aqueile que 

trouxe a fim da vitoria. Capitullo Lx. 



G 



RANHE folgança teuerom os mouros por aquella partida delRcy, 
nam conhecendo o calado segredo que a prouidençia diuinal em 10 
ello ordenaua. E porque verdadeiramente em ello possamos 
conhecer, quanto nosso Senhor Deos em ello quis obrar per sua graça, 
deuemos de esguardar três marauylhosas cousas, que se em ello seguiram 
aalem da ordenança da rrezam. polias quaaes podemos rreçeber auisamento 
pêra o diante, que posto que alguúas nom venham aa nossa vontade, que i5 
B,q5,v, I 35 ajamos por * boõas, consirando que nos acontecem a fim de outro mayor 
bem. o qual nos por aqueile presente nam conhecemos. Onde he de saber, 
que a determinaçam delRey era de filhar terra daquella parte de Barba- 
çote segundo ja ouuistes, pensando que a nam poderia tam desempachada- 
mente filhar da outra parte. A qual cousa se assi fora, poderá seer, que 20 
posto que se a cidade depois filhara, que fora com muy grande trabalho e 
nam sem grande espargimento de sangue, ca o lugar era muito fragoso, 
e a multidão dos mouros muy grande, ca alem dos vezinhos da cidade 
eram hi outros de fora que estauam em numero de cem mil. e aquella 
tormenta foi azo de se elRey partir e escusar aqueile prigo. E mais que 25 
tanto que os mouros viram assi partir aquella frota, pensaram que se 
partira ja de todo. e porque os outros mouros de fora lhes faziam nojo 
e damno. ca elles per natureza sam grandes estragadores de cousas 
alheas. porem mandou Çalabençala per rrequerimento dos outros da 
cidade, que se fossem muito em boõa ora pêra suas casas, porque 3o 
sua presença a elles ja nam era necessária, agradeçendolhe porem 
muito seu trabalho e boõa voontade que tiueram pêra os vijr ajudar. Ora 
vede se poderemos dereitamente atrebuir este acontecimento senam a 

3. mui B. — 8. vitorea B. — i3. esgardar B. — i5. alguiís B. — lõ. acontecem I, acon- 
tece B. — 10. jaa B. — 21. muiB. — 23. mui B. — 27. jaa B. — 28. caa B. — 29. Çalla bem- 
çalla B. — 3o. fosem B. — 3i. jaa B. — 32. bõa B. — 33. poderamos B, poderemos D. 



— 177 — 

Deos. o qual he aquelle * segundo diz o apostollo, que obra em nos o 6,95, v,2 
seu comprimento, segundo diz Arato poeta, viuemos aa perfeiçam de 
todallas cousas. Outra cousa diremos ainda aqui, porque pertence a 
Deos. e esto he, que elRey Dom Joham era assi compressionado, que 
b tanto na terra era forte, enfraquecia no maar. ca soomente em passar de 
Lixboa pêra Couna enjoaua per tal guisa, que nam sabia de si parte, 
e porque elle conhecia em si este falecimento, se encomendou aa uirgem 
Maria da Escada que o liurasse daquelie trabalho, e foy cousa maraui- 
Ihosa, que em todo hum mes que andou no mar, nunqua fez nenhuúa 

10 mostra denjoamento. ElRey quisera teer logo aly seu conselho, porque 
toda a outra frota leuara a corrente, como ja dissemos, mandou outra 
vez elRey ao Itlante Dom Anrrique que fosse com as gallees polias naaos, 
como ante fezera. E em jndo assi sua viagem, de noite ouuiram as vozes 
da companha que vinha em huúa naao, em que era Joham Gonçaluez Omcm 

i5 com outros muitos do Iffante Dom Pedro, e segundo parece que encon- 
trara outra naao com ella, de cujo encontro abrio per tal guisa, que pare- 
cia que a escalaram com hum cuitelo. e porem eram em muy grande 
prigo os que vinham em ella, do que lhes nam foy pequeno conforto, 
quando sentiram as gallees junto consigo, pedindo ao Iftante Dom * Anrri- B,96,r, 1 

20 que que lhes fezesse acorrer, e o Iftante fezea logo aliuar da mor parte 
da carrega, e apertar com cabres grossos e fortes, mas toda via foilhe 
dito que aquella naao per nenhuúa via podia fazer vella, que logo de todo 
nam fosse alagada, e assi a leuaram aa toa, de guisa que delia nam se 
perdeo nenhuúa cousa, e a naao foy ao depois corregida segundo lhe era 

25 necessário pêra nauegar como da primeira. E o Iftante seguio sua via- 
gem, e trou.xe as naaos como lhe fora mandado. 



I. aquele B — o I, e o BC. — 2. orato BC. — 4. Joam B — compreissionado I. — 
10. ali) B. — 12. Ifante B — galees B — nãos B. — 14. nao B — Joam B. — i5. Ifante B. 
— 16. nao B. — 17. mui B. — 18. perigo B. — 19. galles B. — 20. fezera B, feia I — ali- 
uar B C D, alijar I. — 22. nao B. — zb. Ifante B. 
a3 



— 178 — 

Da visam que Fervam dAhiarei Cabral vio açerqua do aconteci- 
mento do Iffante, e das rre^óes que acerca delo de^ia. 
Capitullo LxJ. 



H 



UM outro aquecimento se seguio ajnda marauilhoso em aquella frota. 
E foi assi, que ao tempo que elRcy ouue de partir de Lixboa. 5 
alem da gente que o Iffante Dom Anrrique trouxera do Porto, llie 
sobreueo ajnda outra muito mais. per cuja rrezam lhe foy ordenada per 
seu padre iiuúa naao grande, em que a dita gente podesse leuar. da qual 

8,96, r, 2 o Iffante fez capitam Luis Aluarez Cabral seu vedor, e mandou *a seu 

filho Fernam dAluarez Cabral que fosse com elle em lugar de seu padre, 10 
pêra o fazer seruir em sua gallee. e estando assi naquella abra de Gibaltar, 
aqueçeo que o dito Fernam dAluarez se lançou a dormir sobre huúa 
mesa que estaua debaxo do telhado, e jazendo assi huiJa peça acordou. 
e assi acordado começou de dizer com hum esprito apressurado e 
trigoso. que acorressem ao Iffante seu senhor, que andaua emburi- i5 
Ihado antre os mouros, e tantas vezes e com tal aficamento dezia 
jsto, que alguús dos que andauam polia gallee se chegauam per alij. E 
porque o viram assi acordado, forom muito marauilhados, empero fala- 
ramlhe alguús dizendo que cousa era aquella, que assi parecia que o Iff"ante 
estaua fora de semelhante cuidado. Vedes disse elle, que cousa pêra 20 
crer. vejoo eu andar antre aquelles perros sem nenhum acorrimenio de 
nenhum de vos outros, mas empero Deos he com elle, ca ja tem derri- 
bados dous. ajudaio por Deos que o nam leuem aquelles mouros antre 
sy. ca sam tantos, que sam espantado como se pode delles defender. 
E entam começou a dizer. Oo virgem Maria acorreilhe. ca se tua 25 
ajuda lhe falece, de nenhum dos seus pode seer ajudado, queixandosse 
fortemente contra os seus, porque o nam hiam ajudar. E quando lhe 
parecia, que o Iffante daua algum golpe em algum mouro, o seu prazer 
era tamanho que todo o rrosto se lhe enchia de rriso, e muito mais 
quando lhe parecia que o mataua. e entam começaua desforçar o Iffante, 3o 

B,96,v, I dizendo,* que nam temesse nenhuúa cousa, que Deos o ajudaria. E assi 
dezia outras muitas cousas, como se propiamente visse o Iffante andar 
antre mouros, como de feito depois andou. A qual cousa fezeram saber 

I. de Aluarez I, dalurez Dalurez B. — 7. muita I — ordenado C. — 8. húa nao B. — 
9. Ifante B — alurez B. — 10. dalúrz C, dalurez B. — 1 1. o I, om B — galle B — abra B I^ 
obra C. — 12. dalurez B. — i3. acordou] arfi. bradando I. — 14. apresurado B. — i5. acor- 
resem B. — 17. pola galle B. — 22. jaa B. — 23. ante I. — 32. propriamente I. 



— 179 — 

ao Iffante. o qual posto que bem conhecesse, que aquello nam era outra 
cousa senam ar de pestelença, mandou porem ao seu físico mestre 
Joanne que o fosse veer, e quando chegou a elle e lhe falou, foi Fernam 
dAluarez muito mais queixoso, dizendolhe que faria milhor de jr ajudar seu 
5 senhor, ca de estar com elle em semelhantes rrezões. Empero disse elle, 
leixai vos os fanados, ca cuido eu que lhes vai a elles de quando em quando 
o Iffante meu senhor corregendo a fazenda, e assi tornaua aas suas pri- 
meiras rrezoões. E mestre Joanne disse ao Iffante. Eu tenho bem visto 
Fernam dAluarez, e querouos acerca dello falar como físico e como con- 

10 selheiro. E quanto a físico me parece que o deuees toda via de jr veer. 
por certo he que jsto que assi fala, nom he ai senam rramo de peste- 
lença, a qual lhe presenta assi estas rreuelaçoões, como cousas que am de 
seer, trazendo a alma casi apartada do corpo pêra conhecer aquellas 
cousas, que pêra si soo depois ha de veer. e tanto que vos vijr, nam he 

i5 duuida que nam perca aquella maginaçam, e torne a seu propio enten- B,96,v,2 
der. E faiando como conselheiro me parece, que nom * deuees laa de jr. 
ante vos afastar delle quanto poderdes, porque este aar he contagioso 
como sabees. chegandouos a elle ficarees em duuida de prigo. porem 
sobre todo vossa merçe pode fazer o que lhe prouuer. O Iffante disse 

20 que Deos fezesse o que sua merçe fosse, que toda via o entendia de jr 
veer. E tanto que chegou a elle e lhe falou, Fernam dAluarez saltou 
logo em pee fora da mesa, e aleuantou as maaõs contra o çeeo, dizendo 
que louuaua muito ao Senhor Deos polia vitoria de tamanho prigo, con- 
tandolhe todo o que lhe parecera. Ora pois disse o Iffante, tornaiuos a 

25 a rrepousar e folgar, ca esto nam foi ai senam algum asombramento de 
algum aar corruto, que vos quisera empecer e nam pode. O rrepouso 
que eu ey de fazer, disse Fernam dAluarez, mandaruos fazer a çeea. ca 
ja pedaço ha que me quisera aleuantar pêra ello, senam esteuera em 
aquelle trabalho. E todas estas cousas que assi Fernam dAluarez disse, 

3o aconteceram depois ao Iffante, sem lhe falecer nenhuiãa cousa. E assi 
aconteçeo a elle. ca estando a frota ante a cidade de Cepta, lhe deu huúa 
leuaçam, polia qual logo o Iffante o mandou muy bem curar de sangrias 
e de todallas cousas, que lhe ao presente eram necessárias, e mandou que 
o leuassem a Tarifa pêra seer la milhor curado, mas elle per nenhum 

35 modo quisera partir ata que se despedisse do Iffante. o qual o man- 

I Ifante B. — 4. dalurez B. ^ 5. destar C. — 6'. os I, om B — cuido eu] cuidou C — 
a I, om B — em quando I, om B — de quamdo em quando] de cando C. — 7. Ifante B. — 
9. dalurez B. — 11. por B, porque I. — i3. ser B. — 14 pêra B, por I. — i5. não B — ma- 
ginação B — próprio I. — 17. delle I, dello B — 2 1 . dalurez B. — 23. perigo B. — 25. ai 
senam] om C. — 27. dalurez B. — 29. dalurez B. — 34 leuasem B. — 35. atee B. 



— i8o — 

B,97, r, I dou trazer ao bordo de sua gallee, * e lhe falou. Senhor disse elle, Deos 
sabe quanto desejo de vos fazer seruiço, e nom quiseram os meus peca- 
dos, que em este tempo vos seruisse segundo desejaua, de que a minha 
alma nam leua pequena magoa, porem som neste tempo que vedes, 
do qual nam sey a fim que ei de auer. mas qualquer que seja, eu 
vos peço por merçe que me encomendees em vossas oraçoÕes. e se eu 
morrer, que vos lembrees de minha alma. ca se me Deos daa vida, 
bem creo que per meu seruiço conheçerees minha boõa vontade. Prouue 
a Deos de lhe dar vida, e mostrou bem o efeito de suas palauras per 
obra. ca sempre depois seruio bem o Iffante. e assi mesmo em seu 
seruiço morreo sobre o çerquo de Tangere. 



Como clRey teiie seu conselho se tornaria outra ve^ sobre a cidade 

de Cepta, e das rreioóes que se no dito conselho passaram. 

Capitullo Lxij. 

JA na frota nam auia nenhum, que cuidasse que auiam dalij de fazer i5 
viagem senom pêra Portugal, e entam auia antre elles muitas e 
»^,y/,.,- desuairadasdepartiçoões. Agora * deziam elles, poderá elRey conhe- 

cer as traições do priol. ca certo he que nos trazia todos vendidos pêra nos 
rresgatar como seus presioneiros. Vede que cousa hia meter em cabeça a 
elRey, que auia de tomar a cidade de Cepta. onde se adergaramos de filhar 20 
terra, nunqua de nos tornara pee de homem pêra Portugal. Quem duuida 
que elle nam escreuesse a Çalabençala, que posesse em sy rrecado, aui- 
sandoo de todo corregimento delRey. ca certo he que quando elle foy a 
Cezilia, em vez de olhar os muros da cidade, foy falar com Çalabençala. 
e a bofe segundo alguiis disserom, mais leuou elle daqui, do que rrende 25 
o seu priolado vinte annos. Pois vede vos, deziam outros, ca ajnda com 
todas estas cousas, os Iffantes nam ho chegam menos a sy. ca se per ven- 
tura entendessem per seu azo de cobrar a cidade. Ca assi lho metera 
elle em cabeça, rrespondiam outros, elles como sam gente manceba, crer- 
Iheam quantas abusoões lhe elle disser. Nom pode seer, deziam alguús, 3o 
ca elRey nam he paruo. nem este feito nom he pêra teer em jogo. e 
posto que elRey calle, vos verees aa derradeira, que lhe dará tam bom 

I . de B, da I — galee B. — 6. se eu I, seu B. — 9. mostrou I, mostrouse B — beem B. 
— lo-ii. assi morreu em seu seruiço sobe o cerco de Tangere D. — 11. morreo Dl, 
om BC.' — i3. pasaram B. — i5. jaa B. — 17. diziam B. — 21. domem BC. — 22. cala 

bençala B. — 24. Cezylia C, Ceçilia B. — cala bençala B. 27. ho C, om B. — ?8. en- 

tendesem B. — 29-30. crerlheão B. 



— I»I — 

castigo, que pêra todo sempre seja memoria, e o que lhe a elle faleçeo 
pêra fazer, quando jouue no castello de Coimbra, acabarlhoam agora. 
Mas* sobre todo foy prazer de veer, quando elRey aa segunda feira 8,97, v,i 
mandou chamar todollos do conselho, que viessem nos batees pêra falar 
5 com elles açerqua daquelle feito. Quando o priol passaua por açerqua 
dos nauios em seu batel, ca nam olhauam todos menos, que se elles cer- 
tamente souberom que era verdade, o que ante deziam. e nam cuida- 
uam ai, senam que elRej^ lhe queria demandar rrezam daquelle feito, e 
nam era a gente do pouo muito de culpar, quando muitos daquelles capi- 

10 taães lhe dauom culpa, dizemdo que elle ordenara todo aquelle feito. 
Mas o priol que era homem sesudo, porque ouuisse todas aquellas pala- 
uras, leuaua todo a jogo. soomente quanto he achado, que disse a alguús 
daquelles fidalgos que o atormentauam por aquella rrezam, que os cora- 
coões lhes nom falleçessem, ca o que elle encaminhara e ordenara, elle daria 

i5 dello boõa conta. Depois que aquelles do conselho forom assi ajunta- 
dos, propôs elRey sua rrezam, dizendo que bem sabiam com quantos 
trabalhos e despesa trouxera alij aquelle ajumtamento, a fim de filhar a 
cidade de Cepta, como elles bem sabiam, sobre a qual se fezera ja 
quanto elles viram, porem que lhe dissessem o que açerqua dello lhes 

20 parecia. Sobre a qual proposiçam forom rrezoadas* muitas cousas, e 8,97, v,2 
finalmente fo}^ o conselho partido em três partes .s. huús disserom que 
era bem toda via tornar a Cepta. outros disserom que filhassem Gibal- 
tar. outros que se tornassem pêra Portugal. E dos que eram em con- 
selho de filharem Cepta, principalmente forom os Iffantes, os quaaes rres- 

25 ponderam a seu padre per esta guisa. Senhor, vos deuees de consirar 
quanto tempo ha que começastes este feito, e quantas e quam grandes 
cousas tendes mouidas pêra chegardes aa fim. per cuja rrezam a fama 
deste feito voou per muitas partes do mundo, e como posto que no 
começo encobrissees este segredo, que o tendes ja agora rreuelado. e 

3o tornandouos assi, ou apontando em outra cousa de menos valia, nam 
podees auer vitoria que vos nam ficasse maior prasmo. quanto mais por 
nam prouardes nem ensayardes vossa força e poder sobre a grandeza 
daquella cidade. Ca se per ventura ja vos jouuerees em seu cerco 
alguús tempos rrazoados, nam tiuera o mundo por que vos dar tama- 

35 nha culpa, mas tornardesuos assi, parecera que vos espantou a sombra 
dos mouros. Nem aos mouros nam será pequena alteraçam, quando 

4. viesem B. — 8. Rezão B. — i3. atormentavão Cl. — i3-i4. corações B. — 14. falle- 
çesse B. — i5. despois B. — 16. prepos B, propôs I. — 18. a B, o Cl — jaa B. — 19. lhes 
dissesse. B. — 21. hOs B. — 24. Ifantes B. — 26. haa B. — 3i. podeis B. — 32. ensayar- 
des BC, sairdes I. — 34 algús B. — 35. espantou I, espantaram BC. 



consirarem que vos vos assi espantaaes da sombra da sua cidade, e pode 
seer que lhes ficara daqui ousio e atreuimento de correrem em seus 
naaios a costa do Algarue, mais do que ata aqui fezeram. Porem 

B,ti8,r. . nosso conselho* he que toda via vos vades sobre a cidade, e que a 

çerquees e combataaes com vossos engenhos, e esperamos em Deos 5 
que vos dará vitoria. Ca pois esto principalmente foy ordenado por 
seu seruiço, pollo qual despresastes tantos contrairos, quantos se vos 
ofereciam no começo deste feito, nam deuees agora tornar atras por 
este, que he muito mais pequeno. E Deos que sabe vossa vontade e 
tençam, vos aiudara per tal guisa, que acabees vosso feito como dese- lo 
jaaes. E estas rrezoões e outras muitas açerqua deste propósito disse- 
rom os lífantes e conde de Barcelos a elRey, com os quaaes concordaram 
poucos mais de dous ou três dos outros do conselho. E os outros que 
falaram em Gibaltar, proposeram suas rrezoões em esta forma. Se per 
ventura este feito nam pertencesse senam aa cidade de Cepta soomente. i5 
ou ella fosse tal que se podesse bem cercar, logo seria bem de auentu- 
rarmos nossos corpos e fazendas por cobrar seu senhorio, e ainda que 
víssemos milhares de mortes dos nossos christaos, e nos outros feridos e 
cansados sobre elles pelejando, nom era rrezam que nos partíssemos de 
semelhante contenda. Mas que será quando cuidarmos que auemos de 20 
pelejar com todollos mouros dAfrica, auenturar com tamto fim o que 
nom tem fim, quanto mais que nos nom podemos cercar a cidade, 
ajnda que nos muito trabalhemos, que lhe tolhamos que nom aja man- 
timentos e jcnte de fora, quanta lhes prouuer. e entam vos digo, disse 
hum daquelles, que será a peleja bem jgual, nos afastados de nossa terra 25 
comendo cada dia os mantimentos que trouxemos de nossa terra, per 
cujo falecimento nom estamos em certa esperança, que possamos tam 
asinha cobrar outros. E entam será nossa peleja bem rrezoada, elles 
seram muitos mais que nos, que nom am de vir senom como quem 
vem a perdam, como souberem que nos aqui estamos, e faram escarneo 3o 
de nos, se nos virem jazer em nosso cerco sentindo per nossa vinda rre- 

B,98,r, 2 zoado * temor. Veede que lugar he Cepta, que ha nelle huúa legoa pêra 
a cercar assi de ligeiro, per boa fee que nom auia mester senom toda a 
Espanha pêra a cercar. Per cuja rrezam somos em acordo, que pois que 

I. vos {2.°)] voos B, om I. — 3. ate qui B. — 4. noso B — todavia B. — 7. desprias- 
tes B — tantos contrairos] todos outros C. — 8. oferecerão C. — 11. rezões B — prepo- 
sito B. — 12. Iffantes B. — 14. rezões B. — i5. pertençese B. — 16. cercar I, acerca B. — 
17. seu I, huú B.— 18. mortos CL— 19. peleiando B — rezam B — partisemos B. — 20. 
que será I, quisera B. — 21. com tanto I, conto B. — 23. aia B. — 24. dise B. — 2 5. peleia 
B — nosa B. — 26. os] nos B. — 27. posamos B. — 28. rezoada B. — 32. haa B. 



— i83 — 

ca ja somos, que vos contentees de filhardes a villa de Gibaltar. Ca sem 
todas estas rrczoões he pêra consirar, como somos oje em xix dias dagosto, 
e que pêra assentardes vosso arrayal e enderençardes vossas artelharias 
passaram dez ou xij dias de setembro, e nom tardara muito que o jnuerno 
5 nom comece de mostrar os sinaaes de sua frialdade, ca tanto que o 
sol entra no sino de Libra, logo os dias começam de abaxar cada vez muito 
mais, e as tromentas sam aqui muito grandes no jnuerno. de guisa que 
grauemente podem aqui estar nenhuús nauios sobre a ancora muito tempo. 
E esta he huúa das cousas, que vos he muito necessária .s. a frota, por- 
lo que a moor parte delia como vedes, he cercada de maar. onde ha 
mester estes nauios, e ajmda mais se os teuessees. Porem he bem que 
consirees sobre todo. ca estas cousas sam muito grandes, e ham mester 
muy bem prouidas todas suas partes. 

Como os outros do conselho disserom a terceira rre^ani. e como 
i5 por elReyfoy determinado a ponta do Carneiro que queria jr sobre 
a cidade de Cepta. Capitullo Lxiij. 

LONGO mais do rrazoado fora este capitullo, se quiséramos em elle 
escpreuer a declaraçam de todalas rrazoões daquelle conselho, e 
porem guardamos pêra aqui a derradeira * entençam, dos que deziam 6,98,7, i 

20 que se tornassem pêra Portugal, os quaaes ouuidas as rrezoões dos outros 
disserom. Nem o conselho primeiro, em que dizem que vades a Cepta. 
nem o segundo, em que vos aconselham que tomedes Gibaltar, nom sam 
cousas que deuaaes de poer em execuçam segundo nosso conhecimento. 
E falando primeiramente do que pertence a Cepta, assaz nos parece que 

25 vos forom ja falados muitos contrairos. os quaaes euidentemente sam 
conhecidos antre aquelles, que entendem em semelhantes feitos, empero 
nom foi em ello falado na tardança, que se segue de necessidade, se a 
cidade for cercada segundo pertence, ca deuees de consirar, que nom 
será vossa honrra aleuantardesuos do seu cerco, depois que a huúa veez 

3o cercardes. Ca sabees como se diz, que elRey Dom Fernando de Cas- 
tella jouue sobre a cidade de Coimbra vij annos. e outros dizem que 
elRey Dom Afonso de Castella jouue outros vij annos sobre esta cidade, 
no qual tempo fez aquelle cerco dAljazira que esta de fora. Pois vos ao 

I . caa B — contenteis B. — 2. rezões B. — 4. pasaram B — ou I, o B. — 10. haa B. 

— 12. consireis B. — 14. rezam B. — i5. por I, om B. — 18. rrazões B. — 19. gardamos B. 

— 20 rrezóes B. — 21. diserom B — o] he I, om B. — 23 execução B. — 27. neçesida- 
de B. — 29. vosa honra B — despois B. 



— i84 — 

menos que esteuessees aqui hum anno se mester fosse, nom seria muito. 
Ora vede que frete auees mester pêra multidam de tantos nauios, como 
aqui tendes, quanto mais ainda que elles per sua vontade nom estaram 
aqui. ca tem de leuar as mercadorias pêra gouernança de suas terras, 
sem as quaaes per ventura se nom poderam gouernar. Ora pêra que 5 
sam mais rrezoões. acerca dello abaste que consirados todos casos con- 
trairos, acharees que he casi jmpossiuel de o poderdes acabar. E quanto 
he aa filhada de Gibaitar, jsto nom hc cousa que nom deuees fazer, polias 

B,q8,v,2 pazes que tendes com* o rregno de Castella. ca diram que o nam fezestes 

senam a fim de os jniuriar, mostrando que o seu poder nom era bas- >o 
tante pêra acabar sua conquista, e vos em seu desprezo querees vir 
guerrear sua empresa. Ca bem sabees como escreuestes a elRey Dom 
Fernando, que vos filhasse na companhia daquella conquista, e o que vos 
elle rrespondeo. e poderia seer que durando vos sobre o cerco desta 
villa, os Castellaãos aueriam as pazes por quebradas, e se trabalha- '5 
riam de fazer alguúa nouidade em vossos rregnos, o que seria azo 
de grande prigo. E finalmente nossa tençam he, que vos tornees 
pêra Portugal, visto como nam podees nem deuees mais fazer. E pois 
que vos principalmente começastes este feito por seruiço de Deos. elle 
que sabe vossa entençam, e conhece que nom podees em ello mais fazer, 20 
rreçeba vossa boõa vontade com a grandeza do trabalho, que acerca 
dello tendes leuado, compridamente por obra. ca nom he seu seruiço 
leuardes tanta gente a morrer, sem alguúa esperança de vitoria, ca 
escprito he, que os mortos nom louuam o Senhor, mas aquelles que 
viuem e conhecem o seu nome. E esto ata aqui disserom aquelles derra- ^5 
deiros. mas elRey nom quis nenhuúa cousa rresponder, ante disse que 
a detreminaçam daquello leixaua pêra depois. E mandou logo fazer 
prestes toda a frota, que se fosse lançar a ponta do Carneiro, a qual 
cousa foy feita muy ledamente, porque todos maginauam que hi nom 
auia ja outra cousa senom tornar pêra Portugal, tendo pequeno cuidado 3o 
de quanto trabalho e despesa sobre aquelle feito era leuado, e como todo 

A,^i,r, I juntamente se perderia ao ponto de huúa soo ora. E assi * pareceria que 
todallas cousas que sse ataa alli fezeram, forom feitas a fim de trazerem 
desomrra a elRey e ao rregno. Depois que a frota foy assy toda jumta 
na pomta do Carneiro, elRey sahio em terra, e ajumtou comssigo todos 35 

I . esteuesees B. — 2. multidão B. — 6. rezões B. — 7. achareis B — case B — jmpo- 
siuel B. — 9. dirão B — o 2.°] I, om B. — 16. regnos B. — 20. entenção B, tenção C. — 
24. escrito B — louuom B. — 25. ate qui B, ataqui I — diserom B. — 27. de aquello B 
— despois B. — 33. ataalli A — foram A. — 24. rreyno A — despois A — assi A. — 35. ponta 
A — ajuntou A. 



— i85 — 

aquelles do comsselho, e assemtousse no chaão, e elles todos darredor 
delle. Ora disse elle, uos quero rrespomder a todo o que me fallastes 
açerqua de meus feitos. E quamto he ao que dizees que me torne pêra 
meu rregno, pareçeme que assaz seria de gramde mimgua auer açerqua 
5 de seis annos, que amdo em este trabalho fazemdo sobre elle tamtas çir- 
custamçias como sabees, polias quaaes o mundo esta com as orelhas 
abertas pêra ouuir a fym da uitoria, e leixallo assy agora pareçeme que 
nom será outra cousa senam huú escarnho. Outrossy acerca do que 
dizees de Giballtar, assaz seria de fea cousa teer o fito posto em huOa 

IO tamanha cidade, e aa derradeira desfechar em huija semelhamte uilla. 
Porem abreuiamdo as çircustamçias dos comtrairos, que sse açerqua dello 
poderiam acarretar, declaro que minha uoomtade he o dia de oje a Deos 
prazemdo seer sobre a cidade de Cepta. e de manhaS filhar terra, e dhi 
em diamte proseguir minha emtemçom, ataa que a Deos traga aaquella 

i5 fim que sua merçee for. Ora comuera diz o autor, que* digamos aqui, A,8i,r,2 
de como Pêro Fernamdez Portocarreiro, tamto que semtio que a determi- 
naçom delRey era filhar a cidade de Cepta, rrequereo a seu padre 
liçemça pêra sse hir pêra elle. Leixa primeiramente disse seu padre, a 
elRey assemtar seu arrayal, e amtre tamto emcaminharemos alguúa boõa 

20 cousa que lhe leues em seruiço, ca assaz de tempo auera hi pêra o seruires. 
E esto escpreuemos assy aqui, como nembro que fazem os pedreiros 
sobre a parede, pêra tornarmos aqui ao depois a fumdar outra rrezam. 

Como elRey ajmda teue comsselho açerqua do filhar da terra homde 
seria, e das rra^oões que disse ao Iffamte Dom Hamrrique. 
25 Capitullo Lxiiij. 

MUITO parecia aa mayor parte daquelles do comsselho delRey, que 
aquella uiagem era perijgosa. empero nom teuerom nehuúa 
rrezam de a comtradizer, depois que uiram determinadamente 
a uoomtade delRey, quamto mais seemdo seus filhos primeiramente em 
3o aquelle acordo. E bem poderamos aqui nomear expressamente, quaaes 
eram aquelles comsselheiros que alli estauam, e as uozes que cada 
huú daua. mas porque poderia seer que seriam juUgadas ao rreuees de 
suas emtemçoões, leixamos de o fazer. Ora sabee que nom foy * menos A,Si,v, i 
comtemda sobre o desembarcar daquella frota, do que foy primeiramente 

1. conseslho A. — 3. quanto A. — 4. rreyno A. — G. mumdo. — 9. fito I, om A. — 
12. doje A. — i3. prazendo A. — 19. boa A. — 21. assi A. — 22. rrazam A. — 23. cons- 
selho A. — 28. despois A. — 29. quanto A. 
34 



— i86 — 

sobre o çerquo da cidade, por quamto elRey determinadamente disse 
que queria poer seu arrayall na Almina. a quall cousa era comtra a 
opiniam de todos, ca lhe disseram que seu cerco nom prestaria nehuúa 
cousa, se elle nom empachasse aquella parte do sertaão. Parece 
senhor disseram eiles, que uos uijmdes pêra cercar, e querees seer çer- 5 
cado, bem sabees uos que os mouros nom teem tamanho poder per 
o mar como per a terra, e sse uos teuerdes tomada aquella pequena 
parte do sertaão, com a frota que uos teemdes podellos hees teer cerca- 
dos assy per mar como per terra. E terces abastamça de mais auguas e 
melhores, e serees seguro de elles emuiarem rrecado a nehuúa parte. E lo 
posto que gramde multidoõe de mouros uenha, poderees afortellezar 

^ uosso arrayall de cauas e artefiçios de madeira, per tall guisa que numca 

uos poderam empeeçer. E sse esteuerdes na Almina, elles podem meter 
quamtos mouros quiserem demtro na cidade, e emtrar e sahir quamdo 

A,8i,v,2 lhes aprouuer. e adubar seus bees, e trazer *seus fruitos pêra suas casas, iS 
como sse uos hi nom esteuessees. e assy que uos estarees mais cercado 
que elles. E per esta guisa sse passaram sobre este feyto outras mujtas 
rrazoões. Ao que elRey rrespomdeo, que elle auia por railhor de teer 
assy seu arrayall, ca estamdo alli nom auia mester outro pallamque, e que 
soomente auia de teer cuydado depois que alli esteuesse de pelleiar com 20 
os mouros da cidade, e sse esteuesse da outra parte, que teeria dous 
cuydados, huú de pelleiar com os mouros da cidade, e outro de sse deffem- 
der daquelles que ueessem a seu socorro. Ora disse elle comtra o 
Iftamte Dom Hamrrique. Meu filho, bem me nembra os rrequerimentos 
que me fezestes, quamdo éramos açerqua de Lixboa, homde uos eu disse, 25 
que uos rrespomderia quamdo fosse mester, e porque agora he tempo 
de uos rrespomder ao que me rrequerestes, que uos outorgasse que 
fossees em companhia daquelles que primeiramente filhassem terra, 
porem a mym nom praz que nos em ello uaades como companheiro, 
mais como primçipall capitam. E quamdo elRey esto fallaua, toda sua 3o 

A,82,r, I cara estaua chea de rrijso, como aquelle* que tijnha gramde esperamça 
no emgenho e fortelleza de seu filho Nos prazemdo a Deos disse elRey, 
hiremos oje sobre a noute amcorar nossa frota dauamte da cidade, e 
uos hirees primeiramente com a uossa frota que trouxestes do Porto, 
dereitamente a Almina, e hi farees lamçar uossas amcoras e alloiar uossa 35 
frota, e nos hiremos desta outra parte dos banhos, por tall que os 
mouros quamdo uirem a maj^or força da frota em aquella parte, emtem- 

9. assi A. — 16. assi A. — 17. feito A. — 19. assi A. — 20. despois A. — 27. rrespon- 
der A. — 28. terra] add. eu volo concedo I. — 3o. quando A. 



— iSy — 

dam que alli ha de seer nosso primçipall desembarcamento. per cuja 
rrezam acudiram pêra alli a mayor parte delles por nos empacharem 
nossa sabida, e dessa outra parte da Almina nom faram gramde comta, 
polia sospeiçam que teeram que nom auees alli de filhar terra. E uos 
tamto que uirdes meu sinal!, lamçarees logo uossas pramchas em terra, e 
sahirees o mais despachadamente que poderdes, e depois que nos sem- 
tirmos que uos teemdes a praya filhada, mudaremos nossa frota pêra 
açerqua da uossa. e emcaminharemos de uos seguir, de guisa que uos 
nom leixemos mujto estar sem companhia. Outrossi disse elRey, porque 
a corremte nom aja lugar de nos lamçar as naaos caminho de Mallega, 
como ja fez duas uezes, * terees maneira de leuar uossas gallees per tall A,82,r,2 
hordenamça, que posto que alguú dos nauios de nossa companhia queira 
escorregar per força da corrente, que nom aja lugar de correr mais 
auamte. 



i5 Como a frota par tio pêra hir sobre a cidade de Cepta, e das rra^oões 
que os escudeiros do Iffamte Dom Hamrrique ouuerom com elle. 
Capitullo Lxv. 

NOM poderia dereitamente comtar o gramde prazer que ouue o 
Iffamte Dom Hamrrique, quamdo lhe seu padre deu aquellas 
nouas. e assy como homem que o rreçebia em espiçiall mer- 
çee, lhe foy beyiar a maão com a comteneniça muy allegre. E tamto 
que todos forom na frota, mamdou logo o lífamte aparelhar todas suas 
cousas pêra partir, e disse a todos que pemssassem de ssy, de guisa 
que depois que a frota partisse, nom sse amdassem acupamdo em outras 

25 cousas, de que todos ouueram muy gramde prazer, pemssamdo que a 
sua uiagem dereytamente auia de seer pêra Portugall. E assy com aquella 
lediçe ajmda que fosse uaã, corregeram muy asinha todas suas cousas, 
de guisa que quamdo as trombetas *fezeram sinall de partida, elles eram A,S2,v,i 
de todo prestes, e porque era em tall tempo como sabees, e era açer- 

3o qua da tarde, mujtos delles fezeram sua çea temporaa por darem mayor 
esforço a seu prazer. E o Iffamte mamdou logo emderemçar suas gallees 
per aquella hordenamça que lhe seu padre mamdara, pêra rreteer ho 
cosso da augua, quamdo a corremte trouxesse os nauios. E depois que 

4. pella A. — 22. foram A. — 23. cousas] add. de guisa que quando as trombetas 
fizeram sinal I — dessy A, desy C . — 24. despois A. — 32. per] pêra A, por I. — 33. cosso 
A, corrente I. — navios] add. da frota delRey C I. 



o Iflamte e o comde seu jrmaão forom partidos, começaram demcamiiihar 
todoUos outros nauios da frota delRey. E depois que os mareamtes e 
todos aquelles que auiam de rreger a frota, semtiram que todauia auiam 
dhir dauamte a cidade, alleuamtauam uaguarosamente suas amcoras e 
corregiam seus aparelhos, assy como tem per costume de sse alleuamta- i 
rem alguús homeés priguiçosos, quamdo jazem nas camas bramdas em 
tempo frio, de guisa que per sua tardamça mostram, quamto suas 
uoomtades ssam comtrairas aaquello que elles fazem. Per semelhamte 
faziam aquelles mareamtes em correger seus aparelhos, porque ja a 
gallee delRey era açerqua dAljazira, quamdo o derradeiro nauio partia ,o 
da pomta do Carneiro, e assy hiam hordenados huú amte ho outro, 

A,82,v,2 que nom * parecia senam huúa pomte que chegaua de terra a terra. E 
depois que os nauios do IfFamte Dom Hamrrique assy forom partidos 
como ja dissemos, e os da frota delRey começarem de partir caminho 
dAljazira. aquelles que hiam na gallee do Iffamte pemssauam que sse i.s 
tornauam pêra Portugall, ficaram dello mujto espamtados. e disseram 
que caminho era aquelle, que aquella frota assy leuaua. Leixaae disse o 
Iffamte, ca aquelle que a gouerna ja sabe pêra homde ha dhir. Amte 
nos parece que o nom sabe, rrespomderam elles, pois que leua tall cami- 
nho, ca elles leuam caminho de Cepta, e nos hijmos pêra Portugall. 20 
Leyxaae fazer, tornou ho Iffamte a rrespomder, a frota fazer sua uiagem, 
ca uay acabar o por que aqui foi uijmda. A quall pallaura nom foi muy 
doce nos ouuydos daquelles, amtre os quaaes sse começou logo huú nouo 
rrumor, fallando cada huús apartadamente sobre a determinaçam daquelle 
feito, e primçipallmente sse apartaram todos aquelles escudeiros, que hiam jS 
com o Iffamte. E a cabo de pouco forom assy todos jumtamente fallar ao 
Iffamte. Senhor disseram elles, nos uos pedimos por merçee, que nos quei- 

A 83 r, I raaes perdoar alguúas rrazoões * que nos queremos dizer, porque semtimos 
que será mujto milhor de uolas dizermos agora, que ao depois que o 
feito for começado, ca poderia seer que pareçemdo nossas teemçoões 30 
justas e rrazoadas, ao tempo que nos ouuessees de mamdar, nom compri- 
riamos uosso mamdado com aquella obediemçia que deuemos. a quall 
cousa seria aaZo de uos teerdes mujto mais rrezom de uos queixardes, do 
que agora terees, amte que o feito seia começado. Ora senhor disserom 
elles, nos somos bem certos que elRey uosso padre fez duas uezes com- 35 
sselho açerqua de sua uijmda, porque semte que nom pode filhar a 
cidade de Cepta como queria, e nom sabe como sse torne, que pareça 

i.foram A. — 2. despois A. — 5. assi A. — i3. despois A — foram A. — i5. daliazira A. 
— 1 7. assi A. — 26. foram A — assi A. — 28. nos A, om I. — 33. rrazom A. — 34. teerees A. 



rrazoddo ao inundo. Quer leuar a frota sobre a cidade, e mamdar 
ssahir a mayor parte da gemte meuda com alguús capitaães daquelles 
mais somenos, e elle comuosco e com os outros primçipaaes ficardes na 
frota, porque ao depois sse possa dizer, que elle trabaliiou por tomar 

5 terra e nom pode, e que fez sobre ello toda sua posse. O que senhor, 
sse assy he, uos sabee que será muy gram mall, ca outra milhor cautella 
deuia uosso padre buscar, que nom aquesta,* que notório he, que nos A,83,r,2 
espedaçaram alli todos na meetade daquella área amte a uista de uossos 
olhos, sem nehuúa esperamça de rremedio. Porem uos sabee, que posto 

jo que nos ouçamos tall mamdado, que mujtos ham de poer duuida de o 
comprir. porem uoUo fazemos assy a saber por uosso auisaraento, que 
comsirees se será bem de o fazerdes saber a uosso padre, ca segumdo 
creemos nom menos tem em uoomtade todollos outros. 



Como o Iffamte Dom Hamrriqiie rrespomdeo aquelles escudeiros, e 
i5 como a frota chegou dauamte a cidade. Capitullo Lxvj. 

O Iffamte ficou aiguú tamto espamtado de semelhamte nouidade, e 
assy mostrou a comtenemça em alguúa maneira queixosa, quamdo 
lhes deu a rreposta, primçipallmente por rrepreemder suas desaui- 
sadas pallauras. Parece disse elle, que elRey meu senhor teue huú com- 

20 sselho em terra e uos outro no mar, e pemssaaes que elle nem nos outros 
nom teeremos de uossas uidas aquelle emcarrego que he rrezom de teer- 
mos. Porem uossas pallauras me forçaram de uos declarar o que amte 
tijnha * pouco em uoomtade. e esto he que prazemdo a Deos, de menhaa A,83,v,i 
uos me uerees primeiramente sahir polia pramcha desta minha gallee. e 

25 porque nehuú de uos nom aja rrezam dhir após mym, mamdarey uijr 
dos outros nauios dous dos meus pêra os leuar comigo, e uos podees 
bem seguir uossas uoomtades. porque a mym praz, que ataa que me 
uos nom ueiaaes sahir, que por mamdado que uenha delRey meu senhor 
nem meu, que nom façaaes nehuú mouimento. Gramde arrepeemdi- 

3o mento mostraram todos aquelles daquellas pallauras, que disseram ao 
Iffamte. e amte quiseram perder toda sua fazemda, que teer fallado 
em semelhamte cousa. E alli começaram de sse aqueixar muy forte- 
mente, dizemdo que aquello seria ja mujto peor, que o da primeyra. ca 
o que elles disseram, nom fora dito com maa emteemçom, soomente por 

1. mumdo A. — 6. assi A. — ii. assi A. — 12. consirees A. — 17. assi A. — 21. rra- 
zom A. — 24. gallee] add. em terra I. 



— igo — 

lhes parecer, que nom seria rrezam de os alli leyxar morrer sobre cousa, 
de que a elle ficaua pequena homrra. Empero disseram elles, senhor, 

A,83,v,2 uos nom cuydees que assy auees de sahir sem nossa companhia. *amte 
tcemde que nom ha aqui tall que amte sse nom leixe morrer, que de lhe 
seer feita semelhamte emjuria. e posto que uos queiraaes sahir como 5 
dizees, uos sabee que nos sahiremos todos a par de uos, ou nos aliagare- 
mos neste maar. Nom mais disse o líTamte, ca sobre o que uos disse, 
nom emtemdo fazer outra mudamça. E assy com aquelle nojo ficarom 
todos aquelies escudeiros, despemdemdo a parte que lhes ficaua do dia 
em fallamdo sobre aquelle feito. E os mouros da cidade, tamto que lo 
uiram a frota açerqua de seus muros, emcheram todas suas janellas e 
freestas de camdeas, por mostrarem que eram mujtos mais do que os 
christaãos presomiam. e assy polia gramdeza da cidade, como por seer 
de todallas partes tam allumeada, era muy fremosa de ueer. Sobre a 
quall nos aqui podemos emterpretar, que assy como a camdea quamdo i5 
sse quer apagar, da sempre gramde lume, assy estes que no outro dia 
auiam de leixar suas casas e fazemdas, e mujtos delles per uemtura sse 
auiam de partir pêra todo sempre das uidas, faziam assy aquella sobeia 

A,84,r, i mostramça de claridade *sinificamdo sua fim. ou per uemtura mais 

dereitamente podemos dizer, que nosso Senhor Deos, queremdo mostrar 20 
como aquelies maaos sacrifícios que sse ata alli fezeram, estauam pêra 
fazer fim, quis assy em figura demostrar, que assy como em aquella ora 
a cidade era mais allumeada, do que numca fora per fogo temporall, assy 
seria no dia seguimte allumeada do uerdadeiro fogo do Sprito Samto, 
quamdo os christaãos trouxessem os sinaaes da cruz per todallas partes 25 
da cidade. 



Como os da frota trariam per essa meesma giiisa lume per sseus 
nauios, e das temçoóes que amtre ssi auiam. Capitullo Lxvij. 

POSTO que aquelies mouros assy allumeassem sua cidade, a fim de 
acreçemtar em a ssemelhamça de sua multidom, os outros que 3o 
estauam nos nauios, nom allumeariam menos sua frota, mas esto 
era mais per necessidade, que por mostrar sua gramdeza. Que tamto 
que assy os nauios teueram suas amcoras lamçadas, logo cada huú come- 

3. assi A. — 4. aqui] qui A. — 7. mar A. — 8. assi A. — 12. do] dos A. — i3. assi A. 

— i5. assi A. — 16. assi A. — 18. assi A. — 22. assi (bis) A. — 23. assi A. — 24. spú A. 

— 29. assi A. — 33. assi A. 



— 191 — 

çou de cuidai- no que lhe compria pêra o dia seguimte. E amtre as 
tochas que os capitaães tijnham amte ssi, e as camdeas* que os homeés A,84,r,2 
traziam nas maãos, quamdo amdauam corregemdo suas cousas, era 
a frota mujto allumeada, e parecia ajmda mujto mais aos que esta- 
5 uam na cidade, porque o fogo feria na augua do maar, e parecia que 
todo era lume. a quall cousa nom punha pequeno espamto aaquelles 
mouros, que o dereitamente podiam esguardar. Mais depois que sse 
a noute começou de gastar, e os senhores se meteram em suas cama- 
rás pêra filharem seu rrepouso, começarem cada huús daquelles de 

IO sse acostar em seus ailoiamentos. E porque em semelhamte tempo os 
homeés teem uagar de cuydarem quaaesquer cousas, porque era quamto 
lhes a força do sono nom tira o naturall semtir, nom podem arredar de 
ssi desuairadas maginaçoões, omde cada huíi leua seu emtemder aaquello 
que traz mais açerqua da uoomtade. e certo he que em tall tempo 

i5 pode homem milhor comsijrar o dano ou proueito que lhe pode uijr, que 
em outro nehuú. ca dito he pollo filosofo, que o coraçom seemdo sse 
faz prudemte. E jazemdo assy aquelles, começauam de comsijrar quall 
seria a sua fym no outro dia. ca posto que hy * ouuesse mujtos ardidos a,84,v,i 
e fortes, assy estauam outros de pequenos coraçoões. ca na gramde mul- 

20 tidom necessário he que aja de todo metal, os quaaes toda aquella noute 
nom podiam dormir senam a bocados, e batiam em seu peito tam desuay- 
rados pemssamentos, que os nom queriam leixar liures a huú soo cuy- 
dado. E assy como a naao quamdo traz pequena carrega, a aruor seca 
amda sobre as omdas dhuúa parte pêra a outra, sem teer certo rrumo per 

25 que faça sua uiagem, bem assy amdauam os pemssamentos daquelles 
alloymdo sem certo curso. E huúa uez se lhes apresemtaua ante a jma- 
gem da alma, como os mouros eram homeés, que rreçeauam pouco suas 
mortes, com tamto que elles podessem comprir suas uoomtades, matamdo 
seus jmmijgos. outra uez pemsauam que sse alii falleçessem, no que elles 

3o punham gramde duuida, quaaes sepuUturas aueriam. e como nom seriam 
acompanhados de seus filhos e de seus paremtes, quamdo lhe fezessem 
sua derradeira homrra, nem poderiam gemer sobre suas couas aquelles 
que gramde semtido de sua morte teuessem. Oo deziam elles amtre 
ssi, como forom bem* auemturados todos aquelles a que Deos leixou aca- A,84,v,2 

35 bar seus dias no apartamento de seus leitos, os quaaes em tall tempo 
ssom acompanhados de suas molheres e. filhos, e comsselhados de seus 

5. agua do mar A. — 7. despois A. — 16. pello fillosofo A. — 17. assi A. — 19. assi A, — 
2 1 . batiam] andauão I. — 23. assi A. — 25. assi A. — 3o-32. e como . . . homrra] e como 
os nom veriam seus filhos, nem seriam acompanhados de seus parentes no seu enterra- 
mento I. — 32. gemer] chorar I. — 34 foram A. 



— ig2 — 

abades com gramde proueito de suas comçiemcias. e estam fazemdo a 
rrepartiçam de seus bees segurado o mouimento das suas uoomtades. 
Mas nos outros que aqui morrermos, nom ueremos nehuúa destas cousas, 
amte jaremos ssem sepulhuras, desprezados de todollos uiuos. e assy 
sse gastaram nossas carnes, ssem de nos saber alguém parte, ssenam 5 
depois da derradeira rresurreyçom do juizo. E que proueito nos pode 
trazer o gaanho dos trabalhos que leuamos de nossas mocidades e 
mancebias, se nom auemos de teer poder em nossos dinheiros pêra 
os darmos pêra saúde de nossas almas. Por certo mais nobres pem- 
ssamentos tijnham aquelles, a que a natureza guarnecera de uerda- lo 
deira fortelleza. os quaaes comsijramdo em este feito, deziam amtre ssy. 
Bem auemturados somos nos, a que Deos amtre todollos dEspanha 
outorgou primeiramente graça de cobrar terra nas parte dAffrica. e 

A,85,r, I que auemos primeiramente de despregar nossas bamdeiras sobre* a 

fremosura de tamanha cidade. Vaa com Deos deziam elles, por bem i5 
empreguado nosso trabalho em semelhamte seruiço, pois que o nosso sam- 
gue ha de seer espargido por rremijmento de nossos peccados. E que 
perda rreçeberemos aquelles que aqui fezermos fim de nossas uidas, 
quamdo teemos certo conhecimento, ca as nossas almas, que ssom spiri- 
tuaaes, ueeram uerdadeiros prazeres no outro mundo. E os autores 20 
das estorças apartados em seus estudos, estaram comtemplamdo na 
boomdade de nossas forças, e escpreueram nossos feitos pêra jmsinamça 
de mujtos uiuos. e uoara a fama de nossa morte per todallas partes, 
omde os homeés conhecerem escprituras. E nossa fortelleza será como 
espelho de todas aquellas gemtes, que deçemderem de nossa linha, os 25 
quaaes sempre uiueram em fauor de nosso merecimento, ca os rrex 
que depois ueerem a Portugall, sempre teeram rrezam de sse nembrarem 
de tamanho feito. E pemssamdo assy em estas cousas, mujto a meude 
sse leuamtauam a oolhar o mouimento das estrellas, pêra conhecer cama- 

A,85,r,2 nha parte ficaua por amdar da noute. ca tarde lhe parecia que *chegaua 3o 
a claridade do dia, pêra ueerem a ora que amte deseiauam. 



II. consijramdo A — antre A. — 12. deespanha A. — 20. veram C, ueeram A — 
mumdo A. — 21. contemplamdo A. — 24. forteleza A. — 25. linha A, linhagem I. — 
27. despois A — rrazam A. — 3i. ante] tanto I. 



— igS — 

Como no dia seguimte os mouros e os christaãos trabalhauam em 
seus feitos. Capitullo Lxviij. 

PEQUENA tardamça pos o soll em começar seu diurnall trabalho, ca 
era esto huúa quarta feira xxj dias do mes dagosto. em a quall 
aquella emperiai! planeta emtraua em seis graaos do sino que 
sse chama de Virgo, e em aquella ora que Ganimedes começou de rrom- 
per a primeira tea do oriemtall crepuscuUo. A gemte da frota que no 
começo da noute fora trabalhada, huús em corregimento de suas farda- 
geés, outros aparelhamdo as guarniçoÕes de seus nauios, eram ajmda 

IO alguú pouco assonoremtados. e quamdo uiram a claridade do soll, que 
temdia seus rrayos polias arcas de seus nauios, começaram de sse esper- 
tar huQs aos outros, chamamdosse per seus nomes, e desi meteram suas 
maãos a rreuolluer as armas, prouemdoas de todallas partes, se tijnham 
alguú falleçimento. Outros amdauam com os ferramentaaes nos braços, 

i5 e com os martellos nas maãos, pêra pregarem seus arneses. Outros 

temtauam as atacas de * seus giboões, se tijnham aquella fortelleza que A,85,v, i 
lhe compria. Outros se nembrauam de seus peccados, e amdauam bus- 
camdo seus abades, mostramdo a Deos o gramde rrepemdimento que 
auiam em seus coraçoões. Outros prouauam suas armas, tomamdo as 

20 fachas nas maãos, e desemuolluemdo seus braços pêra huúa parte e pêra 
a outra, pêra ueer sse os embargauam em alguúa parte. Outros tirauam 
as espadas das bainhas, e começauam de as bramdir, prouamdo sse tij- 
nham aquelle fio que lhes compria. Aa deziam elles, boõa espada, que 
quamdo Deos queria soyees uos a cortar per cima das solhas e das cotas. 

25 ueremos oje o que sabees fazer polia carne destes perros, que nom podem 
soportar nehuúa coberta. Outros abriam as çarraduras das suas botas, 
em que traziam seus bizcoitos, apresemtamdo a seus amigos as milho- 
res uiamdas que tijnham. Coymamos deziam elles, ca per uemtura este 
he o nosso derradeyro dia. e sse nos Deos por sua merçee leixar uiuos, 

3o depois da uitoria nom nos falleçera uiamda. Taaes auia hi, que ja tij- 
nham as coores quejamdas* lhe a morte auia daparelhar a pouco tempo. A,85,v,2 
Outros amdauam tam ledos, que ja em seu rrosto se parecia a sseme- 
Ihamça da uitoria. Nem os mouros nom estauam tamto ouçiosos, ca 
nom çessauam de rrepayrar todallas cousas, que semtiam que lhe pode- 

35 riam prestar pêra sua deffemssam. e assy amdauam corremdo per aque- 
lles muros de huúa parte aa outra, mostramdo que nehuú medo nom 

6. ganimodes A. — 7. crespuscullo A. — i3. rreuoluer A. — 23. boa A. — 24. solhas A, 
folhas I. — 3i. quegemdas A. — 35. assi A. 
a5 



— 194 -- 

auia rrepouso em seus coraçoões. Mais outro cuydado era o dos mou- 
ros uelhos e de todos aquelles, que sabiam a declaraçam daquelles synaaes 
que ja dissemos, e huús amdauam escomdemdo seus aueres, outros esta- 
uam descallços em suas mezquitas, com os corpos temdidos amte as rre- 
lliquias de seus profetas, pedimdo merçee aas diuinaaes uirtudes, que 5 
quizessera trazer aquelle feito a tall fim, que a sua cidade nom ficasse 
quebramtada amte a yra daquelle rrey. Aa Deos deziam elles, e pêra 
que era tall fumdamento de cidade, cuja nobreza nas partes dAffrica tijnha 
coroa, sse a fremosura das nossas rruas ha de seer timta de nosso sam- 
gue. E tu samto profeta Maffamede, que na casa de Deos padre teés a lo 

A,86,r, I * segumda cadeyra, porque nom abres os olhos da tua diuinall magestade, 
e esguardas sobre nos que uiuemos sso a tua deçeplina, e nom nos leixes 
assy trilhar em poder destes jmfiees, que com tamanha soberua querem 
destruyr a tua ley. E sse tu sabias que a tua cidade auia de seer casa 
de christaãos, porque nom rreuellauas a nossos padres que a leixassem i5 
despouoar. mas agora que os seus ossos ja ssom desfeitos em cijmza 
darredor das tuas sagradas mezquitas, cujas paredes elles com seus tra- 
balhos alleuamtaram, e nos obrigados de as acompanhar, queres tu agora 
comssemtir que nos uaamos buscar as terras alheas, participar cora 
aquelles em jgualleza, que por rrezam de nobreza da nossa cidade nos 20 
uiuiam em obediemçia. Certamente a tua diuinall clememçia nom com- 
ssemtira a ora de tamanha crueza, e sse per uemtura a gramdeza de 
nossos peccados te forçarem de o comssemtir, tu ouuiras os nossos gimi- 
dos no meo da nossa cidade, quamdo rreçebermos os derradeyros gollpes 
amte as aras sagradas das tuas mezquitas, espargemdo nosso samgue sobre 25 

A,85,r,2 as sepullturas de nossos padres, e nos* alli temdidos rreçeberas nossas 
allmas, que sahiram de nossos corpos. E as nossas molheres e filhos que 
escaparem da crueza do triste ferro, carregados de prisoões passaram 
nas partes dEspanha, omde mujtos de nossos paremtes ja teueram 
tamanho senhorio, alli faram os seus netos uida miserauell pollo falleçi- 30 
mento da çelestriall ajuda, e sobre todo a força do catiueiro lhes fará 
a rrenumçiar a tua ley, que tu amtre todallas outras cousas deuias mais 
semtir. Ora uee com quall piedade poderás soportar todas estas cousas. 
e que proueito nos ueo a nos de guardarmos a tua ley, e seguirmos os 
teus mamdamentos, sse na ora de tam estreita necessidade nom acorres 35 
a este pouoo mezquinho com a tua çelestriall ajuda. 

5. deuinaaes A. —9. ha I, aa A. — 10. maffomede A. — 12. esguarda A, esguardas I 
— uiuamos A, uiuemos I.— i3. assi A. — i5. despouoar AI. —21. clemência A — 21- 
22. conssemtira A. — 23-24. gimedos A. — 25. espargemdo A I. — 27. almas A. — 29. dees- 
panha A. — 3o. miserauel A. 



-195- 

Como elRey mamdou aparelhar hiiúa galleoia, em que amdou aui- 

samdo todollos capitaães da frota da maneira que ouuessem de teer. 

Capitullo Lxix. 

QUAMDo elRey uio que o soll começaua daqueeçer, e que a sua 
gemte amdaua toda em trabalho de sse correger e perceber, 
mamdou fazer prestes huúa galleota, e * meteosse em ella. Como A,86,v, i 
quer que por aquelle presemte fora mais necessário ho rrepouso que o 
trabalho, por quamto se acertara que em queremdo emtrar em sua gallee, 
quamdo estaua da outra parte de Barbaçote, sse ferio em huúa perna, e 

IO por aazo do gramde trabalho e polia ferida nom seer muy pequena, era 
em aquella perna huú gramde jmchaço, o quall cada huú dia sse fazia 
mayor, que pêra a door de semelhamtes lugares nom ha hi milhor meezi- 
nha que teer assessego. empero com todo elRey nom fez em ello outra 
mostramça, ssenom em quamto escusou de leuar ho arnês de pernas. 

i5 e assy com huúa cota uestida e com huúa barreta na cabeça e a sua 
espada çimta, amdou per todos aquelles nauios damdo auisamento a cada 
huú da maneyra que ouuessem de teer. e assy trazia sua comtenemça 
allegre, que a todos parecia manifesto synall da uitoria. E quamdo fa- 
llaua com aquelles capitaães, todollos outros dos nauios sabiam a bordo 

ao pêra ouuir suas pailauras. e nom menos esforço rreçebiam de as ouuyr, 
que sse certamente souberam que lhes Deos emuiaua huú amjo do çeeo 
pêra lhas dizer. Todos disse elle comtra os capitaães da sua frota, 
teemde *tall auisamento que nehuú de uos nom saya em terra, senam A,86,v,2 
depois que uijr que meu filho o Iftamte Dom Hamrrique tem filhada a 

a5 praya, daquella parte domde esta, teemdo porem todos uossos batees 
corregidos per tall guisa, que com pequena tardamça possaaes seer em 
aquelle lugar homde o Iffamte esteuer. E chegamdo aa gallee do Illamte 
Dom Hamrrique começou de sse rrijr, e pregumtoulhe em que pomto 
estaua seu corregimento. Neeste que ueedes senhor, rrespomdeo elle, 

3o pareçemdo todo armado e todollos seus açerqua delle ao bordo da 
sua gallee. e assy estam todollos outros desta frota que aca mamdas- 
tes. Veedes disse elRey, nom uos disse eu que amte manhaã auia meu 
filho de seer de todo prestes, ca em taaes tempos como estes, logo elle 
sabe perder o sono toda huúa noute ssem mostramça de semtir por ello 

35 trabalho. Ora pois meu filho, disse elle comtra o líiamte, com a beem- 
çam de Deos e com a minha, quamdo uirdes tempo, ja sabees o que 

6. galliota A. — li. assi A. — 17. assi A, — 22. centra A. — 23. teende A. — 25. vos- 
sos A. — 3i. assi A — 3i-32. mandastes A. 



— 196 — 

auees de fazer. Tamto que aquelle nobre primçipe acompanhado de 
mujtas uirtudes o IfTamte Duarte uio seu padre fora da gallee, ca ambos 

A,87,r, 1 * estauam em huúa em aquelle dia, mamdou trazer suas armas com em- 
teemçom de seer com os primeiros no cometimento daquelle feito, e 
começamdo de sse armar, acertou de auer huúa pequena ferida em huúa 5 
maão. Certamente senhor, disserom os que alli estauam, nom seria 
maao descusardes uossa hida em terra por este dia, ca o espalhamento 
deste samgue he mujto darreçear. ca ssom synaaes que aas uezes pare- 
cem por bem, se homem se quer guardar per seu auisamento. assy 
como dizem que fez huú comssull rromaão, quamdo estaua pêra pelleiar 'o 
com Aniball açerqua da cidade de Taramto, que por uista de huú seme- 
Ihamte synall escusou sua partida em aquelle dia. polio quall salluou sua 
uida e de toda sua hoste. E o Iffamte ouuimdo aquellas rrazoões come- 
çou de sse rijr comtra elles, dizemdo que sabiam muy mall conhecer a 
uerdadeira emteemçam daquelle ssynall. Pois que quer esto ali dizer, '5 
disse elle, ssenom que assy como em esta minha maão primeiramente 
pareçeo samgue, assy espargerey eu oje com ella com a graça de Deos 
tamto samgue dos corpos dos jmfiees, ataa que per força do meu braço 

A,87,r,2 os ueja sahir * amte mym fora de sua cidade. E certamente que o esforço 

do dito primçipe era gramde. e posto que elle aquellas cousas dissesse 20 
em jogo, certo foy que a sua espada em aquelle dia foy mujtas uezes 
banhada em samgue. ca aquelle que elle açertaua amte ssy com o pri- 
meiro gollpe, nom auia espaço desperar o segumdo. e taaes hi auia, que 
alli achauam a sua derradeira ora. E porque todos aquelles do Iffamte 
semtiara o gramde prazer que elle tijnha, em quamto lhe uestiam as 25 
armas, departiam estamdo em mujtas cousas de seus desemfadamentos, 
fallamdo naquello que os homees mamçebos mais trazem açerqua de 
suas uoomtades .s. bem queremça de suas amigas. E uos senhor, disse 
F"ernamdo Afiomsso de Carualho, que era page do Iffamte, auees oje de 
fazer alguúa cousa dauamtagem por amor de uossa dama. Se ma tu 3o 
nembrasses, rrespomdeo o Iffamte, em tall tempo que eu teuesse lugar de 
fazer pollo seu amor tam assinada cousa, per que podesse cobrar sua 
graça. Bem mostrou o Iftamte, diz o autor, per aquellas razoÕes, que era 
pouco de damas, ca sse o elle fora uerdadeyramente, nom ouuera mes- 

A,87,v, I ter outra rrenembramça, sse nom aquelle *mortall tormento, que os bem 35 
amamtes per força de rrezam trazem escuUpido em seu peito. 

4. cometimento I, começamento A. — 8. sangue A. — 11. caramco A, Taranto I. — 
12 saluou A. — 14. contra A. — iS. emtemçam A. — ly.assi A — espargirei I. — 27. man- 
cebos A. — 29. fernamdaffomsso A. — 33. graça] add farias boa cousa I. — 36. escul- 
pido I, esculpidos A. 



— 197 — 

Como Çalla bem Çalla esiaua muy anoiado, ueemdo como a deter- 
minaram delRey de todo era filhar terra amte os muros de sua 
cidade. Capitullo Lxx. 

REZAM he que digamos alguG pouco da maneyra que tijnha Çalla 
bem Çalla, depois que uio de todo a determinaçam delRey. O 
qSall deuees de saber, que era huii homem quamto quer de 
hidade, á& linhagem dos Marijs. a quall amtre todallas outras geeraçoões 
que ssom em Africa, he auida por melhor, e pêra elle ajmda acreçemtar 
mais sua nobreza, era senhor daquella cidade e doutros mujtos boõs 

10 lugares da costa daquelle mar. E bem deuees demtemder, quall seria o 
seu pemssamento, quamdo uisse a nouidade de tall uizinhamça, quall lhe 
chegaua amte as portas de sua cidade. E porque quamto os homeês 
ssom mais ssesudos, tamto acham mais duuidas nas cousas gramdes e 
perijgosas. e porem comsijraua Çalla bem Çalla, como elRey Dom Joham 

i5 era huú primçipe de gramde fortelleza. * ca posto que elle uiuesse aalem A,87,v,2 
do mar, nom eram os feitos delFley tam pequenos, nem elle tara pouco 
nora era desauisado, que nom soubesse muy bem parte de todo. Com- 
sijraua como cora tara pouca gemte nom negara a batalha a elRey de 
Castella, uemdoo acerca de ssi com tam gramde poderio, e o uemçera e 

20 desbaratara, e depois per suas gemtes ouuera com os naturaaes daquelle 
rregno tam gramdes çomtemdas como todos sabiam, das quaaes sempre 
ficara uemçedor. e que começara assy aquelle feito com tam gramde 
sajeza, que numca poderá seer rreuellado, senom quamdo a frota pare- 
cera dauamte os muros da sua cidade, homde o elle uia companhado de 

25 quatro filhos baroões nobres e de gramde ardimento, e com tam gramde 
poderio de gemtes e com tamanha gramdeza de frota. Pois dezia elle 
amtre ssi meesmo, quamdo posso eu seer socorrido e rrepayrado pêra 
rresistir a tamanha força. ElRey de manhaã me começara de combater, 
e eu nom tenho ajmda quatro pedras no muro, a rrespeyto das que hey 

3o mester pêra rredomdeza de tamanho cerco. Quamdo o farey eu ja 

saber a clRey de Feez, ou quamdo* teera elle tempo pêra mamdar auisar A,88, r, i 
suas gemtes, e espaço pêra se correger, que primeiramente os muros de 
Cepta nom seiam desfeitos pedaço e pedaço. Em estes pemssamentos 
estaua muy duuidoso de nehuú boom aqueeçimento. A Dcos dezia elle, 

35 que peccado foi este meu tam gramde, que me trouxe a tamta maa 

5 despois A. — 7 o A, a I. — 20. despois A — 23 nunca A — quando A, — 26. gen- 
tes A. — 28. a I, om A — menhaã A. — 3 1 . terra A — 34. douidoso A — a A, ah I. 



— igS — 

uemtura açerqua de minha uelhiçe. Estamdo assy em este triste cuy- 
dado, chegou a elle huúa gramde companha daquelies mouros mamçebos, 
que sse ajumtaram pera deffemder a cidade, e por quamto o acharom 
assy estar pemssoso, começarem de o rrepreemder dizemdo, que era escar- 
nho pera semelhamte pessoa mostrarsse de tam pequeno esforço sem 5 
perijgo arrezoado. Que ha hi mais, deziam elles, senam uijrem os chris- 
taãos sobre nos. os quaaes em numero nom ssam tamtos que nos muy bem 
nom possamos pelleiar com elles. E que sabemos nos, sse per uemtura 
sua uijmda he a fim da nossa mayor homrra e acreçemtamento de nosso 
proueito. ca pode seer que esta fremosura de frota, que elles jumtaram lo 

A,88,r,2 pera nos çerquar, ficara ajmda nas nossas taraçenas. e as suas* baixellas 
douro e de prata ficaram pera casamento de nossos filhos, e os corre- 
gimentos das suas capellas poeremos em nossas mezquitas por testimunho 
de nossa uitoria. Ora disseram elles, a sua frota esta rrepartida em duas 
partes, e creemos que sua teemçom he de filharem oje terra, o que sse i5 
assy for, jremos a elles aa praya. e amte que sayam dos batees, faremos 
em elles muy gramde matamça. ca os mais e melhores ueem todos 
cubertos de ferro, por cuja rrezam o seu mouimento nom pode seer sem 
gramde força e trabalho, e nos desemuolltos e ligeyros chegaremos a 
elles quamdo quisermos. E tamto que os huúa uez teuermos em terra, 20 
tarde ou pera gramde uemtura se poderam depois alleuamtar. e que 
geito poderam teer per sse erguer, aquelles que pouco seram menos de 
pesados que gramdes penedos, e em tamto huús de nos empacharem 
os que quiserem sahir per os batees, os outros teeram em tamto cuy- 
dado de buscarem lugar e maneyra pera auer as çarraduras daquelle 25 
ferro, per omde tirem as uidas aaquelles que primeiramente sahirem em 

A,88,v,i terra. Nom sey, rrespomdeo Çalla bem Çalla, sse *terees essas cousas 
assy aazadas pera acabar como rrazoaaes. praza a Deos que nom achees 
sobrello outro empacho. Porem hiuos com boõa uemtura, e hordenaae 
uossos feitos o melhor que poderdes, e de quallquer cousa que sse la 3o 
passar, a meude teemde cuydado de mo fazer saber. Mais do que sse 
depois seguio, diz o autor que fallara adiamte, declaramdo a maneira 
que Çalla bem Çalla teue açerqua dello. 



2. mancebos A. — 4. assi A. — 6. arrezoamdo A, rezoando I — diziam A. — 8. uen- 
tura A— 16. assi A— 17. grande A. — 23. tanto A. — 25. auer A, averem I. — 27. ter- 
rees A. — 28. assi A. — 29. boa A. 



— 199 — 

Como Martim Paaei capellam moor do Iffamte Dom Hamrrique 
fallou alguúas rreioóes em presemça de todos. Capitullo Lxxj. 

SOMA de gramde processo se faria em nossa estorea, sse quiséssemos 
seguir todallas cousas, segumdo as achamos per emformaçam 
daquelles que as uerdadeiramente sabem, empero sseguimdo a 
teemçom dos modernos, abreuiamos todo aquello que com rrezam pode- 
mos, ca ajmda ficauam pêra dizer mujtas cousas, que os mouros passa- 
uam amtre ssi, em quamto a gemte da frota nom filhaua terra. E estamdo 
assy o Iffamte Dom Hamrrique com a pramcha prestes, e todollos seus 

IO armados pêra ssahir quamdo uisse o ssynall, Martim Paaez, que era seu 
capellam moor, tomou o corpo do Senhor em suas maãos, e pousousse 
*diamte de todos, e começou de os esforçar em aquesta guisa. Irmaãos A,88,v,2 
e amigos, disse elle, eu acho que numca homem pode dereitamente 
fazer alguúa cousa, se nom sabe a fim porque o faz. e uos outros 

i5 que aquy sooes ajumtados, per uemtura nam sabees dereitamente 
porque aqui uiestes. Agora sabee, que sooes aqui uijmdos por ser- 
uiço de nosso Senhor Jesu Christo. o quall uos aqui apresemto, por 
cujo amor e seruiço elRey nosso senhor sse moueo a começar esta 
demamda. E este he aquellc, que de nehuúa cousa primeiramente for- 

20 mou o mundo, e criou em elle todallas cousas soomente per seu querer. 
e sobre todo formou os homeés da mais nobre nem melhor natureza 
que outra alguúa criatura terreall, teemdolhes aparelhada casa perdura- 
uell, pouco mais baixa que a dos amjos, segumdo diz o profeta. E como 
quer que os homeês sse desemcaminhassem do uerdadeiro caminho, 

25 nosso Senhor quis uijnr a este mundo tomar carne humana, e uiuer em 
elle ataa soffrer morte, por rremijr o nosso peccado. Leixo de uos dizer, 
como depois da sua samta paixom aquelle emçugemtado e abominauell 
cismático Mafamede, tomou falsso nome de profeta, sob collor de uirtude 
*e onestidade semeou poUo mundo esta sua danada seyta. a quall assy A,88,r. i 

3o como as maas heruas ham natureza de creçer mujto mais, que as pro- 
ueytosas e boõas. bem assy esta maa semente dos jmfiees creçeo tamto 
na horta do Senhor, que sse nom fosse arrimcada pollos fiees e cathoUi- 
cos primçipes, em breue tempo creçeria tamto, que amortificaria toda a 
boõa semente. E porque elRey nosso senhor he huú daquelles obreiros 

35 que o Senhor comuida no Euamgelho, ajumtou aqui este seu pouoo pêra 

6. temçom A — rrazam A — 9. assi A. — 10. quando A. — 11. pousouse A. — 16. uijn- 
dos A. — 17. JhQ xpõ A. — 25. mutndo A. — 27. despois A. — 29. assi A. — 3 1 . boas A — 
assi A. — 32. pellos A. — 34. boa A — nosso senhor elRey A I. 



— 200 — 

fazer seu samto seruiço. o quall oje com a sua graça e ajuda espera 
de poer em obra. Ora disse elle, porque sabees que todoUos boõs ser- 
uidores, que uerdadeiramente deseiam trabalhar em alguúa cousa, com 
gramde cuydado buscam todallas maneiras, per que melhor possam achar 
sua fim. e porque o nosso uerdadeyro rremedio he a nossa comçiemçia, 5 
a quall deuemos de alimpar e proueer de todallas magoas que em ella 
semtirmos, e sem a graça de nosso Senhor Deos nom podemos percall- 
çar, uollo apresemto aqui. no quall comtemplamdo uos possaaes doorosa- 
mente arrepemder de uossos peccados. Ca escprito he nas estorias da 

A,89,r,2 Briuia. omde diz que fallou *Ahyor primçipe dos filhos de Amon ao >o 
gramde capitam Holofernes, quamdo tijnha cercados os Judeus na cidade 
de Betulia, declaramdo como o Senhor marauilhosamente sabia deffemder 
todollos seus, quamdo elles perfeitamente guardauam seus mamdamentos. 
e que numca ouue quem podesse comtradizer a este pouoo, saluo quamdo 
sse apartou da homrra do seu Senhor Deos. ca logo forom dados em preá '5 
e rroubo de seus jmmijgos. e como outrossi fezeram penitemçia, e sse 
arrepemderam de seus peccados, logo a uirtude do çeeo foy com elles 
pêra rresistir a todos seus jmmijgos. As quaaes cousas ssom escpritas 
no quimto capitullo do liuro de Judith. pollo quall emtemdemos que duas 
cousas soomente nos ficam pêra fazer com toda diligemçia .s. cobijçar a 20 
perfeiçom da uitoria comtra os jmmijgos da ffe, e a segumda humilldar 
nossas almas ao Senhor, tornamdonos a elle de todo coraçom, fazemdo 
penitemçia de todos nossos erros passados, e pidimdolhe que por sua 
samta piedade nos queyra ajudar, dizemdo aquello que no uiçesimo capi- 
tullo do Parallipomenom he escprito, omde diz. Porque Senhor nom ^5 
sabemos, que mais deuamos nem possamos fazer, esto soomente nos fica 

A,89,v,i -s. que emderemçemos * nossos olhos a ti, pois nom ha hi cousa per que 
deuamos seer alheeos deste negocio. E porque o dia doje seremos ajum- 
tados com a graça de Deos sobre este feito casi todollos do pouoo de 
Portugall, deuees uos ajudar e esforçar huús aos outros com todo cora- 3o 
com e uoomtade. ca este he o próprio offiçio da naturall justiça, segumdo 
he escprito no primeiro liuro dos offiçios, omde Tullio allega huú dito de 
Platam dizemdo. Muy altamente he escprito per este gramde filosofo 
.s. que nom soomente naçemos pêra nos meesmos, ca parte de nosso 
naçimento rrequere o seruiço de nossa terra, e es nossos amigos, que de 35 
nos alguúa cousa ham mester. E segumdo praz aos Estóicos, as cousas 

1 1. quando A. — i5. foram A. — 16. utrossi A. — 19. Judich AC. — 21. contra A. 
25. parallipemenon A. — 27. emderençemos A. — 29. sobreste A. — 3o. deues A. — 
3i. segundo A. — 33. fillosofo A. — 36. Estóicos I, estoricos A. 



que ssom em a terra geeradas, primçipallmente ssom pêra o huso dos 
homeés, e os homeés outrossy ssom geerados por causa e proueito dos 
homeés. por que elles amtre ssi meesmos aproueitem huús aos outros, 
no quall seguimos natureza comuúa a Deos. E esto ueemos em as bru- 
5 tas animalias. as quaaes naturallmente sse amam huúas aas outras, 

segumdo diz o sabedor aos xiij capitullos* do Ecclesiastico, poemdo a A,89,v,2 
semelhauell ley do amor em os homeés, dizemdo. Toda animalia ama a 
outra a ssi semelhamte. e todo homem deue jsso meesmo de amar a 
seu próximo, segumdo sse mostra nos estromentos da musica, nos quaaes 

IO todallas uozes comcorrem huú comssoamte, e sse comrrespomdem e dam 
perfeiçam huúas aas outras. E assy diz Pollicrato, que deue seer na 
comunidade dos homeés, os quaaes sse deuem dajudar e acorrer huús aos 
outros. E esto meesmo parece na supernall natura e comunidade dos 
amjos, a cuja semelhamça deuem em na jgreia miilitamte seer ordenados 

i5 os homeés, os quaaes todos ssam em huú amor e comcordia, despostos e 
partidos segumdo diuersas gerarchias e ordeés. e sse comrrespomdem 
huús aos outros aa gloria de Deos, cada huú segumdo suas exçellemçias 
e perfeiçoões. e todos comcorreram prestesmente de huú coraçom pêra 
destroyr e derribar aquelles, que sse quiseram alleuamtar comtra a sua 

20 samta cidade çelestriall, e jguallar ao seu glorioso Deos .s. Lúcifer e 
os seus maaos amjos, segumdo que no duodécimo capitullo do Apoca- 
llipse he escprito, que ssam Myguell * e os seus amjos pelleiarom comtra A.go.r, i 
elles ataa derribalios do çeeo. Deuees ajmda cobrar uerdadeira forte- 
lleza poemdo amte nossos olhos, como pelleiaaes por amor de nosso 

25 Senhor Deos, que he uerdade, comsijramdo que assy como uos elle ajudou 
comtra os uossos jmmijgos christaãos, que eram mujto mayor numero que 
uos outros, assy uos ajudara comtra estes, que ssom uossos jmmijgos e de 
Christo. Nem deuees rreçear o espargimento de uosso samgue sobre 
semelhamte comquista. ca escprito he que na edificaçom do templo de 

3o Jerusalém todallas pedras hiam primeyramente lauradas e picadas com 
martellos, porque mamssamente fossem postas na obra que auia de durar. 
E por este exemplo tem os samtos doutores, que aquelles que sse ham de 
poer no fumdamento e aliçcçe daquelle muro do templo çelestriall, que he 
dito Jerusalém, ham de seer primeiro em este mundo picados com ferro, 

35 porque o seu assemtamento ha de seer em aquelle lugar pêra todo sem- 
pre. E de como uos o samto Padre outorga os uerdadeiros perdoões, 

2. jeerados A. — 3. antre A. — 6. capitólios A. — 7. semelhacel A. — 9. prouximo A. 

— 20. s. luçifer D, Lúcifer I, Silluester A, Sylvester C. — 23-24. fortalleza A. — 25. assi A. 

— 3o. Jhrlm A. — 3i. manssamente A. — 34. Jhrlm A. — 35. legar A. 

36 



A,9o,r, 2 que he saluaçam das almas per sua samta letera, assaz uos foy * fallado 
pollo meestre frey Joham Xira, quamdo esteuestes em Laagos. e os que 
em ssi ajmda semtirem alguúa cousa, per que as suas comçiemçias seiam 
agrauadas, cheguemsse a seus abades, e mostrem delias arrepemdimento. 
e desi uijníde todos aqui darlhe paz, por tal! que elle uolla dee pêra todo 5 
sempre no seu rregno. E emtam se leuamtou o Iffamte domde estaua 
em jeolhos, fazemdo sua oraçom amte o corpo do Senhor, e foy beyiar 
o pee de huúa custodia muy rrica, em que elle sempre estaua depois 
que elle partio de Portugall. e per esta meesma guisa fezeram todollos 
outros. E depois desto disse Martim Paaez que fimcassem todos os lo 
giolhos em terra, e que fezessem a comfissam, em fim da quall os assolueo 
de culpa e pena segumdo o poder da samta cruzada. Agora disse elle, 
)rmaãos e amigos, teemdes sobre uos as armas da fortelleza. ora daqui 
em diamte pelleiaae sem nehuú temor, ca o nosso Senhor estará aqui em 
presemça de todos ataa fim de uosso trabalho, sem nehuú temor dos ,5 
jmmijgos pêra uos dar o seu uerdadeiro esforço. E depois que o Iffamte 

A,9o.,v, 1 foy fora, sempre Martim Paaez * acompanhado de mujtos outros capellaães 
alli esteue com o corpo do Senhor, rrezamdo mujtos salmos e oraçoÕes de 
gramde uirtude ataa fim de todo o feito. E como quer que mujtos uiro- 
toões e pedras fossem lamçadas de fora pêra a gallee, prouue a elle de 20 
numca empeeçerem em aquelle lugar homde estaua, nem a nehuú daque- 
lles clérigos que amte elle rrezauam. 



Como o baíell de Joham Fogaça foy o primeiro que sayo fora, e 
como Riiy Gomçallue{ filhou primeiramente terra e desi todollos 

outros. Capitullo Lxxij. 25 

TODAS aquellas pallauras que assy rrazoou Martim Paaez, fezeram 
gramde fortelleza e acreçemtamento de ífe, em quamtos estauara 
em aquella gallee, mais porque em todollos outros nauios nom 
sse fazia semelhamte auto. E o soll começaua ja aqueeçer, anojauamsse 
os homeés porque tamto tardaua o signall, que lhes auia de seer feito jo 
pêra sahirem em terra, e desi os mouros amdauam ja polia rribeira 
fazemdo suas maneiras, polias quaaes punham gramde aluoroço na gemte 
que estaua em nos nauios. e cada huú deseiaua sayr, se nom teue- 

2. pello A. — 6. rreyno A — levantou A. — 8. húa A. — i3. forteleza A. — 14. pelle- 
jaae A. — 16. despois A. — 19. atee. — 26. assi A. — 3i. pella A. 



— 2o3 — 

ram rreçeo da deliesa delRey. Empero Joham Fogaça, que era ueedor do 
comde * de Barçellos, nom pode soportar tamanha tardamça. e mamdou A,9o,v,2 
emderemçar seu batell dereitamente aa praya. e o primeiro homem que 
salltou em terra, foy Ruy Gomçalluez comemdador que depois foi de 
5 Canha, e ueedor da Iffamte molher do Iffamte Dom Joham. mais nom o 
acharom os mouros tam ligeiro de derribar, como elles amte deziam a 
Çaiia bem Çalla. ca tamto que saiitou amtrelles, começou de os ferir 
tam rrijamente, que os fez afastar daquelle lugar omde os batees auiam 
de sayr. E o Iffamte Dom Hamrrique, porque tijnha sua pramcha alguú 

IO pouco afastada da terra, lamçousse demtro em huú batell que passaua 
per hi. e meteo comssigo Esteuam Soarez de Mello e Meem Roiz de 
Refoyos, que era seu alferez. e mamdou que as trombetas fezessem 
rrijamente sinall pêra sahirem todollos outros em terra. E tamto que o 
Iffamte foy na praya, começou a gemte de rrecreçer. e Ruv Gomçalluez 

i5 que sahira primeyro, amdaua ja diamte amtre os mouros, e huíi jemtill 
homem allemam em sua companhia, os quaaes derribaram huú gramde 
mouro, que amtre todollos outros mostraua mayor fortelleza. Alas he 
agora de saber como o Iffamte Duarte * ass}' como uallente caualleiro A,9i,r, i 
sahio de sua gallee, em quamto seu padre amdaua proueemdo a outra 

20 frota, e sse foi pêra aquelle porto, omde o Iffamte Dom Hamrrique 
filhara terra, e Martim Affomsso de Mello e Vaasquo Eannes Corte Reall 
eram açerqua delle, quamdo salltou na pra3'a. ca assy fezeram outros 
mujtos, sse lho elle quisera comsseratir, mais com rreçeo de seu padre 
leixauam de o fazer. E em esto seriam os christaãos ja fora naquella 

25 praya ataa çemto e çimquoemta. e assy começarom muy rrijamente de 
sse meter com os mouros, magoamdoos a meude com suas armas, ataa 
que per força os fezeram meter per a porta dAlmina. E o primeiro 
homem que foy demtro com elles, foi Vaasquo Eannes Corte Reall e desi 
os outros após elle. E himdo assy pelleiamdo com os mouros, açertousse 

3o que o Iffamte Dom Hamrrique conheçeo seu jrmaão. ca posto que o 
Iffamte Duarte auia pedaço que amdaua amtre os mouros, nom emtem- 
daaes que os homeés em semelhamtes lugares, quamto mais seemdo 
armados, sse tam asinha podem conhecer. Empero quamdo o Iffamte 
assy conheçeo seu jrmaão, fezelhe muy gramde mesura, dizemdo que daua 

Í5 mujtas graças ao Senhor Deos por lhe dar tam boõa companhia. E a uos 

senhor, * disse elle, tenho mujto em merçee a boõa uoomtade que teuestes e A,9i,r,2 

2. conde A. — 4. despois A. — 9. Iffante A. — 10. batel A. — 18. assi A. — 21. uaas- 
queãnes A. — 22. quando A — assi A.— 25. atee A. — 28. uaasqueannes A — rreal A. 
— 29. assi A. — 34. assi A — fezelhe A C, fezlhe 1. — 35. boa A. — 36. boa A. 



204 — 

teemdes pera nos uijr ajudar. Nom era aquelle o lugar segumdo o tempo, 
em que sse mujtas pallauras semelhamtes ouuessem de passar, porque 
as lamças e as pedras nom estauam em uaão. E em esto forem assy 
leuamdo os mouros comtra a porta da cidade, ferimdo e matamdo em 
elles ssem alguúa piedade, ca eram ja com os Iffamtes melhoria de ;> 
trezemtos homeés. e ordenaram alli sua batalha com emtemçom despe- 
rarem elRey, segumdo lhe fora mamdado. Nom me parece que he bem, 
disse o Iffamte Duarte, que façamos agora alguúa deteemça, porque estes 
mouros ssom aqui açerqua de nos. e sse os leuarmos assy, poderá seer 
que quamdo elles emtrarem, que emtraremos de uoilta com elles, ou ao lo 
menos forçallos emos tamto, que nom possam fechar a porta, e amtre 
tamto acudira a nossa gemte e emtraremos a seu despeito. O Iffamte 
Dom Hamrrique disse que lhe parecia muy bem. e em esto começarem 
de seguir os mouros, em tamto que os fezeram tirar damtre as cisternas 
e huú chafariz que alli esta, em que sse coaua agua quamdo uijnha de i5 
cima daquelles outeiros. E amtre aquelles mouros amdaua huú mouro 

A,9i,v, I gramde *e crespo todo nuu, que nom trazia outras armas senam pedras, 
mais aquellas que elle lamçaua da maão, nom parecia que sahia senom 
dalguú troom ou colobreta tamto era forçosamente emuiada. E quamdo 
os mouros assy forom empuxados como ja dissemos, aquelle mouro uirou 20 
o rrostro comtra os christaãos e dobrou o corpo, e foy dar huúa tam 
gramde pedrada a Vaasco Martimz dAlbergaria sobre o baçinete, que lhe 
lamçou a cara fora. nem a uista daquelle mouro nom era pouco espam- 
tosa. ca elle auia o corpo todo negro assy como huú coruo, e os demtes 
muy gramdes e aluos, e os beyços muy grossos e rreuolkos. Mais a 25 
Vaasco Martimz nom esqueeçeo de lhe paguar seu trabalho, ca posto que 
aquella pedrada fosse muy gramde e em semelhamte lugar, Vaasco Mar- 
timz nom perdeo o temto, mas ajmda ho mouro nom auia uagar de sse 
uyrar da outra parte, quamdo elle adiamtou seus pees, e correo a lamça 
polias maãos, e passou ho com ella de parte a parte. E tamto que aquelle 3© 
mouro foy morto, loguo todollos outros uiraram as costas, e acolheramsse 

A,9i,v,2 aa cidade, e os christaãos de uoilta com elles. * E sobre a emtrada desta 
porta ha hi mujtas deuisoões, espiçiallmente amtre aquelles que sse acer- 
taram seer alli açerqua. os quaaes com deseio de cobrarem nome de 
homrra, apropriaram a ssy o grado daquella emtrada. e ajmda o peor 35 
foy, que mujtos que estauam ajmda nos nauios disseram em alguúas par- 

2. muytas A. — 3. foram A — assi A. — 7. segundo A. — 10. entremos I. — 11. antre 

A. — 16. outeiros I, outros A. — 20. assi A — foram A. — 22 míz A. — 24. assi A. 

— 26. uaasquo míz A. — 27-28. mlz A. — 20. lança A. — 3o. pellas A — tanto A. — 
32. uolta A. — 36. foy] que foy A. 



— 2o5 

tes, que aquella horarra fora sua. empero a uerdade he, que Vaasco 
Martimz dAlbergaria foi aquelle que emtrou primeiro polias portas da 
cidade, e dizem ajmda que em chegamdo aa porta deu huú gramde 
apupo, e bramdimdo a lamça dizemdo. Ja uaae o da Albergaria. E assy 

5 como elle foy o primeiro que emtrou a cidade, assy fez depois mujtas 
auamteiadas cousas per sua maão, como nobre caualleiro que era. E a 
primeira bamdeira rreall que emtrou em a cidade, foy a do Iffamte Dom 
Hamrrique. e certamente que aquella bamdeira deuera de seer bem 
conhecida amtre toda a nobreza e geeraçom daquelles Marijms. ca muj- 

lo tas uezes foy depois despreguada amtre gramdes ajumtamentos delles, 
omde sse fez gramde mortijmdade amtre os mouros, segumdo adiamte em 
mujtas partes de nossa estoria *emtemdemos de comtar. nem auia hi A,g2, r, i 
outra bamdeira nem estemdarte, sse nom huúa bamdeira de Martim 
Aííbmsso de ]\Ieello, e huú estemdarte de Gill Vaaz. E quamdo os Iftam- 

i5 tes emtraram, emtrarani com elles obra de quinhemtos homeês darmas. 



Como as nouas chegaram a Çalla bem Çalla de como os christaãos 
eram demtro na cidade. Capitullo Lxxiij. 

VENHAMOS agora dizer a maneira que os mouros teueram em leuar 
aquellas nouas a Çalla bem Çalla, e aqui faremos tim de todallas 
cousas, que a elle perteeçem. Omde auerees de saber, que depois 
que aquelles mouros disserem a Çalla bem Çalla, que queriam hir empa- 
char a uijmda dos christaãos aa rribeira, elle mamdou hordenar seus 
mouros per tall guisa, que mujto a meude lhe trouxessem as nouas de 
quallquer cousa que sse passasse pêra seu auisamento. E os primeyros 

25 que cheguarom a elle, forom aquelles que lhe comtarom como os chris- 
taãos tijnham ja a praya filhada, e como mataram huú delles, e feriram 
outros mujtos. E agora disse Çalla bem Çalla, em que pomto ssam ja. 
Sam acerca dAlmina, disse o mouro. E * estamdo assy em estas rrazoÕes, A,92,r,2 
chegarom outros mouros, que disseram como a Almina era filhada, e 

3o nom tam soomente, disseram aquelles, estam os christaãos em este pomto, 
mas trazem os nossos amte ssy como ouelhas, caminho da porta da 
cidade. Parece, disse Çalla bem Çalla, que os nom acham tam ligeiros 
de uemçer, como elles amte deziam. Ca. forom mujto emganados, rres- 
pomdeo o mouro, açerqua daquelle ferro que os christaãos trazem sobre 

2. mlz — 3. grande A. — 4. assi A. — 9. antre A — marljs A. — 10. despois A — 
grandes \. — 11. mortimdade A. — antre A. — 25. foram A. — 28. assi A. — 33. foram A. 



— 2o6 

ssi. ca pemssauam que sse nom podessem com elle aballar. o que he 
mujto pollo comtrairo, porque nom menos salltam e correm, como sse 
amdassem cubertos de papell, sem outra nehuúa cousa. Ora disse Çalla 
bem Çalla, hy e daae auisamento a todos, que cerrem muy bem as portas 
da cidade, e trabalhem muy bem de as deffemder de cima do muro, 5 
quamto poderem. E estamdo assy pêra emuiar aquelles, chegarom outros 
depenamdo suas barbas, e fazemdo gramde doo. Ja disseram elles, nom 
presta nehuú auisamento açerqua dello, que os christaãos sam ja demtro 
na cidade, e sobreueem outros mujtos mais, e matam nos nossos, como 
se fossem caães. E assy como uieram estes, sobrecheguarom outros lo 

A,q2,v, I mujtos mais. que comtarom *aquellas meesmas nouas e outras mujto peo- 
res. ca lhe disseram, como os christaãos se espalhauam ja polias rruas, e 
faziam nos mouros muy gramde mortijmdade. Çalla bem Çalla uirou o 
rrostro pêra outra parte pêra escomder a força das lagrimas, que lhe co- 
rriam dos olhos, e tornamdo comtra elles lhes disse. Pois que a minha i5 
maa uemtura e a uossa assy hordena, que ajamos de perder nossa homrra 
e nossas casas e fazemda, trabalhaae por salluardes nossas uidas o me- 
lhor que poderdes, porque das rriquezas ja me parece que mall uos 
podees aproueitar. E pois que na cidade posestes tam maao rremedio, 
eu nom semto co.mo sse guarde o castello. Os Iftamtes e comde de 20 
Barçellos e os que eram com elles, depois que forom demtro na cidade, 
filharom logo huúa pequena altura que alli esta, per comsselho do IfTamte 
Duarte, e esto era huúa mota que sse alli fezera com as esterqueiras 
das casas, que sse alli per gramde tempo custumara lamçar. e alli este- 
uerara huú pouco esperamdo que rrecreçesse mais gemte, porque ajmda 25 
nom eram com elles mais daquelles quinhemtos que ja dissemos, porque 
a cidade he mujto gramde, e era necessário que sse espalhassem aquelles 

A,92,v,2 per ella. e poderia * seer que nom uijmriam outros tam asinha, que pode- 
ssem empachar os mouros, que nom çarrassem as portas. Mas a tardamça 
nora foy muy gramde. ca a gemte da frota nom punha uagar em sua 3o 
sabida, e em breue tempo sse jumtarom alli outros mujtos. E Vaasco 
Fernamdez dAtayde nom sse teue por comtemte demtrar por aquella 
porta, por omde os Iffamtes emtraram. e apartousse com alguijs seus, e 
assy com outros alguús de pee de Gomçallo Vaaz Coutinho seu tio. e 
foisse per acaram do muro da parte de fora a huúa outra porta, que estaua 35 
acima daquella, e começou de a britar, em esto cheguaromsse outros 

2. saltam A. — 6. assi A — chegaram A. — 8. dentro A. — 9. muytos A. — 14. rrosto 
A — esconder A. — 16. assi A. — 21. foram A. — 3o. nom 1.°] no A — grande A— 
32. contemte A. — 34. assi A. — 35. outra] na margem A. 



207 — 

alguús que uijnham de fora, e a força de machados e de fogo forom 
aquellas portas de todo britadas. Mais esto nom foy ligeiramente aca- 
bado, ca primeiramente morreram alli sete ou oito homeés daquelles, que 
nom eram tam bem armados, ca os mouros eram ajmda mujtos sobre os 

5 muros, e rrecreçiam pêra alli cada uez mujto mais, porque pemssauam 
deftemder a emtrada aos christaãos com a força das pedras e armas, que 
lamçauam de cima. e empero esto era gramde emgano, que elles tijnham. 
ca posto que as suas portas esteueram fechadas, abastamte era a forte- 
lleza dos christaãos pêra as abrirem,* assy como Vaasco Fernamdez A,93,r, i 

IO aquella. e empero elle foy ferido, por cuja rrazom lhe comueo estar alli, 
ataa que foy emtrada. Gramde maa uemtura diz o autor, que foy 
aquelle dia açerqua da morte de tam boom homem, ca por certo elle 
era huú fidallgo, em que auia mujtas bomdades. e assy era mujto amado 
delRey e de todos seus filhos, e espiçiallmente do Iftamte Dom Hamrri- 

i5 que com que elle uiuia. e como elle fez sua fim, fallaremos em outro lugar. 



Como os Iffamtes partiram dally, e das rraioóes que lhe Joham 

Affomsso iieedor dafa{emda disse quamdo chegou a elles. 

Capiíullo Lxxiiij. 

CHRisTO Jesu nosso Senhor foi aquelle, a quem dereitamente pode- 
remos dar a homrra deste feito, empero nom ficam os homeés 
que em elle trabalharam sem muy gramde parte da homrra. 
amtre os quaaes Joham Affomsso ueedor da fazemda merece a sua parte, 
por seer por elle mouida huúa tam samta e tam homrrada cousa. E assy 
tijnha elle muy gramde prazer, quamdo lhe disseram que a cidade era 

25 emtrada. nom porem que elle fosse achado ao tempo que lhe deram estas 
nouas dormimdo, amte era ja na praya, e começaua de seguir o caminho 
* dos primeiros. E quamdo chegou aaquella pequena altura, omde estauam 
os Iffamtes, alleuamtou sua cara e disselhes. Senhores, pareçeuos que A,93,r, 
ssom estas assaz de homrradas festas pêra o dia da uossa cauallaria. 

3o melhor me parece, que uos uejo ora omde estaaes, ca de uos ueer nas 
logeas frias de Simtra, proueemdo os assemtamentos do rregno. E em 
passamdo assy estas cousas, nom çessaua a gemte darmas de cheguar 
cada uez mujto mais. E porque Gomçallo Vaaz Coutinho fallamdo per 
alguúas uezes naquella armada dissera, que lhe pesaua mujto, porque a 

I. foram A. — o. assi A — Vaasquo A. — i3. assi A. — i5. luguar A. — 17. affõm A. 
— 19. Xpõ Jhú A. — 20. a I, om A. — 23. mouido A — assi A. — 25. elle] em elle A. 



— 20S — 

homrra daquelle dia seria toda dos homeés de pee, por rrezam das poucas 
armas que leuauam, e que seriam mais desemuoUtos que os homeés dar- 
mas. a quall pallaura nora esqueeçeo ao Iffamte Duarte, o quall quamdo 
assy uio aquelles homeés darmas seguir auamte tam desemuoUtamente, 
disse comtra o Iffamte Dom Hamrrique. Pareçeme jrmaão, que nom he 5 
oje a homrra toda dos homeés de pee, como dezia Gomçallo Vaaz. E 
porque a gemte era ja mujta, mamdou o Iffamte Dom Hamrrique per 
rrequerimento de seu jrmaão, que sse rrepartissem cada huús per suas 

A,93,v. I partes .s. o comde Dom Aff"omso per huúa rrua*, e a sua bamdeira com 

parte daquella gemte per outra, e Martim Affbmsso de Meelio per outra. 10 
E disse o Iffamte Duarte, que era bem que elles ambos se fossem per 
açerqua daquelle muro a filhar todallas altezas, que sse podessem achar, 
porque os mouros nom teuessem lugar de sse acolherem a ellas primeira- 
mente. E jmdo assy, porque o soll era muy gramde e aquella costa 
áspera de sobir, tirou o Iffamte Duarte parte das suas armas, porque i5 
semtio que era trabalho sobeio de as trager, ueemdo como os mouros ja 
leuauam caminho de desempachar a cidade. Mais o Iffamte Dom Ham- 
rrique, porque hia ajmda todo armado, nom o podia seguir, por cuja rrezam 
o seu jrmaão esperou duas uezes, ataa que lhe foi necessário tirar a 
mayor parte de suas armas, de guisa que nom ficou senom com huúa 20 
soo cota. Mais porque falíamos nas rrezoões, que os escudeyros do 
Iffamte Dom Hamrrique disseram a seu senhor, quamdo uijnha da pomta 
do Carneiro, e na rreposta que lhes elle deu, prazeruos ha de saberdes 
a comclusom que ouueram por ememda de seu fallamento. E foy, que 

A,93,v,2 quamdo elles uijram ao Iffamte no batell, nembramdosse * do que lhes elle 25 
dissera, acreçemtaram mujto mais sua trigamça, comsijramdo como todos 
nom podiam caber na pramcha, quiseram arremedar ho Iffamte lamçam- 
dosse em huú batell, forom tamtos jumtamentc, que os nom pode soportar, 
e allagousse com elles. mas prouue a Deos, que pêro alli fosse a agua 
d altura de huúa lamça darmas, e elles assy fossem todos armados, nehuú 3o 
delles nom falleçeo. E foy ajmda mujto mayor marauilha, porque a 
Duarte Pereyra, que era huú daquelles, cahio huú cuyteilo que leuaua do 
Iffamte, e nembramdosse delle depois que foy fora, oolhou comtra o 
peego da agua e uio jazer, por quamto a agua he alli mujto clara, e 
tornou outra uez por elle, assy armado como estaua. Mais as cotas dar- 35 
mas e prumoões de cada huú que leuauam aa sua maneira, perderam alli 

4. assi A. — 8. requirimento A. — 9. húa A. — i3. colherem A, acolherem 1. — 
14. assi A. — 17. desempachar I, despachar A. — 18. rrazam A. — 21. mães A. — 
2S. foram A. — 3o. lança A — assi A. — 3). foi A. — 33. despois A. 



— 2og — 

toda sua fremosura. ca bem deuees demtemder cousas de taaes iauores, 
como sse corregeriam em semelhamte lugar. E empero em alguúa cousa 
lhes prestou aquelle allagamento, ca lhes deu ajuda pêra soportarem a 
força da quemtura. 



5 Cotiio o Iffamte Duarte foi filhar a altura do Cesto, e o Iffamte tor- 
nou aa rrua dereita. Capitullo Lxxi>. 

EM aquelle lugar omde o IfFamte tirou suas armas, aquelles escudei- A,Q4,r, i 
ros de que ja falíamos, os quaaes sse per o ssoom das suas palla- 
uras nom fossem conhecidos, camta por suas deuisas nem cotas 

10 darmas pequeno conhecimento delles podia auer. e sse dizem que os 
homeés numca melhor pelleiam, que quamdo sam acesos em sanha, 
aquelles em aquella ora deueram de pelleiar auamteiadamente, que assaz 
de sanha hia com elles, assy polia primeira menemcoria, como pollo 
segumdo aqueeçimento, de que elles nom leuauam pequeno semtido. E 

i5 o Iffamte depois que assy tirou suas armas, ficou com huúa soo cota, e 
trigousse mujto por alcamçar seu jrmaão, e seguio tamto ataa que chegou 
a elle aa fim da primeira alteza. E tornamdosse dalli o Iffamte Duarte 
em salltamdo huúas paredes, foy necessário de sse partirem cada huú 
pêra sua parte, porque o lifamte Dom Hamrrique pemssou, que pois 

20 aquella alteza era filhada, que seu jrmaão tornasse pêra fumdo. e com 
tall emtemçom tomou aquelle caminho. Mais o Iffamte Duarte foi assy 
filhamdo todallas altezas, ataa que chegou aa fim da mayor, omde sse 
chamaua o Cesto. E* nom cuydees que a passagem destes lugares era A,94,r,2 
sem alguíi trabalho, que a cidade per todas partes era chea de mouros, e 

25 nom podiam os homeés amdar per nehuúa parte, que nom achassem 
alguús. mais nom podia o Iffamte Duarte emcomtrar com tamtos, que 
nom deseiasse ajmda mujtos mais. porque aquella uista auia mujtos 
dias, que elle deseiaua. E mujtas cousas se poderam dizer acerca de 
sua ardideza, as quaaes comtadas per sua dereita fegura em quallquer 

3o outro homem por gramde e boom que fosse, poderiam seer comtadas 
por gramdes. mais o Iffamte nom quis delias fazer gramde comta, 
porque era mujto aaquem do que elle deseiaua. Empero posto que 
alguús boós homeés com elle fossem, ca toda a força da sua jemte 
ficaua ajmda na frota, os quaaes depois ueeram com a sua bamdeira. a 

i3. assi A. — i5. assi A — com I, em A. — 17. Iffante A. — 19. Iffante A. — 20. sseu A. 
— 21. assi A. — 22. atee A. — 26. tantos A. — 32. porque era A, por serem I. — 34. des- 
pois A. 
37 



2IO 

sua espada era a primeyra que feria em quallquer lugar, que sse açer- 
taua de seer necessário, assy como teemdes ouuydo, que foy primeira- 
mente filhada a praya e desi a Almina e depois a cidade. Porque todo- 
llos da frota delRey esperauam que ouuessem de sahir per outra horde- 
A,94,v, I namça, segumdo era hordenado, nom estauam tam * prestes, como sse o b 
caso ofFereçeo. Mais depois que uiram, como todollos da frota do Iffamte 
Dom Hamrrique sayam com tamanha trigamça, e como depois que emtra- 
uam a Almina, nom tornaua mais nehuú. e uijam jsso meesmo, como 
os mouros que estauam no muro. corriam todos pêra a porta, semtiram 
que toda a força do feito estaua em aquelle lugar. E porque elRey lo 
amdaua ajmda pollos nauios, ca a frota era mu}' gramde, e elle auia de 
failar com mujtos. mamdou o Iffamte Dom Pedro e huú seu ueedor, que 
chamauam Dieguo Gomçalluez de Trauaços, que fossem em huú batell 
dizer ao Iffamte Duarte, se lhe parecia bem de filharem terra, pois que o 
Iffamte Dom Hamrrique seu jrmaão ja era na Almina, e estaua açerqua i5 

B, U2,v, I das portas, segumdo lhe parecia* no sair da gente que saya da sua frota. 
Mas quando Diogo Gonçaluez chegou com o rrecado. como o Iffante 

B, ii2,v,2 Duarte ja era fora. mandou elle Diogo de Seabra, que * era seu alferez 
que posesse a bandeira no seu batel, e mandou fazer sinal com as trom- 
betas a todollos outros nauios, que se fezessem trigosamenie prestes. E 20 
estando pêra jr falar a elRey seu padre, chegaram alguús daquelles 
senhores, que vinham buscar elRey. o qual se acertou logo de chegar 
alij com entençam de dizer ao Iffante, que saisse o mais trigosamente que 
podesse, pêra filharem terra elle e todollos da frota. A bom tempo, disse- 
rom alguús daquelles fidalgos, podemos nos ja jr pêra leuarmos daqui 25 
honrra nem nome, que nos muito preste, quando a cidade he ja entrada. 
E entam contaram a elRey o grande arroido que ouuiam dentro, como 
lhe parecia que aas vezes ouuiam o soom das trombetas. Por certo, 
disserom elles, bem auenturados forem aquelles que se acertaram de 
seer em aquelle ajuntamento, ca de toda a honrra deste feito leuam elles 3o 
a milhor parte. E em esto chegaram as nouas em certo, como a cidade 
era entrada, e os Iffantes e conde de Barçellos andauam dentro espalha- 

B, 112, r, 1 dos cada hum por sua parte. Na sua * lediçe nom fallo. ca posto que elle 
na sua vontade teuesse tamanha como era rrezam. nam a demostrou 
muito em sua contenença. ca este era seu geito em todallas cousas nun- 35 
qua amostrar contenença allegre, por grande bem auenturança que lhe 

2. assi A. — 4. delRej. — ^11. pellos A. — 14. Iffante A — pareceria C. — 18. jaa B. — 
21. estando] add. o Infante Dom Pedro, I. — 22. chegar C, achegar A D. — 25. daque- 
les B. — 26. quando B, pois I. — 3o. elles leuam C — leuão B. — 32. era] add. ja D. — 
33. huú B — sua lediçe B, ledice delRey I. — 34. não B. — 35. seu] ho seu D. 



211 

viesse, nem jsso mesmo tristeza pollo contrairo. mas começou de se 
rrijr contra os outros, quando soube a maneira que o Iffante Duarte 
teuera em se esconder delle, pêra jr com seu jrmaão em aquella dianteira. 
Parece, disse elle, que meu filho nam quis esperar, porque entendeo que 
por azo de minha velhice sairia mais tarde, ou seria mais pesado que elle 
pêra saltar, e quis hijr com seu jrmaão, porque lhe sentio a vontade mais 
acesa que ha minha. Mas dou muitas graças a Deos, porque lhe mos- 
trou tam asinha a fim do seu desejo. 



Co7Jio elRey e o Iffante Dom Pedro com todollos outros daqiiella B, ii3,v,2 
10 frota filharam terra, e como Gonçallo Lourenço de Gomidefoy caiia- 
leiro chegando aa porta da cidade. Capitullo Lxxij. 

NAM era pequena trigança a que tinham todos aquelles, que estauam 
pêra sairem em terra, e sabey que enueja e cobiça nam era muy 
longe da mayor parte daquelles, porque os fidalgos e gentijs 

i5 homeés deseiauam de seer na companhia daquelles, que entraram primeiro 
na cidade, aos quaaes parecia que o agradecimento daquellas cousas, 
em que elles mais trabalhassem, todo seria nenhum, pois que elles nam 
forom naquella dianteira, ca elles nam contauam nenhuúa outra cousa por 
grande, senom aquella entrada, que os primeiros fezeram na cidade, e os 

20 outros do pouo auiam em sy muy grande despeito polia cobiça, que lhe 
em sy traziam da rriqueza, a que pensauam que os outros tinham, e 
deziam em suas vontades, que todo seu trabalho fora despeso em vão. 
porque elles auiam* de ficar sem parte de tamanha rriqueza, como elles A,96,r,i 
crijam que auia em aquella cidade. Amigos deziam elles, forom la 

25 mujto em boa ora aquestes, que uieram em companhia do Iffamte Dom 
Hamrrique na frota do Porto, ca toda a homrra e proueito desta demamda 
fica com elles. empero assv trabalhamos nos, e despemdemos como cada 
huú. elles apanharom ho ouro e a prata e toda a outra rriqueza, e nos 
chegaremos ao esbulho dos almadraques uelhos e das outras cousas de 

3o semelhamte uallia. E assy sahiram todos cada huú como milhor podia, 
ataa que elRey chegou aa porta da cidade, homde fez sua deteemça, assy 
por rrezam da perna que tijnha ferida, como por emtemder que a seu 

5-6. pêra saltar que elle D. — -. dou D I, deu BC. — lo. Gomide D I, Gouue de B C. 
12. estauam] add. na frota delRey D. — i3. eram D. — i6. na] dentro na D — o I, ao B, 
ho CD — de aquellas B. — 17. nenhú B. — 20. lhe] oní D. — 21. a que] que D — tinham] 
add. cobrada D. — 22. dezvam B — 24. foram A. — 27. assi A — come A. — 3o. assi A. 
— 3i. assi A. 



— 212 — 

estado nom comuijnha partir dalli, ssenam ao combate do castello, uisto 
como a cidade ja estaua em tall pomto. E todoUos outros se espalharam 
polias partes da cidade .s. a bamdeira do Iffamte Duarte com todollos 
seus per huúa parte, e o Iftamte Dom Pedro com sua gemte per outra. 
e o comdestabre e o meestre de Christo e assy todollos outros capitaães 5 
cada huú omde os a uemtura leuaua. empero cada huú delles tijnha assaz 
de trabalho, porque todallas rruas ajmda amdauam cheas de mouros. 

A,96,r, 2 *E Ruy de Sousa, que era sobrinho do meestre de Christo e padre de 
Gomçallo Roiz de Sousa, que foy capitam dos genetes destes rregnos, 
queremdo fazer auamtagem leuou os mouros per huija rrua, homde rre- lo 
creçeram tamtos que o çercarom em huúa torre, homde oje em dia 
chamam o postigo de Ruy de Sousa, e alli ardidamente se deffemdeo, 
ataa que foy socorrido. Nuno Martijmz da Sillueyra, filho de Martim 
Gill Pestana, que foy da linhagem daquelles, que primeyramente fum- 
daram a cidade dEuora, foy em aquelle dia bem conhecido amtre i5 
todollos do Iffamte Duarte, porque assy como lhe Deos dera gram- 
deza na forma do corpo, assy tijnha espiçiall força pêra soportar gram- 
des trabalhos segumdo pareçeo em aquelle dia. ca fez tamto per ssi, per 
que mereçeo seer huú daquelles, que o Iffamte Duarte fez caualleiros no 
domimgo seguimte, e lhe fez depois mujta merçee e acreçemtamento, 20 
segumdo em nossa estoria adiamte será comtado. Doutros mujtos boós 
poderia fallar, se quisesse alargar meu processo, mas leixo todo por me 
chegar aas primçipaaes cousas. Quamdo elRey estaua asseemtado aa 

A,96,v, I porta da cidade, chegou alli Gomçallo Louremço de Gomide * seu escpri- 

uam da puridade, acompanhado de quatroçemtos homeés todos de sua 25 
liuree, e a mayor parte delles de sua criaçom. e disse a elRey. Senhor 
assy em guallardom do seruiço que uos tenho feito, e por acreçemtardes 
em mym e em minha homrra, uos peço por merçee que aqui me façaaes 
caualleiro. Da quall cousa elRey disse, que era muy ledo. E assy fez 
alli elRey Gomçallo Louremço caualleyro, como dito he. 3o 



5. condestabre A — xpõs A — assi A. — 7. todollas A. — 8. xpõs A. — 1 3. martijz A. 
16. assi A. — 17. assi A. — 17-18. grandes A. — 27 assi A. — 28. mynha A. — 29. caua- 
leyro A. 



2l3 



Do gramde trafego que anta na cidade, e da maneira que os mouros 
tijnliam em seu defemdimento. Capiíullo Lxxvij. 

BEM podees comsijrar quall seria o trabalho de huús e dos outros, 
depois que a fazemda esteuesse em tall estado, amtre os quaaes 
era huú arroydo tam gramde, que mujtos deziam ao depois que o 
ouuiam em Giballtar. e mujtas cousas notauees se passaram em aquelle 
dia no rreuolluimeiito daquelie feito, que forom bem dignas de memoria, 
se cheguaram a nosso conhecimento. Ca boom he de comssijrar, que homde 
era tamta boõa gemte deseiosa de bem fazer, que sse nom passariam cou- 

10 sas senam gramdes e boõas, quamto mais pareçemdo o signal tam mani- 
festo, como era a gramde mortijmdade dos mouros, que foy* em aquelle A,96,v,2 
dia. Mas deuees de saber, que duas cousas ouue alli, per que a boom- 
dade de todos nom foy tam perfeitamente conhecida como deuera. A 
primeira e a primçipall foy por seer aquella pelleia demtro na cidade, 

• 3 quamto mais ajmda seemdo as rruas tam estreitas como eram, cuja 
estreytura nom comssemtia em ssi senam muy poucos, ca sse aquella 
pelleia fora em campo ou em alguúa praça larga, mujto mayor fora o seu 
nome. E a segumda cousa foy a tardamça que sse pos em escpreuer 
o acomteçimento deste feito, porque como ja disse no prollogo desta 

20 estoria, a mayor parte de todollos boõs eram ja finados, ca a outra gemte 
do pouoo nom trazia em aquelle dia o cuydado senam em rroubar, do que 
achauam bem assaz pêra fartar suas cobijças. E era este huii caso muy 
perijgoso, por quamto as casas tijnham as portas baixas e estreitas, e 
eram feitas segumdo hordenamça dos mouros, e os homeês com aquelle 

25 açemdimento da cobijça que traziam, emtrauam sem nehuú rresguardo, e 
mujtos daquelles mouros jaziam em suas casas mostramdo huúa desaui- 
sada perfia, a quall era a morte que poderam escusar, e a tomauam de 
certa sabedoria dizemdo amtre ssi. Pois que a * minha maa ucmtura foi A,r47.r. i 
tamta, per que uisse a ora de tamanho mall, aqui quero morrer em esta 

3o casa, em que morreram meus padres e auoos. E assy amdauam os mez- 
quinhos per meo daquellas casas, em quamto nom chegaua a sua derra- 
deira ora. e esguardauam com mortall fememça na fremosura das cousas 
que seus padres ou auoos em ellas fezeram. E quamto a esperamça era 
mais certa da sua perdiçam, tamto lhe. pareciam aquellas cousas mais 

35 nobres, porque o deseio naturailmente he sempre da cousa que mais dcs- 

5. orroydo A. —7. foram A. — 9. boa gente A. — 10. boas A. — 32. esgardauam A. 

lllMnrrt A. 



33. quanto A 



— 214 — 

falleçe. e quamdo as assy oolhauam, punham os olhos hirtos em ellas, e 
dauam muy gramdcs gimidos nembramdosse da sua fim. Aa samto pro- 
feta deziam elles, e quall he ho outro, em que nos tu as de dar polia fiell- 
dade que guardamos em tua lej', se nos tu desemparas na ora de tama- 
nho mester. E taaes hi auia, que nom auiam uagar dacabar este pemssa- 5 
mento, quamdo ja semtiam os jmmijgos. com aquella lastima tamanha 
metiamsse de trás das portas pêra matarem os jmmijgos, quamdo quisessem 
emtrar. mas esto nom lhes aproueitaua mujto, ca achauam os christaãos 
A,97,r,2 armados, e assy ligeiramente nom lhe podiam empeeçer. *E com esto 

numca sse açertaua em semelliamtes lugares, que huú soo emtrasse, que lo 
loguo nom achasse outros alguús açerqua de ssi. e era a magoa daquelles 
mouros tamanha, que sem arma nem ferro se lamçauam aos christaãos. 
e nom auia hi tall nem tam desesperado, nem por gramde multidom que 
uisse, que nom mostrasse sinall de deífemssom. e ja jaziam temdidos na 
terra, e os spiritos quasi fora dos corpos, e ajmda mouiam seus braços i5 
pêra huúa parte e pêra a outra, como quem deseiaua cortar alguúa 
cousa. E alguQs daquelles mouros tomauam suas rriquezas, e as allaga- 
uam nos poços, ou as soterrauam nos camtos das suas casas, maginamdo 
que posto que por emtam perdessem sua cidade, que a tornariam ajmda 
a rrecobrar, homde lhe aproueitariam aquellas cousas, que assy guar- 20 
dauam. 



Como o Iffamte Dom Hamrriqiie tornou aa mia dereita, e das cou- 
sas que allifei. Capihillo Lxxviij. 



D 



issEMOs nos outros capitulios, como o Iffamte Dom Hamrrique 
presumio que seu jrmaão era em outra alguúa parte, e porem «5 
deçeosse comtra a rrua dereita pêra hir atemtar a fortelleza do 
A,97,v,i castello. ca de todallas * outras cousas da cidade nom fazia ja nehuúa 
comta, pollo uemçimento em que os mouros amdauam. e menos era seu 
deseio comtemte de nehuúa boõa dita, que naquelle feito ouuesse, nom por- 
que elle bem nom conhecesse a gramdeza da uitoria. mas por quamto 3o 
sse ouuera com tam pequeno trabalho. Ca certo he que aquella cousa 
he de nos mais amada e prezada, cujo senhorio per gramde trabalho 
cobramos, e por tamto diz o filosofo no liuro da yconomica, que os 

I. assi A. — 2. muj A — gimedos A — lembramdosse A. — 3. e quall he ho outro, 
em que nos tu as de dar A, e que he o que nos has de dar I. — 9. assi A. — i5. spiri- 
tus A. — 29. boa A. — 32. grande A. — 33. tanto A — yconymica A, económica I. 



— 2l5 — 

mancebos desprezam as rriquezas, porque as cobraram ligeiramente, e 
por tamto naturallmente som liberaaes e gastadores, o que os uelhos ssom 
pollo comtraiio. E porem fimge aqui o autor, que dezia o Iftamte amtre 
ssi meesmo. Que me prestou a mym seer o primeiro capitam, que elRey 

5 meu senhor e padre mamdou que filhasse terra, pois com tam pouco 
trabalho auia dauer a minha uitoria, ou que gloria poderey teer no dia 
da minha cauallaria, sse a minha espada nom for molhada no samgue 
dos jmfiees. E jmdo assy em este pemssamento, chegou aa rrua dereita, 
polia quall seguimdo huíí pequeno espaço chegaram a elle mujtos chris- 

10 taãos, os * quaaes segumdo justa stimaçom seriam ataa quinhemtos, que A,q7,v,2 
uijnham fogimdo amte os mouros, e uemdoos ho lífamte çarrou a cara do 
baçinete, e embraçou huú escudo que trazia, e leixou passar per ssi 
todoUos christaãos, ataa que cheguarom os mouros, os quaaes mujto asinha 
conheçerom os seus goUpes amtre todoUos outros, ca assy os cometeo 

i5 rrijamente, que os fez per força uirar as espadoas. pêra homde amte tra- 
ziam os rrostos. E os christaãos tamto que conheceram o Iffamte, cobra- 
rem esforço, e fezerom outra uez a uollta sobre os mouros, e começarom de 
o seguir, ataa que cheguaram com elles a huúas casas, homde descarrega- 
uam as mercadorias, que uijnham de fora. e ajmda pousauam alli Genoeses, 

20 e chamauasse a aduana, e ajmda sse agora chama, as quaaes casas tijnham 
huúa porta barreyrada daquella parte dAlmina. E quamdo alli chegua- 
ram os mouros, ou por auerem outros de nouo em sua ajuda, ou por sem- 
tirem que os christaãos nom traziam tamanho esforço como da primeira, 
uolltaram outra uez os rrostos sobrelles. e fezeromlhe uirar as costas 

25 com mujto mayor força * que da primeira, e trazemdoos amte ssy, toparom A, 98, r, i 
outra uez com o Iftamte, o quall aaquelle tempo era de hidade de uijmte e 
huú annos. e auia os nembros grossos e fortes, e coraçom nom lhe falle- 
çia nem pomto pêra lhe fazer soportar os trabalhos. E quamdo assy uio 
outra uez os christaãos desbaratados, dobrousselhe a sanha, e salltou outra 

3o uez amtre elles, e tam fortemente os cometeo, que os fez desborralhar 
pêra huúa parte e pêra a outra, mas os christaãos traziam comssigo 
tamanho temor, que a mayor parte delles passaram per o Iffamte ssem 
auer dellc nehuú conhecimento, e nom tornaram mais atras. E os outros 
que ficarom, salltaram com o Iffamte no meo daquella pressa, e rreuoll- 

35 ueram o feito per tall guisa, que alguús dos mouros cahiram alli, e os 
outros nom poderam soportar a fortelleza. daquelles gollpes, e uolltaram 

5. mandou A. — 7. sangue A. — 8. assi A. — 14. assi A — i3. ante A. — ui. Jenoe- 
ses A. — 25. ante A. — íô. com] co A. — 28. assi A. — 3o. desborralhar A, esborralhar I. 
— 34. com] CO A. 



— 2 1 6 — 

as espadoas, por cuja rrezam rreçeberam mujto mayor dano. Mas ho 
lííamte nom os quis leixar assy como fezerom da primeira, amte os seguio 
leuamdoos amte ssi ataa que cheguaram aa sombra dos muros do cas- 
tello. Mas aquella passagem se podia bem conhecer per o rrastro dos 
A,98,r,2 mouros, que jaziam mortos na rrua. ca em breue espaço* tijnham compa- 5 
nhia huús aos outros. E assy o deziam elles em seus braados, quamdo 
fallauam aos deamteyros, que sse aballassem rrijamente, ca os seus 
paremtes e jrmaãos nom podiam soportar tamanho dano. E esto era 
porque aquella rrua era aaquelle tempo estreita, e os mouros eram muj- 
tos, e rrecreçiam cada uez mujtos mais, de guisa que os christaãos pri- lo 
meiíos e os mouros derradeiros nom podiam pelleiar senom muy poucos, 
dos quaaes o deamteiro foy sempre o lííamte, cujos gollpes eram bem 
conhecidos amtre todollos outros. E assy forom os mouros rrecolhem- 
dosse os que podiam, ataa que cheguaram aa sombra dos muros, homde 
rreçeberam alguú acorro, por que sse ajumtam alli três muros .s. o muro i5 
do castello, e huíi muro de Barbaçote. e o outro muro que departe as 
uillas ambas. 



Como o Iffamte pelleiou alli iniiy gramde pedaço, e como Fernam 
Chamorro foy derribado. Capitullo Lxxix. 



K 



LI amtre aquelles muros pemssaram os mouros de rrecobrar suas zo 
forças, e assy pararam os rrostos dereitamente comtra os jmmijgos, 
atreuemdosse na estreitura do lugar e na multidom dos mouros 
A,98,v, I que * estauam sobre os muros, a quall cousa nom era sem rrezam, que 
elles cuidassem, porque o lugar he assy aazado, que por poucos que em 
cima esteuessem, fariam gramde dano nos outros de fumdo, ou per força ^b 
sse tornariam pêra trás. e pêra ajmda elles teerem mayor esforço, uijam o 
pequeno numero dos christaãos que estauam com ho Iffamte, o quall os 
fazia teer esperamça de sse uimgarem alli do dano de seus amigos e 
paremtes. ca de quamtos primeiramente abaliaram com o Iffamte, quamdo 
partio da aduana, nom eram alli com elle mais que dez e sete, porque os 3o 
outros poucos e poucos sse partiram cada huús pêra sua parte, ca huús 
riraua a cobijça do rroubo, a outros a gramde sede que auiam, porque 
toda sua uiamda era sallgada, e a gramde força do soll secaualhes as 
humidades dos corpos, e faziaos mujto a meude buscar os poços, homde 
sse nom podiam auer fartos dagua. outros auiam as compreissoões molles 35 

2 assi A. — 6. assi A. — i3. antre A — assi A — foram A. — 21. assi A. — 23. rra- 
zam A. — 29. com] co A. 



217 — 

e dellicadas, e nom podiam sosteer lomgamente a força do trabalho, e 
tirauamsse a fora. E assy com aquelles dez e sete sosteue o Iffamte sua 
peHeia, melhoria de duas oras e mea. e em estes cometimentos cahiam 
aas uezes aiguijs daquelles mouros em terra, e deram huQa *tam gramde A,98,v,2 
5 ferida a huú escudeiro do IlTamte, que sse chamaua Fernam Chamorro, o 
quall sem nehuíi acordo cahio em terra temdido, sem teer nehuíía seme- 
Ihamça de uida, e os mouros se trigaram mujto pêra o filhar, e o 
Iffamte e aquelles que com elle estauam, nom lho queriam comssemtir. e 
sobre a deffemssom e filhada daquelle escudeiro durou a comtemda muy 

jo gramde pedaço, ataa que o Iffamte deu huúa sahida gramde, a quall os 
mouros nom quiseram esperar, e começamdo de sse rretraer, forom assy 
fortemente seguidos, que lhes comueo per força leixar toda aquella rrua, 
e meteramsse per aquella porta, que uay pêra a outra uilla, e o Iffamte 
de uoUta com elles. Mas daquellas dez e sete que primeiramente o acom- 

i5 panhauam, nom seguiram mais de quatro .s. Aluoro Fernamdez Mazqua- 
renhas, que depois foy senhor de Carualho, e Vaasco Esteuez Godinho, e 
Gomez Diaz de Góes naturall dAlamquer. os quaaes todos três uiuiam 
com ho Iffamte. e o quarto era huíj escudeiro delRey, que sse chamaua 
Fernam dAlluarez. e por seer homem que deseiaua seruir o Iffamte, sse 

20 acertou alli com elle. e assy comtinuou em todo aquellc feito, e bem he 

uerdade, que o seu deseio era boom pêra seruiço daquelle senhor. *mas A,99, r, i 
a uoomtade do Iffamte nom foy menos, pêra lhe ao diamte dar ho guallar- 
dom. Dos outros nom digo, porque eram seus, e uiuiam com elle, e 
geerallmente tijnha maneyra de os comgallardoar. nom era o seruiço 

25 daquestes pêra teer em pequeno stimo. e de dous destes, que eu conheci, 
posso dar certo testimunho, que forom bem alloiados e paguados de seu 
seruiço. Mas quem auia de cuydar que o Iff'amte nem nehuú daquelles 
quatro que com elle forom, podesse escapar daquelle feito uiuo. porque sobre 
aquella porta esta o muro, que he grosso e forte, no quall estam duas 

3o hordeés dameas, de guisa que damballas partes he deffemssauell. e esta 
ajmda hi mais huúa torre com huúa abobeda furada em certos lugares, e 
daquella torre saae a segumda porta feita em uoUta. e assy uaão per 
amtre aquelle muro e a barreira, ataa que cheguam aa terceira porta. 
Ora que seria, ca os mouros que elles leixauam amte ssi eram mujtos, e 

35 os muros esso meesmo estauam cheos, cujo cujdado nom era outro se- 
nom empeeçer aaquelles christaãos, homde elles podiam chegar com suas 

2. assi A. — IO. grande A. — ii. foram assi A. — 14. dezasete A — o I, om A. — 
17. de Góes naturall dalanquer] na margem A. — 26 foram A. — 27 nem I, om A. — 
28. foram A. — 3 1 . luguares A. — 32. assi A — 35. cheos] add delles I. 
18 



A,92,r,2 armas, e quamdo semtiram que os jmmijgos hiam de uollta * com os seus, 
poseromsse sobre os buracos da abobeda, por tall que cora as pedras que 
lamçassem de cima, podessem empachar aquella passagem aos christaãos, 
quamdo quisessem passar per de furado. Mas quis Deos que o seu deseio 
nom ouue aquella emxecuçam, que elles com tara boõa uoomtade quise- 5 
ram. e a despeito de toda sua força passou o lífamte aalem com aquelles 
mouros que leuaua amte ssi. empero presumem alguijs, que por os 
christaãos seerem tara poucos e os mouros tamtos, rreçeauam os de cima 
de lhe lamçarem as pedras, por nom empeeçerem aos seus meesmos. 
ca nom sabiam, que posto ouuessem de teer sobre tara pequeno numero, lo 
Assy forom aquelles mouros todos empuxados, ataa que passaram a ter- 
çe3^ra porta, mas aquella passagem nom foi sem gramde trabalho dos 
christaãos e dano dos jmfiees. ca parte delles jaziam per aquelle caminho, 
cuja morte os outros de cima do muro chorauam com gramde semti- 
mento. Aa deziam elles, foaão, nomeamdo per seu nome cada huú, i5 
ajmda oje o teu coraçom estaua afastado de tamanho cu3'dado. Por 
certo nom he este pequeno synall, quamdo o poderio de çimquo homeés 

A,99,v, I soomente teue esforço e ardideza dempuxar tamanha multidom* com 
tamanho dano e estrago do seu samgue. e sse quer ao menos nom fora 
a nossa fortuna tam sobramçeira, e uiramos alguú daquelles christaãos 20 
jazer na companhia dos nossos, porque uimgados do seu samgue pode- 
ramos abramdar nossa tristeza. Bem parece que Mafamede, o nosso 
samto profeta, quer pouoar de nossas almas outra cidade no outro 
mundo. Ja daqui auamte nom auera hi esforço nem comsselho amtre 
nehuús dos nossos çidadaãos, pois que a froll de nossa mamçebia he par- zS 
tida damtre nos. Bem auemturados sooes uos outros, que ja nom semtijs 
das cousas deste mundo alguúa parte, cujas almas por o marteiro de 
uossas carnes uiuem agora satisfeitas dos eternaaes prazeres, que nos 
amtijgamente forom prometidos pollo uerbo de Deos padre, que he o 
nosso profeta Mafamede. Mas de nos he dauer piedade, que estamos 3o 
ajmda uestidos de humanall conhecimento, e semtimos com tamta door 
ho espargimento de nosso samgue. e o que mais he, que nom sabemos 
ajmda quall será o lugar de nossa queeda, ou com quaaes tormentos 
faremos fim de nossa uida. 



I. jmijgos A— uolta A. — 5. boa A.— 11 assi foram A. — 14 grande A. — 22. Mafa- 
mede] Maffoma AI. — 24. mumdo A. — zí mancebia A. — 26. dantre A. — 29. foram A. 
— 32. sangue A. — 33. luguar A. 



219 — 

Como o Iffamte ali esteue duas * oras avitre aquelles muros, e das A,99,v,2 
rre^oôes que o autor poõe açerqua de sua Jortelle^a. 
Capitullo Lxxx. 

POR comsseguir a matéria da humanall fortelleza, nom posso partir 
damte meus olhos a uirtude de huíi primçipe simguUar, que com 
tamanha força e gramdeza de seu coraçom arrimcou tamanha 
multidom demfiees fora da terra da sua natureza. Por certo eu nom 
rrecomto estas cousas em tamanha gramdeza como deuia. porque eu 
meesmo me espamto, quamdo aileuamto minha comsijraçom pêra com- 

10 templar na profumdeza de tamanho feito, ca me nembra que lij nas obras 
de Tito Liuio, como aquelle uallemte rromaão Oraçio Cocres tem tama- 
nho nome, porque teue atreuimento de pelleiar com três jmmijgos, cuja 
uirtude de fortelleza Vallerio Máximo na summa da estoria rromaã amte 
poõe deamte os feitos de Romullo, que foy o primeyro fumdador daquella 

i5 cidade. Ora que posso eu dizer da fortelleza de huú homem, que sem 
esperamça de nehuúa companhia, cometeo tamtas uezes huú tamanho 
ajumtamento de seus jmmijgos, derribamdo amte os seus pees * aquelles A, ioo,r, i 
que com mayor atreuimento de sua fortelleza queriam esperar ho bram- 
dimento da sua espada. Certamente eu creo segumdo meu juizo, que 

20 sse as cousas mudas ham alguú semtimento, que as portas daquelles 
muros estam ajmda espamtadas de tam marauilhosa fortelleza. Empero 
nom quero este feito de todo atrebuir aa sua força, porque comsijro que 
quis nosso Senhor Deos trazer ao mundo por deffemssam do seu samto 
templo, que he a sua samta egreia, e por uimgamça dos erros e come- 

25 timentos que aquelles jmmijgos da ffe fezeram per mujtas uezes aos seus 
fiees christaãos, a este primçipe, que assy como seu caualleiro, armado 
das armas da samta cruz, pelleiasse no seu nome. E pêra prouar 
minha emtemçom, ponho amte meus olhos o processo da sua uida. no 
quall acho taaes e tam marauilhosas uirtudes, que comsijramdo em ellas, 

3o nom me parecem ssenom dalguú homem trazido a este mundo pêra 
espelho de todollos uiuos. as quanes uirtudes a Deos prazemdo eu com- 
tarey distimtamente em seu próprio lugar, porque possaaes uerdadeira- 
mente conhecer a prouaçam de minhas pallauras. Oo exçellemte prim- 
çipe diz * o autor, froll da cauallaria do nosso rregno, coraçom e fortelleza A, 100, r, 2 
digna de gramde memoria, e quall outro posso eu louuar em superla- 

5. dante A. — 6. arrincou A. — 11. titolliuio A. — 12. emmijgos A. — 22. consijro A. 
— 23. quis] o quiz I — mumdo A. — santo A. — 26. assi A. — 27. pelejasse I, pelleias- 
seni A — no] polo I. — 28. ante A. — 3o. sse nam A — mumdo. — 32. cn A. 



tiuo graao, que ouuesse a uerdadeira fortelleza, saluo se disser este he 
outro Iffamte Dom Hamrrique. Os mouros assy empuxados per amtre 
aquelles muros, passaram a terceira porta, que uaay pêra a uilla de fora. 
mas aiii uolitaram eiles rrijamente, acordamdosse que sse aquellas portas 
fossem fechadas, que teeriam elles de todo perdida a esperamça de cobra- 5 
rem jamais aquella uilla primeira, e assy poserom toda sua força polia 
empachar, e o Iffamte e os outros que com elle estauam, tijnham o com- 
trairo daquelle deseio, poemdo toda dilligemçia pêra acabar de fechar 
aquellas portas, mas com todo seu trabalho huú gramde pedaço este- 
ueram assy, que numca poderam fechar mais de huúa porta, porque lo 
quamdo queriam fechar a outra, loguo os mouros os cometiam rrijamente, 
de guisa que lhe nom queriam leixar husar do que queriam, mas daua 
gramde ajuda a deffemssam dos christaãos huíia parede, que estaua amte 
a face daquella porta, a quall empachaua os mouros per tall guisa, que 
A,ioo,v,i nom podiam alli pelleiar senaiamuy* poucos. E tamtoesteueram naquella i5 
perfia, que cada huú daquelles escudeiros per sua liez prouou de teer 
assy aquella porta, e nom a podia lomgamente sofrer assy polia força do 
trabalho, como pollo nojo que lhe os mouros faziam nas pernas com 
azaguayas que metiam por debaixo. E ueemdo o Iffamte como sua 
estada alli nom aproueitaua, fez de todo solhar as portas, e salltou fora e 20 
os outros com elle. e começou de seguir os mouros, os quaaes ssem 
nehuúa mostramça de deffemssam começarom de fugir, que nom pare- 
ciam outra cousa senam homeés que fogem dalguú touro, quamdo o 
ssimtem uijr depôs ssi per alguúa rrua. E daquella hida que os mouros 
fezeram, teue o Iffamte e os seus tempo pêra tornarem a fechar sua porta 25 
segumdo amte deseiauam. e depois que elles emtrarom primeiramente 
polia porta da abobeda ataa que sse tornarom, passarom duas oras. 



Como todos pemssauam que o Iffamte era morto, e como nehuã nom 
oiisaua de passar aaquella porta com temor dos mouros, que estauam 

sobre os muros. Capitullo Lxxxj. ^° 



QUEM poderia jullgar que o Iffamte nem nehuú daquelles estaua em 
tall * pomto, segumdo os mujtos aazos comtrairos que sse em ello 
podiam maginar. ca aquella uilla de fora estaua toda chea de 
mouros sem esperamça de nehuú socorro, e polias portas nom ousaua 



2. assi A. — 6. assi A. — 7. Iffante A. — 9. grande A— i3. húa A. — 17. assi A (bis). 
27. aboboda A. 



221 

nehuú de passar por aazo da gramde guarda, que os mouros de cima do 
muro açerqua dello puynliam. E assy com esta esperamça deram todos 
uoz que o Iffamte era morto, e todos pemssauam que eIRey fezesse por 
ello mostramça de gramde nojo. por cuja rrazom nom ousaua nehuú de 
5 lho dizer, mas quamdo sse acertou de lhe seer dito, rrespomdeo elle que 
nom montaua mujto, pois que morrera em seu offiçio. Mais depois que 
lhe comtarom a uerdade do feito, ouue elle em sua uoomtade muy 
gramde prazer, espiçiallmente porque aquelle filho o parecia mais que 
outro alguú nas feituras do corpo. Pemssaua elRey que sse o assy nom 

IO parecesse nas propiedades de demtro, que lhe seria casy hui: doesto 
depois de seus dias. ca he comuii fallar amtre os homeés, quamdo fa- 
liam em alguú que he ja finado, loguo lhe buscam huú semelhamte, per 
cuja proporçam o possam fazer conhecer aaquelies com que faliam, e 
mujto milhor sse faz ajmda esto, quamdo hi ha filho que pareça a seu 

i5 padre, ca loguo dizem* que nom auia mais em elle, que em aquelle seu A, ioi,r, i 
filho, e por boom que o padre seja, loguo rreçebe doesto, quamdo ho 
apropiam com alguú tall filho, que per uemtura nam o parece nas uirtudes 
e custumes. Mais por certo mais conhecida esperamça leuou elRey Dom 
Joham do Iftamte seu filho, quamdo sse partio deste mundo, espiçiall- 

20 mente por aquelle começo que sse alli seguio tam manifesto, que nom 
tam soomente elle que era seu padre, mais quallquer outro do pouoo 
follgaua douuir semelhamte cousa. E posto que o amor dos padres aos 
filhos nom tenha jguall comparaçom amtre aquellas cousas, que a natu- 
reza em este mundo jumtou. empero o feito foy per ssi tam gramde e 

25 tam notauell, que amtre todollos gramdes feitos dos homeés deue seer 
auido por marauilhoso. ca elle per si soo acreçemtou toda a gramdeza 
desta uitoria. Gramde padecimento tijnham os mouros que estauam em 
cima dos muros, porque semtiam como o Iffamte e os outros tijnham a 
porta fechada, e nom lhe podiam empeeçer. e esto era por rrezam da 

3o uollta do muro que uijnha sobre aquella porta, homde elles estauam so 
cuja sombra rreçebiam emparo. Nem aquella deteemça que o Iffamte 
alli fazia, nom era a outra fim senom pêra esperar que rrecorressem * os A, ioi,r,2 
seus pêra alli. ca a sua uoomtade de todo era desposta pêra tornar 
outra uez a pelleiar com aquelles mouros, ataa que os botasse de todo 

35 fora. E quamdo uio que a tardamça era tamanha, que nehuú dos seus 
nom acodia. disse a huú daquelles que com elle estauam, que os fosse 

2. assi A. — 9. assi A. — 10. propiadades A. — i3. proporaçam A. — i5. logo A. 
— 18. leuou] leixou I. — 19. mumdo A. — 24. mumdo A. — 2i. grandes A. — 28. Iffante A. 
29. rrazam A. — 3i. soombra. 



222 

chamar, ou outros quaaesquer que achasse, per que elle podesse rreçeber 
ajuda, mas cada huú per ssi lhe rrespomdeo, que o nom faria per nehuúa 
guisa, nom porque rreçeasse o perijgo de seu caminho, soomente por 
elle ficar alli tam desacompanhado, que sse lhe aiguíja cousa rrecre- 
çesse, que seria gramde mall nom seemdo todos jumtamente com elle. 5 
Mas será mujto milhor rrespomdeo o Iffamte, que uaades toda uia, por- 
que per uossa hida acabaremos nosso feito, porque os mouros correm 
pêra aquella outra parte de cima. e com atreuimento do socorro que 
teem em esta outra uilla, dam trabalho aos nossos, o que nom fariam sse 
semtissem, que alguíía gemte ca amdaua amtre elles. e ajmda pode seer lo 
que cada huú de meus jrmaãos sabemdo parte deste feito, sahira per 
aquella porta e nos sahiremos per esta. e assy os poderemos ligeyramente 
A, ioi,v, I empuxar fora da cidade. Como querees senhor rrespomderom * elles, que 
nehuú de nos aja de filhar atreuimento pêra uos leixar aqui. ca ajmda 
que esteuessees em huúa salla seguro de todo perijguo, uergonha aueria- i5 
mos de uos leixar seemdo tam poucos. E breuemente nehuú delles 
numca sse dalli quis partir, dizemdo que pois que os a uemtura assy acer- 
tara, que mortos ou uiuos apar delle os auiam dachar. 



Como Garcia Monii filhou atreuimento de passar aquella porta pêra 
hir buscar o Iffamte, e das rre^oões que lhe disse. Capitullo Lxxxij. 



C 



|OMO quer que a doçura do gaanho que os homeês auiam nos des- 
pojos daquella cidade, trouuesse suas uoomtades allegres, quamto 
mais a uitoria, que de todallas cousas omde a comtemda he tamto 
deseiada. tamto que as nouas do Iffamte chegaram aas suas orelhas, 
B, ii9,v,2 mujtos rrecorreram *pera cerca daquella porta peraauerem çertidam dello. 25 
B, i2o,r, I e quanto o passo daquella porta era mais * perigoso tanto a çertidam de 
sua tristeza se acreçentaua muito mais e preguntauam huús aos outros 
cada hum como vinha mais tarde polias nouas que auiam do Iffante. Nam 
sabemos deziam elles nem ha hy nenhum que o possa saber, ca depois 
que elle passou aquella porta, e quatro que forom com elle nunca 3o 
mais tornou nenhum, empero quaaesquer nouas que ellas seiam nam 
podem ser senom muy tristes pêra todos aquelles que o amauam. ca 
certo he que toda aquella villa dalém he chea de mouros, e mais que 
elle afora o grande prigo em que seria ao passar destas portas nom se 

4. ficar] nom ficar I. — 12 assi A. — 17. assi A. — 23. a uitoria] com a uitoria A — 
a comtenda A D, acontece I. — 28. Ifante B. — 29. despois B. 



223 — 

auia de tcer que nom passasse aalem. onde nom auia rremedio que o escu- 
sasse de morte, elle e aquelles que com elle passaram, saluo se fora a 
graça de Deos que os quisesse guardar, empero bem he de crer que se 
elles uiuos forom. ja algum delles acudira em duas oras que rrazoadamente 
pode auer que eiles daqui sam partidos. E em estas departições estauam. 
mas nom auia hy algum que ousasse de passar aquella porta, porque 
5 poucos ha hi que se queiram poer em auentura. onde a morte conheci- 
damente estaa aparelhada. Mas quando Garcia Moniz que era hum 
fidalgo que fora guarda do Iffante quando era moço. chegou aly e lhe 
disserom o feito como* era nam quis mais esperar nenhuúa cousa, mas B, i2o,r,2 
assy como ardido caualeiro se despos a todo prigo. e saltou rrijamente 

IO polias portas dentro atee que chegou onde o Iffante estaua. Ha por 
merçe disse elle porque meteis os vossos em tamanlias desesperações, ca 
nom estaa agora ali tal aquella porta, que nom tenha por fee que nunca 
jamais vos ha de veer. e estam maldizendo a sj' e a sua ventura, porque 
os apartou de vos. ca consiram o grande doesto que lhes poderá ficar. 

i5 se se acertara de vos falecerdes por nam serem convosco. Par Deos 
senhor vos querees cometer huúas cousas e perdoaime porque vollo digo 
que sam aalem de toda ardideza dos homeés. e ajnda leixaesvos aqui 
estar com esperança que se ajam de vijr pêra vos alguús dos outros, e 
nom querees consirar como aquelles muros estam cheos de mouros, e 

20 que acima desta porta esta outra per onde entram os mouros e saem 
quantas vezes querem. Ca nom cuidees que todo o cuidado dos vossos 
he em pelejar com os mouros, ca os mais delles tem mor cuidado de 
rroubar as casas que acham vazias, e vossos jrmaos e todollos outros 
capitães andam espalhados polia cidade cada huGs por sua parte, e antre 

25 tanto pode ser que sairam alguús daquelles mouros que estam no castello. 
ou por ventura muitos que andam na cidade querendosse rrecolher viram 
por esta porta. *e aueram por boa dita de uos acharem aqui, pêra sse A, io2,v, i 
uimgarem no uosso samgue. Porem por merçee partiuos daqui, e tornaai- 
uos pêra fora, omde poderees fazer de uossa homrra com maj^or segu- 

3o ramça de uossa uida. O Iffamte conhecia bem Garcia Moniz, que era 
homem sesudo e boom caualleiro, e conheçeo que o comsselhaua muy 
bem. e assy o pos logo em obra, e os outros jsso meesmo que lhe fallaram 
acerca dello. e porem cometeo seu caminho pêra sse tornar, omde achou 
ja estar Fernam Chamorro aleuamtado com huiJa muy gramde ferida no 

35 

1. pasasse B. — 2. foro B. — 3. gardar B. — 6. muniz B. — 7. garda B. — 9. assi B 
— perigo B. — 1 3. e a sua D, a sua A. — 17. omês B. — 23. roubar B. — 25. castelo B. 
26. querendose B. — 27. uos] nos B. — 32. assi B 



224 — 

rrostro. Nem cuidees que os que amte alli estauam, passauam seu tempo 
OCIOSOS, ca os mouros acudiam alli a meude, e comtinuadamente aturauam 
sua pelleia. Mas depois que o lífamte chegou, cobraram elles em ssi 
mujto moor esforço, e cometeramnos rrijamente, de guisa que derribaram 
alli alguGs. E estamdo assy os feitos em este pomto, chegou hi Nuno 
Antunez filho dAmtam Vaaz de Gooes. Senhor disse elle ao Iffamte, a 
uossa bamdeyra e o estemdarte do Iffamte Dom Pedro uaão caminho 
daquelia outra porta de cima, com teemçam de sse hirem per alli pêra a uilla 
A, 102, v,2 de fora, * e os mouros ssam mujtos açerqua daquelia porta, faço uollo saber, 
porque me parece que he bem que uos uaades comtra lia. por tall que 
os uossos rreçebam esforço e ajuda. O Iffamte disse que lho tijnha mujto 
em seruiço, e assy emcaminhou loguo rrijamente polia rrua acima, ataa 
que chegou omde os seus estauam. E certamente sua chegada foi alli muy 
proueitosa, ca a força dos mouros era muy gramde sobre a emtrada 
daquelia porta, os quaaes puinliam toda sua dilligemçia em deffemder 
a passagem aos christaãos. e assy deram huija muy gramde pedrada na 
aste da lamça em que estaua a bamdeira do Iffamte, que a derribaram 
em terra, a quall mujto asinha foy leuamtada per força daquelle que a 
trazia. E o Iff"amte ueemdo assy aquelle feito, salltou mujto asinha amtre 
elles. e cometeos de tall força que lamçou os mouros aalem das portas, 
mas nom traziam alli todos tall ardideza como elle. ca soomente Garcia 
Moniz achou comssigo na escuridade daquellas abobedas, que estauam 
sobre aquella porta. 



Como o Iffamte tornou outra vei aaquelle lugar domde amte par- 
tira, e como os mouros leixarom de todo o castello. ^^ 
CapituUo Lxxxiij. 



G 



A, io3,r. 1 * y^— >. uTRAuez sse tornou ho Iffamte pêra aquelle lugar domde amte par- 
tira, per aquella rrua dereita per omde suas bamdeiras ueeram. 
nom que elle esteuesse naquelle próprio lugar, mas aa emtrada 
doutra trauessa que he a ff"umdo daquelia, omde elle assy primeiramente 3^ 
esteuera, porque alli estaua huQ gramde ajumtamento de mouros, com 
que ajmda tornou a pelleiar. E em esto lhe chegou rrecado de seu 
Irmaão o Iffamte Duarte, que o emuiaua chamar a huúa mezquita que 

5. assi A. — 6. Antonez A. — 10. comtra Ha A, contra la I. — 1 1. Iffante A — disse I, 
om A. — 12. pella A. — 16. assi A. ^ 19. assi A. — 22. cometeo os I. — 24. luguar A. 
— 3o. assi A. 



225 — 

alli estaua açerqua. omde depois fo}' a ssee catedrall. Dizee uos rres- 
pomdeo elle aaquelle messegeiro, ao Iffamte meu senhor e jrmaão, que 
melhor seria se o sua merçee ouuesse por bem, de elle uijnr pêra aca pêra 
arramcarmos estes mouros de todo daqui, que de me eu partir agora 
5 pêra nehuúa parte, e que esto lhe emuio dizer, polia boÕa uoomtade que 
lhe semto pêra semeihamtes feitos, e que sa3'ba que como eu daqui 
partir, que emtemdo que nom ficara aqui mais nehuú. E como quer que 
alli mujtos boõs esteuessem com o Iffamte, assy poUo gramde trabalho 
que ja tijnham passado, como por rrazam da muy gramde callma que 

10 fora aquelle dia, estauam ja muy anojados, tomamdo * muy a meude follga, A, io3, r, 2 
quamdo quer que auiam alguú pequeno despaço. e chegauamsse ao 
Itfamte rrequeremdoo que leixasse aquelle feito, porque ao tempo que 
sse o castello ouuesse de combater, todos aquelles mouros era necessário 
que sse partissem dalli. mas esto nom prestaua mujto, ca tall deseio 

i5 tijnha elle, que em quamto os alli semtira, numca os ouuera de leixar, se 
nom fora o mamdado de seu jrmaão, a quem elle em todallas cousas 
guardaua obediemçia. Porque a fora aquelle rrecado que assy primeiro 
ueo, forom outros, aos quaaes o Iffamte sempre achou rreposta, dizemdo 
que em aquelle dia nom era pêra leixar semelhamte lugar, nom tamto 

20 pollo dano que os mouros ao depois poderiam fazer, como por lhe nom 
dar alguú aazo, per que lhe podesse ficar nehuúa esperamça de sua sall- 
uaçam. E esto dezia o Iffamte, pemssamdo que aquella mezquita era 
mujto mais allomguada domde elle estaua. e que jsso raeesmo nom era 
chamado a outra alguúa fim, senam pollo tirarem daquelle trabalho polia 

25 gramde comtinuaçam que sabiam que elle aquelle dia teuera açerqua 
dello. Empero aa fim lhe emuiou dizer o Iffamte Duarte, que uiesse 
todauia sem outra nehuúa tardamça. * Senhor disse o messegeiro, uosso A, io3,v, 1 
jrmaão uos emuia dizer, que elle e os outros uossos jrmaãos som alli 
ajumtados, omde teem comssigo a mayor parte dos capitaães que ueeram 

3o em este feito, a fim de fallarem no filhamento do castello, pêra a quall 
cousa lhe uossa presemça he mujto necessária, porem que uos emco- 
memda que uaades logo sem outro detijmento. Ao que o Iffamte nom 
pos mais nehuúa tardamça. amte chamou logo aquelles que com elle 
estauam, dizemdo que pois a uoomtade de seu jrmaão era que sse parti- 

35 ssem dalli, que seria muj^ bem de partirem per tall maneira, que os mouros 
nom semtissem que sse elles partiam co.stramgidos. E pêra esto disse 
elle, me parece que será bem que uos uaades uos diamte, e eu fiquarey 

2. aquelle A. — 3. uijr A. — 5. boa A. — 8. assi A. — 9 grande A. — 18. foram A. — 
22. dizia A. — 3o. afSm A. — 3i. presença A. — 34. a] om A. 
«9 



— 226 — 

detrás, ou ficaae uos detrás e hirey eu diamte. Isso nom he rrezam 
disseram elles, que uos senhor ajaaes de ficar, teemdo aqui taaes pessoas 
que uos podem dello bem escusar. E a esto rrespomdeo o lífamte, que 
pois elles assy queriam, que teuessem tall modo em sua hida, que nom 

A, io3,v,2 mostrassem a seus jmmijgos que partiam costramgidos. O que elles 5 
* fezeram pollo comtrairo. porque seguimdo seu caminho assy o Iffamte 
oolliou pêra detrás, e uio que os seus nom traziam aquella hordenamça 
como deuiam, segumdo o que lhes elie amte dissera, e tornou outra 
uez sobre os mouros que o seguiam, e os leuou amte ssi per aquella 
rrua, ataa que chegaram aaquelie lugar homde primeyramente cayo i© 
Fernam Chamorro. Mas em aquelle hida nom seguia nehuú, nem os 
mouros jsso meesmo nom quiseram tornar após elle, perassamdo que 
ficauam todoUos outros trás aquelle camto afim de os emganar. E assy 
se tornou o Iffamte seu passo e passo,, ataa que chegou aa mezquita 
homde estauam seus jrmaãos. De Çalla bem Çalla nom falley ataa aqui, i5 
da maneyra que teue, depois que lhe os mouros leuaram aquelias nouas 
que ja teemdes ouuido. mas agora me mamdou elle rrequerer, que 
escpreuesse o seu feito pêra dar fim a sua triste espedida. Porem he de 
saber, que depois que elle de todo uio que a cidade era emtrada, e os 
christaãos per ella espalhados, semtio que nom auia outro rremedio 20 

A, 104, r, I senom perdersse de todo, tomou certos daquelles seus seruidores de que 
sse mais fiaua, e emtregoulhe * suas molheres pêra lhas poerem fora da 
cidade, mas elles com a trigamça e desacordo que tijnham, nom sse nem- 
brauam senam de muy poucas cousas que leuauam comssiguo. E Çalla 
bem Çalla amdaua amtre tamto passeamdo per aquelias casas, alleuam- 25 
tamdo mujtas uezes os olhos comtra o çeeo, e gememdo fortemente como 
quem tamanha perda rreçebia, ataa fim de todo que cauallgou em huú 
ginete, e sse foi fora da cidade. Mas quall seria o pramto que elle por 
tamanha perda fezesse, boom será de conhecer a todos aquelles que 
dereito juizo teuerem. mas tamto ssey eu, que pêro seu nojo fosse 3o 
gramde, que numca o mujto mostrou em sua comtenemça. ca elle era 
homem fidallguo e de gramde ssiso e autoridade, e o nojo que tijnha 
soportauao amtre ssy meesmo. 



4. assi A. — 6. assi A. — 10. atee A — luguar A. — 1 3. canto A — assi A. — 1 5. atee A. 
23-24. lembrauam A. — 24. conssiguo A. — 25. antre A. — 33. soportauoo A. 



227 — 

Como o Iffamte Dom Hamrrique chegou omde estmiam seus jrmaãos, 

e como Vaasco Feniamde{ dAtayde foy morto. 

Capitullo Lxxxiiij. 



F 



AZEMDo comclusom de todollos aqueeçimentos do Iffamte Dom Ham- 
rrique, nos quaaes foy a força de todallas cousas, que sse em aquelle 
dia fezeram que de notar seiam. nem * presuma alguú que eu nom A, to4,r, 2 
puz tamanha dilligemçia em rrequerer e buscar todollos aqueeçimentos 
dos outros senhores, e nom ajmda daquelles primçipaaes, mas de quall- 
quer outro do pouoo escpreuera seu feito, se o achara em merecimento, 

>o ou o poderá saber per quallquer guisa, conheçemdo bem que a uoom- 
tade delRey meu senhor he perfeitamente saber todollos merecimentos 
de seus naturaaes pêra homrrar a memoria dos mortos, e remunerar aos 
uiuos per os trabalhos de seus padres ou delles meesmos. e esto he porque 
sua uoomtade toda he posta em huúa jgualleza de justiça, segumdo no pro- 

i5 cesso de seus feitos mais compridamente será achado. E de eu nom saber 
tam perfeitamente a uerdadc das cousas, tenho três rrazoões pêra minha 
escusa .s. as primeiras duas que ja disse, huúa a estreitura daquelias rruas, 
e a outra a lomgura do tempo, e a terceira o pouco cuydado que alguús 
queriam teer em me dizerem as cousas que sabiam, e taaes rrequeri eu, que 

20 pêro lhes mostrasse mamdado delRey meu senhor, nom me faziam menos 
aguardar a sua porta, que sse per uemtura eu primçipallmente uiuera 
per sua bemfeytoria. * outras uezes me dauam suas escusas allegamdo A, io4,v, i 
escusaçoões, as quaaes conhecidamente eram mais por tomarem seme- 
Ihamça destado, que por nehuúa outra necessidade. Em uerdade nom 

25 leixarey de o dizer, quamdo eu comssijraua que huú doutor e outro seme- 
Ihamte me mostrauam taaes mostramças, rreçebia por fadiga de hir mujtas 
uezes a sua casa, nembramdome como aquelle com que uiuo que he meu 
senhor e meu rrey, oííereçe suas orelhas pêra ouuyr meus rrazoados 
com menos cerimonias, quamdo semte que he rrazam. e perdoarmees 

3o porque me afastey tamto da estoria, ca o fiz por me escusar dalguúa 
cuUpa, se ma alguém quiser poer. No rreçebimento que o Iffamte Duarte 
fez a seu jrmaão, nom fallei alguúa cousa, porque mujtas uezes disse o 
gramde amor, que amtre elles auia. e jsso meesmo como o Iflamte Duarte 
íoy huij primçipe muito mauioso e agasalhador. Mas ficame por dizer 

35 daquelle boom caualleiro Ayres Gomçalluez de Figueyredo, de cuja 

4-5. hanrrique A. — i3. he I, om A. — 21. a] á I, otn A — prinçipallmente A. — 
22. dauam dauam A. — 25. consijraua A. — 27. lembramdome A. — 3\. culpa A. — 
35. Gomçalluez I, Gomez A D. 



— 228 — 

gramdeza de hidade )a falley. o quall em aquelle dia amdou sempre armado, 
e sse acertou alli com o Iffamte, depois que os mouros sahiram polia 

A, 104, V, 2 outra porta de cima, homde derribaram * a bamdeira a Meem Rolz, pelle- 
iamdo sempre comtinuadamente melhor que outros alguús de mujto 
menos hidade. E os outros dous escudeiros Bayoneses, que morauam no 5 
Porto, acharam o Iffamte no meo daquella rrua, quamdo logo primeyra- 
mente começaua de seguir per ella. Nom uos parece senhor, disserani 
elles, que estamos agora melhor aqui, que nas logeas do Porto, omde nos 
uossa merçee rrequeria que ficássemos. E em aquelle segumdo cometi- 
mento que o Iffamte fez aos mouros, quamdo assy foi chamado da parte 10 
de seu jrmaão, Vaasco Fernamdez dAtayde ouue nouas como seu senhor 
amdaua em aquelle trabalho, e trabalhousse de o hir buscar, e quamdo 
chegou aaquelle lugar, omde o Iffamte esteuera primeiramente com os 
mouros, que era açerqua da porta, lamçaram os jmmijgos de cima huúa 
pedra, a quall era tam gramde e per tamanha força lamçada, que tamto i5 
que lhe deu sobre a barreta, Vaasco Fernamdez cayo morto em terra. 
E este soo caualleiro foy aquelle, que per seu samgue pagou toda a 
desauemtura daquelle feito, empero bem auemturado foy elle, que em 
tall lugar fez fim de sua uida. e a sua alma soomente leuou as nouas 

A, io5,r, i ao outro mundo* da perfeiçam daquella uitoria. e nom he duuida que 20 
sua morte nom fora mujto mais chorada, se fora per outra maneira. 
Gramde desemfadamento filharom todos aquelles senhores, que estauam 
jumtos em aquella mezquita, e assy todollos outros fallamdo na boõa uito- 
ria que lhe Deos dera. e cada huú comtaua seu aqueeçimento quejamdo 
fora. mas sobre todo aquelles escudeiros que forom com o Iffamte tijnham 25 
muy gramde gloria em comtar a sua parte, porque nom ha no mundo 
tamanha honestidade, que nom seia tocada de doçura de gloria, e tamto 
he mayor, quamto o seu merecimento he auido com mayores trabalhos, o 
quall certamente era assaz de gramde quamto aaquelles, ca foi achado 
que depois que cheguaram aaquelle lugar, homde cayo Fernam Chamorro, 3o 
ataa que o Iffamte partio pêra a mezquita, passaram çimquo oras traba- 
Ihamdo comtinuadamente. e posto que nos em outras partes digamos o 
numero do tempo mayor ou mais pequeno, a uerdade he esta. e o ali sse 
diz segumdo o fallamento daquelles que ememtamos. 



i. grandeza A. — 2. co A. — 8. logeas I, lojas A. — 10. quando assi A. — 11. detay- 
de A. — 1 3. logar A. — 17. sangue A. — 20. mumdo A. — 23. assi A — boa A. — 24. lhe I, 
om. A. — 25. foram A — co A. — 26. mumdo A. — 3o. chegaaram A. — 34. ementa- 
mos A. 



229 

Como elRey mamdoii chamar ho Iffamte Dom Hamrrique, e das 
rraioóes que lhe disse. Capititllo Lxxxv. 

MORTO assy Vaasco Fernaindez como dito he, loguo os mouros come- A, io5, r,2 
çarom de desempachar de todo aquella uilla primeira, e estamdo 
assy aquelles senhores, teueram seu comsselho, e começarem 
dauiar as cousas que compriam pêra o combate do castello, determinamdo 
que por aquella noute nom fezessem nehuOa cousa, soomente que lhe 
fossem postas suas guardas ataa ho outro dia, que o combatessem rreall- 
mente. E o Ifíamte Dom Hamrrique, tamto que foy naquella mezquita, 

>o por causa do gramde trabalho que tijnha passado, lamçousse allguú pouco 
a rrepousar. e todo seu primçipall camssaço era as feridas que tijnha nas 
pernas, de que era alguú tamto semtido. e em jazemd© assy lhe chegou 
rrecado delRey que o emuiaua chamar, o quall estaua em outra mezquita 
apartada daquella, omde agora he ho moesteyro de sam Jorge. E bem 

• 5 deuees emtemder e comssijrar, que omde elle esteuesse a semelhamte 
tempo, quall seria a companha que com elle fosse, ca dizem os dereitos, 
que testemunho que elRey der, deue de ualler por sete. e esto disserom 
porque aalem da sua uirtude, segumdo rrezam e dereito sobre os outros 
homeés teem exçellemçia. comssijraram * que elRe}' nom poderia estar tam A, io5,v, i 

20 desacompanhado, que ao menos nom esteuessem com elle seis mil! 
homeés, aos quaaes departiram certos offiçios segumdo em seus liuros 
estaa declarado. Ora sse de necessidade os homeés ham dacompanhar 
o rrey, certo he que com melhor uoomtade se chegam a elle no dia da 
foUgamça e lediçe, que quamdo estaa pollo comtrairo. e nom ajmda a elle, 

25 que sobre todollos outros homeés teem exçellemçia. mas ajmda a quall- 
quer outro do pouoo sse chegam de boamente no dia de sua lediçe. como 
ueemos geerallmente quamdo sse fazem uodas, que aalem dos que pêra 
ello sam comuidados sse chegam outros mujtos. E por tamto compre 
mais aos rrex, que ham daguasalhar gemte, amostrarem sempre suas 

3o caras allegres, mamdamdo aas uezes fazer festas em sua casa, quamdo o 
tempo o rrequere. ca diz o autor dos feitos delRey Dom Joham de Cas- 
tella, que foy na batalha da Aljubarrota, que huíia das cousas porque 
elle perdeo mujtos fidallgos, quamdo uijnha pêra este rregno, assy foi por 
seer homem que sempre em sua comtenemca mostraua tristeza. * Toda- A,io5,v,2 

35 lias pallauras que sse alli deziam amte elRey, uijnham a comclusom do 

3. assi A. — 4. desempachar C, despachar A, despejar Dl. — 5. assi A. — 7. noite A. 
— 9. Hanrrique A. — 11. canssaço A. — 12. assi A. — i5. semelhante A. — 17. disse- 
ram A. — 19. consijrarã A. — 32. daaliubarrota A. — 33. assi A. 



— 23o 

louuor da uitoria. e huús fallauam no filhar da terra, outros de como sse 
o lífamte Duarte sahira escomdidamente da gallee com deseio de seer 
com os primeiros, outros de como a Deos prouguera de a uilla seer emtrada 
tam asinha, outros fallauam da discreçam do prioll, que amte doestauam, 
dizemdo que soubera muy bem emcaminhar todo o que lhe fora mam- 5 
dado. Bem sabia rrespomdeo elRej', o prioll o rrecado que me leuaua. 
e eu bem conheci quamdo o primeiramente eu emuiey, que sse elle uisse 
que a cidade era desposta ou aazada pêra a eu poder filhar, que o saberia 
conhecer, nem eu nom começara nehuija cousa em este feito, sse me elle 
o comtrairo dissera, conheçemdo quem elle he. ca creo uerdadeiramente lo 
que sse alguC homem per siso e emgenho ouuesse de sobir ao çeeo uiuo 
em carne, o prioll seria. Certamente diz o autor, nom era pequena 
homrra aaquelle caualleiro aquellas pallauras, que elRey assy dezia delle 
amte aquelle pouoo. e sse nos amte dissemos da homrra, que deuia 

A, io6, r, I seer dada a Joham Aftomsso ueedor da fazemda, nem *o prioll nom fica i5 
deste feito em pequena parte. E tornamdo aa nossa estoria, amtre 
todallas cousas que alli fallauam, primçipallmente se dezia como Deos 
quisera por sua merçee em aquelle dia guardar o IfFamte Dom Hamrri- 
que, comtamdo seus aqueeçimentos per a mais fremosa maneira que elles 
podiam dizer, conheçemdo que nom podiam em ello fallar tamto, com que 20 
a seu padre mais nom prouuesse. ca doce cousa he a todollos homeés 
ouuir os louuores de quaaesquer cousas que a elles perteeçem, espeçiall- 
mente dos filhos, aalem dos quaaes nom ha hi moor amor. E queremdo 
o IfFamte uijr a mamdado de seu padre, achou que lhe furtaram aquelle 
boom cuytello, com que elle em aquelle dia tamtos e taaes gollpes fezera, 25 
por cuja boomdade ho Iffamte ouue queixume de lhe assy seer leuado, 
dizemdo que por nehuúa cousa dalli nom partiria, ataa que lho tornassem 
alli. e posto que alli esteuessem mais de çimquo mill homeés, tall dilli- 
gemçia foi posta em o buscar, que lhe foy tornado aa sua maão. E 
quamdo o IfFamte chegou homde elRey estaua, foi delle rreçebido com 3o 

A, ioG,r,2 gramde prazer. Meu filho disse elle, pois que a Deos *prouue daruos 
oje tall aqueeçimento, assy como elle foi auamteiado de todollos outros 
feitos, assy praz a mym, que por louuor de uossa fortelleza rreçebaaes 
loguo aqui ordem de cauallaria. Senhor rrespomdeo o Iffamte, posto que 
meu merecimento nom seia tamanho, eu uos tenho mujto em merçee a 35 
boõa uoomtade que teemdes pêra acreçemtar em minha homrra. empero 

3. de a uilla I, a uilla A. — 5. dizendo A. — 8. a I, om A. — 9. em este] neeste A, 
neste I. — 20. podiam I, podia A. — 22. perteemçem A. — 25. tamto A, tantos I. — 27. ne- 
húa A — atee A. — 3o. Iffante A. — 32. assi A. — 36. boa A, 



— 23l — 

eu uos peço por merçee, que me nom queiraaes fazer semelhamte, senam 
ao tempo que o fezerdes a meus jrmaãos. porque assy como nos Deos 
trouxe a este mundo huú amte o outro, assy me prazeria que nos a 
homrra fosse dada hordenadamente. ElRey disse que lho agradecia 
mujto, e que assy emcaminharia que sse fezesse. 



Como Joham Vaa^ dAlmadaã foy poer a bamdeira da cidade de 

Lixboa sobre as torres do castello, e jsso nieesmo o comde Dom 

Pedro leuoii a bamdeyra do Iffamte aa torre de Fee^. 

Capitullo Lxxxpj. 

10 T— >y EPois que aquelle comsselho assy foy feito açerqua das guardas, que 

I I em aquella noute auiam de poer sobre o castello, himdo assy 

J — -^ aquelles que pêra ello * forom hordenados seu caminho, porque A, iod,v,i 

o tempo era ja açerqua em que comuijnha de começarem seu trabalho, 

açertousse de oolhar huú delles comtra o castello, sobre o quall uio estar 

i5 huúa gramde bamda de pardaaes. Nom ueedes disse elle comtra os 
outros, como aquelles pardaaes alli estam assessegados, que me matem 
sse Çalla bem Çalla com todoUos outros nom he partido daili, e leixou 
ho castello uazio. ca sse assy nom fosse, nom estariam alli aquelles pardaaes 
assy dassessego. E todollos outros disserom que lhes parecia seer assy. 

20 sobre a quall cousa tornaram a elRey, e pêra rreçeber seu mamdamento 
açerqua do que auiam de fazer, mas por uemtura nom seriam aquelles 
os pardaaes, que o outro sonhaua que comiam as abelhas. Pois que assy 
he, disse clRey, uaão chamar Joham Vaaz dAlmadaã que traz a bamdeyra 
de sam Viçemte, e digamlhe da minha parte que a uaa loguo poer sobre a 

25 mais alta torre. Joham Vaaz foi loguo chamado, e a bamdeyra prestes, e 
ajumtaramsse com ella peça daquelles boõs homeés, e foromsse caminho 
do castello. e queremdo quebrar as portas que estauam fechadas, pare- 
ceram sobre * os muros dous homeés que demtro estauam. s. huú Bizcai- A, io6,v,2 
nho e huú Genoes. Nom filhees trabalho disseram elles, em quebramtar 

3o as portas, ca nom teemdes nehuú empacho em uossa emtrada. ca os 
mouros sam ja todos partidos daqui, e soomente ficamos nos ambos, que 
uos abriremos as portas quamdo quiserdes. Ora pois disse Joham Vaaz, 
fiihaae la essa bamdeira, e pomdea sobre esse muro ataa que nos uaa- 

2. assi A. — 3. assi A. — 5. assi A. — 8. ffeez A. — 10. assi A. — 11. assi A. — 
12. foram A. — 18. assi A. — 19. assi A — disseram A. — 22. assi A. — 23. uaáo A. — 
24. logo A. — 25. logo A. — 26. foramsse A. — 28. dentro A. 



232 — 

mos. Aiguús disseram aqui queremdo fazer este caso mayor, que aquelle 
Genoes com outros aiguús que demtro estauam, quiseram mostrar sinall 
de deíTemssam. e que elRey mamdara sobre elles certa gemte darmas e 
beestaria, e que per força de combate sse filhara o castello, a quall cousa 
uerdadcyramente achamos que nom foy assy. E tamto que o castello 5 
foi aberto, foi demtro o Iffamte Duarte e o Iffamte Dom Pedro e o comde 
de Barçellos, e assy outros senhores e fidallgos. ca o Iffamte Dom Ham- 
rrique estaua com elRey. e amdamdo assy proueemdo todallas cousas que 
auia em aquella fortelleza, deram mujtas graças ao seu Senhor Deos, que 
por semelhamte maneira os posera em posse de todo. E he pêra rrijr lo 

A, io7,r,i do que alli acomteçeo a huij escudeiro do meestre de *Christo, ca omde 
os outros amdauam apanhamdo ouro e prata e outras cousas de gramde 
uallia, elle sse foi ocupar com huú gauiam terçoo, que trazia na maão que 
achara naquelle castello. e tam comtemte amdaua daquelle boom acha- 
dego, que nom tijnha lembramça doutro nehuú gaanho nem proueito, e i5 
jstimamdo seu presemte naquelle preço que o elle tijnha, foi fazer ser- 
uiço delle ao Iffamte. Mas eu nom ssei se o agradecimento de seme- 
lhamte dadiua seria tamanho, como a perda do proueito que elle poderá 
auer carregamdosse daquellas cousas que assaz auia no castello. Muitos 
se começaram alli dapousemtar com teemçam de seer companheiros de 20 
Joham Vaaz. mas elRey nom o quis comssemtir, e mamdou la o Iffamte 
Dom Hamrrique que os fezesse todos sair fora, e que a posse do cas- 
tello leixasse soomente a Joham Vaaz e aos seus. E segumdo aprem- 
demos melhor emcomtro achou elle alli, que o gauiam terçoo do escu- 
deiro do meestre. ca a melhor parte das mais e melhores cousas que 25 
tijnha Çalla bem Çalla, e todoUos outros que com elle estauam naquelle 
castello, ouue Joham Vaaz. as quaaes eram nelle muy bem empregadas, 

A, i07,r, 2 * que era nobre caualleiro, e trabalhou sempre em sua uida por acreçem- 
tar em sua homrra com mujtos seruiços, que fez a elRey e ao rregno. 
Como o castello foi assy desempachado como dito he, mamdou logo o 3o 
Iffamte Duarte ao comde Dom Pedro de Meneses que era seu alferez, que 
leuasse a sua bamdeira aa outra uilla de fora, e que a posesse sobre a torre 
de Feez. Mas esto nom era assy ligeiro de fazer, porque os mouros nom 
podiam assy leixar de boamente a posse de sua cidade, ca mujtos delles 
determinauam amte fazer alli fim de suas uidas, que de emsayar as 35 
cousas que auiam de uijr, e nom ssem rrazam, ca nom soomente ao? 

2. Janoes A. — 5. assi A. — 6. Iffante (2.°) A. — 7. assi A. — 8. assi A. — 11. aconte- 
çeo A — xpõs A. — 14. andaua A. — 19. carregandosse A. — 21. Iffante A. — 26. daquelle A, 
naquelle I. — 29. rreyno A. — 3o. desempachado C, despachado A, desparado D, desem- 
parado I. — 33. ffeez A — assi A. — 34. assi A. 



— 233 — 

homeés em que ha uerdadeiro conhecimento, mas ajmda aas brutas ani- 
malias he naturall cousa mostrarem semtimento, quamdo ssam tiradas do 
seu, segumdo diz o filiosofo no liuro de proprietatibus rrerum. E assy 
ouue alli huúa escaramuça aa saida daquella porta, que sse agora chama 
5 de Fernamdo Affomsso, na quall mataram huú alferez de Dom Hamrrique 
de Loronha. empero esto prestou pouco aos mouros, porque a bamdeira 
era acompanhada de muy nobres pessoas, ca era aili o dito Dom Hamrri- 
que e Dom Joham seu jrmaão. e Pêro Vaaz dAlmadaã. *e Aluoro Meem- A, io7,v, i 
dez Cerueyra. e Meemdo Affomsso seu jrmaão. e Aluoro Nogueyra. e Nuno 

10 Martijmz da Sillueyra. e Vaasco Martijmz do Carualhall. e o gram baram 
dAlemanha. o quall em aquelle dia prouou como uallemte caualleiro, 
ca assy fezeram a moor parte de todollos gemtijs homeês que com elle 
uijnham. e Nuno Vaaz de Castell Bramco. e çimquo jrmaãos seus que 
alii uijnham. e Diego Fernamdez dAlmeyda. e outros mujtos e boõs 

i5 fidailgos, cujos nomes nom podemos perfeitamente saber. E assy forom 
todos jumtamente poer aquella bamde3Ta sobre a torre de Feez, e a 
guardaram aquella noute. E Dom Fernamdo de Castro e Dom Joham 
seu jrmajio acompanhados doutros mujtos, sahiram polia outra porta de 
cima, escaramuçamdo com os mouros, ataa que os lamçaram fora polia 

20 outra porta, que sse ora chama dAluoro Meemdez. 



Como ho autor declara o tempo em que a cidade foy tomada, e 

quaaes eram os trabalhos dos homeês naquella noute. 

Capítullo Lxxxvij. 



V 



-iJMTE e huú dias eram do mes dagosto, quamdo amdaua a era dAdam 
25 \/ * que he o anno do mundo, em cimquo mill e cemto e seteemta e A, io7,v,2 
seis annos abraycos. e a era do diluuio, em quatro mill e qui- 
nhemtos e xvij annos rromaSos. e a era de Nabucodonosor, em dous 
mill e çemto e sesseemta e dous. e a era de Phillipe o gram rrey de 
Grécia, em mill e seteçemtos e xxviij annos. e a era dAllexamdre o 
3o gram rrey de Macedónia, em mill e seteçemtos e xxvj. e a era de César 
emperador de Roma, em mill e quatroçemtos e çimquoemta e três. e a 
era de nosso Senhor Jesu Christo, em mill e quatroçemtos e xv. e a era dAcy- 
mos ho Egiçiaão, em noueçemtos e seteemta e huú. e a era dos Alarues, em 

I. ajnda A. — 3. assi A.- — 5. fernamdafonsso A. — 9. meemdafonso A. — 10. miz 
(bis) A. — i5. assi foram A. — 16. ffeez A. — 24. Vjimte A. — 2 5. mumdo A. — 28. mill] 
om. A — seseemta A — de (1°) I, do A — phillipo A. — 32. Jhú xpõ A. — 32-33. dacy- 
mos A. de Alimus I. 
3o 



— 234 — 

seteçemtos e nouemta e três, segumdo os seus annos, ca os outros annos 
todos ssam rromaãos. e a era dos Persianos, em seteçemtos e oiteemta 
e três. e a era do rreynado delRey Dom Afíomsso, que foy o primeiro 
rrey de Portugal!, em trezemtos e xiij. e o anrio do rreynado deste rrey 
Dom Joham, em xxxij annos dos annos sollares, quamdo estaua o soll em 5 
seis graaos do syno de Virgo, e a luiJa sobre o primeiro quarto do seu 
creçimento, no primeiro graao dos dous gémeos, que ssam Pollos e Cas- 

A, io8,r, I tor filiios de Leda. ja passauam * de sete oras e mea depois de meo dia, 
quamdo a cidade foy de todo liure dos mouros. E os nossos assy como 
amdauam muy camssados por rrazam do trabalho, e assy por a força da lo 
queemtura que passaram, começaram de sse apousemtar aquelles que 
ajmda nom eram apousemtados. ca mujtos auia hi, que depois que huúa uez 
eratraram na casa, alli aguardauam a uijmda da noute. outros tomaram 
as esperamças tam largas, que nom sse comtemtaram do primeiro acha- 
dego, e aa derradeyra ficaram sem nehuúa cousa. E depois que a noute i5 
de todo foy çarrada, tamanho foy o menos preço em que teueram os 
mouros, polia uitoria que tam ligeyramente cobraram, que nom teueram 
cuydado de poer nehuúa guarda sobre a cidade, soomente quamto teue- 
ram acordo de fecharem as portas. Como quer que segumdo meu juízo, 
as guardas nom eram mujto necessárias por aquelle presemte, porque a 20 
cidade polia mayor parte he cercada dagua, omde tijnha assaz segu- 
ramça. e aquelle pequeno spaço que ficaua da parte do sertaão, nom 

A, io8,r,2 lhe compria milhor guarda, que a gemte do Iffamte que * estaua sobre a 
porta de Feez. e outra mujta que jsso meesmo estaua aa porta dAluoro 
Meemdez. e as outras companhas, que jaziam polia cidade, nom tijnham 2b 
mayor cuydado doutra cousa, que de apanharem o esbulho. E quamto 
mais o tempo sse afastaua do primeiro começo, tamto o fogo da sua 
cobijça era mujto mais aceso, ca emtam começauam de sse arrepem- 
der do dano que fezeram em mujtas cousas, de que sse depois poderam 
aproueitar. Ca logo no primeiro começo, nom esguardamdo nehuúa 3o 
cousa, fezeram tamanho dano em mujtas cousas de gramde uallia, cuja 
cobijça lhes ao depois trazia gramde arrepemdimento. porque mujtos 
que sse acertaram primeiramente naquellas logeas dos mercadores que 
estauam na rrua dereita, assy como emtrauam polias portas, sem nehuúa 
temperamça nem rreguardo, dauam com suas fachas nos sacos das spe- 35 
ciarias, e esfarrapauamnos todos, de guisa que todo lamçauam per o 
chaão. E bem era pêra auer doo de semelhamte estrago, quall alli foi 

5. em (i.°) I, om. A. — 8. lleda A. — 9. assi A. — 12. ajmda A — pousentados A. — 
i5. noite A. — 24. ffeez A. — 25. que I, om. A.— 33. logeas I, leias A. — 34. assi A. 



— 235 — 

feito naquelle dia. ca as speçiarias eram mujtas e de grosso uallor. e 
as rruas nom menos jaziam cheas delias, do* que poderiam jazer de jum- A,io8,v, i 
quo nos dias das gramdes festas, as quaaes depois que forom acouça- 
das dos pees da multidam das gemtes, que per cima delias passauam. 
5 e desi com o feruor do soU que era gramde, dauam depois de ssi muy 
gramde odor. Mas porque aquelle dano sem proueito lhe podesse logo 
emprouiso trazer arrepemdimemto, a cobijça daquella perda os soiugaua 
ao depois de amdarem polias rruas apanhamdo os pedaços de canella e 
graãos da pimenta, menos preçamdo todo trabalho e fadiga que lhe sobre 

IO ello uijnha. Ca em treze dias que elRey alli depois esteue, numca as rruas 
era desacompanhadas daqueilas gemtes de pouco uallor, emtamto que nom 
podiam os homeés passar liuremente que nom fossem empachados daquella 
multidam. Buçetas de coraseruas e jarras de mell e mamteiga e arrobe e 
azeite eram alli tamtas estroidns, que nom faziam menos emxurro polia 

i5 rrua, que sse fossem alguús canos dagua quamdo choue. a quall perda 
era mujto chorada dalguús daquelles de uill geeraçam. ca os boõs e 
nobres nom puynham seu cuydado em semelhamtes cousas. Mamtij- 
mentos ouueram alli assaz, assy dos que achauam nas casas como outros 
que faziam uijr da frota, * espiçiallmente o uinho, que em semelhamte tempo A, io5>,v,2 

20 era tam deseiado, que este era huú liquor de que nas casas dos mouros 
auia pequena camtidade, ajmda que aaquelles que sse acerta de o beuer 
lhe prazerá mujto do boÕ, etc. 



Como os christaãos em aquella noitte trariam amtrc ssy desiiayra- 
das ocupaçoôes. Capititllo Lxxxviij. 



Tc 



25 r g ^oDA ocupaçam dos mais daquelles era deleitosa, ca posto que todo 
aquelle dia fossem trabalhados, e o espaço da noute fosse tam 
pequeno, nom auia hi tam preguiçoso que sse comtemtasse de a 
toda dormir, ca huús se ocupauam de fazer trouxas daqueilas cousas 
que apanharam, outros estauam jguallamdo suas partilhas com aquelles 

3o que primeyramente traziam comserua. outros amdauam cauamdo as 
casas., omde achauam a terra mouediça, e faziam nellas muy gramdes 
fo3'os, pemssamdo dacharem alguúas rriquezas soterradas, e por huú 
pouco que achauam, desfaziam gramdes alliçeçes, pemssamdo dacharem 
mais. outros temtauam as alturas das aguas que jaziam nos poços, e 

3, foram A. — S. ile canella \,om A. — 11. gemes A. — i3. manteiga A. — 23. noite A. 
— 26. noite A. — 28 acupauam A. 



— 236 — 

metiamsse neellas, apallpamdo com os pees pêra ueer se poderiam ajmda 
A, io9,r, I achar alguúas rriquezas * sobre aquellas que ja tijnham. e por dizer uer- 
dade, que em mujtos nom eram seus trabalhos em uaão, que sse acha- 
uam mujtas cousas em elles de grossa ualUa. E os que mayor efficaçia 
traziam em estes trabalhos, assy eram as gemtes do pouoo, speçiallmente 5 
os que eram casados, aos quaaes nom podia parecer cousa sobeia por 
rrefeçe que fosse, se elles auiam lugar pêra a trazer. Oo como a uem- 
tura muda suas cousas como lhe praz, e acreçemta e mimgua segumdo 
seu querer, ca tall auia amtre aquelles, que em este rregno nom tijnha 
huúa choça, e alli açertaua por pousada gramdes casas ladrilhadas com ,0 
tigellos uidrados de desuayradas coores. e os teitos forrados doUiuell 
com fremosas açoteas çerquadas de mármores muy aluos e pollidos. e 
as camas bramdas e molles e com rroupas de desuairados lauores, como 
ueedes que geerallmente sam as obras dos mouros. E em forte ora 
deziam elles, aquelles pelleiassem sobre tamto uiço, pêra nos outros mez- ,5 
quinhos, que amdamos no nosso Portugall pollos campos colhemdo nossas 
messes, afadigados com a força do tempo, e aa derradeira nom teemos 
A,io9,r,2 outro rrepouso, senam proues casas, que em comparaçam * destas querem 
parecer choças de porcos. Os nobres homeés tijnham o primeiro açer- 
tamento ja comtcmtes, e nom curauam doutra cousa, senam despemder 20 
o tempo que lhes o sono nom ocupaua os semtidos, em rrecomtar a 
gramdeza daquella uitoria. e huijs louuauam os goUpes que acertaram 
de ueer a seus amigos, ou os aqueeçimentos que ouueram. outros cull- 
pauam alguii estoruo se lhe aqueeçera, per que perderam alguú gollpe 
que poderam fazer, outros estimauam a multidam dos mortos quamtos 25 
seriam, sobre cujo numero eram desuayradas openioões, nom com pequena 
gloria da desauemtura de seus jmmijgos. Mas sobre todallas cousas se 
fallaua nos feitos que o Iffamte Dom Hamrrique fezera, que todo ho ali 
estimauam por pequena cousa. Outros tijnham cuydado de rrecadarem 
os prisoneiros, sobre cuja guarda sse puynha gramde delligemçia, huús 3o 
leuamdo aas gallees, outros metemdo em taaes prisoões, per que teuessem 
delies seguramça. Muytos tijnham cuydado de quererem escoUdrinhar 
per quall parte se aazara mais certamente aquella uitoria. e huús eram 
que a atribuhiam de todo a Deos, os quaaes amtre todollos outros falla- 
A, 109, V, I uam * mais uerdadeiramente, dizemdo que todallas hordenamças prestaram 35 
pouco, sse os mouros teueram auisamento de fecharem suas portas e nom 
quiseram sayr fora. ca per pouco tempo que sse teueram deffemdemdo 
sua cidade, nom poderá seer que lhe em breue tempo nom uiera gramde 

I. apalparado A. — 5. assi A. — 7. logar A. — 23. culpauam A. 



— 237 — 

socorro de seus uezinhos e paremtes. Outros deziam que aquello'nom 
prestaua. ca posto que elles fecharom as portas, nom teueram uiamda, 
nem lhe poderá uijr tam asinha de fora, segumdo seu gramde desperçc- 
bimento. Como poderá seer deziam aquelles, que os mouros deftemde- 
5 ram a cidade, posto que fecharam as portas, ca eIRey tijnha ordenado 
de poer seu arra3'all na Almina, homde os mouros forom assy combatidos 
per força de seus jmmijgos. e com a multidam da sua gemte que numca 
sse escusara, que em breue tempo nom sobirom os homeês per cima de 
seus muros, e posto que os da cidade teueram mamtijmentos, nom 

10 poderam seer tamtos, que podessem abastar tamanha multidom de mou- 
ros, como era na cidade, porque aalem dos moradores delia, eram hi 
outros mujtos* de fora, que ficaram alli da primeyra uez que os nauios A, iog,v,2 
forom a Barbaçote, leixamdo os outros que Çaila bem Çalla nom quis rre- 
çeber na uilla, que estauam fora. os quaaes era necessário que rrece- 

i5 besse, quamdo uisse que de todo queriam combater a cidade. Ora uos 
caliaae, deziam outros aaquelles. ca depois de Deos nom tem hi nehuúa 
cousa tamanho louuor, como o nobre comsseiho que elRey teue. ca sse 
os mouros teueram auisamento, ajmda que mais nom fora que de huú 
mes, numca sse a cidade cobrara, que sse primeiro nom gastara todo 

2o Portugall pedaço e pedaço. E assy em estes feitos e departiçoões des- 
pemderom as suas gemtes aquella parte da noute. mais o emtemdimento 
delRey nom buscaua nehuúa destas cousas, amte jazia pemssamdo na 
gramde merçee que lhe Deos fezera. pêra a quall lhe pedia em sua 
uoomtade, que lhe abrisse aazo e címinho, como a podesse guardar e 

25 deftemder por testimunho de tamanho millagre. e por tall que a rre- 
nembramça daquella uitoria ficasse por soçessom a todollos rrex que 
depois possuyssem sua herdade. 



Do gramde pramto que os mouras f a {iam sobre a perdiçom da * sua A, i lo, r, i 
cidade. Cafitullo Lxxxix. 

3o y->v lADOSA cousa era douuir os gemidos daquelies mouros, depois que 

I — ' forom afastados da sombra dos muros da sua cidade, ca sse 

*~ começarom de apartar per amtre as espessuras dos aruoredos de 

suas ortas e pumares. e nom auia hi tall, que logo aa primeira chegada 

podesse teer seguramça por rrujto escuso que o lugar fosse, ca assv 

6. foram assi A. — i3. foram A — i6. despois A. — 20. assi A. — 21. noite A. — 
27. possuysem A. — 3i. foram A — soombra A. — 34. assi A. 



— 238 — 

uijnham amedoremtados da mortijmdade, que uirom fazer em seus uezi- 
nhos e paremtes. Mais depois que a noute começou de sobreuijr, cobra- 
rem elles ja quamto quer de mayor atreuimento, è começarem de sse 
sahir daquelies matos cada huijs per sua parte, e chamarsse huús aos 
outros per seus próprios nomes, e as madres chamauam os filhos, e 5 
os maridos as molheres. e aquelles que sse açertauam de sse acharem, 
tijnham alguíi rremedio pêra seu comforto, ajmda que lhe mujto nom 
podesse durar, porque a nembramça de sua perda geerall nom podia 
esqueeçer por outra nehuúa cousa de melhoria por gramde que fosse, e 
sobre todo nom auia hi alguú, que nom teuesse em sua parte que chorar, lo 

A, iio,r,2 porque* a huús falleçiam filhos, a outros molheres e amigos, e taaes ste 
açertauam alli, a que falleçiam todos. E assy começauam de fazer seu 
pramto muy doorido, choramdo sua perdiçam. ca sse nembrauam das 
cousas que perderam, as quaaes eram tamtas e tam gramdes, que cada 
huú per ssi lhe fazia muy dooroso semtimento. e emtam nomeauam a i3 
nobreza delias, cada huú como as perdera. Ha no mundo deziam elles, 
emtemdimento em que poderá ctber, que huúa tam nobre e tam rreall 
cidade em huú soo dia se podesse perder. Por çerlo nom forom esto 
homeês uiuemtes, mas forom os poderios do jmferno que chegarom sobre 
nos. ca semelhamte obra mall se poderá creer, que foy em tam breue 20 
tempo acabada per nehuúa força ou poderio terreall. E escpreuam deziam 
elles, os autores das estorias, que numca foy alguúa companha tam mall 
auemturada como aquesta nossa, ca ajmda que nos esteueramos no 
meo de huú campo com huúas poucas de palhas amte nos, nom podera- 
mos tam ligeiramente seer uemçidos. E sse quer ao menos nos leixara 25 

A, iio,v, i nossa maa uemtura tamto bem, que teueramos alguú * espaço em que 
poderamos conhecer nosso uemçinento, o quall nos nom aproueitara 
pouco pêra nosso auisamento. E emtom começauam de comtar huús 
aos outros todollos aqueeçimentos de sua partida, e quaaes eram os 
que morreram logo na primeira rruí, e quaaes ao depois, e comtauain 3o 
outrossy da gramde multidoõe de seus paremtes e amigos, que jazia 
espargida per as rruas e praças da çiiade. Os uelhos deziam que ouuj- 
ram a seus padres e auoos fallar naquella perdiçam, dizemdo que dias 
auiam de uijr, que aquella cidade auia de seer toda rregada com samgue 
de seus filhos .s. de seus moradores. Outros comtauam sonhos que 35 
sonharam de cousas marauilhosas que '.he apareçerom, as quaaes depois 
do dano declarauam. Huú foy que disse alli. Quamdo eu era moço 
me mamdou meu padre pêra Tunez, peia huú meu tio que alia moraua. 

2. despois A — noite A. — 12. assi A — 19. fontn A. — 3o. despois A. 



— 239 — 

o quall me deu a emsinar a huQ almoedam da mezquita ma3'or. e 
estamdo eu huú dia fallamdo com elle, comtamdolhe as boomdades daquesta 
cidade, e elle emfim de minhas pallauras pos a maão sobre os olhos, e 
começou de suspirar muy fortemente, e mujtas uezes lhe pareciam as 
i lagrimas per de so a maão. e emtom me disse. * Filho meu rrogote que A,iio,v,2 
me nom digas mais das boomdades da tua cidade, que me nom podes tu 
tamto dizer, que eu mujto mais nom sayba. mas tamto te digo, que sse 
os da terra dAflrica soubessem o que eu sey, ja em ella nom estaria pedra 
sobre outra, que nom fosse toda derribada no chaão. ca sua fremosura 

IO e boomdade ha ajmda de seer por nosso gramde mall, o quall semtiram 
primeiro os delia, e depois o semtiremos nos outros os de ca. E esto sey 
eu disse elle, porque nom ha mujtos annos que jazemdo em esta mezquita 
dormimdo huúa noute, sonhaua que uia huiía molher com mujtos filhos 
darredor de ssi. e que uia huúa pomte que sse começaua daçerqua de 

i5 seus pees, e chegaua ataa o rregno do Algarue, polia quall uijnham da 
terra dos christaãos gramdes manadas de moços, os quaaes pelleiauam 
com os filhos daquella molher, ataa que os matauam todos, e mamauam 
em suas tetas. E isto comtey eu a outros mouros sabedores, e todos 
acordamos que aquella molher rrepresemta a terra dAflrica. e os pri- 

20 meiros filhos somos nos outros, os quaaes empuxarom os christaãos de 
suas tetas .s. de sua terra. E todo esto sse ha dalleuamtar por cobijça 
da uossa cidade. E porque * disse aquelle mouro, eu numca em estes A, iii,r, i 
sonhos tiue gramde fememça, nom curey mujto desguardar sobre ello. 
Disserom ajmda mais, que quamdo a frota delRey partio de Barbaçote 

25 pêra as Aljaziras, huúa das molheres de Çalla bem Çalla sonhara que seu 
marido sse mudaua dalli pêra outras casas, e que porque o ella uia 
mujto triste,- que lhe pregumtaua porque uijnha assy anoiado. e que lhe 
rrespondia elle, que pollo coraçom que lhe ficaua em Cepta. Pois dezia 
ella, porque nom tornaaes la por elle. Porque me tem as portas fechadas, 

3o rrespomdia elle. E Çalla bem Çalla dezia que sonhara aquella manhaã, 
que seu padre o uijnha abraçar. Outros comtauam quamtas abusoões 
sonharom auia çemto annos, aas quaaes todos dauam ho emtemdimento 
daquella perdiçam. E assy esteueram aquella noute em suas tristes 
departiçoões, cada huú comtamdo sua parte, ataa que os o sono forçaua, 

3i homde lhe passauam pollos semtidos cousas mujto desuayradas, segumdo 
sse faz cumunallmente a todos aquelles que uigiamdo ssom carregados 

2. bomdades A. — 6. da I, de A. — 7. tanto A. — 8. os] add. mouros I. — r3. noite A. 
— 16. grandes A. — 20. xpaãos A. — 25. aliaziras A. — 27. assi A. — 33. assi A. — 
35. sentidos A. 



— 240 — 

de pemssamentos. Taaes hi auia a que pareciam gramdes chamas de 
A, iii,r,2 fogos, outros aguas corremtes. outros multidom de nauios. * outros uijam 
pelleiar touros, outros uiam a luúa e as estrellas e outros ssynaaes do 
çeeo. a outros parecia que fallauam seus padres e seus paremtes e ami- 
gos finados, e ajmda mujtos daquelles que naquelle dia falleçeram. Muj- 5 
tos eram que sse hiam pêra as herdades e quimtaãs, homde tijnham suas 
casas, em que estauam no tempo do seu allacill, segumdo ueedes que os 
mouros costumam quamdo passam suas fruitas. e alli se lamçauam 
sobre os montes das palhas, que alli tijnham pêra suas camas, ca aquelle 
era o tempo em que elles mais aturauam semelhamtes lugares, por rrezam 10 
dos fruitctô que emtom amadurecem. E alli sse começauam de nembrar 
quamto proueito elles ouuerom naquellas herdades, e das aruores frutí- 
feras que em ellas poseram, e quamta despesa fezeram em seus hedi- 
fiçios. e como todo em tam breue tempo auiam de leixar a seus jmmij- 
gos. Outros hi auia, que sse lamçauam a chorar poUos cômoros dos i5 
uallados das suas hortas, em fim daquelle triste pemssamento. a outros 
sobreuijnha tamanha braueza, que com aquella lastima sse emuiauam aas 
uergomteas de seus emxertos, e começauam de as britar. E assy amda- 
A ,iii,v, I uam * dhuúa parte pêra a outra, como homees fora de ssiso. pareçemdo 

aquella saçerdota Edonys, que moraua nas montanhas do monte Pimdo, 20 
a quall fazia cada huij anno seus sacrifícios ao deos Baco, que era deos 
do uinho, segumdo comta meestre Gonfedro, pareçemdolhes que sse far- 
tauam em fazer aquelle estrago ataa que camssados faziam fym. Outros 
que tijnham alguija ferramenta em aquellas quimtaãs, deçepauam as aruo- 
res pollos pees. mais outros auia hi que sse temperauam em suas sanhas, 25 
esperamdo que per uemtura cobrariam ajmda sua cidade, homde lhe 
aquellas cousas poderiam proueitar. e traziam a suas memorias mujtas 
escprituras que leeram, nas quaaes achauara mujtos acomteçimentos 
doutras cidades e uillas, que depois tornarem a cobrar seus primeiros 
moradores, homde sse lograuom das cousas semelhamtes que amte leixa- 3o 
uom. Ora pois deziam elles amtre ssy meesmos, porque quebramtaremos 
nos as nossas cousas, ca pode seer que Deos obrara em nos com a sua 
misericórdia, e tornamos ha aa posse da nossa cidade, a quall ajmda que 
A. iii,v.2 ali nom fosse, he tam lomge do rregno de Portugall, que os christaãos* 
a nom poderam mamteer. 



10. semelhantes A. — 11. lembrar A. — 12. ouueram A. — i3. quanta I, com quamta A. 
— 18. assi A. — 20. Edonys I, e donys A. — 22. Gonfredo I. — 25. pellos A. — 28. muy- 
tos A. — 29. despois A. — 33. ajnda A. — 34. xpaãos A. 



241 — 

Como elRey emuiou seu rrecado a Martim Fernamde^ Portoca- 

rreyro alcayde de Tarifa por lhe noiejicar sua uitoria. 

Capitullo LR. 

SOOMENTE a dous lugares achamos que elRey emuiou noteficar ho 
boom aqueeçimento, que lhe Deos dera em sua uitoria. Homde 
auees de saber que polia boÕa uoomtade, que Martim Fernamdez 
Portocarreyro mostrou a seu seruiço, quamdo emuiou seu filho a elle aa 
frota, como ja ouuistes. teue elRey por bem de lho fazer saber primeiro 
que a outro nehuú. e ajmda disserom alguús que lhe emuiou assy 

!o aquellas nouas, aalem do que dito he, porque as podesse o dito Martim 
Fernamdez noteficar per outras partes daquelle rregno de Castella. E 
porem tamto que foy demtro na cidade, mamdou fazer prestes huij bra- 
gamtim, no quall emuiou com seu rrecado Joham Rolz comitre, que lhe 
comtasse as nouas daquelle aqueeçimento, e assy todo outro feito como 

i5 passara. Tamto que Joham Roíz chegou a Tarifa, foi logo cora aquelle 
rrecado a Martim Fernamdez. o quall foy tam ledo com elle, que por 
muy gramde espaço nom sse podia * fartar de o ouuir, tornamdo mujtas A, ii2,r, i 
uezes a pregumtar por todallas circustamçias daquelles aqueeçimentos 
como passarom. Vos disse elle aaquelle messageiro, seiaaes assy tam 

20 bem uijmdo, como a milhor páscoa dorida que eu neste mundo ouue. 
Direes a elRey meu senhor, que lho tenho mujto em gramde merçee. e 
que sayba elle que sua uoomtade nom foy emganada em me querer fiizer 
sabedor de sua uitoria. ca nom ha em seu rregno homem de meu 
estado, a que eu desse auamtagem de lhe mais prazer de seu boom 

25 aqueeçimento. Mas que sse mo elle assy nom fezera saber per uos ou 
per outro alguú de seu mamdado, que eu fora mujto duuidoso de o creer 
per outra alguíia maneira. Mas nom sabees disse elle, como estaua o 
castello acompanhado, ou sse tijnham os mouros teemçom de sse poerem 
em sua deffesa. da quall cousa me nom prazeria, porque o castello he 

3o forte, e poderia dar alguii trabalho a elRey. Ajmda quamdo eu parti, 
rrespomdeo Joham RoTz, os mouros eram em posse delle. mas depois 
que eu fuy no mar alomgado quamto seria huúa legoa da cidade, uy as 
bamdeiras cm cima das torres. E quamdo Pêro Fernamdes Portoca- 
rreiro ouuyo assy aquelle rrecado, *ouue gramde queixume, porque nom ^ na r 2 

35 fora naquelle feito, segumdo amte rrequerera a seu padre. Vos disse 

2. notilicar A. — 6. boa A. — 14. assi A. — 17. muytas A. — 19. messegeiro A — 
assi A. — 20. mumdo A. — 21. em muito I. — 25. assi A. — 26. douidoso A. — 28. tem- 
çom A. — 33-34. Portocarreiro] add seu filho. 

3i 



242 — 

elle comtra o padre, me tirastes de meu boom propósito, estoruamdome 
que nom fosse com elRey, que me fora gramde homrra. da quall cousa 
em todos meus dias numca perderey magoa. Se eu cuydara, rrespomdeo 
o padre, que sse este feito tam ligeyramente auia dacabar, nom fezera 
tamanha deteemça em te auiar teus feitos como fiz. ca bem sabes a 5 
teemçam que tijnha acerca dello. e esto era emcaminharte alguii corre- 
gimento pêra hires segumdo te perteemçia. mas parece que Deos quis 
acabar o feito per outra guisa, pollo quall me parece que numca ouuy 
faliar que cidade nem uilla fosse tam em breue filhada. Ca ja mujtas 
uezes me acomteçeo mamdar huúa meada de fiado a temgir aaquella i© 
cidade, e nom foy tam asinha cuberta da timtura, como agora foy tomada 
per elRey. Certamente disse elle, este he tamanho feito que he duuida 
de sse creer assy logo pollo presemte, ataa que a fama dello nom seia 
mais declarada. O escudeiro foy muy bem agasalhado, e assy aquelles 
A, ii2,T,i que com elle forom. E desi partio Martim Fernamdez *com elle em j5 
nome daluissara, segumdo seu estado rrequeria. Aqui auees de notar 
que aalem da boõa uoomtade que aquelle fidallgo tijnha a elRey, auia muy 
gramde rrazom assy elle como todollos moradores de Tarifa, de sse alle- 
grarem daquelle feito, espiçiallmente por lhe seer tirada damte os olhos 
tamanha uergonha, como tijnham em aquelles mouros, ca depois ataa 20 
ora elles e seus soçessores sempre fezeram e fazem muy gramdes pro- 
ueitos pêra ssi em aquella cidade, uemdemdo hi seus fruitos e mercadoria 
com gramdes auamtageés de gaanho. 

Como mamdoii elRey Joham Escudeiro aa casa delRey Dom Fer- 
namdo dAragam e depois Aluoro Gomçalluei da Maya, e das cousas 25 
que lhe emuiou dí{er. Capitullo LRJ. 



O 



UTROssi mamdou elRey Joham Escudeiro huú boom homem de sua 
casa com seu rrecado a elRey dAragam, Direes disse elRey, a 
elRey Dom Fernamdo como trouxe minha frota de Portugall 
sobre esta cidade, e os comtrayros que ouue assy por aazo das sarraçoÕes 30 
como das corremtes que me leuaram os nauios. e como aa fim determi- 
nei sem embargo de todo uijnr sobre a cidade, ajmda que de mujtos fosse 
A,ii2,v,2 comsselhado pollo comtrairo. * E comtarlhees a hordenamça que teue- 
mos em trazer nossa frota, e como meus filhos sahirom na Almina, e 

3. rrespondeo A.— i5. foram A.— 17. boa A. — 18. assi A. — 20. vergonha I, uer- 
gomça A — atee A. — 22. mercadaria A. — 28. daragom A. — 3o. assi A. — 32. muytos A. 
33. pello contrairo A. 



— 243 — 

polia guisa que a cidade foy emtrada, da quall agora polia graça de Deos 
som em posse. Cujo aqueeçimento escpreuo a elle primeyramente que 
a outro alguij primçipe, polia gramde e boõa uoomtade que Ilie tenho, e 
desi pollo deseio que lhe semto pêra guerrear aos jmfiees. E logo a 
5 cabo de poucos dias emuiou a elle Aluoro Gomçalluez da Maya, que era 
seu ueedor da fazemda na cidade do Porto, com outra embaixada, na quall 
lhe fez saber, que por quamto elles ja tratarom per suas cartas sobre a 
comquista dos jmfiees. Pollo quall disse elRey, me eu trabalhei de tomar 
assy esta cidade, por emtemder que faço daqui muy gramde empacho aos 

10 mouros daaquem e daalem. ca por seu aazo se podem agora mouer 
quaaesquer cousas, que quiserem fazer em cada huúa destas partes 
acerca da destruiçom dos mouros, ca os que ouuerem de uijnr guerrear 
estas partes dAffrica, teem ja lugar omde uenham desembarcar sua frota, 
e boõa fortellcza domde possam correr a terra, e que pêra os que 

i5 quiserem guerrear o rregno de Graada, aproueitara mujto, porque em 
esta cidade poderam sempre estar nauios que guardem todo o estreito, de 
guisa que nom possam passar nehuús * mouros pêra ajudarem os outros. A, ii3,r,i 
Porem que eu lhe rrogo, que elle me faça saber a uoomtade que teem 
acerca deste feito, porque eu possa auiar e correger os meus pêra prose- 

20 guir minha emtemçom. Mujto prouue a elRey Dom Fernamdo com serae- 
Ihamtes nouas, e assy disse que daua mujtas graças a Deos por tam boom 
aqueeçimento dar a elRey Dom Joham seu amigo, mas porem que elle 
era ja assy aficado de huúa emfirmidade que tijnha, que duuidaua mujto 
uiuer tamto, porque podesse ueer tamanho prazer podemdo cometer 

25 semelhamte feito. Empero que elle sse faria leuar em huGas amdas ao 
estremo de Portugall, omde lhe rrogaua que elle quisesse chegar pêra 
fallarem ambos mais largamente açerqua de todos seus feitos. E que 
posto que elle morresse em aquella uiagem, o que emtemdia que sse lhe 
nom escusaua segumdo o gramde padecimento que tijnha, que aueria por 

3o muy bera despesa sua uida em semelhamte trabalho. E per esta guisa 
se partio Aluoro Gomçalluez de Vallemça do çide, omde emtam elRey 
estaua, muy comtemte do boom gasalhado que rreçcbera. ca assy elle 
como Joham Escudeiro ouueram delle suas joyas e outras merçees muy 
graadamente, segumdo que elRey era. O quall tamto que Aluoro Gom- 

35 çalluez partio, começou sua uiagem,* mas em. poucas jornadas fez fim A, i[3,r,* 
de sua uida. e de tall guisa foi todo emcaminhado, que primeiramente 

I. pella (bis) A. — 2. cuio A. — 3. boa A. — 4. emfiees A. — 9. assi A. — 14. boa A. 
i5. aproueitaram A, aproveitara I. — 20. muito A. — 21. assi A. — 23. assi A — muy to A. 
— 3o. semelhante A. — 32. contemte A — assi A. 



— 244 — 

ouue clRey as nouas da morte delRey Dom Fernamdo, que Aluoro Gom- 
calluez chegasse a elle. E certamente que a Espanha deuera mujto sem- 
tir a morte de tall primçipe. ca era huú homem de gramdes uirtudes, as 
quaaes o emcaminhauam a gramdes feitos, e elle ficou Iftamte muy 
poderoso e bem amado de todo o pouoo de Castella, quamdo elRey Dom 5 
Hamrrique seu jrma;1o falleçeo deste mundo, homde sse elle poderá 
nomear por rrey se quisera, porque seu sobrinho aaquelle tempo nom era 
mais, que em hidade de dous annos. a quall cousa elle nom quis fazer, 
como quer que lhe mujto rrequerido fosse, dizemdo que Deos numca 
quizesse que elle fezesse cousa, per que seu nome rreçebesse nehuij lo 
prasmo. E assy pos elRey seu sobrinho na cadeira rreall, e o fez rreçe- 
ber por rrey em todo seu rregno. e o rregeo depois com a rrainha sua 
madre muy proueitosamente com gramde comtemtamento de todollos do 
rregno. E elle cercou Antique}'ra, e a filhou aos mouros, e fez mujto 
dano em aquelles rregnos de Graada, em quamto durou em Castella. e i5 
cobrou depois o rregno dAragam, como ja teemos fallado. E sse sse a 
A, ii3,v, 1 a morte nom amtiçipara * de o leuar, nom forom os seus dias despesos 
em outro ofliçio senom na guerra dos jmfiees, cuja emtemçom he de creer 
que seria muy gramde parte de seu meriçimento no outro mundo, ca 
a boÕa uoomtade homde o poder nom abasta, em mujtos lugares he rreçe- 20 
bida por obra. Quatro coroas rreaaes ficarom na Espanha, que sahiram 
da sua primeira geeraçom. e huij meestre de Samtiago, senhor das terras 
do Iftamtado com mujtas e boõas fortellezas em Castella. e o outro filho 
duque de Gamdia com outros mujtos lugares em Castella e em Aragam. 
Mas porque os feitos daquelle rregno em mujtos lugares som tecidos ^5 
com os nossos, fallaremos nos adiamte mais compridamente em todas 
estas cousas. 



Como ho autor falia na gramde mortijmdade, que sse fe{ em os 
mouros naqiielle dia. Capítullo LRij. 



E 



IM todollos liuros estoreaaes custumarom sempre os autores de em- 5o 
memtar assy o numero dos mortos como dos catiuos. mais esto 
nom emtemdemos que sse possa fazer geerallmente em todollos 
lugares, porque os uemçedores em tall tempo sempre trazem mayor cui- 
A, ii3,v,2 dado* de apanharem o despojo dos jmmijgos, que comtar per pessoa os 



G. tnumdo A. — 16. despois A — daragom A. — 17. antiçipara A. — 20. boa A. 
20-21. rreçibida A. — aS. boas A — 24. muytos A — aragom A. — 25. da quell A. — 
28. grande A. — 3 1 . assi A. — 34. emmijgos A. 



— 245 — 

que jazem mortos no campo. Bem pode seer que sse possa jsto fazer por 
os capitaães dos uemçidos, os quaaes per os liuros dos seus allardos que- 
rem mujtas uezes auer conhecimento de sua perda, ou seemdo tam poucos 
mortos que os possam os uemçedores ligeiramente comtar. cujo numero 
i nos em este feito numca podemos certamente saber, porque huús forom 
que disseram, que eram mortos çimquo mill. outros fallaram mais larga- 
mente, e disseram dez mill. outros poseram o comto em dous mill. e 
assy amdaram errados em seus comtos, que nos nom queremos determi- 
nadamente escpreuer nehuú delles. leixamdo este juizo aaquelles que 

10 teuerem descriçom, comssijramdo que omde o feito amdaua per tall guisa, 
quall seria a fim dos jmmijgos amtre aquelles, cuja pelleia era per desi- 
gual! comparaçam em duas maneiras. A primeira, por quamto os chris- 
taãos eram todos armados, pouco ou mujto cada huú em seu estado, e a 
segumda a uitoria que os nossos cobraram, e a natureza comssemte que 

i5 os corpos postos em desauemtura siguam mais ligeiramente os medos, 

que* aquelles que a fortuna mostra ho comtrairo sembramte. E quamto A, ii4,r. 1 
os uitoriosos semtiam mais fraqueza nos uemçidos, tamto faziam em elles 
mayor dano. por cuja rrazom foi feita em aquelle dia gramde mortijm- 
dade, a quall jazia espargida per todallas ruas da cidade, ca posto que 

20 alguús matassem nas casas, como de feito matauam espiçiallmente molhe- 
res e moços pequenos, quamdo foy açerqua da noute, cada huú como os 
achaua na pousada, posto que a casa fosse sua na uida, muy asinha os 
lamçauam fora delia, nom sse comtemtamdo de os rreçeber por aquella 
noute em sua companhia. Empero com gramde allegria albergauam os 

25 mouros, huús polia esperamça que tijnham do gaanho, que auiam dauer 
por seu rresgate. outros pollo seruiço que delles esperauam. e assy que 
todallas rruas jaziam acompanhadas daquelles mortos, cada huú com 
aquella jazeda, em que o a sua derradeira uemtura leyxara, saluo alguús 
cujas rroupas faziam cobijça aos christaãos, per que os tirauam delias. 

3o e os primçipaaes lugares em que esta mortalha jazia ass}', era naquellas 

rruas açerqua do castello, homde sse o Iftamte * Dom Hamrrique acertara A, 1 i4,r,2 
com aquelles seus, como ja dissemos. Oo como nos outros arripiamos 
nossas carnes, quamdo per açidemte ueemos alguú homem morto amte 
nossos olhos, e estamos esmoreçemdo sobre elle, marauilhamdonos do 

35 desuayro de sua comtenemça. e uem a nos huú mordimcnto de piedade, 
posto que na sua uida lhe ouuessemos ódio. Pois uos outros diz o autor, 

I. isto A. — 9. deixamdo A, leixamdo I. — 11. fym A. — 12. xpaãos A. — 17. uitu- 
riosos A. — 21. noite A. — 23. comtemtando A. — 24. noite A.— 25. pelia A — 29. xpraãos A. 
— 3o. prinçipaaes — mortualha I — assi A. 



— 246 — 

que amdauees alli, porque uos nom fartauees doolhar a semelhamça 
daquelles, que per força de uossos goUpes perdiam as uidas. os quaaes 
jazemdo em terra nom podiam dereitamente seer conhecidos, e tamto 
eram atormemtados das feridas, que nom dauam nehuG uagar aas almas 
pêra sayr das carnes, e taaes sse lhe partiam os spiritos apressados, que 5 
lhe leixauam as caras tam feas, que uerdadeiramente arremedauam a 
semelhamça dos amjos jmfernaaes. cuja fera e áspera companhia elles em 
breue tempo auiam de conhecer. Nem creaaes que a todos geerall- 
mente a morte leixaua huú jeito de jazeda. ca huús jaziam com os corpos 
temdudos e as maãos apertadas e os demtes fechados, outros jaziam 10 

A, ii4,v, I com os focinhos sobre a terra, emburilhados no seu* samgue meesmo. 
outros com os corpos embuizados, apertamdo com seus punhos a rroupa 
que traziam, outros jaziam assy espedaçados, que homem nom poderia 
dereitamente julgar quall fora primeiramente sua queeda. taaes hi auia 
que os gollpes primeiros nom eram tam feros, como o trilhamento dos i5 
uiuos, quamdo sse açertaua de sse rreuolluerem com os pees sobre elles. 
Pouco prestauam alli os falissos prometimentos das torpes deleitaçoÕes, 
per que aquelle uelhaco profeta primeiramente jmduzio aqueile simprez 
pouoo. ca os primçipes jmfernaaes emuiarom alli gramdes aazes de suas 
companhas jmuisiuees, que com muy gramde trigamça arramcauam as 20 
almas daquelles mezquinhos, e as leuauam com gramdes aliegrias pêra 
aquelle eternall catiueyro, homde em preço da esperada luxuria lhe apre- 
scmtauam caras tristes e espamtosas, nas quaaes pêra sempre comtinua- 
damente ham de comtemplar. e assy todalias outras duçuras pagadas 
por triste preço. E por quamto a luúa fora noua nos primeiros graaos 25 
do signo dArias, seguia a sua claridade as primeiras oras da noute. e com 
esto era necessário que as gemtes fossem dhuúas casas pêra as outras 

A,ii4,v,2 uisitar seus amigos* e buscar suas necessidades, anoiauamsse fortemente 
com a uista daquelles mortos, espiçiallmente porque mujtos delles jaziam 
tam feos, que na meetade do dia traziam auorrimento. e sobre todo 3o 
ajmda sse açertaua que alguús delles nam eram de todo mortos, e tijnham 
seus membros cortados, e depois que os leixaua alguiã pouco a door, 
prouauam de sse leuamtar com as caras cheas de samgue e de poo, com 
que acreçemtauam mujto mais sua fealldade. E porem com todollos 
trabalhos do Iftamte Dom Hamrrique nom lhe esqueeçeo o cuidado 35 
daquelle feito, e emuiou a seu padre huú escudeiro a preguratarlhe que era, 

4. atormentados A. — 7. anjos jnfernaaes A. — 12. embuizados I. — i3. assi A. — 
14. iulgar A. — 16. rreuoluerera A. — 17. falssos A. — 20. jnuisiuees A. — 28. amjgos A. 
— 29. muytos A. — 32. despois A. 



— 247 — 

o que sse faria daquelles mouros, a quall cousa lhe elRey mujto gradeçeo. 

e disse que pois elle dello teuera tall nembramça, que lhe emcomemdaua 

que teuesse cuidado de mamdar aaquella gemte que os leuassem ao 

mar. sobre a quall cousa foy huúa rreferta, porque elles deziam que 

os mareamtes deuiam teer tall cuydado, e os outros deziam que nom. 

empero a quallquer delles que perteeçesse, a cidade foi liure per a guisa 

que elRey tijnha mamdado. E assy do numero dos mortos nem dos 

catiuos, nom poemos certo termo poilo que dito he. mas dos christaãos 

* sabemos certamente que morreram oito em aquelle dia. conuem a saber B, i33, r,2 

çinquo aa porta que Vasquo Fernandez britou e dous dentro na cidade. 

contando hy Vasquo Fernandez dAtaide e mais o alferez de Dom Anrrique. 



Como os mouros no outro dia olhauam os muros de Cepta^ e das B, iJ4,r, i 
rreioóes que deliam em seu louuor. Capitullo LRiij. 

COMO a noite foy trazendo a fim de sua escoridade e o sol começou 
de ferir no oriental orizam. os mouros que sairam da cidade 
tomaram suas molheres e filhos e ieuaramnos pêra cima de serra, 
onde as leixaram acompanhadas daquelles que por rrezam de sua velhice 
nom podiam jnteiramente mandar seus nembros. todollos outros rrijos 
e poderosos pêra pelejar se vieram caminho da cidade com entençam 

20 de tornarem aa escaramuça com os christaãos pêra os tirarem fora dos 
muros pensando que alli aueriam com elles milhor dereito. Mas os 
outros que ficauam sobre a serra assentados sobre os penedos nom 
podiam partir seus olhos das torres da cidade, onde começauam de con- 
sirar como tam pouco tempo auia que estauam em suas casas e em 

25 tamanho rrepouso. abastados de grandes *rriquezas, e agora que se viam B, i34,r,2 
pouoradores dos montes hermos fazendo vida pouco menos de bestas, e 
desy começauam de olhar o assentamento da cidade e fremosura de 
suas mizquitas. desy a ordenança das casas com todallas outras cousas 
e bondades de sua terra. E per ventura auia hy tal que numqua com 

3o tamanha femença esguardara onde viam os seus muros cheos de gentes 
estranhas, e com estes pensamentos a taaes e outros semelhantes lhe 
sobreuinham grandes choros, e ora culpauam seus santos, ora Cala ben 
Cala. dizendo que fora preguiçoso e couarde em sua defensa, outra 

2. emcomendaua A. — 5. diziam A. — 9 morrerom A. — 14. tragendo D. — 17. hom- 
de D. — 18. podia B — nembros D, membros B. — 20. xpaãos B. — 27. desi B — assen- 
tamento I, satamento B — fermosura B. — 3o. fememça D, fimença B — homde D. — 
3o-3i. Çalla bem Çalla D. 



— 248 — 

vez culpauam seus ofiçiaaes e aquelles que primeiramente abriram suas 
portas pêra hirem peleiar. ora culpauam sua maa ventura ate que nam 
achauam jaa outrem a que posessem mais culpa, e entam começauam 
huús cantares de palauras muito tristes louuando as bondades de sua 
cidade. O deziam elles cidade de Cepta frol de todalas outras da terra 5 
dAfrica. onde acharam os teus moradores terra em que façam outra 
semelhante, ou como poderam elles consentir que as suas vontades 
se nom agastem com tamanha perda, onde acharam daqui adiante os 
mouros estranhos que vinham de Ethiopia e de Alexandria e de terra 
de Siria e de Barbaria e de terra de Assiria que he o rregno de 10 
Turcos, e os do oriente que uiuem aalem do rrio de Eufrates e 
das índias, e doutras muitas terras que sam aalem do exo que estaa 
ante os nossos olhos todos estes vinham a ti carregados de tantas 
e tam rricas mercadorias. Onde acharam elles outro logar semelhante 

A, ii6,r, ( em que possam* lamçar suas amcoras, ou nos outros mezquinhos homde i5 
hiremos morar, que sciamos uisitados de tamtas e tam nobres cousas. Por 
certo ja na rredomdeza do mundo nom fica outra semelhamte. cuja perda 
nom soomente será semtida de nos que a perdemos, mas de todos 
aquelles que naçerem do uemtre de Agar, ou que uiuerem sob a diçiplina 
do nosso samto profeta Mafamede. Que faram agora os moradores de 20 
Giballtar e assy todollos outros do rregno de Graada, ca perdido he o 
seu acorro e o seu emparo. E nos desauemturados, que faremos de 
nossos filhos e filhas que tijnhamos casados daquella parte, das quaaes 
nos partíamos em huú dia, e naquelle meesmo tornauamos pêra nossas 
casas, agora ja acabamos de as ueer pêra todo sempre. Quaaes joyas lhe 25 
mamdaremos. que tragam nas suas gramdes páscoas, ou por homde nos 
uijram seus rrecados como soyam. acabadas ssom ja. e assy choremos a 
sua perda, como sse as teuessemos postas nas sepuUturas. Quaaes de 
nos acharam agora, quamdo sse alleuamtarem das suas camas, as bestas 
carregadas dos panos da seeda, que nos uijnham da cidade de Damasco. 3o 

A, 116, r, 2 ou as casas cheas * de pedras preciosas dos da cumunidade de Veneza, 
ou os gramdes sacos da especiaria, que nos uijnham dos desertos da 
Libia. e que rriquezas ou nobrezas poderíamos nos nomear, que nos 
cada dia nom achássemos amte as portas de nossas logeas. ou quall nauio 
poderia correr per todo o mar medeoterrano, que nom mesurasse suas 35 

2. pelejar B. — 3. posesem B. — 8. homde D. — y. uinham B — dalexamdrya D. — 
10. Siria I, lx° B — regno B. — 12. aliem do exo D, alem do eyxo C. — 14. homde D 

— acharom B, acharam D. — 17. mumdo A. — 20. mafomede A D. — 21. gyballtar A 

— assi A. — 22. desauenturados A. ^ 25. as] os I. — 27. acabados I — assi A. — 3i. dos I, 
os A D. 



— 249 ~ 

uellas amte a gramdeza da nossa cidade. Nos éramos conhecidos nom 
soomente anitre os mouros, mas na mayor parte da ciiristijmdade. ca 
todos nos auiam mester, e todos nos buscauam. nom tam soomente os 
amigos, mas ajmda os jmmijgos nom nos podiam escusar. E sse te tu 
5 nom comtemtauas cidade de Cepta dos teus próprios moradores, porque 
nom mamdauas chamar outros por toda a terra dAffrica, que te uiessem 
pouorar. ca assaz acharas hi delles. E sse quer tamto nos fezesses ora 
em gallardom de quamto bem em ti fezeram nossos amteçessores. 
porque ao menos nos ficara poder pêra uijrmos uisitar as tuas sagradas 

10 mezquitas, homde ssom as sepuUturas de nossos padres, e teueramos A, ii6,v, i 
liçemça demtrar nas nossas casas, e nom fora tamto o nosso mall,* quamdo 
as uiramos pouoradas da gemte da nossa ley. mas trouxeste aqui os 
nossos jmmijgos do cabo do mundo, porque timgissem as suas maãos 
do samgue dos teus çidadaãos. Nom tijnhas tu forteileza de muros, em 

i5 que nos poderamos deflemder, ataa que fôramos acorridos dos outros 
lugares de nossa comarca. Pois que mall foy este tamanho, porque te 
tam asinha leyxaste soiugar aaquelles que te numca conheceram nem 
sabiam, nom foy isto por certo com raimgua de tua forteileza. ca muros 
e torres teês tu darredor de ti feitos per gramde meestria. e o teu 

20 alcácer nom era elle feito de terra mouediça, nem de pedra emssossa, 
que sse poderá derribar do primeiro combate, mais feito de muy fremosa 
camtaria liado com muy forte betume dargamassa. e as torres muy 
bastas e dereitas com todollos outros lauores, que sse a huúa proueitosa 
forteileza rrequerem. e o teu assemtamento era assy aazado pêra gramde 

25 cidade, quall nom auia outra semelhamte des a boca do Estreito ataa o 
porto de Jafa, que he o postumeiro do mar medeoterrano. E por certo 
deziam elles, nom podemos dereitamente dizer que a tua boomdade te A,ii6,v,2 
derribou, agora* he ja acabada a emueja que nos nossos uezinhos auiam. 
Mezquinhos de nos, que proueito fazemos agora sobre nossa uelhiçe 

3o amdar per terras estranhas, melhor nos seria aguardarmos nossa fim em 
esta terra que nos criou, e que rreposta daremos aaquelles que nos 
preguntarem como perdemos nossa cidade, senam que a leixamos como 
uijs çidadaãos. A lomga hidade que gasta todallas cousas, e as rrenem- 
bramças delias, nom poderam tirar damtc o conhecimento dos homeés a 
memoria de tamanho feito, a quall sempre uiuera em nosso doesto. 



2. spistijmdade A. — 4. emmijgos A. — 5. contemtauas A. — 6. dafrica A. — i3. mum- 
do A — timgessem A. — 24, assi A. — 28. nos] na margem A. 



25o 



Como os outros mouros se uieram açerqua da cidade, e da escara- 
muça que irauaram com os christaãos, e como o Iffamte Duarte 
sayo a elles. Capitullo LRiiij. 

--0M tijnham os outros mouros que sse uieram açerqua da cidade 
semelhamte ocupaçom, amte era todo seu deseio de tirarem os b 
christaãos mais alomgados da cidade que podessem, segumdo ja 
dissemos, e porem chegaromsse assy tamto, como bem podiam estar 
seguros da beestaria que estaua sobre os muros. As quaaes nouas che- 
garom aos Iftamtes, cada huú em sua parte, e o Iffamte Dom Hamrri- 
que estaua ouuymdo missa naquella mezquita que ora de Samtiago. lo 

A,ii7,r, I * tamto que aquelle offiçio foi acabado, mamdou que lhe trouxessem huú 
cauallo. o que creemos que pouco mais auia hi, pollo quall lhe era nece- 
ssário que esperasse, porque -doutra guisa nom poderá fazer nehuúa 
cousa por rrezam das feridas que tijnha nas pernas. E chegamdo ass}'^ 
aa porta de Feez, homde sse deçeo pêra hir acima da torre ueer o que i5 
os mouros faziam, e estamdo elle assy em cima da torre como dito he, sobre- 
chegou o Iffamte Duarte, e cauallgou sobre o cauallo de seu jrmaão. e 
sahio fora, dizemdo que dissessem ao Iffamte Dom Hamrrique, que ouuesse 
paçiemçia por aquella uez. ca elle queria hir ucer a teemçom daquelles 
mouros. E tamto que assy foi fora, jumtousse mujta gemte com elle, e 20 
ordenou suas batalhas, as quaaes teue assy hordenadas huú gramde pedaço, 
ataa que uio que os mouros nom queriam deçer pêra pelleiar. E por emtom 
nom sse fez alli ali que de comtar seia, senom tamto que o jmgres 
criado da rrainha, que chamauam Inequixius Dama, queremdo fazer 
auamtagem amtre todollos outros, leixou a hordenamça, e foi pelleiar 25 
com os mouros, por cuja rrezam foi alli morto. E porque estas ssom 

A, ii7,r,2 cousas de pequena sustamçia, nom queremos comtar mais * largamente 
suas partes. Outra uez sse ajumtaram aquelles meesmos e outros mujtos 
mais, que uieram de fora. as quaaes nouas chegaram ao Iffamte Duarte, 
e elle assy como lhe tijnha boom deseio, fezesse logo prestes pêra hir a 3o 
elles. e assy o coradestabre que sse acertou dauer semelhamte rrecado. 
E estamdo assy o Iffamte e o comde com elle, acompanhados de mujtos 
senhores e fidallgos com emtemçam de sahirera pêra pelleiar com os 
mouros, e em esto sobrechegou elRey, e mamdou a seu filho que sse 

2. xpaãos A. — 5. semeltiamte] de semelhamte A. — 6. xpaãos A — ia A. — 7. assi A. 
10. sam tiago A. — 12. poucos I — pelo A. — 14. rrazam A. — i5. ffeez A. — 16. assi A. 
20. gente A. — 21. assi A. — 22. atee A. — 24. Iniquixius I. — 26. rrazom A. — 3o. assi A 
— fezse I. — 3 1 . assi A. — 32. assi A. — 34. mandou A. 



25 I 

tornasse logo pêra a cidade, ca elle nom uiera pêra amdar todo o dia 
em escaramuça com os mouros, as quaaes eram cousas ssem fim com 
pequena auamtagem de sua homrra. e assy sse tornarom todos por aquella 
uez. E em homze dias que elRey alli esteue, depois que a cidade foi 

5 tomada, cada dia os mouros alii uijnham, e os christaãos sabiam a elles. 
homde trauauam suas escaramuças, em as quaaes morriam alguús, como 
sse faz comuúmente homde sse trauam taaes cousas. E por ora nom 
queremos fazer maj^or detijmento, porque achamos que ssom cousas de 
baixo uallor. cujo rrecomtamento traz pequeno fruito. e queremos leuar 

IO esta gemte a Portugal!, porque* mujtos delles querem ajmda tornar a A, hj.t, i 
fazer suas uimdimas e aproueitarsse de seus fruitos, segumdo a desposi- 
çom do tempo. 



Como elRey mamdou chamar o seu capellam moor, e das rreioóes 
que lhe disse. Capitullo LRv. 

i5 A ^ sesta feira seguimte que eram xxiij dias do mes, mamdou eIRey 

l\ chamar o meestre frey Joham Xira e Affomsso Eannes seu capellão 

•^ ^ moor, e disselhes. Domimgo prazemdo a Deos, eu emtemdo de 

hir ouuir missa sollene e preegaçam aa mezquita mayor. porem teerees 

cuidado de ajumtar todollos capellaães de meus filhos, e quaaesquer 

20 outros clérigos, que uenham em minha frota, e assy mamdarees fazer 
prestes todollos corregimentos pêra a capella, que mester fezerem pêra 
semelhamte auto. E logo no outro dia o capellam moor foy ueer aquella 
mezquita, e achou que lhe compria ck seer limpa, ca posto que ella fosse 
muy bem ladrilhada acerca do chaão, jazia em ella gramde multidam 

25 desterco. e esto era por rrezam das mujtas esteiras uelhas e podres 

que era ella jaziam, por quamto os mouros quamdo fazem* sua oraçam, A, 117, v,2 
mujtas uezes jazera em terra e outras uezes estam descalços, lamçara 
assy aquellas esteiras por rrezara da frielldade. e segumdo parece, que 
depois que a primeira esteira que alli lamçarara apodreçeo, nom a quiseram 

3o tirar, e lamçaram outras sobre ella. e assy fezeram sempre ataa aquelle 
tempo, de guisa que as primeyras esteyras eram saãs, e todallas outras se 
moeram jazemdo, per tall guisa que eram tornadas em esterco, por cuja 
rrezam em aquelle sábado forom jumtadas mujtas emxadas e cestos, com 
que lamçaram toda aquella esterqueyra fora. e alimparam muy bem toda 

1. loguo A. — 3. auantagem A — assi A. — 16. alTomsseannes A. — 24. muj A. — 
28. assi A. — 3o. assi A — ataaquelle A. — 33. foram A. 



252 

a casa. e trouxeram lii jsso meesmo liuúa tauoa iarga pêra o altar com 
seus pees. e per semelhamte todollos outros corregimentos, que pertee- 
çiam pêra aquelle offiçio do dia seguimte. No outro dia mujto cedo 
forom jumtos em aquella casa todollos clérigos, que uijnham em aquella 
companha, os quaaes todos jumtos faziam huú fremoso collegio. e foy 5 
assy que aaquelle tempo nom sse acertou alli nehuij bispo, porque 
naquelle emsseio que sse a armada fez, huús morreram, outros estauam 
em seu estudo, outros eram em corte de Roma. e assy per açertamento 

A, ii8, r, I nom foy alli nehuú. empero sua presemça * nom foi alli mujto necessária. 

ca assaz auia hi de clérigos bem sofiçientes pêra acabarem aquelle offiçio. lo 
E porem tomaram logo mujtos daquelles clérigos suas capas muy rricas, 
de que hi auia assaz, e o preste jsso meesmo com seu diácono e sub- 
diacono, teemdo prestes sua calldeyra com agua e sall pêra fazer seu 
offiçio. E em esto chegou elRey e seus filhos com elle. e assy ho com- 
destabre e o meestre de Christo e o prioU "do Espitall com todollos )5 
outros baroÕes e rricos homeés, e gramdes senhores que alli eram. os 
quaaes todos eram uestidos muy rricamente por homrra de tamanha 
festa. E emtom começou aquelle sacerdote primeiramente a fazer suas 
escomjuraçoões sobre o sall, dizemdo sobre elle huúa oraçom que sse 
rreza em na samta madre egreia, cujas pallauras dizem assy. Piadosa- 20 
mente te rrogamos todo poderoso Deos, que polia tua imfijmda clememçia 
queiras beemzer e samtificar esta creatura deste sall, a quall te prouue por 
tua samta merçee dar por bem e saúde da humanall geeraçam. E per 
semelhamte guisa foy feito a agua, que estaua em huija calldeyra de prata. 
e amtre tamto os outros sacerdotes camtauam huúa amtifana que diz. 25 

A, ii8,r,2 Fumdada he a casa do Senhor sobre todalias altezas* dos montes, aa quall 
uijnram todalias gemtes dizemdo, gloria seia dada a ti nosso Senhor. 
E emtom começou o preste outra oraçom, em que disse as seguimtes palla- 
uras. Todo poderoso Deos, que em todo lugar he o teu poderio e obra, 
como a ti praz. emclina tua uoomtade aas nossas sopricaçoões, porque 3o 
esta casa que ora nouamente he fumdada no teu nome, seia per ti guar- 
dada por tall, que a malldade de nehutj poderio a possa comtrariar. mas 
o Spirito Samto obrador, que faça sempre em ella obrar puro seruiço e 
deuota liberdade. Dizemdo assy outras oraçoões, ataa que ajumtou o 
sall e agua. E esto assy acabado tomaram as cortinas, e começaram de 35 
as armar, e desi assemtaram o altar em seu lugar, que era huúa muy 

4. foram A. — 6. asy A — aaquele A. — 7. emsseio] asseio A. — i3. caldeyra A. — 
i5. xpõs A. — 21. jnfijmda A — clemência A. — 24. caldeyra A. — 25. cantauam A — 
húa A. — 26. ffundada A. — 27. todas as A. — 3o. enclina A. — 33. spiritu A. 



— 253 — 

fremosa cousa de ueer a rrepartiçam daquellas cousas, como amdaua 

. tam ordenadamente per todos aquelles clérigos, ca huti trazia huúa sarja, 
e ho outro o cordell e os pregos pêra armarem, e assy todallas outras 
cousas hordenadamente, ataa que o altar de todo foy assemtado, sobre 
5 o quall foy feito o sinall da cruz com agua beemta, dizemdo. Paz seia 
comtigo. E depois se forom assy espargemdo sua agua per as paredes 
da jgreia, começamdo nas partes do Ouriente * assy çercamdo toda aquclla A, ii8,v, t 
casa darredor. e amtre tamto os outros clérigos camtauam. Esta he a casa 
do Senhor Deos, a quall he bem fumdada sobre firme pedra, leuamtesse 

IO o Senhor, e destruya os seus jmmijgos, por tall que fujam todos aquelles 
que auorreçeram aa sua face. Dizemdo ajmda. A minha casa sse cha- 
mara casa de oraçam. rrecomtarey o teu nome aos meus jrmaãos, em meo 
da tua egreia te louuarey. E assy forom dizemdo suas oraçoÓes e amtifa- 
nas, ataa que chegaram aa fim da sua beemçam, que cobriram o altar 

i5 com lemços muy delgados e aluos, sobre os quaaes poseram a ara 
sagrada com seus corporaaes. e assy poseram naquelle altar huú muy rrico 
fromtall, açemdemdo per toda a casa mujtos çirios e tochas. Oo quamto 
me parece, que seria em aquelle dia leuamtado o coraçam delRey pêra 
dar mujtas graças ao Senhor Deos, uemdo o seu estado rreall posto em 

20 semelhamte casa com tamto louuor e liomrra do samto nome de Jesu 
Christo, e acreçemtamento da rreallidade da sua coroa. Nem aos outros 
nom era pequena follgamça ueer semelhamte feito, ca leixamdo a homrra 
em que todos tijnham tamanha parte, foUgauam de ueer a hordenamça 
daquelles estados com toda a nobreza das outras cousas,* que sse alli A, ii8,v,2 

35 faziam. E esto assy acabado, começaram todollos clérigos em alta uoz 
Te Deum laudamus muy bem comtrapomteado. em fim do quall fezeram 
todallas trombetas huúa sonada. e ueede queiamda seria, homde passauam 
de duzemtas. 



Como o meestre frey Joham Xira preegou, e como os Iffamtes forom 
3o feitos caiialleiros. Capitullo LRvj. 

BEM mostrou o Senhor Deos que queria seer seruido em aquella casa, 
que com tamta homrra sse corregia no seu nome. e esto he 
porque em todallas egreias per hordenamça apostollica deuem 
seer postos synos, com que chamem o pouQO de Deos pêra a sua samta 

6. foram assi A — espargendo A. — 7. assi A. — 10. fugam A. — 11. aborrecem I. — 
i3. foram A. — 16. assi A. — 20-21. Jhú xpõ A. — 25. fazia A — assi A. — 29. e] om A — 
foram A — 3i o I, no A. 



-254- 

casa. E estamdo assy em aquelle corregimento, nembrou ao Iffamte Dom 
Hamrrique como em outro tempo os mouros leuaram de Lagos dous 
sj'nos pêra aquella cidade, e mamdou logo que sse buscassem com muy 
gramde dilligemçia, e que os trouxessem logo alli. Os quaaes prouue a 
Deos que forom achados, e corregidos per tall guisa, que logo em aquella 5 
missa seruiram de seu ofiiçio. Ho meestre preegou alli huiãa preegaçam 
com mujtas autoridades da samta escpritura, aprouamdo ho gramde ser- 
uiço que nosso Senhor Deos rreçebera em aquelle feito, dizemdo que 

A, ii9,r, I * todos poderiam dereitamentc dizer o seu tema .s. que em Cepta era 

toda gloria e homrra. Gloria disse elle, sse toma per mujtas guisas, 10 
porque cada huií cobramdo aquella cousa, em cuja bem auemturamça 
tem posta sua fim, propriamente lhe parece que teem a perfeiçam da 
gloria, empero fallamdo dereitamente, em duas cousas soomente esta a 
perfeiçam da gloria .s. na bem auemturamça que perteeçe a alma, a 
quall sobre todallas outras cousas he a perfeiçam. e segumdo a gloria 15 
he a homrra deste mundo, quamdo a os homeés percalçam, cobramdo 
per husamça dalguúa uirtude a uitoria dalguúa cousa trautada ou come- 
tida a fym dalguú bem. E pêra seer aquella que deue, sempre o seu 
rrespeito deue de comsseguir o seruiço de Deos, ssem o quall nom 
deuemos comtar nehuua cousa por boõa. ca os fillosofos amtijgos, pêro 20 
que gemtios fossem, departimdo a gloria em mujtas maneiras, disseram 
que huúa das cousas por que o homem em este mundo rreçebe mayor 
gloria, assy era por sse marauilharem os outros das suas uirtudes e boom- 
dades, auemdoo por digno de gramde homrra. E ajmda ho autor do rre- 

A,ii9,r,2 gimento dos primçipes, na primeira parte* do seu primeiro liuro, depar- 25 
timdo a bem auemturamça em mujtas maneyras, finallmente comcludio 
que todollos primçipes e gramdes senhores na bem auemturamça da alma 
deuem pocr toda sua fim, da quall dereitamente naçe homrra, que aos 
homeés he dada neste mundo, porque a homrra nom sse da ssenam por 
rrezam de uirtude. Ora ueede sse he assaz de gloria pcra elRey nosso 30 
senhor, e pêra todos uos outros seus criados e naturaaes, ueerdes oje per 
força de uossos trabalhos edificar huúa casa aa homrra e louuor de nosso 
Senhor Deos. ca posto que lhe uos nom fezessees as paredes de nouo, 
mujto mayor merecimento he a uos, tirardella de poder dos jmfiees, domde 
primeiramente estaua sogeita aos maaos e abominauees sacrifícios, per 35 
exemplo daquelle Senhor, que as mesas dos cambadores derribou, e os 

I. lembrou A. — 5. foram A. — 12. da I, de A. — i5. e segumdo a gloria] a segumda 
gloria I. — 16. murndo A. — 20. boa A — antijgos A. — 23. assi A. — 29. mumdo A. — 
34. jnfiees A. 



— 255 — 

que uemdiam as poombas lamçou com azorragues fora do seu samto 
templo, mostramdo a nos que deuemos com toda nossa força trabalhar, 
por as suas samtas casas nom seerem corrompidas per nehuú maao 
sacrifício, e nom tam soomente aquelias que forom da nossa le}', mas 
5 a todallas outras, em que os jmfiees fazem seus sacrifícios, deuemos de 

quebramtar ou tornar em moesteiros e jgreias*, se o bem podessemos A,ii(),v.i 
fazer, e em esto mostraríamos sinall de uerdadeyros seruidores de Christo. 
Porque a Mousem, que foy huú homem que eile mujto amou, mam- 
dou primeiramente na uelha ley, que fezesse tall tabernáculo, que era 

IO como huúa temda, em que faziam os filhos disrraell ortiçam e sacrifício 
a Deos. e depois rrei Sallamam a ssemelhança desto fez o templo de 
Jherusalem, que foi outrossy a primeira casa doraçam que os Judeus 
ouueram. e dalli em diamte husaram elles de fazer casas, em que orassem 
e fezessem seus sacrifícios, que ssom chamadas sinagogas. E outrossy os 

iS christaãos fezeram na noua ley jgreias a ssemelhamça do templo, em que 
fezessem limpamente o sacrifício uerdadeyro de nosso Senhor Jesu 
Christo. e rrogassem a Deos, e lhe pedissem merçee, e que lhe perdoasse 
os seus peccados. E pois uos teemdes feito o uerdadeyro templo e uer- 
dadeira casa a nosso Senhor, na quall cousa o seruistes em duas guisas. 

20 a primeira em quamto lamçastes desta cidade os maaos jmfiees, e os 
tirastes da posse de seus templos, que ssom as suas mezquitas. e a 
segurada em quamto tornastes aquella meesma casa em templo uerda- 
dej^ro, que* he a jgreia de nosso Senhor. E ajmda comtemplamdo açer- A, n9,v,2 
qua dello, acho que des o fumdamento desta cidade teue o nosso Senhor 

25 Deos hordenado de seer aqui posta a cabeça da jgreia de toda a terra 
dAffrica. porque per duas guisas sse comtem em o nome desta cidade a 
uerdadeyra essência do nosso Senhor Deos. A primeira em quamto o 
seu nome comtem em ssy três sillabas, que rrepresemtam como nosso 
Senhor Deos em perssoall ternário he sua essemçia em noda escprita. cujo 

3o çemtro segumdo diz Hermes, he em todo lugar, a circumferemçia nom he 
em alguú. E porem som três ternários em geerall uniuersidade do mundo, 
compridos de todo em çircullaçom. Ho profumdo fíllosofall theologo 
gramde Alberto sobre o primeiro capitullo da çelestriall gerarchia poõe 
três graaos demtemdimento, per que sse ha de conhecer Deos. A segurada 

35 maneira he, porque em o nome desta cidade se comtem cimquo leteras, 
que rrepresemtam as çimquo chagas, per que nosso Senhor Jesu Christo 

4. foram A. — 7 xpõ A. — 8. a Mouses I, amou sem A DC. — 11. despois A — seme- 
lhança I, semelhamte A. — i.S. xpaãos A. — 16-17. JhC xpõ A. — 20. emfiees A. — 
23. ajnda A. — 26. contem A. — 3i. mumdo A. — 36. JhQ xpõ A. 



— 256 — 

rremyo a linhagem humanall. E assy que nom he a Cepta pequena 
gloria, quamdo o seu nome traz laaes sinificaçoões. Cobrastes ajmda a 

A, i2o,r, i segumda maneira *de gloria, que he a homrra deste mundo, cuja perfei- 
çam esta naquelle decorum, a que os Gregos disseram prepain, que quer 
dizer em nossa dereita limguagem, fremosura das obras. Em uerdade ; 
assaz de fremosa obra he, cujo nome em todo tempo será gramde, filhar 
assy huúa tamanha cidade em tam breue espaço, e tam alomgada de 
nossa terra, e fica pêra os letereiros de uossas sepullturas huúa tall palla- 
ura, quall mujtos per uemtura deseiaram. E os autores das estorias nom 
poderam callar a gramdeza de tamanho feito, ca certamente nom será lo 
a uos pequena gloria, quamdo pemssardes que depois de uossos dias o 
uosso nome e a fama de uossos feitos amtre todallas presemças dos 
uiuos. e nom tam soomente amtre os homeés de nossa geeraçam, mas 
per todallas partes do mundo uoara a uossa fama. ca assy como a uos 
trouxeram os feitos, que sse fezeram em Itallia e em Lombardia e em i5 
outras partes, nos quaaes ueedes os nomes daquelles que numca uistes 
nem conhecestes, e louuaaes os seus boÕs feitos polia escpritura que 
delles leedes. o que deuees de creer, que nom menos faram de uos 

A, i2o,r,2 pollo meriçimento de uossas obras, e assy* comcludo que Cepta he a 

perfeita gloria e homrra. E per esta guisa fez o meestre fim de sua 20 
preegaçam. Nom seia porem alguií de tam simprez conhecimento, que 
presuma que este he o próprio theor daquelle sermam. ca boom he de 
conhecer que nom ha nenhuíí homem por emtemdido que fosse, que 
podesse tomar todallas pallauras de huiia preegaçam. quamto mais 
seemdo tamto tempo passado como ja dissemos, soomente apanhamos 25 
assy alguúas cousas, que podemos percallçar pêra acompanharmos nossa 
estoria. Depois que a missa foy acabada, os Iffamtes se forom pêra 
suas pousadas armar, e assy todos jumtamente uieram aa jgreia, a quall 
cousa era muyto fremosa de ueer. ca elles auiam todos gramdes corpos 
e bem feitos, e uijnham armados em seus arneses muy limpos e guarni- 30 
dos. e com as espadas da beemçam çimtas. e suas cotas darmas. e amte 
elles hiam mujtas trombetas e charamellas, de guisa que nom sey homem 
que os podesse ueer, que nom tomasse muy gramde prazer, e mujto mais 
aquelle que com elles auia mayor diuido, que era elRey seu padre. E 

A, i2o,v,i tamto que chegarom amte elie, o Iffamte Duarte* sse pos primeyramente 35 
em joelhos, e tirou a espada da bainha e beyioua, e meteoa na maão a seu 
padre, e fezeo com ella caualleyro. e per semelhamte guisa fezeram seus 

I . a I, o?/j A. — 8. uossa I. — 12. antre A. — 14. mumdo A — assi A. — 1 5. ytallia A. 
— 27. despois A — Iffantes A — foram A. — 33. nam A. — 36. giolhos I — beyjoua A. 



— 257 — 

jrmaãos. E esto assy acabado beyiaromlhe a maão, e afastaramsse pêra 
huúa parte cada huú pêra fazer os de sua quadrilha caualleiros. Mujto 
me pesa porque nom pude saber os nomes daquelles, que alli rreçeberam 
bordem de cauallaria. empero dalguús que apremdi .s. o Iffamte Duarte 
fez caualleiro o comde Dom Pedro, e Dom Fernamdo de Meneses, e 
Dom Joham de Loronha. e Dom Hamrrique seu jrmaão. e Pêro Vaaz 
dAlmadaã. e Nuno Martimz da Sillueira. e Diego Fernamdez dAlmeyda. 
e Nuno Vaaz de Castell Bramco. e assv outros alguús. E o Iffamte Dom 
Pedro fez hi caualleiros, Ayres Gomez da Sillua filho de Joham Gomez. 
e Aluoro Vaaz dAlmadaã. e Ayres Gomçalluez dAabreu. e Martim 
Corrêa, e Joham dAtayde. e Martim Lopez dAzeuedo. e Diego Gomçall- 
uez de Trauaços. e Diego de Seabra, e Fernam Vaaz de Sequeyra. E 
o Iffamte Dom Hamrrique fez caualleiros, Dom Fernamdo senhor de 
Bragamça. e Gill Vaaz da Cunha, e Aluoro da Cunha. * e Aluoro Pereyra. A, 120, v,2 
e Aluoro Fernamdez Mazquarenhas. e Vaasco Martimz da Albergaria. 
e Diego Gomez da Sillua. e assy outros. E delRey nom falíamos nada, 
porque fez a tamtos, ataa que com emfadamento os leixou de fazer. 



Como elRey teiie sem comsselho acerca da guarda da cidade. 
Capitullo LRpij. 

20 1"^ OY huú gramde fallamento açerqua da guarda desta cidade, no qual 
rH forom desuairadas opinioões. Porem tamto que estas cousas forom 
-■- acabadas, elRey mamdou ajumtar todos aquelles que tijnha orde- 
nado pêra seu comsselho. e tamto que assy forom jumtos, prepos elRey 
amtre elles estas seguimtes pallauras acerca de seu propósito. Bem 

25 sabees disse elle, todo o fumdamento que tiue no começo deste feito, e 
seede mujto certos que eu nom fuy assy ligeiro de trazer aa fim daqueste 
propósito, como sabem meus filhos, que forom os primçipaaes mouedores 
daquesta empresa. E posto que me mujtas e soffiçiemtes rrezoões mos- 
trassem, per que o deuia de fazer, eu rresguardey sempre muy bem todollos 

3o comtrairos, que podiam empachar nossa uitoria. e primçipallmente * rrcs- A, r2i,r, 1 
guardey sse seria seruiço de Deos começarmos semelhamte obra. e bem 
sabees toda a maneira que açerqua dello tiue. Comssijrey ajmda mais, 
sse per uemtura poderia mamteer e guardar esta cidade sso a fie e rrelli- 

5. fernando A. — 7. mlz A — ffrz A. — 8. assi A. — 10. daabreu A. — 12. sseabra A. 
— i5. miz A. — 19. nouemtae sete A. — 21. foram A — forom {2.°)] foran A. — 23. fo- 
ram A. — 27. preposito A. — foram A. — 29. todollo A. — 32 conssijrey A. 
33 



— 258 — 

giam de nosso Senhor Jesu Christo. porque doutra guisa me parece que 
nosso trabalho nom fora justamente despeso, a quall cousa nom quis 
mujto escolldrinhar, comssijramdo cjue sse uoomtade fosse de nosso Senhor 
Deos de a trazer aas nossas maãos, nom lhe seria deffiçill de dar aazo e 
caminho, per que a podessemos guardar e mamteer. Agora polia sua 5 
graça cobramos toda a fBm de nosso deseio. polia quall dereitamente lhe 
deuemos dar mujtas graças por três rrezoões. A primeyra, por nos dar 
uitoria. a segurada, por nolla dar em tam breue tempo e com tam pouco 
trabalho, a terceira, porque nos quis guardar de muy gramdes perijgos, 
que poderamos auer, sse per sua graça e ajuda nom fora. Porem minha lo 
uoomtade he com a graça de Deos de leixar esta cidade sso a obediem- 
çia de nosso Senhor Jesu Christo e da coroa de meu rregno. aa quall 
cousa me mouem quatro rrezoões muy soffiçiemtes segumdo meu juizo, s. 

A,i2i,r,2 a primeira, porque sse faça* em ella o sacrifício deuino, em memoria e 

rrenembramça da morte e paixam de nosso Senhor Jesu Christo. este i5 
he o uerdadeiro sinall de conhecimento, que lhe poderemos mostrar da 
gramde merçee que nos açerqua dello tem feita, ca doutra guisa seria 
errado nosso primeiro fumdamento, homde dissemos que nos mouiamos 
por seu seruiço. ca sse agora assy leixassemos esta cidade, nom sey 
que seruiço rreçeberia de nosso trabalho, ca os jmfiees tornariam logo a 20 
ella. e por doesto da sua samta ffe naquellas casas homde o seu sacrifício 
foi feito, fariam outras cousas de gram uituperio e desomrra nossa. E 
a segumda rrezam he, porque fícamdo assy esta cidade sso nosso pod»2r, 
poderá seer aazo de sse mouerem alguús primçipes christaãos pêra uij- 
rem aqui. e com seu poderio e frota soiugarem alguús outros lugares 25 
desta comquista. primçipallmente eu ou cada huú dos rrex, que depois de 
meus dias soçederem em meu senhorio, os quaaes ueemdo amte os olhos 
o portall aberto, mais ligcyramente sse moueram de acreçemtar em sua 
homrra. A terceira rrezam he, porque os boõs homeés de meus rregnos 
nom ajam rrezam desqueeçer o uirtuoso exerçiçio das armas, ou per 3o 

A, i2i,v,i uemtura queremdo obrar em * ello, nom hiram buscar os rregnos alheos, 
homde prouem sua força, teemdo amte ssi cousa tam aazada em que o 
possam fazer. Ca sabees quamdo me alguiis pedem leçemça pêra hir 
fazer em armas a Framça ou a Imgraterra, he necessário que os correja 
e lhe faça merçee pêra sua uiagem. com menos da quall despesa os eu 35 
posso corrcger e os emuiar a esta cidade, homde me faram mujto mayor 

I. Jhú xpõ A. — 5. manteer A. — 12. Jhú xpõ A. — i3. soficientes A. — i5. Jhú xpó A. 
— 20. jnfiees A. — 21. onde A. — 24. xpaãos A. — 27. em I, om A. — 33. quando A. — 
34. correga A. 



— 259 — 

seruiço. E ajmda mujtos de meus naturaaes, que per alguús negócios 
ssam desterrados de meus rregnos, milhor estaram aqui fazemdo seruiço 
a Deos, e comprimdo sua justiça, que sse hirem polias terras estranhas e 
desnaturaremsse pêra todo sempre de sua terra. A quarta rrezam he, 

5 porque a memoria de tamanho feito possa durar amte os olhos dos 
homeés, em quamto a Deos prouuer de comseruar a sua obediemçia de 
sob o poderio dos rrex de Portugall. e porque alguús gemtijs homeés, 
que por homrra e amor de nosso Senhor Deos quereram trabalhar com- 
tra os jmmijgos da sua samta ffe, tenham casa e lugar, homde o possam 

IO fazer. Ca sabees muy bem, como ho rregno de Graada nom he tam 
aazado pêra ello, como he esta cidade, polias pazes e tregoas, que sse 
amtre elles * fazem a meude. E porque saybaaes minha emtemçam, como A, i2i,v,2 
he rrezoado de saberem homeés de que tamto comfio, uollo faço saber 
pêra rreçeber de uos comsselho naquellas cousas, que per uemtura meu 

i5 emtemdiraento nom percallça naquella perfeiçam que deue. 



Como alguús daquelles do comsselho rrespomderam a elRey. 
Capitullo LRjnij. 

VISTA assy amtre todos aquella temçam que elRey tijnha, todos lou- 
uaram que era muy boõa. e ouue naquelle comselho alguúas deui- 
soões, como sse geerallmente fazem em todallas cousas gramdes. 
Ca bem deuees de comsijrar, que o mouimento de tamanha cousa nom 
podia seer sem mujtas duuidas, segurado uerees em este capitullo. em- 
pero por escusarmos soma de pallauras, departiremos o comsselho em 
duas partes. A primeyra foy daquelles, a que de todo pareçeo a temçom 

25 delRey boõa sem nehuúa contradiçam. e das rrezoões destes nom aue- 
mos por que fallar, pois nom desacordaram do propósito, mas os da 
segumda parte disseram assy. Por quamto senhor, conhecemos de uossa 
uoomtade que he sempre seerdes comsselhado* em todallas cousas, e que A, i22,r, i 
uos nom despraz de uos serem ditas quaaesquer cousas, que homem 

3o semta comtra uosso propósito, uos diremos agora o que nos parece pêra 
uosso milhor auisamento. E quamto he aa uossa temçam assy simprez- 
mente filhada, nom ha hi alguúa rrezam que a possa afastar de seer mujto 
justa e mujto boõa. mas he de ueer, se ha hi outros comtrairos que uos 
possam embargar, e nomearuos emos aqui alguús pêra ueerdes sse ssom 

i3. tanto A. — i6. consselho A. — 17. nouemta e oito A. — 19. boa A. — 22. duuy- 
das A. — a5. boa A. — 27. quanto A. — 33. boa A. 



— 26o 

taaes, que ajam lugar pêra dereitamcnte empachar uossa uoomtade. E 
primeiramente senhor, deuees de comsijrar como esta cidade he muy 
allomgada de uossa terra, e como esta em meo de uossos jmmijgos, os 
quaaes por uimgamça de sua jmiuria quereram trabalhar quamto poderem, 
e tamto que uos daqui semtirem afastado, buscaram suas ajudas de todallas 5 
partes, a quall de rrezam lhe nom será negada pêra semelhamte feito. 
E nom he duuida, que sse nom faça muy gramde ajumtamento sobre esta 
cidade, ao quall per uemtura os que aqui leixardes nom poderam rreses- 
tir. e uos posto que lhe queyraaes emular acorro, ou nom saberees sua 

A, i22,r,2 necessidade, ou nom * terees abastamça de frota tam prestes, com que lhe lo 
possaaes acorrer, ca todo he pêra comssijrar. E posto que lhe huúa uez 
acorraes, nom o poderees ass}' fazer outras mujtas. e uos seemdo tam 
allomgado desta terra, e os mouros aa porta, será a pelleia muy desíguall. 
os quaaes cada dia sse ham de trabalhar quamto poderem de uimgar 
sua desomrra. E comssijraae jsso meesmo a gramdeza desta cidade, pêra i5 
cuja deffemssam uos he necessária raujta gemte e boõa. e que pode seer 
que uijmdo elRey de Castella aa sua hidade, nom quererá estar polias 
pazes que seus tutores teem firmadas comuosco. por cuja rrezam uos 
comuijra auerdes mester essa gemte, e outra mujta mais sse a teuesees, 
pêra deffemssam de uossos rregnos. E comssijraae como a gemte que 20 
aqui esteuer ha mester mamtijmentos e dinheyros pêra solido e pêra 
merçees. e que por pouco seruiço que uos aqui façam, semtimdo a uoom- 
tade que auees na deffemssam deste lugar, uos rrcquereram mayores mer- 
çees do que seu estado rrequere, sobre o quall he necessário que rreçe- 
baaes fadiga e escamdallo de uosso pouoo. E porque he necessário que 25 

A, i22,v, I seiam costramgidos pêra mujtas* cousas de sua seruemtia, cujo trabalho 
lhe nom fará pequeno empacho, quamto mais ajmda sse for necessário 
de lhe tomarem alguijas cousas pêra gouernamça delia, será aazo de 
mujtos leixarem o rregno, e sse hirem pêra as terras estranhas. E ueede 
ajmda senhor, a pequena fortelleza que ha em esta cidade, a quall posto 3o 
que bem cercada seia, nom he porem tamto como compria. ca logo 
acerca delia seria boÕa e assaz defíemssauel, se a cidade toda fosse chea 
de gemte que morasse em ella. mas estamdo aqui como fromteiros, nuraca 
podem seer tamtos que a soomente possam de mear. E quamto he 
senhor, ao que dizees que uosso primçipall mouimento he por seruiço de 33 
Deos, queremdo que sse traute aqui o deuinall sacrifício, assy deuees 
uos hordenar semelhamte cousa que o bem que hi fezerdes, nom seia 



I. uoontade A. — iC. boa A. — i8. tetores A. — 21. mantijnientos A. — 32. boa A. 



— 26[ — 

aazo doutro mujto mayor mall. que quamto por fazerdes jgreias, em que 
sse faça ho samto sacrifício, assaz delias teemdes em uossa terra, que ssom 
casi todas destroidas, que seri;-, mayor mérito de as rrepayrar e correger, 
que fazer aqui outras semelhamtes de nouo. em deftemssom das quaaes 
5 uossos seruidores e naturaaes estem em tamanho perijgo. Omde nos 

parece* que deue seer mais semtida a perda de cada huú delles, que A,i22,v,2 
rreçebido em merecimento ha edificaçam das jgreias que sse tam justa- 
mente pode escusar. Ca diz o apostollo, que nos outros somos templos 
de Deos, por o quall sse parece que mayor merecimento he comseruar os 

•o templos spirituaaes, que hedificar nouamente os templos materiaaes. 
Outrossy o sostijmento desta cidade pode seer aazo de auer mais mall 
feitores em uosso rregno, do que ata aqui ouue. ca o atreuimento da 
liberdade que ha dauer, os fará cometer mais ousados crimes, que faria 
sse nom soubessem que a determinaçam da pena seria tam certa. E 

i5 finallmente senhor, comssijramdo todas estas cousas poderees esguardar 
as cousas que ham de uijr. e sse uos nossas rrezoões parecem sofficiem- 
tes, hordenay sobre ellas uosso feito, de guisa que ao diamte uos nom 
possa trazer empidimento. 



Como elRey determinou todauia de mamteer a cidade, e como daiia 
20 emcarrego delia a Martitn Affomsso de Meello. Capitullo LRix. 

Eu ssom bem nembrado rrespomdeo elRey, quamtos comtrairos ouue 
no começo daqueste feito, e quamtas *uezes fuy comsselhado per A, i23,r, i 
alguiJs de uos outros, que leixasse de proseguir minha demamda, 
mostramdome outras mujtas rrezoÕes per que o deuia de fazer. E eu 
25 sempre tiue amte meus olhos o fumdamento que tomey pêra proseguir 
esta obra. e como me nembraua que era seruiço de Deos, logo me 
parecia que nom tijnha rrezam pêra a leixar dacabar, amte me deuia a 
despoer a todo trabalho e perijgo pollo poer em fim. E comssijro agora 
como sobre tamtos comtrayros oferecidos, nosso Senhor Deos quis dar a 
3o uitoria comtra todo naturall juizo dos homeés. assy espero em elle que 
lhe prazerá trazer minha emtemçom a fim de seu samto seruiço. E cer- 
tamente, que quamto eu em ello mais comssijro, tamto me parece que pre- 
sumo que ajmda esta cidade ha de seer aazo doutro mujto mayor bem 
pêra mym, ou pêra alguús da minha geeraçom. E finallmente ponho estes 

I. quanto A. — 2. teendes A. — i2. ataaqui A. — 21. quantos A. — 22. quantas A. — 
2.5. ante A. — 29. oferiçidos A. — 32. comsijro A. — 33. muyto A. 



202 — 

feitos nas maãos de nosso Senhor Deos, e de minha Senhora a uirgem 
Maria sua madre, sob cuja esperamça determino de guardar e mamteer 
esta cidade aa sua homrra e louuor. Acabadas assy estas rrezoões logo 
alli naquelle meesmo comsselho elRey disse a Martim Aftomsso de Mee- 

A, i23,r,2 Ho, por fazer logo começo de sua * emtemçom que sse fezesse prestes 5 
pêra ficar por fromteiro em aquella cidade. Martim Affomsso, disse elle, 
assy pollos mujtos seruiços que uos e uosso padre e todollos outros de 
uossa geeraçom teem feitos a mym e aos rrex domde eu uenho. como 
por semtir que o saberees muy bem fazer, a mym praz de uos emtregar 
esta cidade, na quall semto que farees seruiço a Deos e a mym, e acre- lo 
çemtarees em uossa homrra e de uossa linhagem. E eu uos leixarey dos 
fidaligos de minha casa e de meus filhos, e assy dos outros meus natu- 
raaes, per que uos seiaaes bem ajudado a uosso trabalho. E jsso mees- 
mo uos leixarey artelharias e corregimentos pêra uossa deffemssom, 
quamtES uos mester fezerem. E logo poUo presemte uos ficaram bita- i5 
lhas e mamtijmentos pêra uossa gouernamça. E tamto que a Deos pra- 
zemdo eu for em Portugall, eu teerey aquelle cuydado de hos que he 
rrezam. Martim Affomsso assy pollo presemte foy beyiar a maão a 
elRey, dizemdo que lho tijnha mujto em merçee. empero que aueria acerca 
dello seu comsselho. Mas quallquer que o comsselho fosse, diz o autor, 20 
a sua determinaçam foi mujto prasmada da mayor parte dos boõs que 

A,i23,v,i alli eram. porque Martim Afíomsso '^ foi comsselhado de dous homeés, que 
nom comssijraram bem a gramdeza daquelle feito, nem escolldrinharam 
dereitamenle a homrra de Martim Affomsso, comsselhamdoo que nom acei- 
tasse tall emcarrego, dos quaaes huú foi huíí escudeiro dEuora, que cha- 25 
mauam Joham Gomez Arnalho, e ho outro Joham Jusarte. 



Como o comde Dom Pedro rrcquereo aquella fromtaria, e quaaes 
forovi os que allificarom. Capitullo C. 

DESPROUUE mujto a elRey quamdo Martim Affomsso allegou suas 
escusas rrefusamdo aquella ficada, ca certamente nom lhe fazia 3o 
elRey semelhamte mouimento senom com gramde amor que 
lhe auia. e pollo conhecer outrossy por muy boom caualleiro e bem auto 
pêra semelhamte emcarrego. E aalem de seu gramde esforço e ardideza, 
compôs huú liuro per seu emgenho e saber, que sse chama da guerra, no 

2. manteer A — 3. assi A — loguo A. — 7. assi A. — 12. assi A. — 18. assi A. — 
22. Affom A. — 23. cosijraram A. — 28. foram A. — Capitólio A — C] cemto A. — 
29. elRej A — affom A. 



— 263 — 

quall sse comtem mujtas e boõas emsinamças e auisamentos pêra todos 
aquelles que teuerem fortelleza, ou alguú lugar cercado em fromtaria de 
)mmijgos. Mas mujtas uezes os maaos comsselheiros *priuam os boõs A, i23,v,2 
homeés de seu emtemder. por cuja rrezam disse o sabedor. Do maao 
5 comsselheiro guardaras a tua alma. E porque elRey semtio que o 
primçipall mouimento de Martim Affomsso forom aquelles que o assy 
comsselharam, aa quall cousa os fez mouer seu próprio jmteresse, mais 
que outra nehuúa justa necessidade, semtimdo que sse elle alli ficasse, que 
era necessário ficarem elles. porem mamdou elRey que amtre os outros 

IO que ali! ouuessera de ficar que fossem elles, ficamdo assy este feito pêra 
elRey emieger em sua uoomtade outro alguú que alli ouuesse de ficar 
com aquelle emcarrego. O comde Dom Pedro de Meneses soube dello 
parte, e foysse muy trigosamente ao meestre de Christo, rrogamdolhe 
raujto que o quisesse ajudar em aquelle feito, ca sua uoomtade era de 

i5 ficar alli, se lhe elRey fezesse merçee daquelle emcarrego. A quall cousa 
o meestre fez com muy boom deseio, semtimdo a desposiçam do comde, 
e jsso meesmo por seer homem que lhe mostraua boom deseio. e assy 
foy logo fallar acerca dello ao Iffamte Duarte, pedimdolhe que rreque- 
resse a elRey seu padre aquella cousa pêra o comde, do que mujto 

20 prouue ao Iffamte. * e assy foi logo todo emcaminhado per a guisa que o A, i24,r, i 
comde rrequeria, do que elle foi mujto ledo. e ass}' foy por ello beyiar a 
maão a elRey e ao Iffamte. Ruy de Sousa que depois foi alcayde do 
castello de Maruam, padre de Gomçallo Rolz de Sousa, foi ho primeiro 
fidallgo que rrequereo a elRey, que o leixasse em aquella cidade, dizemdo 

25 como tijnha quoremta homeés muy bem armados e com boÕas uoomta- 
des pêra ficarem com elle em seu seruiço. ora ueede sse em tall tempo 
era pêra outorgar semelhamte rrequerimento. ElRey foi mujto ledo com 
tall pititorio, e assy disse que lho agradecia mujto, e que prazeria a Deos 
que o acreçemtaria ao diamte por ello, e lhe faria mujtas merçees. e 

3o emtom disse aos Iff^amtes que escolhessem de suas casas certos fidallgos 
e escudeiros que ficassem alli. Os quaaes forom estes que sse adiamte 
seguem .s. Lopo Vaaz de Castell Bramco alcayde de Moura, que era 
momteiro moor delRey, ficou alli por coudell de todollos seus. e os do 
Iffamte Duarte ficaram sob gouernamça do comde Dom Pedro, e os do 

35 Iff"amte Dom Pedro ficaram a Gomçallo Nunez Barreto, e os do Iff"amte Dom 

Hamrrique a Joham Pereyra, que depois foy muy boom caualleyro * em A, i24,r,2 

1. boas A. — 3. emmijgos A — muytas A. — 6. foram A. — 7. jnteresse A. — i3. xpõs A. 
— 17. assi A. — 18. loguo A. — 21. assi A — beyjar A. — 24. elRej A. — 25. boas A. — 
28. assi A. — 3 1 . foram A. — 36. despois A. 



— 264 — 

B, m3, r, 1 aquella * cidade, e em outras *mujtas forom elle e outros boõs homeés 
'''*''^'* ante daqueste feito, os quaaes andando nas guerras de França e de 

A, 125, r, 2 Ingraterra ouuindo as nouas da armaçam que elRey fazia *leixaram 
todallas doçuras de Framça e daquellas terras por uijnr a seruiço delRey, 
os quaaes eram o dito Joham Pereyra. e Diego Lopez de Sousa, e Pêro 5 
Gomçalluez a que deziam Mallafaya. e Aluoro Meemdez Cerueira. Fica- 
ram ajmda na dita cidade, afora estes que ditos auemos, Ruy Gomez da 
Sillua, Fero Lopez dAzeuedo, e os ja ditos Fero Gomçalluez e Aluoro 
Meemdes. e Luis Vaaz da Cunha, e Luis Aluarez da Cunha, e Fernam 
Furtado, e o caualleiro de samta Cruz. e Aluaro Eannes de Cernache. e 10 
Diego de Seabra, e Meem de Seabra, e Gill Louremço dEluas. e Diego 
Aluarez Barbas, e Gomez Diaz. e Fero Vaaz Pimto. e Joham Ferreira. E 
com estes ficarom per toda gemte dous mil! e seteçemtos homeés. e miçe 
Itam que ficou hi com duas gallees pêra guardar o estreito. E mamdou 
elRey que lhe ficassem mujtas bitalhas e armaria, assy armas do corpo i5 
como beestas e almazem. Outrossi amtre as cousas que forom achadas 
em Cepta que de comtar seiam, forom quatro gallees e huQa gallee rreal e 
mujtos uirotoões e beestas e scudos e huiãa bombarda e mujta poluora e 
cera e seuo e pez dardos amcoras cabres treus mastos uergas artimoÕes 

A, i25,r,2 gouernalhos, e todo esto em gramde abastamça, * as quaaes cousas forom 20 
achadas nas taraçenas. E estas cousas assy todas postas em fim, amte que 
elRey dalli partisse, disse ao Iffamte Dom Hamrrique que fosse meter de 
posse do castello ao comde Dom Pedro. E a menagem senhor, disse o 
Itlamte, rreçebella ey eu delle, ou a uijra fazer a uos. Nom quero outra 
menagem rrespomdeo elRey, senom o conhecimento que tenho de sua 25 
boomdade, polia quall delle comfio que o guardara como he rrezam. E 
assy foi o Iffamte tirar Joham Vaasquez do castello, e emtregallo ao comde, 
dizemdolhe aquellas meesmas pallauras que lhe elRey dissera acerca da 
menagem, a quall cousa o comde disse que tijnha mujto em merçee a elRey 
e ao Iffamte. e emtom filhou o Iffamte as chaues em sua maão e lhas 3o 
emtregou, e o leixou assy em posse. E como quer que Joham Vaasquez 
auia tamtos dias que alli estaua, e cada huú dia emuiaua daquellas cousas 
que ally achara pêra os nauios, ajmda aaquelle tempo que elle leixou o 
castello, hi ficarom mujtas que o comde depois ouue. empero nom das 
primeiras. 35 

10. aluareannes A. — 13-14. meçeitam A, mice Itam I.— i5. assi A. — 16. foram A. 

— 17. foram A — uiratoões A. — 19. e seuo] seuo A. — 20. foram A. — 21. assi A. — 
22. elRej A — hanrrique A. — 24. ei A. — 25. elRej A. — 27. assi A. — 3o. Iffant ( 1 .°j A. 

— 3i. assi A. — 34. despois A, 



— 265 — 

Como elRey partio de Cepta e chegou ao Algariie, e como fe\ em 
Tauilla seus filhos duques. Capitullo Cj. 

JA agora a gemte de nossa frota amda corregemdo *seus aparelhos a i25 v i 
pêra fazer sua uiagem. empero amtre elles auia duas temçoões 
muy desiguaaes, fallamdo soomente daquellas pessoas de baixo 
estado, porque os fidallgos e outros boõs homeés auiam gramde foll- 
gamça por ficarem em aquella cidade, speramdo que pollo bem que em 
ella fezessem acreçemtariam mujto mais em suas liomrras. mas os outros 
do pouoo tijnham as temçoões muy comtrairas daquesta. ca nom 

IO podiam presumir que depois que elRey partisse, nehuú delles auia de 
ficar uiuo. E quamto os outros que auiam de uijr pcra Portugall, tra- 
ziam de lediçe, tamto auiam os que ficauam mayor tristeza, e huús 
buscauam rrogadores que os escusassem daquelle trabalho, outros bus- 
cauam nouas maneiras de rromçaria, fimgindo emfirmidades que conhe- 

i5 çidamente numca teueram. outros prometiam aalem de sua fazemda o 
que nom tijnham, por nom auerem rrezam de ficar. Empero estas cousas 
nom lhe aproueitauam mujto, por quamto aquelles que eram determina- 
dos pêra ficarem, se a necessidade nom era manifesta, por seus fimgimen- 
tos nom sse leixaua de emxecutar toda a primeira hordenamça. Dous 

20 dias eram do mes de setembro a huúa segumda feira, quamdo * a frota de A, i25,v,2 
todo foi prestes pêra partir, e todos aquelles fidallgos e escudeiros forom 
beyiar a maão a elRey, o quall lhes fez muy gramde gazalhado, dizemdo 
primeiramente ao comde. Pois que a Deos aprouue de uos emcaminhar 
pêra rrequerer semelhamte cousa com muy boõa uoomtade, que teemdcs 

25 pêra me fazerdes seruiço. pollo quall eu som theudo de uos acreçemtar 
e fazer homrra e merçee. eu uos emcomemdo que tenhaaes sempre 
amte os olhos o emcarrego que filhastes, e que nom menos coraçom 
tenhaaes pêra o guardar e defemder, do que teuestes pêra o rrequerer, e 
ajmda mujto mayor comssijramdo bem, que na guarda desta cidade sse 

3o comtem uossa homrra e uida. E uos emcomemdo que agasalhees muy 
bem estes fidallgos que aqui leixo, pêra uos ajudarem a guardar c deffem- 
der esta cidade, e jsso meesmo uos emcomemdo toda a outra gemte que 
aqui fica, que os trautees docemente e com todo fauor que rrazoada- 
mente poderdes, e a huús e aos outros emcomemdo que uos obedeçam 

35 como a capitam e a uerdadeiro fromteiro. E ditas estas pallauras lhe 
beyiaram todos a maão, e sse spediram delle. Aos fidallgos disse elRey, 

6-7. follgança A. — 17. muyto A. — 20. quando A. — 21. foram A. — 24. boa A. — 
2G. emcomendo A. — 29. muyto A. — 3i . fidalgos A. 
34 



— 266 — 

que lhes emcomemdaua que nom fezesse mimgua sua presemça amte os 
A, 126, r, I seus olhos, mas que sempre trabalhassem* por sua homrra, segumdo a 
linhagem de que uijnham rrequeria, e a comfiamça que em elles auia. 
Ao que todos rrespomderam que elles fariam per tall guisa, que amtes 
elle ouuisse nouas de sua morte, que de nehui] outro seu falecimento. 5 
Os nauios que auiam de partir, eram ja todos prestes, e huOs tijnham as 
uergas altas e soomente estauam sobre huúa amcora, e outros amdauam 
ja aa uella. E tamto que elRey foi demtro na gallee, mamdou fazer 
sinall com suas trombetas, per que todollos outros nauios desfalldrassem 
suas uellas seguimdo sua uiagem, na quall cousa foi posta pequena 10 
deteemça. e assy começaram todos demcaminhar com muy gramde pra- 
zer caminho do Algarue, fazemdo desuayrados soõs em seus estromentos, 
como aquelles que a doçura da uitoria e a esperamça que traziam de 
ueer sua terra e seus amigos e paremtes, fazia os coraçoões mujto alle- 
gres. Mas os outros que ficauam, esteueram todo aquelle dia sobre os i5 
muros, oolhamdo a frota com muy gramde soydade. e taaes hi auia que 
nom chorauam menos, que sse teuessem certa speramça de numca mais 
ueerem sua teera nem seus amigos e naturaaes. E em uerdade fallamdo 
A,'i2G,r,2 dcreitamente, nom era ssem rrezam de auerem amtre * ssi muy gramde 

soydade. ca o lugar e o tempo e a presemça do feito trazia gramde aazo ao 
pêra ello. ca ueemos quamdo sse huú homem parte do outro, ajmda que o 
espaço seia pequeno de seu apartamento e todo em huú rregno ou senho- 
rio, nom pode a uoomtade mouida com o mauioso zcllo estar, que nom 
amostre alguíja semelhamça de semtimento. Ora que fariam aquelles 
que per semelhamte guisa ficauam. certamente nom os deuemos de cul- 25 
par por nehuúa mostramça que em ello fezessem. ca aquella braueza os 
fez ao depois seer mujto mais ardidos comtra os jmmijgos, segumdo ao 
diamte será comtado. A hordenamça da frota quamto aas gallees e 
outros alguús certos nauios era de hirem dereitamente ao porto de Faa- 
ram. porque aos outros era dada leçemça que sse fossem a Lixboa pêra 3o 
lhe despacharem seu frete e emcaminhar cada huú pêra sua terra. E 
foi assy que os marinheiros da gallee delRey errarom a uiagem, e omde 
ouueram de hir a Faaram forom a Crasto Marim, e os outros nauios 
quamdo de noite perderam a uista do foroll, seguiram sua uiagem derei- 
tamente a Faaram. e queremdo hir per terra buscar elRey, açertousse 35 
de sse ajumtarem todos em Tauilla. Omde elRey estamdo chamou seus 

9. synall A. — n. assi A — de emcaminhar A. — 17. sperança A. — 19. antre A. — 
20. grande A. — 27. despois A — muyto A. — 32. assi A. — 33. faarom A — foram A. — 
35. faarom A. 



— 267 — 

filhos, e disselhes assy. *Todollos seruiços naturallmente rrequerem gua- A, i26,v,i 
llardom. e porque aalem de seerdes meus filhos semto que rreçebi de 
uos espiçiall seruiço em todo este feito, quero que por ello rreçebaaes 
alguú guallardom. E primeiramente a meu filho o Iffamte Duarte nom 
5 sey que acreçemtamento e que homrra lhe possa fazer, sobre aquella que 
lhe Deos quis dar. s. seemdo meu primeiro filho e herdeiro de meus 
rregnos e de minha terra, elle pode filhar em minha uida tamta quamta 
lhe prouuer. Mas a uos outros me praz de fazer duques .s. a uos 
Iffamte Dom Pedro faço duque de Coymbra. e ao Iffamte Dom Hamrri- 

10 que duque de Vizeu. e polia gramdeza do trabalho, que filhou em todo- 
llos estes feitos, assy na armaçom que fez no Porto, como no trabalho e 
perijgo que ouue no dia que filhamos a cidade, e por todallas cousas que 
em ello obrou, o faço senhor de Couilhaã. E os Ifíamtes todos três lhe 
beyiarom por todo a maão teemdolho mujto em merçee. E emtom os 

i5 fez duques com aquella sollenidade e cerimonias que sse custuma. ca 
assaz auia hi de nobres homeés e corregimentos, per que aquella festa 
fosse homrrada. 



Como clRey despachou alli todos, e lhes fe{ merçee agradeçemdolhes 
mujto seus gramdes trabalhos. Capilullo Cij. 

20 "1~^0K quamto o rregno do Algarue jaz todo na costa do mar ouçiano, A, i26,v,2 
I — ' a mayor parte de sua seruemtia he em nauios. e ajmda ha hi 
A poucas bestas por rrezam da terra, que nom he mujto forte pêra 
seu mamtijmento. por cuja rrezam elRey comssijrou que seria bem des- 
pachar alli toda aquella gemte, por tall que podessem hir nos nauios ataa 

25 Lixboa. ca era necessário que todos alli fossem desembarcar por aazo 
do frete que auiam dauer. No quall Joham Affomsso dAlamquer fez 
huú muy spiçiall seruiço a elRey, amtre outros mujtos que lhe tijnha fei- 
tos. E foi assy, que comssijramdo elle as muy gramdes despesas que 
elRey tijnha feitas, e como lhe era necessário despemder ajmda no frete 

3o de todos aquelles nauios. tamto que foy na cidade de Lixboa, mamdou 
comprar pêra elRey todo o ssall que auia per toda aquella terra, o quall 
ouue assaz de boõ barato por rrezam da emposiçom. e quamdo lhe os 
meestres dos nauios rrcqucriam o frete, fazialhe pregumta sse lhes pra- 
zeria de auerem aquello em preço de suá pagua. os quaaes todos jumta- 

10-11. todos A. — II. assi A. — 19. grandes A. — 23. mantijmento A — comsijrou A. 
— 24. atee A. — 20. Affom A. — 27. elRej A. — 28. assi A.— 29. neçessareo A. — 32. boõ A, 
bem I. — 33. pregunta A. 



V 



— 268 — 

mente forom muy comtemtes comssijramdo como lhes seria milhor leua- 
rem seus nauios carregados dalguúa mercadoria, que de leuarem o dinheiro, 

A, i27,r, I que ligeiramente poderiam * gastar, e assy forom todos muy bem paga- 
dos com pequena custa delRey. E estamdo assy elRey em Tauilla como 
dito he, fez ajumtar todos aqueiles primçipaaes, e disselhes. Por quamto b 
minha uoomtade he de uos despachar por uos arredar de custa e de 
trabalho, cada huús de uos outros poderees auisar a todos aqueiles que 
uem em uossa companhia, que me uenham rrequerer quaaesquer merçees 
ou cousas que a suas homrras e liberdades perteeçam. e como quer que 
ja eu per mujtas uezes teuesse esperimentadas nossas boõas uoomtades lo 
em todallas outras cousas pêra que uos rrequeri, em este presemte traba- 
lho semti mujto as boÕas uoomtades de todos, as quaaes fezeram mujto 
mais esforçar a minha, pêra uos sempre buscar toda homrra e acreçem- 
tamento que em minha posse for. E sobre todo dou mujtas graças a 
nosso Senhor Deos, por me fazer rregnar sobre gemte, que me tam uer- i5 
dadeiramente e tam leallmente teem seruido. pollo quall lhe peço por 
sua samta merçee, que me dee sempre aazo e poder, per que os possa 
rreger e gouernar em todo dereito e justiça, e aos boõs homrrar e acre- 
çemtar segumdo he rrezam. Todos forom mujto comtemtes daquellas 
pallauras delRcy, dizemdo que lho tijnham mujto em merçee. e assy 20 

A, i27,r,2 começaram logo alguús de fazer * suas pitiçoÕes, pêra rrequerer suas cousas 
segumdo lhes perteeçia. as quaaes eram muy graciosamente desembar- 
gadas, outorgamdo a todos aquello que achaua que era rrezam e sse 
podia fazer, e aaquelles que per uemtura pediam aalem do rrazoado, 
era dada graciosa rreposta, de guisa que a doçura da pallaura lhe fazia 25 
gramde comtemtamento. Outros ouue alli que nam quiseram pollo pre- 
semte pedir nehuúa cousa, e sse espediram assy spaçamdo seus rrequeri- 
mentos pêra outro tempo. E per tall guisa foi todo emcaminhado, que 
todos partiram muy ledos e comtemtes da presemça delRey, e elle 
outrossy das boõas uoomtades que lhe seratija pêra seu seruiço. 3o 



t. foram A — contemtes A. — 2. mercadaria A. — 3. assi foram A. — 4. assi A. — 
9. perteemçatn A. — 10. boas A. — 12. boas A. — 17. dee] de A. — 19. foram A. — 
27. assi A. — 28. emcamynhado A. — 3o. boas A. 



— 26g — 

Como elRey partio do Algarue e chegou a Euora, e do rreçebi- 
mento que lhe foi feito. Capitullo Ciij. 

ACABADO assy aquelle espedimento, começou de sse espalhar toda 
aquella gemte cada huúa pêra sua parte, e porque os mais delles 
eram anojados do mar, quiseram amte fazer sua uiagem per terra, 
empero esto era muy graue de fazer, por rrezam das bestas que hi nora 
auia. e assy era muy gramde trabalho em as buscar e auer. ca por 
dinheiro nom podiam seer achadas em tamanho numero, como eram 
necessárias. E tamto bem fez alli a necessidade,* que emsinou a mujtos A,i27,v,i 

'O comtemtarsse das cousas pequenas, que em outro tempo desprezauam as 
gramdes. ca mujtos delles nom sse comtemtauam damdar em grossas 
facas nem boõs cauallos, sse tijnham alguú geito comtra seu prazer, e em 
aquelle emsejo auiam por boõa dita, quamdo percallçauam huú proue muu 
ou asno dalbarda, que os podesse scusar do trabalho que esperauam de 

i5 semtir em aquelle caminho, sse ouuessem damdar de pee. Amte que 
leue elRey aa cidade dEuora, me parece que he bem que faça aqui 
meemçam dalguús fidallgos, que morreram de pestenemça. e esto escpre- 
uemos, porque achamos que alguús homeés, que escpreueram aiguúas 
cousas que uiram deste feito, nom declarauam a morte destes, senam 

20 que morreram em Cepta. o que mujtos simprezmente podiam emtem- 
der que morreram na filhada da cidade. E porque ja espiçiallmente 
falíamos dos outros, diremos agora dos que morreram de pestenemça, 
fallamdo soomente daquellas pessoas de comta. e esto depois que a 
frota partio de Lisboa, ataa que tornou ao Algarue. e aimda no cami- 

25 nho, depois que partio pêra Euora. Morreo primeiramente Gomçallo 

Eannes* de Sousa, e Dom Joham de Castro, e Aluoro Nogueira, e Aluoro A, 127, v,a 
dAguiar, e Vaasco Martimz do Carualhall, e Nuno da Cunha, e Aluoro 
da Cunha, e Aluoro de Pinhel, e Amtam da Cunha, e Pêro Taauares, e 
Dom Pedro de Meneses. Tamanha deteemça fez alli elRey naquelle 

3o rregno do Algarue, quamto durou o cuydado que tijnha de despachar 
suas gemtes. e tamto que esto teue despachado, logo emcaminhou pêra 
a cidade dEuora, omde estauam seus filhos e o meestre com elles. cuja 
lediçe nom era pequena, ouuimdo as nouas daquella uitoria, como quer 
que de sua uoomtade mujto deseiara dauer quinham em aquelle feito. 

3i Tamto que soube que elRey uijnha, fez prestes todo seu corregimento 

3. assi A. — 4. gente A. — 7. assi A. — i3. ensejo I, açejo A — boa A — quando A. 
i5. sentir A. — 17. meençam A. — 23. conta A. — 25. despois A. — 25-26. Gomçalle- 
annes A. — 27. mlz A. — 3o. quanto A. — 35. que soube A, que o mestre soube I. 



— 270 — 

. pera o rreçeber seguindo perteeçia a seu estado, e segumdo o caso e a 
terra domde elle uijnha. E em aquelle dia sayram os Iffamtes Dom 
Joham e Dom Fernamdo e o meestre com elles per muy gramde espaço. 
e nom ficou homem na cidade, que de pee ou de cauallo nom sahisse 
fora, tamta era a sua lediçe com a uijmda delRey. e as molheres alimpa- 5 
uam as rruas, lamçamdo aas janellas as melhores cousas que tijnham. e 
ajumtauamsse cada huúas de sua freeguesia uestidas de suas milhores 

A, 128, r, I rroupas. e com gramdes càmtares filhauam quinham * daquelle rreçebi- 
mento. E quall seria o coraçom que uisse aquelle rreçebimento que 
todos faziam a elRej^ que podesse rreteer aquellas ueas per homde 10 
correm as lagrimas, que nom sse emchessem seus olhos dagua. e nom 
soomente as pessoas de comprido emtemdimento, mas os meninos par- 
uoos auiam emtemder pera sse allegrarem com a uijmda daquelle prim- 
çipe. e assy uijnham todos amte elle camtamdo, como sse fosse alguQa 
cousa çellestriall emuiada a elles pera sua saluaçam. Em todo aquelle i5 
dia nom fczeram cousa alguúa em aquella cidade, ca os offiçiaaes dos 
offiçios mecânicos auiam por bem despeso o gaanho daquelle dia, por 
homrrarem a festa de seu primçipe. Todallas nobres molheres daquella 
cidade sse forom pera a Iffamte, e a acompanharam ataa que elRey seu 
padre chegou, omde ella sahio aa primeira salla assy acompanhada de 20 
todas aquellas nobres molheres, e com gramde mesura e rreueremça 
rreçebeo seu padre e seus jrmaãos, e ass}' todollos outros nobres homeés, 
que com elles uijnham cada huíi segumdo seu estado. E por agora 
acerca do seu rreçebimento e follgamça nom departo mais. porque boom 

A,i28,r,'.! será de comssijrar a quallquer, que leer os uirtuosos feitos * deste gramde 25 
primçipe, e os gramdes trabalhos, que filhou por saluaçom e homrra do 
seu pouoo, quall seria o amor com que o elles rreçeberiam, quamto mais 
trazemdo comssigo tamanha uitoria. Por certo eu diria aqui mujtas 
cousas acerca das gramdes uirtudes delRey, se nom ouuesse descpreuer 
as suas homrrosas emxequeas com todallas outras cerimonias, que per- 3o 
teeçem aa sua sepulltura, omde me parece que tenho rrezoado lugar pera 
fallar de minha eniteemçom, o que de suas boomdades uerdadeiramente 
souber, porque toda a bem auemturamça do homem na fim he de lou- 
uar. Nom he pera callar a geerall follgamça, que todos auiam com a çer- 
tidom das nouas daquelle feito, e mujto mais quamdo uiram as presem- 35 
ças daquelles, de cujas uidas tijnham alguúa duuyda. porque aalem da 

6. cousas A, colchas ? — 14. assi A. — 19. foram A — Iffamte] add. Dona Isabel I. — 
20. assi A. — 22. assi A. — 23. estado] add. Deshi elRey com seus filhos se foi pelo 
reyno como antre sy por melhor ordenarem I. — 25. comsijrar A. — 32. emtemçom A. 



— 271 — 

uitoria nom auia hi tall, que uiesse sem parte da rriqueza daquella cidade. 
e toda a ocupaçom das molheres emtom era em rrecomtar cada huúa as 
cousas, que seu marido trouxera, porque em ellas naturallmente mora uaã 
gloria, deleitauamsse mujto em rrecomtar aquelle bem que ouueram. E 
i per tall guisa foi este feito emcaminhado, que mujtos que leixaram o pam 

de seus agros guardado em seus çelleiros, tornaram ajmda a apanhar* a A,i28,v,i 
nouidade de suas uinhas. 



Como ho autor mostra que todallas cousas deste tnundo falleçem, 
ssenam a escpritura. Capitullo Ciiij. 

10 y^^> KAMDE louuor deram os fillosofos amtijgos a Numa Pompillio, porque 
I --- foy o primeiro que achou a arte da moeda, por cuja rrezam 
^» — ^ ficou aaquelles que faliam o latim chamamdo dinheiros simprez- 
mente dizer numos. e certo he que elle merece por a sua boÕa emuem- 
çam gramde louuor amtre os uiuos, porque achou uerdadeiro meo em 

i5 toda a justiça comotatiua. Nom foy elle porem aquelle que departio 
tamtas maneiras de moeda, como ueedes que ha no mundo, ca depois 
sobre aquella forma hordenou cada huií em seu senhorio a deuisom delia, 
segumdo lhe prouue. soomente quamto ficou huúa moeda geeral, per que 
os homeés possam fazer uerdadeira comudaçom em todallas partes, e 

20 desto nom curamos fazer mayor destijmçom por chegarn:os a nosso pro- 
pósito. Ora se Numa Pompillio merece tamanho louuor por arte da 
moeda, íjue deuem merecer aquelles que primeiramente fezeram letra, 
pois trouxeram a nosso conhecimento nom tam soomente a sabedoria das 
cousas terreaaes, mas ajmda nos fezeram que conhecêssemos* e soubesse- A, 128, v,2 

25 mos as cousas que sam sobre a espera da luíía ataa o postumeyro çeeo. 
Ca polia samta escpritura conhecemos aquella rreall hordenamça das 
noue hordeés dos amjos. e como ssam departidas em três gerarchias, e 
quall he ho ofBçio de cada huúa. e assy deçemdemdo pêra fumdo ataa 
spera de Saturno, que de todas sete he a mais alta. E em uerdade seria 

3o fremosa departiçom, sse eu dissesse alguúa cousa acerca da diuisam 
daquellas planetas, e os caminhos que trazem cada huúa em sua uolta, 
saluo a nouena que he única e nom tem epiçicollo, segumdo mais compri- 
damente podem saber aquelles que tem uistos os teistos de Tollomeu 
ou leeram per Almajesta, ou per aquelló que escpreueo Alfarjano em 
íuas deferemças, e per outros mujtos autores que acerca dello assaz falla- 

8. mumdo A. — i3. boa A. — 13-14. emuençam A. — ifi. tantas A — mumdo A — 
dcspois A. — 18. quanto A. — 20. pella A. — 27 anjos A. — 28. assi A. — 35. asaz A. 



— 272 — 

ram. E de como esta escpritura foi primeiramente achada, e as rrazoões 
porque acharees ao diamte em nosso prollogo, omde começarmos a fallar 
das outras cousas do rregno. Que cousa pode millior seer amtre os 
uiuos que a escpritura, polia quall seguimos dereitamente o uerdadeiro 
caminho das uirtudes, que he o premeo da nossa bem auemturamça. esta 5 
he aquella que nos mostra quaaes seram os nossos gallardoões depois do 

A, i29,r, 1 trespassamento desta uida, e outras mujtas * cousas que propriamente 
peiteeçem a alma, das quaaes nora curamos mujto fallar em este lugar, 
por quamto nossa emteemçom nom he mostrar em este capitullo outra 
cousa, senom como todalias boõas obras deste mundo sse perderiam, sse 10 
a escpritura nom fosse. Como soubéramos agora queiamdo fora aquelle 
emperio dos Assirios, o quall amtre os outros emperios assy per lomgura 
de tempo como em gramdeza foy mujto acreçemtado, cujo começo foy 
rrey Nino duramdo per mujtos segres, corremdo per soçessom de rrex 
ataa o tempo de Ozias rrey de Juda. e por aazo da desordenamça de i5 
Sardanapallo foy destroido per Arbato capitam dos Medos. Outrossy o 
rregno dos Calldeos, do quall a samta escpritura tam a meudo faz memo- 
ria, omde rregnou Nabucadonosor, porque Baltasar seu neto se pos em 
gramde oufana em aquelle comuite, do quall Daniell faz memçam, e em a 
seguimte noite foi emcuruado per o rrey dos Romaãos. Como poderamos 20 
saber a desordenamça de rrey Xerxes, quamdo com tresemtos e oitemta 
mill homeés darmas e çem mill nauios passou em Greçia, e per huúa 
pouca companha dos Gregos foi desbaratado soomente por sua soberuosa 
presumçom, desprezamdo o proueitoso comsselho de Amagaro philosofo. 

A, i29,r,2 *E como soubéramos outrossy os uirtuosos feitos darmas que fezeram 25 
primeiramente os rrex de Roma ataa o tempo de Tarquino soberbo, per 
cuja desordenada luxuria os rrex forom lamçados fora do senhorio de 
Roma, e sse começaram de rreger per hordenamça de ditadores e com- 
ssullos, omde achamos as gramdes emsinamças, que rreçebemos pêra 
rregimento da cousa pubrica. nas quaaes se ouueram tam uirtuosamente 3o 
Marco Furio Camillo, e Marco ReguUo, e Apios Claudius, e Quimçios 
Fabios, e Lúcios Paullo, e Cláudio Vero, e Marcos Marcellos, e Luçios 
Pinarios, e o gramde Cepiam africano, e depois Marco Tullio Ciçerom, e 
Marco Claso, e Gayo César, e Pompeo o magno, e o uirtuoso Catam, 
e assy todollos outros nobres homeés daquelle tempo, os quaaes de boa- 35 
mente sofriam a morte, porque depois pêra todo sempre os seus nomes 
fossem achados nas escprituras por dignos de gramde memoria, como 

í>. perteemçem A. — 10. boas A. — i5. desordenançaA. — i5-i6. ssardanapollo A. — 
19. conuite A — mençam A. — 24. phõ A. — 25. outrossi A. — 27. foram A. — 33. des- 
pois A. — 35. assi A. — 36. despois A. 



— 273 — 

dezia Vulteo, quamdo em terra Dalmácia na rribeira do mar Adriático 
que jaz comtra ho ouçidemte, se rrezoaua comtra César e comtra sua 
uemtura, esforçamdo os seus caualleiros, que sperassem a morte no dia 
sseguimte, a quall tijnham mujto certa per Outauiano capitam de Pompeo. 
5 Oo dezia elle, nobres mamçebos esforçaaeuos em uirtude comtra afortuna, 

e daae comsselho aas cousas* de uossa postumaria. ca nom he pouca A, i29,r, 1 
uida a que nos fica, pois em ella teemos tempo descolher quall morte 
quisermos, nem a gloria de nossa morte nom he peor que a uida, que per 
alguú pouco de mais tempo poderamos auer. ca morrer pêra uiuer he 

10 bem auemturada cousa, segumdo Lucano escpreue todo esto no septimo 
e oytauo capitullos do seu quarto liuro. E por certo nom som pêra 
esqueeçer as uirtudes daquelles primeiros autores, que com tam forçosa 
emdustria e elloquemte estillo rreformaram amte nossos olhos os pree- 
meos e nobres meriçimentos dos exçellemtes feitos darmas e a gloria e 

i5 homrra da corte judiçiall, pollo quall estado quamtas cousas marauilhosas 
forom feitas per maão e ditas per liragua som trazidas a fim de claro 
conhecimento. E tamto he esta emdustria mais perfeita uirtude, em 
quamto rreforma o homem aa sua duraçam ataa fim da uida dos homeés, 
cuja clara memoria sempre traz praziuell deleitaçom aos coraçoões apa- 

20 relhados e despostos a seguir homrra. E por certo nom he o nosso 
pequeno emcarrego, quamdo per nosso trabalho os uirtuosos homeés jus- 
tamente ham seu meriçimento de seus gramdes feitos. E por tamto 
dezia Tullio no liuro de senectute, que lhe nom pesaua de morrer, porque 
sabia que a sua memoria *nom auia de perecer com a sua morte, porque A, i29,v,2 

25 dezia elle, assy proueitosamente uiuy, que me parece que nom naçi deball- 
de. E quall he mais segura sepulltura pêra quallquer primçipe ou baram 
uiriuoso, que a escpritura que rrepresemta o claro conhecimento de suas 
obras passadas. Certo toda a nobreza dos homeés fora destroida, sse as 
penas dos escpriuaães a nom poseram em fim. E porem dezia Lucano 

3o no oitauo liuro de sua estoria, fallamdo de como César chegou aaquelle 
lugar homde foy a Troya, comtamto alli a destroiçam daquellas cousas 
tam gramdes as quaaes Jullio César esguardaua com tam gramde fememça. 
porque elle e toda a linhagem rreall de Roma dcçemdia da geeiaçam de 
Eneas. Oo samto e gramde trabalho diz Lucano, dos autores estoriaaes 

35 como tolhes aa morte todallas cousas que achas, e as guardas em me- 

I . dizia A. — 3. uentura A. — 4. pompeeo A. — 5. dizia A — mancebos A. — 11. capi- 
tólios A. — i5. quantas A. — 16. foram A — língua A. — 17. tanto A. — iS. quanto A. — 
20-21. nom he o nosso pequeno emcarrego A, nom he pequeno encarrego o nosso I. — 
21. quando A. — 22. tanto A. — 23. dizia A. — 25. dizia A — assi A. — 26. sepultura A. 
— 29. fym A — dizia A. — 3i. comtamto A, comtando I. — 32. grandes A — femença A. 
35 



— 274 — 

moria que nom esqueeçam nem moyram. e das aos homeés mortaaes 
hidade que lhes dure sempre. E porem comcludimdo este capitullo, em- 
temdamos que os gramdes primçipes e outros boõs homeés deuem assy 
uirtuosamente obrar em seus feitos, per que os autores das estorias ajam 
rrezam descpreuer suas obras por sua notauell memoria e erasinamça 
dos outros, que depois delles quiserem comsseguir uirtude, e arredarsse 
A, i3o, r, I dos uiçiosos custumes, por tall * que o seu nome nom uiua amte os homeés 
pêra todo sempre em seu doesto, porque aalem do boom nome que 
numca morre, ou o comtrairo que numca sse perde, acreçemtam na bem 
auemturamça que perteeçe aa sua alma. Por quamto aquelles que deçem- 
dem de sua geeraçam, rreçebemdo homrra poUo sem meriçimento, rrogam 
a Deos por elles. e assy todollos outros ham em gramde rreueremça 
suas sepullturas, e bem dizem o seu nome ouuymdo ou ueemdo o pro- 
cesso de suas bomdades. 



Capitullo Ci\ no qiiall o autor da graças a Deos em fim de sua obra. 15 

Esu Christo nosso rremidor e saluador foi aquelle que chamei no 
começo de minha obra, conheçemdo minha fraqueza, pêra rreçeber 
sua ajuda, sem a quall em este mundo nom sse pode começar, 
mear, nem acabar nehuúa cousa, porque disse no começo que esta sua 
ajuda nom podíamos per nos meesmos percallçar sem rrequerimento e 20 
inteçessom dos samtos, primçipallmente da gloriosa e sem nehuíia mazella 
uirgem nossa Senhora samta Maria sua madre, a quall segumdo diz o 
philosofo no liuro da natureza das animalias, que a própria comdiçom da 
poomba he em toda sua uida sempre gemer. Nossa Senhora he aquella 
A, iio,r,2 que sempre geme * amte a presemça de seu filho, pidimdo saluaçam pêra 25 
nossas almas e ajmda pêra nossas uidas. Porem em comclusom de 
minha obra, com toda rreueremça e humilldade dou mujtas graças a elle 
uerdadeiro Deos meu Senhor Jesu Christo, porque lhe prouue por sua 
merçee emcaminhar meus feitos per tall guisa, que os trouuesse a fim em 
louuor e homrra deste uiturioso Rey, e do muy exçellemte piimçipe 3o 
e muy uirtuoso barom o IfFamte Duarte seu filiio, e dos outros 
Iffamtes seus jrmaãos, e assy de todollos primçipes senhores caua- 
lieiros fidallgos, que no dito feito ouueram parte. Dou outrossy muj- 
tas graças aa uirgem Maria, por cuja graça e meriçimento meu peti- 

3. prinçipes A — assi A. — 6. despois A. — 8. boo A. — 9. nunca A — acreçentam A. 
— 10. quanto A — rreçebendo A. — 12. assi A. — i5. C v] çemto e çimquo A. — 16. JhCÍ 
xpõ A. — 18. mumdo A. — 28. JhC xpõ A. — 3 1 lífantc A. — 32. assi A. — 33. outrossi A 
34. merecimento A. 



— 275 — 

tório foy outorgado, e aa senhora samta Caterina mártir e uirgem, 
em cuja samtidade ey simgullar deuaçom. e assy a todollos outros 
samtos e samtas da çeilestriall corte. E peço com gramde rreueremça 
a elRey meu senhor, que me perdooe todollos falleçimentos, que em esta 
5 obra de minha parte forem achados, culpamdo em ello mais minha rru- 
deza e fraco emgenho, que a determinaçom de minha uoomtade. E peço 
e rrogo outro ssy a todollos fiees christaaos e espiçiallmente *aos naturaaes A, i3o,v, i 
destes rregnos, que leemdo esta obra sempre ajam em memoria a alma 
daquelle samto Rey, per cuja uirtude e força esta cidade de Cepta foy 

10 gaanhada e tirada do poder dos jmfiees, e posta sso o jugo da ffe de 
nosso Senhor Jesu Christo. e outrossy polia alma delRey Dom Duarte 
seu filho de gloriosa memoria, que a ajudou a gaanhar, e a mamteue e 
dctfemdeo em todollos dias (de sua uida. e assy de todos aquelles que 
primeyramente em ella trabalharom, e depois ataa ora morreram em seu 

i5 dcííemdimento. E deuem outrossy pedir a Deos de todo coraçom e 
uoomtade, que queyra comseruar o estado delRey nosso senhor, e o queira 
sempre ajudar pêra mamteer e gouernar seus rregnos, spiçiallmente aquella 
cidade, que esta por acreçemtamento da ffe de nosso Senhor Jesu Christo 
e por homrra da sua coroa rreall. nom esqueeçemdo ho Iffamte Dom Ham- 

20 rrique, que com tam gramdes trabalhos e despesa a gouernou sempre em 
seu estado. E foy acabada esta obra na cidade de Sillues, que he no 
rregno do Algarue, a uijmte e çimquo dias de março, quamdo amdaua a 
era do mundo em çimquo mill e duzemtos e homze annos rromaãos. e a 
era do deluuj'© em quatro *mill e quinhemtos e çimquoemta e dous annos. A,i3o,v,2 

25 e a era de Nabucadonosor em dous mill e çemto e nouemta e sete annos. 
e a era de Phillipe ho gram rrey de Greçia em mill e seteçemtos e 
sesseemta e três annos. e a era dAllexamdre ho gram rrey de Macedónia 
em mill e seteçemtos e sesseemta e huú. e a era de César em mill e 
quatroçemtos e oitcmta e oito annos. e a era de nosso Senhor Jesu 

3o Chiisto em mill e quatroçemtos e çimquoemta annos. e a era de dAçianus 
ho Egiçiaão em mill e seys annos. e a era dos Arauigos em oitoçemtos e 
uijmte e oito annos. e a era dos Perssianos em oitoçemtos e dez e sete 
aiinos. e a era do primeyro rrey que foy em Portugall em trezemtos e 
quorcmta e oito annos. e o anno do rregnado delRey Dom Atfomsso ho 

35 quimto em homze annos e duzemtos e çimquo dias mais. 

7. xpaãos A. — II. Jhú xpõ A — eduarte A. — 17. pêra I, e A — manteer A. — 
22. a ( i.") 1, om A — çinquo A. — 23. mumdo A — çimquo] om. A, sinco I. — 23. sinco 
mil cento e onze annos hebraicos I. — 24. annos] om. A. — 25. nouenta A. — 26. Ke- 
Hipo A. — 27. seseemta A. — 2S. sesecmta A. — 29-30. Jhú xpõ A. — 3o. Dacianus A, 
Alimus I (dAnianusPj. — 3i. annos] om. A. — 34. annos I, om. A. 



índice dos nomes próprios de pessoas 



(Excluiram-se pela sua frequente repetição: eIRey Dom Joham, o If&mte Duarte, o Iftamte Dom Pedro, 
e o Ufamte Dom Hamrrique). — Os númros indicam as páginas. 



Abilabez — lo. 

Abraham — 6, i6i. 

Achilles — 119. 

dAçymos, dAçianus — 233, 275. Anianus, 
monge egípcio. 

Adam — 233. 

Dora Affomsso Amrriquez, rei de Portu- 
gal — 36, 234. 

Dom Affomsso quarto, rei de Portugal — 
35, 56. 

Dom Affomsso quinto, rei de Portugal — 
i3, 275. 

Dom Affomsso, rei de Castella — 35, i83. 

Dom Affomsso, comde de Barçellos — ii5, 
122, i52, 20S. Veja-se comde de Barçel- 
los). 

Dom Affomsso de Casquaaes — i53. 

Affomso Eannes, escudeiro — -iiS, 116. 

Afforaso Eannes, capellão moor delRei — 

25l. 

Affomsso Furtado de Memdoça, capitão 
do mar — 5o, 5i, 55, 56, 58, ii5, i53. 

Affomsso Vaaz de Sousa — i53. 

Agar — 248. 

santo Agostinho — 10, 38, 117. 

Ahyor — 200. 

duque d.\llemanha — 104. Veja-se Chro- 
nica do Conde Dom Pedro, cap. Ix. 

barom dAUemanha — 104, 233. 

Alarues — 233. 

Alberto, gramde theologo — 255. Alberto 
magno, bispo de Ratisbona. 



Alexandre, rei de Macedónia — 118, 119, 

233, 275. 
Alfarjano — 271. Alfragan, astrónomo ára- 
be do século IX. 
Aluoro dAguiar — 269. 
Aluoro da Cunha — 1 14, 154, 257, 269. 
Aluoro Eannes de Cernache — 134, 264. 
Aluoro Fernamdez de Mazquarenhas — 114, 

154,217, 257. 
Aluoro Ferreira, bispo de Coimbra — 154. 
Aluoro Gomçalluez dAtayde, gouernador 

da casa do Iffamte Dom Pedro — 154. 
Aluoro Gomçalluez Camello, prioU do Es- 

pitall — 5o,'5i, 53, 55, 58, 59, i53. 
Aluoro Meemdez Cerueyra — i53, 233, 234, 

264. 
Aluoro Gomçalluez da Maya, veedor da 

fazemda delRey, na cidade do Porto — 

242, 243, 244. 
Aluoro Nogueira — i53, 233, 2Ó9. 
Aluoro Peixoto — 154. 
Aluoro Pereira — i53, 257. 
Aluoro de Pinhel — 269. 
Aluoro Vaaz dAlmadaã — i54, 25". 
Dom Aluoro Pires de Castro — 1 14, i53. 
Amagaro, philosofo — 272. 
Amon — 200. 
Amtàm da Cunha — 269. 
Amtam Vaaz de Góes — 224. 
Amtiocho — i58, i63. 
Dom Anrique, rei de Castella — 16. 
Anibal — i5, 159, 174, 196. 



— 278 — 



Arato, poeta grego — 177. 

Arauigos — 275. 

Arbato — 272. 

Aries, signo — 173, 246. 

Aristóteles, filosofo grego — 3, 117. 

duque dArjona — 97. 

mosse Arredemtam, Henry dAntoing — 104. 

Assírios — 272. 

Aviçena, filosofo árabe — 8. 

meestre dAuis — 9,69, i33, i54, 269, 270. 
Dom frey Fernam RoTz de Sequeira, 
21.° mestre ou melhor Comendador mor 
da Ordem de Aviz, falecido em 1433. 

Ayres Gomçalluez dAbreu — 257. 

Ayres Gomçalluez de Figueyredo — iii, 
114, 153,227. 

Ayres Gomez da Sillua — 257. 

Azmede ben Filhe — 172. 

almiramte, veja-se Lamçarote. 

Baco — 240. 

Baltasar, rei dos Caldeus — 272. 

comde de Barçellos — í5, 26, 3o, 33, 54, 72, 
74, 92, 114, 145, (53, 182, 206, 210, 232. 
Veja-se Dom Affomsso, comde de Bar- 
çellos. 

Bayoneses — 1 1 1, 228. 

Belleago — 17, 98. Doutor Joham Gonçall- 
uez Beleago, adayam da see de Coimbra. 
Veja-se Fernam Lopes, Chronica de Dom 
João }, parte segunda, capitulo 193 e 198. 

comde de Bellonha — 92. 

Bembendim de Barbudo — 154. 

comde de Benauente — 97. 

duquesa de Bergonha, Iffamte Dona Isabel 
— i32, 270. 

sam Bernardo — 157. 

Bizcainho — 23 1. 

Brafome — 173. 

Briatiz Gomçalluez do Moura — 119, 120, 
129, i3i, i32. 

adiamtado de Caçorlla — 96. 

Çalla bem Çalla — 169, 172, 173, 180, 197, 

198, 2o3, 2o5, 206, 22G, 23i, 232, 237,239, 

247. 
meestre de Callatraua — 97. 
Calldeos — 272. 



Carneiro, signo — 173. 

miçe Carlos Façanha, filho do almirante 

miçe Lamçarote Façanha — 67, ii5. • 
Castor — 234. 
Castellaãos — '4) 21, 40. 
Catam — 272. 
santa Caterina — 275. 

Dona Caterina, rainha de Castella — i3, 16. 
Dona Caterina, irmã dei Rey de Castella 

— 52. 

Cepiam — 9, i5, 110, 119, 174, 272. 

César — 233, 275 ; veja-se Gayo César e Ju- 
lho César. 

rainha de Cezilia — 5o, 5i, 52, 53, 55. 

meestre de Christo, veja-se D. Lopo Dias 
de Sousa. 

Cláudio Vero — 272. 

Clemente vii. Papa — 92. 

santa Clara de Coymbra — i36. 

Comdestabre, Dom Nuno Aluares Fereira, 

— 60, 68, 6g, 70, 71, 1 15, i53, 212, 252. 
caualleiro de samta Cruz — 264. 

Cyro, rei da Pérsia — 140. 

Daniell, profeta — 272. 

Dia Sanchez de Benauides — 97, 98, 100. 

Dom Denis, rei de Portugal — i36. 

Dom Denis, filho de Dom Pedro i — 56. 

Diego Aluarez, meestre sala — i53. 

Diego Aluarez Barbas — 264. 

Diego Gomçalluez de Trauaços — 210, 257. 

Diego Fernamdez dAlmeida — 154, 233,257, 

Diego Gomez da Sillua — 114, i53, 257. 

Diego Lopez Lobo — 154. 

Diego Lopez de Sousa — i53, 264. 

Diego de Seabra, alferes do Iffamte Duarte 

— 210, 257, 264. 
Diego Soares — 154. 

Diego Soares de Albergaria — 154. 
Duarte Fereira — 208. 

Edonis — 240. 
Egiçiaão — 233, 275. 
santo Enselmo — 7. 
Escorpiam, signo — 173. 
prioll do Espitall, Dom Aluaro Gonçalluez 
Camelo — 5o, 5i, 53, 54, 58, 59, 60, 61, 

Il5, 180, 181, 23o, 252. 



279 — 



Esther — 1 19. 

Esteuam Soarez de Mello — 114, i54, 169, 

2o3. 
Estóicos — 200. 
Ezechiell, profeta — 160. 

Dona Felipa, Rainha de Portugal — 17, 60, 

61, 62, 63, 65, 66, 93, 107, 108, 116, 140. 
Fernam dAluarez — 217. 
Fernam dAluarez Cabral — 114, i53, 178, 

Fernam Chamorro — 216, 217, 223, 226, 228. 

Fernam Fogaça, ueedor do Iffamte Duarte 
— 83, 84, 86, 87, 92. 

Fernam Furtado — 264. 

comde Fernam Gomçalluez — 35. 

Fernam Gonçalluez dArqua — 154. 

mestre Fernam Joanne, físico do Iffamte 
Dom Amrrique — 179. 

Fernam Lopez, chronista — 12, i3. 

Fernam Lopez dAzcuedo — 114, 154. 

P'ernam Vaaz de Sequeira — 154, 257. 

Dom Fernamdo, infante de Castella, e de- 
pois rei de Aragão — i3, 17, 19, 23, 45, gS, 
97, 98, 99, 101, 102, io3, 104, 242, 243, 244. 

Dom Fernamdo, rei de Castella — 35, i83. 

Iifamte Dom Fernamdo, filho de Dom Pe- 
dro I — 12, 56, 57. 

Iffamte Dom Fernamdo, filho de Dom Jo- 
ham I — i33, 270. 

Dom Fernamdo de Bragamça, filho do 
líTamte Dom Joham — 1 14, i53, 257. 

Fernamdo AtTomsso — 233. 

Fernamdo Atfomsso de Carualho — 196. 

Dom Fernamdo de Castro — i53, 233. 

Dom Fernamdo de Meneses — 257. 

duque de Gamdia — 17, 244. 

Garcia Moniz — 1 14, 154, 222, 223, 224. 

Ganimedes — 193. 

Gayo César — 174, 272. 

Genoeses — 94, 96, 2i5, 23i, 232, 

Gibotalher, Guy le Bouttiller — 104. 

Gill Louremço dEluas — 264. 

Gill de Roma — 67. Fr. Gil de Roma, autor 
do livro De Regimine principum, que teve 
grande voga nos séculos xiv e xv. 

Gill Vaaz — 2o5. 



Gill Vaaz da Cunha — 114, i53, 257. 

Gill Vaasquez — 154. 

Goraez Diaz — 264. 

Gomez Diaz de Góes — 217. 

Gomez Eannes de Zurara — i3. 

Gomez Ferreira — 154. 

Gomez Martimz de Lemos, ayo do comde 
de Barçellos, — 114, 145, 149, i53. 

Gomçallo Caldeira — 76. 

Gomçallo Eannes de Sousa — 1 14, i53, 269. 

Gomçallo Eannes dAbreu — i53. 

Gomçallo Louremço de Gomide, escrivão 
da puridade delRey — 19,67, 76, i53, 211, 
212. 

Gomçallo Gomes dAzeuedo, alcayde dAl- 
lamquer — 1 54. 

Gomçallo Nunes Barreto — i53, 263. 

Gomçallo Pereyra das armas — 04. 

Gomçallo Pereyra de Vouzella — 1 54. 

Gomçallo Rofz de Sousa, capitam dos gine- 
tes — 127, 263. 

Gomçallo Vaaz Coutinho, marichal — 76, 
1 14, 206, 207, 208. 

Gonfedro — 240. Gondofre, escritor italiano, 
que viajou na Palestina. 

sam Gregório, Papa — 4. 

Gregos — 49, 256, 272. 

condessa D. Guiomar de Meneses — 166. 

rei de Graada, io5, 106, 107, 108, 109. O rei 
de Granada chamava-se Muhamad ben 
Yusef, e reinou de 1399 a 1420. 

D. Hamrrique, rei de Castella — 97, 244. 
Veja-se D. Anrique. 

D. Hamrrique de Loronha — i53, 233, 257. 

Hercolles — 139. 

Hermes, titulo de um livro apócrifo do 
Novo Testamento — 255. Veja-se Gomez 
Eannes de Zurara, Chronica da conquista 
de Guiné, cap. Ixxiv, e Chronica do Con- 
de D. Pedro, parte i, cap. 11. 

Holofernes — 200. 

Inequixius Dama, imgres, criado da rainha 

Dona FcUipa — 25o. 
Dona Isabell, rainha de Portugal — i36. 
Iffamte Dona Isabel, veja-se duquesa de 

Bergonha. 



— 28o 



santo Isidoro — lo, i lo. Veja-se Isidori His- 
pcilensis episccpi Etimologiorum sive 
Origitwm libri xx. 

Isrraell — 6, i6i. 

mice Itam, (mice Ettore ?), irmão do almi- 
rante miçe Lamçarote Façanha — 264. 
Veja-?e Gomez Eannes de Zurara, Cróni- 
ca do Conde Dom Pedro, parte i, cap. xxxi. 

Jeremias — 160. 

sam Jerónimo — 12. 

Dom Joham 11, Rei de Castella — 16, 18, 229. 

Dom Joham, filho de D. Pedro i — 56, i53. 

Dom Joham, filho bastardo de Pedro i, 
depois Mestre de Avis, e Rei de Portu- 
gal— 57. 

Iffante D. Joham, filho de D. João i — i33, 
2o3, 270. 

priol de sam Joham — 97. 

Joham Affomsso, ueedor da [fazenda dei 
Rey — 26, 27, 28, 33, 61, 63, 66, 207, 23o. 

Joham Affomso dAllamquer — i54, 267. 

Joham Affomsso de Brito — i53. 

Joham Affomsso de Samtarem — i53. 

Joham dAtayde — i54, 257. 

Joham Aluarez Pereira — 114, i53. 

Joham Bocaçio — i5. João Bocacio, escri- 
tor italiano, autor do livro De Casibus 
princtpum. 

Dom Joham de Castro — i53, 233, 269. 

Joham Escudeiro — 242, 243. 

Joham Ferreira — 264. 

Joham Fogaça, ueedor do comde de Bar- 
çellos — 154, 202, 2o3. 

Joham Freire dAndrade — i53. 

Joham Gomez Arnalho — 2b2. 

Joham Gomez da Sillua, alferes moor del- 
Rey — 17, 76, 82, 98, 114, iS3, 257. 

Joham Gomçalluez Omem — 177. 

Joham Jusarte — 262. 

Dom Joham de Loronha — i53, 233, 257. 

Dom Joham Manuel!, autor do livro O com- 
de de Lucanor — q5. 

Johane Meemdez de Vaascomçellos — 154. 

Joham RoTz Comitre — 241. 

Joham Rodriguez de Saa — 1 14, i53. 

Joham Rodriguez Taborda — 154. 

Joham Pereyra — 1 54, 263. 



Joham Soares — 154. 

Joham Vaasquez (ou Vaaz) dAlmadaã— 1 15, 

121, 123, 126, 127, i54, i65, 23i, 232, 2G4. 
frey Joham Xira, confessor delRey — 3i, 

34, i56, 202, 25 1, 253. 
sam Joham, evangelista — 4, 6, 75, 83, 162. 
sam Jorge — 229. 
comde Juliam — 10, i58. 
Jullio César — 174, 273. 
Júpiter, signo — 173. 
Juda — 272. 
Judeus — 120, 200. 
Judie, Judith — 1 19, 200. 
Justiniano, imperador de Roma — 37. 

Leda — 234. 

mice Lamçarote Paçanha, almiramte — 1 1 5, 
i53. 

sam Leam, Papa — 161. 

Liom (signo) — 139. 

D. Lionor, rainha de Portugal — i3o. 

Libra, signo — 164. 

Lopo Aluarez de Moura — i53. 

Lopo Diaz d.Azevedo — 154. 

Dom Lopo Diaz de Sousa, meestre da Or- 
dem de Christo — 11 5, 1 53, 232, 252, 263. 

Lopo Vaaz de Castell Bramco, alcayde de 
Moura, monteiro moor delRey — 263. 

Lopo Vaasquez — 154. 

Loth— 6. 

Lucano, poeta romano — 119, 273. 

comde de Lucanor — gS. 

sam Lucas, evangelista — 4, 

Dom Lucas de Tuy — 10. 

Lúcifer — 201. 

Lúcios PauUo — 272. 

Lúcios Pinarios — 272. 

Lucrécia, matrona romana — 119. Veja-se 
Tito Livio, I, I, 57. 

Luis Aluarez Cabral, ueedor do Iffamte 
Dom Hamrrique — 114, i53, 178. 

Luis Aluarez da Cunha — 264. 

Luis Gomçalluez — 154. 

Luis de Sousa, claveiro da Ordem de Chris- 
to — 127. 

Luiz Vaaz da Cunha — 264. 

Macabeu — 7; Macabeus — i58, i63. 



— 28l — 



Mafamede — 1 1, 65, 194, 199, 218, 248. 
satnta Maria de Bellem — 11 5, 144. 
samta Maria da Escada — 177. 
Marco Furio Camillo — 272. 
Marco Regullo — 272. 
Marco Tullio Ciçerom — 35, 272. 
Marcos Marçellos — 272. 
Marijms — 197, 2o5. 
Martes, signo — 164. 

Martim Affomsso de Melloo, guarda moor 
dei Rey — 68, 69, 76, i53, 2o3, 2o5, 208, 
261, 262, 263. 
Martim Affomso de Sousa — 114, 
Martim Correia — 257. 
doutor Martim Dossem, gouernador da casa 
do IfFamte Duarte — 17, 98, 154. Veja-se 
Fernam Lopes, Chronica de D. João /, 
parte 2.', cap. ig3 e 198. 
Martim Fernamdez Portocarreyro, alcaide 

da Tarifa — 167, 168, 241, 242. 
Martim Gill Pestana — 212. 
Martim Lopes dAzeuedo — 114, 154, 257. 
Martim Paaez, capellam do lífamte Dom 

Hamrrique — 199, 202. 
Martim Vaaz da Cunha — i53. 
Dom Martinho, rei de Aragão — 17. 
sam Mateus, evangelista — 4. 
Matias — i58. 

Mecia Vaasquez (ou Vaaz) — 119, 129, i3i. 
Medos — 272. 

Meem Rodriguez de Refoyos, alferes do 
Iffamte Dom Hamrrique — 1 14, 154, 2o3. 
Meem de Seabra — 264. 
Meemdo Affomsso — i53, 233. 
Mercúrio, signo — 173. 
meestre de Christo, veja-se D. Lopo Diaz 

de Sousa, 
meestre dAuis, veja-se Auis. 
sam Mvguell — 201. 
Mirabolim ou Miramolim — 35, 173. 
Momdo Arnaut, rico cidadão de Imgra- 
terra — 154. Veja-se Chancelaria de D. 
João I, liv. 5, foi. 24, V. 
bispo de Mondanhedo — 97, 98. 
Mouses — 6, i5, 37, 120, i58, 255. 

Nabucadonosor, rei dos Calldeus — 233, 272, 
275. 
36 



Nipoçiano — 12. 

Nino, rei dos Assírios — 272. 

Noa — 10. 

Numa Pompillio, rei de Roma — 271. 

Nuno Antunez — 224. 

Nuno da Cunha — 269. 

Nuno MartimzdaSillueyra— i53, 212, 233, 

257. 
Nuno Vaaz de Castell Bramco-i 54, 233, 257. 
Nuno Vaasquez — 154. 

comde dOrgel, veja-se comde dUrgel. 

duque dOlamda — 83, 87, 92, 94, 164. O 
duque dOlamda, ou antes conde de Hol- 
landa, é conhecido pelo nome de Guilher- 
me da Baviera, cunhado de Jean-sans- 
peur, duque de Borgonha. 

Omero, poeta grego — 119. 

Oraçio Cocrez — 219. Veja-se Tito Livio, 
I, 2, 10. 

Oriam (constellação Orion) — 173. 

Outauiano (Octaviano) — 2-3. 

Ouuydio, poeta romano — 140. 

Ozias, rei de Juda — 272. 

sam Paulo — 3, 36. 

Paulo Virgereo — 67. Pietro Paulo Verge- 
rio, nascido em Capo d'Istria em 1370, 
professou em Pádua, donde fugiu para 
Hungria, e foi morto em Buda em 1444. 

Paay Rodriguez dAraujo — 114, 154. 

Payo Rodriguez — 154. 

sam Pedro — 37, 92, 162. 

Dom Pedro 1, Rei de Portugal — 56, 57, i36. 

mestre Pedro — 10. Mestre Pedro é o fa- 
moso Pierre d'Ailly, ou Pierre Lombard, 
denominado mestre djs senteriçjis, fale- 
cido em Paris em 11G4; escreveu entre 
outras obras: Libri qtiatuor senlentiarum. 

Dom Pedro de Castro — 1 14, i53. 

Dom Pedro de Meneses, conde de Viana, 
alferez do Iffamte Duarte, e primeiro 
capitão de Ceuta — i53, 166, 232, 257, 
262, 263, 264, 265. 

Dom Pedro de Meneses — 269. 

Pedro Eannes de Lobato — 154. 

Pêro Fernamdez Portocarreiro — i65, 167, 
168, 169, i8>, 241. 



282 



Pêro Gomçalluez de Curutello — 154. 

Pêro Gomçalluez Mallafaya — i54, 264. 

Pêro Lopez dAzeuedo — 264. 

Paro Louremço de Tauora — 114, i53. 

Pêro Peixoto — 154. 

Pêro Vaasquez — 154. 

Pêro Vaaz dAlmadaã — 233, 257. 

Pêro Vaaz Pimto — 264. 

Pêro Tauares — 269. 

Perribatalha, Pierre Bataiile de Boullenoiz 

— 104. 
Persianos — 234, 275. 
Phillipe, rei de Grécia — 233, 275. 
philosopho, veja-se Aristóteles. 
Platam, philosopho grego — 200. 
PoUicrato — 201. 
Pollos, PoUux — 234. 
Pompeo — 174, 272, 273. 

Quindos Fabios — 272. 

Reinei, rei de Nápoles — 17. 

Remigio (Ramiro), rei de Castella que ven- 
ceu a batalha de Clavijo — 35. Veja-se 
Gomes Eannes de Zurara, Chronica da 
conquista de Guiné, cap. xi. 

Dom Rodrigo, ultimo rei godo de Hespa- 
nha — 10, i5. 

Romaãos — 9, 38, 47, 104, i5o, 157, tSg, 
i63, 272. 

RomuUo, primeiro rei de Roma — 219. 

Ruy Gomçalluez, comendador de Canha — 

203. 

Ruy Gomez dAlua — 154. 

Ruy Gomez da Sillua — 264. 

Ruy de Sousa, alcayde do castello de Mar- 

uam — i54, 212, 263. 
Ruy Pires do Alandroal, thesoureiro da 

moeda — 66. 
çide Ruy Diaz — 35, 24.3. 
Ruy Vaasques Ribeiro — 154. 
Ruy Vaaz — 154. 

Sallamam — 6, 3i, 66, i36. 
Samtiago, apostolo — 4, 35, i52, 25o. 
adayam de Samtiago — 97. 
mestre de Samtiago — 244. 
Sardanapallo — 272 



Saturno, planeta — 164, 173, 271. 
Séneca, escritor romano — 141. 
Sócrates, filosofo grego — 117. 
SoU, planeta — 164. 

Tarquino, rei de Roma — 272. 

sam Thomas — i25, 161. 

Timoteu — 6. 

Tito Livio, historiador romano — i5, 110, 

1 19, t59, 219. 
Tobias — 5. 

arcebispo de ToUedo — 97. 
ToUomeu, geógrafo grego — 173, 271. 
TuUio, veja-se Marco Tullio Cicerom. 
Turcos — 248. 

comde dUrgel — 17, loi. 

Vaasco Eannes Corte Reall — 2o3. 

Vaasco Esteuez Godinho — 217. 

Vaasco Fernandez dAtayde, governador da 

casa do Iftamte Dom Hamrrique — 1 14, 

i54, 206, 207, 227, 228, 229, 247. 
Vaasco Fernandez Coutinho — i53. 
Vaasco Martimz da Albergaria — 114, 154, 

204, 2o5, 257. 
Vaasco Martimz de Carualhal — 154, 233, 

269. 
Vaasco Martinz da Cunha — i53. 
frey Vaasco Pereira, comfessor dei Rey — 3 1 . 
Valério Máximo, historiador romano — 9, 

34, 119, 124, 159, 219. 
Vemturiu Coriolla, matrona romana — 

124. Veja-se Tito Livio, 11, 40, i. 
sam Vicemte — i56, 23 1. 
Virgo, signo — ig3, 234. 
Virgínea, matrona romana — 119. Veja-se 

Tito Livio, III, 44. 
Vulteo — 273. 

Xenofonte, escritor grego — 140. 
Xerxes, rei da Pérsia — 272. 

Yuda Negro, judeu (Dom Juda ibn-Jahia) 
criado da Rainha Dona Fclipa — 93. Ve- 
ja-se Historia da litteratura portuguesa, 
no Grundriss der Romanischen Philolo- 
gie, pag. 234 e 38o. 



índice dos nomes próprios geográficos 



(£xceptuam-se Portugal, Cepta, Castella, Espanha). — Os números indicam as páginas. 



mar Adriático — 273. Canha — 2o3. 

AfFrica — 9, 10, 27, 56, 5y, 61, 110, 192,239, ponta do Carneiro — i83, 184, 188, 208. 

243, 248, 249. Carnide — 76. 

Allamdroall — 66. santa Caterina (de riba mar) — i52, i53. 

Alamquer — 217. Cesto — 209. 

Albergaria — 245. Cezilia — 5o, 5i, 52,91, io3, iio, 164. 

Algarue — 42, 54, 88, 182, 239, 205, 266, Cezimbra — i56. 

267, 269, 275. Coymbra — 17, 35,72, i36, 154, 181, 183,267. 

Alhos Vedros — i38, 145, i52. Cordoua — 174. 

Allemanha — 44,87, 104. Couna — 177. 

Aljazira — 59, i83, 188. Couilhaã — 45, 267. 

Aljaziras — i65, 167, 174, 176, 239. Crasto Marim — 266. 

Aljubarrota — 229. Curuche — 69. 
Almadaã — 46. 

Almina — 59, 174, 175, 186, 187, 2o3, 2o5, Dalmácia — 273. 

210,215,237,242. Damasco — 248. 

Antiqueyra — 244. Doyro — 88. 
Aragam — 13, 17,23,45, 95, loi, 106,242,244. 

Arrayolos — 69,71. Emaçea — 174. 

Assiria — 248. Estremadura — 69, 74, 88. 

Aauiia — 95. Ethiopia — [248. 

Auinham — 92. Euora — 71, 72, 75, 127, 212, 262, 269. 

Barbaria — 248. Faaram — 164, 266. 

Barbaçote — 170, 171, igS, 216, 237. Feez— 197, 232, 233, 234. 

Beyra — 72, 74, 88, i52. Floremça — i5, 258. 

Beja — 76. Framça — 91,258,264. 
Betulia — 200. 

Bizcaya — 44, 87. Galliza — 44, 87. 

Bruges — 86, 92. Gamdia — 17, 244. 

Giballtar— i65, 166, 178, i8i, 182, i83, i85. 

Canas — 159. 213,248. 



284 — 



Goniorra — 6. 

Graada — 23, 25, 40, 79, io5, 243, 244, 248, 

259. 
Greçia — 233, 272, 275. 

Himgraterra, veja-se Imgraterra. 

Imgraterra — 44, 87, 91, 107, 154, 258. 
Itallia — i5, 256. 

Jafa — 92. 

Jerusalém — 91, i58, 160, 201, 255. 

Juda — 272. 

Laguos — i56, 164, 202. 

Lauer — 69. 

Leom — 98. 

Libia — 248. 

Lixboa — 19, 24, 5i, 54, 56, 72, 88, 89, 90, 

96, 110, ii3, ii5, i55, iSg, 186, 25i, 266, 

267. 
Lombardia — 256. 

Macedónia — 1 19, 233, 275. 

Malega — 169, 170, 176, 187. 

Maruam — 263. 

Marrocos — 35, 173. 

Minho — 88. 

Monte Moor — 69, 70, 71, 75, 76. 

Moura — 263. 

ribeira de Muja — 69. 

Napole — 17, 91. 
Naues — 35. 
Normamdia — 92. 

Óbidos — 46. 

Odiana — 68, 72, 76, 88. 

Odiuellas — 117, 121, 122, i23. 

Olamda — 96. 

Oreb— i5. 

Orgel, veja-se Urgel. 



Ouriqne — 36. 

Pallemça — 95. 
monte Pirado — 240. 
Portell — 75. 

Porto — 72,90, 109, 110, 112, ii3, ii5, 178, 
186, 211, 228, 243. 

Restello — 116, 144, i52, i53. 
Ribatejo — 90. 
Roma — 67, 233, 273. 

Sacauem — 1 10, 121. 

Samtarem — 46, 68, 69, 70, 71, 72, 73, 74. 

Seuilha — 94, gS, 96. 

Sillues — 275. 

Simtra — 46, 54, 76, 119, 207. 

Siria — 248. 

Sodoma — 6. 

ribeira de Soor — 69. 

Tabor — 79. 

Tangere — 180. 

Taramto — 196. 

Tarifa — 166, 167, 179, 241, 242. 

Tauilla — 265, 266, 268. 

Tejo — 68, 88, i38. 

Temtugall — 75, 76. 

Tolledo — 35. 

Torres Vedras — 46, 75, 76, 77, 78, io5. 

Tróia — 9, 273. 

Tunez — 172, 238. 

Urgel — 17, loi. 

Vallemça do çide — 243. 
Veneza — 248. 
cabo de S. Viçemte — i56. 
Vizeu — 45, 72, 73, 267. 

Xemeyra — 5g. 



DOCUMENTOS 



I 

22 DE DEZEMBRO DE 1449 

Nos elRey fazemos saber a uos Gonçalo Esteuez nosso contador que 
tendes encarego das nossas escripturas que estam em o castello da cidade 
de Lixboa que nos acordamos por nosso seruiço e por melhorar guarda 
dessas escripturas que os trellados que se ata aqui derom per estormentos 
pubricos per os aluaraees nossos que uos sobre ello mandamos das ditas 
escripturas que se dem daqui em deante per cartas feitas em nosso nome 
per os escripuãees que ora escrepuem ou escrepuerem aas ditas escriptu- 
ras e que as ditas cartas sejam asynaadas per nos e asellaadas do noso 
seello dos contos dessa çydade. E porem nos mandamos que esta regra 
tenha Deus daqui em deante e o façades per gisa que dito he rrepartindo 
as ditas cartas perante os ditos escripuãees per destrybuiçom ou como 
uos uirdes que he melhor por nosso seruyço. E per este aluara manda- 
mos a Gonçalo Rodriguez nosso contador moor ou outro qualquer que 
teuer o nosso sello dos ditos contos que selle as ditas cartas sendo por 
nos asynadas como dito he. Unde ai nom façades. feito em Lixboa xxij 
dias de Dezembro. El Rey ho mandou. Rodrigo Anes a fez. era de 
mil iiij'= R IX anos. Gonçalo Esteuez. Lourenço Vicente. 

Chancelaria de D. João I, liv. v, foi. 82. 



II 

29 DE MARÇO DE 1451 

Dom Afomso etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que nos 
querendo fazer graça e mercee a Gomez Eanes caualleiro de nossa cassa 
e nosso canonista. Teemos por bem e lhe outorgamos que tenha e aja 
de nos des primeiro dia de Janeiro que ora foy desta era pressente de 
iiij^ Ij de teença em cada huú ano em quanto nossa mercee tor seis mill 



— 288 — 

reaaes brancos os quaaes auera per costa que lhe delles em cada ano 
seera dada em a nossa fazenda, e em testemunho dello lhe mandamos dar 
esta nossa carta sijnada per nos e sseellada do nosso seelo pendente pêra 
teer ssua guarda. Dante em a nossa villa de Santarém xxix dias de março. 
Ruy Dias a fez. ano de nosso Senhor Jhesu Christo de Mil iiij'= Ij. 

Chancellaria de D. Afonso V, liv. xi, foi. 26, v. 



III 

14 DE JULHO DE 1452 

Carta de quitaçam a Joham Rol:{ Carualho 
de todollos dinheiros que rreçebeo em Framdes hotnde foy emuyado. 

Dom Aíibnso etc. A quantos esta nossa carta de quitaçom virem 
fazemos saber que nos mandamos tomar conta e recado a Joham Roíz 
Carualho nosso escudeiro da guarda e rreçebedor da nossa chançelarya 
da corte per Esteuam Vaasquez contador da nossa casa de todolos dinhei- 
ros que por nos rreçebeo em a villa de Bruges condado de Framdes, 
homde ho enuyamos por alguúas cousas que eram comprydoyras a nosso 
seruiço no ano da era de nosso Senhor Jhesu Christo de mill e iiij^^ Ij. 

E vijnte e húa libras cynquo soldos por cem duzyas de purgamynhos 
rrespançados que emtregou a Gomez Eanes da Zurala nosso criado comen- 
dador dAlcãjz autor dos feytos notauees de nossos rregnos pêra os teer 
em guarda na nossa lyuraria que esta em a cydade de Lixboa de que ele 
tem cargo per aluara de mandado 

Dante em a nossa cidade dEuora xiiij do mes de Julho. Pêro Aluarez 
a fez. ano do naçimento de nosso Senhor Jhesu Christo de mill iiij'= lij. 

Chancelaria de D. Affonso V, liv. xii, foi. 62, r. 



— 289 — 

IV 

23 DE FEVEREIRO DE 1453 

Caj~ta que Gomes Eannes da Zurara 

comendador da Jiordem de Christo screueo ao Senhor Rey 

quando lhe enuyou este liuro. 

Muyto alto e muyto excellente príncipe e muyto poderoso Senhor. 

Como milhor sabe a uossa alteza que húa das propriedades do magnâ- 
nimo he querer ante dar que receber. E porque aos homeés nom pode 
seer dada mayor cousa em este mundo que honra, a qual diz o philoso- 
pho que de todos naturalmente he deseiada assy como alguú grande bem, 
porque de todallas cousas corporaaes ella he mayor nem milhor. E por 
tanto diz elle que o recompensamento da honra deue seer dado ao que 
he muyto nobre e excellente. e o recompensamento do guaanho ao que 
he mesteiroso. O que certamente mostra seer assy pois que a Deos nom 
podemos dar mayor cousa que honra, nem aos muy boõs e virtuosos por 
testemunho e gallardom de sua virtude. 

E como quer que em vossos feitos se podessem achar cousas assaz 
dignas de grande honra de que bem poderees mandar fazer vellume, 
Vossa Senhorya husando como verdadeiro magnânimo, a quis ante dar 
que receber. E tanto he vossa magnanimidade mais grande quanto a 
cousa dada he mais nobre e mais excellente. Pollo qual stando vossa 
mercee o ano passado em esta cidade me dissestes, quanto deseiauees 
veer postos em scripto os feitos do Senhor Iffante dom Henrique vosso 
tyo. ca conheciees que se alguús principes cathollicos em este mundo 
cobrarem perfeiçom das virtudes eroicas, elle deuya seer contado por 
huú dos principaaes. Porem que me mandauees que me trabalhasse muy 
verdadeiramente saber a maneira que sempre teuera em sua vida com 
todo o outro processo de seus feitos. E que auendo de todo comprida 
enformaçom me ocupasse de o screuer na milhor maneira que podesse, 
allegandome huú dito de Tullyo que diz que nom abasta ao homem fazer 
bõa cousa, mas fazella bem. Ca vos parecia que serya erro se de tam 
sancta e tam virtuosa vida nom ficasse exemplo, nom soomente pêra os 
principes que depois de vossa jdade possoissem estes rregnos, mas ajnda 
pêra todollos outros do mundo, que de sua scriptura cobrassem conheci- 
mento, por cuja rezom os naturaaes aueriam causa de conhecer sua 
37 



— 290 — 

sepultura perpetuando sacrifficios deuinos pêra acrecentamento de sua 
glorya. e os estrangeiros trazeriam seu nome ante os olhos com grande 
louuor de sua memoria. E por que em comprindo eu vosso mandado, 
conheço que vos nom faço tanto seruiço, como bem a mym meesmo. sem 
outra reposta me despus ao trabalho. Mas Senhor depois que o tiue 
começado, conheci que errara em me tremeter do que bem nom sabya, 
porque a fracos nembros ligeira carrega parece grande. Empero Senhor 
esforçandome com aquella voontade que aos boõs seruidores as cousas 
graues faz parecer ligeiras e boas dacabar. trabalheime de lhe dar fim 
o milhor que pude, ajnda que eu vos confesso que em o fazer nom pus 
tamanha deligencia como deuera por outras ocupaçoões que no prosse- 
guimento da obra se me recrecerom. Porem tal queiando he o enuyo aa 
vossa mercee, do qual sabendo que vos praz auelloey por grande soldada 
daqueste trabalho. E porque Senhor assy como sam Jerónimo screpuya 
em huúa epistolla, que aquelie que screpue, muytos toma por juizes, ca 
antre muytos ha desuairamento assy dentender como de voontades, e som 
alguijs que cuidam que os maaos feitos se screpuem por enueia ou mal- 
querença, e o que se diz da virtude e glorya dos boõs quando passa 
alguúa cousa aallem do que a elles parece, ligeiramente o julgam por 
mentira, como excrama Sallustryo em começo de seu Catallynaro. Se 
aquelles que meu trabalho plasmarem nom forem em sabedorya ou auto- 
ridade sofecientes, por merccee nom consentaaes que seia a obra porem 
condampnada. Ca pêro veiam em ella tam altas vertudes douidosas per 
alguú corpo mortal, conheçam que aas vezes a mingua do huso faz pare- 
cer forte, o que os husados ham por ligeiro e boõ dacabar. Empero 
muyto alto e muyto excellente príncipe estas cousas a vos nom perteecem 
porque o sabedor dos feitos alheos nom tem em costume julgar de 
ligeiro. E do que dito he com boa entençom, a ssentença tira sempre aa 
milhor parte. E Deos que o mundo gouerna e rege vos guarde de peri- 
goo também de desonra, e compra vossa vida e grande stado de honra 
saúde riqueza e prazer. Amen. Scripta em Lixboa xxiij de feuereiro 

1453. 

Crónica da conquista de Guiné, manuscrito da Biblio- 
teca nacional de Paris, facsimile na impressão da 
mesma chronica, feita em Paris em 1841. 



— 291 — 

V 

6 DE JUNHO DE 1454 

Dom Afíomso etc. A quantos esta carta virem ffazemos ssaber que 
esguardando nos como Fernam Lopez scpriuam que foy da puridade do 
Ifante Dom Fernando meu tyo cuja alma Deos aja, guardador das nossas 
scprituras do tonbo que estam no castello desta cidade, he ja tam velho 
e flaco, que per ssy nom pode bem seruir o dito offiçio, hordenaraos per 
sseu prazimento de o dar a outra pessoa, que o bem possa seruir, e ííazer 
a elle merçee como he rrezom de sse dar aos boõs seruidores. E con- 
fiando de Gomez Eanes de Zurara caualleiro comendador da hordem de 
Christo polia muyta criaçom que em elle teemos ffecta e seruiço que delle 
rreçebemos e speramos rreçeber, querendolhe fazer graça e merçee lhe 
damos o dito carrego assy e pella guysa que o dito Fernam Lopez atee 
qui teue, e mjlhor sse o elle dereitamente poder auer. E porem manda- 
mos aos veedores da nossa ftazenda, e contadores, e almoxarifes, e a 
outros quaaesquer a que esto pertencer per quallquer guisa que seja, a 
que esta nossa carta ííor mostrada, que lho leixem teer e auer o dito 
encarrego com todollos prooes e dereitos que a elle perteencem assy e 
pella gujsa que os auia o dito Fernam Lopez e os outros que ante elle 
forom que o dito encarrego teuerom, ssem lhe poendo ssobre ello outro 
nehuú embargo, o quall Gomez Eannes jurou em a nossa chancellaria 
aos ssantos euangelhos que bem e dereitamente e como deue, obre e huse 
do dito oficio, e guardar a nos nosso seruiço e ao pouoo sseu dereito. 
Dada em Lisboa bj de Junho. Joham Gonçaluez a fez. ano do naçi- 
mento de nosso Senhor Jhesu Christo de mil iiij"^ liiij anos. 

Chancelaria de Dom Affonso V, liv. x, foi. 3o, r. 



VI 

23 DE AGOSTO DE 1454 

Dom Affomso etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que 
Gomez Eanes de Zurara comendador dAlcãjz e da Granja dHulmeiro 
nosso criado que teem carreguo da nossa liuraria e cartório que teemos 
na torre do tombo que esta em esta nossa cidade de Lixboa nos disse 



— 292 — 

que elle rreçebia e speraua rreçeber seruiço de Guarda Anes e Afomso 
Guarçia seu filho almocreues moradores em a villa de Gastei Bramco e 
esto em lhe arrecadarem sua rrenda e procurarem suas coussas e lhas tra- 
zerem a esta cidade o que elle per ssy persoalmente nom podia fazer e 
que pollos assy achar deligentes a sseu mamdado nos pedia que lhos priui- 
ligiassemos dalguúas liberdades. E nos veendo sseu dizer e pedir, querem- 
dolhe fazer graça e mercee teemos por bem e priuiligiamos o dito Guarçia 
Anes e Afomsso Guarçia que daqui em diamte nom ssejam costramgidos 
per nehuíías carreguas e seruidoõs nossas nem dos Ifamtes meu yrmão e 
tio nem doutras alguúas perssoas pêra que com rrazom deuam ou possam 
seer costramgidos nem ysso meesmo ssejam costramgidos pêra nehuíjs 
encarregues e seruidoõs do concelho, nem lhe tomem suas cassas de 
morada adeguas nem caualariças pêra seerem dadas a nehuúas persoas 
de poussentadoria contra sua vomtade. E porem mamdamos aos juizes e 
oíiçiaaes dessa villa de Gastei Bramco e a quaaesquer outros juizes e jus- 
tiças de nossos rregnos a que esto pertencer e esta carta for mostrada 
que os nom costramgam nem mandem costramger pêra nehuúas das 
sobre ditas coussas. por quanto nossa mercee he sseerem dello escussados 
pello do dito Gomez Eanes que noilo por elles pedio. en quanto sse assy 
delles ouuer por seruido ssem lhe sobrello sseer posta outra alguúa duuida 
nem embargo. Dada em Lixboa xxiij dias dagosto. Gonçallo de Moura 
a fez. anno de nosso senhor Jhesu Christo de mil iiij<= cimquoemta e qua- 
tro annos. 

Chancelaria de D. Affonso V, liv. x, foi. ii3, r. 



VII 

7 DE AGOSTO DE 1459 

Dom Afomso etc. A quantos esta nossa carta virem fazemos saber 
que consijrando em os muytos seruiços que teemos recebidos e espera- 
mos ao diante receber de Gomez Eanes de Zurara comendador da Hordem 
de Christo nosso canonista e goarda moor do nosso tombo e querendo- 
Ihe fazer graça e mercee teemos por bem e nos praz que elle tenha e 
aja de nos de receita em quanto elle viuer doze mil reaes brancos do 
primeiro dia de janeiro que vem em diante os quaaes dinheiros elle de 
nos ataa ora ouue porem mandamos aos veedores escriuaães etc. Dada 
em a nossa villa de Sintra bij dagosto. Rosendo a fez. ano de mil 

iiij'= lix. 

Chancelaria de D. Afonso V, liv. xxxi, foi. 76, v. 



— 293 — 
VIII 

9 DE AGOSTO DE 1459 

A Gomes Eanes de Zurara licença pêra fa:{er qiiaaes quer obras 

e corregimentos que elle qui:{er em huíias casas dclRey 

que som nesta cidade de Lixboa a porta dos paços as quaaes elle e seus 

herdeiros teram e lhe nam seiam tiradas 

atee lhe nam seer paguo o que nellas despemder. 

Dom Afomsso etc. A quantos esta nossa carta virem fazemos saber 
que a nos praz e damos liçemça e lugar a Gomez Eanes de Zurara 
comendador do Pinheiro Gramde e da Gramja dUImeiro nosso coronista 
e guarda do tombo dos nossos rregnos que elle possa despemder em 
quaaes quer obras e corregimentos que elle quyser nas nossas casas que 
sam a porta dos nossos paços da cidade de Lixboa em que ora elle 
pousa ataa dez mjl reaes e mais posa mandar fazer huúa cisterna ém as 
ditas casas as quaaes despesas todas da dita cisterna e corregimentos 
seram vistas e feitas presente o nosso scripuam das nossas obras em a 
dita cidade e elle as poera em scprito e asinara per sua maao e quere- 
mos que se logo lhe nom podermos mandar pagar todo esto que assy 
despemder que elle e seus herdeiros possam teer todallas ditas casas e 
em ellas morar ou fazer em ellas o que lhe prouuer nam as dinificamdo 
partindo ou emalheamdo mas amtes aproueitandose delias como de cousa 
sua e posam morar em ellas as pesoas que lhe a elles aprouuer posto 
que nam viuam comnosquo ou nossos offiçiaaes nom seiam auemdo a 
seruemtia delias como ora ha o dito Gomez Eanes. E esto ataa lhes 
mandarmos pagar todollos dinheiros que assy elle despemder em corre- 
gimento e obras das ditas casas ata a dita contia de dez mjll reaes. E 
assy o que jsso mesmo despemder no fazimento da dita cisterna segumdo 
o mostrara escprito e assynado per o dito escpriuam e tamto que lhe 
esto pagarm.os as ditas casas ficaram liures a nos como ora som e em 
testemunho desto lhe mandamos dar esta nossa carta sinada per nos e 
assellada do nosso sello pendemte. Dada em Simtra a ix dias do mez 
dagosto. Joham Vogado a ífez. anno de nosso Senhor Jhesu Christo 

de mil iiij'= lix. 

D. Affonso V, liv. VII da ExtremaJura, foi. 255, v. 



— 294 — 
IX 

1459 

Depois que o muy serenjsimo príncipe e senhor e rrey Dom Affonso 
o quinto dos Reys de Portugal a primeira uez pasou em Africa e tomou 
a uilla dAlcaçer aos Mouros que foy no anno do naçimento de nosso 
senhor Jhesu Christo de mil iiij'= e cinquoenta e oyto annos. no anno 
seguinte fez cortes em Lixboa e antre as muytas cousas que fez por cor- 
regimento e prol de seu povoo foy. que por quanto soube que na sua torre 
do tombo jaziam mujtos liuros de rregisto dos rreis pasados onde seus 
naturaaes faziam grandes despesas buscando algijas cousas que lhes com- 
priam por razam da grande prolexidade descprituras que se nos ditos 
registos contijnham sem proueito. e ajnda porque pereciam por ueihos(i). 
Mandou que se tirasem em este liuro aquellas que sustançiaaes fosem 
pêra perpetua memoria, e que as outras ficasem. que a nehuú auiam 
razam daproueytar. E som em este liuro doaçoões, priuilegios, demar- 
caçoões de termos confirmações e assy outras semelhantes (2). E eu 
Gomez Eannes de Zurara comendador da hordem de Christo cronista 
do dito senhor guarda da dita torre a que o dito senhor deu carrego 
desto mandar fazer. 

Chancelaria de Dom Pedro I, foi. i, r, a, e foi. 81, r, a. 

João Pedro Ribeiro, Dissertações chronologicas e criticas, 
tomo I, Lisboa, 1860, p. 336. 



X 

II DE JUNHO DE 1460 

Carta do senhor Dom Pedro Mestre de Anis, 

e que depois foi Rey de Aragão filho do Infante Dom Pedro 

a Guome^ Eanes de Zurara caronista 

e guarda mor da Torre do Tombo escrita per sua mão. 

Guomez Eannes Amigo uos enuio muito saudar como aaquelle cuio 
bem deseio. em grande obrigação me meteo a uossa carta por duas rezoins. 

(i) E ajnda porque pereciam por uelhos, om foi. 81, r, a. 

(2) E som em este liuro doaçoões priujlegios apresentaçoões legitimaçoões afora- 
mentos coutamentos moorgados confirmaçoões e assy outras semelhantes. Foi. 81 , r, a. 



— 295 — 

a húa por me escreuerdes e emuiareis nouas sem uos eu escreuer sobre 
ello, e a outra porque estando nessa nobre cidade acompanhado de estu- 
dos e de occupaçoens reais e ainda de desemfadamentos curiais, e tam 
allongado, uos uir em lembrança, conheço porem, que a uossa antiga bon- 
dade e doce natureza com os uossos amigos não uos deixa ser esquecido. 
Eu aceito uossa offerta que he de me escreuerdes as cousas que se laa 
seguem dignas de escreuer, porque estou qua nesta terra seca de tudo, 
e o pior he que mal sentido em tal maneira que não posso desemfadarme 
nos aldeãos desemfadamentos senão uzar dos que os prezos e os enfer- 
mos acostumão, pello qual uos confesso que deseio algíias cousas como 
mulher prenhe, que se fora são eu me dera ao cuidado da caça e do 
monte, deixando a Lionel de Lima e a Pêro Vaz de MelK> o pezo e cui- 
dado da corte. Ao Príncipe meu senhor beijai a mão por mim e a elRey 
meu senhor se o laa colherdes nessa liuraria. A .ii. de iunho de 1406 (i). 

de Auis. 

Biblioteca Nacional de Lisboa, manuscrito n." 3776 

(N-i-26), foi. 42, V.-43, r. 
O Panorama, vol. v, Lisboa, 1841, p. 336. 

XI 

6 DE FEVEREIRO DE 1461 

Gomes Eanes de Zurara confirmaçam de perjilhaçam 

e doaçam que lhe fe\ Maria Annes pillileira de huú lugar que ella tijnha 

em Ribatejo homde chamam Vali bom. 

Dom ACFomsso etc. A quamtos esta nossa carta de confirmaçam 
virem fazemos saber que peramte nos foy apresemtado huú pruuico estor- 
mento de comfirmamento que parecia seer feito e assynado per Pêro Vaaz 
tabaliam por nos em a nossa cidade de Lixboa. per o quall se comtijnha 
amtre as outras coussas que per Maria Annes piiiteira morador em a dita 
cidade fora dito que era verdade que comssijramdo ella o gramde amor e 
amizade que Johane Annes da Zurara coniguo que foy desta cidade 
dEuora e de Coymbra teuera sempre com Maria Viçemte sua madre, e 
ysso mesmo a ella e a Lopo Martijs seu marido com que esteuera casada 
e as muytas boõas obras que elle rreçebera seemdo seu compadre e ami- 
guo. E comssijramdo ella como a Deos prouuera de lhe nom dar filho 

(i) A data deve ler-se : A 1 1 de junho de 14G0. 



— 296 — 

nem filha nem outro nehuú herdeiro lidimo que seus beês a ora de sua 
morte ouuessem dherdar. e por seer em tall hidade ella os nam podia 
aver. sseemdo sempre seu preposito dos os teer e aveer. E pois que a 
Deus nam aprouuera que porem comssiramdo ella o gramde amor e 
amizade que ella tijnha ora e sempre teuera com Gomez Eannes da 
Zurara comendador do Pinheiro gramde e nosso canonista. depois da 
morte do dito seu padre atee ora e as muj^tas boÕas obras e emcamjnha- 
mento de seus feytos, que do dito Gomez Eannes tinha rreçebidas. que 
ella de sua boõa liure vomtade e de seu propio moto ssem prema nem 
costramgimento de pessoa allguíia rreçebia como de feito rreçebera e 
tomara per modo de adopçam com desejo de teer filho o dito Gomez 
Eannes em seu filho lidimo e herdeiro a todas suas possissoÕes e coussas 
e direitos seus e em sua famillia e filiaçom e poderio paterno, afeituossa- 
mente o rreçebeo e tomou em seu huniuersal herdeiro que per sua morte 
herdasse e ouuesse todos seus beês moues e de rraiz avijdos e por aveer 
assy como sse fosse seu filho legitimo e delia naçesse naturallmente e lidi- 
mamente per legitimo matrimonio. E outrossy disse que ella fazia liure 
e pura doaçam amtre viuos pêra sempre valledoíra ao dito Gomez Ean- 
nes seu filho adouptiuo de huú seu lugar que ella dita Maria Annes avia 
e tijnha em Ribatejo em logo que chamam Vali boõ com todas ssuas 
vynhas, e cassas, e lagar e horta e com todas suas pertenças per a guissa 
que o ella ha. E mais de huíãas cassas em que ora ella mora que ssam 
em a dita cidade de Lixboa na freguesia de ssam Giaão como as ella ha 
e possue rresalluamdo ella pêra ssy todo huso e fruito do dito lugar e 
quimtaã e cassas em sua vida delia e mais nam. E que aa sua morte 
delia o dito Gomez Eannes seu filho aja todo jmteiramente como dito he 
como seu filho adoutiuo e herdeiro segumdo que todo esto e outras 
coussas melhor e mais compridamente em o dito estormento de perfi- 
Ihamento e doaçam eram comtheudas. Pidimdonos por merçe a dita 
Maria Annes que lhe confirmássemos o dito perfilhamento e o ouuesse- 
mos por boõ e firme e valliosso. E nos vemdo o que nos ella assi dizia 
e pedia ssem embarguo de sobre ello primeiro nom mandarmos tirar 
}mquiriçam segumdo nossa hordenamça, e queremdolhe fazer graça e 
merçee aa dita Maria Annes visto per nos o dito estormento de doaçam 
e perfilhamento. Temos por bem e comfirmamoslhe e rretificamos e 
outorgamos e aprouamos a dita doaçam e perfilhamento em todo e per a 
guissa que feito he e no estormento do dito perfilhamento he comtheudo. 
E porem mamdamos a todollos juizes e justiças dos nossos rregunos e a 
outros quaees quer ofiçiaaes e pessoas a que desto o conhecimento per- 
temçer per quall quer guissa que seja, e esta nossa carta lhe for mostrada. 



— 297 — 

que a cumpram e guardem e façam cumprir e goardar por que nossa 
merçe e vomtade he de lhe o dito perfilliamento seer comfirmado e 
outorgando per a guissa que em elie he comtheudo. Com emtemdimento 
que esto nom faça perjuizo allguús herdeiros lidimos se os hij ha, e a 
outras quaees quer pessoas que allguú direito ajam em os ditos beés. 
E em testemunho desto lhe mamdamos dar esta nossa carta. Dada em 
a nossa cidade dEuora seis dias do mes de Feuereiro. ElRey o mamdou 
per o doutor Lopo Gomçalluez caualeiro de sua cassa e do seu desem- 
bargo e pitiçoões a que esto ssoomente mandou liurar. Joham Jorge a 
fez. anno de nosso Senhor Jhesu Christo de miil iiii'^ Ixj annos. 

Dí AfFonso V, liv. iii da comarca de Odiana, foi. 5j r ev. 



XII 

22 DE OUTUBRO DE 14Ó0 

Dom Affomso pella graça de Deos Rey de Portugal e do Alguarue 
senhor de Çepta e dAIcaçer em Aífrica. A quamtos esta carta virem 
fazemos saber que os homeés boõs de terra de Moreira nos enuiarom 
dizer, como huú foral que teem he asy scripto e de taaes latíjs que ho 
rom podem entender, pedindonos que lhe mandássemos dar outro do 
nosso tombo. E nos visto seu dizer e pedir, querendolhe fazer graça e 
merçee. mandamos a Guomez Eannes da Zurara comendador do Pinheiro 
Grande e da Granja dUImeiro nosso cronista e guarda moor do dito 
tombo que lhe desse o dito foral, per aluara que foy feito em esta cidade 
a xxb dias doctubro desta era. O qual Gomez Eannes em con:primento 
de nosso mandado fez buscar as scripturas da dita torre, honde loy 
achado huú foral que diz asy. Em nome da sancta e jndiuidua Trijn- 
dade Padre e Filho e Spiritu Sancto que he huú muy alto Deos em cujo 
nome firmamos esta carta. Eu elRey Affomso com meu filho elRey San- 
cho e com os outros meus filhos, a vos homeés de Moreira que hy de 
presente sooes pouoadores per meu mandado e de meus filhos, e também 
aos que hy vierem pouoar. fazemos a vos carta assy como fezemos per 
scriptura e per meu mandado que firmemente tenhaaes que ajaaes boõ 
foro e custume asy como ham os homeés de Sallamanca. e nom dees a 
mym nem aos que despois de mym vierem, nem a nehuú homem por 
omeçidio senom a setena ao paaço de trezentos soldos apreçados per 
concelho e per maão de juiz. Nom entre hy nehuú meirinho se nom o 
juiz do concelho. E façam fossado a terça parte dos cauallciros. e as 



— 298 — 

duas partes estem em Moreira, e daquella huúa parte que ouuer dhir ao 
fossado e nom for pague çinquo soldos em preço. E nom façades ende 
fossado senom com vosso senhor, huúa vez no anno e nom mais. se nom 
for vossa vontade, e os pioÕes nem os clérigos nom façam fossado. E 
nom entre hy mandadeiro nem carta de mandamento poUo foro de 
Moreira. E quem em termo de Moreira filha alhea rroussar contra sua 
voontade per qualquer maneira peyte trezentos soldos ao paaço e saya 
do omyzieiro a seus parentes. E se alguú antre vos em mercado ou 
jgreja ou no concelho apreguoado per pregom ferir a seu vezinho peite 
seseenta soldos ao concelho e bij"'' ao paaço per maão do juiz. E de 
qualquer furto tornado o cabedal a seu dono polia callumpnia par- 
talhe o juiz quanto teuer per meo. E qualquer que hedificar vinhas 
ou casas ou que honrrar sua herdade e huú anno em ella seuer, e 
despois se quiser hir a outra terra, per esta maneira aja sua noui- 
dade e ha leue pêra honde lhe prouuer. e se lhe prouuer de ha vender 
que o possa fazer a quem lhe prouuer (i) pello foro de Moreira. E 
os homeés de Moreira que ouuercm juizo ou ajuntamento com homeés 
doutras terras, possamno auer com elles em cabo de seus termos. E dou 
a uos foro que este o caualleiro de Moreira per jnfançom de todallas outras 
terras, assy em juramento como em juizo. e passem sobre elles com dous 
juradores. E aquelles pioões de Moreira que passem caualleiros e 
villaãos de todallas outras terras em juizo e em juramento com dous 
juradores. E os homeés que de suas terras sairem com omeçidio ou 
com molher rroussada ou com outra callumpnia qualquer que seja. se nom 
tanto que nom tragua molher alhea de beençom tornesse ao senhor de 
Moreira, e seia solto e defeso per o foro de Moreira. E se alguQs 
homeés de quaaesquer terras com jmijzade ou com penhora vierem em 
ihermo de Moreira, nehuú seu jmijgo possa entrar após elle nem lhe possa 
tomar penhor, nem fazer outro nenhuú mal. e se lhe o contrairo fezer 
que peite ao senhor de Moreira quinhentos soldos e dobre aquella penhora 
ou aquelles carreguos. E aquelles que aos homeés de Moreira penho- 
rarem nom ho auendo per concelho dereito peitem ao senhor de Moreira 
seseenta soldos e dobrem a penhora a seu dono. E quem prender aos 
homeés de Moreira e hos poser em prisam. per esta maneira peite aaqueile 
trezentos soldos. E se os homeés de Moreira prenderem outros homeés 
doutras terras e os poserem em prisom. per esta maneira peitem çinquo 
soldos. E se os homeés de Moreira por qualquer fiadoria nom forem 

(1) E se lhe prouuer de ha vender que o possa fazer aquém lhe prouuer: aposi- 
<wo marginal. 



— 299 — 

requeridos ataa meo anno, que sejam soltos, e se se trespassarem dally. 
seiam os filhos e molher liures. E nom paguem os homeés de Moreira 
penhora por o senhor, nem por o meirinho, se nom por seu vizinho. E 
nom dem pousada pollo foro de Moreira era casa de caualleiro. nem de 
viuuas nem de cleriguos. senom pella maão do juiz em casa de pioões. 
E os homeês de Moreira que homeés teuerem em suas herdades, ou em 
seus soUares, e nom for hy seu senhor, venha a sinal de juiz e de fiador 
ataa vijnda de seu senhor, e faça o que lhe mandarem. E qualquer 
callumpnia que fezer, seja de seu senhor, e a setena ao paaço. e nom 
serua a nehuú homee se nom a seu senhor em cujo sollar seuer. E a 
seara ou vinhas delRey ajam tal couto como do vezinho de Moreira. E 
aquelle vezinho ferir e fugir em sua casa, aquelle que após elle entrar 
e ho matar em sua casa peite trezentos soldos aos parentes do morto. 
E aquelle que molher forçar, e ella vier dando vozes e o forçador se 
nom poder saluar com doze peite trezentos soldos aa molher e a seus 
parentes. E quem molher alhea ferir peite a seu marido irijnta soldos e 
a setena ao paaço. E os homeés de Moreira que parar fiador por qual- 
quer calumpnia lhe pedirem e o fiador outorguar com dous vizinhos, e 
aquelle nom quiser tomar fiador, e sobre isso ho ferir, nos todo o con- 
celho peitaremos esse omeçidio. E o paaço delRey ou do bispo ajam 
calumpnia. e em toda a outra villa ajam huú foro. e outro paaço nom aja 
calumpnia. E os homeés de Moreira que por fiador entrem e contentor 
nom ouuer. qual fiador fiar tal peite, e se contentor ouuer meta aquelle 
nas maãos. e saya daquella fiadoria. E de sospeita de dez soldos arriba, 
ou nomee doze vizinhos enrredor sua casa. e jure com dous e saya da cal- 
lumpnia. e de dez sólidos a juso jure semelhante, e o outro e quaaes ho 
fiar que vizinhos seiam. E todo homeé de Moreira que se tornar a outro 
senhor que bemfezer suas casas e suas herdades, sua molher e seus filhos 
sejam liures e soltos per o foro de Moreira. E douuos por foro que nom 
ajaaes por senhor senom Rey ou seu filho, ou quem vos concelho quiser- 
des. E todo homeé de Moreira que desherdado for e per sua maão nora 
ho peitar, doutra maneira que se torne a sua herdade homde ella for sem 
nehuúa callumpnia. E todo homeé que herdade teuer em outra terra nom 
faça fossado senom pello foro de Moreira. E todo homeé de Moreira que 
ouuer molher de beençom e ha leyxar peite huú dinheiro ao juiz, E se 
molher ao seu marido leixar que ouuer de. beençom peite trezentos soldos, 
a meetade ao paaço e a meetado a seu marido. E de casa derrocada com 
scudos e com lanças quem quer que ha rromper peite trezentos soldos, 
meo pêra o paaço e meo pêra o dono da casa. E quem der a seu vezi- 
nho com spada dez soldos e setena ao paaço. E quem der com lança a 



— 3oo — 

seu vezinho e sayr dhuúa parte aa outra peite xx. soldos e setena ao 
paaço. e se nom sayr peite dez soldos e setena ao paaço. E de chagua 
domde osso sayr por cada osso dez soldos e setena ao paaço. E de outra 
chagua çinquo soldos e setena ao paaço. E per toda penhora ou do 
paaço ou do concelho colha fiador sobre aquella penhora per foro. E 
dou a uos que hy nom aja nehuúa defesa nem nehuij monte nem nehuú 
laguo senom que todo seja de todo o concelho. E o montado de termo 
de Moreira montemno caualleiros de Moreira com seu senhor. E nehuQ 
gaado de Moreira nom seia montado. E de portagem de pam e de vinho e 
de carrega três mealhas, e de cauallo e de muu quem ho vender huú soldo. 
e dasno seis dinheiros. E de carneiro ou de cabra ou de porco três mealhas. 
E de toda portagem que a Moreira vier tome seu hospede a terça. E nehuú 
homem de Moreira nom responda sem rrancuroso per foro de Moreira. 
O qual foral asy achado. Gonçallo Aífomso procurp.dor do dito con- 
celho rrequereo que lhe dessem dello sua carta, rrequerendo que lhe fosse 
declarado que conthija se deuia paguar desta moeda presente por aquellas 
três mealhas, de que no dito foral faz mençom que se deue paguar por 
carregua de pam ou de vinho. E eu Gomez Eannes dou de m3'm fe que 
o preguntey em esta cidade a quantas pessoas entendi que o deuyam 
saber, e que per minha dilligençia segundo Deos e minha consciência 
nom ficou. E finalmente achey que estas três mealhas segundo a moeda 
antijga sobiam em. noue oytauas de prata. E por que a hordenaçom do 
rregno e a baixeza da presente moeda nom consente tal uallia. por 
quanto o foral de Palmella quanto ha portagem he semelhante a este de 
Moreira, soube que se pagua por cada carregua de pam ou de vinho que 
se merca ou vende de besta grande noue pretos, e de besta pequena 
ameetade. per que em tanto forom postas aquellas três mealhas pellos 
antigos depois que as ditas moedas chegarom a este ponto. E porem ho 
fiz asy screpuer é lhe de}' delo sua carta asijnada per m3'm e seellada do 
seello dei Rey segundo costume. Dante na cidade de Lixboa xxij doctubro. 
EIRey o mandou per mym dito Gomez Eannes a que pêra esto tem 
dado seu spiçial encarregue. Pêro Cijnza ha fez. anno do naeimento 
de nosso Senhor Jhesu Christo de mil ilij*^ Ix anos. Nom seja duuida na 
sobre scripta antrelinha porque eu scripuam ha fiz por tirar erro. Con- 
certada por mym Gomez Eannes. pg. Liiis. 

Arquivo Nacional, Forais antigos, Maço 7, n." 3 ; Portugaliae monu- 
menta histórica, Leges et consuetudines,\o]. i, pag. 436 a 439. 



— 3oi — 
XIII 

14 DE ABRIL DE 1462 

Dom Aífomso pella graça de Deos rrey de Portugall e do Algarue e 
senhor de Cepta e dAIcaçer em Africa. A quantos esta carta virem 
fazemos saber que os moradores dAluares terra do mosteiro de Folques 
nos emujarom dizer como teem huú foral e que por seer ja uelho e caduco 
em alguús lugares, que lhe nom queriam a elle dar ffe nem abtoridade, 
pedindonos por [mercee] que lhe mandássemos dar outro do nosso tombo. 
E nos visto seu dizer e pedir, querendolhe fazer graça e merçee man- 
damos a Gomez Eannes de Zurara comendador do Pinheiro Grande 
nosso cronista e guarda moor do dito tombo que lhe desse o dito foral 
per aluara que foi feito em esta vila a x dias dabril per Fero Afomso. 
O quall Gomez Eannes em cumprimento do nosso mandado fez buscar 
o liuro dos foraaes que se acertou dos que tem pêra buscar outras cou- 
sas, onde foy achado huú rregisto de foral que diz assy. In Dey nomine 
etc. Esta he a carta de foro perpetuo que mandamos fazer eu Martim 
Gonçaiues e mjnha molher Maria "\^iegas a vos homeés que pouoaaes 
essa nossa herdade dAluares, damolla e outorgamolla a uos per foro 
perpetuo, que a lauredes e chantedes e edifiquedes de vinhas e daruores, 
como parte de contra o oriente com o ssouto de santa Maria per cumieira 
ante Carualhio e Pessagueiro, e vay a Oniaães, e ssaae acima de machio 
de Martim Viegas, e descende ao Zezer, e parte com Aluoro per vea do 
Zezer e filha a foz de Vehaães, e donde vay a foz de Maga, e parte 
com Pedrógão e vea de Maga, e donde vay aa Cabeça de Pêra assy como 
parte com termo de Góes. com tal preito e condiçom que pêra sempre 
cada huú de vos que laurar com huú boy ou com mais de a nos huú 
quarteiro de pani, a meatade de trijgo e a meatade de segunda na eira 
€ nom mais. e se o nom quisermos receber na eira, que o percamos, e 
o que nom laurar com boys, de a nos húa meatade de teyga de trigo e 
outra meatade de segunda, e do linho de a nos húa verga e mea,, 
e nom mais. e do vinho qualquer de uos outros que vinha teuer ou 
laurar, nos de huú puçall, e nom mais. e os homeés que nom laura- 
rem com boys, e bestas ouuerem, e per ellas gaanharera sseu pam, 
façam a nos senhas carreiras no anno. per tall guisa que esse meesmo 
dia venham dormir a suas casas, e nom mais. E o que fizer moinho, 
de a nos a decima parte. E o coelheiro que morar fora húa noyte pêra 
tomar coelhos, de a nos huú coelho com sua pelle. E per omizio, e 



3o2 



per rrousso, merda em boca, e casa rrota, quem quer que o fezer, per 
testemunho de homeés boõs, peyte Ix soldos, s. a terça parte pêra o con- 
celho e a terça parte pêra a jgreja, e a outra terça parte pêra nos. E 
quem fizer furto, peyte segundo custume. E o caualleyro nom de nehúa 
jugada. e se per uentura perder seu cauallo ata três anos compridos nom 
de jugada. Todo esto em sima scripto confirmamos