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Full text of "Historia Aethiopiae : Liber I-IV"

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RERUM AETHIOPICARUM SCRIPTORES OCCIDENTALES 

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A (SiVE>OCJXvO XATI Aiy XIX 

CURANTE C. BECCARI S. I. 

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P. PETRI PAEZ S. I. 



HlSTORIA AeTHIOPIAE 



LIBER I ET II 



ROMAE 

EXCUDEBAT C. DE LUIGI 

1905- 



J^A^VSSO 'V- ^ 




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JUL 6 1906 



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Ahctor stbi vindicat izis proprictatis 



HD LEeXOREM. 



UANTi facienda sint opera historica et epistolae 
virorum illorum, qui medio saeculo XVI ac dein 
ceps Aethiopiam, propagandae rellgionis catho 
licae causa, petierunt ibique per octoginta continenter annos 
commorati sunt, nemo est qui ignoret. Attamen, ut notum est, 
ea scripta, hucusque immeritae oblivioni data, in tabulariis 
sepulta iacuerunt ; imo manuscriptum p. Petri Paez historiam 
aethiopicam a primis usque temporibus continens deperditum 
omnino putabatur. De aliis autem manuscriptis, ut ex. gr. de 
tribus Tractatibus historicis EmanueUs Barradas, nulla prorsus 
notitia habebatur, ut fusius In primo volumine anno superiore 
typis edito enarravi (cf. Notizia e Saggi etc. Roma 1903, 
Casa Edit. Ital., Parte I, pp. 3-6). 

Cum vero nostris hisce diebus plerique docti viri ad hi- 
storiam aethiopicam penitus investigandam omni ope et studio 



IV AD LECTOREM 

contendant, opportunum, ut non dicam necessarium, visum 
est ea scripta integra in lucem edere ; in his enim non modo 
res a missionariis gestae fuse narrantur, sed et mores, religio, 
historia vetus Aethiopiae penitus investigatur, et regionis illius, 
tum temporis occidentalibus fere ignotae, situs, natura, cultus 
accurate describitur. Horum scriptorum et documentorum ope 
fabulae omnes, quae in historiam aethiopicam iamdiu irre- 
pserunt et ad haec usque nostra tempora a scriptoribus im- 
peritis vulgatae sunt, facili negotio poterunt dissipari. 

Aggredior igitur, doctissimorum virorum etiam sufFragio 
innixus, editionem omnium eorum operum et documentorum 
adornare, quae ex accurata tabulariorum investigatione in 
meam notitiam venerunt et quorum elenchum per annos di- 
gestum videre est in volumine superius citato. 

Confido fore ut labor iste meus in edendis hisce scriptis 
cum favore excipiatur, non modo ab historicis et geographis, 
sed etiam ab antiquitatum orientalium studiosis ; eo vel magis 
quod series ista Scriptorum Occidentalium non parvi erit 
adiumenti ad plenam intelligentiam et quandoque etiam ad 
complementum et emendationem historiarum ab Auctoribus 
Aethiopicis conscriptarum, quae modo cura et studio Ignatii 
Guidi, praelo dantur Parisiis in eximio illo opere cui titulus: 
Corpus scriptortiin ckristiafiorum orie7italiu7n. 

Universam nostram coUectionem sexdecim volumina in-8'' 
maiori comprehendent, quorum prima novem opera historica 
exhibebunt pp. Paez, Barradas, Almeida et patriarchae Mendez, 
reliqua relationes et epistolas. Unumquodque volumen praeibit 
critica Introductio, in qua de vita auctoris, de eius opere deque 



AD LECTOREM V 

huius fontibus ratio reddetur. Ad calcem autem duo copiosi 
indices addentur, quorum primus includet res in opere con- 
tentas, alter nomina propria locorum, et personarum. 



PROSPECTUS VOLUMINUM. 



VoLUMEN I (iam typis editum). Introductio generalis. — Notiaia 
^ Saggi di opere e documenti inediti riguardanti la Stotia 
di Etiopia durante i secoli XVI, XVII e XVIII con otto 
fctc-simili e due carte geografiche. 

VoL. II (iam typis editum). — Historia Aethiopiae a p. Petro Paez 

lingua lusitanica exarata, lib. I et II. 

VoL. III (sub praelo). — Eiusdem historiae lib. III et IV. 

VoL. IV. — Emanuelis Barradas S. I., Tractatus tres lusitanice 
exarati, 

VoL. V. — Emanuelis de Almeida, Historia de Ethiopia a alta 

lib. I ad IV. 

VOL. VI. — Eiusdem historiae lib. V ad VIII. 

VoL. VII. — Eiusdem historiae lib. IX ad X. 

VoL. VIII. — Patriarchae Mendez, Expeditionis aethyopicae lib. I 
et II. 

VoL. IX. — Eiusdem lib. III. 

VoL. X. — Eiusdem lib. IV. 

VOL. XI, XII, XIII, XIV. — Relationes et epistolae variorum 
tempore missionis iesuiticae, ab anno 1550 ad ann, 1640. 

VoL. XV et XVI. — Relationes et epistolae selectae tempore mis- 
sionis FF. Minorum, ab anno 1632 ad ann. i8iS- 



'iM^^^^;.^^ SS^M; 












In Historiam Aethiopiae p. Petri Paez 
eRiTieA iNTKeDuerie 



.iiii!^ 






isTORiAM patris Paez ex communi eruditorum desi- 
derio in lucem daturus, aliquid de vita ipsius deque 
eius Operis fontibus praemittere necessarium putavi. 
Sed, ne lectorem diutius detinere videar in enarrandis iis 
eventibus qui a Tellez primum ac dein ab Juvency et Cordara 
in Historia Societatis fuse tractantur, paucis verbis ea omnia 
perstringam, diutius immoraturus in iis enucleandis quae vel 
omnino hucusque ignota permanserunt, vel quae, licet a Tellez 
enarrata, tamen ex aliis fontibus nuper repertis nova luce eaque 
prorsus nativa illustrantur. Etenim in Chronhistoria Provi^iciae 
Toletanae Soc, lesti^ a patre de Alcazar diligentissime conscripta, 
quaeque magna ex parte adhuc inedita in bibliotheca s. Isi- 
dori Matriti asservatur, undecim reperiuntur epistolae eaeque 
satis prolixae ipsius p. Paez ad p. Itur6n suum quondam ma- 
gistrum datae, in quibus candide et minutatim auctor omnia 
quae ad ipsum spectabant enarrat. Hunc fontem mihi non 
esse spernendum existimavi, adeoque ex ipso fere omnia quae 
de eo dicturus sum usque ad eius in Aethiopiam ingressum 
deduxi. Licet enim omnes fere eventus, qui tempore capti- 
vitatis locum habuerunt, enarrati prostent ab ipsomet Paez in 



VIII INTRODUCTIO 

sua Historia lib. III, cap. XV ad XXI, ex quo p. Almeida 
primum et ab hoc Tellez aliique unice hauserunt, tamen, quia 
epistolae conscriptae fuerunt vel ipso captivitatis tempore vel 
statim ac Goam liber appulit auctor, contra vero eorumdem 
eventuum narratio quae continetur in Historia scripta fuerit 
triginta et amplius annis a captivitate et quidem non nativo 
sed alieno sermone, eorumdem factorum narrationem ex illo 
novo fonte denuo a me repetendam esse duxi. 

Accedit quod ex catalogis Provinciae Goanae, non modo 
aliquot notitia?, sed, uti ex dicendis patebit, pluries diem 
certum quorumdam eventuum coUigere potui. Ideo, si ea quae 
narraturus sum non omnia nova accident lectori erudito, tamen 
a me pleraque addentur quae vel iam cognita illustrant vel 
ea corrigunt quae a scriptoribus non accurate fuerunt enarrata. 

Ut ordinate procedat oratio, vitam patris Paez primum 
narrabo, deinde de fontibus e quibus ipse narrationem suam 
hausit aliquid addam, simulque Operis ipsius merita et defectus 
candide aperiam. 

I. 

De vita et laboribus P. Paez. 

A) Fontes inediti : I-X. Epistolae decem p. P. Paez ad p. Thoraam dti Itur^o in parte 
inedita operis patris de Alcazar Chronhistoria Provinciae Toletanae Soc. lesu, 
Decada 5*, an. 4°, cap. V (in Biblioth. S. Isidori, Matriti, Reservado S. II, Tabla II, 
n.®5i): I." Bazain, 16 feb. 1589. - 2.*Sana, 17 iul, 1593. - 3." Sana, 18 iul. 1594. - 
4.* Goa, 10 dec. 159O. - 5." Assalona, 20 nov. 1597. - 6.* Chaul, 2 dec. 1599. - 
7.* Diu, 4 nov. 1601. - 8 ■ Diu, 4 dec. 1602. - 9.* de Ethiopia, 20 iul. 1608. - 
10.* Dambea, 20 ian. 1615. — XI. Epistola p. Antonii de Monserrate ad R. P. 
Gen. Clandium Aquaviva, Sana 22 iulii an. 1593 ASI., Goana Hist, Aethiop, 
i549-162g n.° XXI. — XII. Epistola p. Paez ad R. P. Gen. C. Aquaviva, Goa 1 7 de- 
cembr. 1596, ASI., Goana Malab, Epist, 1590- 1599 n.° XI. — XIII. Catalogi 
Provinciae Goanae S. I. annorum 1585-86, 1594, 1596, 1605, 1609, 1621, 1622. 
ASI. Catalogi mss, Prov. Goanae, — XIV. P. Pero Paez, Historia de Aethiopia^ 
lib. III, capp. 15 et seqq., lib. IV, cap. 3. ASI. — XV. Emanuel Almeida, Historia 
de Ethiopia a alta^ IJb. V, capp. 1-6; lib. VI, cap. 29. — XVI. Epistola Seltan 
Sagad ad praepositum provinciae Goanae p. Aloysium Cardosum (acclusa in rela- 
tione scripta a p. Sebastiano Barrero ad p. Visitatorem ii dec. 1622). ASI. Goana 
Hist, Aeth. 1549-1629^ n.® XLI. — XVII. Lembran^a das cousas de Ethiopia pera o 
p. Provincial ver. ASI. Goana Hist. Acth. 1630-1659^ n,° III. 




INTRODUCTIO IX 

B) Fontes editi: I. Tellez, Historia geral de Ethiopia a alta, Conimbr. 1660, lib. III, 
capp. 1-8. — II. Juvency, Hist. Soc, Tesu, parte V, lib. 2, § 9. — III. Cordara, 
Hist. Soc. lesn, parte VI, lib. 3, n.** 98; lib. VII, n.° 161. — IV. Andrade, Varones 
ilustres^ tomo II, pag 472. — V. Nieremberg, Varones il7ts t res, edit. i*, tomo I, 
pag> 391« — VI. Du Jarric, Histoire des Inde: orientales^ cap. 20, pag 322. — 
VII. D'Oultreman, Tdbleaux de Personnages stgnalez^ pag. 259. — VIII. So- 
tuellus, Bibliotheca scriptorum Soc, lesu, pag. 687. — IX. Sommervogel, Biblioth. 
scrip. S. /., tomo VI, pag. 82. — X. Patrignani, Menologio di pie memorie di 
alcuni religiosi della C. di Gesti^ tomo II, 20 maggio. — XI. Desborough Cooley, 
Notice sur le p. P. Paes^ « Bulletin de la Societ6 de Geographie », Paris, mai 1872. 
— XII. Alegambe, Bibl. Script. Soc. lesu, — XIII. De Guilhermy, Menologe de 
la C. de JesuSy Assistence d^Espagne^ II partie, 20 mai. — XIV. Letterc annue 
d*Etiopia, Malabar. etc.^deWanno 1620 al 24, Roma, Corbelletti 1627, pag. 45. 



1. Petrus Paez (i) ortum habuit honesto loco Olmedae in 
oppido Toletanae dioeceseos prope Complutum anno chri- 
stiano 1564, eique consobrinus fuit p. Stephanus Paez, qui 
multos annos munere Praepositi Provmcialis Mexicanam et 
Peruanam provincias gnbernavit (2). Annos natus decem et 
octo Societatem lesu ingressus est et post assuetas probationes 
per tres annos philosophiae operam dedit Belmonte sub patre 
Thoma de Itur6n, quo magistro se plurimum in litteris et 
pietate profecisse testatur, ut probant omnes epistolae ad ipsum 
per multos annos ab Indiis et ab ipsa Aethiopia datae. 

2. Confecto philosophiae curriculo, in Indias missus est et 
vectus simul cum aliis sociis navi cui nomen a s. Thonia 
longo et difficillimo itinere Goam appulit cursum theologiae 

(i) In epistolis hispanico sermone ad p. Ituren missis subscriptio ad 
cognomen « Paez » addit et aliud « Xaramillo »; quod mirum videri non 
debet qui morem hispanicum novit. In ceteris tamen eius epistolis constanter 
se subscribit « P.° Paez ». 

(2) Haec ex Patrignani Menologio. De eius parentibus deque pueritia 
nullae prorsus notitiae habentur. Attamen ex quibusdam eiusdem litteris sci- 
mus ipsum habuisse fratrem nomine Joannem, cum quo ut videtur commer- 
cium litterarum habuit et eidem munuscula ex Indiis misit et vicissim ab 
eo pecuniam ad libros coemendos accepit. Cfr. epist. ad p. Ituren, 6." § « Oc- 
cupome ahora », 7.^ in P. S., 8.^ in fine, et 10.* § penult. « El traslado em- 
bio >. Duas praeterea sorores habuit: nomen uni Anna Maria, alteri Isa- 
bella, quibus de se suisque rebus notitias transmisit (ibi, epist. 10.* ead. §). 
Demum in una epistola sermo etiam est de quodam fratris filio nomine 
Gaspar (ibi, epist. io.°, ead. §). 



X INTRODUCTIO 

confecturus. Dum primo tantummodo anno scholasticam au- 
diebat et simul rudibus cathechizandis operam dabat, mense 
ianuario 1589 a Praeposito Provinciali Petro Martinez socius 
additur patri Antonio de Monserrate, qui ad sacram expedi- 
tionem aethiopicam instaurandam fuerat destinatus ac proinde 
sacerdotio initiatus sub finem ipsius mensis. 

3. Huius tam inopinati eventus rationem reddit ipse p. Paez 
in epistola ad patrem Itur6n mense februario insequenti data, 
quae integra simul cum aliis eiusdem Patris supra citatis pu- 
blici iuris fiet suo loco, scilicet volumine XII huius coUectionis. 
Hic tantummodo referam quae ad rem nostram faciunt. Scribit 
itaque: « Duobus diebus ante festum conversionis s. Pauli ac- 
civit me p. Petrus Martinez huius provinciae praepositus, di- 
xitque parari expeditionem sacram magni momenti sibique 
et aliis patribus ex gravioribus visum fuisse me cum alio 
patre ad illam destinare. Attamen, cum res esset magnis la- 
boribus ac periculis plena, petere a me ut, si quid in con- 
trarium haberem, sincere aperirem. Ad haec reposui nuUo 
me alio fine in Indias transmisisse quam ut omnes quotquot 
se mihi offerrent occasiones arriperem ad labores et pericula 
quaevis pro divino servitio et animarum salute sustinenda. 
Quare quo magis difficultatibus plena expeditio foret, eo me 
illam gratius accepturum. Gratissima haec responsio accidit 
Patri, reposuitque se de me non minora expectasse : expedi- 
tionem esse pro Aethiopia et patrem, cui ego socius additus, 
esse Antonium de Monserrate natione catalaunum, virum in 
hisce rebus valde versatum, singulari gratia in tractando cum 
regibus praeditum et linguis orientalibus eruditum. Nova haec 
expeditio aethiopica fit iussu Regis Lusitani, qui de hac re 
litteras nuperrime ad Indiarum Gubernatorem dederat. Hic 
vero statim ac eas accepit patrem Provincialem convenit, 
iussa Regis exponit, atque instat ut sine mora duo saltem 
patres in Aethiopiam mittantur. P. Martinez reponit sibi ac 
Patribus nihil iucundius esse quam huic Regis mandato mo- 



INTRODUCTIO XI 

rem gerere. Attamen, ne morae nimium protrahantur, oppor- 
tunum sibi videri ut unus ex theologiae auditoribus hoc eodem 
mense sacris ordinibus initietur. Gubernator Archiepiscopo 
Goano persuasit ut illico negocium expediret, sicque factum 
est ut ipso die conversionis s. Pauli subdiaconi, die veneris 
insequenti diaconi, ac demum die dominico sacerdotis munere 
auctus fuerim (i)». 

4. Hucusque ipse Paez; adeo vero urgebant iussa Regis 
Lusitani ut statim ac p. Paez fuit sacerdotio insignitus illico 
die secunda februarii 1589 itineri se commiserit Bazain ver- 



(i) « Dos dias antes de la conversion de s. Pablo me llamo el p. Pe- 
dro Martinez provincial de esta provincia, y me dixo que se queria hacer 
una mission de gran servicio de N. S. y que, despues de haberlo encomen- 
dado muy de veras k Su Magestad, les avia parecido a los padres y k el 
que yo fuesse con el padre que estaba senalado. Pero que con todo esso, 
por ser empressa muy trabajosa y peligrosa, queria saber si yo tenia alguma 
difficultad ; porque, teniendola, enviaria a otro de muchos que deseaban y 
le avian pedido esta mission. Yo le respondi que lo principal que me avia 
moxido para venir a la India era desear semejantes occasiones, en que pu- 
diesse servir a N. S. y padecer alguna cosa por su amor: y que assi, quanto 
mas trabajosa y difficultosa fuese, con tanto mayor contento y alegria la 
acceptaba. El me lo agradecio diciendo que no esperaba menos de mi y 
que la mission era para Ethiopia. 

« El padre con quien voy se llama Antonio de Monserrate, catalan 
de nacion, muy intelligente para estas cosas y de singular gracia para tra- 
tar con estos Reyes ; y assi fue un de los que estuvieron en el reyno y corte 
del Mogor y sabe bastantemente las lenguas necessarias. Esta mission se 
hace por averlo pedido muy encarecidamente el Rey N. S. Y assi, viendo 
las cartas, el Virrey se vino luego a nuestra casa a pedirle al p. Pedro Mar- 
tinez, provincial desta provincia, padres para ella; y nos dixo despues al 
p. Monserrate y a mi que, si no se los dieran, que lo tomara por testimo- 
nio y despachara luego por tierra un correo al Rey, por ser cosa de tanto 
servicio a N. S. y que el Rey tanto le habia encargado. Pero si el tenia 
mucho deseo de que fuessemos, todos los padres deseaban mucho mas esto, 
por aver veinte annos que casi nuevas no hay de alla. Dixole el p. Pro- 
vincial al Virrey que tenia necessidad para esto de ordcnar un hermano: 
y el envio luego un recado al Arzobispo diciendo que convenia al servicio 
de Su Magestad que lo hiciesse. Y assi me ordeno de Epistola el dia de 
la conversion de s. Pablo, y el viernes siguiente de Evangelio, y luego el 
domingo de Missa». Epist. i.** p. Paez ad p. Ituren. Bazain 16 feb. 1589, in 
Chronhisi. etc. 



XII INTRODUCTIO 



sus(i); quo ubi pen^enit, dominica quinquagesimae prima 
vice in ecclesia illius coUegii sacris litavit, ac dein, ut ipse 
testatur in eadem epistola, dum necessaria ad iter aethiopicum 



(i) P. Tellez {Hist. de Ethiopia a alta^ lib. III, cap. l, pag. 210) secu- 
tus Almeidam [Hist. de Ethiopia a alta, lib. V, cap. i, fol. 177) assignat pro- 
fectioni diem secundam februarii anni 1588. Qui minime de errore impu- 
tandi, quia Almeida hoc datum ex ipsa Paez Historia desumpsit, ubi lib. III, 
cap. 15, circa medium haec habentur: « Tratando 03 padres de Ihe [patri de 
Monserrate ad aethiopicam expeditionem electol dar companheiro, me couve 
a mim tam boa sorte, que tinha chegado de Portugal naquelle setembro, e 
assi nos aparelhamos logo... . Chegado o tempo de partir pera Dio, 7ios em" 
barcamos a 2 de fevereiro a tarde de 1588 >; idemque cap. 16 sequenti ait se 
discessisse Diu « a 5 de abril de 1588 » et cap. 17, suam captivitatem in- 
cepisse ^< aos 14 de fevereiro de 589 ». Sed evidenter errasse ibi patrem 
Paez defectu memoriae quando haec scribebat, triginta scilicet et amplius an- 
nis post illos eventus, sequentibus argumentis comprobatur: 

1°) Catalogus Provinciae Goanae anni 1588 asserit patrem Paez eo 
anno, post peregrinationem maritimam difficillimam, Goam venisse. Sed cum 
ipse asserat se pervenisse Goam mense septembri et inde discessisse mense 
februario insequenti, patet hoc secundum datum non esse referendum ad an- 
num 1588 sed ad annum 1589. 

2°) Idem Catalogus eiusdem provinciae anni 1594 docet Patrem esse 
a quinque annis sacerdotem. Sed, cum ab ipso Patre (Epist. i.* cit. ad p. Itu- 
ren) sciamus eum sacrjs initiatum fuisse paucos dies ante profectionem, ista 
profectio non potuit habere locum nisi mense ianuario 1589, ex quo tan- 
tum usque ad 1594 quinque anni decurrere potuerunt. 

3°) Accedunt duae epistolae ex captivitate datae, una ipsius Paez, ai- 
tera p. Monserrate. In prima, quae data fuit ex urbe Sana die 17 iul. 1593 
(Epist. 2.* ad p. Ituren in Chronhist. etc), asserit « aver tres aJios que aqui 
estamos »; et quia a die profectionis ad eorum adventum Sanam unus fere 
annus intercessit, patet pariter ipsos profectos fuisse Goa non anno 1588 
sed 1589. In altera autem data ex eadem urbe 22 iul. 1593 (ASI. Goana, 
Hist. Aethiop. 1^49-1629, n. XXI) pater de Monserrate repetit se a tribus 
annis manere Sanae apud Assan Bassa « en cuyo poder estiin ha tres anos », 
et inde asserit eorum captivitatem a quatuor circiter annis durare « \'a en 
quatro afios que carecemos del [Santissimo Sacramento] ». Ergo si mense 
iuho 1593 erant iam prope quatuor anni a captivitate, ipsi non potuerunt 
Goa proficisci nisi mense febr. 1589 et eodem anno in captivitatera inci- 
disse. Hinc est quod Soramervogel {Biblioth. de la Comp. de /esus, tomo 6, 
pag. 82, ad nomen Paez Pierre) asserit eum solvisse Goa Aethiopiam ver- 
sus die 2 febr. 1589, cum in Indias profectus fuisset mense apriii 1588. 
Addo haec eadem duo data inveniri apud Patrignani, Menol,, tomo 2° p.i- 
gina 139, ad diem 20 maii. Ambo certe haec data nonnisi ex catalogis a 



INTRODUCTIO XIII 

parabantur, linguae persicae addiscendae operam dedit. Hoc 
mirum videri non potest, si quis consideret quod ad fallendos 
Turcas, qui sacerdotes omnes aditu Aethiopiae prohibebant, 
pater Paez cum suo socio sub specie mercatorum Armeniorum 
fretum maris rubri transmittere iussi fuerant. < Ahora me 
ocupo en aprender Persio, entretanto que nos hacen los ves- 
tidos que hemos de Uevar, que han de ser como de Moros, 
porque hemos de ir en naos de ellos hasta Moca, y despues 
passar por tierra de Turcos » . Ita scribit p. Paez e Bazain 
i6 feb. 1589 (i). 

5. At vero nonnisi paucos dies in coUegio Bazainensi com- 
morati sunt. Etenim, ut refert Almeida (2), quidam vir nobilis 
Aloysius de Mendoncja, qui in civitate Diu morabatur et mer- 
caturam in portubus Aethiopiae exercebat, Gubernatori lusi- 
tanico per litteras promiserat se facili negotio, ut putabat, 
patres ex portu Diu in aliqua ex mercatorum Baneanorum 
navibus Massuam usque vehi curaturum. Patres igitur, non sine 
magno periculo ex quadam oborta maris tempestate, Diu se 
transtulerunt, ubi, more Armeniorum mercatorum amicti, ne 
fraude Mahumetanorum remigum Turcis proderentur, oppor- 
tunitatem navim aliquam conscendendi opperti sunt (3). Cum 
V^ro nullus e navarchis eos recipere auderet, Ormuz se con- 
tulerunt, ut inde Cairum versus navigarent, ac dein itinere 

nobis citatis desumere debuerunt corrigendo errorem Tellez, qui solus ex 
historicis Aethiopiae ipsis erat notus. 

4^) Pater ipse Paez in epistola ad Praepositum Generalem data Goa 
17 decembris 1596 lASL, Goana, Malab, Episl. j 590-1 sgg, n. XI) ait: « Este 
ano passado que fue el sepiimo de nuestro cautiverio » . Eius ergo captivitas 
debuit incoepisse sub initio anni 1590. Quod autem verba illa « aho passado » 
referri debeant non ad annum anteccdentem 1595 sed ad annum 1596, in 
cuius ultimis diebus scribebat, confirmatur ex Catalogo Prov. Goanae anni 
eiusdem eiusdemque mensis supracitato, in quo legitur Patrem mansisse ca- 
ptivum 6-7 annos. Secus, debuisset dicere « 7-8 »; nam a decembri 1596 ad 
mensem ianuarium anni 1590 praecise sex in septem anni numerantur. 

(1) Epist. 1.* cit. ad p. Ituren, in Chronhist. etc. 

(2) Hist. de Ethiopia a altOy lib. V, cap. l, fol. 177. 

(3) Epist. 4.^ p. Paez ad p. Ituren, 10 dec. 1596 in Chrotthist. etc. 



XIV INTRODUCTIO 

terrestri Aethiopiam peterent. Sed huic quoque consilio nun- 
cium remiserunt, et Mascatem petierunt, postquam ambo a 
febri, qua correpti fuerant, convaluissent ; ex quo portu quidam 
mahumedanae navis gubernator se una cum ipsis Aethiopiam 
versus vela daturum spoponderat. 

6. Ut Mascatem appulerunt p. Paez denuo in febrim incidit, 
ex qua cum nulla spes esset ut brevi convalesceret, et na- 
varchus, ne ventorum opportunitatem perderet, profectionem 
urgeret, consilio inito cum Gubernatore arcis et primoribus 
Lusitanis, pater de Monserrate solus navem conscendere statuit. 
Attamen eo ipso tempore gubernatori nunciatum est octo py- 
ratarum naves insidias parare ut navem illam mercatoriam 
praedarentur. Exinde nova ad profectionem mora. Interea, 
non sine divino numine, pater Paez a febri convalescit; et 
cum mare, ope gubernatoris, a pyratis fuisset purgatum, tan- 
dem aliquando, die 25 decembris 1589, sub noctem navem 
conscenderunt. 

7. Principio prosperum habuerunt iter, at vero, die i ia- 
nuarii 1590, saevientibus undis gubernaculum confractum est, 
et cum nautae non possent iter prosequi neque itinere terrestri 
Mascatem denuo repetere, ad insulas Curia Muria appellatas 
appulerunt (i). Sed cum neque in his insulis lignum ad re- 

(i) « Gastamos cinquenta dias en el mar con algunos contrastes, y en 
Ilegando hallamos un Veneciano que se offrecio a nos llevar. Y no espe- 
rando ya mas que la partida de las embarcaciones, en que aviamos de ir 
para Bazora, nos vino una carta del capitan de una fortaleza que llaman 
Mascate, y esta entre Dio y Orrauz, en que nos decia que tenia un piloto 
moro que nos pondria en Ethiopia dentro de un mes. Parecio bien esto a 
los que tenian alguna noticia del estrecho de Meca, por donde decia que 
nos avia de llevar: y assi dexamos estotro camino. 

« En este tiempo adolecio el p. Monserrate, y tuvo mucho trabajo, por 
ser aquella isla en extremo caliente, y como el estuvo sano, adoleci yo. 
Mas, por ser necessario partir, me embarque doliente a 6 de octubre y fui- 
mos a Mascate cn seis u ocho dias. Alli me apreto la dolencia de manera 
que se determinc') entre el Padre y el Capitan de la fortaleza y otros que 
yo me quedasse alli y el Padre prosiguiesse la missi^m. Llevaba con sigo 
un Armenio que sabia hablar arabio y turco, y fuera del piloto y marine- 



INTRODUCTIO XV 

parandum gnbernaculum invenissent, coacti sunt alii mauro- 
rum navigio se committere. Interea, ut verbis ipsius Patris 
utar, « contra id quod statutum fuerat, prioris navigii nautae 
Dofar in oram arabicam appulerunt et de proximo nostro 
transitu per illum maris tractum rumorem sparserunt; sicque 
factum est ut navem qua vehebamur duo maurorum navigia 
aggrederentur et captivam Dof^r abducerent. Per quinque dies 
in carcerem detrusi omni fere victu defraudati sumus, donec 
ad regem illius regionis iussi fuimus proficisci. Iter nobis fuit 
maritimum quatuor dies, terrestre autem per invia et aspera 
duodecim, donec defatigati pedibusque quam maxime fessi, 
Tarim, quae magna est urbs Arabiae, pervenimus et a plebe, 
quae numquam in christianos offenderat, iniuriis omnimodis 
imo et sputis impetiti sumus(i)>. 

ros, que eran moros, otro moro que le avia de guiar por tierra. Mas el dia 
que habia de partir vino nueva que unos corsarios tenian tomada una em- 
barcacion quatro leguas de alli y que andaban con ocho por donde el ne- 
cessariamente avia de passar; y por esto no partio. El capitan de la for- 
talcza envio otras ocho embarcaciones y tomaron al capitan de los ladro- 
nes; y assi quedo seguro el mar. En esto se gastaron muchos dias y yo 
tuve mejoria; y por que deseaba mucho ir, les persuadi que me llevassen 
hasta cierto limite donde se acababan nuestras tierras y que, si no me hal- 
lasse mejor, desembarcaria alli. Con esto partimos dia del Nacimiento a la 
noche, y quiso N. S. que luego me dexo la calentura, con dormir al se- 
reno v hacer mucho frio. Dia de la circuncision a la noche nos dio una 
tormenta grande, y quando amanecia quebronos el timon 6 leme... . De alli 
a dos o tres dias nos volvio a quebrar, y con estar cerca de tierra y atarle 
con cuerdas, la tomamos con mucha dificultad. Hicieron consulta los ma- 
rineros y piloto y resolvieronse con que ni podian passar adelante ni tor- 
nar atras. Tratamos de tomar a Mascate por tierra, mas no pudo ser, por- 
que avia en medio grandes desiertos y muchos ladrones. De manera que 
dixeron no avia otro remedio si no aventuramos a passar a unas islas que 
Ilaman Curia Muriay que estan a ocho leguas de alli; donde les parecia 
que hallariamos con que concertar la embarcacion. Esperaron dia quieto y 
con todo esso passamos con mucho trabajo ». (Epist. 4.^ cit. ad p. Ituren, 
10 dec. 1596, in Chronhist, etc). 

(i) « Bebiamos agua de charcos y a medio dia, que se detenian 

a dar de comer a los camellos, cogian mucha langosta y de aquellos gril- 
los mayores y comian los assados; mas nosotros, aunque era mucha la 
hambre, no podiamos gustar manjar tan asqueroso; y assi nos daban a 



*I*^n^ 



XVI INTRODUCTIO 

8. <c Altero die summo mane, ad maiora avertenda pe- 
ricula, itineri denuo nos commisimus et per ipsos quatuordecim 
dies sub ardentissimo solis aestu, solo indusio et bracis ex 
gossypio induti pedibus incedentes, tenuimus tandem regiam 
civitatem Eiran, cuius sultanus Amar nos non adeo inurbane 
recepit et vestes, nobis per vim ablatas, restitui iussit. Ad eius 
praesentiam altero die admissos, comiter percunctatus est 
cuius generis homines essemus, unde et quo fine Aethiopiam 
peteremus, et rogantibus nobis breviaria etiam aliosque libros 
reddi, suisque servis ut nobis necessaria ad victum praeberent 
mandavit. Hi tamen per solidos quatuor menses, quibus ibi 
morati sumus, nonnisi panem, et hunc atrum, cum aqua prae- 
buerunt. 

9. € Dum spes nobis affulgebat ut istius regis ope a capti- 
vitate liberaremur, turcarum quidam Bass^, cuius iste Sultanus 
vectigal erat, nos ad se quamprimum remittere iussit. In viam 
igitur denuo nos commisimus et post decem et octo dierum 
asperrimum iter, Sanam Arabiae urbem attigimus. Primo qui- 
dem Turcarum Bassi nos tanquam exploratores reputans, ca- 
pite plecti constituerat ; at postmodum, cum ab apostata quodam 
rescivisset nos sacerdotes christianos esse, in ipsius arcis car- 
cerem detrudi imperavit ; ubi plures Lusitani iamdiu captivi 
detinebantur, atque laboribus et aerumnis defessi iam in eo 
erant ut fidei nuncium remitterent. Nos, Deo favente, paul- 
latim animos adiecimus et omni quo poteramus spirituali 



cada uno su torta cocida en la ceniza de un poco de harina qua trahia- 
mos en la embarcacion, mas era tan pequeiia que siempre quedabamos con 
buena voluntad de comer. Al cabo de los diez dias Uegamos a una ciudad 
grande que llaman Tarim, y salio mucha gente por ver christianos que 
nunca avian visto. Comenzaron luego a hacernos gestos mofando y riendo 
y a llamamos Cafares, que es lo mismo que Cafres y hombres sin ley, y 
lleg() a tanto que a porfia nos escupian lanzando algunas salivas en el ro- 
sto ; lo que no solo no nos era molesto, mas nos causaba mucha alegria : 
solo nos pesava ver tanta muchedumbre de gente perdida ». (Epist. cit. 4** 
ad p. Ituren, ex Chronhist, etc). 



INTRODUCTIO XVII 

subsidio refectos, in christianae religionis professione robo- 
ravimus (i). 

10. « Pater de Monserrate, utpote infirmae valetudinis, domi 
manebat, ego autem robustior viribus catena onustus agrorum 

(i) Opere pretium est referre ipsius Paez verba in alia epistola ad 

eumdem p. Ituren ex urbe Sana data (epist. 2* ad p. Ituren, 17 iul. 1593, ex 

Chronhist. etc.) quibus modum quo ad exercendos christianae religionis actus 

suos concaptivos adduxerat belle describit. « .... tenemos oratorio con un 

altar muy bicn concertado, assi de omamentos como de imagenes, donde 

los christianos vienen a se encomendar a Dios, por la manana antes de ir 

a trabajar, y a la tarde quando vienen. Y -para que con mayor consuelo 

y animo puedan passar los travajos del cautiverio, celebramos las fiestas 

lo mejor que podemos, procurando en todas ellas remedar lo que se hace 

en tierra de christianos. Porque, como anocheze, que los presos se recogen, 

nos juntamos todos en el oratorio, teniendole muy bien concertado con ra- 

mos y flores que trahen de las huertas, y decimos Visperas y Completas, 

ayudandonos algunos que saben cantar ; y antes de amanezer decimos missa 

seca con mucha solemnidad para el estado en que estamos ; porque el que 

la ha de decir se reviste en uno de los aposentos que tiene el oratorio, y 

a la puerta estan esperando dos Portugueses, que son mayordomos con unos 

cirios grandes; salen delante otros dos con sobre-pellices : el uno leva un 

incensario que hicimos de cobre, y el otro el missal; y, dicha la confesion, 

entretanto que se inciensa el altar, tanen con una viguela que les dejaron 

quando los cautivaron. Acabado el ofertorio, bendecimos pan, y en higar 

del Santissimo Sacramento, levantamos un Crucifijo de cobre pequeiio, que 

despues de cautivos tornamos a cobrar por medio de una muger renegada. 

Entretanto taiien y cantan ; y en lo ultimo de la missa, dicha la confesion 

Uegan uno a uno a le adorar y toman juntamente pan bendito de mano 

de uno de los que sirven. Y para que hagan esto con mayor devocion, pro- 

curamos que todos vengan confesados, lo que muchos de ellos hacen mas 

a menudo. 

« Demas desto, viernes, sabados y domingos a la noche les decimos 

letanias y Salve, y muchas veces tienen sermon, particularmente el Adviento 

y Quaresma; y en la Semana Santa hacemos sepulcro de pano negro y can- 

tamos todos los oficios. Hacemos procession dentro de la sala donde esta 

el oratorio (que es grande), domingo de Ramos, llevando todos palmas, y 

dia de Ressurreccion y dia de Corpus-Christi la hizimos muy solemne, Ue- 

vando el Crucifixo en una custodia de palo cubierta de damasco carmesi y 

oropel, tanendo y danzando delante de ella. Gracias a N. S. que siendo 

cautivos de hombres tan nuestros enemigos y contrarios a su santa fe, con 

todo esso no les permite que nos priven de un consuelo tan grande como 

este, aunque saben mucho de lo que hacemos. Antes dicen a los mismos 

christianos que, quando nosotros no estabamos aqui, eran como bestias, 

porque no les veian solemnizar las fiestas como ahora ». 



XVIII INTRODUCTIO 

molitioni damnatus fui. At exactis sex mensibus, cum me ab 
illo labore liberassent, ediscendae linguae arabicae et hebraicae 
operam dedi ; quarum linguarum, arabicae praesertim, peritiam 
mihi postmodum magno subsidio futuram existimo. Hisce oc- 
cupationibus distenti, ipsos tres annos Sanae posuimus, cum 
ex divino consilio quaedam spes affulsit brevi nos servitute 
liberandos; nam uxor ipsius Bassci, quae olim christiana fuerat, 
nostris calamitatibus commota, apud maritum egit ut nos 
Hierosolymam mitteret, et iam iste consensum praebuerat, exe- 
cutioni daturus quando ipse ratione sui muneris illuc se con- 
ferret. Cum ecce nebulo quidam natione Baneanus, qui fidem 
execraverat, Moca per litteras Bassa insinuavit maximam illum 
pecuniae vim ex nostra redemptione extorquere posse. Hinc 
mutato animo, viginti millia ducatorum a nobis exposcit, atque 
ut id facilius, uti putabat, consequeretur, strictiori custodiae 
nos commisit, catena oneravit solumque panem nigrum ad 
victum praebuit(i). 

(i) Cum ea spes evanuerit, p. de Monserrate ad Praepositum Gene- 
ralem litteras dedit Sana die 22 iul. 1593, in quibus novum et, ut ipse pu- 
tabat, efficax medium ad libertatem obtinendam proponebat « .... aunque 
el padre Provincial de la India passado y presente busco y busca los me- 
dios possibles para nuestra libertad, no aprovecha, porque las personas im- 
mediatas, por cuyas manos el negocio ha de passar, o son moros o son 
gentiles. Los moros, por no desplazer a su Mahoma, no lo queren hazer, 
los gentios, aunque muestran dolerse de nosotros, no ozan, e desso nos tie- 
nen dado el desengaiio, y por esta causa se va nuestro destierro dilatando 
ya quatro anos, y si Dios no lo abreviare, se dilatara toda la vida, que sera 
una grande consolacion [sic\ porque carescemos de la sagrada communion 
del santissimo sacramento y de los otros subsidios de jubileos e indulgencias 
de que gozan los cativos que estan mas cercanos de tierras de christianos, 
o en tierras donde ha comercio con eilos. Por lo qual pido a V. P. que 
quiera meter mano en ello o por medio de algimo de los consules que re- 
siden en Constantinopla, o por medio de nuestros padres, si alla estan al- 
gunos como pocos anos ha estuvieron, y qualquiera dellos, a quien vuestra 
Paternidad lo encomendare, ha de hazer una suplica que en summa con- 
tenga lo que se sigue » (ASI. Goana, Hist, aethiop, 1549-1629^ n. XXI; cfr. 
Elenco 11, 75, in Vol. I, Notizia e Sa}(gi), Summa istius supplicationis ad 
magnum Turcarum Sultanum est ut ipsis permittat vel suum iter prosequi 
Aethiopiam ver«us, vel saltera Constantinopolim venire, licet servituti ad- 



INTRODUCTIO XIX 

11. « Elapso iam altero anno, cum nihil proficeret, nos suo 
Domusmagistro duriori etiam carcere detinendos tradit. Hic, 
homo crudelis, ut a nobis quinque milh'um ducatorum summam 
extorqueret, nos subterraneo eoque angusto et foetido ergastulo 
inclusit et coUo torquem ferreum iniecit, e quo catena adeo 
gravis pendebat ut vix caput levare possemus. Hoc tenebri- 
coso loco quindecim dies transegimus, quibus exactis, nos iti- 
nere terrestri Mocam miserunt, ea spe ut a navibus mercatoriis, 
quae ex eo portu in Indias commeabant, pretium nostrae li- 
berationis essent recepturi. 

12. «Mocam igitur pervenimus sub finem anni proxime eJapsi 
[scil. 1595]; at solventibus inde navibus, cum ne ulla quidem 
mentio incidisset de nobis redimendis, Turcae in iram con- 
versi, nos catenis revinctos remigio addixerunt. Incredibile 
dictu est quot aerumnas per spatium fere trium mensium per- 
tulimus; fame, siti, frigore, calore laboribusque supra vires 
pater de Monserrate confractus, in gravem incidit morbum et 
brevi vita decessisset, nisi navis praefectus, qui pro nobis vades 
stabat, veritus ne integrum pretium frustratae redemptionis ipse 
gubernatori refundere cogeretur, remigium custodia commu- 
tasset. Mansimus parva inclusi casa per plures menses, aquam 
ipsam pretio nobis comparantes, donec mercatoriae naves Goa 
advectae mille ducatorum summam pro nostra redemptione 
nomine praepositi provinciae Goanae Turcis persolverunt (i). 

dictos. In margine huius epistolae manu secretarii Societatis legitur scrip- 
tum: « Se tiene escrito a la Venetia ». Sed exitus negotii expectationi pa- 
trum non respondit. 

(i) En ipsissima verba patris Paez: « En Moka nos apretaron mucho 
para que diessemos dinero ; y como partieron las naos, que se desengana- 
ron de que no les aviamos de dar lo que pedian, nos metieron en una 
galera, y quitandonos los hierros que llevabamos, nos echaron cadenas y pu- 
sieron a cada uno en su banco en medio de dos galeotes. Entramos pri- 
mero dia de septiembre, y al tercero dia cayo un rayo que hizo pedazos 
buena parte del mastil grande, mas sin dano de la gente. Esto tuvieron por 
mal aguero, y por esso dexo la muger del Baxa de ir a Meka en ella. Esta- 
ban en esta galera todos los galeotes de los que alli tienen; a lo que se 



XX INTRODUCTIO 

Sic tandem post septem fere integros annos durissimae ser- 
vitutis libertatem adepti navem conscendimus et magnis pro- 
cellarum periculis superatis Goam appulimus medio hoc ipso 
mense decembri [scil. 1596] ». 

13. Hucusque ipse p. Paez in sua epistola quam compendio 
retuli. Eodem anno 1597, ut ex cathalogo 1596-1597 eruitur, 

anadia que nunca la limpian y assi era mucha la suciedad ; y toda la no- 
che hasta que queria amanecer estabamos sentados, lanzando al mar las 
chinches, que por todas partes nos subian; y si, cansados y vencidos del 
suefio, nos echabamos, luego se nos cubria de ellas el rostro, y assi nos era 
forzoso tornar a levantar, hasta que cerca de la maiiana se recogian. En- 
tre dia eranos necessario hacer alarde y despedir mucha gente que no po- 
diamos sustentar, assi de la que nos pegaban nuestros companeros, como 
de la que nosotros criabamos, que no era poca, por no tener mas que una 
sotana de augeo y una camisa. La comida era como un quartillo de una 
simiente como panizo que llaman jnillo^ sin otra cosa alguna. Solo tenia- 
mos de quando en quando algunas cabezas de ajos, que nos embiaba un 
Griego christiano que estaba en Moka. Desta manera estuvimos dos meses 
y medio al sol, al agua y al frio ; y por adolecer el padre gravemente, en- 
vie a decir al capitan de la galera que le dexasse ir para tierra y que yo 
quedaria alli, porque, si el moria, yo no tenia rescate que dar; y que ha- 
bia de escribir al mayordomo del Baxa que por no le dejar curar muriera, 
y quedaria el rescate sobre el. Mando que a mi tambien me llevassen y 
metieronnos en una casa donde no nos daban cosa ninguna, y era neces- 
sario comprar hasta el agua que trahen de lejos; y assi tomamos dinero 
prestado de un gentil que trataba de nuestro rescate. Y con esto se fue 
hallando bien el padre; y estuvimos alli hasta que ias naos, que vinieron 
de la India, tornaban a partir, que este gentil dio por nosotros mil duca- 
dos que el padre Provincial y algunos nuestros devotos le tienen escrito 
que diesse : y assi nos embarcamos y, despues de aver passado muchos tra- 
vajos en el mar, Uegamos aqui [Goam] con salud, a Dios gracias, quatro dias 
antes que acaben de partir las naos para Portugal » (Epist. 4.* cit. ad p. Itu- 
ren ex Chronhist. etc. Goa, 10 dec. 1596. Ex alia epistola patris Paez ad 
R. P. Generalem, Goa, 17 dec. eiusdem anni (ASI. Goana, Malab. Epist. 
1590-15991 n. XI, Cfr. Elenco II, 81, in Vol. I, Notizia e Saggi etc), eruitur 
patrem Claudium Acquaviva iussisse ut omnem operam Goani patres darent 
ad illos redimendos, eosque pfimo Hierusalem deinde in Italiam mitteret. 
En verba : «... fue Dios servido que ultimamente nos rescatasen, en lo que 
trabajo mucho el p. Provincial, y ansi vemos aqui [en Goa] avra veinte dias, 
donde supe como V. P, ienia mandado se hiciese todo lo posible por nuestra li- 
bertad v que fuesemos por via de Hierusalem. No merezco yo tanto a N. S. 
como es ver a V. P. ; mas esta charidad me obliga, ordenandolo ansi V. P., 
a me aventurar de nuevo con mucho gusto a otros mayores trabajos... ». 



INTRODUCTIO XXI 

iterum theologiae recolendae fuerat destinatus. Attamen vix 
uno vel altero mense ad hoc studium incubuit; nam gravis- 
simo morbo correptus, totos octo menses decubuit et bis etiam 
morti proximus fuit, ut ipse testatur(i). Vix vero citra om- 
nium expectationem convaluit, in Salsetanam insulam missus 
fuit, ut ibidem christianorum, qui in quatuor pagis degebant, 
curam susciperet. Interim vero cum in Aethiopia obiisset pater 
Franciscus Lopez, qui quadraginta annos in illo agro exco- 
lendo impiger insudaverat quique ultimus e sociis patriarchae 
Oviedo superstes remanserat (2), praepositus provinciae Goa- 
nae iterum illi expeditioni tentandae patrem Paez destinavit ; 
quod negocium quidem ille prompto et alacri animo susce- 
pit (3). Sed per plures annos hoc propositum propter obortas 
difficultates executioni mandari non potuit, ita ut Vice-Rex 
Franciscus da Gama et archiepiscopus Goanus frater Alexius 
Menezes, ut aliquo modo catholicis lusitanis omni subsidio in 
Aethiopia destitutis subvenirent, sacerdotem e clero saeculari 
Indum eo mittendum curaverint medio anno 1598(4). 



(i) Vide epistolam 5.*™ ad. p. Ituren sub initio, Assalona, 20 nov. 1597, 
in Chronhisi, etc. 

(2) « No mesmo mes [de mayo] de 1597 levou nosso Senhor pera si 
era Fremona ao padre Francisco Lopez, o derradeiro dos companheiros do 
sancto patriarcha dom Andre de Oviedo. Chegarao estas novas a Goa e 
forao de todos muito sintidas, por verem que ficavao os catholicos e Por- 
tugueses de Ethiopia totalmente sem pastor como rebanho de ovelhas em 
bosque e mato de lobos e tigres ». Almeida, Hist, de Ethiopia a alta^ lib. V, 
cap. 9, fol. 192. 

(3) « .... instan los christianos de Ethiopia particularmente ahora que 
murio un padre que les avia quedado; y assi los padres desean que tome 
a acometer esta empresa ; lo que yo hare de muy buena voluntad, por ser 
tan grande el desamparo de aquella christiandad, aunque se que arriesgo 
tanto en esto la vida, que lo mas probable es morir en la demanda, como 
todos los que de quince anos a esta parte quisieron entrar. V. R. por 
charidad me encomiende a N. S. para que ordene de mi lo que mas 
fuere servido ». Epist. 5* cit. ad p. Ituren, de Assalona 20 nov. 1597, in 
Chronhist, etc. 

(4) Fuit hic sacerdos Melchior da Sylva de quo Almeida Hist, etc^ 
lib. V, cap. 5, cit. fol. 192-192,^. « Pediao os catholicos de Fremona... que. 



XXII INTRODUCTIO 

14. Pater Paez sub finem eiusdem anni e Salsete missus est 
Chaul ut praedicationi verbi Dei insisteret, ibique adeo oculis 
laborare coepit ut ne epistolas quidem sua manu scribere posset. 
« No doy, ita scribit ex Chaul sub die 2 dec. 1599, mas 
nuevas a V. R. assi porque las tendra mas cumplidas en la 
carta general que de ac4 v&, como por estar ^naltratado dc 
un ojo y no las poder escribir por tni mano(i))^. Debuisset 
quidem, petente p. Hieronymo Xaverio, Cambaiam ante se- 
ptem menses se conferre, ut ibidem novi templi aedificandi 
provinciam susciperet; sed Prorex ne se illi itineri commit- 
teret, qua de causa ignotum est, impedivit (2). Anno insequenti 
1^00 missus est in collegium Bazain munere ministri (3). 
Cum vero iussu Philippi III, Hispaniarum et Lusitaniae regis, 
disiectis tricis quas malevoli moliebantur, prima novi collegii 
Soc. lesu in urbe Diu fundamenta iacta fuissent, eo fine ut 
aethiopicae Missioni succurri posset, illuc p. Gaspar Soarez 
ut superior una cum p. Petro Paez fuerunt destinati (4). 

pois se via nao ser possivel passar a Ethiopia padre da Companhia, pola 
muita vigia que os Turcos tinhao nos portos do Mar Roxo, que Ihes man- 
dassem algum sacerdote natural da India, porque o tal nao sendo differente 
nas cores e lingua dos Baneanes e outros Indios, que custumavao vir nas 
naos do estreito, parece que nao correria perigo e passaria facilmente.... 
Buscouse e achouse logo hum sacerdote bramene criado desde menino no 
nosso seminario de Sancta Fee, bem entendido y de bom exemplo, o qual 
por sirvi^o de Deus e bem das almas se offereceo a todos os trabalhos e 
riscos desta jornada.... Seis anos esteve... em Ethiopia, sinco antes de che- 
gar o p. P. Paez; hum com elle ». >. . 

(i) Epist. 6." cit. ad p. Ituren in Chronhist, etc. 

(2) « Hace ahora siete meses que iba a hacer una iglesia en el reyno 
de Cambaya con provision del Mogor, cosa que ha mucho que se desea, 
y que cost() bien de travajo al p. Xavier para lo alcanzar del Rey. Mas 
despues de tener enviado los omamentos para decir missa y yo estar para 
partir, impidio la ida el Virrey. Parece que sera con justos respectos. No 
se si mudara de parecer. Occupome ahora en predicar donde ay muy po- 
cos libros... ». Epist. 6.* cit. ad p. Ituren, Chaul, 2 dec. 1599, ^^ Chronhist. etc. 

(3) Catal. Prov. Goanae, 1597. 

(4) Circa collegii Diensis fundationem, quo proposito ea fuerit statuta, 
quas subierit difficultates vide Almeida Historia etc, lib. V, cap. 10, fol. 194 
et seqq., ubi fuse rem pertractat. Vide etiam ipsius Paez, epist. 7^ ad p. Itu- 



INTRODUCTIO XXIII 

15. Dium igitur initio anni 1 601 se transtulit p. Paez eo fine 
ut opportunitatem navim aliquam Aethiopiam versus solventem 
conscendendi opperiretur. Sed illo anno nemo ex navarchis 
ausus est eum in Aethiopiam transvehere ob metum Turca- 
rum qui omnes prope Aethiopiae portus occupabant. Scribit 
autem ipse Paez se velle omnem lapidem movere ut tandem 
aliquando, licet maximo cum suo periculo, in Aethiopiam 
perveniat, velle se consilium quoddam sibi a Lusitanis in 
Aethiopia commorantibus propositum executioni mandare; 
sperare se brevi dominationem Turcarum in ora arabica labe- 
factatum iri ope quorundam regulorum Arabiae, qui iam duos 
ex praecipuis Bass^ praelio subactos interfecerant (i). Sed 

ren in Chronhist, etc, Diu, 4 nov. 1601, quam hic infra referimus. Quantam 
in eo collegio spem pro augendis tutandisque rebus aethiopicis omnes po- 
nerent ipse Paez (epist. 9* ad p. Ituren, 20 iul. 1608 de Aethiopia in Chio^ 
nhisi.) ostendit his verbis: « Encomiendelo [al Emperador de Ethiopia] V. R. 
a N. S. para que tenga efFecto [el buen deseo] y en tal caso se acahard de 
vet quan provechosa es la casa de Dio, que sin ella mal se pudiera prover d 
Eihiopia » . At vero collcgium Diense expectationi Missionis aethiopicae, pro 
qua tantummodo provehenda fuerat fundatum, post paucos annos omnino 
non respondit. Etenim Rectores illius, qui eodem tempore munere Procu- 
ratoris Missionis aethiopicae fungebantur, viginti et amplius annos, scilicet 
ab an. 1610 ad 1630, non modo maximam pecuniae partem (600 pardaos an- 
nuos) ad patres sustendandos, sed illam etiam, quae titulo eleemosynae in- 
ter pauperes Lusitanos Aethiopiae eroganda a rege Lusitaniae fuerat desti- 
nata, in alios usus et praesertim in negotiis collegii Diensis provehendis sua 
auctoritate distraxerant. Hinc patres Aethiopiae qui, sub finem anni 1630, 
ad viginti et unum numerabantur, praeter Patriarcham et Episcopum, cum 
per litteras nihil proficerent et defectu pecuniae ipsis assignatae gravibus 
in angustiis versarentur, voto unanimi unum ex suis Goam miserunt ad hoc 
gravissimum negotium coram perficiendum. Haec eruuntur ex Documento, 
cui titulus: Ijembranga das cousas de Ethiopia pera padre Provincial ver 
(ASL Goana, Hist, Aeth. 1630-1639, n. III). Ex hoc authentico docuraento, 
anno forte 1631 conscripto, hice clarius patet quam temere post aliquod 
tempus Romae de immensis divitiis lesuitarum Aethiopiae fuerit blateratum. 
Cfr. Vol. I, Notizia e Saggi^ pag. 96, adnot. 2; pag. 98, adnot. i; pag. 105 
adnot. 2 ; pag. 106, adnot. 2. 

(l) «... de la [Bazain] parti en enero para esta ciudad que se Ilama Dio; 
y con no tener que passar mas que un golfo de dos dias, gaste trece con 
tormentas y vientos contrarios. Ni aqui faltaron tormentas de contradiccio- 
nes, levantadas por personas que debian antes favorecer. Llego a tanto que 



9|C?)C?jC9}C 



XXIV INTRODUCTIO 

eum spes fefellit; nam Lusitanus ille, qui ex Aethiopia Dium 
venire debuisset, ut inde cum patre Aethiopiam versus sol- 
veret, metu Turcarum se loco movere non est ausus. Tunc 
pater cum quodam navarcho turcico, qui mercaturam exercebat 

el Virrey [Don Franc. da Gama], que en aquei tiempo gobemaba, nos mando 
notificar por un oydor que saliessemos de esta ciudad dentro de tres dias 
con otras cosas que seria largo contar; por lo que no digo mas; de que 
no parece que le quedo nada por hacer al demonio para estorbar el ser- 
vicio de Dios, que rezela que la Compania ha de hacer en esta ciudad, en 
que de los muros adentro ay mas de quarenta mil gentiles. Mas con todo 
la tempestad cesso con la llegada deste Virrey [Ayres de Saldanha] que ama 
a la Compania como si fuera de ella, por el zelo grande que tiene de la 
christiandad. Ni de lo commun deste pueblo tuvimos nunca agravio, antes 
muchos favores, y cada dia son mas nuestros devotos, por el provecho que 
sienten con los ministerios de la Compaiiia. Tienennos ya dado en dinero 
cerca de tres mil ducados, con que compramos unas casas pequenas con 
una huerta grande en que hacemos una iglesia muy hermosa, porque hay 
aqui mucha piedra y muy buena. 

« La principal causa porque hicimos aqui residencia fue porque es ne- 
cessario para conservar la mission de Ethiopia, puesto que de solo este 
puerto van naves para ella, y por no aver quien tuviesse el cuydado que 
es necessario, se difficultaba cada dia mas el camino. Desee mucho passar 
luego como aqui llegue y trahia orden del p. Nicolas Pimienta, visitador 
desta provincia, para ir solo, no pudiendo llevar companero. Mas estaban 
las naves tan de partida que no se atrevieron los capitanes de las naves 
a me llevar, porque son gentiles y tienen grandissimo miedo de los Tur- 
cos que senorean todos aquellos puertos. Mas ahora me vinieron cartas de 
algunos Portugueses, que alla estan desde el tiempo de nuestro padre Pa- 
triarcha, que avra treinta y cinco aiios, en que representan un medio para 
poder entrar, que, aunque es bien arriesgado, lo estoy determinado de to- 
mar, si la santa obediencia me aprobare esta determinacion. Escriben que 
no hay ya mas que mil y quatrocientos catholicos de los que dexaron nue- 
stros padres, y que son tan pobres que los mas de ellos andan vestidos con 
pieles de animales, y los otros cubren el cuerpo con solo un pedazo de 
lienzo ; trahen las cabezas descubiertas con el cabello muy cumplido. Esta 
con ellos ahora un clerigo Indio criado en nuestro seminario de Goa, que 
por ser de la color de los marineros que alla van, se dio orden que fuesse; 
mas con todo esso fue conocido en las tierras de los Turcos y escapo con 
mucho travajo huyendo de noche por unas sierras. Mas este quierese tornar 
para aca, porque dice que no puede con travajo tan grande, y assi piden 
todos con muchas lastimas que acudamos a tan grande desamparo ; porque 
tienen por cierto que, en faltandoles sacerdote, han de tomar sus hijos los 
yerros de los Ethiopes que son muchos. N. S. tenga por bien de abrir puerta 
para que pudamos entrar a los consolar y encaminar a los demas. 



INTRODUCTIO XXV 

in portubus Aethiopiae, convenit ut se illuc traiiceret, etsi 
coqui munere in navi fungi debuisset (i). 

l6. Sub finem anni insequentis 1603 tandem aliquando iter 
arripuit Aethiopiam versus. Qua ratione id assequi potuerit, 
habemus ex ipso Paez in sua Historia (2). Pervenerant scilicet 
Dium initio anni 1603 aliquot mercatores turcae e familia- 
ribus Bassa Suaquem. P. Paez linguae arabicae iam peritissimus 
illos amicitia sibi devinxit eisque aperuit suum consilium in 
Aethiopiam navigandi ad repetendam haereditatem quorum- 
dam e suis cognatis, qui ibi vita decesserant. Turcae putantes 
eum Armenium esse, se paratos illi praebuerunt, non modo 
ad iter aethiopicum, sed etiam ad eum omni quo possent 
modo iuvandum ut in patriam, Armeniam videlicet, remearet. 
Oblatam tam inopinato opportunitatem sibi non esse respuen- 

« Puede ser que, si los Arabios de aquellas tierras, donde yo estuve, lle- 
varen adelante la guerra que contra los Turcos tienen comenzada, sea 
facil este camino porque los tienen muy apretados y mataron al mas es- 
forzado Baxa que alla avia con muchos otros Turcos, y un Xeque seiior de 
muchas tierras (con quien yo tuve mucha amistad, porque estuvimos presos 
juntos en una torre) me envio a decir en las naves que ahora llegaron, 
que el huyo de la prission y tenia ya muerto a aquel Baxa con muchos 
Turcos, por los agravios que yo sabia que le tenian hecho ; que le encomen- 
dasse a Dios para que los pudiesse acabar de destruir ». Epist. 7.* ad p. Itu- 
ren, Diu 4 nov. 1601, in Chronhist, etc. 

(i) « hace ahora dos anos que me enviaron a esta ciudad de Dio, 

donde vienen las naves del Estrecho de Meca, para passar en alguna de 
ellas, si hallasse occasion. Este ano esperaba de la tener buena, porque te- 
nia pedido que viniesse un hombre de alla que me pudiesse guiar por la 
tierra adentro, determinando de desembarcar de noche y caminar luego, 
embrenandonos de dia hasta passar dos jomadas que ay de peligro de Tur- 
cos; mas no vino, porque, Ilegando al puerto donde se avia de embarcar, 
no se atrevio por miedo de los Turcos. Mas no tengo de todo perdida la 
esperanza de ir este ano, porque esta aqui un mercader turco de aquella 
tierra, con quien determino de me meter, aunque sea por cocinero. Por- 
que, aunque se muy bien que todos son falsos y que nos desean beber la 
sangre, con todo esto creo que el interes, que este aqui tiene de su mer- 
cancia, le forzara a guardar alguna fidelidad, y si no la guardare, de toda 
manera espero de N. S. mucho mayores mercedes de las que merezco ». 
Epist. 8* ad p. Ituren, Diu, 4 dec. 1602, in Chronhist. etc. 

(2) Lib. IV, cap. 3, fol. 404-409. 



XXVI INTRODUCTIO 

dam putavit pater et, assentiente praeposito provinciae Goanae 
ac Prorege subsidia necessaria praebente, una cum merca- 
tore Basuan Aga, die 2 2 martii, vela dedit et prospero itinere 
die 26 aprilis Massuam appulit. Ubi cum pater aliquot dies 
versatus fuisset, primores loci eum humanissime exceperunt 
et ratione auctoritatis, qua apud ipsos poUebat Basuan Aga 
eius amicus et comes, non modo liberum praebuerunt iter ut 
in interiorem Aethiopiam se conferret, sed et comites addi- 
derunt, qui eum Debaroam usque tuto perducerent. 

17. Praemonuit Paez per epistolam de suo proximo adventu 
sacerdotem Melchiorem a Sylva et loannem Gabriel Lusita- 
norum ducem, et die 5^ maii, debili iumento insidens hu- 
milique vestitu amictus, ut praedonum, qui montes inter Mas- 
suam et Debaroam infestabant, rapacitatem eluderet, itineri 
se commisit. Totos quinque dies in illis asperis montibus tran- 
scendendis insumpsit, et tandem die 10 maii Debaroam per- 
venit. Insequenti die loannem Gabriel cum pluribus Lusitanis 
obvium habuit, tantaque fuit omnium laetitia et praesertim pa- 
tris Paez, ut ipse in sua Historia testatus sit se eo momento 
pro nihilo habuisse omnes anteactos labores. « Como eu vi 
os Portugueses, me alegrei de maneira que todos os trabalhos 
passados me pareciam nada, e di muitcts gratjas a Deos por 
tam grandes merces como me tinha feito; e elles tambem 
nam Ihas acavavam de dar, tendo por milagro passar por 
entre Turcos tam descuberta y f rancamente ( i ) > . 

18. Cum his altero die itineri denuo se dedit Fremonam 
versus, ubi aedem sacram Lusitani habebant. Exceptus ab 
omni populo maxima laetitiae et venerationis significatione, 
sine mora operi apostolico manus adiecit, catholicos lusitanos 
in retinenda fide roboravit, aethiopes non paucos ad errores 
deponendos inducere coepit. Sed cum intelligeret ab nutu 
Imperatoris omnia pendere, ad eum litteras dedit, quibus 
eum conveniendi veniam postulabat. Imperator Atn&f SagS.d 

(i) Paez, Hist.^ lib. IV, cap. 3, fol. 408. 



INTRODUCTIO XXVII 

(Za Denghel) religioni catholicae non infensus benigne re- 
scripsit ac venientem humanissime excepit(i). 

19. Triduo post, ut ipse pater narrat, concertationem habuit 
coram Imperatore cum monachorum eruditissimis de duplici 
in Christo natura, in qua Pater adeo perspicue e theologicis 
fontibus duplicem in Christo voluntatem esse duplicemque 
naturam unicae insitas personae demonstravit ut omnes ad- 
miratione ac pudore defixi haererent, ac Imperator ipse inge- 
muerit : « lam intelligo nos christianorum habere nihil praeter 
nomen >. Aliis deinde disputationibus, qua publicis qua pri- 
vatis, multis etiam e primoribus catholicas veritates persuasit, 
iamque eo deducta res erat ut Imperator fidem catholicam 
amplexus obedientiam Romano Pontifici praestare constitue- 
rit (2), quod perfecisset, nisi a monachis commota plebs eum 
regno et vita privasset sub finem anni 1 604 (3). 

20. Per annum integrum vacavit imperium, humana divina- 
que omnia susque deque versa fuerunt. Tandem anno 1 605 Jacob, 
seu Malcic Sagid secundus, ab exilio revocatur eique summa 
imperii denuo committitur. Apud hunc quoque quantum p. Paez 
gratia et favore valuerit documento sunt et renovatae saepius 
coram ipso disputationes cum monachorum litteratissimis de 
praecipuis controversiae capitibus inter catholicos et schisma- 
ticos et ipsius Imperatoris consilium de fide catholica non 
solum provehenda sed et amplectenda. 

21. At vero mediis in his rebus denuo a schismaticis mona- 
chis populus in furorem agitur, et Jacob de medio toUitur 
die 10 martii 1607 (4). Compositis aliquo modo turbis Su- 
senios, qui primum MalS.c Sag&d tertii, dein Seltan Sagad 
nomen sibi imposuit, imperii gubernacula regenda suscepit. 
Quantum hoc imperante per quindecim et amplius annos res 



(i) Paez, Hist.^ lib. IV, cap. 6, fol. 413-417. 

(2) Ibid., cap. 7, per totum. 

(3) Ibid., cap. 9, per totum. 

(4) Ibid., cap. 15, per totum. 



XXVIII INTRODUCnO 

catholica profecerit demonstrant favor ab ipso in gratiam 
praesertim Patris Paez patribus Soc. Jesu praestitus, plura 
eius ope instructa templa ac Missionis domicilia, schismati- 
corum ad plura centena millia ad fidem catholicam conver- 
siones, obedientia ab ipso Selt&n Sagid ac eius fratre Cela 
Christ6s Pontifici Romano praestita (i) ac demum publica 
Imperatoris catholicae fidei professio ob susceptam solemni 
ritu e manibus ipsius Paez sacram Synaxim, cum antea sacra 
exhomologesi sua commissa expiasset ac libidinibus, in quo- 
rum coeno diu volutabatur, nuncium remisisset. Haec quae 
brevissime perstrinxi fuse narrata reperiet lector tum ab ipso 
Paez in sua Historia, lib. IV per totum, tum ab Almeida 
Historia de Ethiopia a alta, libro VII, tum denique in Rela- 
tionibus et Litteris quarum elenchum dedi in I volumine No- 
tizia e Saggiy I, nn. 82-97; II, nn. 14-17. 

22. Ex imperatoris Selt^n Sag3,d prope insperata ad bo- 
nam frugem conversione incredibile dictu est quantum animi 
gaudium patri Paez contigerit, qui proinde quasi votorum suo- 
rum summam consecutus nihilque habens praeterea quod in 
hac vita sibi optandum putaret, auditus est illud Simeonis 
usurpare : Nunc dimittis servum tuum, Domine. Ac reipsa post 
duos menses finem vivendi fecit, die vigesima maii anni 1622, 
annum agens aetatis duodesexagesimum. Morbum contraxisse 
creditur in illa ultima profectione ad Imperatorem, qui tum 
longe a Gorgord, ubi Paez morabatur, in finibus Gallarum ca- 
stra posuerat. Perrexit enim aetate iam devexa laboribusque 
confractus, incomodo decem dierum itinere, per loca sole tor- 
rida, et, quia feriae esuriales agebantur, usque ad occasum solis 
ieiunus more aethiopico. Iter vero denuo relegentem adeo 
defecerunt vires ut simul ac Gorgoram attigit committere se 
lecto coactus fuerit, ex quo amplius non surrexit (2). Corpore 

(i) Paez, Hist,, lib. IV, cap. 24-29. 

(2) Cfr. Annuam Relatione (TEthiopia degli anni 1621-1622. Roma, Cor- 
belletti, 1627, pag. 45 et seqq. 



INTRODUCTIO XXIX 

fuit statura procero et propter labores et ieiunia macro, at 
vultu ob nativum colorem conspicuo, comes et affabilis supra 
quam dici possit ita ut omnium sibi animos devinceret (i). 
De eo iure usurpari poterat illud Apostoli < Omnibtcs omnia 
/adtis sum ut omnes lucri/acerem >. 

23. Quibus vero virtutum exemplis, qua floruerit profana 
aeque ac sacra scientia linguarumque peritia satis superque 
testantur, non modo epistolae patrum qui in aethiopico agro 
excolendo cum ipso adlaborarunt et scripta eius eruditionis ac 
pietatis plena, sed etiam ipsi Aethiopes, qui vivum propter 
mores et scientiam laudarunt eiusque amicitiam ambierunt, 
mortuum tamquam communem parentem luxerunt. Imperator 
autem tantum ex eius morte traxit sensum acerbitatis ut toto 
die nec cibum, nec ullum aliud animi aut corporis levamentum 
admiserit, et litteras primum quidem ad patrem Fernandez, 
deinde ad patrem Ludovicum Cardosum praepositum provin- 
ciae Goanae dederit in quibus merita patris Paez extollit (2). 

(i) € Era de corpo alto e magro, rosto corado, de engenho vivo, de 
condi^ao tam afavel, que a quantos tratava ganhava as vontades. Guardou 
perfeitamente aquillo do apostolo: Omnibus omnia etc, fazendose nao s6 
mestre e pregador da verdadeira fee, mas medico e enfermeiro pera os 
doentes, architecto, pedreiro, carpinteiro pera fazer igreias a Deus e casas 
ao Emperador, con tanta humiidade e chaneza que todos cativava fazen- 
dose servo e cativo de todos... ». Almeida, HisL etc. lib. VII, cap. 34, fol. 306. 

(2) Cfr. Annuam cit. Relaiione etc, degli anni i^^i-id^^f Roma, Corbel- 
letti, 1627. 

In epistola autem ad patrem Cardosum (cuius apographum prostat in 
epistola patris Barreto ad patrem Generalem, data Goa, 11 dec. 1623; ASI. 
Goana, Hist, Aethiop, 1^4^*162^, n. XLI) scribit Imperator: « .... veneravel pa- 
dre Provincial Luis Cardoso, cuja fama chegou a esta tierra de Ethiopia, 

se envia esta carta a V. R O segundo [ponto] he da morte do perfei- 

tissimo penitente e virtuoso revA^ padre Pero Paez, pay de nossa alma, claro 
sol da fe, que allumiou a Ethiopia das trevoas de Eutiquio. E depois que 
eclypsou e se pos este nosso sol, achamos tristesa em lugar de alegria e 
pranto em lugar de contentamento, e lal pranto qual foi o de Alexandria 
pella morte de s. Marcos, e tal sentimento qual o de Roma no fallecimento 
de s. Pedro e s. Paulo. Mas que fallaremos e contaremos das virtudes deste 
apostolo de dentro e fora humilde e verdadeiro em suas obras e palavras [?]. 
Se o papel fora tamanho como o ceo, e a tinta como o mar, ouveranos 



XXX INTRODUCTIO 

Apud ipsum vero patris recordatio multo diuturnior fuit, quam 
quisquam ab eo expectare potuisset. Etenim post illud tempus, 
quoties gorgoranam aedem ingrederetur, super Patris tumu- 
lum se prosternere solebat, ut magistro olim suo honorem 
exhiberet et quanto eius desiderio teneretur quo poterat modo 
demonstraret. 



11. 

De Pontibus historiae P. Paez 
deque illius pretio et mendis. 

I. P. Paez suum opus conscripsit ultimis vitae suae annis 
motus praesertim praecepto praepositi Provinciae Goanae, ut 
commenta patris Urretae O. P. (i) Societati lesu et maxime 
duobos patriarchis Nunez Barreto et Oviedo iniuriosa re- 
futarentur. Nemo certe huic muneri aptior patre Paez, qui 
iam fere duodeviginti annos in Aethiopia posuerat, in eiusdem 
linguis et moribus versatissimus et in investiganda rerum 
veritate quam maxime perspicax noscebatur. Ipse pater in 
epistola ad p. Mutium Vitelleschi Praepositum generalem, 
quam huic historiae praemisit, expresse dicit : < Por me en- 
caregar o p. Provincial da India que o ficesse [scil. de rebus 
aethiopicis narrationem texere] e que iuntamente respondese 
ao que impoe ao padre patriarcha Dom Joam Nunes Barreto 
e aos padres da Companhia, que com elle vinham pera Ethio- 
pia, o padre frei Luis de Urreta ». Huic superiorum praecepto 
eo libentius auctor obtemperandum sibi duxit quo magis hoc et 
suo proposito res aethiopicas male in Europa cognitas pate- 

de parecer que nao bastariam pera fazer escrever a fama de suas bonda- 
des, proveito e regras. Em o que aconteceo nao se podem colher as flores 
que se espalharao, nem tornar o dia que passou, nem se receber a agoa 
que se entornou ». 

(i) Historia de la Ethiopia^ Valencia, 1610. 



INTRODUCTIO XXXf 

faciendi et plurium patrum desiderio respondebat, ut ipse in 
eadem epistola testatur(i). 

2. Ex hoc scopo polemico suae Historiae factum est quod 
A. in assignandis et perscrutandis fontibus, e quibus rerum no- 
titias hausit, fuerit accuratissimus et, quod in Historiis il%is 
temporis frustra quaeras, pro unoquoque fere eventu et pro 
quavis locorum descriptione fontes singillatim indicaverit. In 
epistola dedicatoria supra citata ad tria tantum capita eos 
reducit auctor ; eaque sunt : libri aethiopici, traditio per testes 
fide dignos accepta et experientia propria. En eius verba: 
< ... esta Historia... en que ordinariamente falo de vista e o que 
refero dos livros de Ethiopia tresladei fielmente, e as cousas 
(jue escrevo por informa^am procurei de tomar das pessoas 
mais fide dignas que ca ha >. His tribus fontibus debet et 
quartus adnumerari, scil. scripta partim in lucem edita tem- 
pore A. partim inedita, eorum europaeorum, lusitanorum prae- 
cipue, qui in Aethiopia versati sunt et de rebus ac moribus 
illius regionis tractarunt. Etenim etiam et iste fons saepe 
saepius ab A. citatur. 

3. Et haec generatim : Ut autem lectori, antequam ad per- 
volvendam historiam manus apponat, facilius patescat quam- 
nam auctoritatem ea quae lecturus est mereantur, singillatim 
mihi enucleandum esse duxi e quot et quibus fontibus prae- 
cipuae res ab auctore enarratae deriventur; et quemdam veluti 
indicem fontium huiusmodi, capitumque et paragraphorum eius 
Historiae respondentium lectori praebere. Quia vero hoc primo 
volumine tantummodo i""et ^'"Historiae liber in lucem eduntur; 
3"* autem et 4" proximo anno typis tradentur, ne cogar lec- 
torem pro primis duobus libris ad Capita eorumdemque pa- 

(i) € Depois que entrei em este imperio de Ethiopia, que foy em raayo 
de 1603, e comecei a ver as cousas delle, entendi quam pouca noticia se 
tinha dellas em Europa: pollo que desejava sempre dar algum aos daquel- 
las partes ; mas foram tantas e tam precissas as occupac^oes, que, ainda que 
a este desejo se juntou pedillo com instancia por cartas alguns Padres, nam 
o pude nunca por em execu^am ». 

***** 



XXXII rNTRODUCnO 

ragraphos remittere, et pro duobus lilnis insequentibus, qui 
adhuc paragraphorum numeratione carent, remittere tantum- 
modo ad capita et ad folia mss., quod confusionem aliquam 
et incertitudinem pareret, hoc loco indicandos mihi esse pu- 
tavi tantummodo fontes i' et 2' libri: idque eo magis quod, 
cum fontes, praesertim scripti, i* et 2' non sint iidem ac se- 
quentium librorum, inutilis et taediosa repetitio evitabitur. 

Pontes I et II Libri. 

I. — Scripta i^etkiopica. 

i. Elenchus Regnarum et Pravinciarum imperii aeihiopici (Xt^lt 
ditus auctori a Secretario imperatoris Seltan Sagad). — Lib. I, cap. i , 
n. 3. 

2. Cathalogi Imperatorum duo (primus inventus ab A. inter 
libros ecclesiae Axum, alter ipsi traditus ab imperatore Seltan Sa- 
gad). — Lib. I, cap. i, n. 14; cap. 5, per totum; cap. 6, n. 9; cap. 17, 
n. 2. - Lib. II, cap. 17, n. 3. 

3. Liber dictus Ghebra Nagast, scil. Gloria Regum (inventus ab 
A. in ecclesia Axum). — Lib. I, capp. 2 et 3 per totum. - Lib. II, 
cap. I, n. 4; agitur de regina Saba eiusque filio Menilehec. 

4. Chronica Zara Jacob (Auctori tradita ab imperatore Seltan 
Sagad). — Lib. I, cap. 5, n. 5; cap. 14, n. i (i). 

5. Liber dictus Mazaquebt Haimanot, scil. Thesaurus Fidei, — 
Lib. I, cap. II, n. 6. - Lib. II, cap. 3, n. i, ubi agitur de errore Ae- 
thiopum circa duplicem Christi naturam. 

6. Liber dictus Haimanot Abbo, scil. Fides Patrum. — Lib. I, 
cap. II, n. 6. - Lib. II, cap. 2, n.^; cap. 3, n. i, ubi de eisdem erroribus 
est sermo. 

(i) Circa hanc partem Chronicae Zara Jacob ab A. citatam, praemo- 
nendum lectorem volo me errasse transcribendo duo verba formulae quam 
in brachio sinistro impressam ab Aethiopibus gestari voluit Zara Jacob. Ex 
accurata enim inspectione autographi, legendum omnino est: Diabolos Dctzc 
bdc (quod interpretantur Dillmann et Guidi Diabolus, divinitas seu idolum 
vanum ; vel etiam, ut A. placuit, Diabolus turpis et vanus) non vero Dezcbac, 
ut impressum est pag. 68, lin. 18; multo autem minus Dazebac, ut male legit 
in Almeida Perruchon (in appendice ad Chronicam Zara Jacob^ Paris, 1893, 
pagg. 199 et 203). Lectio enim Almeida conformis est cum illa Paez, scil. 
Dazc bac, Notandum quod pro Lusitanis sonus litterae z idem est ac s: sic 
promiscue scribebant tunc diz, dis, Neguz^ Negus etc. 



INTRODUCTIO XXXIII 

7. Codex Caeremoniarum pro coronatione Imperatomm (inter 
libros ecclesiae Axum). — Lib. I, cap. 12, nn. 1-5. 

8. Lithurgia aethiopicay ad literam in lusitanicum sermonem con» 
versa (plura exemplaria prae manibus). — Lib. II, cap. 11, per totum, 

9. Liber precum in usum Moneichorum (Auctori traditus a Su- 
periore cuiusdam monasterii). — Lib. II, cap. 2 per totum, ubi re- 
feruntur lusitanico sermone preces fere omnes. 

10. Caeremoniale^ in usum Abunae, pro conferendis ordinibus 
sacris ling^a arabica conscriptum (Auctor vidit, at nemo voluit illi 
legendum tradere), — Lib. II, cap. 13, n. 3. 

1 1 . Liber quo continentur ritus et preces in initiatione mona' 
chorum. — Lib. II, cap. 18, n. 4, ubi A. ex eo excerpta tradit. 

12. Vita Abba Statius (Quae fetulit A. de hoc fundatore mo- 
nachorum Aethiopiae accepit a monachis, qui librum habebant; 
hunc tamen ipse nunquam habere potuit prae manibus). — Lib. II, 
cap. 18, n. I. 

13. Vita abbd Tacla Haimanot, — Lib. II, cap. 19, per totum, 
ubi refertur integra, sed lusitanico sermone. 

14. Vita abbd Samuel. — Lib. II, cap. 21, n. 2, ubi aliquot ex 
eo libro excerpta referuntur. 

15. Synaxarium (Senkessar) aethiopicum, quod A. vertit « Flos 
Sanctorum ». — Lib. II, cap. 22, n. 7, ubi citat hunc librum ad con- 
futandas quasdam vitas Sanctorum Aethiopiae ab Urreta confictas; 
cap. 23, n. 10, in quo compendio refertur vita imperatoris Lalibala. 

16. Historia imperatoris Caleb ex quodam libro ecclesiae Axum. 
— Lib. II, cap. 23, n. 12. Ex hoc libro refert A. tantummodo ex- 
peditionem contra Finaas. Cetera oretenus accepit. 

17. Acta s. Frumentii {Fremenatos) (probabiliter liber citatus 
est Synaxarium). — Lib. II, cap. 10, n. i, ubi affirmat in libris ae» 
thiopicis nuUam se invenisse mentionem de sacramentis Confirma- 
tionis et Extremae Unctionis. 

18. Libri aethiopici sine titulo. — Lib. I, cap. 4 per totum. De 
variis officiis in regia aula aethiopica affirmat A. se notitias hau- 
sisse partim etiam em seus livros. - Lib. II, cap. i , n. 4. 

II. — Libri Lusitanici, 

I . Franciscus Alvarez, Verdadeira informofHo das terras do Pre^ 
ste JoQo das Indias, Lisboa, 1540. — Lib. I, cap. 12, n. 8, ubi de- 
scribuntur ex hoc auctore cathedrae vel sellae ex petra circa vetus 



XXXIV INTRODUCTIO 

templum axumiticum, qiiae tempore Auctoris amplius non exstabant; 
cap. 13, nn. 1-2, de apparatu quo, iuxta Alvarez, imperator Onag 
Sagad se conferebat ad ecclesiam etc; cap. 14, n. 2, de modo quo 
iter faciebat imperator Asnaf Sagad (Claudius); cap. 16, n. 5, re- 
fertur modus ferendi sententiam a iudicibus et refutatur; cap. 16, 
n. 13, qui Lusitanorum primi ingressi fuerint Aethiopiam. - LiKII, 
cap. 1 5 per totum, refertur ex eq descriptio templorum in rupibus 
excisorum; cap. 16, n. 6, de ritibus nuptialibus. 

2. Guerreiro Ferdinandus, Relofam etc. com huma addigam d re- 
la^am de Ethiopta nos annos 1608-160^^ Lisboa, 161 1. — Lib. I, 
cap. 11, n. 7, ubi refertur testimonium (ex Guerreiro) patriarchae 
Oviedo circa opinionem Aethiopum de concilio Efesino; capp. 31-36, 
in quibus refertur historia Christofori de Gama. - Lib. II, cap. 7, 
ubi referuntur epistolae p. Consalvi Rodrigfuez et aliorum circa mo- 
dum quo imperator Claudius excepit patriarcham Oviedo. 

3. Miguel de Castanhoso, Historia das cottsas etc. que dom Chri- 
stovtu) da Gama fez nos repios do preste /o&o etc, Lisboa, 1548. — 
Lib. I, capp. 31-36, in quibus eadem historia narratur. 

4. Joannes Alvarez e Soc Jesu, Assistens Lusitaniae, Epistola 
ad A, data circa validitatem ordinum sacrorum in Aethiopia, ex tC" 
stimonio patriarchae Oviedo. — Lib. II, cap. 13, n. 6. 

III. — Traditio oralis db Auctore per testes flde dignos excepta. 

1. Aliquot ex primoribus regni coram imperatore Seltan Sa- 
gad, lib. 1, cap. i, n. 2: agitur de finibus imperii tempore A. - 
Alius ex primoribus regni, ibid., cap. 10, nn. 1-8: quando ince- 
perit et cessaverit mos custodiendi in Amba Guixen filios impe- 
ratorum. 

2. Za Oald Madehen superior monasterii de Allelo, lib. I, cap. i, 
n. 9: quod sint ignoti Dominicani in Aethiopia. 

3. Officiales regni, lib. I, cap. 4, per totum : circa differentiam 
munerum publicorum inductam tempore A. 

4. Tres principes descendentes ab antiquis Imperatoribus et in 
Amba Guixen commorantes, lib. I, capp. 6, 7, per totum: ubi agi- 
tur de eadem Amba et de eius incolis etc - Duo ex iisdem, lib. I, 
cap. 9, nn. 6, 7, 8: de commentitiis thesauris praedictae Ambae. - 
Item tres principes ex iis, lib. I, cap. 10, nn. 1-8: quando incoe- 
perit et cessaverit mos custodiendi principes in Amba. 



INTRODUCTIO XXXV 

5. Abba Merca, lib. I, cap. 11, nn. i et seqq.: quomodo anti- 
quitus eligerentur imperatores et quomodo tempore A. 

6. Joannes Gabriel dux cohortis Lusitanae, lib. I, cap. 12, nn. 6-7: 
quo ritu acta fuerit coronatio Seltan Sagad; cap. 18, per totum: 
de Consilio Latino ab Urreta conficto; cap. 26, n. 8: de piscibus 
electricis in Nilo (i). 

7. Monachus senex et in ritibus sacris peritissimus, lib. I, cap. 1 3, 
n. 6 : de festo s. Crucis in Aethiopia. 

8. Multi in traditionibus aethiopicis periti, lib. I, cap. 15, nn. 2 
et seqq. : de mulieribus quibus nubere solent imperatores. 

9. Za Denghel, lib. I, cap. 16, n. 13: quod codex legum lusi- 
tanarum ignotus fuit aethiopibus. 

10. Ras Athanatheus, lib. I, cap. 16, n. 13, de eadem re. 

11. Joannes Antonius Venetus, lib. I, cap. 18, per totum: de 
Consilio Latino ab Urreta conficto. 

12. Seniores Lusitanorum, lib. I, cap. 18, per totum, de ea- 
dem re. 

13. Seltan Sagad, lib. I, cap. 9, nn. 6, 7, 8: de thesauris com- 
mentitiis in Amba Guixen; cap. 10, nn. 1-8, circa custodiam 
Principum in Amba; cap. 11, nn. i et seqq., de electione Impe- 
ratorum ; cap. 16, n. 13, de ignorantia codicis legum lusitanarum in 
Aethiopia; cap. 22, n. 9, de scientia Magistrorum in Aethiopia ; 
cap. 23, n. II, de modo venandi rinhocerontes; cap. 26, n. 5, de 
cursu Nili; cap. 26, n. 9, de commentitio tributo Aegypti pro inun- 
dationibus Nili regendis; cap. 27, n. 8: quod flumen Tacaze in Ni- 
lum influat. - Lib. II, cap. i, n. 4, de commentitio ordine eque- 
stri; cap. 13, n. 6: dubium de validitate ordinum sacrorum in Ae- 
thiopia ; cap. 23, n. 8: dubium circa sanctitatem vitae Imperato- 
rum Aethiopiae. 

14. Sela Christos, lib. I, cap. 26, n. 5, de cursu Nili; cap. 30, 
per totum, de vectigalibus et tributis publicis Imperii. - Lib. II, 
cap. 13, n. 6, dubitat de validitate ordinum sacrorum; cap. 23, n. 8, 
dubitat de sanctitate Imperatorum Aethiopiae et cur. 

(i) P. Paez fuit primus ex Europaeis, qui hunc sane singularem pi- 
scem electrico apparatu praeditum notaret et belle describeret. Eum adm' 
ghez Aethiopes vocant, auctor appellavit torpedinem, ex simili proprietate qua 
alium piscem huius nominis, sed marinum, ditatum sciebat. Modo ichtyologi 
eum appellant melanopterum electricum, Invenitur non modo in Nilo supe- 
riori, sed etiam in plerisque aliis Africae occidentah's fluminibus. 



XXXVI INTRODUCTIO 

15. Thesaurarius et Secretarius Imperii, lib. I, cap. 30, per to- 
tum. de vectigalibus et tributis publicis tempore A. 

16. Lusitanus, qui fuit comes ChristophorideGama, lib. I, cap. 31, 
n. 37 : narratio expeditionis et mortis Christophori de Gama. 

16. Abuna Simon, lib. II, cap. 13, n. i, quod nunquam fuerit 
dignitas Patriarchae in clero aethiopico. 

17. Multi clerici et saeculares aethiopes, lib. II, cap. 14, nn. 3, 4, 
de ritibus nuptialibus. 

18. Alexius de Menezes archiepiscopus Goanus, lib. II, cap. 17, 
n. I, quod non sint religiosi Augustiniani in Aethiopia. 

19. Ichegue Monachorum Tacla Haimandt, lib. II, cap. 17, n. i : 
ignoti Augustiniani in Aethiopia; cap. 20, n. 3, de monasterio Li- 
banos deque eiusdem monachorum numero etc. 

20. Monachi plures fide digni, lib. II, cap. 18, nn. i, 3, 5, quod 
duo tantum sint ordines monachorum in Aethiopia. 

21. Monachus in antiquis historiis pentissimus, lib. II, cap. 23, 
n. 12, de reliquis regis Caleb gestis, quae in eius Historia non 
continentur. 

IV. — Experientia propria Auctoris. 

1) LlB. I, cap. I, n. I, profitetur se de visu multa cognovisse. — 
2) nn. 4, 5, 6, 7, de forma corporis, de intellectu, de vestibus et de 
salutationibus Aethiopum. — 3) n. 11, de variis Aethiopiae tribu- 
bus. — 4) n. 13, Gallarum descriptio. — 5) Cap. 3, nn. 16-21, con- 
futatio historiae aethiopicae circa Arcam Testamenti, et Urretae de 
Tabulis Legis; quid sit Tabot etc. — 6) Cap. 5, nn. 7-1 1, de variis no- 
minibus regnm Aethiopiae, qui numquam fuerunt sacerdotes, bene 
autem saepius diaconi; de appellatione erronea, PresSyferi loannis. 
— 7) Cap. 8, nn. 3, 5, de biblioteca Amba Guixen et de numero mo- 
nachorum. — 8) Cap. 9, n. 12, de nummis excusis ab Imperatoribus 
Aethiopiae; — 9) Cap. 10, nn. 6, 11, 12, quot essent prognati imperato- 
rum in Amba Guixen tempore A. — 10) Cap. 11, n. 4, episcopus 
unus in tota Aethiopia; n. 5, tmperator praefert Crucem ut insig^e 
diaconatus; sceptrum incognitum; n. 8, numerus et nomina guber- 
natorum tempore vacationis imperii. — 11) Cap. 12, n. 8, de ca- 
thedris ex petra prope Axum; n. 9, imperator Seltan Sagad invisit 
A. Fremonae post coronationem etc. — 12) Cap. 13, nn. 3, 4, de modo 
et pompa qua se ferebant Imperatores ad missam tempore A. ; de- 



INTRODUCTIO XXXVH 

scriptio sellae imperialis; n. 5, qua pompa imp. Za Denghel se con- 
tulerit ad audiendam missam ab A. celebratam; nn. 6» 7, 8, quam ab- 
sona sintquae retulit Urreta de festo in dominica Palmarum et SS.Eu- 
charistiae sacramenti; n. 9, de domibus Aethiopum et monasteriis 
monialium. — 13) Cap. 14, nn. 3-6, de veatibus Imperatoris tem- 
pore itineris ; de modo iter habendi tempore belli et tempore pacis ; 
de numero militum; de modo cetstrametandi. — 14) Cap. 15, n. 4, 
de emblematibus, quae sibi imprimunt in brachiis Aethiopes; n. 5, 
quomodo equitare soleant muheres; n. 7, de nomine Itegue imposito 
Imperatrici. — 15) Cap. 16 fere per totum, de iudiciis et poenis etc. 

— 16) Cap. 17 per totum, de appellationibus et earum fructu. — 

17) Cap. 19, n. 2. adversus commenta Urretae de visitatione provincia- 
rum ; n. 3, quid praestet Imperator in nuptiis suorum cognatorum. — 

18) Cap. 20 per totum, de urbibus, seu pagis Aethiopiae ; de modo eos 
gubernandi etc. — 1 9) Cap. 2 1 per totum, de moribus Aethiopum. — 
20) Cap, 22 per totum, qui sint magistri in Aethiopia; quid et quomodo 
doceant. — 21) Cap. 23 per totum, de quadrupedibus tam silvestri- 
bus, quam domesticis. — 22) Cap. 24 per totum, de avibus. — 
23) Cap. 25 per totum, de mineralibus, de climate et fertilitate 
arvorum. — 24) Cap. 26 per totum, de flumine Nilo eiusque fonti- 
bus etc. — 25) Cap. 27 per totum, de fluminibus Marab et Tacaze. — 
26) Cap. 28 per totum, de fluminibus Zebe et Aoax. — 27) Cap. 29 
per totum, de praecipuis Aethiopiae lacubus. 

28) LiB. II, Cap. 2 per totum, errores Aethiopum circa Tri- 
nitatem. — 29) Cap. 3, nn. 2, 3, 4, errores circa naturam Christi. 

— 30) Cap. 4 per totum, disputationes A. cum doctioribus Aethio- 
piae circa duplicem in Christo naturam tempore Seltan Sagad etc. 

— 31) Cap. 5 per totum, schismatici rebellant et Seltan Sagad vita 
periclitatur. — 32) Cap. 6 per totum, errores Aethiopum circa ani- 
mam humanam. — 33) Cap. 8 per totum, de caeremoniis iudaicis 
in usu apud Aethiopes. — 34) Cap. 9 per totum, errores circa sa- 
cramentum Baptismi. — 35) Cap. 10 per totum, errores circa sacra- 
mentum Poenitentiae eiusque praxis risu digna. — 36) Cap. 11, 
nn. I, 2, de diebus quibus missam celebrant Aethiopes; de altari, 
vestibus s&cerdotalibus etc; nn. 13, 14, erronea praxis in celebra- 
tione Missae et in sumenda Eucharistia. — 37) Cap. 13, n. 2, de 
honoribus et divitiis, quibus abundat Abuna etc; nn. 3, 4, 5, 7, 
quomodo sacris ordinibus initientur etc; de ridiculo examine ini- 
tiandorum; de commentitio coelibatu clericorum etc — 38) Cap. 14, 



XXXVIIl INTRODUCTIO 

n. 2, Auctor disputat contra divortium; n. 5, et contra pravam con- 
suetudinem viduarum nubendi leviris suis. — 39) Cap. 15, nn. 9-13, 
ritus consecrationis altarium; de vasis sacris; de reverentia quam 
Aethiopes templis adhibent: descriptio templi ad europaeae artis 
modum ab A. constructi; de sacris imaginibus apud Aethiopes. — 
40) Cap. 16 per totum, de ritibus fiinebribus et erroribus circa 
Purgatorium. — 41) Cap, 20 per totum, de praecipuis Aethiopiae 
monasteriis et praesertim Libanos. — 42) Cap. 21 per totum, de 
monasterio de Allelo. 



Ex his quae hucusque exposita sunt de Fontibus abunde 
patet intelligenti quo pretio habenda sit Historia aethiopica 
patris Paez. Nihil enim ferme in ea ab Auctore narratur quod 
non vel ipse oculis usurpaverit, vel e certis documentis aut 
a testibus fide dignis acceperit. Si quis igitur sinceram Ae- 
thiopiae imaginem, maxime initio saeculi XVII, prae oculis 
habere velit, is pervolvat diligenter quatuor istius historiae 
libros, et spe sua non frustrabitur. Addo quod, cum Auctor 
utramque linguam, aethiopicam vetustam, scilicet geez, et vul- 
garem, seu amaricam, perfecte calluerit librosque aethiopicos 
primus ex europaeis prae manibus habuerit, non parum subsidii 
in plerisque capitibus ipsius historiae recentiores in literatura 
aethiopica eruditi poterunt invenire. Demum historiae natu- 
ralis cultores plura nec spernenda reperient in his quae A. 
fuse de animalibus, de plantis et de mineralibus pertractat. 
Legentibus enim patebit, Auotorem nostrum singulari quadam 
perspicacia in observandis obiectis, quae suis oculis primo 
obiiciebatur, iisque cum aliis sibi notis comparandis dotatum 
fuisse. Tunc temporis profecto animalium in varias classes 
scientifica distributio, si aristotelicam excipias, nulla habebatur, 
et historiae naturalis obiecta a priori potius vel ex traditione 
vulgari, quam a posteriori, seu ex experientia, tractabantur. 
Quare non parum miratus sum Auctoris ingenlum, qui in de- 
scribenda forma et moribus animalium adeo fuit exactus, ut 
a recentiori zoologiae cultore nil magis desiderares. Percurrat 



INTRODUCTIO XXXIX 

ex. gr. lector descriptiones Camelopardalis, Zebrae, Rhino- 
cerontis et Hyppopotami, quas auctor exhibet Lib. I, cap. 23^ 
nn. 4, 5, et 6, et fatebitur mecum in nuUo alio historiae na- 
turalis libro se accuratiores invenisse. Quod vero spectat ad 
eventus historicos, quorum testis fuit ipse Auctor, nemo non 
videt quanti eius Historia emolumenti sit allatura iis qui hi- 
storiam Aethiopiae saeculi XVII, non ex praeconceptis iudi- 
ciis, ut hucusque a plerisque factum est, vel ex fontibus tan- 
tummodo aethiopicis, qui omnimodam non merentur fidem, 
sed ex intima ac genuina rerum factorumque ratione pertra- 
ctare velint. Et haec quoad historiae huius substantiam. 
Quod pertinet ad rerum tractandarum modum, in Auctore 
nostro perspicuitatem et nativam quamdam simplicitatem lector 
suspiciet (i). NuUa insuper est quaestio, etiam difficillima, nuUi 

(i) Utinam hanc Auctoris nostri simplicitatem in enarrando ceteri, qui 
ex eo materiam desumpserunt, secuti fuissent. Conferat ex. gr. lector de- 
scriptionem eiusdem eventus primo a p. Paez exhibitam, dein ab Almeida ac 
demum a Tellez, quam hic subiicio. Paez, lib. IV, cap. 3, fol. 407,^.: « Perto da 
minham, quiseram descansar hum pouco e pera isso nos afastamos bom pe- 
da^o do caminho, e estando asentados antes de dormir, se alevantaram todos 
com muita pressa grit^do ; e virando eu a cabe^a a ver que era, vi hum liao, 
que saia dando volta e estava de mi como 8 ou dez passos ; pollo que, se 
nam tivera huns espinheiros no meio, pode ser que ficera salto; e com a 
grita que Ihe deram se afastou, mas muito devagar. Tiraram muitas pedras 
pera aquella parte e parecendolhes que seria fugido, nos deitamos, ficando 
dous em vigia; mas elle tomou a passar logo outra vez a vista, que facia 
bom luar; pollo que nos fomos sem dormir; e caminhamos etc. ». 

Almeida, lib. I, cap. 12, fo. 196: « No quarto da alva se afastou com 
os companheiros hum pouco do caminho pera tomarem algum descanzo: 
eis que, em pregando os olhos, o acorda huma grande grita que derao os 
companheiros e virando o padre os olhos pera ver o que era, veo hum leao 
oito ou dez passos que se retirava devagar e metia no mato. Atirarao to- 
dos pera aquella parte muitas pedradas e come(;avaose a aquietar, quando 
o leao Ihe tomou a aparecer por outra banda. Deixarao entao o descanso 
e tomarao ao caminho... ». 

Tellez, lib. III, cap. 13, pag. 241 : « ... no quarto d*alva se afastou 
hum pouco do caminho pera tomarem algum repouzo. Eys que ao primeyro 
pregar dos olhos o esperta huma grande grita dos companheyros e viran- 
dose o padre pera a parte donde vinham os brados, ve hum fero e espan- 
toso le&m, em distancia de oyto ou dez passos, que com lento e vagaroso 



XL INTRODUCTIO 

eventus, etiamsi intricatissimi, qui ab auctore fere ob oculos 
legenti non subiiciantur. 

Attamen quia patri Paez, continuis et gravissimis occu- 
pationibus distento, otium defuit ad suum opus expoliendum, 
hinc factum est ut plura in eo menda reperiantur. Praecipua 
sunt: defectus aliqualis ordinis in digerenda materia; nimia 
identidem prolixitcLs ; repetitiones frequentes; periodiorum non 
semper ad normam syntaxis evolutio ; verborum, raro tamen, 
hispanicorum interpolatio ac demum formarum orthographi- 
carum inconstantia. Si vero isti defectus cum intrinseco operis 
pretio comparentur, merito repetere quis possit illud horatia- 
num < ... ubi plura nitent... non ego paucis offendar maculis>. 

Quomodo Historiae codex, qui amissus putabatur, reper- 
tus fuerit, inveniet lector in I vol. Notizia e Saggi^ par. I, n.° i . 
In huius praesenti mea editione adamussim textum, ut ab 
Auctore ipso exaratum est, exhibeo, nihil immutando ne formam 
quidem orthographicam verborum, quae inconstans est, ut dixi, 
quaeque in libro 2°, qui aliena manu conscriptus est, non 
parum differt a tribus aliis libris Auctoris manu conscriptis (i). 
Interpunctionem solummodo aliquantulum immutavi, ut lectio 
facilior evaderet. Huc illuc < \sic\ » interposui, quando lectio 
dubia mihi videbatur; pariter uncis inclusas adieci literas et 
aliquando etiam verba, quae Auctori in scribendo evidenter 
exciderant. Capita, quae saepe longiora sunt quam par est, 
in paragraphos distinxi, quarum numeratio tamen in mar- 
gine videre est, ne genuinam A. dispositionem vel minimum 



andar se hia retirando pera o matto, mas sem os querer perder dos olhos, 
que de quando era quando punha nelles. Depois que o perderam de vista, 
trataram outra vez de repousar, mas o leam, que parece andava faminto, 
nam les deyxou por muyto tempo lograr o sono, porque dando huma volta, 
Ihes tornava a apparecer pela outra banda, tomando os a espertar outro 
novo sobresalto ; e pera nam terem mays vizitas de semelhante espertador, 
se levantaram e tornaram ao caminho ». 

(i) Exemplar utriusque scriptionis exhibetur in tabulis quae initio lib. I 
et II praefixae sunt. 



INTRODUCTIO XLI 

immutarem. Unicuique paragrapho brevem rerum summam 
adieci ut legentium utilitati deservirem. 

A notis historicis apponendis omnino abstinui ; quae enim 
animadversione mihi digna videbantur iam adnotata reperiet 
lector in vol. I, cit. Notizia e Saggi etc. Notae omnes, quas 
inveniet in praesenti volumine, ad declarationem textus solum- 
modo pertinent. At vero indicem verborum rerumque nota- 
bilium, ne voluminis huius moles plus iusto excresceret, ad 
calcem II voluminis amandandum duxi. 




HISTORIA DE ETHIOPIA 



C. BuccAU. Rer. Aeih* Scrtpt* occ, ined, — II. 
I 




AO MUITO REVERENDO 
EM CHRISTO NOSSO PADRE 

Padre MUTIO VITELLESCHI 

PREPOSITO CiERAL 
DA COMPANIIIA DE JESU 



que entrei em este imperio de Ethiopia, 

foi em mayo de 1603, e comecei a ver as 

as delle, entendi quam pouca noticia se tinha 

^ ; pollo que desejava sempre dar alguma aos 

daquellas j>artes ; mas foram tantas e tam precissas as ocupa- 

<;oes, que, ainda que a este desejo se juntou pedillo com in- 

stancia por cartas aiguns Padres, nam o pude nunca por em 

execuijam. Agora porem me foi for^ado cortar por algumas e 

ainda por muyto do tempo, em quc ouvera de descansar do tra- 

balho de outras, por me encarregar o p. Provincial da India 

que o ficesse e que juntamente respondese ao que impoe ao 

padre Patriarcha dom Joam Nunes Barreto e aos Padres da 

Companhia, que com elle vinham pera Ethiopia, o padre frey 



4 HISTORIA DE ETHIOPIA 

Luis de Urreta da sagrada religiam de s. Domingos em hum 
livro, com que saio em Valencja de Aragam o anno de 1610, 
das cousas politicas e ecclesiasticas deste imperio, que eu li 
com atencjam, e em todo elle casi nam achei cousa que dis- 
sese com o que ca passa, como vera tambem claramente 
quem lee esta Historia que das mesmas cousas tenho feita, 
em que ordinariamente falo de vista, e o que refero dos livros 
de Ethiopia tresladei fielmente, e as cousas que escrevo por 
informacjam procurei de tomar das pessoas mais fide dignas, 
que ca ha e tenho por certo que nenhuma avera entre ellas 
a que possa por nota quem as tiver visto e esperimentado, 
e muito menos a as demais que escrevo, como V. P. podera 
ver, pois todos os annos tem certas informa^oes do que ca 
passa, pollas cartas dos Padres meus companheiros e assi por 
isto como por ser V. P. tam particular fay desta missam (i), 
me pareceo debia ofFerecer a V. P. este peqtieno trabalho (2), 
em cuya ben^am e santos sacrificios e ora^Ses muito em o 
Senhor me encomendo. 

De Dancas corte do Emperador, em maio de 1622. 



P.° Paes. 



(i) Verba ista italico caractere impressa suffecta ab Auctore leguntur in ms. loco 
sequentium quae ab ipsomet abrasa fuerunt, scil.: « poUa obriga^am quc tenho ». 

(2) Hic etiam sequcntia abrasa lcguntur: « esta obra, para que, sendo tal que 
possa sair a luz, de licen^a para esso e sc nam, mande que fique; por que meu intento 
nam foi mais que cumprir com a obediencia do p. Provincial e satisfacer ao desejo dos 
Padres quc a pediam, ». 



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EXEMPLAR SCRIPTIONIS I, III ET IV LIBRI AiUCTORIS MANU EXARATI. 



PR©L©G© a© LEIT©R 



a das principaes re<;oes e causas, por que se escre- 
m as Historias, christam Leitor, he pera que com 
tempo nam fiquem sepultadas no esquecimento as 
cousas dignas de memoria, senam que sirvam de lembran^a e 
exemplo a os vindouros, como di?. Quintiliano Inst. Oral. H- 
vro lo, cap. i. e por isto ordenou Deos nosso Senhor, que se 
ficesem Chronicas das cousas memoraveis que sucederam ao 
povo de Isrrae). como se vee nos livros sanctos, onde se referem 
miudamente nam s6 as cousas prosperas, mas as adversas, os 
bens e os males que ficeram os Reys, os Principes e Monarchas 
de Isrrael ; que esse he o fim da Historia, como diz s. Augusti- 
nho, tom. 2, Epistola 131 ad Memorium episeopum, contar 
com toda verdade assi o mal como o bem de quem o tem. 
Tambem se escrevem as Historias pera que todos possam ter 
noticia das cousas insignes que ha, e dos casos que sucedem 
em terras muito remotas e afastadas, o que causa grande go- 
sto e he de muita recrea<;am participar, se quer em esta forma. 



6 HISTORIA DE ETHIOPIA 

daquilo que nam podem ver. Mas he muy importante e de 
todo necessario que o historiador tenha certa informacjam do 
que ha de escrever, porque, como notou muito bem Luciano 
livro Quomodo est scribcfida Ilistoriay he grande vicjo della 
quando o que a escreve nam esta muy enteirado das pala- 
vras, das pessoas, dos casos e lugares tocantes a ella ; o 
que muitas veces falta, particularmente em os que escre- 
vem por informacjam de outros, e por isso se acham tantos 
e tam grandes erros em historiadores muito graves, como 
em Plinio e outros antiguos, e ainda em alguns modernos, 
que escreveram das cousas da India oriental. Mas sobre todos 
os que tenho visto e ouvido os tem o padre frey Luis de 
Urreta da Ordem do glorioso padre s. Domingos, em hum 
livro que imprimio em Valen^a de Aragam o anno de 6io, 
a que intitulou : Historia ecclcsiastica e politica dos grandcs 
e remoios reynos de Ethiopia^ Monarchia do Emperador cha- 
mado Preste JoafJi das Indias^ que agora me chegou as maos, 
e achei que por seguir a informa^am de hum Joam Balthe- 
sar natural do reyno de Fatag&r em Ethiopia, Cctsi nam tem 
cousa que diga com a verdade do que ca passa. Nem ha que 
maravilhar muyto disso, porque de mais de que ordinaria- 
mente de longas vias *vam largas mentiras, nam tinha noticia f. i,v. 
de ser esta a moeda mais corrente em Ethiopia, tanto que o 
emperador Mal^c QaguM, que reinou n annos e avera 23 
que morreo, tracia muytas veces por proverbio: « Mentiras de 
Ethiopia e cobicja de Egypcios » . Do que eu pudera tracer 
aqui muytos exemplos das cousas que tenho visto do anno 
de 603, que entrei em Ethiopia; mas baste o que passou 
cstando com o emperador SeltSn (^'agued, que agora he, no 
terrado de alguns pa^os muito altos, que ha pouco tempo 
c|ue fez. Chegou hum seu criado e disselhe que ficera tracer 
certa madeira que Ihe tinha encomendado de 50 palmos de 
cumprido e tres de largo. Disse o Emperador que visse bem 
se tinha enteiramente aquella medida. Foi elle e, tornando 



PROLOGO AO LEITOR 7 

logo, porque estava ja a madeira na porta do pa^o, affirmou 
que ainda tinha mais que menos. Folgou tanto o Emperador 
de ouvir isto, que deceo logo a ver com muytos dos Gran- 
des e eu com elles, e chegando achou que nam tinha ainda 
bem dous palmos de largura ; poUo que voltou enfadado, di- 
cendo : Se daqui a la cima me tracem tam grande mentira, 
que faram do estremo de meu imperio[?]. 

Pouco tempo depois disto, me disse elle que escolhese 
huma boa terra, que ma daria ; e nomeandolhe huma, que 
me tinham louvado, me preguntou se a tinha visto, e respon- 
dendolhe que nam, mas que ma louvaram, disse : Nam se fie 
V. R. tam de pressa do que Ihe dicem ; nam cuide que a 
gente de nossa terra he como a da sua : primeiro veja a terra, 
e depois diga se he boa ou nam. Com o que confirmou o que 
dicem ca muitos, que em Ethiopia nam se ha de crer se nam 
o que se vir com os olhos. E assi eu tambem achei que 
aquella terra nam aproveitava pera nada, pollo que me deu 
outra muito boa. 

Pois se na terra de Ethiopia, onde facilmente se pode 
provar o que he mentira, se dicem tantas, que muito que 
Joam Balthesar se esprayase lanto a sua vontade nellas em 
terra tam distante desta, como he Valencja, onde ninguem Ihe 
podia contradicer [?]. Foi em esta materia tam largo que se pu- 
dera dicer que nenhuma cousa juntou o padre frey Luis de 
Urreta a sua informa^am mais a proposito que as patranhas 
que traz dos Poetas, porque nam o sam menores as que Joam 
Balthesar Ihe affirmou por grandes verdades ; antes foi muyto 
menos o que aquelles fingiram do que este sem nenhum 
escrupulo inventou. PoUo que disse muyto bem frey Luis de 
Urreta no principio do Prologo de sua Historia, que as cousas 
que escrevia eram todas novas, nam vistas, nem lidas em 
author, nem livro de quantos tem Europa ; porque, a fora dos 
f. 2. livros de cavallerias, que *professam fic^oes, nam parece (jue 
abera nenhum que tenha tantas, quantas Joam Balthesar refirio. 



8 HTSTORIA DE ETHIOPIA 

Vendo pois eu tantas fabulas, contei por festa algumas 
diante do Emperador e de muytos Grandes, e mostrandolhes 
o livro, se maravilharam muyto de como deram tam de pressa 
credito a hum homem nam conhecido pera imprimir livro ; e 
disse o principal dos secretarios : Parece que este Joam Bal- 
thesar he chocarreiro, que todas as cousas conta as avesas. 
Respondeo o Emperador: Nam he se nam espiritu maligno; 
porque o chocarreiro nam pode inventar tantas mentiras. E 
se ficera isto somente engrandecendo as cousas de sua terra, 
fora menos mal ; mas procurou tanto desfacer em as dos Por- 
tugueses (se he seu todo o que frey Luis escreve, como elle 
affirma) e por nota em pessoas tam graves delles, que me 
pareceo tinha obriga^am de contradicer suas mentiras, ma- 
nifestando a verdade, e pera que o leitor tenha alguma noti- 
cia dellas, em quanto chega a seus lugares onde as vera cum- 
pridamente refutadas, tocarei aqui brevemente algumas. 

Diz pois (como refer frey Luis de Urreta, pag. 207) que 
vindo por Patriarcha de Ethiopia o padre dom Joam Varreto, 
entrou nella com 1 2 companheiros da Companhia e alvoro- 
tou logo, nam somente o estado secular de todo o imperio, 
mas os clerigos muyto mais, mandando que dalli por diante 
nam ouvese mais clerigos casados, senam que em tudo se 
conformasem com a Igreja latina ; e que os seculares paga- 
sem dizemos a Igreja de todos seus fructos, amas cousas 
novas e nunca vistas em Ethiopia, e creceram tanto as dif- 
ferencias, que o Patriarcha com casi todos seus companheiros 
se sairam de Ethiopia e tornaram pera Goa ; sendo assi que 
nem o Patriarcha dom Joam Varreto veio em toda sua vida 
a Ethiopia, nem passou nunca de Goa, nem por outro nen 
hum Padre se mandaram nunca taes cousas. 

Na pag. 614 diz que poUos annos de 1555 entraram em 
Ethiopia mais de trecentos Portugueses judeos, a quem que- 
rendo prender os Inquisidores, por se descubrirem por taes, 
fugiram huns pera os mouros e outros pera Goa; onde, pera 



PROLOGO AO LEITOR g 

encubrir sua maldade e apostasia, affirmaram mil falsedades, 
dicendo que os de Ethiopia eram cismaticos e o Preste Joam 
cruel enemigo da religiam christaa, e que o padre Patriarcha 
Andre de Oviedo estava presso padecendo grandes trabalhos 
nas prissoes, e chegando estas novas al rey dom Sebastiam, 
f. 2,v. se persuadio com *facilidade ser historia verdadeira o que nam 
era senam fabula e malicia, e alcancjou de Pio V hum bu- 
leto surrepticio, por estar Sua Santidade mal informado, em 
que mandava que o padre Patriarcha Andre de Oviedo saise 
de Ethiopia com a primeira ocasiam que achase e fosse a 
pregar a China e Japam. Isto tam bem he muyto fora dos 
limites da verdade ; porque nem em Ethiopia entraram nunca 
taes Portugueses judeos, nem ha Inquisidores, nem hum Rey 
tam christao e prudente, como dom Sebastiam, se avia de 
persuader com facilidade o que nam era, pera informar de 
cousa tam grave a Sua Santidade, antes o fez com muito 
pezo e acordo e por ter informacjoes muyto certas que o Pre- 
ste Joam era muyto contrano a nossa santa fe, e prender e 
degradar ao padre Patriarcha Andre de Oviedo. 

Por estas e outras muytas mentiras, que depois veremos, 
se pudera facer deste livro o que seu mesmo author refere 
pag. 343 que se fez no reyno de Valencja ao livro de Joam 
Bolero Benes, que por dicer pouco e falso dos reynos e pro- 
vincias do mundo, e em particular de Espanha, o prohibi- 
ram com pregoes pubricos ; porque nam he re^am se per- 
mita que livro de tantas mentiras e que tanto tocam na honrra 
e fama de huma nacjam tam catholica como a portuguesa, 
de quem ainda os Turcos, com serem tam grandes seus ene- 
migos, affirmam (como eu ouvi muytas veces em sete annos 
que me tiveram cativo no estreito de Meca) que nam ha 
na^am mais fiel e verdadeira que a portuguesa ; pollo que pu- 
deram dicer com Moyses DetiL 32: « Inimici nostri suntju- 
dices » . Nem he re(;am que tal livro ande dedicado a Sacra- 
tissima e sempre Virgem do Rosario may da mesma verdade. 

C. Bbccari. Her, Aeth, Scripi, occ, iued» — II. 2 



lO HISTORIA DE ETHIOPIA 

Nam digo isto por desfacer no piadoso zelo com que se deve 
presumir que o padre frey Luis de Urreta escreveo, senam 
pera mostrar o que merecem as falsedades grandes, com que 
Joam Balthesar o enganou. 

O que principalmente pretende o padre frey Luis em toda 
sua obra, e mais de proposito no livro 2, he mostrar que os 
Emperadores de Ethiopia e seus vassallos nunca foram ci- 
smaticos e desobedientes a Igreja romana, nem o sam oje, 
e que, ainda que por muito tempo ignoraram muitas ceremo- 
nias da Igreja, toda via, no que toca ao misterio da S."* Trin- 
dade e dos 14 artigos e dos Sacramentos, sempre do prin- 
cipio da Igreja se conservaram em toda pureza e sinceridade 
da fe catholica, sem nunca se afastarem hum ponto della, nem 
dos artigos decretados e difFmidos nos concilios geraes; e 
quanto ao *circuncidaremse e guardarem sabbado e outras ce- f. 3. 
remonias da ley velha, que, depois que por via da India de 
Portugal tiveram comercio com a Igreja romana e entende- 
ram que os ChristSos de la se escandalizavam de elles guar- 
darem a circuncissam e mais ceremonicis da ley e os Papas 
Ihes mandaram que o nam ficessem, logo o deixaram sem 
nunca mais se circuncidar, nem guardar ceremonia alguma ju- 
daica nem outros erros, em que de antes por ignorancia vi- 
viam. E assi na pag. 44 reprehende com palavras muy pe- 
sadas aos authores que escreveram o contrario, chamandoos 
presumidos, calificadores de so nome e nam de officio e que 
falam mal e sem fundamento, com outras cousas semelhantes. 
Esta he a soma de todo seu intento e a este proposito diz 
outras muytas cousas que no discurso desta Historia mostrarei 
como sam falsas, sem arrecear esta censura que elle pus a 
aquelles authores, porque no principal falarei de vista e espe- 
riencia e nam por informacjoes como as de Joam Balthesar, 
e no demais as tomarei dcis pessoas mais importantes deste 
imperio ; e em tudo o que escrever, ora toque aos Portugue- 
ses, ora a os de Ethiopia, falarei desinteresadamente con cha- 



PROLOGO AO LEITOR II 

necja e seni encarecimentos; porque demais de ser Religioso, 
a quem pertence dicer singelamente a verdade do que sou- 
ber, nem pera engrandecer aquelles me podera mover a carne 
e sangue, nem pera desfacer em estes me incitara desgosto 
particular, antes Ihes tenho muytas obrigacjoes, porque do prin- 
cipio que entrei em suas terras, sempre me ficeram muytas 
honrras e merces sobre merces, nam somente os principes 
e grandes, mas em particular tres Emperadores que foram em 
este tempo. Pollo que, guardando as leys de boa historia e 
seguindo o parecer de santo Agustinho no lugar citado, direi 
singelamente o bem e o mal pubrico de quem o tiver, sem 
facer eceicjam de pessoas, sometendome sobre tudo ao pare- 
cer e correicjam de quem com charidade me quiser emmen- 
dar, particularmente a do padre Mutio Vitelleschi Geral de 
nossa Companhia, a quem vai dirigida esta Historia, porque 
demais de ter poder pera tirar o que Ihe parecer ou mandar 
que ninguem a veja, nenhum outro milhor a pode emmen- 
dar, por ser fielmente informado cada anno de todas as cou- 
sas que sucedem por outros cinco Padres da Companhia, que 
ca residem. 




[LIVRO 1] <•) 



CAPITULO I. 

Em que se trata da situa^am e de quantos e quais se- 
jam os reynos e provincias da parte de Ethiopia, que 
senhorea o Emperador que chamam Preste Joam. 

f. 5,v. *Muytas e grandes differencias tem entre si os authores sobre i. Cur uutur de- 

... . . t_ nominatione Preste 

quantos e quais sejam os reynos e provmcias que se comprehen- 1^^^^^^ Errores Urre- 
dem de baixo deste nome Ethiopia ; mas eu nam me deterei em **® geographici in- 

numeri. Auctor de- 

aprovar, nem condenar suas opinioes, porque meu intento nam he scHbitomntaez pro- 
tratar aqui della em toda sua latitud, senam de so esta parte que stonttarfocorum me- 
senhorea o Emperador a que comummente chamam Preste Joam. E tiuntur incolae per 

dies itineris ; Auctor 

posto que muytos e graves authores, como sam os que se citam no reducit ad leucas. 

Prologo da Historia Ethiopica de Francisco Alvarez e refere frey 

Luis de Urreta na sua cap. i8, affirmem que este Emperador nam 

he o Preste Joam, senam outro Rey muy differente, que confina 

com os Tartaros, onde ainda agora ha Christaos, segundo me af- 

firmou pouco ha hum mancebo natural da Tartaria, que vejo a ter 

a esta terra ; com tudo isto no discurso desta Historia o nomearei 

por Preste Joam, por ser mais conhecido em Europa por este nome, 

que por outro nenhum. Mas antes de nomear seus reynos e provin- 

(l) Dcsignatio Libri primi deest hic in autographo, sed bene adest in sequenti- 
bus tribus libris. 



14 HISTORrA DE ETHIOPIA 

cias, sera bem advertir que, demais de que casi todas as informa- 
Qoes que Joam Balthesar deo a frey Luis de Urreta, no so no que 
toca as cousas ecclesiasticas dc Ethiopia, mas tambem nas politicas 
da paz e da guera, ritos e costumes, sam meras fic^oes e cousas 
prodigiosamente fabulosas, nas descrip(;:oes geograficas, situagam, 
gradua^am de terras, reynos, provincias, mares, rios e alagoas nam 
diz cousa com cousa, senam tudo tam misturado e com tam grande 
confusam, que nam ha quem o entenda; e nos nomes proprios das 
cousas he necessario adivinhar pera saber de que fala ; nem ainda 
eu com estar ca poderei falar matematicamente nas distancias e si- 
tua^oes das terras, assi por nam ter instrumentos nem cousa de que 
me ajudar, como polla gente da terra ser tam pouco curiosa em 
esta materia que nenhuma recjam certa sabem dar, nem contam por 
legoas senam por dias de caminho, em que pode aver grande fa- 
lencia, mas, computando pouco mais ou menos pollo que comum- 
mente acostumam de andar em hum dia, colligireis as distancias 
com a maior probabilidade que puder. 
a. Aethiopia pro- Tratando pois de so esta parte de Ethiopia, que senhorea o 

prie dicta eztenditur 

inter tropicos per Preste Joam, sua cumpridam corre de norte a sul e toda ella esta 
500 ^«ucas longitu- pQgta, entre os Tropicos de baixo da zona torrida, e comeca de perto 

diniB a FocAt usque ^ ^ ' t i- 

ad BahAr Qam6 et de Quaquem de huma terra que se chama Focai e vai discurrendo 
ti^iniVab Haz6 us- P^^^ ^ sul ate a tcrra que chamam Bahar Gamo. Preguntei a mui- 
que ad Ombare4. ^^5 quantos dias seriam de caminho, e achei muyta variedade entre 

Graves errores vete- 

rum Bcriptorum et elles, particularmente preguntando a alguns Grandes diante do em- 
^*^*^ ^ ' perador Seltan Qagued, huns disseram que eram dous meses de ca- 

minho ; ao que respondeo o Emperador que nam podia ser tanto e 
facendo a conta com elles achou 40 *e cinco dias de caminho; f«4- 
outros disseram que eram 50» que contados a 8 legoas que pode- 
ram andar cada dia, sam 400 legoas, e se quisermos estender a dez 
por dia (que conforme elles seralavam a distancia, nam o eram), 
entam seram 500. Sua largura, por onde a tem maior, come^a do 
estremo da provincia de Bur, de huma terra que se chama Hazo, 
que esta de pois de entrar as portas do estreito do Mar Roxo, e 
vai discurrendo casi pcra oessudueste ate huma terra, que chamam 
Ombarea, e dicem que sera trinta dias de caminho de huma parte 
a outra, que contados a S legoas sam 240, e se quisermos que tam- 
bem se contem a dez, entam seram 300 legoas. E assi, quando al- 
guns authores dicem que ha tres meses e mais de caminho de hum 
estremo a outro do imperio, parece que entenderam das jornadas que 



LIVRO I, CAPITULO I. 15 

faz o Preste Joam, quando caminha, que seram de tres ou 4 legoas. 
Pollo que conforme a isto se alargou muito frey Luis de Urreta 
no cap. I, pag. 5, dicendo que tem de cumprido 680 legoas, e de 
largo 470, e por onde menos 260, e de circuito 2000; e muito mais 
errou no mesmo lugar, affirmando que esta terra tem por confins ao 
poente o Rio Negro, o monte Atlante e o reyno de Congo, e ao 
meio dia os famosos montes da Lua e o Cabo de Boaesperan^a e 
toda a costa do Oceano de Mo^ambique ate o Cabo de Guardafui ; 
que todas sam cousas entre si muy distantes e disparatas; porque 
o Rio Negro (que elle diz que ca se chama Marab), quando sae 
das terras do Preste Joam, esta muy distante do reyno de Congo, 
e os montes que elle chama da Lua (se, como affirma pag. 29, sam 
os das fontes do Nilo) estam no reyno de Gojam muyto dentro de- 
ste imperio, e o cabo de Boaesperan^a e Mo^ambique muytas cen- 
tenas de legoas afastados delles ; nem na costa do Oceano de Mo- 
^ambique ate o cabo de Guardafui teve nunca o Preste Joam hum 
palmo ; nem suas terras chegam la com muyto, nem ainda na costa 
do Mar Roxo tem oje porto nenhum; que todos Ihe tomaram os 
Turcos ja ha mais de 60 annos. Os mais principaes sam Quaquen 
e Ma^ua, a que alguns chamam Dalec, porque primeiro estava este 
porto em huma ilha, que se chama Dalec, mas depois o passaram 
a Ma^ua. Ambos estes portos sam ilhas muyto piquenas e perto da 
terra firme. 

Deixando pois isto e vindo as terras, que senhorea o Preste 3- Nomina 35 Rc- 

gnoruin c 18 Pro» 

f. 4.V- Joam, digo que sam 35 reynos e 18 provincias. *E come^ando polla yinciarum iuxta c- 
vanda do Mar Roxo, o primeiro reyno se chama Tigre, depois se l®"^'*™ *^« "tM?" 
segue Dancali, Angot, Doba Seltan, Mota. Au^a, Amhara, Olaca, imperatoris SeltAn 
Xaoa, Ifat, Gueden, Ganh, Doaro, Fatagar, Oye, Bali, Hadea, Ala- ^^ scriptomm rc- 
male, Oxelo, Ganz, Beteramora, Gurague, Cuera, Buzana, Sufgamo, fcUuntur. 
Bahargamo, Cambat, Boxa, Gumar, Zenyero, Narea, Conch, Damot, 
Gojam, Begmeder, Dambia. Estes tem ca por reynos, ainda que 
alguns pode ser que nam merecem tal nome. As provincias se cha- 
mam Gadancho, Arench, Orgar, Cagma, Mergai, Xarca, Gamaro, 
Abexgai, Talaceon, Oagra, ^emen, (,^alamt, Bora, Abargale, Salaoa, 
Qagade, Oalcait, Magaga. Tudo isto me dio por rol o principal dos 
secretarios do Emperador e depois pera me certificar mais, preguntei 
diante do mesmo Emperador a hum seu irmSo, que se chama Eraz 
Qela Christ6s e me dissc da mesma maneira, mas acrecentou o Em- 
perador que ainda que seus antecessores possuiam todos estes reynos 



l6 HISTORIA DE ETHIOPIA 

e provincias, de alguns delles senhoreava elle agora pouco, por terem 
tomado a mor parte huns gentios que chamam Gala, de quem adiante 
falaremos. De onde se vee que nam foi bem informado frey Luis 
de Urreta sobre esta materia, pois diz pag. 5 que sam 42 reynos 
de christaos muito grandes e muy povoados, e trece provincias de 
gentios e mouros, e que por nam serem christaos os que nellas mo- 
ram nam Ihes dam nomes de reynos, ainda que na verdade em gran- 
de^a o sam. Tambem as terras de hum mesmo reyno que gover- 
nam Senhores diflFerentes nomea por reynos distintos, como as terras 
de Tigre Mohon e as de Bahar Nagax, aquem elle chama Berna- 
gaez, que diz que sam reynos, sendo nam mais que terras do reyno 
de Tigre ; e muyto pior informa<;am tiveram Bartholomeo Casaneo 
e Joam Boemo Aubano, a quem elle cita pag. 343 ; pois o primeiro 
(como elle alli refer contra os padres Mafei e Ribadeneira) affirma 
que obedecem ao Preste Joam 74 Reys e casi infinitos Principes, 
e o 2° diz que he hum dos poderosos principes do mundo, e o que 
mais reynos tem de baixo de seu imperio. 

4. Forma corporis, Os moradores dcstes reynos e provincias comummente sam de 

color ac vestitus Ae- , , , . . , t^ . 

thiopum varia iuzta ^^^ ba^a, mas alguns se acham casa tam alvos como Portugueses, 
regiones. Vires ro- entre os que chamam Agous e (iongas do reyno de Gojam e entre 

os Hadias ; outros sam muyto pretos. Tem ordinariamente boas fei- 
Qoes no rosto, os corpos fortes e robustos, sofredores sobre maneira 
de trabalho, fome, sede, calmas, frios e vigias. As meninas e mi- 
nino[s] filhos de gente *baixa andam despidos ao sol e ao frio ate f. 5. 
que sam grandecinhos, ou quando muyto se cobrem com huma pele 
de cabra ou de carneiro. Os filhos de homens grandes, ainda que 
vistam beni, andam descalgos e com a cabega descuberta ate que 
sam grandes e em quanto sam piquencs tracem topete muyto bem 
concertado, e os cavellos do mais alto da cabe^a cumpridos e tran- 
gados em tres ou quatro tran^as, que Ihes vam caindo pera as co- 
stas, e de se criarem desta maneira e sem mimo Ihes vem serem 
depois robustos e de boa saude, e ordinariamcnte passam dos 80 an- 
nos com boas for^as e disposic^am, e dicem que muitos ainda de cem 
annos as tem ; e eu vi hum frade, que me affirmou que tinha cento 
e trinta e hum annos e caminhava a pe mostrandose bem forte. 

5. Quoad vires in- No cntendimento, que he o milhor do homem, nam Ihes facem 

teUectusaequant Eu- ^ .,1 -• t- « 

ropaeos; vitia dissi- comummente ventagem os milhores de iiuropa, como o temos bem 
mulant; veniam pro esperimentado na gente nobre; e o que a mi nam pouco me raa- 

offensis acceptis non ^ . 

recusant ; graviora ravilha he que dc tal maneira refream suas paixocs naturaes, ou 



LIVRO I, CAPITULO I. 17 

pera milhor dicer, as dissimulam, que por mais agastados que estejam negoda non pcr se, 

sed per tertlas per- 

huns dos outros, raramente o mostram, particularmente os homens gonas tractant. 

grandes; antes entam sam mais corteses e brandos em suas pala- 

vras, sem per nenhum caso aver as descomposturas que entre outras 

nagoes. Mas tambem algnmas veces se vengam, posto que se huma 

vez perdoam (o que facem com facilidade quando Ihes rogam, por 

grave que seja a cousa), tem por grande baixe^a e ainda escrupulo 

tomar a falar sobre aquello por que se desavieram, e assi os que 

se redducem a nossa santa fe se acusam na confissam que torna- 

ram a falar (ainda que fosse com seus amigos) sobre o que ja tinham 

perdoado. Tem por costume nam so os homens grandes, mas os de 

menos condi^am, nam tratar nunca negocio grave de rosto a rosto : 

tudo corre por terceiros e recados, por mais que as partes sejam 

huma mesma cousa; tendo por muyto menor perda a do tempo que 

se gasta em estas embaixadas que a da honrra e primor que se pode 

menoscavar com algnma mostra de paixam ou descompostura nas 

palavras, que muytas veces nam sam tam medidas quando o animo 

esta perturbado. 

As cortesias, de que usam huns por outros, sam por a mao 6. Quomodo aese 
dereita no peito e baixar a cabe^a dicendo : Bi^on ayaoel, que ^^ ^*"* 
quer dicer: o mal nam esteja em vos. E quando hum he inferior 
baixa ate a cinta o panno que traz em lugar de capa e beixa a 
mao ao outro ; e entrando em casa de homem grande, cinge o panno 
e tira os (japatos. Quando os homens grandes vam de huma terra 
a outra e visitam seus parentes, ou egoaes, se dam paz no rosto; 
e todos, quando entram na ig^eja, tiram os cjapatos e ficam com a 
f. 5,v. cabe^a cuberta, *como em cumprimento do que Deos mandou ao 
profeta Exo. 3, que se descalgase por reverencia e respeito e nam 
que se desbarretase. 

Os vestidos dos homens grandes sam de grS e outros pannos 7. Denuo de ve- 

^jj ij-Lj 11 j/^' _.. stibus nobilium ct 

nnos de damasco, veludo e borcado, que Ihes vem do Cairo ; o corte piebis. 
he o mesmo que o dos Turcos, mas a cabaya interior, que Ihes 
serve de camisa, tem colarino alto com botoes, e ordinariamente he 
de panno branco de algodam tam fino como olanda, que Ihes vem 
da India; e as cabayas de cima degoladas e cumpridas como as 
dos Turcos, ainda que este emperador Seltan Qagued ja vai intro- 
ducendo capas como as dos Portugueses. Alguns tracem na cabe^a 
toucas como Turcos, outros varretes de panno ordinariamente ver- 
melho, outros tem o cavello cumprido, que concertam de muitas 

C. Bkccaki. Kgr. A^th» Script» oec, ined, — II. J 



l8 HISTORIA DE ETHIOPIA 

maneiras. A gente baixa veste como pode e ordinariamente he hum 
panno branco de algodam cosido como len^ol e com este se cobre, sem 
tracer de baixo mais que hum cal^am ; e ainda alguns nam tracem 
mais que hum coiro de vaca, que concertam como camu^a grossa. 
Os vestidos das molheres nobres sam humas camisas muyto largas 
e cumpridas, degoladas, casi ao modo das das molheres de nossas ter- 
ras, com muytos lavores, e sobre ellas huma como basquinha de 
seda ou de outra cousa. Alg^as se cobrem com mantelinhas de 
damasco ou veludo, ou com pannos de seda ricos, que Ihes servem 
de manto pera irem fora, e quando caminham levam albornoces 
e chapeos na cabe^a, tracem sempre topete muito bem concertado 
e o de mais cavello feito em muytas tran^as delgadas, e folgam 
mais com o cavello preto que louro. Tracem orelheiras de ouro 
fermosas e as doncellas poem guirnaldas com argentaria e outras 
pe^cts de ouro, com que ornam os cavellos. As molheres baixas 
vestem como podem : o ordinario he hum panno de algodam como 
hum len^ol, ou hum coiro com camu^a. 
8. Linguae ct na- As lingoas que ha em este imperio sam muytas e muy diffe- 

tiones : Christiani, . i « .... 

Mahumedani, Judaei rentes, amda em hum so reyno; e a mais universal e cortesam 
et Gentiles. Confuta- jj^ ^ q^^ chamam amhara ; lincfoa que na eloquencia se parece 

tur asseitio Urretae ^ » & n ^ f 

de eiectione ludaeo- muyto com a latina. As na^oes sam tambem muytas e muy diffe- 
norum. " r^ntes, mas podem se reducir a 4 : Christaos, Mouros, Judeos e Gen- 

tios, e nos mais dos reynos se acham todas juntas. Por onde foi 
muyto fora de caminho a informagam que sobre esta materia teve 
frey Luis de Urreta, pois diz pagg. 7 e 363 que o Preste Joam 
Alexandre 3°, por conselho do padre frey Daniel prior do convento 
da AUeluya da ordem de sam Domingos, aos annos de 1570, botou 
de toda Ethiopia os mouros e judeos, ainda que eram muytos e 
muy grandes os tributos que pagavam. e o que nella *se atreve a f. 6, 
entrar sem licenc^a fica por ley condenado a ser escravo. Tudo isto 
he muyto contrario a verdade, porque casi em todos os reynos e 
particularmente em este de Dambia, onde agora esta a Corte, ouve 
de muytos tempos a esta parte muytos mouros e judeos, nem os 
Emperadores puderam nunca sugetar de tudo os Judeos, que estam 
no meio de seu imperio tres ou quatro dias de caminho de sua corte 
na provincia de (^emen, ainda que o procuraram, indo por veces 
sobre elles em pessoa com grossos exercitos ; e o Emperador Sel- 
tan Qagued, que agora vive, por causa de hum alevantado, que se 
acolheo a elles, Ihes facia muitos partidos e dava em outra parte 



LIVRO I, CAPITULO I. 19 

boas terras, porqne Ihe desocupasem aquellas que sam serras muyto 
fortes ; e nam quiseram ; pollo que foi sobre elles com grande exer- 
cito em otubro de 614, e ainda que matou muytos e tomou o ale- 
vantado, nam os pode botar das serras, e assi oje estam nellas sem 
Ihe quererem obedecer e por isto em agosto de 616 mandou que 
todos os Judeos de Dambia e os demais que Ihe obedeciam, se fice- 
sem christaos ; ao que muytos obedeceram e outros fugiram pera as 
terras fortes, onde estam Judeos. 

Tambem he falso o que diz que o convento da AUeluya he de 9. Palsa assertio 

■r>. . « r . . . Urretae monaate- 

s. Domingos; porque nem o he, nem o toi nunca, como mostrarei ^^^ Alleluia ease 

adiante no fim do 2° livro; nem o prior se chama Daniel, senam Doniinicanorum. Ex 

sene imperatoram a 

Za Oald Madehen, que quer dicer « naceo [do] Salvador » ; e era de 1 31 NaM ad AtanAf Sa- 
annos em abril de 616, que eu fui a o visitar em seu convento pera ^^^^ *iii'num^ 
acabar com elle certas cousas, e me disse que avia 40 annos que quam extitisse. 
era superior e que seu predecessor, que se chamava Gabra Maravi, 
scilicet Servo do esposo, fora superior 58 annos, nem ouve nunca 
tal Alexandre 3° em Ethiopia, e o que reynava o anno de 1570 se 
chamava Malac Qagued e o nome do bautismo era Zar Za Denguil, 
scilicet « procedeo da Virgem », e reynou 33 annos e morrendo no de 
96, Ihe sucedeo Jacob seu filho e chamouse Malac Qagned. Daqui 
se podia collegir quam fabulosats sejam as cousas que atribue frey 
Luis de Urreta no discurso de sua Historia a este Alexandre 3°, 
pois estas sam tam falsas ; mas com tudo, porque em muytas par- 
tes faz men^am delle, ja que em esta come^ou, sera bem mo- 
strar como nam ouve tal Preste Joam em os tempos que elle 
affirma e quantas veces falando delle se contradiz, para que se en- 
tenda o credito que se deve dar a as demais cousas de seu livro. 
Diz pois na pag. 88 que este Alexandre 3° sucedeo ao emperador 
Paphnucio, que sucedeo a Naum, e depois pag. 617 diz que este 
f. 6,v. Alexandre 3® sucedeo ao Preste Joam *Mena. Primeiramente nam 
ouve tal Emperador Paphnucio e ao que elle nomea Naum (que nam 
se chamava senam Naod) sucedeo seu filho Lebena Denguil, scili- 
cet c encenso da Virgem >, e quando o ficeram emperador se intitulou 
David, e assi se chamava quando Francisco Alvarez, capellam del 
rey dom Manoel de Portugal, entrou em Ethiopia o anno de 1520, 
e depois mudou o nome e se chamou Onag Qagued. A este suce- 
deo seu filho Glaudeos, scilicet Claudio, e chamouse Atanaf Qagned, 
e estava, quando entro dom Christovao da Gama em Ethiopia com 
400 Portugueses, que foi no anno de 1541, e depois o mataram os 



20 HISTORIA DE ETHIOPIA 

Mouros em batalha em mar^o de 1559; e sucedeolhe Minas seu 
irmao, a quem frey Luis chama Mena, e chamouse Adamas (^a- 
gued e morreo anno de 563. Pollo que errou muyto frey Luis di- 
cendo que Alexandre 3° sucedeo a Paphnucio e depois que suce- 
deo a Mena; pois este Minas nam sucedeo a Onag Qagiied, a quem 
elle chama Paphnucio, senam a seu filho Atanaf (^agued. 
10. Fabulae quae Tambem diz pag. 616 que este emperador Mena escreveo a 

iUexandro Tll^protu.- P^^pa Pio V, que o padre Andre de Oviedo era presidente do Con- 

lit Urreta: perperam selho latino, e que o reverenciavam como a santo; e na pacf. 102 
etiam Fr. Alvarex ^ » r s v 

asserit sub Alexan- e 193 diz que o emperador Alexandre 3** a instancia do padre Andre 
sitLios^etbiopiam ^® Oviedo instituyo este conselho latino e fez presidente delle ao 
fuisse primum in- mesmo Padre ; no que se vee claro a contradicjam : porque, deixando 

pera seu lugar o mostrar que nunca ouve em Ethiopia tal conselho 
latino, se Alexandre 3° instituyo o conselho latino, como o em- 
perador Mena, que foi antes delle (como diz pag. 6 1 7) podia escrever 
a Pio V, que o padre Andre de Oviedo era presidente deste con- 
selhop]. Diz mais pag. 91, que sendo este Alexandre 3°principe e 
estando no monte Amhara, o sirvio la muyto Joam Balthesar ; sendo 
assi que o derradeiro, que de la tirarSlo pera Emperador, foi Naod, 
o qual, como dicem todos em Ethiopia e se vee no catalogo dos 
Emperadores, avia que de la saio 118 annos quando se impri- 
mio o livro de frey Luis, que foi o de 610, e diz elle pag. 7 que 
Joam Balthesar caminhava pera os 70 annos; poUo que conforme 
a esta conta, 50 annos pouco mais ou menos antes que Joam Bal- 
thesar nacese, ja servia a Alexandre 3° no monte de Amhara. Tam- 
bem diz pag. 7 e 118 e 139 que Alexandre 3° morreo anno de 606 
e em seu lugar eligiram hum principe da gera^am de David, que 
se chamava Zarac Haureat, e vivia o anno de 608. Tudo isto he 
falso, porque eu entrei em Ethiopia em mayo de 603 e nam achei 
tal Alexandre, senam Jacob filho do emperador Malac Qagued, que 
tambem se chamou Malac (^agued, e o setembro seguinte o tiraram 
e mandandoo presso ao estremo do imperio a hum reyno que cha- 
mam Narea, levantaram a hum seu primo que se chamava Za Den- 
guil, scilicet « da Virgem», e aos 13 de otubro de 604 o mataram 
elles mesmos e tornaram a tracer Jacob; mas aos dez de mar^o de 
607 Ihe deo batalha hum seu primo, que *se chamava Suzenios e f. 7. 
o matou e assi foi emperador e chamouse Malac Qagued. Depois, 
por aver tantos deste nome, o mudou e chamase Seltan Qagued, que 
quer dicer « o poder adoura » ou « faz reverencia » . Tudo isto declarare- 



LIVRO I, CAPITULO I. 21 

mos adiante cumpridamente e, pera concluir esta materia, digo que 
he cousa muito certa que nam ouve nunca em Ethiopia Alexandre 3**, 
porque ninguem sabe dar re^am delle, nem no catalogo dos Em- 
peradores ha mais que hum Alexandre, a que elles chamam Escan- 
der, e este foi muyto antes que os Portugueses descubrisem Ethio- 
pia, pollo que tambem se enganou Francisco Alvares no que diz 
fol. 128, que, sendo Alexandre emperador, entrou em Ethiopia P.^ 
de Covilham portugues ; porque este parteo de Portugal, como se 
diz no prologo de sua Historia, o anno de 1487 e o emperador 
Alexandre morreo antes no anno de 1475; por onde he certo que 
errou o nome do Emperador. Isto bastara por agora pera o leitor 
saber quam fabulosas sam as cousas que frey Luis de Urreta diz 
deste Emperador no discurso de sua Historia. 

Tomando pois aos moradoures das terras do Preste Joam, os ix.incoUeAethio- 
mais cortesoes. nobres e poderosos. geralmente falando, sam os que P|,«« JJ^* ^ 
chamam Amharas. Os demais tem muytos e differentes nomes con- prodiveraistribubus, 

. quanim praecipua 

forme a suas familias e as provincias onde moram; pollo que em Amhara, comuni vo- 
hum so reyno ha gentes de muy differentes nomes. Com tudo ha cabuloHabcxyocan- 

-^ o j tur: falsa interpre- 

hum nome casi geral pera toda a terra e os moradoures della que tatio huius nominis 
he Habex, porque a a terra chamam Habex e aos moradoures, seja 
hum ou muytos. Isto nam somente entre si huns a outros, mas prin- 
cipalmente os Mouros e Turcos a a terra e aos moradoures cha- 
mam Abex, posto que ordinariamente quando falam de so a terra, 
todos a chamam Ethiopia, e este nome he mais proprio, e assi os 
naturaes nas cartas e livros que escrevem deste so usam; que o 
nome Abex muytos tem pera si que o inventaram os mouros, e nin- 
giiem de muytos a que preguntei me soube dicer o que significa; 
mas frey Luis de Urreta pag. 4 corrompe o nome, como tambem 
o facem outros authores, e a terra chama Abassia, e aos moradoures 
Abissinos, e traz huma ethimologia parece que imaginaria : porque 
nunca a pude achar nem entre os mouros nem entre a gente de 
Ethiopia, ainda que elle diz que em lingoa arabiga, turquesca e na 
mesma dos ethiopes quer dicer gente franca e livre, que nunca sir- 
vio a senhor estrangeiro, nem ha reconhecido rey estranho, e que tal 
he a terra de Ethiopia; poUo que affirma pag. 7 e pag. 16 e 17 
que, ainda que a Ethiopia inferior e baixa, que come^a junto a 
Egypto ate a ilha Meroe, ha tindo senhores estrangeiros e obede- 
f. 7A. cido a Emperadores estranhos, a alta e mayor, que comecja *da Me- 
roe ate os montes da Lua e lagoas do Nilo, nunca ha sido con- 



22 HISTORIA DE ETHIOPIA 

quistada nem jamais ha obedecido a senhor estrangeiro, sempre de 

annos a esta parte ate o Emperador que oje govema, amas Ethiopia 

baixa e alta obedecem a hum mesmo Senhor, que he o Preste Joam. 

la. Palsum est Mas, deixando a ethimologia que ao nome Abissinos da frey 

n^quam 8ub extera ^'"^^ ® ^^ ^""^ muyto nos limites que poe a as terras do Preste 
potestatefuisse.Nam Joam, teve niuyto falsa informagam no que diz que nunca foram 

Mahumedani sub 

Granh potiti sunt conquistadas e que sempre foram govemadas e o sam oje por seus 
Ae^iopia fere uai- fiihos legitimos e Emperadores naturaes; porque o anno de 1528, 

pouco mais ou menos, veio com exercito hum capitam gfrande del 

Rey de Adel mouro, que se chamava Mahamed e, por que era izquerdo, 

o nomeam commummente Granh (que asi chamam na lingoa da terra 

ao que he izquerdo), e entrando por estas terras do Preste Joam 

as tomou casi todas e as senhoreou 12 annos ou, como alguns di- 

cem, 15, sem ficar mais que muyto poucas e essas mal seguras, por- 

que sempre o Emperador e os dellas andavSo fugindo de huma 

parte a outra; e, se dom Christovao da Gama nam viera de socorro 

com os 400 Portugueses, que ja dissemos, nam Ihe ouvera de ficar 

ao mouro hum palmo da terra que nam senhorease, como diremos 

adiante quando tratarmos da entrada de dom Christovao em Ethiopia. 

13. Gallae qui sint Demais disto, em tempo do emperador Onag Qagued, vieram 

a tempore OnAg Sa- ^^ vanda do sul huns gentios pretos, que chamam Galas, pastores 

gftd Aethiopiara in- ^^ vacas, cfente muy cmel e fera, que como suas molheres acavam 

vaserint. » o ^ ~i 

de parir, sejam filhos ou filhas, os botam fora no campo e alli mor- 
rem ou os comem os animaes, huns por espa^o de seis annos, ou- 
tros de dez, e se algnm furta a crian^a que botaram por que nam 
morra e he achado, Ihe dam grande castigo e o tem por homem 
amaldi^oado. Nam lavram os campos, nem se sustentam ordina- 
riamente se nam de leite e mantega e de came cma, ainda que 
algnmas veces a asam e cocem. Nam tem Rey, mas cada 8 annos 
elegem capitaes que os governam na paz e na guerra. Estes, com 
virem casi despidos e nam tracerem outras armas mais que dous 
^argunchos, huma adarga e huma macinha de pao, foram entrando 
por este imperio de maneira que oje senhoream muyta parte delle 
e no que fica facem casi todos os annos muytas entradas e dam 
grandes asaltos, levando casi sempre muyta pressa, particularmente 
de vacas, de molheros e meninos ; que aos homens todos matam por 
nam se fiarem delles, ainda que algumas veces, depois de tomada 
a prossa, dam sobre elles os capitaes do Emperador e Iha facem 
deixar, matando alguns; mas, se querem passar onde ellcs estam. 



LIVRO I, CAPITULO I. 23 

f. 8. raramente os alcan^am, porque fogem *com suas vacas; e como as 
terras estam todas ermas, que nam as semeam, nam os podem se- 
guir muyto, por nam acharem que comer; mas os dous annos pas- 
sados entraram algumas veces e, dando de subito sobre elles, ma- 
taram muitos e trouxerkm grande pressa, como diremos no 4 li- 
vro. Esta peste de Ethiopia dicem que pronosticou o Patriarcha 
dom Joam Bermudez, que entrou com dom Christovao da Gama, e 
depois, por nam quererem dar a obediencia a Igreja Romana, como 
tinham prometido, se tornou pera India, lan^ando maldigam a as 
terrcts por onde passava e dicendo que via entrar em Ethiopia hu- 
mas formigas pretas que a destruiam, e todas as terras que elle 
amaldigou, estam agora destruidas e possuidas de Galas. 

Tambem he fora de caminho o quc frey Luis diz que sempre 14- Falsiim item 

T^,- . . r • j T^ j 1 '^' j • Aethiopiam semper 

Ethiopia foi govemada por Emperadores legitimos, porque, demais alegitimisimperato- 
do contar os livros de Ethiopia, he cousa muyto notoria nella que ^^^^ fuisse guber- 

natam. DynastiaZa- 

morrendo o emperador Armah, ou, como outro catalogo diz, Del- guft usurpavit impe- 
naod, deixou hum filho muyto piqueno e ficou como por seu ayo "^"^ ^' ^^** annos. 
e governador do imperio hum senhor muy poderoso chamado Za- 
goe, casado com huma molher de sangue real, e, morrendo dalli a 
pouco tempo o minino, foi elle governando o imperio como antes, 
sem se nomear por Emperador, nem querer alevantar nenhum dos 
da gera^am de Salomam, a quem pertencia o imperio, ate que mor- 
reo e, ficando hum seu filho, se nomeou por Emperador e matou 
quantos pudo achar dos de Isrrael, a quem podia pertencer o im- 
perio, pera que nam Ihe ficase competidor, e senhorearam toda 
Ethiopia os da gera^am deste Zagoe 340 annos ; que, ainda que no 
catalogo dos Emperadores nam estam mais que 143, dicem que fal- 
tam muytos e que esto trahe a verdadeira conta; e ao fim deste 
tempo se alevantou hum da geracjam dos legitimos Emperadores, 
que tinham escapado escondidos em terras afastadas, e com ter pouca 
gente, sabendo que os principaes do exercito do contrario o aviam 
de receber, foi confiadamente contra elle e chegando perto disse- 
ram ao Emperador que aquelle filho de Isrrael (que assi chamam 
aos da casta real que decendem de Salomam) vinha contra elle : que 
saise. Respondeo que nam era necessario, que pera aquelle bastava 
hum capitam ; e assi mandou o da dianteira ; mas, como de segredo 
estava concertado com o outro, logo se Ihe ajuntou com a gente 
que levava. Sabendo elle isto, mandou outros dous capitaes, que 
f. 8,v. *tinha por fieis ; mas tambem ficeram como o primeiro e todos jun- 



"^ 



24 HISTORIA DE ETHIOPIA 

tos tomaram contra seu senhor. O que vendo elle, fugio em seu 
cavallo e, por nam poder escapar, se meteo em huma igreja, dicendo 
que tomava por valedor a hum santo que nella avia, que chamam 
Charcos. Mas chegou logo o de Isrrael, que hia em seu alcance, e 
disse : Senhor, nam Ihe valhais, que tomou o imperio que nam Ihe 
pertencia, e, dandolhe com a lan^a, o matou e assi ficou pacifica- 
mente por Emperador e chamaram o Icuno Amlac, que quer di^er : 
« seja com elle Deos », e deste Emperador se foi continuando a linea 
de Salomam ate agora, qtie sam mais de jjo annos (i). 

Por onde foi muito contraria a verdade a informa^am que de- 
ram a frey Luis de Urreta, que nunca Ethiopia fora govemada por 
senhor estrangeiro, senam por seus naturais e ligitimos Emperadores; 
pois consta que se cortou a linea dos Emperadores por espaijo de 
de 340 annos ; que ainda que aquelle Zagoe era Ccisado com molher 
de casta real, nam podiam seus filhos erdar o imperio, por nam ser 
costume que os filhos de molheres erdem, ainda que ellas sejam 
filhas do precedente Emperador, se seu marido nam era de casta 
real por via de varam. 

(i) Haec adiunxit Auctor in margine et delevit quae sequuntur, scil.: « Desde 
aquelle Emperador se foi continuando a linea de Salomam ate agora, que sam mais de 
350 annos. Este teve cinco filhos ou, como outros dicem, nove e, estando pera morrer, 
Ihes encomendou muito que tuviesem muyta ujiiam e amor entre si, e que cada hum reynase 
hum anno, come^ando o mais velho. £ assi hiam facendo; mas chegando o imperio ao 2^, 
ou, como outros affirmam, ao 7°, se enfadou o mais piqueno, porque, quando avia de 
comer com os outros dous seus irmaos, que era como acabava o Emperador e o mais 
velho, que comiam juntos, faciam sair aos outros fora do aposento pera lavar as maos 
e depois entravam a comer. Enfadado disto disse a seus amigos : Eu nam hei dc facer 
desta maneira, senam quando me chegar o imperio prender todos estes meus irmaos e 
pollos em lugar de onde nam possam mais sair. Nam faltou quem dissese isto ao que 
era Emperador; pollo que mandou logo prender todos seus irmSos e levar ao monte de 
Amhara que chamam Guixdn, que he muito forte, como adiante diremos; e dalli licou 
costume metcrem la os filhos dos Emperadores, ate o emperador Naod, quc tirou este 
costume; ficando la somente os que primeiro estavam; e ainda ha oje no monte gera- 
^am de Fre He^an, aquelle que foi causa dos come^arem a meter, segundo me disse o 
emperador Seltan Qagued )). 



f <>• CAPITULO II. 

£m que se trata da gera^am dos Emperadores de Ethiopia, 

come^ando da reynha Sabba. 



Cousa he muyto certa e averiguada entre os Ethiopes, tanto i.DereginaSaba; 

11 j v ' j. cur de ea Auctor lo- 

que nam Ihes parece que possa aver de nenhuma maneira contro- quatur. 
versia, em que seus Emperadores decendam de Salomam por via 
da reynha Sabba, porque todos seus livros estam cheios disso e 
elles sempre se pre^aram e estimam oje muito chamaremse isrrae- 
litas e iilhos de David. Por onde avendo de tratar delles, primeiro 
devemos falar da may, por quem Ihes veio tam grande honrra como 
he serem filhos de David ; e mais este he o estilo da divina Escrip- 
tura falar primeiro da may, quando querem tratar do filho, e assi 
quando o sag^ado escritor queria contar as grande^as de algum 
Rey, primeiro decia quem era sua may, e como se chamava, como 
o fez, querendo tratar de Jeroboan, que primeiro disse, que sua may 
tinha por nome Serva, molher viuva « Cuius mater erat nomine 
Serva, mulier vidua » 3, Re^. 11. O mesmo fez querendo falar del 
rey Joas, 4, Reg. 12, e del rey Ezechias, 4, AV^. 18, que primeiro 
declarou quem eiam suas mays e como se chamavam; o que imi- 
tou o glorioso Evangelista S. Mat. c. i, que, pera escrever as ma- 
ravilhas e grande^as de Christo N. S., conta primeiro quem foi sua 
may e que nome tem. 

C. Bju:cari. Her. Aetk, Scripi, occ. intd. — II. 4 



y 



n 



26 HISTORIA DE ETHIOPIA 

a. Varia eiiudem Avendo pois de tratar do primeiro Emperador de Ethiopia, 

nomina et ratio il» jjoi- jj • j j^j» 

lorum. ^^ procedeo de Saloraao, e dos demais seus descendentes, digo que 

sua may foi a reynha Sabba e, como affirmam os que mais noticia 
tem das historias de Ethiopia, naceo no reyno de Tigre em huma 
aldea que ainda agora se chama Sabba, hum 4° de legoa pera oc- 
cidente de huma villa que chamam Ag^um, onde ella depois teve 
sua corte, e do porto de Ma^ua ate ella, caminando casi pera o sul, 
seram 25 legoas pouco mais ou menos. Tambem a chamam Negesta 
Azeb, que quer dicer « Reynha do sul » e estes dous nomens se acham 
muitas vece|s] nos livros de Ethiopia. No 3 dos Reys, c. 10 e 2 
Paral, 9, a chamam Sabba, e em j. Mat, c. 12, onde nossa versam 
diz Regina Austri a versam de Ethiopia diz Negesta Azeb. Ou- 
tro nome tambem se acha algumas veces em seus livros, que he 
Maqueda, mas dicem que este nome he *arabio, e que quer di- f. 9.^ 
cer Amhara. Pollo que Negesta Maqueda he Reynha Amhara; e 
hum livro de Agcjum, falando da reyna Azeb, diz que edificou 
huma cidade cabega de Ethiopia, que se chamou Dabra Maqueda; 
e nam cuido sera fora de caminho se dissermos que esta cidade 
Maqueda he a que agora chamam Ag^um; porque no livro, onde 
poem o catalogo dos Emperadores, diz que a reynha Azeb come^ou 
a reinar em Ag^um, e as ruinas dos edificios, que ainda aparecem, 
mostram bem aver sido a mais sumptuosa que ouve em Ethiopia, 
posto que agora seja villa piquena. Mas, deixando lugar pera que 
cada hum diga sobre isto o que milhor Ihe parecer, pois vai tam 
pouco, passaremos a contar a jornada que fez pera Jerusalem, de- 
sejando de ver as grande^^ts e maravilhas, que a fama pubricava 
de Salomam; porque no discurso della se vera em que fundam os 
Emperadores de Ethiopia o terem se por descendentes da real casa 
de David. E pera que esta historia nam leve mais nem menos or- 
nato do que Ihe dam os livros de Ag^um, deonde a tirei, a refe- 
rirei por as mesmas palavras que elles a contam, que sam as si- 
guintes. 
3. Incipit historia « Determinando el rey Salomam edificar o Templo, mandou re- 

de reeina Saba iuxta j^j j j j n^ 

codices Azumiticos. * cado a todos os mercadoures do mundo que Ihe trouxessem merca- 

Tamerin mercator ^ durias ricas e que Ihes daria ouro e prata, e, tendo particularmente 

aethiops pergit ad 

Salomonem ; admi- « noticia de hum mercador rico de Ethiopia da Reynha Azeb, que se 

S^tias^flllus*™ ^* * chamava Tamerin e tinha^^o camellos e 73 embarca^oes, llie man- 

« dou dicer que Ihe levase as cousas mais ricas que achase e ouro fino 
< de Arabia e pao preto ; o que elle cumprio e juntando todas as 



LIVRO I, CAPITULO II. 



27 



f. 10. 



invisere Salomonem. 



€ cousas que pode, chegou com ellas a Salomam, e elle tomou o que 
« Ihe pareceo bem e Ihe deo muyto mais do que valia. Este mercador 
t era homem discreto e de bom entendimento e, maravilhado da sa- 
« biduria de Salomam, notava com aten<;am a doQura de suas pala- 
« vras, sua justi^a, a modestia em seu andar e o modo de sua vida 
« e o amoroso trato que tinha com todos, o aparato de sua mesa e 
< a ordem de seus criados, a sabiduria com que ordenava sua casa, 
« perdoando aos que erravam, e quando castigava era com clemencia; 
€ falava com semelhancjas, sendo suas palavras mais doges que mel; 
« e assi os que se chegavam a elle, nam folgavam de se afastar, vendo 
« sua sabiduria e do<;ura de suas palavras, que eram como agoa a 
« quem tem sede e pam ao que tem fome, e micinha ao doente, e 
« julgava com verdade sem distin^am de pessoas, e Deos Ihe deo 
« muita honra e rique<;a, ouro e prata e pedras preciosas, vestidos 
« ricos, tanto que o ouro era como prata, e a prata como chumbo, 
« e o ferro come palhas do campo ». 

« Tendo estado alli muyto tempo, pidio licen<;a a Salomam pera 4- Mer<»tor rcver- 

titur cLomum ; narrat 

€ tornar a sua terra, dicendo : Senhor, folgara muito de estar *em quae viderat reginae 
vossa casa como o menor de vossos servos, porque ditosos e bem- ^f^^l^JSTil^'^^* 
aventurados sam os que ouvem vossas palavras e cumprem vosso 
mandado; mas detineme ja muyto: ja he tempo de tornar a minha 
senhora, conforme a promesa que Ihe fiz, e pera Ihe entregar seu 
fato,que eu tambem sou seu criado. Salomam Ihe fez muytas honrras 
e deo muyto fato e com isto o despedio em paz pera a terra de Ethio- 
pia ; e chegando a sua Senhora Ihe entregou o fato que tracia e Ihe 
contou como chegou a Salomam e todas as cousas que vio e ouvio, 
com o que folgava tanto que cada dia Ihe tomava a preguntar o 
que tinha visto e se acendia em deseio do ir a ver, tanto que cho- 
rava com o amor e desejo grande que tinha de ver aquellas cousas, 
e asi determinou em seu cora<;am de ir, e Deos Ihe deo firme<;a 
em este proposito ; e asi come<;ou a ordenar sua casa, e aparelharse 
pera o caminho e as cousas que avia de presentar a vSalomam, e 
mandou aos Principes e Grandes que se aparelhasem, porque o ca- 
minho era cumprido, e que juntasem animaes de carga, camellos, 
mulas e embarca<;oes, e facendo Ihes huma pratica, Ihes disse : Ouvi 
minhas palavras e considerai minhas re<;;oes; o que desejo he bu- 
scar sabiduria, porque o amor della me tem frechado o cora<;;am e 
me puxa com cordas muy fortes, porque milhor he a sabiduria que 
o thesouro de ouro e prata, e ainda que tudo quanto foi criado sobre 



28 HISTORIA DE ETHIOPIA 

« a terra. Com que cousa se podera comprar a sabiduria de baixo do 
* sol? He mais doce que o mel, e alegra mais que o vinho, mais 
« resplandece que o sol. E depois de ter dito muytos louvores da sa- 
« biduria, concluio sua pratica dicendo que pollas novas que tivera 
« de Salomam o amava sem o ver e todas as cousas que delle tinha 
« ouvido Ihe eram como agoa ao que tinha sede ». 

5. Regixxa Saba « Ouvindo isto os principes e a gente de sua casa, responderam : 

pervenit lenisalem ci_ • ^^j'- t_'j' ri^ 

et moratur ibi: ad- * Senhora, ja que tanto desejais a sabiduria, nam vos taltara; quanto 

miratur sapientiam ^ ^q^^ estamos aparelhados pera vos acompanhar, se fordes e pera 

et divitias Salomo- 

nis. « ficar, se ficardes, pera viver e morrer com vosco em toda parte. 

« E assi se aparelhou com grande abundancia, honrra e magestade, e 
« carregaram 697 animaes de carga e mulas sem conto, com o que 
« parteo, e foi seu caminho tendo em seu cora^am grande confian^a 
« em Deos ; e chegando a Jerusalem foi recibida de Salomam com 
« grande honrra e agassalhou a perto de sua casa, mandandolhe o jan- 
« tar e cea com muita abundancia, 15 core de farinhade trigo muytos 
« do^es e 30 core de farinha feitos em pam ; cinco vacas, 50 capoes, 
« 50 carnoiros, *afora as cabras, galinhas e vacas do mato e veados, f. io,v. 
« 60 medidas grandes de vinho novo, 30 de velho etc, cousas do que 
« Salomam mais gostava. E quando Salomam a hia a visitar, sempre 
« dava a 1 5 dos seus vestidos novos tam ricos que levavam os olhos 
« a pos si. EUa tambem o hia a visitar e a praticar a sua casa, e 
« via e ouvia sua sabiduria e justi<;!a, sua honrra e magestade, c do- 
« gura de suas palavras e como mandava com gravedade e respondia 
« com medo de Deos. Vendo tudo isto, se maravilhava de sua grande 
« sabiduria e como nenhuma falta avia em suas palavras, senam que 
« em tudo era perfeito e como dava ordem e medida a quanto aviam 
« de facer os officiaes que edificavam o Templo, assi na madeira como 
4 nas pedras e nas demais cousas, e assi como a luz resplandece entre 
« as trevoas, assi resplandecia a sabiduria de seu cora^am em todas 
as cousas e assi tudo facia com a sabiduria grande que Deos Ihe 
deo, quando Ihe pidio nam victoria de seus enemigos, nem rique^as, 
« nem honrras, senam sabiduria pera governar seu povo e edificar 
« sua casa » . , 

6. Vcrba Reginae « Vendo todas estas cousas a Reynha disse a Salomam : Bem 

ad Salomonem. . -* > 01. r*jii^ js ■» • 1 

« aventurado sois vos, Senhor, que vos foi dada tam grande sabidu- 
« ria e entendimento. Folgara de ser como huma das mais piquenas de 
« vossas servas e labar vossos pos e ouvir vossa sabiduria. Quam bem 
« me pareceram vossas repostas e a do<;iura de vossas palavras. Vossa 



LIVRO I, CAPITULO II. 29 

< sabiduria he sem medida e vosso entendimento sem mingoa, como 

< a estrella da minha entre as mais estrellas e como o sol quando nace. 
« Dou muytcts grac^as a quem me fez chegar a vos e vervos e a quem 
« me fez entrar por vossas portas e me fez ouvir vossas palavras. 
« Respondeo el rey Salomao : Quanto sabiduria e entendimento, saio 
« de vos ; que eu tenho o que me deo o Deos de Isrrael, conforme 
« Ihe pedi e busquei nelle ; mas vos, nam conhecendo ao Deos de 
« Isrraei, tivestes tanta sabiduria em vosso coragam, que me viestes a 
« ver e ser humilde como escrava de meu Deos e estar em pe a porta 
« de sua casa, onde eu sirvo a minha senhora a Arca da Ley do 
« Deos de Isrrael Syon santa celestial. Eu sou seu servo e nam livre, 
« nem foi por minha vontade senam polla sua, nem esta palavra he 
« minha, mas digo aquillo que elle me faz falar e fa(;o o que me man- 
« dou e recebo a sabiduria que me da ; sendo eu pao, me fez carne, 
« sendo agoa me cualhou e me fez a sua imagem e semelhanga. Ou- 
« tras muytas cousas Ihe disse com que a exortou a humildade e amor 
« de Deos; o que ouvindo ella disse: Que me aproveita toda esta 
« nossa pratica; diceime a quem hei de adorar, porque nos adoramos 
« o sol, como nos insinaram nossos pays e dicemos que elle he rey 
« de todos os Deoses, porque nos faz madurecer nossos mantimentos 
^ e alumia as trevoas e afasta o medo, e por isso dicemos que he 

f. n . « nosso criador *e o adoramos como a Deos ; mas de vosotros Isrrae- 
« litas ouvimos que tendes outro Deos que nos nam conhecemos, e 
« que vos deo as Tavoa$ da Ley por mao de Moyses seu propheta 
« e dicem que elle mesmo dece a vosotros e vos fala e faz enten- 
« der sua justi^a e seus mandamentos ». 

« A isto respondeo el rey Salomam: Na verdade he cousa justa 7. Rcsponsio Sa- 

j TN • a_ 11 lomonis. 

« adorar a Deos que criou os ceos e a terra, o mar, o sol, a lua e 
« as estrellas com todas as demais cousas que ha nelles. A elle so 
« pertence adora^am com temor e tremor, com alegria e contenta- 
« mento; elle he o que mata e da vida, castiga e perdoa, alevanta 
« o pobre da terra, da triste^a e alegria e nam ha quem Ihe possa di- 
« cer: Porque ficestes isto [?] ; a elle convem gloria e louvor dos anjos 
« e dos homens. Quanto ao que dissestes que nos deo as Tavoas da 
« Ley, de verdade nos foram dadas polla mao do Deos de Isrrael, 
« pera que entendesemos seus mandamentos, sua justi^a e castigo que 
« ordenou em seu templo. Respondeo a Reynha : Pois daqui por 
« diante nam adorarei ao sol, senam ao criador delle, Deos de Isrrael : 
« estas Tavoas de sua ley senhoreem a mi e a minha gera^am e a 



30 HISTORIA DE ETHIOPIA 

€ todos meus vassallos ; que por isto achei honrra diante de vos e 

< diante do Deos de Isrrael meu criador, que me fez chegar a vos e 
« ouvir vossas palavras, ver vosso rosto e entender vosso manda- 
« mento. Com isto se despidio e reposou em sua casa. Depois o visi- 
' tava muitas veces e ouvia sua sabeduria, gnardandoa em seu co- 
« ra^am. Elle tambem a visitava e Ihe declarava quanto Ihe pre- 
« guntava ». 

8. Exacds 7 men- « Passados sete meses, quis a Reynha tomar pera sua terra e 

sibtts Regina vult -. £> , ^- 1 j ^ 

abire. Salomon eam * disse a balomam : r olgara de estar sempre comvosco, mas por causa 
invitat ad coenam. ^ ^q ^ieu povo me he necessario tornar. Tudo isto que tenho ouvido 

« Deos fa<;:a que de fructo em meu cora^am e no coragam de todos 
« os que vieram comigo. Ouvindo isto Salomam disse em seu cora- 
« (jam : Quem sabe se desta molher tam fermosa, que veio dos fins 
« da terra, me dara Deos fructo[?]. E respondeolhe : Ja que viestes a 
« terra tam longe, porque aveis de tornar, sem ver a ordem de meu 
« reyno e o modo que se guarda com os Grandes [?]. Vinde a minha 
« casa pera que se vos possa mostrar. Respondeo ella : De vontade 
« o farei, pera que me acrecenteis sabiduria e honrra- Folgou muyto 
« Salomam com a reposta, e mandou dar ricos vestidos aos principaes 
« dos que acompanhavam a Reynha, e ordenou que em sua casa ou- 
« vese muyto aparato e as igoarias da mesa fossem dobrada^ do que 
« se acostumava, de maneira que nunca ate entam se tinha visto apa- 
€ rato tam grande como aquelle dia, e como a mesa del Rey foi 
« aparelhada, entrou a Reynha, nam por a porta principal senam por 
« outra piquena, e asentouse *em hum lugar que el Rey tinha muyto <"• ^a. 
« ricamente aparelhado com muyta pedraria e outras cousas fermo- 
« sas e com muytos cheiros e feito com tanta arte e sabiduria que 
« ella via todas as cousas qiie passavam, sem ser vista de ninguem, 
« e maravilhavase muyto e glorificava em seu cora^am ao Deos de 
« Isrrael. Sentado el Rey a sua mesa, mandava delia a Reynha as 
« igoarias que Ihe podiam causar mais sede, e como se acabou a 
« mesa, entraram os Principes e Grandes do reyno e alevantan- 
« dose el Rey foi onde estava a Raynha e disselhe que folgase 

< e descansase alli ate outro dia. Respondeo ella que o faria, mas 
♦ que Ihe jurase por o Deos de Isrrael que nao Ihe faria agravo 
« nenhum. Disse Salomam, que elle jurava, mas que ella tambem 
« lurase de nam tomar nada de sua casa. Respondeo ella rindo: Como, 
« Senhor, sendo tam sabio, falais desta maneira? por ventura hei de 
« furtar da casa del Rey o que elle nam me deo ? Nam vos pare<;a, 



LIVRO I, CAPITULO II. 31 

< Senhor, que eu vim por amor de fato, porque meu reyno com vossa 
« gra^a tambem he rico, e nam me falta nada do que eu quero. Nam 
« vim se nam a buscar vossa sabeduria. luraram amos e foise el Rey 
€ a reposar a sua cama de fronte della e mandou a hum seu pagem 
« que trouxese agoa e a botase em huma garrafa a vista da Reynha 

< e fechando as portas se fosse », 

« Tendo a Reynha dormido o primeiro sonho, acordou com 9. Et postea cum 
« grande sede e desejou muito beber da agoa que tmha visto e pare- i^^ tradit et divitiis 

< cendolhe que Salomam dormia, se alevantou e foi muyto manso a cumulatam dimittit. 

< tomar a agoa; mas Salomam, que com malicia vigiava, a tomou polla 
« mao e Ihe disse,que porque quebrara o juramento[?]. Respondeo ella 

< com medo: Por ventura beber agoa he quebrar o juramento? Disse 

< el Rey : Vistes mor cousa debaixo do sol que a agoa ? Respondeo 

< ella : Pequei sobre minha cabega ; vos guardastes o juramento. En- 

< tam el Rey a levou com sigo e, estando durmindo, Ihe pareceo em 

< sonho que decia do ceo o sol muy resplandecente e que alumiava 

< muyto a Isrrael, e que dalli a pouco hia pera a terra de Ethiopia 

< e nella alumiava muyto e pera sempre, porque alli folgou de estar. 

< Acordou Salomam espantado com esta vissam e alevantandose con- 

< tou a Reinha o que tinha visto. Elia Ihe pidio com muyta instancia a 

< deixasse ir pera sua terra, pollo que, elle entrando na casa de seus 

< thesouros, Ihe deo muytas rique^as e vestidos preciosos, carregando 

< muytos animaes e sete mil carros. Depois tirou hum anel do dedo 

< e Iho deo, dicendo: Este me mandai em sinal, se Deos me der al- 

< gum fructo, e se foi varam, venha elle; e com isto a despidio em 
f- 12. c paz e encomendou g^ardase bem o que Ihe tinha insenado que *ado- 

< rase a hum so Deos e ficesse sempre sua vontade, pera que nella 

< fosse benta sua terra ». 

< Partindo a Reynha com toda esta honrra e aparato, veio a sua 10. Post reditum 

< terra de Bala, que he Disana, e aos nove meses e cinco dias depois cx Salomone. 

< que se afastou de Salomam, pareo hum filho e o deo a criar com 

< muyta honrra, e, passados 40 dias, entrou em sua cidade com grande 

< pompa e magestade e os Principes e Grandes do reyno se ale- 

< graram em sua entrada e Ihe trouxeram muytos presentes ; ella 

< tambem Ihes deo muy ricos vestidos, ouro, prata e pec^as de grande 

< formosura e concertou seu reyno de maneira que nam ouve quem 

< desobedecese >. 

Isto tirei de hum livro muyto antiguo, que se guarda na igreja ". Quaedam Au- 

, . A 1, j rr. A . j ctoris adnotationes 

de AgQum; no que se vee como aquelle mercador lamenn criado 



n 



32 HISTORIA DE ETHIOPIA 

ad supradicum hi- da reynha Sabba, despedido de Salomam veio a Ethiopia, onde 

estava sua senhora e, ouvindo ella as maravilhas que contava de 
Salomam, se determinou do ir a ver. Por onde conforme a isto e 
ao que todos os de Ethiopia sem controversia affirmam, he cousa 
certa que a reynha Sabba partio de Ethiopia, quando foi a Je- 
rusalem, mas de que terra della nam facem mencjam os livros 
nem os naturaes o sabem de certo. Alguns dicem que parteo de 
huma terra que chamam Fazcolo, onde se acha o mais fino ouro que 
ha em Ethiopia, e fica ao occidente do reynode Gojam, nam muyto 
longe delle ; outros affirmam que parteo de AgQum, onde dicem que 
tinha seu asento e naquelle tempo era cidade muyto grande, ainda 
que agora he villa piquena; e esto he o que tem por mais certo. 
A terra onde ella veio, quando tornou de Jerusalem, que a Historia 
chama Bala, dicem que he na provincia de Amacen nam muyto 
longe do porto de Ma^ua. 



CAPITULO III. 

Em que se declara como Menileh^c filho da reynha Sabba 
foi a Jerusalem a ver seu pay Salomam. 



Antes que prosigamos a historia do filho da reynha Sabba, se »• Varia nomina 

,,j_^. -. , .•jA^ fi^" Sabae et Salo- 

ha de advertir que os hvros, que se gnardam na igreja de Ag^um monis. Unde mos 
Ihe dam diversos nomes, scilicet: Bainalehequem, Ebna Elehaquem, Iniperatomm mu- 

^ ^ tandi nomen quum 

Ebnehaquem, Menilehec, e nam Melilec, como diz frey Luis de Ur- ad regimen evehun- 
reta pag. 46. Mas deste ultimo Menilehec usa comummente a gente de 
Ethiopia e quer dicer na lingoa antigfua « parecese com elle » , porque 
se parecia muyto com Salomam; mas Salomam, quando o alevantou 
f. 12.V. por Rey, Ihe pus por nome *David como seu pay e daqui vem que 
os Emperadores de Ethiopia mudam o nome do Bautismo quando 
Ihes entregam o imperio. Os demais nomes querem dicer « filho de 
sabio » . Suposto isto, pera que o leitor nam repare na variedade dos 
nomes, continuaremos com a historia de Menilehec, que comegamos 
no cap. precedente, da mesma maneira que o livro a refer, e diz assi. 

« Creceo o minino e pus Ihe nome Bainalehequcm, e, chogando «• Instante Meni- 

leh6c, Regina eum 

€ a 12 annos, preguntava aos que o criavam, quem era seu pay, e mittitadSalomonem 
« disseramlhe que el rey Salomam. Preguntou tambem a Reynha, ^"^ *^^™ Tamertn 

^ •' ° -^ mercatore. 

c e respondeolhe com agastamento : Peraque me preguntais de vosso 
« pay , nem de vossa may ? Saio elle sem falar nada e tornando dalli 

C. Bbccaei. H^. Attk, Scri^t. oec, ined, — II. 5 



34 HISTORIA DE FTHIOPIA 

« a tres dias com a mesma pregtinta, Ihe respondeo ella : Sua terra 
« he longe e o caminho trabalhoso; nam desejeis ir la. Com isto esteve 
« ate que chegou a 22 annos, em que aprendeo toda sorte de caval- 
« leria e caga, e depois pidio a Reynha com muyta instancia Ihe dei- 
« xase ir a ver seu pay. Vendo ella o gram desejo que tinha, mandou 
« chamar a seu mercador Tamerin, e Ihe disse que o levase al Rey 
« seu pay, porque coiitinuamente a importunava de noite e de dia: 
« mas que procurase tornar de pressa e com bem, se o Deos de 
« Isrrael quissese; e, aparelhando o necessario pera seu caminho con- 
« forme a sua honrra e as pe^as que avia de presentar al Rey, o 
« mandou com grande acompanhamento, encomendando a todos que 
« nam o deixassem la, senam que o tornasem a tracer, e que pidi- 
« sem a Salomam que o levantcise por Rey de Ethiopia, com ordem 
« que dalli por diante todos seus sucessores fossem homens e de sua 
« gera^am ; porque era costume reinarem molheres doncellas, sem ca- 
« sarem nunca, e que Ihe mandase hum peda^o da vestidura da Arca, 
« diante de quem ficesem ora^am, e, afastando seu filho so, Ihe en- 
« tregou o anel, que Salomam Ihe tinha dado de seu dedo, em sinal 
« pera que conhecese que aquelle era seu filho e que Ihe lembrase 
« o juramento que ella tinha feito de nam adorar senam ao Deos de 
« Isrrael, e que o mesmo fariam todos seus vassallos, e com isto o 
« despidio em paz. 
3. Menilehftc pcr- « Facendo elle seu caminho chegou a terra Gaza, que Salomam 

cum Salomon mia- * tinha dado a sua may, onde foi recebido com grande honrra, pa- 
sis donis ad sc vc- ^ recendolhes que era o mesmo Salomam, porque em nenhuma cousa 

nirc lubct. ^ jt -1 

« se differenciava delle; e como a seu Rey Ihe presentava cadahum 
« o que podia conforme a seu estado. Mas depois huns deciam que 
« nam podia ser Salomam, que estava em Jerusalem; outros affirma- 
« vam que era o mesmo Salomam filho de David, *e com esta du- f. 13- 
« vida mandaram gente de cavallo a Jerusalem, onde achando a Sa- 
« lomam, Ihe disseram que toda sua terra estava perturbada por che- 
« gar a ella hum mercador, que em tudo se parecea com elle sem 
« haver differencia nenhuma. Preguntou el Rey pera onde hia ? e re- 
♦ sponderam que nunca se atreveram a Ihe preguntar, por la grande 
« magestade que tinha, mas que sua gente decia que vinha pera elle. 
« Ouvindo isto Salomam ficou alterado em seu cora(;;am, mas alegre 
« em seu espiritu, entendendo o que podia ser, que ate entam nam 
« tinha mais que hum filho, que se chamava Jeroboam, e mandou a 
« hum seu criado, sobre quem se encostava, que o fosse a receber le- 



LIVRO I, CAPITULO III. 



35 



f. 13.V. 



vando muytos presentes e grande numero de carros e que o trou- 
xese com a maior preste^a que pudese ser ». 

« Parteo o criado de Salomam com grande aparato, e chegando 
onde Bainalehequem estava, Ihe deo os presentes e disse que fosse 
logo com elle, porque o cora<;am del Rey ardia com amor e desejo 
do ver. Quanto eu, nam sei se sois seu filho o irmao, mas nam cuido 
que sois outro; porque em tudo vos pareceis com elle. Ao que re- 
spondeo: Dou muytos louvores ao Deos de Isrrael, porque hachei 
honrra diante de meu senhor el Rey, sem chegar a ver seu rosto, 
me fez alegrar com suas palavras. Agora tambem tenho esperanga 
em este mesmo Deos que me fara chegar a o ver e tornar em paz 
a Reynha minha may e a minha terra de Ethiopia. Respondeo o 
criado de Salomam : Muyto mais que isso que desejais achareis em 
meu Senhor e em nossa terra. Entam Bainalehequem deo ricos ve- 
stidos aos criados de Salomam e parteo com elles pera Jerusalem, 
e chegando a cidade, como o viram, parecialhes que era o mesmo 
Salomam, do que se maravilhavam muyto ; e cntrando al Rey, se 
alevantou de sua cadeira e o abra^ou e disse: Eis aqui a meu pay 
David resucitado dos mortos e renovado em sua mocidade. De- 
ciaisme que se parecia comigo : nam he senSo o rosto de meu pay 
David quando era mancebo, e metendoo em sua camara, Ihe deo 
ricos vestidos e pus aneis nas maos e coroa na cabe^a e o fez asentar 
em cadeira igoalmente com elle, e os Principes e Grandes de Isrrael 
Ihe ficeram reverencia e deram benpam dicendo: Benta seja a may 
que vos pareo, porque nos sahio da raiz de Jese homem esclarecido 
que seja nosso Rey e de nossos filhos. E todos, cada hum conforme 
a seu estado, Ihe trouxeram seus presentes, e elle deo a Salomam 
em secreto o anel de sua may, dicendo que se lembrase do que 
elle le tinha dito. Respondeo Salomam : Para que me dais este 
anel por sinar?': em vosso rosto vejo de verdade que sois meu 
filho ». 

# *Depois que Salomam acabou de falar em secreto com seu filho, 
entrou Tamerin e disselhe: Ouvi, Senhor, o que vos manda dicer 
vossa serva a Reynha : pede vos que ungais a este vosso filho por 
rey de nossa terra, e que mandeis que daqui pordiante nam reyne 
la nunca moiher, e que Iho torneis a embiar em paz, pera que se 
aleg^e seu coragam. Respondeo el Rey : Que tem a molher sobre 
o filho mais que parir com dores e crialo ? A filha pera a may e 
o filho pera o pay; pollo que nam o hei de mandar a Reynha, 



4. Eum Salomon 
recipit cum magno 
favore et coram o- 
mnibus ut suum fl- 
lium recog^oscit. 



5. Verba Tamerin 
ad Salomonem. Hic 
vult suadere Meni- 
lehte ut apud se 
maneat, sed frustra. 



n 



36 HISTORIA DE ETHIOPIA 

« senam facelo Rey de Isrrael, porque he o primogenito de minha 
« vara que Deos me deo. E mandandolhe cada dia ricos comeres e 
« preciosos vestidos, ouro e prata, Ihe decia que milhor era ficar onde 
« estava a casa de Deos e a Arca e tavoas da Ley e onde o mesmo 
« Deos morava. Mas elle respondia : Quanto ouro e prata e vestidos 
« ricos nam faltam em nossa terra ; nam vim mais que pera vosso 
« rosto, ouvir vossa sabiduria e sugetarme a vosso imperio e depois 
« tornar a minha terra e a minha may : porque todos folgam com a 
« ten a onde nacem ; e assi por mais que me deis, nam folgarei de ficar 
« aqui, porque me puxa a came pera onde naci e me criei, e se della 
« eu adorar a Arca do Deos de Isrrael, elle me honrrara, bastara que 
« me deis alguma cousa do vestido da Arca de Syon, para que eu 
« com minha may e todos os de meu reyno reverenciemos ; que ja 
« minha vSenhora destruyo todos os idolos e convirtio nossa gente ao 
« Deos de Syon, porque assi ouvio e aprendeo de vos, e como Ihe 
« mandastes assi o fez. Procurou Salomam persuadirlhe que ficase 
« com muytas re^ocs e promessas e que seria Rey de Isrrael e pos- 
« suiria a terra que Deos dera a seu povo e a Arca do Testamento, 
« e nam o pudendo acabar com elle, juntou seus conselheiros e os 
« principes e grandes de seu reyno e Ihes disse, como nam podia aca- 
« bar com seu filho que ficase, que de toda maneira se queria tornar ; 
« pollo que todos se aparelhasem pera o ungir por rey da terra de 
« Ethiopia, e que assi como elles estavam alli a sua mao de- 
« reita e izquerda, assi estariam la seus primogenitos com elle, e 
« que mandariam sacerdotes que insinasem a ley, pera que se suge- 
« tasem ao Deos de Isrrael. Responderam todos: Assi como el Rey 
« ordenar sera feito. Quem ha de contradicer ao mandamento de 
« Deos e del Rey [?] » . 
6. Ungitur, prae- « Aparelharam logo suavissimoscheiros e aceite e tangendomuy- 

cipiente Salomone, a . t « • 

sacerdotibus in Re- « tas sortes de mstrumentos musicos com voces de alegria o mete- 
gem Aethiopiae et m ^ ^^^ ^^ Sancta Sanctorum e foi nomeado poUa boca de Sadoc e loas 

lege Mosaica mstrui- ^ 

tur. « sacerdotes, e foi ungido poUa mao do Principe de Salomam e puse- 

« ramlhe por nome *David, porque naley achou nome de Rey e saindo ^- *^- 
« subio na mula del rey Salomam e levaramo por toda a cidade 
« dicendo : Viva el rey. O Deos de Isrrael vos seja guia e a Arca 
« da Ley de Deos, e onde quer que chegardes, se vos sugetem todos 
« e [cjaian diante [vos] vossos enemigos. Depois Ihe deo ben^am seu 
« pay dicendo: A ben^am do ceo e da terra seja com vosco; e to- 
<s. dos responderam: Amen. Disse entam Salomam a Sadoc sacerdote : 



LIVRO I, CAPITULO ITI. 



37 



f. I4,v. 



Declarailhe a justi^a e castigo de Deos, pera que la a gxiarde. Re- 
spondeo Sadoc sacerdote : Ouvi bem o que vos digo, porque, se o 
ficerdes, vivereis a Deos, e se nam, vos castigara com rigor e sereis 
menos que os de vosso povo e vencido da multidam de vossos ene- 
migos. Ouvi a palavra de Deos e cumpria : nam vos afasteis de sua 
ley, nem a mao dereita, nem a izquerda; e fezlhe huma pratica muyto 
cumprida, declarandolhe os castigos, que Deos Ihe daria, se nam 
guardase sua ley, e as merces que Ihe faria, se a guardase ». 

« Toda a terra se alegrou muyto por Salomam levantar a seu 
filho por Rey, mas entristeceramse por Ihes mandar que dessem 
seus primogenitos, ainda que Ihes avia de facer as honrras que Sa- 
lomam facia a elles mesmos. E mandou Salomam a seu filho que 
da mesma maneira que elle tinha ordenada sua casa e repartidos 
os officios assi o ficesse na sua e pera isso Ihe deo os primoge- 
nitos, que se chamavam Azarias filho de Sadoc sacerdote e o sina- 
lou por cabecja dos sacerdotes, leremias neto de Natan propheta, 
Maquir, Airam, Finquina, Acmihel, Somnias, Facaros, Leoan- 
dos, Carmi, Zaraneos, Adarez, Leguim, Adeireos, Aztaran, Ma- 
cari, Abiz, Licandeos, Carmi, Zeraneos. Todos estes Ihe foram 
dados a David rey de Ethiopia filho del rey Salomam, e a estes 
reparteo todos officios e mandos de sua casa. Deolhe tambem 
cavallos, carros, ouro, prata, pedras preciosas e gente que o acom- 
panhase com outras muytas cousas necessarias pera o caminho > . 

« Aparelharamse logo pera partir os principes de Ethiopia com 
grande alegria e contentamento ; mas ficaram muyto tristes os de 
Isrrael, por Ihes levarem seus primogenitos e foi muyto grande 
o pranto que com elles ficeram seus pays, parentes e amigos ao 
tempo da partida ; mas em quanto se. aparelhavam se juntaram 
estes primogenitos e disseram entre si : Ja que deixamos nossa 
terra e nossos parentes, juremos todos de guardarnos *sempre 
amor e uniam em as terras onde imos. Responderam Azarias e 
Jeremias filhos dos sacerdotes: Nam tenhamos paixam por dei- 
xar nossos parentes, senam por nos faccrem deixar a Syon nossa 
senhora e nossa esperan^a ; como podemos deixar a nossa santa 
Syon ? Se dissermos que nam queremos ir, mandarnos ha matar 
el Rey ; nam podemos deixar de cumprir seu mandado e a pa- 
lavra de nossos pays. Pois que faremos por amor de Syon nossa 
senhora ? Eu vos darei conselho, disse Azarias filho de Sadoc, se 
me jurardes que nam aveis de falar com ninguem. Se morrermos. 



7. Destinantur pri- 
mogenid Primonim 
Israel ad ezercenda 
praecipua officia in 
regia domo Aefhio- 
piae. 



8. Hi, suadente 
Asaria, consilium in- 
eunt asportandi se- 
cum Arcam Testa- 
menti. 



38 HISTORIA DE ETHIOPIA 

c morreremos juntos, e se vivermos, tambem sera juntos. luraram en- 
€ tao todos por o nome de Deos de Isrrael e da Arca de Deos, e 
c depois Ihes disse : Tomemos nossa senhora Syon ; que bem a po- 
*f demos tomar, se Deos quiser. Se nos acharem e morrermos, nam 
c tenhamos paixam, pois por amor della morremos. Alevantaramse 
c todos e beixaramlhe a cabega pollo gosto e consolacjam g^rande 
c que tinham, e disseram que fariam tudo quanto Ihes mandase. Disse 
c Zacharias filho de loab : Eu de pracer nam posso caber em mi ; 
c diceime de verdade se fareis isto ? Eu bem sei que o podeis fa- 
c cer, pois estais em lugar de vosso pay e tendes em vosso poder 
c as chaves da casa de Deos. Olhai bem como emos de facer, e 
c nam durmais pera que a possamos tomar e ir com ella e semos 
c ha alegria, mas triste^a a nossos pays. Mandou logo facer huma 
c caixa de pao, dos que sobeixaram da fabrica do Templo, da com- 
c pridam, largiira e altura da Arca de Deos, para nella a levar e 
c disse que nam descubrisem aquilo nem ainda al Rey, senam de- 
c pois de partir e estar muyto longe ». 
9. luasu Angeli, c Estando a noite durmindo Azarias, Ihe apareceo o anjo de Deos 

ct assentiente Salo^ * ® ^^^ disse que tomase 4 cabras de hum anno por seus peccados 
lomone sacrificium c e de Elmias, de Abizo e M.iquir, e 4 carneiros limpos de hum anno 

fit coram Arca. -1 » -r t- 

c e huma vaca, a que nam fosse posto jugo, e os sacrificase pera 
c oriente, a metade dos carneiros pera a mao dereita da vaca e a 
c outra metade pera a izquerda ; e vosso senhor el rey David dira 
c al rey Salomam que deseja sacrificar em Jerusalem e Arca S.* de 
« Deos, e que por elle tambem sacrifique o filho do sacerdote da ma- 
c neira que sabe. Entam vos mandara el rey Salomam sacrificar e 
c tomareis a Arca de Deos ; e dicervos hei como aveis de tirar, por- 
c que Deos esta airado contra Isrrael, e quer tirar delles sua Arca. 
c Acordando Azarias, ficou muyto alegre pollo sonho que tivera e pol- 
c las palavras que Ihe disse o anjo; e juntando seus companheiros 
c Ihes contou tudo, e disse que fossem com elle al rey David seu 
c senhor pera Ihe dar parte disto, e assi foram e Iho disseram, *com f. 15. 
c o que se alegrou muyto e mandou chamar a Joab filho de Jodahe 
c e o mandou com recado a Salomam dicendo : Senhor, deixaime ir 
c a minha terra com vossa vontade e vossa ora^am me siga em qual- 
^ quer parte que eu chegar. Huma cousa vos pe^o muyto, que por 
c isto nam mingueis o amor que me tendes : tambem desejo sacri- 
« ficar sacrificios a Syon Arca de Deos em esta terra santa de Je- 
c rusalem por meus peccados. Foi Joab a Salomam, e ouvindo este 



LIVRO r, CAPITULO III. 



39 



f. I5,v. 



recado, se aleg^ou muyto e mandou aparelhar grandes sacrificios, 
p)era que sacrificase seu filho e deramselhe loooo bois e vacas, 
loooo cameiros, loooo cabras e outros animaes do mato que se 
comem, e dos passaros limpos, de cada especie dez ; de farinha de 
trigo hum zal, 1 2 siclos de prata e 40 memesreha abaioa. Tudo 
isto Ihe deo el rey Salomam a seu filho e depois mandou el Rey 
dicer a Azarias filho do sacerdote, que sacrificase por si ; do que 
se alegrou muyto Azarias e trouxe de sua casa huma vaca a que 
nam se tinha posto jugo e 4 carneiros de hum anno e 4 cabras 
tambem de hum anno, e juntou seu sacrificio com o sacrificio del 
Rey asi como o anjo Ihe tinha dito. 

c Apareceo outra vez o anjo a Azarias e disselhe : Alevantai 
a vossos irmSios Elmias e Abizo e Maguir; e como os alevantou, 
Ihes disse o Anjo : Eu vos abrirei a porta do templo e tomareis a 
Arca de Deos e sem lesam alguma a levareis, porque Deos me 
mandou estar sempre com ella. Foram elles logo ao templo e acha- 
ram as portas abertas ate chegarem onde reposava a Arca de Deos 
Syon, e ella se alevantou logo em hum momento, porque o anjo 
de Deos a governava, e elles a tomaram e levaram a casa de Aza- 
rias, e a puseram sobre pannos de seda e Ihe acenderam candeas e 
sacrificaram hum cameiro limpo e ofereceram encenso e alli esteve 
7 dias. 

€ Em isto el rey David muyto aleg^e por ir a sua terra foi a 
seu pay el rey Salomam, e facendolhe reverencia disse que Ihe desse 
sua ben^am. El Rey o fez alevantar e tomandoo polla cabe^a, 
disse : Deos, que benceo a meu pay David, seja sempre comvosco, 
e ben<;:a vossa semente, assi como benceo a Jacob ; e deolhe outras 
muytas bengoes. Com isto se foi e puseram a Arca em hum carro, 
e muytas rique<;as e vestidos, que del rey Salomam e de outros re- 
ceberam, carregaram em carros e, alevantandose os sacerdotes, tan- 
geram muytos instrumentos e a terra toda se alvoro^ou com as vo- 
ces. Os primogenitos que hiam choravam com seus pays e todo o 
povo tambem chorava, como se os cora^oes Ihes disseram que era 
tomada a Arca. Foi *tam grande a triste<;a e pranto, que ate os 
animaes parecia que choravam, e todos botavam cin<;:a sobre suas 
cabe<;as; ate Salomam, ouvindo as voces e vindo o clioro da gente 
e a honrra dos que hiam, chorou e disse : Ja da qui por diante pas- 
« sou nossa felicidade e nosso reyno ao povo alheo que nam conhece 
« a Deos ; e chamando a Sadoc Ihe disse que trouxese huma das ve- 



xo. AMrias cum 
fratribus, praeeunte 
Angelo, furantur Ar* 
cam et domi abscon- 
dunt. 



XX. Menilehftc iter 
arripit cum suia tra- 
hentibus Arcam ; fle- 
tu8 populi; benedi- 
ctio et monita Salo- 
monis. 



^ 



40 HISTORIA DE ETHIOPIA 

« stiduras da Arca e que a levase a seu filho David, porque a Rey- 
« nha Iha tinha pedido por Tamerin seu criado pera facer ora^am 
« diante della com todo seu povo ; e que Ihe dissese que a Arca de 
« Deos Syon fosse sua guii e que tivese sempre aquella vestidura 
« em seu arrayal, e que, quando elle, ou seu povo, ouvesse de jurar, 
« fosse por ella, porque nam se lembrasem mais de outros Deoses, 
xa. Promissio Mc- « Foi Sadoc e fez tudo o que Ihe mandou Salomam, com o que 

nilefaftc Sad6c sacer- , ^t-w'j j« t-^ -i .t^ 

doti ; prodigia in iti- *^ aleg^ou muyto David, e disse : Esta seja mmha santa. Re- 
^^^' « spondeo Sadoc: Pois juraime de facer que esta vestidura esteja 

« sempre na mao de meu filho Azarias e de seus filhos, e que Ihe 
« dareis tambem os dizimos de vosso reyno ; e elle insinara sempre 
« a Ley de Deos a vos e a vosso povo, e ungira vossos filhos em 
« Reys. E assi o jurou, e Azarias recebeo da mao de seu pay Sadoc 
« a vestidura da Arca, e a levaram em hum carro e foram seu ca- 
« minho dereito, sendolhes guia sam Miguel que os facia andar com 
« tanta velocidade como se avoaram, de maneira que os carros hiam 
« alevantados da terra hum covado e os animais hum palmo, e do 
« sol os cubria huma nuve, que os acompanhava e por o mar os 
« levava como foram levados os filhos de Isrrael por o Mar verme- 
« Iho. O primeiro dia que se alevantaram chegaram a Gaza, terra 
« que el rey Salomam deo a reynha Sabba e passaram a Mazrin 
« terra dos Egypcios, e todo este caminho ficeram em hum dia : e 
« vendo os Principes de Isrrael que o caminho de trece dias ficeram 
« elles em hum, sem cansarem nem terem sede, nem fome, nem 
« homens nem animaes, entenderam que esta era cousa de Deos. 
« E como viram que tinham chegado a terra dos Egypcios, dis- 
« seram: Descansemos aqui, pois chegamos a terra de Ethiopia; que 
« a agoa de Taca^e vem e chega ate aqui ; e pondo suas tendas, 
« descansaram. Disse entam Azarias al rey David : Eis aqui, Senhor, 
« as maravilhas de Deos, que se cumpriram em vos. Aqui tendes 
« a Arca de Deos, so por sua vontade e nam vossa; e assi tambem 
« ella estara onde quiser ; que ninguem Iho pode toller. Agora se 
« cumprides os mandamentos de Deos, estara *com vosco e vos de- f. 16. 
« fendera. Entam el rey David, pasmado de tantas maravilhas, deo 
« gra<^as a Deos, elle e todo seu arrayal ; e era tam grande a alegria 
« de todos, que maravilhados alevantavam as maos ao ceo, dando 
« gra^as a Deos, e el Rey saltava de placer, como cordeiro e como 
« cabrito quando esta farto de leite, e como se alegrou David diante 
« da Arca do Testamento; e entrando na tenda, onde estava a Arca, 



LIVRO I, CAPITULO III. 



41 



f. i6,v. 



Ihe fez reverencia e beixou e disse: Senhor Deos de Isrrael, a 
vos gloria, porque faceis vossa vontade e nam a dos homens. E 
fez huma oraijam muyto cumprida, dandolhe gra^as poUa merce 
que Ihe tinha feito; e tangeram muytos instrumentos e ficeram 
todos g^andes festas e cairam todos os idolos dos gentios, obras 
de suas maos. E outro dia puseram a Arca sobre o carro cuberta 
com ricos pannos e comegaram a caminhar com grandes musicas; 
e os carros hiam alevantados do cham como hum covado ; e che- 
garam ao mar dos mares, mar de Ertera, que foi averto polla 
mao de Moyses, e caminharam os filhos de Isrrael, e por que a 
Moyses ainda nam Ihe tinha Deos dado as tavoas da Ley, por 
isso ficou a agoa como muro de huma e outra parte e elles p£is- 
saram pollo fundo com suas molheres e filhos e animaes. Mas 
quando elles chegaram com a Arca, tangendo muytos instrumentos, 
o mar os recebeo como alegrandose e facendo festa com suas 
ondas, que, ainda que se alevantavam como montes, os carros pas- 
savam alevantados sobre ellas casi tres covados e os peixes e 
monstruos do mar e as aves do ar adoravam a Arca; e saindo 
do mar, se alegraram muyto assi como os filhos de Isrrael quando 
sairam de Eg^pto, e chegaram de fronte do monte Synai, a asen- 
taram alli com grandes musicas. 

€ Em quanto elles faciam este caminho, entrou Sadoc sacer- 13. Salomon dc- 

, « <> A 1 tecto f urto Arcae Dei 

dote no templo e nam achando a Arca, senam huns paos que peracquitur Aethio- 
tinha feito Azarias a sua semelhan^a e posto alli, caio sobre seu ?*•• ^ fnistra. 
rosto no cham como morto com dor e espanto, e tardando em 
sair, entrou Josias e achou o caido, e facendoo alevantar, vio 
elle tambem como faltava a Arca, e botou cin^a sobre sua cabe^a 
e come^ou a gritar tal alto da porta do Templo que se ouvio na 
casa del *rey Salomam ; e como soube o que passava, se alevantou 
com grande espanto e mandou lan^ar pregam que se ajuntasem 
todos pera ir a buscar a gente de Ethiopia e que a seu filho 
trouxesem e a todos os demais passasem a espada, que eram 
dignos de morte. E como se juntaram os principes e grandes e 
os fortes de Isrrael, saio Salomam com grande ira pera os buscar; 
e os mais ancianos, as viuvas e doncellas se juntaram no Templo 
e ficeram grande pranto, por Ihes terem tomado a Arca da ley 
de Deos. Salomam foi poUo caminho de Ethiopia e mandou gente 
a mao dereita e a izquerda, por si se afastasem do caminho com 
« medo do que levavam furtado, e que fossem diante com cavallos 



C. Bbcc:ajii. /ier. AetA, Script, oce, tned, - II. 



42 HISTORIA DE ETHIOPIA 

€ a toda pressa, e os que os achasem tornasem a Ihe dicer onde 
« estavam. E depois, sabendo de certo assi por algxins destes de 
« cavallo que tomarao, como poUa gente de Gaza, onde elle chegou, 
« que nam os podia alcan^ar, porque hiam seus carros alevantados 
« do cham no ar com tanta velocidade como aves, fez muyto grande 
« pranto e disse : Senhor, vivendo eu, me levastes a Arca ? milhor 
« me fora tirardesme a vida. E decia outras muytas palavras, que 
« mostravam a grande tristecja e angustia de seu coragam. Depois 
« se tomou a Jerusalem e com os velhos della fez outra vez novo 
« pranto ; e vendo os Grandes que derramava tantas lagrimas, o 
« consolaram dicendo que nam tivese tanta paixam, pois sabia que 
« Syon nam podia estar se nam onde ella quisese, nem se podia 
« facer se nam a vontade de Deos. EUe foi servido de que pri- 
« meiro a levasem os Philisteos, e depois Iha fez tornar: assi 
« agora por sua vontade foi levada a Ethiopia, e fara que torne, 
« se elle quiser, e se nam, aqui tambem tendes a casa que edifi- 
« castes pera Deos, com que vos podeis consolar. Respondeo Sa- 
« lomam : Se a mi e a vosotros nos levara, ou ficera que elles pos- 
« suisem nossa terra, que cousa era impossivel a Deos [?]. Nam ha 
« nem nos ceos, nem na terra quem ressista a sua vontade, nem 
« desobedega a seu mandamento. EUe he Rey, cujo reyno nam se 
« tirara pera sempre dos sempres ; vamos a sua casa a Ihe dar 
« gra^as por tudo ; e entrando todos no Templo choravam muyto, 
« ate que Ihes disse Salomam, que cessasem, porque nam dessem 
« gosto e alegria aos gentios com a nova de sua perda. Respon- 
« deram todos: Seja feita a vontade de Deos e vossa. 
14. Menilehftc per- « Proseguindo el rey David seu caminho, chegcu a Balentos 

venit in Aethiopiaxn; 

regina MaquedA cum « limite das terras de Ethiopia e entrou com grande alegria e con- 
universo populo re- , tentamento e com muyta sorte de musicas e festas. correndo em seus 

cipit nlium et Arcam -^ 

Dei et hanc coUocat « carros, e mandaram gente com muyta pressa que desse *novas a f, 17 
cipe scil.^^l^rft^Ma- * Maqueda reynha de Ethiopia, que vinha seu filho e como reynara 
V^^^- € e que traciam a Syon celestial. Como chegou este recado a Rey- 

« nha, se alegrou muyto e mandou logo lan^ar pregam em todo seu 
« reyno que fossem a receber seu filho e principalmente a Syon cele- 
« stial, Arca do Deos de Isrrael ; e tangeram diante della muytos 
« instrumentos, facendo grande festa e alegrandose muyto grandes e 
« piquenos, e foram a terra de seu poder, que he cabe^a do reyno de 
« Ethiopia, na qual nos tempos derradeiros se ficeram christaos os de 
« Ethiopia, e aparelharam cheiros sem conto em Balte ate Galtet e 



LIVRO I, CAPITULO IIT. 



43 



f. I7A. 



« Al^afa; e veio seu filho poUo caminho de Azeb e Vaquir6n, e saio 
« por Mocez e chegou a Bur e a terra do poder que he cabe^a de 
« Ethiopia, que ella mesma edificou em seu nome e se chamou terra 
« Debra Maqueda ; e entrou el rey David com g^ande festa e alegria 
« na terra de sua may; e vendo a Reynha de longe a Arca, que 
€ resplandecia como o sol, deu gra^as ao Deos de Isrrael com tam 
« grande alegria e contentamento que nam cabia de placer, e vi- 
« stindose ricamente, fez grande festa e todos g^andes e piquenos 
« se alegraram sobre maneira, e metendo a Arca em o Templo da 
« terra de Maqueda, puseram de guarda 300 homens com suas 
« espadas e os Principes e Grandes de Syon os fortes de Isrrael 
« 300 com espadas em as maos ; e a seu filho deo tambem 300 de 
« guarda e se Ihe sugetou seu reyno do mar Aliba ate Acefa, e teve 
« mais honrra e rique^a que nenhum antes delle, nem depois ha de 
« ter ; porque em aquelle tempo nam avia ninguem como el rey Salo- 
« mam em Jerusalem e como a reynha Maqueda em Ethiopia ; que 
« a ambos Ihes foi dada sabiduria, onrra e riquecja e grande corapam. 
« Ao 3° dia offereceo a reynha a seu fiiho setecentos e sete mil 
« cavallos escolhidos e sete mil e seiscentas egoas que pariam, e tre- 
« centas mulas e outros tantos machos e muytos vestidos muy ricos 
« e grande soma de ouro e prata e entregoulhe a cadeira de seu 
« reyno, e disselhe : Deivos vosso reyno e fiz rey a quem Deos fez 
« rey; escolhi a quem Deos escolheo. Alevantouse entam el rey 
« David e, facendo reverencia a Reynha, Ihe disse : Vos sois a rey- 
« nha e senhora minha ; todas as cousas que me mandardes farei, 
« sejam pera vida ou pera morte ; e onde me mandardes irei, porque 
< vos sois cabe^a e eu pes, vos senhora e eu escravo. E com outras 
« muytas palavras de humildade se Ihe offereceo; e como acabou, se 
« tangeram muytos instrumentos e se fez grande festa. Depois *E1- 
« mias e Azarias tiraram o livro que foi escrito diante de Deos e 
« del rey Salomam, e o leram diante de Maqueda e dos Grandes 
« de Isrrael; e quando ouviram as palavras, adoraram a Deos todos 
« os que estavam presentes grandes e piquenos e Ihe deram muytas 
« grax^as. Ultimamente disse a Reynha a seu filho : Deus vos de 
« verdade, meu filho ; ide por ella, nam vos afasteis a mao dereita. 
« nem a izquerda; amai a vosso Deos, porque elle he misericor- 
« dioso e em suas cousas se conhece sua bondade. E virandose a 
« falar com os sacerdotes e gente de Isrrael, Ihes fez muytos offe- 
« recimentos e prometeo dos ter sempre por pays e mestres, porque 



15. Regina cumu- 
lat donis filiutn, eum 
ungere facit ab Aza- 
ria in regem, prin- 
cipibus et populo 
plaudentibu8,qui uni 
Deo larael cultum in 
posterum praestant. 



44 HISTORIA DE ETHIOPIA 

« elles eram os que gnardavam a ley e insinavam os mandamentos 
« do Deos de Isrrael. Elles tambem Ihe deram muytas gra^as, e 
« Azarias particularmente muytos louvores, e disse que tudo quanto 
« viram Ihes parecera bem, a fora de screm pretos de rosto. Depois 
« disse Azanas : Vamos diante da Arca de Syon e renovamos o 
€ reyno de nosso senhor David ; e tomando seu como cheio de oleo 
« o ungio, e assi se ronovou o reyno del rey David filho del rey 
« Salomam na terra do poder de Maqueda na casa de Syon ; e ajun- 
« tando a Reynha os Grandes do reyno, les fez jurar por Syon ce- 
« lestial que nam admitiriam dalli por diante molher por reynha 
« na cadeira do reyno de Ethiopia senam filhos que decendesem de 
« David; e Azarias e Elmias receberam o juramento de todos os 
« Principes e Grandes e dos Governadores e os filhos da for^a de 
« Isrrael com seu rey David renovaram o reyno, e a gente de 
« Ethiopia deixou seus idolos e adorou ao Deos que os fez ». 
i6. ObservataoneB Ate aqui sam palavras de hum livro, que se guarda na igreja 

Aoctoris ad histo- <, a ^. -i.-^- ^jiii_ 

riam MenUehftc ^® Aggum, e nam contmua mais a histona, nem a gente delle sabe 
quam fabulosam ex ^^ recam das terras Vaquirom, Balte, Galtet e Alcafa; so Bur he 

parte esse ostendit. 

conhecido, que ho provincia do reyno de Tigre, hum dia de ca- 
minho do porto de Ma^ua. Quanto ao nome Debra Maqueda da ci- 
dade que a reynha hedificou, Deber, propriamente significa monte ; 
mas, porque em os montes ordinariamente edificavam os templos e mo- 
steiros, ao templo ou mosteiro chamararSo tambem Deber ; e quando 
a este nome Deber se ajunta outro, dicem Debra; por onde Debra 
Maqueda quer dicer monte ou templo de Maqueda ; e se, como dis- 
semos no capitulo precedente e se pode collegir do que em este 
se refirio, Maqueda foi a cidade de Ag<;:um, querera dicer Templo 
de AgQum; que nella avia hum muyto sumptuoso templo. Acerca 
do que diz que o Anjo apareceo em sonhos a Azaiias *e que Ihe f. 18. 
mandou que tomase a Arca do testamento e que a trouxeram pera 
Ethiopia, tudo he historia apocrifa e fabulosa ; porque o contrario 
insina a Sagra Escriptura 2, Macha, 2, onde diz que o propheta 
Hieremias escondeo o tabernaculo e a Arca e o altar do encenso 
em huma coba do monte Nebo, em que subio Moyses e vio a 
terra de promissam, Deut, 34, que esta em Arabia, como diz Hie- 
ron. de Locis Hebraicis. As palavras do sagrado texto sam es- 
tas : « Tabernaculum et Arcam iussit Propheta, divino responso ad 
« se facto, comitari secum usque quo exiit in montem, in quo Moyses 
« ascendit et vidit Dei haereditatem; et veniens ibi Hieremias in- 



LIVRO I, CAPITULO III. 45 

« venit locum speluncae et Tabernaculum et Arcam et altare incensi 
« intulit illuc, et ostium obstruxit ; et accesserunt quidam simul qui 
« sequebantur ut notarent sibi locum et non potuerunt invenire. Ut 
« autem cognovit Hieremias, culpans illos dixit, quod ignotus erit 
« locus, donec congreget Deus congregationem populi ». Isto sera no 
derradeiro tempo, pouco antes do dia do Juigo, como tem pera si 
s. Epiphanio na vida do Propheta Hieremias. E muytos, tambem 
em Ethiopia, tem esto por falso, ainda que os frades de Ag^um 
sempre afiirmam que esta em sua igreja esta Arca. Mas indo por 
vissorrey do reyno de Tigre hum irmao do emperador Seltan (^a- 
g^ed, que se chama Qela Christos, scilicet « imagem de Christo » , no 
anno de 608, chegou de caminho a AgQum, como acostumam os 
Vissorreys, poUo nome grande que tem a igreja que alli esta, e 
disse aos frades que Ihe mostrasem a Arca do Testamento; e re- 
sponderam que nam o podiam facer, porque nem aos Emperadores 
sc mostrava, nem elles os obrigaram nunca a isso, polla grande 
reverencia que se deve ter a Arca santa. Disse elle, que, para que 
andavam com aquellas invengoes [?], e deixouos. Depois, indo eu ao 
visitar, porque nossa residencia esta como dusis legoas de Ag^um, 
me falou sobre esta cousa da Arca, e disselhe como era fabula o 
que affirmavam os frades, porque a Escriptura insinava o contra- 
rio e tracendolhe o lugar que agora referi, disse elle tambem que 
tudo o que deciam era patranha. O siguinte anno foi o Emperador 
a Tigre com exercito, por se alevantar la hum pretendendo o im- 
perio, e de caminho se coroou em AgQum e pidio aos frades Ihe 
mostreisem a Arca do Testamento ; mas elles deram tantas escusas, 
que o Emperador desistio, e depois me contou as porfias que tivera 
com elles, ^ombando de como metiam aquilo em cabe<;a a gente 
ignorante. 

Ainda que Ethiopia nam tem nem pode nam ter a Arca do 17. Novacetnun- 

. «T-^ A. j. • I'' j» j j* quam iii Aethiopia 

f. i8,T Testamento, outra muy preciosa rehquia e digna de grande *vene- auditae fabulae Ur- 
ragam Ihe da frey Luis de Urreta, pag. 54 e 55 por estas palavras: retaecircaArcamTe- 

stamenti et tabulas 

< Cosa es muy recebida en toda la Ethiopia que entre otras mu- legis Moysis. 

< chas pie^as ricas y joyas de grande valor, que vSalomon dio a su 

< hijo Milelec, fue una muy preciosa y por tal tenida de todos los 
« Emperadores, que le dio un peda<;o de las tablas.que estavam 
« escritas con el dedo de Dios, y las quebro Moysen a la raiz del 
« monte lleno de santo zelo contra la idolatria del pueblo; y don 
« Juan es testigo de vista, porque la ha visto e tenido en sus ma- 



46 HISTORIA DE ETHIOPIA 

« nos muchas veces; y dice que es de g^uesso de dos dedos, tan 
« grande como una quartilla de papel. Ay en ella gravadas unas 
« letras enteras y otras medias muy difFerentes de las que usan 
« agora los Hebreos. Tienenla guardada dentro de una Arca de oro 
« fino, la qual esta en una sala de la libreria ; continuamente tiene 
« guarda de dia y de noche de los soldados que estan en el monte 
« de Amara. » E pouco mais adiante confirma isto dicendo : « Y aun 
« todos los ludios de la Africa y Asia tienen esta opinion y reve- 
« rencian esta santa reliquia con grandes demonstraciones, no por- 
« que la ayan visto, ni les dan tal lugar, sino que, quando vienen 
« con mercadurias en sus caravanas de Persia, de Meca y Arabia 
« y passan a la Libia, Nubia, Borno y otros reynos, quando llegan 
« al famoso monasterio de la AUeluya, que es de frayles del glo- 
« rioso santo Domingo, que desde alli se descubre el famoso monte 
« de Amara, donde esta la dicha reliquia, se postran en los suelos 
« y se quitan los turbantes y haciendo grandes inclinaciones, le- 
« vantadas las manos, estan dando voces diciendo: Adonay, Ado- 
« nay, geis Adonay, Senor Dios, Seiior Dios, Senor sobre todos los 
« seiiores ; y lo dicen con tal afecto que ay algunos que Uoran con 
« mucha ternura; y quando los religiosos les preguntan la causa de 
« aquellas ceremonias, responden que en aquel monte estan las obras 
« maravillosas del grande Dios, que el Preste Juan es muy amado 
« de Dios, pues le ha dado tal reliquia, que con ella sera rey del 
« mundo, vencera sus enemigos, le dara Dios el rocio del cielo y 
« la grosura de la tierra, y a su alma la recogera como Abrahan 
« alvergo a los angeles » . 

Continuando o author esta historia, diz pag. 57: « Avemos di- 
« cho que ay en este peda^o de Tablas algunas letras gravadas y 
« abiertas, unas enteras y otras medias, y aunque algunas son he- 
« breas conforme a las que usan agora, pero las otras son muy di- 
« ferentes, que no ay quien las sepa ler; y yendo don Juan de Bal- 
« thasar *por embaxador del Preste Juan al rey de Persia, llevo f. 19. 
« mandado para que truxese un judio el mas famoso Rabbino en- 
« tre todos los de la Asia, que estava en Meca, Uamado Rabbi 
« Sedechias, para ver si sabria ler las letras ; el qual fue con mu- 
« cho gusto solo por ver aquel fragmento de las tablas de la Ley. 
« Llegando adonde estava la reliquia, aviendo hecho muchas Qale- 
« mas y ceremonias con muchas alaracas, aunque conocio algunas 
« letras, de las otras dixo que no las conocia y que ni eran chal- 



^ 



LIVRO I, CAPITULO III. 47 

< deas, ni griegas, ni arabes, ni perscis, ni indias, ni chinas; porque, 

< si lo fueran, el las leyera, por estar instruido en todas ellas ». 
E mais adiante, pag. 61, diz: « Finalmente, para que de todas par- 

< tes quede pertrecha y defendida esta historia, respondere con bre- 

< vedad al que pusiere en duda, que aquel pedapo de piedra sea 

< de las Tablas que quebro Moysen. Quanto a lo primero es bastan- 

< tissimo argumento la tradicion universal de mas de tresmil aiios 

< de antiguedad, en los quales jamas ninguno a puesto duda ni 

< menos la ha contradecido ; lo 2°, que todas las demas naciones 

< circunvecinas le dan esta gloria y Uanamente les conceden la 

< grandecja desta reliquia. Quien parece que les avia de contrade- 

< cir eran los Judios, y ellos sin debate alguno lo confiessan y ado- 

< ran la piedra como pedago de las Tablas de Moysen ; y la ultima 

< provan^a sera tomada de las escripturas autenticas, que se guar- 

< dan desde aquellos tiempos antiguos del rey Salomon, las quales 

< estan en el monte Amara en el monasterio de la s.^* Cruz de la 

< Orden de s.*** Anton Abad, donde tienen la sobre dicha reliquia » . 

Todo isto escreveo frey Luis de Urreta, como el affirma, por 
informa^am e testimunho de Joam Balthesar, mas sam cousas tam 
fabulosas como outras muytas que elle contou, porque nem ha tal 
pedago das Tavoas da Ley no monte de Amhara, nem o ouve nunca 
em Ethiopia. E assi preguntando eu muyto de proposito a paren- 
tes do Emperador, que estiveram muyto tempo dentro de aquelle 
monte, e aos frades mais velhos e letrados da corte, se tinham al- 
guma noticia de que no monte de Amhara ou em outra parte de 
Ethiopia ouvese pedago das Tavoas da Ley, responderam todos que 
nunca tal leram em livro nenhum nem o ouvirdm dicer ; antes ti- 
nham por cousa certa que nam ficou memoria do que se ficera da- 
quelles peda^os das Tavoas, que Moysem quebro; e pera mais me 
certificar da verdade, preguntei ao Emperador, diante de muytos 
Grandes e alg^ns frades, dicendo, como Joam Balthesar o affirmara 
f. i9,v. em Espanha, e riram todos muyto de como fora la *a meter em 
cabe^a huma patranha tam grande ; porque nunca tal cousa ouvera 
em Ethiopia. 

O que a mi me maravilha he como hum homem natural de x8. Falsum item 

T^., .> . .. i>i*i 1« ^^ 1 ex monasterio de Al- 

Ethiopia, posto que mentiroso, podia dicer hum disparate tam grande iduisL videH montes 

como he, que do famoso mosteiro de AUehiya se descubra o monte Amharae. 
de Amhara; porque nam he menos que dicer quc da ribeira de 
Lisboa em Portugal se descobra Coimbra, ou, pera falar das ter- 



48 HISTORIA DE ETHIOPIA 

ras que tenho milhor vistas, que de Segovia se descobra el Alham- 
bra de Granada; porque nam he menor a distancia do mosteiro de 
AUeluya ate o monte de Amhara, nem mais baixas as serras que 
os portos de Segovia e os de Andalucia, se nam muyto mais al- 
tas sem compara^am ; nem por o mosteiro de Alleluya podem pas- 
sar os mercadores que elle diz, porque he muyto fora de caminho, 
e mato tam basto que, indo eu la com levar gente daquella terra 
que me guiava, nam podia passar sem muyto trabalho e ainda me 
rompiam os vestidos as sylvas, posto que os mercadores naturaes 
de Dambia, que nam sam mais que Christaos e Mouros, quando 
vam ao porto de Ma^ua, algumas veces passam nam muyto longe 
daquelle mosteiro. Nem he de frades de sam Domingos, como disse 
no cap. I** e mostrarei no 2° livro, Nem pode dicer que ha outro 
mosteiro de AUeluya, deonde se descobra o monte de Amhara e 
passem os mercadores, porque nenhum outro he em Ethiopia de 
Alleluya; e deste mesmo fala elle, porque o poe na terra Tigre 
Mohon, pag. 311, nem este imperio tem comercio nenhum com a 
Persia, por que della venham mercadores. 
xg. L^gatio loan- Tambem parece fabula o que diz Joam Balthesar, que foi por 

1118 Balthcsar ad re- 

gem Persidis com- embaixador al Rey da Persia, porque nunca pude achar quem ouvise 
mentitia. dicer de tal embaixada, nem estes Emperadores tem amizade nem 

trato nenhum com aquelles Reys, nem da vanda da Persia vem ca 
gente. Quanto dicer que trouxe o judeo que estava em Meca, pera 
que lese as letras do peda<;o das Tavoas, he mera ficQam, porque, 
demais de ser cousa tam disparata pera ir daqui a Persia passar 
por Meca, nenhum christao, nem judeo, nem gentio pode entrar em 
Meca so pena de morte, ou se ha de facer mouro, segundo me af- 
firmaram muytos Turcos, estando eu cativo em o estreito de Meca. 
Si dissera que o trouxera de Moca, dourara mais sua mentira, por- 
que alli bem podem andar; mas se nam abia tal peda^o das Ta- 
voas, pera que avia de vir o Judeo ao monte de Amhara a ler as 
letras [?]. 
ao. Quid probabi- Com tudo, assi como muytas veces fundam as mentiras em al- 

f ^ul*^" BfiStibc *" gun^sis verdades, tambem esta se pudo fundar no que fez o empe- 

narratis. ludeus qui- rador Malac Qagued no reyno de Tigre ; porque indo a se coroar 
dam vocatus a MalAc aa, t-j j^i- 

Sagad ut legeret in- ^^ Ag^um, onde se coroam os Emperadores e vendo muytas le- f. 20. 

scriptiones Axumi- ^^^ antiguisimas que alli estam escritas em colunas c pedras muyto 

grandes, *desejou saber o que deciam, e, por nam achar quem as 
pudese ler, mandou chamar hum judeo que sabia muytas lingoas 



hlVKO I, CAPITULO III. 49 

e parece avia de estar no mesmo reyno, e nam as soube ler. Eu 
tambem desejei muyto saber que deciam e fui la com dou[s] padres, 
que sabem grego, e hum homem grego, que sabia muyto bem seus li- 
vros, e nam as puderam ler; nem sam latinas, nem arabias, nem 
hebraicas, ainda que algumas letras se pare^am com ellas; porque 
se o foram, eu as ouvera de ler. 

Tambem pode ser que a mentira de que Joam Balthesar teve ai.Nomenaethio- 
em sua mao no monte de Amhara o pedapo das Tavoas da Ley a ^.^nj signiflcatioi^m 

fundase em ter algum peda^o de pedra de ara antigua, que algum habet. Inde error vel 

xrftus BaltbeBar. 
frade quissese bautizar por pedago das Tavoas da Ley; porque a 

Arca do Testamento e a as Tavoas da Ley e a a pedra de ara 

nomeam os livros de Ethiopia e toda a gente por hum mesmo 

nome, que he Tabot, e sobre todas as pedras de ara abrem le- 

tras fundas, em que poem poUo menos o nome do Santo a quem 

esta dedicada a igreja; nem falta la pedra muyto alba transpa- 

rente de que facem pedras de ara, que ainda agora pouco tempo 

ha me mandou (^ela Christos irmao do Emperador huma pedra de 

ara muyto fermosa de pedra branca transparente, que elle fez la- 

vrar pera nossa igreja e puseram nella a seu modo o principio do 

evangelho de sam Joam com letras bem fundas, e me escreveo que 

no fim do reyno de Gojam, onde elle he vissorey, havia tanta pe- 

dra daquella, que podiam facer casas, e que se lavrava muyto bem. 

Por onde digo que podiam ter no monte de Amhara algum pedago 

de pedra de ara antigua com as letras que se usavam em aquelle 

tempo, e como a pedra de ara se chama tabot, assi como as Ta- 

boas da Ley, dicendolhe a Joam Balthesar, que aquelle era pedacjo 

do tabot, entenderia que era das Tavoas da Ley; ou pode ser que 

algum frade, pera engrandecer as cousas de sua igreja, Ihe dissese 

que era peda^o das TavoEis da Ley, como facem agora os de Ag- 

Qum, dicendo que tem a mesma Arca do Testamento. 

Mas o que diz que se guarda aquelle pedago de pedra em huma 

arca de ouro fino e que tem a sala guarda de noite e de dia, he 

falso, porque nem ha arca de ouro, nem tal guarda, nem mosteiro 

da Santa Cruz, onde se guardem as escripturas autenticas quc diz, por- 

que no monte de Amhara nam ha mais que duas igrejas ; huma se 

chama Egziabeher Ab, scilicet Deos padre, e outra de nossa Se- 

nhora ; nem ouve outras nunca, como diremos adiante cm suo pro- 

prio lugar. 



C. Beccari. Rer» Aeih, Script, occ» ined» — II 



f. 20,V, 



CAPITULO IV. 

£m que se trata dos officiaes que el rey Salomam de 
a seu filho David pera servi^o de sua casa, e dos que 
agora tem o Preste Joam. 



Ja dissemos como, quando el rey Salomam fez coroar em Je- i.Loquendodcva- 

1 n^^^ -»r M i_A , ii_ riis oliiciis Auctor 

rusalem a seu nlho Menilehec, mandou que Ihe pusesem por nome explicabitcanonmo- 
David, assi por lembran^a del rey David, como porque se parecia ^^, *^** Hbros Ac- 

thiopunii sed ctiam 

muyto com elle, e que nam somente Ihe deo os sacerdotes que en- iuxta praxim suo 

sinasem a ley, mas algnns dos primogenitos dos Principes e Gran- *®'"P°''® vigcntcm. 

des de Isrrael, para que o acompanhasem e assistisem em sua pre- 

sencia. Demais destes Ihe deo outros menos principaes pera o ser- 

yiqo dc sua casa e pera o bom governo e policia de sua republica, 

desejando que, em quanto fosse possivel, guardase [e]m todas as cou- 

sas seu mesmo modo e estillo, principalmente a magestade de sua 

casa, a ordem e concerto de seus criados, o primor de seu servi^o, 

seu apparato e grande cortesania, com todos os demais ritos e ce- 

remonias que em sua casa e reyno se usavam. Mas, pera referir 

estes, nam somente direi o que esta nos livros de Ethiopia, mas 

tambem juntamente porei o que dicem os que agora sam cabe^as 

destes officios, porque esta muyto misturado e mudado, ainda que 

alguns dos officios os servem oje os descendentes daquelles mesmos 

que deo Salomam. 



52 HISTORIA DE ETHrOPIA 

2. Quid Bignificet Primeiramente ate poucos tempos ha avia hum que se chamava 
cium^*Behftt u&dftd" ^^^^* Uaded, que quer dicer « so amado ». Este morava a mao de- 
tempore auctoris reita do pa^o e no campo punha sempre sua tenda a mao dereita 

Er^ vocabatur et 

unus tantum potie- ^a do Emperador, e outro com o mesmo titulo e honrra a mao 
officfo ^^ ** ** izquerda e amos governavam tudo debaixo do Emperador, e quando 

elie nam hia a guerra, hum destes saia em seu lugar por geral de 
todo o exercito e o outro acompanhava ao Emperador. Mas por 
terem tam grande poder e mando, se ensoverveceram de maneira 
que nam sugetavam seus pareceres a o do Emperador, poUo que, 
nam os pudendo sofrer, o emperador Atanaf Qagued, ou pode ser 
(como alguns cuidam) que arreceando que se Ihe revelasem, por 
serem tam poderosos, Ihes tirou os titulos e mandos e os reservou 
pera si. Mas depois o emperador Malac QagTied tomou a introducir 
hum so com nome de Eraz, que quer dicer cabe^a, e o emperador 
Seltan (^agued, que agora vive, deo este titulo e cargo, o anno de 
6ii, a hum seu irmao, que se chama Emana Christos, scilicet « mao 
dereita de Christo », e Iho tirou o anno de 615, porque nam Ihe obe- 
decia bem ; e falandolhe eu sobre elle, me disse que estava deter- 
minado de nam facer mais a ninguem Eraz, porque se ensoberveciam 
*muyto; que se aquelle com ser seu irmao se Ihe mostrava tam so- f. 21. 
bervo, que fariam os outros ? Mas depois Ihe rogaram muyto al- 
gumas suas parentas e os Grandes da corte e assi Ihe tornou seu 
mando. 

3. Quid fuerint Tambem avia dous que se chamavam Hedug Eraz. Estes fica- 

duo Hedtlg £r&z et 

duo Gueii&. Quid vam em lugar daquellas duas cabegas, quando elles estavam ausentes. 
Uzta Axkz et jAn- Qutros dous se chamavam Gueita, scilicet senhor e ficavam em lu- 

derebdch AjEax6cn. 

De officio ecclesia- gar dos Hedugues. Uzta Azax sam dous, Jandereboch Azaxoch 

stico ■A.cabc ^Cc&t ct 

Quez-Hac6. dous. O principal ofiicio de todos estes dez he julgar particular- 

mente em cousas graves e irem por cabegas a guerra. Outro titulo 
muyto grande ha que dicem Acabe E^at, que quer dicer « guardador 
do fogo ». Este he sempre algum frade ou sacerdote grande, que de 
ordinario acompanha ao Emperador e entra a elle quando quer, sem 
ninguem Ihe poder tolher e sabe todos os secretos e Ihe aconselha 
em tudo pera bcm de sua alma e corpo; ate no comere beber Ihe 
diz: Isto basta; mas nam he seu confessor nem mestre, porque a 
este chamam Quez Hace, scilicet sacerdote como do Emperador, 
que nam achei quem me souvese dicer propriamente o que significa 
Hace. E chamam ao Emperador fogo, porque dicem que ha de ser 
como fogo que tem tres cousas: alumiar, aquentar e queimar; assi 



LIVRO I, CAPITULO IV. 53 

o Emperador ha de alumiar aos outros com suas boas obras e 
exemplo de vida; o que alude ao que diz sam Gregorio, Hom. 13 
€ Lucemas quippe ardentes in manibustenemus, cum per bona opera 
« proximis nostris lucis exempla mostramus ». Ha de aquentar com 
seu fervor no bem e com sua liberalidade pera com todos. Finalmente 
ha de queimar com sua justi<;a, quando ouver que purificar em a 
republica. Outros alfirmam que nam se ha de dicer se nam Aca- 
be^aat, que quer dicer guardador das horas, porque a elle pertencia 
declarar as horas em que o Emperador avia de despachar os ne- 
gocios e facer as demais cousas. 

Os demais officios sam Eraz balderaba (destes avia dous criados 4- Dc aliis officiis 

^ . ^ . , 1.1 8cii.:BrAcbalderabA, 

neis ao Emperador, que acompanhavam sempre dentro da casa e HedilkK ErA* balde- 

fora a aquelles dous Behet Uaded ou Eraz, como por guarda, pera ^"^ ^^^^^^w' 

que nam ficessem nem dissesem cousa nenhuma contra o Empe- Mared Bftit, janbe- 

rador); Hedfig Er^z balderaba. estes tambem eram criados de quem '^tT^^i^ 

se fiava o Emperador e vig-iavam os Heducfues como os primeiros Umbar6ch, jantacAl, 

^ ^ , JanderabA, Jamxala- 

aos Eraces ou Behet Uadedoch. Gueita balderaba: estes da mesma mi, TecAcan&ch,Bal- 
maneira vigiavan aos dous que se chamavam Gueita. scilicet senhor. g^^us^^BalftmccSHf 
f. 2i,v. Outros *se chamavam Manguest Beit, scilicet casa do reyno. Estes «* BegAmAch. 
recolhem e tem a seu cargo todas as pec^as e fato do Emperador 
e sam Alcaides das prissoes. Mared Beit, scilicet casa de tremor: 
estes tem cargo dos vestidos do Emperador e de todas suas armas. 
Janbeleu, tem cargo de receber os cavallos que tracem ao Empe- 
rador e facer que se guardem. Aicenfo : recebem e guardam as mulas 
que tracem ao Emperador de tributo e tomam de dez huma. Egner 
Zacone: tem por officio dar posse das terras de que o Emperador 
faz merce a algum pera sempre, e andam a roda dellas tangendo 
atabales e sinalando os limites onde enterram huma cabega de cabra, 
e se alguem a tira, tem grande pena. Janacjana Umbaroch: sam 
ouvidores, e quando o Emperador vai caminhando por despovado, 
se acham alguma ribanceira ou cousa funda no caminho, botam 
agoa benta antes que chegue o Emperador, dicendo o PsaL 67: 
« Exurgat Deus et dissipentur inimici eius, etc. ». Jantacal: estes 
levam as vandeiras do Emperador e facem afastai a gente por o 
caminho. Janderaba: quando o Emperador caminha levam os livros 
em que re^a, que ordinariamente sam os Psalmos, e facem tambem 
afastar a gente de diante do Emperador. Janxalami scilicet orna- 
dores do Emperador: sam seus orivez e armeiros. Tecacanach: 
estes sam filhos de parentas do Emperador e levam humas varas 



54 HISTORIA DE ETHIOPIA 

em que poem hum panno como dosel, pera facer sombra ao Em- 
perador, quando se apea, se nam estam armadas as tendas. Balde- 
bana: quando alguem pede de merce ao Emperador que Ihe de 
quem Ihe lembre os negocios que tem com elle e seja como seu 
procurador, sinala hum destes. Baletagua^agu^a : porteiros do pa^o. 
Balemecahaf tambem sam porteiros. Uztmaguoz, Tara^amba, Cu- 
ra^acala: estas tres casas tambem sam porteiros do pago. Bega 
Mach : armam as tendas do Emperador e vigiam sempre, porque 
nam se arranguem as estacas quando chove ou faz grande vento, 
e como se acaba o verao, tomam pera si as tendas e pera o si- 
guinte facem outras novas : que ao Emperador nam Ihe servem as 
tendas mais que hum so verSo. 

5. Dc iia officiali- Deb Ambe^a tangem os atabales. Dera moamoai levam as 
Ambec&, DcrA MoA- tendas e fato da igreja de s. Miguel quando o Emperador vai a 
moat,BcttAn9&,Bex- gruerra. Beit Anca levam as tendas e fato da igreia de nossa Se- 

tegrft, Botragftt ZA- ^ ^ ^ ^ -^ 

yeyahAx, Bcita Gu*- nhora. Beztegre levam as tendas e fato da igreja de Jesu. Botra- 
5m!^BeTu1ttL"« get levam o leito. em que dorme o Emperador e vam sempre 
de muliere dictaite perto, porque ordinariamente, quando se apea, se asenta nelle. 

Agr6d cuius officium ^ ^ „ t^ . 

cst punire ignomi- Zayeyahax levam o vinho pera o Emperador, que he de mel. Beita 
niose qui fugiunt Q^gber, scilicet casa do officio; aqui se entendem os cocinheiros e 

tcmporc pugnae. * * ^ 

os que levam o comer ate a porta da sala onde esta a mesa do 
Emperador. Cuamoch: estes sam muytos e a elles principalmente 
pertence levar o comer ate aquella porta e alg^uns delles entram e 
o poem na mesa, e tornam a sair; *por que ninguem esta onde come f. 22. 
o Emperador, senam o mestre sala e o Veador e cuatro pagens que 
servem. Bala-(^em : tem cuidado de tracer as tochas que se gastam 
de noite no pa^o. Beita haiz : limpam as ruas e caminhos por onde 
ha de passar o Emperador. Ite Agrod : he [huma| molher, que tem 
por officio castigar aos que fogem ra guerra, antes que o campo se 
desbarate ; porque ao que se Ihe prova que de covarde fugio, nam 
o castiga homem, senam esta molher, pera mais desonrra, e o ca- 
stigo que Ihe da he: faz juntar muyta gente e balha diante delle 
dicendolhe muytas cousas de ^ombaria e de afronta e de quando 
em quando Ihe da bofetadas e Ihe travesa na boca hum paucinho 
em que tem espetado hum pedaco de bofe. 

6. Dc duobus offi- Poucos tempos ha que acrecentaram dous officios ; hum se chama 
ductis^scii!* TalahAc Talahac Balatinoch Gueita, que quer dicer « Senhor dos criados gran- 
Balatindch GucitA et des do Emperador ». Gueta he Senhor: este tem muyto grande mando, 

TecaclLn Balatin6ch 

Gucit&.Ephcbihono- porque nam somente he sobre todos os criados do pago, mas sobre 



LIVRO I, CAPITULO IV. 55 

os do arrayal. ainda que sejam capitaes: ate os Vissorreys depen- rarli in tres classes 

« ^«11 t- jiji r- j divisi iuzta Aulas 

dem muyto delle e a nenhum se da mando nem se faz merce de ^^^ inscrviunt, quae 
terras sem seu conselho; e todas as cartas que vam pera fora, de- vocantur Amba^A, 

^ ^ Bftit, Ztiixi Bftit et 

pois que o secretario as mostrou ao Emperador, as vee elle e se Farftz B»it. Antiqui- 
Ihe parece que ha que propor sobre ellas ao Emperador, o faz. e "^^J^Z^^^^Z- 
se nam, poe o senete do Emperador, que esta em sua mao, e as determinatus. Curhi 

^ soli adstent diu no- 

manda. Outro se chama Tecacan Balatinoch Gueita, senhor dos ctuque coram Rege. 
criados piquenhos, scilicet pagens do Emperador. Estes pagens estam 
agora repartidos em tres salas, que antiguamente todas eram casas 
tereas. A de mais honrra se chama Ambaga Beit, caisa do Liam, 
e he a mais intima. A 2^ mais pera fora se chama Zefan Beit, casa 
do leito ; a 3* Faraz Beit, casa do cavallo. Por todos sam 1 50 e os 
mais delles escravos, filhos de gentios Galas e Agous e Cafres, e 
dos outros muyto poucos ha que nam sejam filhos de homens or- 
dinarios, e nam podem passar os de huma casa a outra sem licen^a 
do Emperador, porque isto he subir a maior honrra ; e en cada huma 
esta sna cabe^a que manda aos outros o que ham de facer em seus 
officios e aos que ham de levar fora recados do Emperador, se elle 
nam chama alg^m em particular. Tambem elles vam fora sos, quando 
querem; o que antiguamente nam se permitia, porque nam saiam 
se nam raramente e com gnarda fiel, que os tornava a trager, e 
aviatam grande rigor em isto que (como dicem seus livros), se algum 
saia fora do pa^o a comer ou beber ou a falar, matavam a elle e 
f. 22,v, ao que o combidou. Estes mininos *antiguamente eram trinta todos 
escravos e nam podiam cortar o cabello sem licen^a do Emperador, 
nem se acrecentava a este numero, porque quando metiam piquenos, 
tiravam dos grandes. Agora nam ha numero certo se nam como 
quer o Emperador, e nenhum teve tantos como este e ainda os annos 
passados tinha muytos mais. Porem tirou os de 20 annos e Ihes deo 
terras e cavallos pera que o acampanhasem na guerra. A causa de 
folgar com tanta multidam cuido que he o que elle deo a entender 
falando comigo so sobre huns Grandes, que nam mostravam pera 
suas cousas cora^am tam affecto, porque disse : Padre, os que eu 
criar e honrrar me serviram com bom cora^am; que quanto destcs 
pouco ha que fiar. 

A mais intima camara, como dissemos, se chama casa do Liam, y.Quidinunaqua- 

j , -. . ^ que e tribus Aulis 

porque assi como se tivera por guarda hum ham, nmguem entra agatur. 
nella, estando o Emperador, ainda que seja seu filho, senam aquelle 
que for chamado, o que faz raramente, e assi quando ellc entra na 



56 HISTORIA DE ETHIOPIA 

casa do liam, ninguem chega a porta; so entram os pagens dipu- 
tados pera aquelle retrete. Em a que chamam Zefan Beit, casa do 
leito, porque alli tem sua cama, da audiencia a todos. Mas nam 
em huma so casa tem leito, senam em muytas, porque Ihe servem 
de trono, e assi no nome nam ha distin^am, nem entre os pagens : 
todos estes se chamam Zefan Beit. A que chamam Faraz Beit, casa 
do cavallo, he a de menos honrra e sempre he em baixo, porque 
nella esta poUo menos hum cavallo ; e antiguamente estavam muytos 
e continuamente de dia e de noite aos quartos com freos e selas e 
em os ar^oes capacetes, malhas e espadas. Mas agora nam se usa 
isto, posto que sempre ha algum cavallo, nem os pagens de esta casa 
tem cuidado delle, senam do leito, que alli esta. Por muytas veces 
entra la o Emperador a ver o cavallo e se senta no leito e, se he 
tempo de frio, Ihe facem alli fogo aquelles pagens e o servem no 
demais que he necessario, porque aos pagens da huma nam Ihes he 
licito entrar a servir ao Emperador na outra, nem, ainda quando 
vai fora, querem huns pagens deixar entrar a outros na casa que 
tem a seu cargo. 
8. Antiquitus rc- Com aquelles trinta mininos estava antiguamente o Emperador 

ges Aethiopiae ne- . , 

quibant videri nisi a ^^ ^®^ pago, sem o ver homem nenhum, que nam era piquena pe- 
30 ephebis qui eis in- nitencia; somente entrava o Behet uaded da mao dereita e o da iz- 

serviebant. 

querda, e Acabe E<;:at pera Ihe darem conta das cousas do Imperio 
e saber como queria que se despachasem; e estes tres sos decla- 
ravam sua vontade e determinagam ao povo em tudo o que se of- 
ferecia ; e quando queria facer grande favor a alg^m, que nam avia 
de ser senam cunhado ou jenrro ou outro homem grande, *mandava f 23. 
que o chamasem de noite e, tiradas todas as candeas, falava com 
elle no escuro, e assi o que entrava so ouvia sua voz, sem ver nada; 
e ainda isto se tinha por muyto grande merce, porque raramente se 
facia; e quando Ihe levavam o comer, saiam aquelles pagens ate a 
porta e alli o recebiam, e tudo o que sobeixava das igoarias a que 
elle tocava e do pam que partia o enterravam, que ninguem tinha 
licen^a pcra o poder comer, e, segundo diz seu livro, as igoarias que 
levavam eram 126 e paes mimosos 180 e outros de menos sorte 120: 
de vinho de mel 20 caloes piquenos e grande's] 100. 
g. Sub quibus Im- Estas cousas em parte se foram deixando em tempo do empe- 

peratoribus iUae cae- j-r>..j 1 i-j ■r*_.ii_ rj 

remoniae fuerint rador David (que mandou por embaixador a Portugal hum irade 
sublatae. q^^^ s^ chamava Qaga Za Ab, que quer dicer graga do Padre, e 

depois deixou o nome de David e se chamou Onag Qagued), por 



LIVRO I, CAPITULO IV. 57 

que entam ja entravam mais facilmente e o viam. Depois no tempo 
de seu filho Glaudios, que quando Ihe deram o imperio se chamou 
Atanaf Qagued, se deixou de enterrar o comer e entravam todos 
os Grandes, mas ^ingiam os pannos que traciam vestidos e ficavam 
nus da cinta pera cima dando mostra de sumissam e humildade. 
Este uso se comegou a deixar avera 24 annos, que por ser o em- 
perador Jacob menino, entravam alguns Grandes vestidos, so cin- 
giam o panno que lavavam sobre o vestido em lugar de capa. 
Mas agora todos entram muyto bem vestidos, so Ihes ficou o cingir 
o panno por cortesia ; e por veces tratando disto, me disse este Em- 
perador que Ihe parecia muyto mal o uso antiguo de entrarem no 
pa^o daquella maneira nus e assi ate os pagens escravos manda 
vestir particularmente nas festas de veludo e outras sedas. 

Do que temos dito se vee quam falsa foi a informa^am que em 10. Brrores Urre- 
esta materia deo Joam Balthesar a frey Luis de Urreta, se por ella rcfutwitur. ™* 
escreveo o que diz pag. 11, onde refutando a Francisco Alvares, 
porque em sua Historia Ethiopica disse que os officiaes, que o Em- 
perador tem em sua casa como camareiros, porteiros etc, sam de- 
scendentes dos Judeos que Salomam deo a seu filho Menilehec pera 
estes officios, poe estas palavras. « La verdadera historia es que los 
« cavalleros Abissinos son muy limpios en linage y muy hidalgos sin 
« mezcla de Judios, y los Officiales del Emperador no son judios ni lo 
« fueron jamas, sino los cavalleros mas nobles del imperio porque son 
f. 23»v- « los primogenitos de los Reyes sugetos al imperio, *]os quales nunca 
« fueron Judios ni se tienen por tales. Aquellos Judios, que vinieron a 
« Ethiopia de Hierusalem, vivieron en ella mientras vivio Melilec, que 
« fueron muchos anos en los quales fueron respectados y honrrados de 
« todos. Muerto Melilec o David, le sucedio su unico hijo Josue, que 
« tambien se liamo David y tubo nueve hijos varones. Este como otro 
« Juliano apostata se bolvio a la gentilidad y quiso que tornase la ido- 
« latria en todo su reyno y quitandoles a los tristes Judios el templo 
« que les avia dado en el monte Amara los echaron a todos de todo 
€ el imperio de la Ethiopia, bolviendose los Ethiopes a los ritos y su- 
« persticiones antiguas. Estos miserables Hebreos unos se quedaron 
« en los estremos de la Africa al cabo de Buena Esperan^a y otras 
« ticrras desertas y inhabitables por entonces, otros se bolvieron a 
« Hierusalem y otros por muchas provincias de la Africa ». 

Ate £iqui sam palavras de frey Luis do Urreta e primeiramente, 
como ja adverti, o filho de Saiomam nam se chamava Melilec se- 

C. BiccAKi. Rer» AMih, Script^ occ, imcd, - II . 8 



58 HISTORIA DE ETiriOPIA 

nam Menilehec, e tudo isto escreveo por falta de verdadeira infor- 
magam, por que nunca botaram de Ethiopia aos Judeos, que vieram 
de Hierusalem com Menilehec, antes ate agora sempre esteve cste 
imperio cheio de seus descendentes, vivendo liberamente em seu 
judaismo, ainda que alguns se foram facendo christaos, particular- 
mente do anno de 6i6 a esta parte, por causa do pregam que lan^ou 
o Emperador, como dissemos no cap. i*^, e com tudo isso ficam 
muytos em algumas terras fortes, onde se acolheram e muytos mais 
na provincia de Cemen, onde esta sua principal cabec^a (a quem a 
gente da terra chama Guedon, avendo de dicer Gedeon) e por serem 
serras muyto fortes se defenderam ate agora nellas. 

Quanto aos officiais do Emperador, todos sam christaos, mas 
muytos delles descendentes dos Judeos, que Salomam deo a seu filho 
Menilehec pera estes officios e he cousa esta tam sabida e patente 
em Ethiopia quc preguntando eu pera mais certec^a a alguns grandes 
da corte, se rio muyto hum frade velho meu amigo de que se pusese 
em duvida cousa tam certa, e me disse : Vee aqui V. R. a fuSo e 
a fuao que sam delles, sinalando dous dos que ali estavam. Nem 
me contentei com isto, senam que preguntei tambem ao Emperador, 
e respondeo que era certissimo; e falando particularmente dos que 
a cima nomcamos Azaxoch e Umbaroch, que sam desembargadores 
e ouvidores, disse que em estes officios nam deixavam entrar de 
nenhuma maneira nem ainda os filhos de suas familias, senam os 
filhos que por linea masculina descendem de aquelles *Judeos, que f. 24. 
deo Salomam a seu filho Menilehec pera estes officios, porque di- 
cem que se entrarem nelles os filhos de suas filhas, como ordi- 
nariamente os marido? sam de differentes familias (que nam podem 
casar com parentes dentro do septimo grao, conforme ao costume 
de Ethiopia, ainda que alguns nam o guardam), logo se cortziria a 
linea dereita de aquelles seus antepassados. 
XX. Aliae fictiones Tambem he muyto contrario ao que sempre usaram os Empe- 

Urretae circa officia- 1 _» t\i.i_' • j* r t • j tt 

les domus reeiae. radores de Ethiopia em seu fja^o o que aqui diz frey Luis de Ur- 

reta que se servem dos filhos primogenitos dos Reys sugetos ao 
imperio, o que trata diffusamente no cap. 18, onde entre outras muy- 
tas cousas diz estas : « Quando viene uno destos principes a la corte, 
« em llegando al palacio imperial le salen a recebir dos de los mas 
< antiguos del gran Consejo y lleban a la presencia del Emperador, 
« el qual manda le pongan en la primera camara, una delas cinco 
€ que ay antes del aposento imperial, donde habita de ordinario el 



LIVRO I, CAPITULO IV. 59 

« Emperador. En esta primera camara sirve el primogenitocincoanos, 
« de a la 2*, donde sirve otros cinco, y assi va de una en otra hasta 
« la quinta y postrera camara, donde no todos Uegan, porque su- 
« cede con alguno, que en siendo de 30 anos poco mas o menos 
« darle el Emperador muger, porque no se puede casar sin licencia 
« del Emperador y en casandose lo embia a su reyno, aun siendo 
« vivo el padre, porque en caso que muera el padre, luego corona 
« al primogenito por Rey, y con grande acompanamiento lo embia 
« a governar sus estados. Mas como quiera que vaya, ora sea casado, 
« ora sea a governar por la muerte de su padre, siempre viene en 
« su lugar el hermano menor, si le tiene, y si no, el pariente mas cer- 
« cano acude a servir con tal que sea de estirpe real y en tal caso 
« si este cavallero no es mas que pariente del primogenito, por quien 
« en la corte sirve, solo esta en ella hasta que el otro tenga hijos 
« aptos para cumplir por el ». Todo esto, que el author diz, he 
cousa imaginaria, porque nunca os Emperadores de Ethiopia tive- 
ram este modo de servi^o dentro de seu pa^o, senam o que acima 
dissemos; nem ouve nunca taes filhos de Reys, senam aquelles trinta 
meninos escravos, nem ainda agora que se alargou isto a entrarem 
tambem alguns forros, nam sam filhos de homens grandes; nem ha 
tal distingam de cinco camaras, senam das tres que dissemos, Am- 
ba^a Beit, Zefan Beit, Faraz Beit, scilicet, casa do liam, casa do leito, 
f. 24,v. casa do cavallo. E em estas cousas *nam ha duvida nenhuma, porque 
as soube das principaes cabe^as destes officios e dos mesmos mini- 
nos que eu conhe<;o e vejo os mais dos dias e sei quando trouxeram 
cativos muytos dos que agora estam, e ainda a mi me alcan^ou 
parte, porque de entre elles me deo 120 Emperador em chegando 
antes de se bautizarem. Estes pois sam os primogenitos dos Reys 
sugetos ao imperio que Joam Balthesar fingio, estes os pagens de 
sangiie real que servem ao grande Emperador de Ethiopia, filhos 
de gentios Galas, Agous e Cafres, posto que bem parecidos, e dos 
que nam sam escravos casi nenhum ha que nam seja filho de ho- 
mem muyto ordinario; nam porque, se o Emperador quisera sei»- 
virse de filhos de homens grandes dentro de sua casa, nam folgo- 
ram elles muyto e o tiveram por grande honrra, mas nam quer 
senam correr com o estillo e modo de seus antepassados. 



CAPITULO V. 

Em que se poem dous Catalogos dos Emperadores de 
Ethiopia e se trata dos nomens comuns que tem. 



Em os livros que se guardam na igreja de Aggum e hum que »• Cur luxta Au- 

-rn , c-tA^ A,, -.. ctorcm differant in- 

me emprestou o Emperador Saltan (^agued, de onde tirei o que a ter se duo catalogi 
cima disse da reyna Sabba e Menilehec seu filho, se acham dous i°JP?«torum. Ubri 

•^ ' aethiopici scatent er- 

Catalogos dos Emperadores seus descendentes, muyto difFerentes assi roribus ex amanuen- 

no numero delles como em os nomens; e quanto a hum ser demi- 

nuto, pode ser que seja culpa do que tresladou o livro que deixase 

os nomens que faltam, que, como todos os livros sam de mao, 

achamse nelles muytos erros, nem tem enteiramente os nomens dos 

da familia de hum que se chamava Zague, que tiveram tyrani- 

9ado o imperio 1 43 annos, como consta de hum dos catalogos ; 

mas os que sabem bem das historias me affirmaram que cstava er- 

rado: porque faltavam muytos dos da familia deste Zague e que a 

certa conta destes annos sam 340. Quanto a diflferencia dos nomens 

dos Emperadores, dicem muytos quem vem de que algumas veces 

poem em hum Catalogo os nomens que tinham os Emperadores an- 

tes que o fossem e em outro os nomens que tomaram quando Ihes 

entregaram o imperio ; porque de ordinario mudam o nome a imi- 

tagam (segundo dicem) de Menilehec, a quem chamaram David, 

quando o coroaram em Hierusalem, e ainda alguns mudam o nome 



62 



HISTORIA DE ETHIOPIA 



a. Primus catalo- 
gus qui enumerat 94 
Imperatores. 



duas veces,* como o fez o filho do emperador Naod, a quem 110 
bautismo puseram nome Lebena Denguil, scilicet « encenso da Vir- 
gem :> e, quando Ihe entregaram o imperio, se chamou David, que 
por '^morte de seu pay avia annos que governava a emperatriz Elena; f. 25. 
a qual, como me disseram alguns frades velhos e o emperador Sel- 
tan (^agued, nam era sua may, porque elle era bastardo, e por falta 
de legitimo o ficeram Emperador, e, passados alguns annos, deixou 
o nome de David e se intitulou Onag Qagued. O mesmo fez o que 
agora he, que, tendo por nome do bautismo Suseneos, que dicem 
he de hum martyr, quando o juraram por Emperador, se chamou 
Malac Qagued, e agora se chama Seltan Qagued, que quer dicer 
« o poder adoura » , ou « faz reverencia » . E porque pode ser que 
em alguns livros de Portugal, falando de huns mesmos Empera* 
dores, se achem nomens diiferentes, por causa da diversidade de- 
stes Catalogos, pera que isto nam cause confusam, senam que se 
saiba deonde procede, os porei aqui amos, come^ando poUo que 
conta muytos dos nomens que os Emperadores tinham antes que 
Ihes entregasem o imperio, que diz assi : 

« David rey gerou a Salomam, Salomam gerou a Menileh^c, 
que reinou em Ethiopia na terra de Ag^um, e depois delle reinou 
seu filho Zagdiir e sucessivamente os que se seguem : 



Zabaced. 
Taoace4. 
Aderia. 

Varec^. 

« 

Auceo. 

Maceo. 

Zaiia. 

Bace6. 

Aut6t. 

Baha^a. 

Zaoada. 

Adena. 

Calez. 

Gotolea. 

Zafelea. 

ElguebM. 

Baoaiil. 



Baoar^z. 

Aoena. 

Mahac^. 

Malcu^. 

Bac6n. Aos 8 annos do reyno 

deste naceo Chr.° N. S. 
Zenfa Azgu^d. 
Bahar Azgu^d. 
Guerm^ Caf&r. 
Guerma Azfere. 
Zarad6. 
Cululace6n. 
Zargua^. 
Zarai. 

Zara Azgu^d. 
Ze6n Hagu&z. 
Mala Agnk. 



LIVRO I, CAPITULO V. 



63 



Zaf Arkd. 

Agd6r. 

Abra e Azba irmaos. Estes foram 
muyto amigos e reinaram jun- 
tos, e em seu tempo veio de 
Hierusalem Fremenatos bispo 
e pregou o bautismo e doc- 
trina do s.*° evangelho e cre- 
ram sua doctrina e chamaramo 
Abba Qalama, sc. Padre paci- 
fico. Depois renaram 

Azfk. 

Arftd. 

Amct. Estes eram irmaos e rei- 
naram juntos e repartiam o dia 
em tres partes pera mandar. 
A estes sucederam 

Arad6. 

Aladob&. 

Amiamid. Em o tempo deste vie- 
ram muytos religiosos santos de 
Rum e se repartiram por todo o 
imperio, e nove estiveram no 
reyno de Tigre, onde edificaram 
muytas igrejas, que oje tem os 
nomens que Ihes pus a gente 
da terra a elles. So hum nome 
proprio se conservou, que [he] 
f. 25,T. Pantaliam ; *aos demais chama- 
ram Abba Arogaoi, Abba Gue- 
rima, Abba Alef, ^.ehema, 
Afce, Abba Licanos, Adimata, 
Abba Oz ; depois o chamaram 
Abba Guba sc. « hinchado », 
porque fez huma igreja em hum 
oteiro e estava so, e por isso 
disseram : Que frade he este hin- 
chado que faz igreja so? e ficou 
com este nome Guba. Estes fice- 



ram muytos milagres, com que 
se acabou de converter a gente 
da terra, e entre elles contam 
hum de huma espantosa ser- 
pente, que estava perto da ci- 
dade de Ag^um, a quem da- 
vam cada dia dous carneiros e 
alguns caloes de leite, porque, 
se nam achara isto, vinha aos 
lugares e matava muyta gente. 
Tambem Ihe davam huma don- 
cella em certos dias do anno. 
O que sabendo aquelles reli- 
giosos, o sintiram muyto e hum 
delles foi con muyta gente e, 
chegando a vista da serpente, 
se pus de joelhos com as maos 
alevantadas ao ceo pidindo a 
Nosso Senhor librase aquella 
gente de tam espantoso mon- 
struo, e logo arreventou e ficou 
morta. Do que se maravilha- 
ram muyto todos, e disseram 
que a quelles homens eram 
mandados por Deos pera bem 
de suas almas e corpos, e assi 
os tinham em grande venera- 
Qam e agora honrram como a 
santos, facendolhes grande fe- 
sta em seus dias. Depois de 
Amiamid reinou 

Tacena. 

Calftb. 

Grabra Mazcal. 

Constantin6s. 

Bazgir. 

Azf£. 

Jan Azgu^d. 

Fre^anai. 



64 



HISTORIA DE ETHIOPIA 



Adoraaz. 

Oai^ar. 

Madai. 

Calaud^n. 

Guermli Azfar^. 

Zargaz. 

Degna Michael. 

Badagl^. 

Arma. 

Ezbinani. 

Degnaxan. 

Ambaca Udm. 

Delna6d. 

Depois deste deo Deos seus rey- 
nos a outro povo, que nam era 
da semente de David nem da 
casa de Isrrael, que se chamava 
Zague, e passados muytos an- 
nos, tornou Deos o reyno a os 
de Isrrael e reinou 

IconCl Amllic, sc. « Deus seja com 
elle ». 

Agbace6n. 

Bahar Azg4d. 

Hezb Arad. 

Cadma Azgued. 

Udm Arkd. 



Amd Ce6n. 

Zeifa Arad. 

Udm. 

David. 

Theod6roz. 

Isaac. 

Andreas. . 

Hezb Inanh. 

Amd Jesus. 

Badel Inknh. 

Zara Jacob; este mandou guar- 

dar sabado. 
B6da Mariam. 
£scand6r. 
Amd Ce6n, 
Na6d. 

Onag CaguM. 
Atanlif 9^gu6d. 
Adamas Caguftd. 
Malac 9^guftd. 
Jacob, que depois se chamou Ma- 

lac (^agvihd como seu pay. 
Za Denguil; chamouse Atanaf 9&- 

gu^d. 
Susene6s; chamouse Seltan (^ql- 

gu6d ». 



3. Alter catalogus 



'O catalogo que, segundo dicem, tem comummente os nomens que f. 26. 



qui enumerat 165 ^g Emperadores tomaram, quando Ihes entregaram o imperio, he 

xiiiperatores. 

o siguinte: 

« A reinha Az6b come^ou a reinar em Ag^um aos 37 annos 

do reyno de Saul, e aos 4 annos do reyno de Salomam foi a Hie- 

rusalem e depois que tornou, reinou 25 annos, e o filho que teve 

de Salomam Ebnli Elehaqutm reinou jg annos. 



Handodea i anno. 
Auce6 3. 
Zao6 34. 



Gace6 meio dia. 

Maoat 8 annos e i mes. 

Bahaz 9 annos. 



LIVRO I, CAPITULO V. 



65 



Cauda 2. 

CanAz ic. 

Hadena 9. 

Oezh6 I. 

Hadena 2. 

Calaz 6. 

Cate6 17. 

Filea 27. 

Aguelbii 3. 

Aucinl^ I. 

Zebuo&s 29. 

Maheci i. 

Bacftn 17. Aos 8 annos do reyno 

deste naceo Chr.° N. S. 
Cert6 27. 
Le4z 10. 
MacenAh 7. 
Ceteio 9. 

Adguela 10 e 2 meses. 
Agueba 7 meses. 
Meliz 4 annos. 
Haquel6 13. 
Demahft 10. 
Autftt 2. 
Elauda 30. 
Zegu&n c 
Zarema annos 8. 
Gafal6 i. 
Becft^ar^ 4. 
Dos de Azguagua 77. 
Dos de Herci 21. 
Beec6 ZauefS i. 
Oecana 2 dias. 
HadaCiz 4 meses. 
Dos de Zaguftl 3 annos. 
Dos de Azfah& 14. 
Dos de Zeglib 23. 
Dos de ^amer^ 3. 
Dos de Aiba 17. 



Dos de Escandi 37. 

Dos de Zaham 9. 

Dos de Zan 13. 

Dos de Aig4 18. 

Alamida 30 e 8 meses. 

Dos de Aheyeoa 3 annos. 

Dos de Abraha e 

Azebeh^ « guiadores da clari- 

dade » 27 e 7 meses. 
Azbeha 12 annos. 
Dos de Azfaha 7. 
Dos de (^ahH 14. 
Dos de Adehena 14. 
Dos de R6te i. 
Azfeh^ i. 
Azbah^ 5. 
Dos de Amidli 17. 
Dos de Abraha 7 meses. 
Dos de 9^b£l 2 meses. 
Dos de Gab6z 2 annos. 
Dos de Zehiil i. 
Dos de Izbah 3. 
Dos de Abr6 e 

dos de Adahana juntamente 16. 
Dos de Zaham 28. 
Dos de Amidli 12. 
Dos de Zahftl 2. 
Dos de Zebah 2. 
Dos de Zaham 15. 
Dos de Gab6z 21. 
De Agab6 e de 
Levi juntamente 2. 
Dos de Amida 1 1 . 
De Jacob e de 
David juntamente 3. 
Arma 14, seis meses e 8 dias. 
Zitana 2 annos. 
Jacob 9. 
Constantin6s 28. 



C. Beccari. Rer. Aeik, Script, occ, ined, — 11. 



66 



HISTORIA DE ETHIOPIA 



Gabra Mazcal 14. 

Nacu^. 

Bac&n 17. No terapo deste se fun- 
dou a igreja de Ag^um. 

*Zenfa AzguM. 

Bahdr Azguftd. 

Guerma Azfar&. 

Culule Ce6n. 

Cergai. 

Zerai. 

Begamlii. 

Jan Azguftd. 

Ze6n Hegz. 

Moa^lgueha. 

Zaf Arad. 

Agder. 

Abrah^ e Azbaha irmSlos. 

Azfeh^. 

Arfifed e Amci irmSos. 

Arad. 

Cel Adoba. 

Alamida. 

Amiamid. 

Tacena. 

Calftb. 

Gabra Mazcal. 

Constantin6s. 

Bezgar. 

Azfth. 

Armah. 

Jan Azf^h. 

Jan Azguftd. 

Fre^anai. 

Ader^. 

Ai96r. 

Delna6d. 

Maadai. Depois destes reinou em 
Amhara huma molher de ge- 
ra^am de tredos a quem cha- 



maram E^at^ sc. « fogo » , e no 
reyno de Tigre reinou 40 annos 
otra molher Gudit sc. « mon- 
struosa » e destruio todas as f. 26,v 
igrejas. Depois desta reinou 

Amba^i Udm. 

Huala Udem. 

Guerma Azfarfe. 

Zerg&z. 

Degna Michael. 

Badgaz. 

Armah. Depois deste se cortou a 
linea dereita dos reys de Is- 
rrael e reinou Marari, da fa- 
milha de Zagoc, 15 annos. 

Imrah 40. 

Lalibela 40. 

Nacutolab 40. 

Harbai 8. Estes nam mais estam 
no livro, mas dicem que faltam 
outros muytos dos desta familia 
e que todos reinaram 340 annos. 
Depois tornou Deos o reino aos 
da linea de David, e reinou 

Icillnu Amlac sc. * seja com elle 
Deos >, 15 annos^ 

Agba Ce6n 9. 

Dous seus filhos 3. 

Tres filhos destes 2. 

Udm Eraad 13. 

Amd Ce6n 30. 

Ceif Arad 28. 

Udm Azfar^ 10. 

David 33. 

Tedros 9 meses. 

Isaac com seu fiiho 16 annos. 

HezbnlLnh 4. 

Dous seus filhos i. 

Zara Jacob 34. 



LIVRO I, CAPITULO V, 



67 



Beda Mari4m 10 e 2 meses. 
E^and^r 15 e 6 meses. 
Amd Ce6n 6 meses. 
Na6d 13 annos e 9 meses. 
Lebena Denguil 33 annos. 
Glaude6s 18 e 7 meses. 



Minlis 4 annos. 
Zerza Denguil 33. 
Jacob 10. 
Za Denguil i. 

Seltan CaguM 16 ate este anno 
de 1622 ». 



f. 27. *Ate aqui tirei de seus livros, mas hase de advertir que nam 4* Quacdam adno- 

^Tt-AT^ '^ii_ jt_^- j' tationes Auctoris. 

somente Lebena Denguil he nome de bautismo, como dissemos no q^i^j ^^i patrave- 
principio deste capitulo, mas tambem Glaudeos. Este se chamou "*. ^*'* Jacob, ct 

quid de eo sensertt 

Atanaf Qagiied, quando Ihe entregaram o imperio ; Minas se chamou Susneos. 
Adamas Qagned, Zerza Dengnil se chamou Malac (^agned, Jacob 
tambem Malac Qagued, Za Dengnil Atanaf Qagned. 

Em estes Catalogos se vee quam errados estam os nomens dos 
mais dos Emperadores que referem em suas historias Francisco Al- 
vares e frey Luis de Urreta e outros que escreveram das cousas 
de Ethiopia e, deixando outros muytos, o que Francisco Alvares 
fol. 127 nomea Zeriaco, nam se chama se nam Zara Jacob, scilicet 
€ semente de Jacob », e dicem que, quando Ihe entregaram o imperio, 
se chamou Constantinos. Deste arre^oam muyto mal em Ethiopia e 
affirmam que, tendo elle mandado guardar sabbado, porque hum su- 
perior de Debra Libanos, scilicet Mosteiro do Libano, que era o 
mais insigne que avia em Ethiopia, nam o quis guardar, dicendo 
que era judai^ar, mandou que o matasem a elle e a outros muytos, 
e que tambem mandou matar os oribez e ferreiros, porque decia 
que todos eram feiticeiros e facendo juntar muytosem hum campo, 
os mataram ; e pouco tempo ha que, falando sobre isto o Emperador 
Seltan Qagued diante de mi e de alguns Grandes, disse: Quantos 
males fez Zara Jacob : esta ardendo em os infernos. Respondeo hum 
frade velho: Nam diga V. Magestade isso; que era Rey ungido. 
Disse o Emperador: Por bentura, porque seja Rey ungido, nam 
pode estar no inferno? As obras sam as que o ham de salvar ou 
condenar. E mandando tracer hum livro me disse: Se V. R. quer 
ver este livro, achara as cousas de Zara Jacob. Tomei eu o livro 
e onde come^ava a falar delle decia desta maneira: 

€ Em tempo de nosso Rey Zara Jacob ouve grande temor e 5. Severitaa immo 

Ct ClTUdcli^&S ^stvst 

« espanto em todo o povo de Ethiopia, poUo rigor de sua justi^a jacobiuxtalibrosae- 
« e de sua forija, principalmente contra aquelles que adoravam idolos, ^l^iopicos. 
« e quando alguns vinham a dicer que outros os tinham adourado, 



68 HISTORTA DE ETHIOPIA 

« nam Ihes dava outro juramento mais que dicer: O sangue daquelles 
« venha sobre vosotros, e com isto mandava matar aquelles contra 
« quem testimunhavam, poUo zelo que tinha da honrra de Deos. 
« Ate a seus filhos nam perdoou: matou a Glaodeos, Amd Mariam, 
« Zara Abreiham, Betra Ceon *e suas filhas Delcemara, Erongece- f. 27,v. 
« nela, Adelmengue<;a e outras muytas; entam mandou lan^ar pre- 
« gam dicendo: OuQa o povo christao o que fez o Diabo. Mandamos 
« que o povo nam adorase idolos, e elle entrou em nossa casa e 
« fez errar nossos filhos; e mostrou a todos as feridas dos a^oites 
« que Ihes tinha dado em castigo, e eram tam grandes que huns 
« morreram alli logo e outros pouco depois. O que vendo o povo, 
« fez grande pranto. Depois mandou que todos escrevesem na testa : 
« Za Ab oa Uald, oa Manfaz queduz ; que quer dicer : * do Padre e do 
« Filho e do Santo Spirito ' ; e no bra^o dereito : Quehed que uo la 
« Diabolos Regum Ana Guebra la Mariam einula fetare culu Alem, 
« que quer dicer: * Neguei ao Diabo maldito eu escravo de Maria 
« may do Criador de todo o mundo \ E no bra^o izquerdo: Quehed 
« que u6 la Diabolos Dezcbac, o aba Christos amalec; scilicet: 'Neguei 
« ao Diabo sujo e vSo, e a Christo adouro*. E mandou por todo seu 
« imperio que a quem nam ficesse isto Ihe tomassem seu fato e o 
« matasem » . E pouco mais adiante diz o livro que, se algum dos 
pagens do pa(;o (que, como dissemos no cap. precedente, eram trinta 
todos escravos) saia fora a comer, ou a beber, ou a falar, o matavam 
juntamente com quem o lebou e quem o convidou; e a huma sua 
molher, que se chamava Ceon mogue^a, por arrecear que alevan- 
tase a seu filho Beda Mariam, Ihe mandou dar tantas pancadas e 
tormentos que morreo e a enterraram secretamente, mas comtudo 
o soube seu filho e lebou a igreja encenso e candeas. O que ou- 
vindo Zara Jacob seu pay, o mandou prender e esteve pera o matar. 
6. Refeninmr alia Outras muytas cousas de grande rigor conta este livro, que deixo 

gesta Zara Jacob ex -j tx- • ^- t_ i. • t_ 

iisdem libris. po^ nam ser cumprido. Diz mais que tmha hum cammho com cerca 

de huma e outra vanda do pa^o ate a igreja, por onde hia sem que 
ninguem o vise e na igreja nam entravam mais que os superiores 
de alguns mosteiros grandes, pera cantar, e quando queria entrar na 
capella pera comungar, saiam todos, sem ficar mais que Acabe Egat 
e outros quatro sacerdotes, e quando hia a igreja e quando tor- 
nava, tinha cuidado hum dos pagens de dar desde dentro sinal com 
a mao aos musicos que esperavam fora com muytos instrumentos 
pera que tangesem e ficesem festa, e em huma das casas que tinha 



LIVRO r, CAPITULO V. 69 

dentro de sua cerca estavam muitos sacerdotes cantando psalmos 
f. 28. *de David aos quartos, sem cesar de dia nem de noite, e botavam 
continuamente agoa benta em as paredes por lavanda de dentro da 
casa, porque os feiticeiros Ihe faciam feitigos com embeja de 
sua fe. Mandou tambem facer perto da igreja hum lugar cercado, 
e que o enchesem de agoa, e alli se bautizou muytos annos ate 
que morreo, e ordenou que perto de todas as igrejas ficesem tan- 
ques, em que se bautizasem, e que todos guardasem sempre sab- 
bado asi como domingo; porque seus capitaes tiveram em sab- 
bado victoria de hum seu enemigo, que se chamava Bedelai Aure. 
Ate aqui sam palavras de aquelle livro ; mas no que diz que 
matou seus filhos, porque adoravam idolos, nam Ihe da credito o 
emperador Seltan Qagued, porque estando eu falando com elle 
sobre isso, me disse: Quem sabe se os mandou matar, por outra 
cousa [?]. Era muyto forte homem : ainda a Beda Mariam queria 
matar com nam Ihe ficar outro filho. 

Demais dos nomes proprios, que os Emperadores tem em estes 7. Alia nomina 
Catalogos, Ihes dam outros gerais, como em os demais reynos se pUe^o^ntu/^sciL 
acustuma com todos os Reys. O primeiro he Neguz, que quer dicer NegAxetNegii^ANa- 

g&zt zsL Ethiopia, 

Rey, e deste so dicem que pode usar em quanto nam se coroa; Acegu6, Jan C6i, 

depoisse intitula Negu^a Nagazt za Ethiopia sc. « Rey dos Reys de cdifjAn^SAl^pHl 

Ethiopia » , isto he Emperador de Ethiopia. Mas isto nam se guarda, cantur. 

porque eu conheci al rey Jacob e al rey Za Denguil, que morre- 

ram antes de se coroarem, e com tudo isso punham em suas cartas 

Negu^a Nagazt, Emperador. Tambem o chamam Acegue. A signi- 

fica^am deste nome preguntei a muytos, e huns disseram que que- 

ria dicer « Rey », outros que nam, senam « cousa de grande^a ». 

Parece que corresponde a Magestade, e deste nome usam mais co- 

mummente todos; particularmente quando falam com elle, ou com 

outros diante delle, nam dicem Neguz, senam : Acegue mandou tal 

cousa, como se dissera: V. Magestade ou sua Magestade mandou. 

A gente ordinaria, que nam pode chegar ao Emperador, grita de 

longe cada hum em sua Hngoa, pera ser conhecido, e logo o Em- 

perador manda preguntar por algum pagem, ou homem grande, o 

que querem e os despacha; mas nam dicem Neguz nem Acegue, 

que entam nam cavem estas palavras. Os Portugueses dicem: Se- 

nhor, Senhor ; os Gongas christaos dicem : Donzo, Donzo, scilicet : 

Senhor, Senhor; os Agous dicem: Jadara, Jadara, que he o mesmo; 

os Mouros: Cidi, Cidi: senhor meu, senhor meu; e outros conforme 



72 HISTORIA DE ETHIOPIA 

na capella da igreja a ouvir Missa *e comungar, porque os que f. 29,v. 
nam tem ordens nam podem entrar la, nem passar de humas cor- 
tinas. que tem diante em algumas igrejas que ha cumpridas e nas 
demais que sam redondas nam entram dentro, todos ficam no alpendre 
que tem a roda e alli Ihes tracem a comunham. 
xo. Ezquiriturori- Quanto a a causa porque em Europa chamaram Preste Joam ao 

go appellatioziis 

prcsbyteri loannis. Emperador de Ethiopia pode ser que fosse porque, como ordina- 
Error philoldgicus. riamente he diacono, alguns Gregos o chamariam Presbitero, e de- 

pois ajuntando o nome Jan, que (como ja dissemos) Ihe dam ao Em- 
perador, viriam a dicer Preste Jan, e os estrangeiros, que muytas 
veces corrompem os nomens, acomodandoos a suas lingoas, o cha- 
mariam Preste Joam. Este nome Jan he muyto antiguo em Ethiopia, 
porque, pera nomear alguns dos officiaes que tinha e tem agora o 
Emperador dos descendentes daquelles que deo Salomam a seu filho 
Menilehec, sempre usam delle, dicendo taes Officiaes de Jan, em 
lugar de dicer taes Officiaes do Emperador, como vimos no capi- 
tulo 4, onde se nomeam; e assi ao que era como estribeiro mor 
deciam Jan Beleu, « estribeiro de Jan », scilicet do Emperador, e 
ainda agora ao que he orivez e ao armeiro do Emperador chamam 
Jan Xalami, « ornador de Jan », scilicet do Emperador. 
IX. Error histori- Tambem pode ser e tenho por causa muyto provavel que cha- 

cus. 

masem em Europa Preste Joam a este Emperador de Ethiopia pella 
re^am que da o padre frey Thomas de Padilha em o prologo que 
acrecentou a Historia Ethiopica de Francisco Alvares, quando a tre- 
sladou de portugues em castelhano; onde diz que tendo noticia el 
rey dom Joam o 2° de Portugal, que em Oriente avia hum Rey 
christao muy poderoso que, demais de ser rey, era tambem sacer- 
dote dos christaos a elle sugetos, a quem chamavam seus vassallos 
Preste Joam; e mandando dous portugueses Pcro de Covilham e 
Afonso de Paiva polla via do Cairo o anno de 1487, pera que se 
informasem se era possivel que suas naos pudesem ir do Cabo de 
Boa Esperan^a (que ja era descuberto) ate a India, onde se achava 
a especieria que levavam pollo Mar Roxo a Egypto, e que procu- 
rasem saber muyto de proposito onde eram os reynos do Preste 
Joam tam nomeado ; e assi, indo elles ao Cairo e entrando poUo 
Mar Roxo, se afastaram e Pero de Covilham foi pera India a se 
informar da navegac^am e especierias que tinha, e Afonso de Paiva 
a Ethiopia, onde, como Ihes tinham certificado, todos eram christaos 
e tinham Emperador muy poderoso, pera ver sc era cste o Preste 



I 

l 



LIVRO I, CAPITULO III. 73 

f jo. Joam que buscavam, concertando de se tornarem a juntar *em o 
Cairo em certo tempo. Mas tornando Pero de Covilham ao lugar 
sinalado, soube que era falecido seu companheiro Afonso de Paiva 
e achando cartas de seu Rey, em que Ihes mandava que com toda 
prestega desem fim ao come^ado, e que tendo nova do Preste Joam, 
procurasem levarlhe huma Carta que Ihe escrivia e visitalo de sua 
parte, pidendolhe toda amizade, como entre dous Principes christaos 
se requer; respondeo dando conta do que na India tinha visto e 
que era certa a navega^am pera ella pello Cabo de Boa Esperanga 
e juntamente que em Ethiopia avia hum Emperador christao, o qual 
cuidava que era o Preste Joam que S. A. Ihe mandava buscar; 
pollo que, jaque seu companheiro era morto, elle iria a dar a em- 
baixada, que Ihe mandava. 

Quando chegaram estas novas «il rey dom Joam, se alegrou 
nmyto, como era regam.e com ellas se pubricou em Espanha que 
o Preste Joam reinava em Ethiopia, e por esta causa ficou sempre 
o Emperador de Ethiopia com nome de Preste Joao, nam o sendo, 
senam o Emperador do Catayo ; e pera isto cita a Marco Paulo e 
outros e frey Luis de Urreta cap. 7 de sua Flistoria traz a Jaccbo 
Nabarcho e a Gerardo mercator e outros muytos em confirma^am 
da mesma opiniam. O certo he que em os livros de Ethiopia nam 
se acha feita mengam deste nome Preste Joam, porque algum dos 
letrados a quem preg^ntei ouvera de saber dar re^am delle. 



C. Bbccaxi. Rtr. Atik, Scripi, occ, ined, — II. xo 



ik 



r 



CAPITULO VI. 

De Guix6n Amb& onde se guardam os descendentes 

dos Bmperadores antiguos. 



Sam tantas e tam grandes as maravilhas, que frey Luis de Ur- i. Auctor descri- 
reta conta no capitulo 8 deste Guixen Amba, a que chama monte relationibus trium 
de Amara, que com estar bem lonee deste reyno de Dambia, onde *f«tiuin de visu fide 

^ o -^ dignonim. 

de ordinario resido, desejei muyto ir la, e o ouvera de facer, ainda 
que o caminho he trabalhoso, se o perigo dos ladroes nam fora 
tam grande, por causa dos Galas, que por aquella parte facem 
guerra ; nam porque nam saiba muyto bem quam fabulosa seja a 
informagam que sobre isto elle teve, senam pera poder falar de vista. 
Mas tudo o que sobre esta materia diser, sera por rela<;am de dous de 
aquelles descendentes dos Emperadores que se chamam Abeitahum 
f. 3o,v. Memeno e Abeitahum *Taquela Haimanot, que estiveram la muyto 
tempo e agora residem na corte e de outro muyto meu amigo, que 
se chama Abeitahum Orco, que de presente esta na mesma forta- 
le^a, mas vem algnmas veces a corte com licenga do Emperador, 
porque nam se arrecea delle e de outros que la entraram e sabem 
as cousas que ha. Mas pera que milhor se entenda o nome desta for- 
tale^a, se ha de advertir, que na lingoa de Ethiopia todo monte e 
rocha, en cujo cume se pode defender a gente de seus cnemigos, 
se chama Amba; e destas ha muytas e muyto fortes em Ethiopia; 



76 HISTORIA DE ETHIOPIA 

por onde o nome proprio daquelle lugar, onde se g^ardam os de- 
scendentes dos Emperadores antiguos, nam he Amba, que em geral 
pertence a todos os lugares fortes, senam Guixen, que quer dicer 
« a chouse [sic] ». 

Suposto isto, referirei primeiramente o que diz frey Luis no 
lugar citado, onde descreve esta fortalec^a, antepondoa a todas as 
mais fortes do mundo, com tantos encarecimentos, como se a na- 
turega de todo ponto se esmerara nella, querendo tirar a luz huma 
cousa em grande maneira prodigiosa em fertilidade, bele(ja e fer- 
mosura, pera dar mostra ao mundo de seu grande primor e per- 
fei^am. E porque nam aja quem cuide que Ihe acrecentei palavras, 
referirei as proprias suas, que sam estas. 
a. Commenta risu « Todas estas rocas y montes » (tinha falado de humas pedras 

digna Urretae circa * , , v 

Guizto AmbA. ^^^^ parecem mespugnaveis que tomou Alexandre magno) « y quantas 

« tiene el mundo pueden callar y cessara la admiracion, si se ponen 
« em paralelo y cotejo con el famoso monte de Amara, que esta 
« en la Ethiopia, donde estan guardados los Principes del imperio ; 
« porque aquellos montes de la India, aunque al parecer inexpu- 
« gnables y fuertes, alfin fueron entrados, escalada sua altura, ben- 
« cidas las difficultades y rendidos al poder de Alexandre. Mas la 
« fortale^a del monte Amara es tal que de ning^na de las suertes 
« dichas ay orden para poderla entrar. Es una fortele<;a tan pro- 
« digiosa que parece que la naturale^a se esmero en formarla y 
« descubrir al mundo un lugar fuerte sin ayuda de ingenio humano ; 
« y no solo es lugar defendido, pero es uno de los puestos mas 
« regalados de mayor comodidad y deporte, que tiene el mundo 
« universo ; y es esto en tanto estremo que Philon Judio dice que, 
« si ay parayso terrenal, esta en este monte, y por ser tan pere- 
« grino y singular que en fortale^a es la mayor y mas inespugnable 
« que ha tenido ni tiene el universo; y entre todos los *jardines f. 31. 
« floridos, huertas deleitosas y amenos vergeles, es el esmero de 
« todos ellos, enfin parayso. Han tratado del y hecho mencion en 
« sus escritos asi historiadores hebreos, latinos, griegos, como turcos 
« y arabios » . 

Pouco mais adiante diz assi : « Esta el monte de Amara asen- 
« tado en medio de la Ethiopia como centro de todo el imperio de los 
« Abissinos, baxo de la linea equinocial. Plantole la naturale^a em 
« una campafia tan llana, en unos llanos tan iguales y prolongados 
« y en una tierra tan estendida, desocupada y descubierta, que no 



1r 



LIVRO I, CAPITULO VI. 77 

s se halla monte ni altura, por mas de 30 legnas al rededor del, 
« qiie le enoge ni le haga padrastro. Esta superior y a cavallero 
« de todo el campo ; su figfur? es redonda y circular y assi con fa- 
« cilidad se acude a qualquier parte del. Sua altura es tan grande 
« que ay cerca de un dia de subida desde el pie del a lo alto ; todo 
« a la redonda es peiia tajada de alto a bajo tan lisa y igual, que 
« no parece sino que se higo a mano con cartabon y plana, sin 
« que aya peiiascos ni riscos sobresalientes y desiguales, sino que 
« es a manera de un muro tan alto que puesto al pie del buela tanto 
« que parece que el cielo se arrodriga sobre el, y que le sirve de rafa 
« y estribo. A lo alto de todo aquel muro de pefia tajada rebuelven 
« las peiias y las rocas saliendo fuera del muro por espacio de mil 
« passos, y van haciendo un labio y arandela de la propria figura de 
« un hongo : obra rara de nutarele^a y tan singular que no se halla 
« otra en el mundo, por lo qual queda imposibilitada la subida por de 
« fuera, y assi no ay que temer ser escalados, y como es tan alto no se 
« le pueden hacer terraplenos, ni rebelines que se igualen. De cir- 
« cuito tendra mas de 20 leguas a la redonda. Esta cercado por lo 
« alto con un muro muy gracioso y bien labrado, porque no caigan 
« las fieras y animales de caga que ay en el, ni hombres, que solo 
« para este fin se ha hecho, y no por defensa ; porque para ella no 
« ay necessidad, pues no ay arcabuz ni mosquete que llegue a lo alto 
« del monte. La cumbre y campo, que esta en cima deste monte, es 
« todo muy Uano y igual ; hacia el medio dia se levanta mansa- 
« mente un coUado que hermosea todo aquel campo y sirve como 
« de atalaya de donde go^a la vista humana de los lejos mas apa- 
« cibles que se pueden imaginar. De aquel coUado mana una fuente 
f. 3^v- « perenne, abundantissima y clara con *tanta agua que con varias 
« acequias corre todo el campo regando los jardines y frutificando 
« la tierra, y alfin despefiandose de lo alto del monte. Al pie del 
« hace un pequeno estanque y laguna, de la qual sale un rio que 
« viene a dar en el Nillo. 

« Para subir a lo alto no ay senda ni camino por ninguna parte, 
« que en esto se engaiio Francisco Alvarez, porque esta como una 
« torre derecha, y por esso lo han minado y socobado por dentro 
« de la peiia viva, haciendo una escalera a fuer^a de picos, alma- 
« danas y escodas, la qual es un caracol sin escalones, ni gradas, 
« sino que va poco a poco encaramandose, tan ancho, tan abierto 
« y bien labrado que se sube a cavallo con mucha facilidad; y 



78 HISTORIA DE ETHIOPIA 

« para la luz desta escalera ay hechas sus saeteras y claraboyas 
« anchas por de fuera y por de dentro y angostas en el medio, muy 
largas y rasgadas de la suerte y tra<;a que esta la escalera de 
la torre mayor de la ciudad de Sevilla. Al pie desta escalera ay 
« uqa puerta muy hermosa pero fortissima con su cuerpo de gnardia 
« y por el discurso della ay sus mesas y rellanos que sirven de 
« descanso. En la mitad de la escalera ay una sala grande y espa- 
« ciosa, cortada y labrada de la misma pena, con tres ventanas, 
<t y llamolas assi, porque quanto mas sube la escalera tanto son 
« mayores las ventanas. Aqui tambien ay su guarda. Es la esca- 
'i lera de alto, quiero decir la techumbre del suelo, mas de lan^a 
« y media, y desta suerte sube hasta lo alto del monte, donde ay 
« tambien su puerta y guarda. 

« El ayre que corre en lo alto deste monte es tan delicado, 
« puro y saludable, que jamas se apesta ni contamina y assi de or- 
« dinario viven los que en el moran larguissimas vidas y muy aben- 
« tasjadas y unas vegeces muy sanas y enteras, sin las enferme- 
« dades y achaques que suelen acompaiiarlas. En lo alto no ay ciu- 
« dad ni lugar ninguno, solo muchos palacios reales, cada uno de por 
« si, que son 34 y son como unos grandes alca^ares, unos edificios 
« sumptuosos, altos, apuestos, hermosos y muy capaces, donde residen 
« con su gente y criados los Principes del imperio ; la demas gente, 
t que son soldados y guarda del monte, habitan en tiendas y pa- 
« vellones. Ay dos templos tan antiquos que se edificaron antes 
X de la reyna Saba en honrra del sol el uno, y el otro en honrra 
« de la luna, los mas sumptuosos y magnificos que ay en toda la 
« Ethiopia, los quales templos, quando la reyna Candace se con- 
X virtio a la predicacion *del eunucho y se bautizo, los consagro f. 32. 
en honrra del S. Spirito y de la Cruz. Consagrolos tambien de- 
spues el grorioso apostol y evangelista s. Matteo, quando fue a 
predicar a la Ethiopia, la qual tierra le cayo en suerte, con la 
misma advocacion. Ay en este monte muchos jardines vellos» 
huertas de mucha frescura, regalo y curiosidad, Uenas y pobla- 
das de toda suerte de arvoles fructiferos assi proprios de la 
tierra como traidos de la Europa; perales, camuesos, y otros mu- 
chos. Ay todo genero de agrura, naranjas, cidras, ponciles, limas y 
las demas. Ay jardineros que tienen cuidado de hacer sus encafiados 
y quarteles llenos de jocunda verdura. Hallanse en este monte ar- 
boles tan raros y peregrinos que no se hallan en ninguna parte del 



/ 



I 



LIVRO I, CAPITULO IV. 79 

« mundo. Uno dellos es el qiie Uaman Cubayo : su fruta es en el color 
« y tamano como un membrillo y tan blando, quando esta maduro 
« como una serva, la cascara amarilla, la carne de dentro blanca de 
« tanta dul^ura y suavidad que no parece sino manjar blanco muy bien 
« hecho. A este fruto le chupan como quien come servas muy ma- 
« duras Es la comida mas subtancial y saludable que se halla entre 
« todas las frutas del mundo, de la qual dixo el gran medico Amato 
« lusitano, que no ay comida que assi conserve la salud y conforte 
« y ayude la naturalega del hombie, y que no se espanta que vivan 
« tanto los que residen en aquel monte, porque se sustentan desta 
« fruta. Y sin este arbol ay otros muchos, que solo se hallan en este 
« monte, en particular balsamos que son muchos. 

« Ay fuentes artificiales de mucha labor y artificio con muchos 
« canos, cuyas aguas vienen a parar en muchos estanques grandes 
« y pequeiios, abundantissimos de mil suertes de pe^es para gusto 
« y entre[te]nimiento de aquellos illustres principes. Y como de las 
« frutas ay algunas que solo en esto monte se hallan, assi ay aves 
€ tan singulcu^es que solo viven y andan en este monte, sin jamas 

* averlas visto en otro lugar del mundo. Uno como un cario, cuyo 
« canto es suavissimo y su musica tan regalada que parece que 
« transporta. Ay otro paxaro del tamafio de un tordo de cuello 
« levantado y erguido; sus plumas de varios y hermosos colores, 
« con cresta y barbas como gallo, de la cresta se levantan cinco 

f. 32,v. « o seis plumas grandecitas como ^gar^otas mati^adas de varios co- 
« lores tan hermosos, y toda la pluma tan bella, que el Emperador 
« de la Ethiopia las presenta como un precioso don a otros Reyes. 
« Ay tambien muchas dehesas selvas y hervages, donde pasta 
« mucho ganado de toda suerte, grande y pequeiio, para sustento 
€ de los del monte bastante y muy sobrado y por los baldios y tierra 
« montada anda mucha ca^a de toda suerte, gamos, cor^os, ciervos, 
« cabras monteses, javalies, que los tienen alli encerrados como en 
« soto y para todo ay bastante lugar, porque, como tengo dicho, 

* tiene el campo 20 leguas de circunferencia y rodeo. En fin ay 
« en cima del monte muchas florestas llenas de diversas ca^as para 

< todo genero de monteria para su entretenimiento y para todo tie- 
« nen aparejo de perros ventores, lebreles, y sabuesos, cogiendo 

< perdices a cevadero o bebedero con redes, con la^os o con per- 
A digon de reclamo. No ay animales pon^onosos, ni bestias fieras, 
« sino solo animales de caga para deporte y recreacion. Tambien 



8o HISTORIA DE ETHIOPIA 

« ay mucha tierra desmontada para sembrados de todo genero de 
« grano y legumbre, la qual es tierra fructifera y de buen llebar. 
« Finalmente este monte es un lugar de tanto regalo y delicias, que 
« no me admiro que los doctores le llamen parayso, porque le con- 
« viene y entalla este nombre muy al justo y al natural ». 

Prosiguindo isto traz muytas regoes pera provar como Ihe con- 
vem ao justo este nome de parayso e conclue o capitulo dicendo: 
« Esto se avera en el monte Amara, porque todo el ario ay fruta 
« cogida del arvol fresca, higos, melones recien cogidos, havas y 
« garban^os verdes todo el afio los ay, y en el se hacen tres se- 
« menteras. La raijon es porque es continuo un tiempo como el otono 
« o primavera; y ay arboles que dos y tres veces al aiio producen 
« fruto, la mitad del arbol el medio ano y la otra mitad el otro 
« medio aiio, porque quando el sol camina y buelve de tropico de 
« Capricomio, la parte del arbol, que mira al sur y medio dia, pro- 
« duce y esta llena de fruta, quedando el otro medio como si fuera 
« invierno ; y quando el sol anda hacia el tropico de Cancro, la otra 
« mitad, que esta hacia el norte y pollo artico, produce fruto, que- 
« dando la otra mitad deshojada y como seca; y quando el sol 
« esta en la equinocial, la copa del arbol tiene fruta, quedando las 
« otras ramas que estan a los lados, y las baxas *sin fruto ni hojas, f. 35, 
« de suerte que todo el aiio por diciembrc, por mar^o, por junio, 
« por setiembre ay fruta en los arboles, sucediendo unas ramas a 
« otras y unos frutos a otros. De donde se infiere que a este monte, 
« por su fertilidad y regalo, le podriamos dar nombre de parayso ». 
3. Auctor deacri- Ate aqui sam palavras de frey Luis de Urreta, nam continuadas 

bA Guij^n^^pauperes ^^^^ ^^^^ ^^^ tiene, porque em algumas partes ficam cumpridas di- 

casas et duas eccle- gressoes, que faz, e so tomei o que referi do que elle chama monte 

siaSy quae in eius 

cacumine inveniun- Amara, que he Guixen Amba. Mas quam apocrifa e fabulosa seja 

*^'' a informa^am, que sobre esta materia teve, se vera claramente poUo 

que agora direi, nao saindo hum ponto do que me affirmaram os 

Principes que acima nomeei, e outros homens de muyto credito, que 

viram esta fortale^a. Digo pois que entrc as Ambas, que ha em 

Ethiopia, nam menos fortes que Guixen Amba, esta tem muyto 

grande nome por sua fortale^a e por se guardar em ella os descen- 

dentes dos Emperadores antiguos, a quem pertence o imperio, fal- 

tando herdeiro ao que o tem, como adiante declararemos. Esta no 

limite de hum reyno que chamam Amhara, que antiguamente era 

casi o meio do imperio, mas agora he casi o estremo pera a vanda 



r 



LIVRO I, CAPITULO VI. 8l 

do sul ; porque huns gentios que se chamam Galas foram tomando 
por aquella parte muyto grandes tcrras poucos tempos ha, por esta- 
rem os Emperadores ocupados em guerras com seus proprios ca- 
pitaes, que se tinham alevantado no reyno de Tigre, em Dambia 
e outras partes. O asento desta amba he em huns campos nao 
muyto chaos, porque tem muytos altos e baixos, e pera oriente como 
dous tiros de espingarda huns montes muyto altos, que se chamam 
Habela e outros mais afastados, que se chamam Acel Amba; pera 
as outras vandas nam ha montes senam muyto longe. Sua figura he 
casi como cruz e a cima tera de cumprido meia legoa pouco mais 
ou menos, mas poUo pe tem muyto grande roda. A altura he tam 
grande que com difficultade chegara funda: toda rocha talhada e 
por algumas partes em o alto vira a mesma pedra pera fora, de 
maneira que por alli he impossivel subirse, mas por outra parte 
subiram antiguamente, como diremos adiante. Nam tem mais que 
huma entrada, que se chama Macaraquer, e em baixo no prin- 
cipio o camino he largo e eissi vai subindo hum pouco ate chegar 
f. 33,v. a hum tavoleiro *piqueno e dalli por diante tam estreito e ingreme 
que nam se pode subir sem muyto trabalho, e cissi quando querem 
levar alguma vaca pera matar la cima, que poucas veces o facem, 
porque as matam em baixo, a amarram com cordas e a levam re- 
stando casi em peso. Em o alto esta huma porta e casa, em que 
moram as g^ardas: dentro ha muytas humas como salas cumpridas 
e largas, outras redondas, mas todas terreas e pobres cubertas de 
palha; no meio esta hum tanque grande de agoa doce, onde labam 
os pannos e hum pouco afastado outro piqueno, de que bebem, e 
segundo alguns dicem, he agoa que nace alli, meis nam corre, nem 
ha outra nehuma la cima, nem peixe. Perto do tanque grande, casi 
pera o leste, se vai alevantando hum pouco mais a terra e faz como 
hum oteiro piqueno, em que estam edificadas duas igrejas cubertas 
de palha; huma se chama Egziabeher Ab, scilicet « Deos Padre > e 
esta he de madeira , a outra he de Nossa Senhora, e hc de pedra 
muyto boa e esta pera o sul; a outra casi pcra o norte; do que 
trataremos no capitulo siguinte. Perto dellas pera huma vanda mo- 
ram os frades e os debteras, que sam como conigos, mas casados ; 
e pera outra parte os que decendem dos Emperadores antiguos, com 
suas molheres e filhos, a quem chaniam Isrraelitas. 

Em toda esta Amba nam ha arvore nenhuma de fruto, so huma 4. Arborespaucae, 

_^ ■, >s j j_ .r-e fructiferis nuUae, 

sorte que chamam C090, e nam se dam se nam em terra muyto tria. y^g^ mcdicinalis. E 

C. Bbccari. /ier. Aeih, Script, occ, tued, — II. zi 



82 HISTORIA DE ETHIOPIA 

leguminibus crescit Sam arvores ordinariamente nam demasiado altas, de muytos ramos 

solum hordeum et - j r ii_ 'j _^ i i 

f^^ e bem copados ; a folha cumprida e nam mu^rto larga e com alg^m 

cavelinho branco no pe. Seu fruto nam ha a que o comparar em 
Portugal, mas quer se parecer com a espiga de laba^a, porem 
muyto meds cumprida e grossa. Sua amargura he tam extraordi- 
naria, que excede muyto a da alozna; e com tudo isso cada dous 
meses o bebem todos desfeito em agoa pera huma grave doen^a, 
que geralmente tem os naturaes de Ethiopia, que sam huns bi- 
chos como lombrigas, mas muyto cumpridos, que Ihes criam no esto- 
mago, parece que da came crua que comem, porque os estrangeiros 
nam tem tal cousa e he tam forte micinha que alguns morrem 
della em poucos dias botando sang^e por la boca ; mas, se nam a 
tomam ao tempo que disse, ficam muyto magros e Ihes vem a sair 
aquelles bichos pollas narices. Outras arvores ha que chamam Ze- 
guebas *muyto altas, mas nam dam fruto; he madeira branca e boa f. 34. 
pera edificios. Tambem ha cedros, nam como os de Espanha, se- 
nam silvestres de pouca copa e muyto altos, e de todas estas ar- 
vores poucas, porque o campo he piqueno. Semeam tambem alguma 
cevada e favas huma so vez no anno e a fora isto nam ha la outra 
sementeira nem arvore nenhuma, mas por algumas daquellas vai 
subindo huma cousa como jazmim, que chamam endod; seu fruto 
he como cachinlios de pimenta e servelhes de savam pera labar os 
pannos de algodam. 

5. Ex animalibus Animaes sylvestres nam ha nenhuns mais que bugios e coe- 

sylvestribus solum- 

modo simiae, ser- Ihos, e nam tem as orelhas cumpridas como os de Espanha, e os 
pentes et cuniculi : e dedos dos pcs e maos tambem differentes. Dos domesticos ha car- 

domesticis oves et ^ 

caprac. neiros e cabras poucas. por nam haver campo onde comam. Alguns 

bois levam a cima com cordas pera lavrar a terra onde semeam 
aquella pouca de cevada e favas que disse e depois os facem de- 
cer com as mesmas cordas, por tercm la pouca herva que Ihes dar, 
que ca nam comem farinha nem mantimento, senam so herva ou 
palha do campo seca ou de huma cousa muyto miuda mais que mo- 
starda, que semeam e chamam tef. Nam ha mulas, nem cavallos, 
nem outros animais a fora destes e algumas cobras pe^onhentas. 

6. Unde explodi- Esta he toda aquella grande multidam e variedade de animaes, 

tur fabulosa descri- i-t-jtt. t ^ 1 ^ j 

ptio Urretae. ^^^ ^^^Y L^is de Urreta poem sobre esta pedra ; estas sam as de- 

fesas, as florestas e praderias cheias de diversas sortes de caga pera 
todo genero de montaria e entretenimento ; este aquelle esmero de 
todos os jardins floridos ; estas sam as fontes artificiaes de grande 




kt 



LIVRO I, CAPITULO VI. 83 

labor com muytos canos e palhas de agoa agradeveis a vista ; esta 
he aquella fonte christalina que sae do oteiro e rega todo este pa- 
rayso ; os dous tanques que disse, cuja agoa de nenhuma maneira 
corre. Quanto a arvore da vida, que poe em este parayso, cuja fruta 
he de tanta do^ura e suavidade como a do manjar branco muyto 
bem feito e ajuda de maneira a naturecja do homem, que os que 
a comem vivem muytos annos sem as doen^as e achaques que acom- 
panham a velhicie, sera a que chamam C096, porque os que la 
moraram muytos annos dicem que nam [ha] alli outra que de fruito ; 
mas enganouse no que diz da docjura, porque nam ha cousa mais amar- 
gosa no mundo, e posto que, como ja disse, a tomem por micinha, 
f. 34»v. se se descuidam hum pouco acrecentando *a medida, cortalhes os 
figados e morrem em poucos dias, lan^ando sangue poUa boca, como 
eu tenho visto. Tampouco ha quem saiba dar novas da outra my- 
steriosa arvore, que diz que, quando o sol anda da vanda do sul, 
a metade da arvore, que cae pera aquella parte, tem folhas e da 
fruto, e a outra metade esta como seca, e quando o sol passa a 
vanda do norte, a metade da arvore desta parte, que antes ficava 
como seca, produce folhas e da fruto e a outra metade esta como 
seca, e quando o sol esta em a equinocial, a copa da arvore tem 
fruta, ficando os ramos das ilhargas sem folha. Nenhum de muytos, 
a quem preguntei, por terem entrado em Guixem Amba, nem dos 
que la moraram muytos annos achei que tivese visto esta maravi- 
Ihosa arvore, nem ouvido nunca falar nella ; antes alguns se riram 
muyto, como se Ihes preg^ntara algum gran disparate. Por onde 
ja que nam se acha no parayso de Guixen Amba, onde o Author 
a poe, certo he que nam se ha de achar em parte nenhuma do 
mundo. Os pa^os reays, que faz como grandes alca^ares, altos e sum- 
ptuosos, ja disse que sam tristes casas terreas cubertas de palha ; 
nem ha la cima aquelle fermoso muro que pinta, nem ainda de pe- 
dra ensosa, nem menos aquella artificiosa escada pera subir por- 
dentro ; pois o caminho e entrada he por fora e tam aspero como 
dissemos ; nem os soldados habitam em tendas, nem ao menos em as 
invemadas, que sam muyto grandes, as puderam ter. 

Todas estas cousas da a entender pag. 91, que escreveo por 7- Quae de ferti- 
rela^am de Joam Balthesar, de quem diz que esteve em Guixen Balthesar^ctulitper- 
Amba muyto tempo sirvindo a Alexandre, antes que fosse empe- P*"™ Urreta trans- 

•^ ^ T x- tulitadMontemOui- 

rador, e depois subio muytas veces por seu mandado. Mas eu nam x6m quem ipse Mon- 
me posso persuadir que Joam Balthesar (posto que mentiroso) Ihe **" ™" *^^* ** 



84 HISTORTA DE ETHIOPIA 

dissese que estavam em Guixen Amba todas aquellas cousas, se- 
nam que Ihe falou de todo o reyno Amhara, e elle entendeo de 
so Guixen Amba; porque, ainda que algumas cousas sejam fjbu- 
losas, como que aja aquellas duas arvores e pereiras, camuesos, 
palmeiras, balsamos, fontes artificiaes e jardins como os que pinta, 
outras muytas das que diz se acham em aquelle reyno, que he muyto 
fertil de frutas e mantimentos e ha muytos dos animaes, que nomea, 
domcsticos c bravos. Tambem o paassaro [stc] que diz que he como 
hum tordo com crista e barbas como gallo, se acha, nam em Guixen 
Amba, senam perto em terra quente ; mas nam Ihe saem as penas 
que diz da cresta, senam de detras, e viram sobre ella ; nem *sam f. 35- 
de tanta ostima como affirma, posto que fermosas. E o mesmo au- 
thor mostra que, falandolhe Joam Balthesar das cousas do reyno, 
entendeo que de so Guixen Amba ; porque o titulo do cap. 8, onde 
trata esta materia, diz: « Do montr Amara e de sua fortaleca e fer- 
« tilidade »; e este nome nam pertence a aquelle monte so, se nam 
a todo o reyno. E pag. 97 diz: que ate o nome que os theologos 
dam ao parayso terreal, que ho, hortus delitiarum, pertence a 
este monte, porque em a lingoa de Ethiopia a dicgam « Amara » si- 
gnifica esto mesmo « horto de mimos, deleitos e recrea^oes » . Por 
onde he certo que se equivocou, entendendo de so aquelle monte 
o que Ihe disseram de todo o reyno, ainda que nam se ha de 
escrever Amara, nem menos, como elle emmenda, Zahamahahra, 
senam Amhara, que assi se chama aquelle reyno, e quer dicer, 
se em todo rigor declaramos esta palavra Amhara, « pareceo bem > 
ou « fermosa » ; mas tomase por cousa fermosa, e por isso Ihe de- 
ram este nome [a] aquelle reyno que he muyto fertil e fermoso. 

8. Canes in Ac- Com tudo, ainda que o author se eqiiivocase com este verbo 

thiopia non rari, ut.,A« . jj^-r. 

Urretadizit sed in- Amhara, huma cousa, que aqui poe, ouvera de advertir bem, pera 

numeri. Item non ^am se contradiccr adiante, e he a que diz pag. 96, que os Prin- 

Alexander, sed Na6d ^ . a * a 

ultimua imperator cipes que se guardam em Guixcn Amba tem caes ventores, le- 
^ucms ab Ambft j^j-gQg g sabusos pera suas monterias e entretenimento ; e pag. 254 

affirma que em toda Ethiopia nam ha caes e que, se tracem alguns, 
como acontece chegar naos de Europa e deixar alguns caes de Ir- 
landa e Inglaterra, dentro de hum mes se vam consumindo e mor- 
rem. Mas a verdade he que em toda Ethiopia sam tantos os caes, 
que nam tem conto, como adiante diremos. Tambem he falso o 
que aqui diz que Joam Balthesar sirvio em esta fortale^a Guixen 
muyto tempo a Alexandre, antes que fosse Emperador; porque, 






LIVRO I, CAPITULO VI. 85 

como ja notamos no cap. i, o derradeiro principe, que de la tira- 
ram pera Emperador, foi Naod, o qual, como consta dos Catalogos 
dos Emperadores, que pusimos no capitulo precedente, avia 1 1 8 an- 
nos que saira de la, quando frey Luis de Urreta imprimio sua Hi- 
storia, que foi o anno de 610, e Joam Balthesar caminhava entam 
pera os 70 como elle diz pag. 7; por onde, alguns 50 annos antes 
que nacese Joam Balthesar, tiraram a este principe de Guixen Amba 
pera que fosse Emperador e nunca mais saio de la outro pera isso. 

Tambem se enganou muyto Francisco Alvarez no que diz fol. 77, 9« Franciscus Al- 

*ji 1'^« ^ ' ' ^ jj t_ varcz quoque erravit 

f- 35»v. *de sua histona, que estes pnncipes cstavam guardados em hum circa Guixto Ambft 
valle entre duas serras muyto asperas, que se fecha com duas por- prop^cr imperitiam 

•^ *^ ^ '^ Imguae aethiopicae. 

tas e que a serra tem a roda quince dias de caminho e elle cami- 
nhara poUo pe della dous dias. Mas os Principes nam estam em 
valle, senam no alto de Guixen Amba, e as serras, que elle vio, 
seriam humas muyto altas, que estam nao muyto longe e se cha- 
mam Habela e tem passos muy asperos e estreitos, onde moram 
muytos dos que sam obrigados a vigiar Guixen Amba, porque alli 
tem suas terras, e como Ihe disseram que ninguem podia passar 
dalli pera dentro so pena de morte e nam se via daquella parte 
Guixen Amba, entenderia que no valle que esta entre aquelias ser- 
ras se guardavam os Principes; o que facilmente Ihe podia suce- 
der, pois nam sabia a lingoa da terra. 



^ 



CAPITULO VII. 

Em que se trata das duas igrejas e mosteiros 

que ha em Guixdn Amb&. 



Pera que milhor possamos declarar de onde tiveram principio x. Amiquitus Ae- 

^. . V . • thiopes more alio- 

estas igrejas e quam antiguas sejam, seia bem tracer a memoria rum gentilium supra 
o que comummente todos sabem, que sempre foi costume da cega yertices montium 

^ ^ , idolis sacnficare so- 

gentilidade adorar seus falsos idolos e ofFerecerlhes sacrificios em iiti:quodettamnunc 

os altos montes e debaixo das arvores frescas e sombrias ; o que ^*'" praestant. 

tocou o propheta Hieremias, quando, reprehendendo ao povo de 

Isrrael, por ter caido na mesma cegueira, Ihe disse com grande dor 

e sentimento : « In omni coUe sublimi et sub omni ligno frondoso 

tu prosternebaris meretrix » ; cap. 2^, O que sempre esteve muy 

arraigado em Ethiopia como may da idolatria, se for certo que seu 

rey Menna a inventou, como teve pera si Diodoro livro i e 4, 

segundo refer frey Luis de Urreta pag. 29; e quando Ethiopia nam 

fosse inventora, he certo que entraram nella muytos generos dia- 

bolicos de idolatria, que ainda agora estam tam fixos em muytas 

terras de christaos, onde ha gentios, que nam ha poder acabar de 

tirar que nam adorem as cobras e outros animaes, nem ofFere<;am 

muytcis sortes de sacrificios ao demonio em as fontes do Nillo e nos 

mais altos montes que podem achar. Nem Ihe faltam ao demonio 

ministros, que enganem esta barbara gente, antes ha entre elles 



88 HISTORIA DE ETHIOPIA 

muytos feiticeiros, que com artes diabolicas Ihe facem crer suas 
falsedades e mentiras, particularmente com huma que acostumam 
os que chamam Agous do reyno de Gojam, e he que em huma 
das festas que facem a seus idolos, em que sacrificam *muytas f. 36. 
vacas, ajuntam muyta lenha por mandado de seu feiticeiro e, como 
acava o sacrificio, se cobre com a tea de sebo de huraa ou duas 
vacas e asentandose em huma cadeira de ferro no meio de toda 
aquella lenha, manda dar fogo e esta entre aquellas chamas ate 
que se acava de queimar a lenha, sem se Ihe derreter o sebo que 
tem cuberto, com o que aquelles miseraveis ficam enganados. 

2. Eventus mira- Contando estas cousas hum gentio, homem grande, a hum cle- 
bilis cuiusdam cle- . t i*^ ^ 11 ji 1 • 

rici cum quodam J"!?*^» pera engrandecer sua maldita secta, Ihe respondeo o clerigo, 
circulatore Agaus. q^^^^ ge elle o levase la seguramente o dia daquella festa, mostraria 

claramente como tudo aquilo era engano e falsidade daquelle feiti- 
ceiro, que tinha pacto com o demonio. Aceitou o gentio, por estar 
muy confiado que nenhum poder tinha o clerigo contra seu feiti- 
ceiro, e prometio do defender de maneira que ninguem Ihe ficesse 
mal; e chagando o dia, foi com o gentio ao lugar do sacrificio, le- 
vando escondido hum corninho de agoa benta, e acendendose o fogo, 
como acostumavam, vio que, por mais que se alevantava a chama, 
nam facia dano ao feiticeiro; pollo que, tirando a agoa benta, a botou 
sobre o fogo, dicendo aquellas palavras do Psalm, 67: « Exurgat 
Deus, et dissipentur inimici eius, et fugiant qui oderunt eum a facie 
eius. Sicut deficit fumus deficiant, sicut fluit cera a facie ignis, sic 
pereant peccatores a facie Dei ». Nam tinha bem dito isto, quando 
ja o feiticeiro ardia, e sem Ihe poderem valer os circunstantes, em 
pouco espa^o se fez em cin^a. O que causou a todos grande espanto ; 
mas em lugar de se converterem, vendo aquella maravilha, se acen- 
deram em tam grande raiba e ira, que ouveram de despeda^ar o 
bom clerigo, se o gentio, que era poderoso, nam o defendera como 
tinha prometido. 

3. Ad toUendam Este infernal fogo da idolatria ardeo sempre em Ethiopia sem 

memoriam idoli Da- ... -r^ ji 

rhft aedificat Laliba- ^ averem nunca podido apagar os Emperadores, por mais que o 
la in vertice Guixftn prucuraram assi com armas como con doctrina, ainda que, polla mise- 

templum Deo Patri 

et aliud B. Virgini. ricordia do Senhor, se vai agora apagando entre os Agous do reyno 

de Gojam, por meio de dous Padres meus companheiros que la an- 
dam, como diremos na fim desta historia e tem edificado igrejas 
nos principaes lugares onde faciam suas feiticerias, pera tirar a 
memoria dellas, que he o meio de que tambem usaram os Empe- 



r 



LIVRO I, CAPITULO VII. 89 

radores pera o mesmo fim, edificandoas em os montes onde oife- 
reciam sacrificios a seus idolos; o que particularmente ficeram em 
f. 36,v. Guixen Amba onde, por *ser monte tam sinalado em altura e for- 
talecja, como dissemos no capitulo precedente, faciam os gentios 
antiguamente grandes sacrificios a hum celebre idolo, que la tinham, 
a quem chamavam Darhe, nam dentro de sumptuosos edificios, 
como diz frey Luis de Urreta cap. 9, senam debaixo de liuma mota 
muylo grande que chamam Endod, que, como ja dissemos, nam se 
faz arvore, mas, se acha em que se encostar, sobe como jazmin ou 
edra e faz boa e fresca sombra. Mas pera tirar a lembran^a deste 
maldito idolo edificou no mesmo lugar huma igreja pera Ethiopia 
grande e formosa o emperador Lalibela, que reinou pollos annos 
de 1210, e a dedicou a Deos Padre e assi Ihe pus nome Egzia- 
beher Ab, scilicet « Deos Padre » ; e porque em esta nam deixavam 
entrar as molheres a comungar, fez a gente da terra outra piquena 
nam muyto afastada com invoca^am de Nossa Senhora. 

Estas foram as primeiras igrejas que sc edificaram em Guixen 4* Na6d et OnAg 
Amba. Depois fez oragam em a de nossa Senhora o emperador aedificat in amplio- 
Na6d sendo principe, e prometeo de facer alli igreja grande se a remformamprimum 

templumy quod a 

Virgem gloriosa Ihe alcan^ase o imperio : e dalli a hum anno o ti- Granh postea igne 

raram pera Emperador. PoUo que mandou derrubar aquella igreja ^^™ ustum est. 

e facer outra grande; mas antes que se acabase morreo, e depois 

a acabou seu filho Onag Qagued, que primeiro se chamava David. 

He redonda como meia laranja, de pedra branca muyto fermosa, 

e tem duas ordens de colunnas de pedra a roda. Sobre as intc- 

riores huma abobeda da mesma pedra, e no meio esta hum altar a 

que se sobe por sete degraos. O retablo sam quatro paineis de pincel 

nam muyto grandes, hum de nossa Senhora, outro de Christo N. S.°' 

crucifigado, outro de sam Miguel, e outro de sam Jorge, e todos 

se tiram e poem quando querem. A segunda ordem de colunnas 

faz tambem circulo, mas nam tem abobeda, senam madeira. Entre 

huma ordem e outra ha sete covados de distancia; depois outros 

sete covados mais pera fora esta fcita parede a roda com suas por- 

tas, e dalii pera dentro nam pode entrar quem nam tem ordens de 

diacono ; que as de subdiacono nunca as dam os Abunas separada- 

mente, antes muytos tem peia si que nam dam mais que de diacono, 

como veremos no 2 livro. Os demais homens e molheres ficam fora 

em hum alpendre, que esta a roda e toda a igreja por cima esta 

cuberta de palha, pollo que fica tam escura dentro que nam se pode 

C. Bbccari. Rer, Aetk, Script, occ, tned, — II. 12 



90 HISTORIA DE ETHIOPIA 

ler sem candea. Esta igreja dicem que quis queimar hum capitam 
del Rey de Adel que se chamava Granh, que la subio, como adiante 
diremos, mas nam pode, ainda que tomou fogo *a madeira do tecto f. 37. 
do alpendre e oje se vee comegada a queimar ; que de proposito a 
deixaxam assi pera lembran^a de que nossa Senhora librou sua casa 
do fogo dos mouros. Mas a de Deos Padre, que fez Lalibela, quei- 
maram toda e depois ficeram outra de madeira piquena e cuberta 
de palha. 

5. De monachis et Destas duas igrejas tem cargo frades e clerigos: estes sam ca- 

clericis qui custo- ja^- ^^ n/ jj- j 

diunt ambas Eccle- sados. Antiguamente estavam nellas (segundo dicem quando muyto 
8**** catorce frades e moravam perto dellas em casinhas terreas cubertas 

de palha ; agora estam seis e de certo em certo tempo se vam estes 
e vem outros dos mosteiros que estam embaixo no campo. Os cle- 
rigos sam trinta e o superior delles se chama Lica Cahenat, sci- 
licet « Lica dos clerigos ». Parece que corresponde a Prior. Estes 
estam de ordinario la cima e moram com suas molheres em casi- 
nhas como as dos frades, cujo superior se chama Memeher, scilicet 
« mestre ». Toda quanta gente mora a cima, homens e molheres, 
seram docentos, mas antiguamente eram muytos, como diremos 
adiante no capitulo 10. 

6. Refenintur ea Do que temos dito se vee claramente quam enganossa infor- 
vh^^cYK» ^orii^nem ma^am deo Joam Balthesar a frey Luis de Urreta sobre estes edifi- 

et stnicturam ista- cios, pois diz pag. 93 que sam dous templos tam antiguos, que se edi- 
rum ecclesiarum et <-. 1 1 j 1 

confutantur. ficaram antes da reynha Sabba, hum em honrra do sol e outro em 

honrra da lua, os mais sumptuosos e magnificos que ha em toda 

Ethiopia; os quaes a reynha Candace, quando se convirtio e bau- 

tizou polla prega^am do eunucho, os consagrou em honrra do Santo 

Spirito e da sancta Cruz, porque, subindo ella la cima a bautizar 

os da linea imperial e estirpe de David, que alli estavam guar- 

dados, como estam agora, estando ella em este santo exercicio bau- 

tizando aos Principes, vio que andava avoando huma fermosisima 

pomba toda ardendo em vivo fogo e lanQando raios de luz seme- 

Ihante a aque representou o S. Spirito em sua vinda sobre os Apo- 

stolos, e depois de bom espa^o que audou pollo ar a vista de todos, 

se asentou sobre o mais alto do templo do sol. Por isto a Reynha 

consagrou aquelle templo ao Santo Spirito, e o da lua a s."'* Cruz. 

E deppis os consagrou o Evangelista s. Matheus com a mesma ad- 

voca^am, quando foi a pregar a Ethiopia. E mais adiante pag. loi, 

onde trata isto de proposito, diz assi: 



LIVRO I, CAPITULO VII. 91 

« Estas dos iglesias, que la una se intitula del S. Spiritu y la 
« otra de S.** Cruz, son las mas sumptuosas y magnificas que ay 
« en toda la Ethiopia, los mas altos, hermosos y apuestos edificios, 
« los de mejor tra^a, artificio y architectura, y los mas ricos; por- 
« que, como los antigxios los hicieron en honrra del sol y de la 
f. 37.V. « luna, que eram sus dioses mayores, echaron el resto de *sus ri- 

< que^as los Emperadores antiguos i^era su adorno y hermosura, y 
« despues aca siempre se han ido perficionando. Sera cada una de- 
« stas dos iglesias en grandega y tamaiio a la medida de la santa 
« y magnifica iglesia mayor de Sevilla ; solo se diferencian en que 
« no tienen sino tres naves, cuya cubierta es de bobeda de piedra, 
« y carga sobre paredes muy anchas y fuertes, sobre muchas co- 
« lunas muy hermosas y ricamente labradcis ; las piedras todas son 
« preciosas, jaspes, alabastros, marmoles, porfidos y muchas de 
« granate fino, que en ciquel tiempo no las conocian. Hallanse gran- 
« des peda^os en el Rio Negro, y otras muchas piedras de mucha 

< hermosura y valor, que puestas en orden hacen obra y atavian 

< mucho el hedificio. Ay muchas capillas muy doradas con sus cor- 

< nijas, labores, relexos .de grande tra^a y architectura, con sus al- 
« tares de pictura de pincel. Y junto con estos dos templos se han 
« labrado dos monasterios de religiosos monges de s}^ Anton, los 
« quales son de los mas hermosos y gallardos que tiene la dicha 
« orden, teniendo muchos y de mucha magestad. En cada uno dellos 
« ay cavalleros militares comendadores de la Cruz de s.*° Aiiton y 
« ay monges sacerdotes que tambien son cavalleros de la misma 
« orden, y tambien tienen legos y familiares que llevan el Tau en- 
« tero de santo Anton sin las florecitas que llevan los cavalleros 
« y monges sacerdotes. Avra en cada convento entre todos, com- 

< prehendiendo estos tres estados, cerca de mil y quinientos, de 
« suerte que entre los dos monesterios avra tres mil Religiosos, los 
« quales siempre estan en lo alto del monte assistiendo al servicio 
« de sus iglesias y monesterios y al de aquellos illustrissimos Prin- 
« cipes. Ay en cada monesterio dos abbades, uno espiritual, que le 
« llaman en su lengua Abbas, y otro abbad militar de solos los 
« cavalleros y nombranle Abbas Coloham, y el mayor es el espi- 

< ritual *. 

Ate aqui sam palavras do Author, que se se cotejarem com o 
que a cima dissemos, se vera quam g^ande ficcjam e patranha he 
o que aqui meteo em cabe^a a frey Luis Joam Balthesar ; pois nam 



92 HISTORIA DE ETHIOPIA 

somente antes da reynha Sabba, mas nem ainda depois ouve nunca 
templos de idolos, nem menos igrejas ate o emperador Lalibela, 
que ha pouco mais de 400 annos que as come^ou a hedificar. Por 
onde mal as podia dedicar a reynha Candace ao S. Spirito e a santa 
Cruz, pois, demais de que nam tem, nem tiv^eram nunca taes nomens, 
senam Egziabeher Ab, scilicet « Deos Padre » e Nossa Senhora, a rey- 
nha foi mais de mil annos antes em tempo dos Apostolos, porque santo 
Philippe bautizou ao eunucho que a convirtio, nem ella podia bau- 
tizar em aquelle monte de Amhara os da linea imperial e estirpe 
de David, porque o primeiro que os comegou *a meter la foi Udm 
Arad, que meteo seus irmaos poUa re^am que dimos no fim do ca- f. 38. 
pitulo I, e isto foi pollos annos de 1295. Nem sam Matheus podia 
consagrar aquellas igrejas, pois se ficerao tantos tempos depois de 
sua morte. Antes muytos frades velhos, que sabem as historias de 
Ethiopia, me disseram por veces que s. Matheus nam chegara a 
aquellas terras do reyno do Amhara. 

Quanto ao que diz dos cavalleiros militares comendadores da 
Cruz de s.*° Antam e os monges sacerdotes, que tambem sam ca- 
valleiros e da mesma Ordem, no fim do z^ livro veremos quam fa- 
bulosa fabula seja esta, porque nem ha, nem ouve nunca em Ethiopia 
tal modo de Religiam. 



CAPITULO VIII. 



£m que se trata da livraria de Guix6n Ambli. 



As fabulas e mentiras de Joam Balthesar (se todas sam suas) x. Cur Auctor rc- 

rT-jTT^ ■!_ j. j. ' futet ea, quae com- 

que moveram a frey Luis de Urreta a escrever sobre esta matena nientus est Urreta 
hum capitulo muy cumprido, me obrigaram a mi a facer este, pu- c*^.*^ bibliothecam 

existentem in Gui- 

dendose declarar tudo no precedente junto com o que dissemos das xftn AmbA. 
igrejas (onde elle affirma que esta a livraria e se guardam os the- 
souros do Emperador), nem fora necessaria muyta escriptura, se se 
ouvera de contar singelamente a verdade do que passa. Mas por- 
que diz muytas cousas tam fora della, que nam he bem que fiquem 
sem se declarar, fa^o esta distingam de capitulos, em que primei- 
ramente porei o que elle diz, com a mayor brevedade que puder, 
e depois o que passa a cerca desta materia. 

Tendo pois falado o Author da livraria de Alexandria, em 
que diz avia setecentos mil volumens de livros, e da livraria de Con- 
stantinopla, em que estavam cento e vinte mil livros, diz assi pa- 
gfina 103: 

« Estas famosas librerias y todas quantas han tenido nombre a. Descriptio Bi- 

r . . j 1 r 1 • • bliothecae ab Urre- 

« y fama, no tienem que ver y perderan la fama y gloria, si se ^ facta. 
« pusieren en cotejo con la libreria que el Preste Juan tiene en el 
« monesterio de s.'* Cruz del monte Amara, porque los libros que 
« tiene son innumerables y no ay quenta. Basta saber que la reynha 



94 HISTORIA DE ETHIOPIA 

« Sabba empego a juntar libros de muchas partes y por en ella 
« muchos libros que le dio Salomon y otros que le embiava a la 
« contina, y de aquellos tiempos siempre los Emperadores han ido 
« afiadiendo libros con grande cuidado y curiosidad. Son tres salas 
« grandissimas cada una de mas de docicntos passos de largo, donde 
« ay libros de todas ciencias, todos en pergamino muy sutiles, delga- 
« dos y brunidos, con mucha curiosidad de letras doradas y otros la- 
« bores y lindec^as, unos enquadernados ricamente con sus tablas, 
« otros estan sueltos como processos rollados y metidos dentro de 
« unas *bolsas y talegas de tafetan. De papel ay muy pocos, y es f. 38,v. 
« cosa modcrna y muy nueva entre los de Ethiopia. El aranzel, 
« que se truxe al Sumo Pontifice Gregorio 13° es el siguiente ». Aqui 
poe hum Catalogo de livros muyto cumprido, que me pareceo des- 
necessario trcsladar, porque os menos dos que aponta se acha- 
ram em toda Ethiopia, que nam ha sciencia nenhuma de que nam 
ponha muytos authores e de so hieroglificos e symbolos diz que 
ha mais de quinhentos livros. E no fim do catalogo pag. 107 diz: 
« Esta tabula, que he puesto en este capitulo es parte de un 
« indice y aranzel que higo de todos ellos Antonio Grico y Lo- 
« rengo Cremones embiados por el papa Gregorio 13 a instancia 
« del cardenal Zarleto, los quales fueron a la Ethiopia solo para 
« reconocer la libreria en compaiiia de otros que eran embiados 
« para lo proprio, y vinieron admirados de ver tantos libros que 
« en su vida [no] vieron tantos juntos y todos de mano y en parga- 
« mino y todos niuy grandes, porque son como libros de coro con 
« el pargamino entero, con los estantes de cedro muy curiosos y 
« en tan diferentes lenguas. 

« La causa por donde ay tantos libros es por la curiosidad y 
« diligencia que han tenido siempre los Emperadores de cogellos 
« desde el tiempo de la reynha Sabba y en todos los trabajos que 
« padecieron los Judios por los Babylonios, Assirios, Romanos siem- 
« pre los Emperadores de la Ethiopia procuraron aver los libros. 
« Tan grande ha sido el cuidado, que quando supo el Emperador de 
la Ethiopia llamado Mena que el emperador Carlos Quinto avia 
ganado la ciudad de Tunez, teniendo noticia que el rey Muleases 
« tenia una copiosa y rica libreria, embio a los mercaderes de Egypto, 
« de Roma, Venecia, Sicilia y otras partes que a su costa compra- 
« sen los libros que llevavan los soldados, que, como eran en ara- 
« bigo, los davan devalde ; y desta manera junto mas de tres mil 



LIVRO I, CAPITULO VIII. 95 

4 libros de astrologia, medicina y yerbas, mathematicas y otras 
« curiosidades ; y con esta diligencia continuada por tantos mil anos, 
« desde los tiempos de la reyna Sabba hasta el dia de oy, no ay 
« que espantar que diga yo que ay mas de un millon de libros y 
« aun pienso quedar corto y muy corto. 

« Tienese con esta libreria muy grande cuidado, porque es la 
« cosa mas preciosa que tiene el imperio. Y de los monges de la 
« Abbadia dc la Cruz ay seiialado mas de docientos monges, que son 
« libreros y acuden a la limpie^a, guardia y incolunnidad de los li- 
« bros; y cada lunes hacien subir trecientos o cuatrocientos soldados 
« de los de la guardia, que residen al pie del monte Amara, los qua- 
« les barren las salas, limpian los libros y sacuden el polvo, y hacen 
« todo lo que les mandan estos Religiosos. wSon libreros conforme 
4 a las lengucs que saben, porque todos son muy doctos en ellas; 
f. 39. « tienen quenta *de los libros que estan escritos en la lengua de 
« la qual ellos tienen noticia; los quales los miran no se coman de 
« polilla, reconocen las letras no se borren. porque, como son en par- 
« gamino, es cosa facil, y acuden a todo lo que falta. 

« Quando coronan a los Emperadores, les dan las llaves del 
« thesoro y juntamente la llave de la libreria, y el Emperador la 
« da al Abbad espiritual del monesterio de la s}"^ Cruz, donde esta 
« la libreria y le encarga mucho el cuidado, custodia, vigilancia y 
« curiosidad de los libros, diciendo que los precia mas que todos 
« sus thesoros, pues esos, aunque falten minas, tiene el imperio, 
« pero los libros de aquella libreria son unicos en el mundo ^. 

Ate aqui sam palavras de frey I.uis de Urreta, em que ha 3. Antiquitus ad 

_^ j. j j j summum aoo volu- 

muytopoucas que digam com a verdade do que passa; porque pn- mina msa. prope Ec- 

meiramente toda esta tam grande e famosa livraria que pintou Joam clesiam Dei Patris 

servabantur: sed post 

Balthesar, ou quem informou ao Author, se resolvia antiguamente incendium tempore 
em obra de docentos livros, que os Emperadores foram la pondo. ^pUu^Jfuam viSn^ 

Porque he costume, que dura ate oje, quando entra hum Emperador, ti volumina modo 

asservantur ibi. 

facer tresladar os livros que tinha seu antecessor, e, ficando com os 
novos, da os outros a igreja que quer; e destes e alguns se Ihes 
vinham de fora, que disso nam achei quem me soubese dar re(;am, 
juntaram la aquelles livros casi todos em pargaminho, que pera 
Ethiopia sam muytos, porque nam ha impressam e tardam muyto 
em escrever hum livro, por ser sua letra vagarosa, que nam se en- 
cadea huma com outra, que he casi do corte da hebraica. Mas nam 
escrevem pera a mao izquerda comc os Ilebreos e x\rabios, senam 



96 HISTORIA DE ETHIOPIA 

pera a dereita como nos. Mas poUos annos de 1528 saio do reyno 
de Adel hum mouro por nome Mahamed e, por ser izquerdo, o cha- 
mam comummente em Ethiopia Granh, scilicet izqnerdo e a sa- 
(;tom era Guazir del Rey de aquellas terras, que he tanto como Go- 
vernador, e entrou por estas com exercito e foi tomando ate chegar 
a Guixen Amba, e hum seu capitam subio por huma parte que Ihe 
mostrou a gente da terra e queimou a igreja de Deos Padre, onde 
se perderam muytos livros e outros levaram os soldados pera os 
venderem a a gente da"*terra que se Ihes tinha sugetado. Pollo que, 
se Joam Balthesar, como diz frey Luis, hia pera os 70 annos no 
de 610, mal podia dar regam de vista desta livraria, mas ouviria 
dicer que era muyto grande, que cousas piquenas *engrandecem f. 39.v. 
muyto os Ethiopes, e por isso falaria con tanto encarecimento. Quanto 
agora, nam estam em amas as igrejas mais que vinte livros pouco 
mais ou menos, e cuatro, que sam os maiores, nam sam de parga- 
minho enteiro se nam de meio, mas hum que trata de milagres de 
nossa Senhora tem muytas letras de ouro. C)s estantes nam sam 
como os pinta frey Luis, senam muyto ordinariamente lavrados. 
4 Reliquae fabu- Acerca do que diz que a reynha Sabba come^ou a juntar alli 

lae Urretae circa bi- ,. , ^ , ivjoi 'j- 

bliothecam refutan- hvros de muytas partes e pos os que Ihe deo balomam, ja disse- 
^' mos no capitulo precedente que em Guixen Amba nam ouve nunca 

templo de idolos, nem edificio onde se guardasem os livros; nem 
a reynha tinha neccssidade de guardar la os livros que Ihe daria 
Salomam, nem os mais que ella quisese guardar, quando possuia 
tam pacificamente seu imperio, como vimos no cap. 3, e estando 
em huma cidade tam forte e de edificios tam sumptuosos e insi- 
gnes, como mostram agora bem as ruinas de Ag^um ; e se nam os 
queria ter com sigo (o que nam parece provavel, pois eram tam 
preciosos os de Salomam), ouvera os de por em Amba Damo, hum 
dia de caminho de Ag^um, que he muyto mais forte que Guixcn 
Amba, a qual esta catorce dias de caminho, e pode ser que naquelle 
tempo ninguem sabia parte della, senam que eram matos fechados. 
As igrejas ja la tambem dissemos que come^aram pollos annos 
de 1210, em tempo do emperador Lalibela, e nenhuma se dedicou 
a s.'* Cruz, senam a Deos Padre e a Nossa Senhora. Nem pude 
nunca achar quem tivesse ouvido que os Emperadores mandasem 
tracer livros de outros reynos pera juntar alli, c muyto menos que 
outros o ouvera de facer Minas, a quem elle chama Mena, porque, 
demais de ser pouco curioso de livros e nam ter comercio nenhum 



LIVRO I, CAPITULO VIII. 97 

com os mais das terras que nomea o Author, cuatro annos que 
durou no imperio, teve bem que facer em se defender dos Turcos, 
que o desbarataram no reyno de Tigre, e de seus mesmos capitaes 
que se Ihe revelaram em muytas partes, por ser tam aspero e in- 
tractavel como era. 

Nem os soldados do emperador Carlos Quinto se haviam de 
carregar em Tunez de tantos livros em arabio, que nam Ihes apro- 
veitavam pera nada, e quando levasem alguns, ja os aviam de ter 
botado ou espalhado de maneira que nam se pudesem juntar, quando 
come^ou a reynar Minas, que entam se chamou Adamas Qagued; 
porque elle entrou no imperio em margo de 1559, e Tunez foi to- 
mado 24 annos antes no anno de 1535. E se, como o Author af- 
f. 40. firma pag. 156, *todos os livros, que estam em aquellas tres salas, 
sam em lingoa grega, arabia, egipcia, sira, caldea, hebraica e abes- 
sina, os mais delles aviam de ser de papel e ainda muytos impressos, 
porque estas na^oes estrangeiras casi nunca escrevem em parga- 
minho; e toda via elle affirma que de papel ha muyto poucos; e o 
mesmo dicem os parentes do Emperador a quem preguntei. 

Quanto aquelle tam grande numero de tres mil livros de astro- 
logia, medicina, hervas e mathematicas, que diz que estam la, ainda 
que nam falara de agora que ha tan poucos, senam dos de pri- 
meiro, nem se podia verificar, pois todos nao eram mais que como 
200, nam os que entam estavam, nem os que agora estam em arabio 
me souberam dicer de que tratavam. Mas o que eu achei ainda em 
os mais letrados he que de estas sciencias sabem pouco mais de 
nada, tanto que fa[la]ndo com elles sobre cousas muyto ordinarias de 
meteuros e do curso do sol, se Ihes faciam muyto novas e alguns 
deciam que o sol nam dava volta por debaixo da terra, senam que 
se pondo a nosso orizonte virava a roda della, e que o facer sombra 
a terra era por causa de huns altos montes que la avia; ate que 
Ihes mostrei como isto nam podia ser; e muyto mais se maravi- 
Iharam porque, falando eu com o Emperador sobre os effeitos da 
lua, Ihe disse : De oje en 1 5 dias avera ecclipse da lua toda e co- 
megara aqui a as duas horas e tres quartos depois da meia noite 
pouco mais ou menos, e em Portugal a as 12 horas e dous mi- 
nutos (que foi o de 26 de agosto de 16 16). Disseram todos que como 
se podia saber o que estava por vir e sinalar nam somente o dia, 
senam a hora [?]. Respondi que muytos annos antes escriviam os ec- 
clipses que avia de aver do sol e a lua sem errar hum ponto, poUo 

C. Bbccari. R€r. Aeik, Scrt^» occ, ined, — II. 13 



gS HISTORIA DE ETHIOPIA 

conhecimento que tem de seu curso, e que atentasem por este, e 
veriam se era certo ou nam. O que elles ficeram com tanto cui- 
dado, que ate o Emperador se alevantou muyto antes, e em come- 
gando a se escurecer a lua, saio ao terreiro diante da porta do pa^o 
e esteve em pe olhando grande espago. Depois me disse que Ihe 
escrevese em sua lingua quando avia de aver outras, e dandolhe 
juntamente pintado o que avia de tomar da lua, folgou muyto de 
ver e disse que nada disto sabiam os seus. Nem de medecina sabem 
cousa nenhuma, e assi, quando adoecem, nam so a gente pobre, mas 
os ricos e senhores grandes, *morrem sem facer remedio nenhum, f. 4o,v. 
ainda que a doen^a seja cumprida. E achando pouco tempo ha o 
Emperador hum livro de ^urugia [sic^ em castelhano, que trouxe dom 
Christovao da Gama, quando veio com os Portugueses a socorrer 
este imperio, me pidio Ihe tresladase em sua lingoa algumas cousas 
de que agora se aproveitam; pollo que cuido que nenhuns livros 
de medicina ha em Guixen Amba; que nam he possivel que nam 
os ouveram tresladado, ou ao menos souberam algiima cousa delles. 
7.Fal8ume8tpon- O que o Author affirma que o Catalogo dos livros que aponta 

tificem Greeorium j- a ^. • /-' • t /-^ -r:«^i_ • 

XIII misisse Roma ^ "Ceram Antonio Grico e Louren^o Cremones, que vieiam a Ethio 
duos doctos viros ad pja mandados polla Santidade de Grecforio 1 3 so pera reconhecer 

faciendum catalo- . , 

gum iUius bibliothe- esta livraria, saberse ha milhor em Roma onde estaram os papcis, 

^stoder ^rfo^^o! P^^^^^ ^^ "^"^ h^ lembran^a disso, antes preguntando a muytos 
Hi non sunt nisi 14 frades velhos e gente da terra e a alguns Portugueses e a hum 

pro utraque Bccle- 

8ia et clerici 30. Veneciano, que se chama Joam Antonio e ha muytos annos que ca 

esta, todos disseram que nunca taes homens vieram, senam hum 
que se chama Claudio, que morreo ca, e outros dous Hieronino e 
Contarino, que poUos annos de 1596 pouco mais ou menos se foram 
pera India. Mas seja o que for de Antonio Grico e Lourengo Cre- 
mones, a huma cousa nam sei dar saida, que, avendo em tempo de 
Gregorio 1 3 em esta livraria mais de hum milhom de livros (como 
o Author diz), aja agora tam poucos como a cima dissemos, sendo 
cousa certa e sabida de todos os de Ethiopia que, daquelle tempo 
pera ca, nem se tiraram, nem se perderam nenhuns, segundo testimun- 
haram principalmente os que de muyto antes ate agora moraram la. 
Tambem o numero de mais de docentos monges da abbadia 
da Cruz, que diz estam sinalados pera livreiros, he muyto grande ; 
pois, como ja dissemos no cap. 7, nunca os frades, que estavam la 
cima em amas as igrejas, passaram de catorce, nem os clerigos de 
trinta, nem ha, nem ouve nunca tal abbadia da Cruz. 



CAPITULO IX. 

Em que se mostra que nenhum thesouro teve nunca o 
Preste Joam guardado em Guixdn Ambli. 



Se foi cumprido frey Luis de Urreta en falar da livraria de x. Fabulae Urre- 
Guixen Amba, muyto mais o he em tratar dos thesouros, que ima- ^j^ntitotc aiS*^ quae 
ginou, ou Ihe* meteram em cabe^a, que tinha la guardados o Preste asscrvatur in Ambft 

. Quixta coUecta a 

f. 41- Joam, *porque faz dous capitulos, lo e ii,sobre esta matena tam temporc reginae Sa- 
cumpridos, que nam he piquena penitencia serlhe for^ado lerlos a **** 
quem tem outras cousas que facer, principalmente se sabe quam 
fabulosas sejam todas quantas nelles diz ; poUo que, ainda que re- 
fera suas palavras, nam seram mais que aquellas que ficerem mais 
a proposito, pera em soma dar noticia de seu intento, que he an- 
tepor os thesouros e rique^as do Emperador de Ethiopia aos de 
quantos reys ha e ouve no mundo; e assi depois de advertir que 
nam quer falar das muytas minas, de que he abundante e rica Ethio- 
pia, diz pag. 112: < Solo pretendo dicer el thesoro que esta guar- 
« dado en el monte de Amara en el monasterio de la Cruz junto 
« con la libreria, el qual es de tan inmensa rique^a, que me atrevo a 
« decir y digo confiadamente que ningun Rey del mundo, ni an- 
« tiguos, ni presentes, ningun imperio ni monarchia, aunque entren 
« en esta cuenra los cuatro nombrados en el orbe, babylonios, per- 
« sas, griegos y romanos, con todas sus victorias, triumphos y de- 



ICO HISTORIA DE ETHIOPIA 

< spojos ricos, tuvieron tanto oro junto, ni piedras preciosas como ay 
« recogido en el monte Amara » . E mais adiante pag. 114: c El the- 
c soro, que esta en este monte, es tradicion en toda la Ethiopia que 
« come<;ou a juntarse desde la reyna Sabba y desde aquellos tiem- 
« pos tan antiguos cada aiio ponen y athesoran tantas rentas y ri- 
« que^as, como tienen los Emperadores dc la Ethiopia, y nunca 
« sacan cosa ninguna, porque dello no tiene necessidad el Preste 
« Juan, porque las ciudades del imperio, segiin la costumbre antigua, 
« pagan toda la gente de guerra, la guardia de su persona y pa- 
« vellones y monte de Amara, y para el gasto de su corte y casa 
« estan senaladas las rentas de tres poderosos reynos, el de Saba, 
« Zambra y Gafate, los quales sobradissimamente contribuyen para 
« estos gastos; y la renta de los otros reynos, que son 59, queda 

< libre y horra, que siendo tan pingue, porque todos los reynos 
« son ricos de minas de oro y plata y muy poblados, recogiendose 
« en el thesoro del monte Amara por espa^o de tres mil anos, con- 
« sidere el letor quc de oro se abra recogido y guardado, que certo 
« excede toda medida y cuenta. Pues si en tiempo de la reyna Sabba 
« (diz pag, 115) avia tantas riquecjas de oro y plata y desde entonces 
« hasta el dia de oy se recogen y guardan las rentas, el oro y 
« plata a que numero de millones avra Uegado? Los mismos the- 
« soreros y contadores del imperio no lo saben apreciar, sino que 
« siempre hablan con admiracion y encarecimiento. Las salas donde 
« se guarda el thesoro son cuatro bastantemente g^andesy espaciosas. 

« Antiguamente se guardava el oro en estas salas *de la manera que f. 4^^. 

« lo sacavan de las minas con toda su escoria: lo mas puro era lo que 

« sacavan del Rio Negro y otros rios en pedagos y a veces harto 

« grandes. Duro esta custumbre hasta el emperador David, al qual 

« un portugues Uamado Miguel de Silva le dio por consejo que 

« fundiese todo aquel oro en tijuelos y barras para que se g^ar- 

« dase con mas comodidad. Hi^olo el Emperador y Ueno todas aquel- 

« las cuatro salas desde el suelo hasta la techumbre de rimeros de 

« ladrillos de oro en quadro de un palmo de largo y ancho y tres 

« dedos de canto. El oro es finissimo, porque ay ladrillos que se do- 

« blan y roUan como se fueran de masa, que ya tiene fama el oro de 

« Arabia y de la Ethiopia de muy fino y precioso. Abra en cada sala 

« echando el juicio a monton, segun dicen personas que lo han visto, 

« Venecianos y Portugueses, mas de trecentos millones, que, siendo 

« quatro las salas, seram mas de doce veces cen millones ». 



LTVRO T, CAPITULO IX, lOI 

Diz mais pag. iiS: « El emperador Alexandro 3°, que murio a. De nummis au- 
« ano de 606, vendo que todos lo principes christianos hacem batir "*' ^* argcnteis. 
« moneda, gravando en ella su figura y armas, determino batirla 
« con parecer del g^an Consejo y de todo el clero y sacerdotes de 
« la Ethiopia, los quales viendo que era muy grande policia y jun- 

^ « tamente mucho provecho y comodidad para los que contratavan, 

« salio determinado y resuelto del Consejo que se acunase moneda 
« por todo el imperio, pero que la figura no fuese redonda sino 
« larga como un ovado y en la una parte esta gravada la imagen 

1 « del glorioso apostol y evangelista san Mateo patron de la Ethio- 

« pia, y 'en el reverso de la moneda la figura de un leon con una 
« cruz empunada en las manos, que son las armas de los Empera- 
« dores. La letra, que anda por la orla, es a la parte del leon : ' Vi- 
« cit Leo de tribu Juda ', y donde esta la figura de san Mateo: 
« * Aethiopia praeveniet manus eius Deo \ La plata, de la qual se 
« ha hecho poca mencion, es porque ay poca en comparacion del 
« oro: y antiguamente no la sabian lavrar ni cuidavan mucho della. 
« Agora se lavra y sirve de moneda y se aprovechan della para 
« contratar con mercaderes de otras naciones, porque no se puede 
« sacar oro del imperio, sino solo la plata ». 

I Em a mesma pagina, come<;:ando a tratar das pedras preciosas 

do thesouro, diz assi : 

« Quiero hacerme una vez lapidario sin serlo, pues nos da mo- 3, De lapidibus 
« tivo el presente capitulo y la corriente de la historia, tomandonos ^^j^^" * *^^* ^^" 
« de la mano, nos ha entrado en la sala delas joyas y piedras pre- 
« niosas, que junto a las salas del oro en el monte Amara en el mo- 
« nasterio de la Cruz tiene el Preste Juan. La qual sala esta ro- 
f 42. « deada de caxones muy grandes, de cedro unos, otros *de evano 
« muy guarnecidos y con fuertes cerraduras : en cada uno de los ar- 
« caces esta el nombre de las piedras que ay dentro. La sala es 
« muy grande y estando llena de piedras preciosas es inestimable 
« el valor y precio della. No se sabe quando los Emperadores dela 
« Ethiopia empegaron a juntar piedras preciosas, porque l£is que 
« tenia la reyna Sabba se guardan oy dia en la ciudad de Sabba 
« en la iglesia del Spiritu Santo, donde ella se enterro. En entrando 
« por la sala, luego se ofFrecen unos caxones muy grandes llenos 
«^ de esmeraldas muy ricas, las quales piedras son de mucho valor, 

^ « por ser verdes resplandecientes y tanto que no ay cosa criada 

« tan verde como ellas, ni que mas recree y deleite la vista. Ay 



I02 HTSTORIA DE ETHIOPIA 

c en estas arcas grandissimos pedagos, porque entre todas las pie- 
« dras preciosas la esmeralda es de la qual se han hallado mayores 
« piedras ». 

Pouco mais adiante vai dicendo que hum Rey de Babylonia 
presento a otro de Egypto huma esmeralda que tinha cuatro co- 
vados de cumprido e tres de largo, e que na cidade de Tyro no 
templo do Deos Hercules avia huma colunna muy grande toda de 
huma esmeralda, e outra em Egypto no templo de Deos Jupite[r] de 
40 covados de cumprido e por huma vanda cuatro de largo e por 
outra dous, de sos cuatro esmeraldas, e em hum dos labyrintos de 
Egypto avia huma estatua que tinha nove covados de alt# de huma 
so esmeralda; e que he tradi<;;am em Ethiopia e o tem por certo 
quc estas tam grandiosas esmeraldas se levaram de Ethiopia, e ainda 
ojc se acham e se guardam entre as outras joyas peda^os gran- 
dissimos de esmeraldas; e que el Preste Joao tem pratos, tixellas 
e jarros foitos de esmeraldas e outras pedras preciosas. Daqui vai 
discurrendo por todos os nomens que ha dc podras preciosas, e de 
cada sorte dellas henche grandes cofres dicendo : « Hay otras arcas, 
« unas de diamantes muy preciosos, otras de rubis los mejores del 
« mundo y algunos tan grandes com un dedo pulgar. Las piedras, 
« de las quales ay muy grande abundancia en esta sala, son tur- 
« quesas, zaphiros, topacios, bageles; hay jacintos, y algunas ama- 
« tistas; tambien ay arcas de ctysolitos, aunque no las tienen en 
« tanto precio. De calcedonias ay mina y de la piedra agata ay 
« muchas; pero no se sabian aprovechar hasta que unos oficiales 
« embiados por el duque de Florencia Francisco de Medicis la- 
« vraron muy hermosos camafeos. De perlas ay muchas arcas 
« llenas, assi de la India oriental, como de Ormuz, como del Rio 
« Negro. Ay perlas muy grandes de tal suerte, que quando las vido 
« Bernardo Vecheti famoso *lapidario que fue embiado por el duque f. 42.V. 
« Francisco de Medicis, dixo que Lenia por cierto que las perlas tan 
« nombradas, que servian por (^arcillos a la reyna Cleopatra, no po- 
« dian ser mayores que las que alli estavan guardadas ». 
4. De quodam pre- Diz mais pag. 127: « Entre las muchas piedras ricas y de 

tioso lapide mirae ^ orrande precio que tiene el Preste Juan de quien se pudiera hacer 

magnitudinis et ope- & x- ^ j -1 i- 

ris singularis. « aqui memoria, ay un penasco y peda^o de roca de piedra guija- 

« reiia, que se hallo dentro del Rio Negro (que es el rio que cria 
« mas piedras preciosas de quantos tiene el mundo), en cuya lavor 
« no parece sino que la industriosa naturale^a se desocupo y de- 



LIVRO I, CAPITULO IX. 103 

« sembara^o de las obligaciones forgosas y, esmerando sus dedos y 
« repuliendo sus manos, labro un cielo estrellado y quiso poner jun- 
« tas todas las piedras preciosas que por diversas partes del mundo 
« suele criar repartidas. Es este penasco cuadrado, tiene dos palmos y 
« medio y cerca de tres por cuadro; de canto tiene por ordinario de mas 
« un palmo y por donde menos cuatro dedos : la piedra es aspera y 
« grossera como la de los escoUos donde baten las olas del mar; en el 
* qual engasto la naturale^a mil dlfFerencias de piedras preciosas. Ay 
« mas de ciento y sesenta diamantes, unos tan grandes como la palma 
« dela mano, otros de dos y tres dedos de ancho, otros como un dedo 
« pulgar largo, y el menor sera como una abellana gruessa, todos finis- 
« simos y de subidos quilates. Ay mas de trecientas esmeraldas gran- 
« des y pequenas ; rubies los mayores del mundo ay mas de cinquenta, 
« algunos como el dedo indice ; ay zafiras, turquesas, balaxes, ama- 
« tistas, espinelas, topacios, jacintos, crysolitos, enfin todo genero 
« de piedras preciosas. Sin esso veense encaxadas algunas pedre- 
-s citas pequenas muy hermosas que no se les sabe nombre; enfin 
« es un milagro y prodigio de la naturale(;a. Puesto al sol es tanta 
« la refulgencia y belle^a que tiene, que no ay vista en el mundo, 
« ni hermosurai que se le iguale. Quando le vido Bernardo Vecheti 
« embiado par el duque de Florcncia Francisco de Medicis, con 
« ser hombre muy cntendido en piedras, quedo admirado y dixo que 
« no tenia precio y que excedia toda estima. Tiene la el Empe- 
« rador dentro de un encaxc de oro cubierto con un tablon de oro 
« fino y por persuasion del dicho Bernardo hi^o lavrar dos bufetes 
« de oro y en ellos ha engastado millares de piedras preciosas, esco- 
« giendo las mas ricas y hermosas que ay en el guardajoyas, y 
« dellos se sirve para quando vienen embaxadores de los reys de 
« Europa, a los quales recibe arrimado y apoyado en un bufete 
« destos *. 
f. 43. Ate aqui sam palavras de frey Luis de Urreta, a que *facil- 5. Auctor deridet 

mente puderamos responder, que este tam immenso e inestimavel the- ^^^^^ * *"*™ 



inventorem. 



souro era como aquelles thesouros que fingem encantados, que nam 
se podiam ver; e mais seus encarecimentos e modo de referir a 
historia sam muyto semelhantes aos que usam os que tratam de- 
stas fie^oes; pois affirma que estan cuatro salas grandes e espa- 
^osas cheias do cham ate cima de tijolos de ouro de tres dedos de 
grosso e ta:u fino que se dobra como masa: cousa maravilhosa que 
demais de tam grande multidam de ouro seja tal que tijolos de tres 



I04 HISTORIA DE ETHIOPIA. 

dedos de grosso se dobre e enrole como se fora de masa. Nem 
nos ouvera de ser de menor admira^am, se nos fora concedido en- 
trar em aquella sala das piedras preciosas, onde a corrente da hi- 
storia meteo polla mao ao Author ; pois de huma e outra parte esta 
rodeada daquelles tam grandes e bem gnarnecidos caixoes, cheios 
de tam fermosa e rica pedraria. Mas sobre tudo ouveramos de ficar 
atonitos e pasmados, se nos levantaram aquelle tablom de fino ouro, 
com que esta cuberto o penhasco em que a industriosa nature^a, 
disocupandose das obriga^oes forgosas, se esmerou tanto que pus 
nelle juntas todas as pedras preciosas que por diversas partes do 
mundo acustuma a criar repartidas. Sem duvida que vendo a reful- 
gencia e vellega de tam varia e inestimavel pedraria, ouveramos 
por forcja de confessar, que nunca avia chegado com muyta parte 
a idea de nosso pensamento ao que nossos olhos tinham presente 
e que ouveramos de notar huma grande mamaravilha em este mi- 
lagre e prodigio da nature<;a; e he que em huma pedra de dous 
palmos e meio ou pouco mais em cuadro, estejam engastadas tan- 
tas como nomea e as que diz que nam tem nome, humas como a 
palma da mao e outras como dous e tres dedos ; se nam quiser al- 
gum dicer que estas pedras tem a propriedade dos anjos que nam 
ocupam lugar; o que, ainda que nam se possa verificar de cousas 
corporaes, facihnente concederei eu, que estas nam ocupam lugar, 
pois na verdade nam sam mais que imaginarias c fabulosas. Com 
tudo ja quc alega testimunhas, que diz sam de vista, sera bem de- 
clarar a diligencia grande que fiz pera tirar em limpo esta verdade. 
6. Demonstrat Re- Primeiramente he cousa muyto certa que de muytos annos a 

quam^habuisse^ne- ®^^^ parte, por causa das guerras dos Turcos, dos Mouros e dos 
que tunc temporis Galas e as cyvis, que ate pouco tempo ha ardeo este imperio, se 

babere thesauros re- 

conditos in Ambft diminuiram suas rendas de maneira que nam tiveram os Empera- 
SS^^defe tu - dores sobeixo que athesorar, nem ainda achavam muytas veces *de f. 43,^. 

niae, vendidit ali- onde tirar bastantemente pera as necessidades que se Ihes ofFereciam. 

PoUo que o emperador Claudio, a quem em Ethiopia chamam Glau- 
deos e, como Ihe deram o imperio, se intitulou Atanaf (^agued, de- 
sejando mandar contentos e em alguma maneira remunerar os grandes 
servi^os que Ihe tinham feito alguns Portugueses da companhia de 
dom Christovao da Gama, que depois de Ihe ter recuperado seu em- 
pcrio, sc queriam ir pera India, nam teve que Ihes offerecer senam 
as propiias joyas da Emperatriz sua may e de alguns dos seus que 
pode ajuntar, pidendolhe muytos perdocs por nam ter mais com 



LIVRO I, CAPITULO IX. I05 

que poder satisfacer a obriga^am que Ihes tinha ; mas se quisessem 
ficar, Ihes daria terras muyto cumpridas. Os Portugiieses porem Ihe 
agardeceram muyto a boa vontate com que Ihe oflferecia aquellas jo- 
yas, mas nada Ihe quiseram tomar ; nem por derradeiro teve eflfeito 
sua ida pera India. Tambem me aflfirmaram por cousa muyto certa 
que o emperador Seltan Qagued, que agora vive, chegou a tanto o 
anno de 614, que mandou cortar algumas cadeas de ouro de sua pes- 
soa pera acudir a algumas cousas que Ihe eram necessarias. O que 
facilmente creo, porque, demais de ser muy livoral com todos, teve 
grandes gastos em as gnerras; nam poique Ihe seja for^ado de 
justi^a conforme ao costume antiguo de Ethiopia facellos com os 
soldados, porque a estes reparte as terras da coroa e em quanto 
as comem tem obriga^am de servir na guerra e nam porque as ci- 
dades Ihes dam o soldo, como por falta de informa^am disse frey 
Luis de Urreta; mas com tudo, pera os ter contentes e honrrar aos 
que mais se sinalam, da sempre, particularmente aos Capitaes e ho- 
mens grandes, vestidos de borcado, velludo, damasco e outrcis pecjas 
que compram aos Turcos por muyto mais do que valem, e junta- 
mente punhaes de ouro como os dos Turcos, ou manilhas de ouro, 
que comummente tem docentos ou trecentos cru^ados e algumas 
veces da duas juntas por mais honrra, afora de peitas e outros ga- 
stos que se oflFerecem. 

Mas para que venhamos ao particular do que toca ao thesouro 7. Quid dizerint 
do monte de Amhara. que, como ja disse muytas veces. se chama t^-^^^^^^:: 
Gnixen Amba, eu preguntei a muytos velhos e principalmente a porc morati fu6runt 
aquelles dous senhores parentes do Emperador, Abeitahum Memeno q^id ipse SeltAn Sa- 
e Abeitahum Taquela Haimanot, que acima nomeei, e hum sera de ^^' 
perto de 70 annos e outro de 60, que estiveram la cima muyto 
tempo, ainda que agora residem na corte com beneplacito do Em- 
perador; e me aflRrmaram que nunca os Emperadores guardaram em 
f. 44. Guixen Amba ouro *nem pedras preciosas e que ainda antigua- 
mente, quando os principes que la estavam tinham mais fato, nam 
se acharia entre todos elles dez mil cru^ados de ouro juntos, por- 
que, ainda que tinham prometido os Emperadores de Ihes darem 
a 3* parte das rendas do imperio, nunca esto se cumpria. O mais 
que Ihes chegava a as maos eram pannos de algodam, mel e man- 
timentos. Nem me contentei com isto, senam que preguntei ao me- 
smo Emperador, contandolhe como por gra^a, que deciam que tinha 
em Guixen Amba tantas casas cheias de tijolos de ouro e caxas 

C. Bbccaiu. Her. Atik, Scripi. occ, ined, — II. 14 



Io6 HISTORIA DE ETHIOPIA 

de pedraria, e respondeo rindo: Bastavame huma, ainda que nam 

fora mayor que esta cama (que era huma de cortinas em que en- 

tam estava encostado). Bem engrandeceo esse as rique^as de meu 

imperio, mas a verdade he que nunca se gnardou nada disto em 

Guixen Amba. Tam fora de caminho e de toda verdade he dicer 

que o Emperador de Ethiopia tenha thesouro de pedras preciosas, 

que nem pera huma coroa de Emperador, que quis este facer a 

nosso modo, achou senam humas falsas muyto ruins, que aqui tra- 

cem os mouros nam sei se da India ; e assi me encomendou muy to 

Ihe ficesse vir algumzis e ainda que as que me mandaram tambem 

eram falsas, com tudo por serem mais lustrosas, folgou muyto; e 

juntamente vieram alguns aljofares que tinhapedido pera os remates 

de cima, que nem estes achou ca, quanto mais arcas cheias de pe- 

rolas e tam g^andes como as que punha em as orelhcis a reynha 

Cleopatra. Antes me mostrou o Emperador por grande cousa dous 

aneis em que tem engastados dous aljofares, que ambos nam valem 

na India seis cru^ados. 

8. Dc lapidibus Quanto dos pratos, tixehis e jarros de esmaraldas e outras pe- 

pretiosis non est me- , -.^ t-^.t j-ii 

moria in Ethiopia. dras preciosas, que diz tem o Freste Joam, poderei eu dar boa re- 

SeltAnSagAdprosuo (j^am, porque, demais de preguntar por elles, tenho visto por veccs 
diademate falsos la- 

pides pretiosos ex toda sua baxela e muytas comido em seus mesmos pratos e mesa; 
m^nL*Xpe^i^^^^^ porque, em levantandose della (que com elle ninguem pode comer, 

Auctor nunquam vi- nem ainda assistir a mesa, afora os officiaes que acima disse), me 
dit aurum, neque ar- ----- ^ , , 

gentum. mandou chamar da sala de fora e asentar com dous ou tres senhores 

seus parentes, a quem algumas veces faz este favor e merce ; e dei- 
xando o serviQo que tem de alatam e de cobre, como sam pratos 
e aguamanis [su], que disto nam falta e mais muyto bem lavrado, po- 
sto que feitio de Turcos, tudo o de mais he alguma lou^a da China, 
pratos e porcelanas finas; e dos da terra muytos que sam pretos 
como acebique [szc] ; e em isto se resolve toda a baxela do Empera- 
dor; porque nam come em cousa de prata, nem ouro. Bidros nam 
Ihe faltam, que tracem os Egypcios e Mouros que vem do Cairo; 
mas pratos e jarros de esmeralda, ou de *outras pedras preciosas f. 44,v. 
nem os tem, nem ha quem saiba dar re^am de que os ouvese nunca 
em Ethiopia, nem que se descubrisem tres minas de esmeraldas e 
calcedonias, como Ihe meteram em cabega ao Author. Nem ha me- 
moria das pedras preciosas da reynha Sabba, quc diz se guardam 
na cidade de Sabba; nem ainda ha tal cidade, senam huma aldea 
muyto triste deste nome no reyno de Tigre, onde ella naceo: que 



i 



LIVRO I, CAPITULO IX. 107 

se la estivcram, nam se Ihe encubriram ao Emperador, e entam ten- 
doas tam ricas em sua terra, nam Ihe fora necessario trabalhar pera 
que Ihe viesem da India pedras falsas pera sua coroa. 

Do que temos dito se vee claramente quam fabulosa cousa g. Etniriae Duces, 
seja que viesem a este imperio Bernardo Vecheti e os demais lapi- s^!|L ^^^jfi^^^*^?* 
dairos, que o Author diz que mandou dom P>ancisco de Medicis annum 161 x nun- 
duque de Florencia, pois Joam Antonio veneciano, que ha muytos serant ad Reges Ae- 
annos que ca esta, e os Portuffueses velhos e cfente da terra affir- ***jop^*c multoque 

^ ^ ° minus Legatos. 

mam que nenhuns outros entraram ca mais que os que acima 
nomeamos. 

Tambem, se, como o mesmo Author affirma pag. 91, he certo 
que o estrangeiro que mais chegou a alcauQar, foi ver de longe o 
monte, onde diz que estava o thesouro e livraria, que nam se per- 
mite chegar perto delle, segiiese que nenhum dos estrangeiros que 
affirma que vieram a ver o thesouro e livraria, entrou la ; nem he ne- 
cessaria mais prova pera isto que saber que nunca ouve em Ethiopia 
tal thesouro de perolas e pedras preciosas como deciam. Ate o Em- 
perador me affirmou que nam avia memoria de que seus anteces- 
sores tivesem nunca communicaQam com os Duques de Florencia, 
dandolhe eu huma carta do duque dom Cosme de Medicis, que 
os Padres da nossa Companhia me mandaram da India em julho 
de 16 16, porque hum frade Abexi, que a tracia, ficou la, e era 
de 7 de abril de 1 6 ii , em que decia que el Serenissimo gram 
duque Ferdinando seu pay era grande amigo e servidor de sua Ma- 
gestade e muy affeigoado a sua nagam, e que elle, como seu filho 
herdeiro e sucessor, tinha a mesma vontade e affei^am, com outras 
muytas palavras de amor e benevolencia, em que mostrava o desejo 
que tinha de renovar a amizade. Do que o Emperc dor folgou muyto 
e disse ao secretario o que avia de responder, e elle acrecentou 
que folgava de que se Ihe offerecesse tam boa ocasiam de renovar 
a amizade, que seus antepassados tiveram com os antecessores do 
Gram Duque. E levando a carta ao Emperador, disse diante de mi 
que tirase isto, porque nam ouvera nunca dicer que seus antepas- 
sados tivesem communica^am com os Duques de Florencia. Re- 
spondeo o secretario que, ja que o Duque escrivia em aquella forma 
f- 45- por amizade, *que nam era nada que bem podia ir, e por isto o 
deixo passar. 

Nem tem forca nenhuma o que o Author alecfa paj?. 114, que "• Perperam ab 

^ ^ o r- o -r ^ Urreta allegatur au- 

Pero de Covilham portugues disse a Francisco Alvares, como elle ctoritasPrancisciAl- 



Io8 HISTORIA DE ETHIOPIA 

varez et Petri de Co- refer fol. 167 de sua Htstoria, que o Emperador de Ethiopia tinha 
^ ™' tam grande thesouro que podia comprar hum mundo com elle ; por- 

que de quanto encerravam nunca tiravam nada. Isto bem se deixa 
ver que he encarecimento e modo de falar, e que o podemos chamar 
muyto grande hyperbole com mais re<;am do que elle, tomando 
demasiada licen^a, pag. 113, chama hyperbole o que a Sagrada 
Escriptura dis das riquecjas de Salomam; porque nam foram as 
maiores do mundo. E todavia 42, Paral, i prometeo Deos de Ihe 
dar tantas riquegas que nenhum Rey antes nem depois delle Ihe 
fosse semelhante. « Sapientia et scientia data sunt tibi, divitias au- 
tem et substantiam et gloriam dabo tibi ita ut nuUus in regibus 
nec ante nec postea fuerit similis tui » ; e 3, Reg. 10 mostra a Sa- 
grada Escriptura que Ihe foi cumprida esta promesa, dicendo : 
« Magnificatus est igitur Salomon super omnes reges terrae di- 
vitiis et sapientia > ; e frey Luis antepoe a as rique^as de Sa- 
lomam e a as de quantos Reyes ouve e ha oje em o rnundo os 
thesouros que o Preste Joam tem em Guixen Amba, a que elle 
chama monte Amara sendo tudo tam fabuloso como acima temos 
mostrado. Nem Francisco Alvares diz que estava aquelle thesouro 
em Guixen Amba em as salas que o Author pinta, senam longe 
de alli em huma coba, perto da qual tinha suas casas Pero de Co- 
vilham. Nem avia la o thesouro que elle cuidava, senam cabayas 
de borcado, de velludo e damasco e outras pe<;:as ricas, que Ihes 
traciam aos Emperadores de Meca e do Cairo e alguns esquifes, 
como me affirmou o Emperador Seltan (^agued, a quem preguntei 
isto; e disse que tudo se queimou, quando veio aquelle mouro de 
Adel a quem chamam Granh ; nem as rendas de ouro foram nunca, 
nem sam oje tam grandes que os Emperadores pudesem athesorar 
muyto, como adiante veremos, quando trataremos dellas. 
XX. Elena impera- Tambem foi grande encarecimento o que a emperatriz Elena 

ad^e^emLus^niae ^^^^^ ^^ ^"^ ^^ carta, quc escreveo al rey dom Manoel de Portu- 
hsrperbolice loquuta gal, que, se quisese armar mil naos, ella daria os mantimentos e so- 

est de divitiis Reg^zn 

Aethiopiae. coreria em abundancia com tudo o que fosse necessario pera a ar- 

mada; e frey Luis Ihe acrecenta: pera tudo o tempo que durase a 
guerra, e diz que ella era avo do emperador David; mas enga- 
nouse, porque nam era senam molher do emperador Naod, cujo 
filho era David, mas bastardo, como pouco ha me disse o Empe- 
rador. E muyto mayor encarecimento foi o que escreveo este Da- 
vid, que depois se chamou Onag (^agued, em a carta que mandou 



i 



LIVRO I, CAPirULO IX. 109 

al rey dom Joam, que tinha ouro, homens e mantimentos como as 
areas do mar e as estrellas do ceo. Queria engrandecer as cousas 
f. 45.V. de sua terra, que posto que, muyto fertil, esta longe de le cuadra- 
rem *taes palavras; e pouco Ihe aproveitou depois aquella tam 
grande multidam de gcnte que decia, pois, entrando aquelle mouro 
Granh com exercito, Ihe tomou casi todas as torras e elle andou 
fugindo de huma parte a outra ate que morreo cm o reyno de Tigre, 
e se entam nam viera Dom Christovao da Gama com 400 Portu- 
gueses de socorro, os mouros se ensenhoreavam do imperio, sem 
aver quem Iho pudesse impedir. xa. Quid sit veri 

Ai j*/>T*jiTT^ 1A1 ineo quod affirmat 

cerca do que diz frey Luis de Urreta, que o emperador Alexan- urreta de nummis 

dre 3° que morreo o anno de 1606, bateo moeda como ovada e em cxcusis ab Alezan- 

dro: Auctor loqui- 

huma parte a imagem de s. Matheus e na outra hum liam com cruz na tur ex propria expe- 

mao etc, tudo foi falsa informacjam que Ihe deram; porque pri- "*"***• 

meiramente ja tenho declarado muytas veces que nunca ouve em 

Ethiopia Alexandre 3°, e que eu entrei em mayo de 1603 e o Em- 

perador se chamava Jacob; este era nome do bautismo e o do im- 

perio Malac (^agiied como seu pay, e, sendo elle menino, governava 

a emperatriz Mariam Cina e seu jenrro Eraz Athanatheus, o qual 

persuadio a todos os Grandes que era bem batir moeda, que antes 

nam se usava em Ethiopia, e come^aram por cobre. A figura era 

redonda e tam grande como hum veneciano ; em huma parte tinha 

gravada a imagem do emperador Jacob da cinta pera cima, com 

coroa na cabec^a, e da outra vanda seu nome, sem outra cousa 

nenhuma. Isto me disseram os que viram a moeda e hum dos [que] 

ficeram os cunhos e os abriram, que he hum orivez grego, que ainda 

vive ; e tam longe estavam em Ethiopia de gravar na moeda a ima- 

gem de sam Matheus que estranham muyto gravarse a de sam Mar- 

cos em os venecianos. Esta moeda nam quis receber o povo por ser 

de cobre, e assi nam se bateram mais que 3000 arrates de cobre, 

como me disse este Grego, que os fez pesar e isso ficou perdido: 

logo se tornaram ao antiguo, que he trocar humas cousas por 

outras, ou comprar com ouro pesado. 

Nam menos se enganou o Author, no que diz que se lavra ca 
prata e servia de moeda pera contratar com os mercadoures de outras 
na<;oes, porque nam se podia tirar ouro do imperio senam so prata. 
Milhor dissera que so ouro saia do imperio, porque com esto con- 
tratam com os mercadoures de outras na^oes, e prata nenhuma ha 
que possa sair, antes a tracem sempre comprada do porto dos Tur- 



HO HISTORIA DE ETHIOPIA 

cos ; e estes annos passados davam aqui por cinco patacas peso de 
ouro de huma dellas, ainda que o ordinario sam sete, nam porque 
faltem minas de prata, senam porque parece, que nam a sabem 
tirar, que ja provaram por veces, depois que eu vim, e era muyto 
boa alguma que me mostraram; mas dessistiram porque Ihes cu- 
stava muyto trabalho e tiravam pouca. 






f. 46. CAPITULO X. 

Em que se declara a causa porque se come^aram a 
meter os filhos dos Emperadores em Guixdn Amb& ; 
ate que Emperador durou este costume e como se 
guardam agora os descendentes de aquelles primeiros. 



A principal regam e causaporque Guixen Amba tem tam grande i. Filius impera- 
nome e de muytos tempos a esta parte foi tam celebrada, nam so fuh^primua^qui^fra- 
dos estrangeiros, mas ainda dos naturaes de Ethiopia, avendo nella tres suos in AmbA 

Guix6n custodien- 

outros lugares mais fortes c de nam menos commodidade pera se- dos misit. 
rem habitados, he porque este monte ou fortale^a (nam feita por 
arte senam polla mesma naturega), que esta em o reyno de Amhara, 
foi escolhida dos antignos Emperadores nam pera por nella em cu- 
stodia os malfeitores e enemigos, senam seus proprios filhos e ir- 
maos, que ate destes se arrecea o desejo de reynar. Mas pera que 
milhor se entenda isto, se ha de saber que o emperador Icunu Amlac, 
de quem ficemos men^am no fim do cap. 1, teve cinco filhos ou, 
como outros dicem, nove, e, estando pera morrer, Ihes encomendou 
encarecidamente que tivesem muyto amor e uniam entre si, e que 
cada hum reinase hum anno, come^ando o mais velho, e assi hiam 
facendo. Mas chcgando o imperio ao segundo, ou, como os que di- 
cem que eram nove irmaos, chegando ao septimo, se enfadou o 
mais piqueno, que se chamava Frehecjan, porque o Emperador e 



112 HISTORIA DE ETHIOPIA 

o que ja o tinha sido comiam sempre juntos em huma mesa, e como 
acavavam, se asentavam a ella os demais irmaos, mas nam Ihes per- 
mitiam labar as maos alli diante, senam que os obrigavam a sair 
fora do aposento a se labar e depois entravam a comer. Enfadado 
disto Frehe^an, disse a seus amigos: Eu nam he de facer desta ma- 
neira, senam, quando me cTiegar o imperio, prender todos estes 
meus irmaos e poUos em lugar de onde nam possam mais sair. Nam 
faltou quem dissese isto ao que era Emperador; pollo que mandou 
logo prender todos seus irmSos e, sabendo que Guixen Amba era 
muyto forte e acommodada pera os ter nella, porque os moradoures 
ja eram christaos e tinham la igrejas do tempo do emperador La- 
libela, que foi 70 annos antes pouco mais ou menos, os mandou le- 
var e dar la tudo o necessario abundantemente e que tivesem boa 
guarda, para que nam pudesem sair; e ainda oje ha em Guixen 
Amba gera<;am de Frehe^an, segundo me disse o emperador Sel- 
tan (J)agued, que foi hum dos que me contaram esta historia. 
a. Ez eo tempore Daquelle tempo ate o emperador Naod, que seram 212 annos 

usque ad Na6d vi- r • . . t^ • • 

guit ille mos. Filii pouco mais ou menos, sempre 101 costume meterem os Prmcipes 
Imperatorum pote- qjj^ Guixen Amba, e levavamos como checfavam a idade de *oito f. 46,v. 

rant nubere, lUis da- ^ 

batur cibus et potus annos, e por tempo multiplicaram tanto que chegaram a ser mais 
cunU ^rca. MaiK!i- ^^ quinhentos com molheres e filhos, porque sempre casaram e ti- 
piisutebanturadser- veram la cima suas molheres e filhos, como oje tem osque ficaram; 

vitia, commercium t..,. • ^j 

cum nobilibus et ho- nias a as nlhas nunca se Ihes prohibio sair a casar a sua vontade 
vedtum ^*^*"' *^^'* onde quisesem, porque os filhos destas nam podem herdar o im- 

perio, nem ainda os filhos das filhas do Emperador, porque, se elie 
nam tiver filhos varoes, ham de buscar depois de sua morte a quem 
perten^a o imperio por via masculina dos que estam fora de Gui- 
xen Amba, e se nam ouver, tirar algum dos que la estam. A estes 
Principes dicem que tinham prometido pera seus gastos a 3* parte 
das rendas do imperio, mas muyto pouco ouro Ihes davam, posto 
que mantimentos, pannos de algodam, mantega de vacas e mel pera 
comer e facer vinho tinham em abunduncia, porque senlioreavam 
muytas terras a roda de (Tuixen Amba, cujos moradoures os proviam 
de todas estas cousas abundantemente e tinham obriga^am de Ihes 
facer suas casas e cercas, mas terreas e cubertas de palha, como ja 
dissemos, e ainda barrerlhas e limpar tudo o que fosse necessario. 
A demais gente, de que se serviam, ordinariamente eram escra- 
vos, e nam podiam ter outros criados de nenhuma maneira; porque 
nam somente Ihes eram prohibidos os filhos dos homens grandes, 



LIVRO I, CAPITULO X. II 3 

mas ainda dos baixos, pera evitar o que podiam machinar em suas 
pretensoes, ajudandose pera com os de fora destes criados e de 
seus pays. 

Tinham posta muyto grande vigia e guarda, pera que nem os 3. A militibus ar- 
Principes pudesem decer daquella amba, nem pessoa nenhuma su- ^r.Duohomines^ 
bir sem espressa licenca do Emperador. Estas cfuardas moravam no biles, vocati AcahA 

, , , ,. AmbAet Xobhftrjan 

alto em huma casa que tem na porta da entrada (como dissemos cirAr, eoram curam 
no capitulo 6) e mudavamse de certo em certo tempo, decendo huns ?*'**>*^*» *™^° "® 

^ ' xr f imperabant. Bzem- 

e subindo outros, que estavam, nam .ao pe da Amba, que alli nam plum notabile aeve- 
ha, nem ouve nunca povoa^am, senam afastados como dous tiros 
de espingarda a longo de humas serras, onde Ihes tinham dado 
terras pera sua comedia, que se chamam Habela. Afora estes esta- 
vam alguns homens nobres, que por re^am de seus officios se cha- 
mavam Acaha Amba, Xobher Jan Cirar, a cujo cargo estava guar- 
dar o fato dos Principes, facer que se arrecadeusem as rendas de 
suas terras e que fossem providos de tudo o necessario a seu 
tempo, de maneira que nam ouvese falta em seu servi^o. A estes 
se davam todos os recados e cartas que vinham pera os Princi- 
pes, e depois das verem, as davam ou nam, como milhor Ihes 
parecia, e as cartas que os Principes escriviam tambem as aviam 
elles de ver, e, se Ihes parecia bem, as mandavam, e se nam, as 
rompiam. Era tanto o que sugetavam estes aos Principes que nem 
Ihes deixavam facer mudan^a em o vestido ordinario, e assi, vendo 
hum delles a hum Principe mais curiosamente vestido do que se 
usava, Ihe deo huma bofetada e reprehendeo asperamente, dicendo 
f 47. que aquilo mostrava bem que andava *com o cora^am inquieto 
e desejoso de reynar, e fezlhe tirar o vestido, Sucedeo todavia 
que, morrendo dalli a pouco o Emperador, foi aquelle principe 
escolhido; o que vendo o que Ihe deo a bofetada, se afastou 
com medo e vergonha do que tinha feito, sem se atrever a apa- 
recer mais diante delle; mas o Emperador, como se vio em sua 
cadeira, o mandou chamar e, vindo com grande medo, se Ihe lan^ou 
aos pes pidindolhe perdam do que com tam grande atrevimento 
ficera. O Emperador mandou que se alevantase e fez tracer ricos 
vestidos e huma manilha de ouro e com palavras brandas Ihe disse, 
que nam tivese medo, que sirvira muyto bem naquilo a seu senhor, 
que se vistise e pusese aquella manilha e tornase pera seu mando, 
porque esperava que o avia de servir a elle com a mesma fideli- 
dade que tinha sempre servido a seu antecessor. 

C. Bbccari. Rer, Aeth, Script, occ» iued, — II. 15 



114 HISTORIA DE ETHIOPIA 

4. ZAra jacob Correndo as cousais dos Principes em esta forma, chegou o im- 

omnes pertinentes P^rio a Zara Jacob, e nam sei porque se enfadou dos da familia 
ad familiam impera- ^^ emperador Hezb Inanh, que mandou que os tirasem daquella 

Bftda MarilLm resti- amba e os levasem a humas terras baixas muyto quentes e doen- 

tuit in pristinum 8ta- .. , /^iam-j.^ 2. j 

tum • sed illi rebel- ^'^^' ^^^ chamam Cola, scilicet ^ terra quente » , onde nam moravam 

lant. B6da MariAm senam viUoes, e disse que fossem Isrraelitas do Cola, que era tanto 

per fraudem expu- 

gnat Amba Guixto como dicer que Ihes tirava a nobre(;a dos IsrraeUtas, que decen- 
ratorum oit ^°]^I diam dos Emperadores, e os facia villoes. Sintiram elles muyto esta 
tit. injuria e a incommodidade e trabalho da morada, mas, como os le- 

vavam com boa guarda, nenhum se pode afastar ; e alli os tiveram 
ate que por morte de Zara Jacob entrou no imperio seu filho Beda 
Mariam. Este Ihes mandou dicer : Por bentura o filho nam perdoara 
aquilo, porque se airou seu pay? Tornai a vossa primeira mourada 
de Guixen Amba e nam tenhais paixam, que eu vos farei bem. E 
depois que entraram na amba, Ihes mandou preguntar por tres cria- 
dos, que visem o que queriam, que em tudo Ihes daria gosto e faria 
merce. Mas elles, que tinham ainda viva a memoria da injuria pas- 
sada e muyto mais o desejo de se vengar, nam ficeram caso do que 
Ihes ofFerecia, antes tomaram todos tres criados e os mataram e se 
ficeram fortes la cima, sem Iho poderem impedir as guardas que 
estavam descuidadas, por nam imaginar tal cousa, e elles eram muy- 
tos. Sabendo isto o Emperador, teve grande sentimento e acesso em 
ira determinou de destruir e acabar a gera<;am de aquella casa, e 
com este intento parteo logo pera la com muyta gente, e chegando, 
trabalhou muyto porque sua gente subise; mas os de cima, que 
entendiam bem sua pretensam, que era vengarse, defenderam com 
pedras a subida, que he muyto estreita e aspera, dc maneira *que f. 47»v. 
todos os do Emperador tiveram por impossivel a entrada, e assi 
elle, posto que com muyto desgosto, determinava de se tornar; mas 
em esto vieram huns moradoures da terra e disseram ao Empera- 
dor que elles mostrariam por onde se podia subir e, prometendo- 
Ihes grandes premios, mostraram huma entrada que chamam Me- 
stanquer, que a entrada ordinaria se chama Macaraquer, e ainda 
que por aquella parte he rocha tam ingreme que nenhum dos 
da cima se arreceava de que Ihes pudosem entrar, com tudo su- 
biram de noite, pegandose a as arvorecinhas e raices que saiam 
por entre as juntas das rochas, e pouco antes de amanhecer, deram 
de subito em os de cima, que, como estavam desarmados e sem ar- 
receio de tal asalto, facilmente os rindiram e levaram ao Empera- 



LIVRO I, CAPITULO X. II5 

dor. Elle entam mandou cortar as cabe^as a 80 e pus boas guarda[s] 
em a Amba e com isto se tomou. 

O terceiro Emperador depois deste Beda Mariam se chamou 5« Na6d, ultimus 

xTAjr-j j- !•• j ^ ^.A qui ad impcrium fuc- 

Naod, e foi o derradeiro que eligiram dos que estavam em Guixen ^t evcctus cx Amb& 

Amba. A causa disto dicem que foi, que entrando hum dia diante Guixftn, prohibuit nc 

" ^ 8U1 filii codem custo- 

p delle hum seu filho, disse: Ja este menino creceo. Respondeo elle: dircntur, ct cx co 

Creci pera Guixen Amba; o que magoou tanto ao Emperador que aimiT^vetus consuc- 
jurou de nam meter la mais a ninguem, e fez escomungar os Gran- ^^0 ccssavit. 
des, pera que, nem ainda depois de sua morte, nam metesem a nen- 
hum de seus filhos, mas que se gnardasem todos os que pri- 
meiro la estavam dos de Isrrael ; e assi o ficeram ate oje ; porque, 
ainda que, quando morreo o emperador Malac Qagued, que foi pollos 
annos de 1596, prenderam a seu sobrinho Za Denguil, nam o le- 
varam a Guixen Amba, senam a huma ilha que chamam Dec, que 
esta na lagoa de Dambia, e deram o imperio a Jacob filho ba- 
stardo do emperador Malac Qagued ; e depois no anno de 603 pren- 
deram a Jacob e o mandaram com guarda ao reyno de Narea, nam 
a Guixen Amba, e deram o imperio a Za Denguil ; e ao emperador 
Seltan Qagued, que oje vive, Ihe morreo hum filho de 20 annos aos 
24 de decembro de 616, e tem agora hum de 18 annos e outro de 
^ 1 7 e outros dous mais piquenos, e nenhum delles entrou nunca em 

Guixen Amba; sempre estiveram e estam em a corte com o Em- 
perador, por cessar este costume desde o emperador Naod, que ha 
114 annos que passou este de 1622. 

Ainda porem que daquelle tempo pera ca nam meteram em .6. Prognati tamcn 

^.yv.,/s ntx jt:» j ^j* j vcterum Imperato- 

Guixen Amba os nlhos dos Emperadores, todavia guardaram com ^^ adhuc in AmbA 
muyta dilicfencia os que primeiro la estavam ate o emperador Ata- Q*"»*i». ii», libcriori 

^ ^ ^ ^ ^ licetcu8todia,rclicti. 

naf Qagued, que primeiro se chamalva Glaudeos, scilicet Claudio, Tempore Auctoris, 
e comegou a reynar pollos annos de 1540. Este foi facendo pouco ^Vnumerabatur in- 
caso delles e nSlo Ihe dava nada quc decescm alguns da amba, e clusis uxoribus ct 
f. 48. estivesem em *algumas aldeas onde tinham suas comedias. Depois 
se foi alargando isto de maneira que a sos quince, que ficaram dos 
da familia do emperador Hezb Inanh, prohibem agora a decida, 
por se temerem delles. Todos os outros decem de ordinario em o 
inverno e estam em suas aldeas, porque em tempo de chuva he 
muyto trabalhosa a subida pera a gente de servi^o, que Ihes leva 
lenha e mantimentos etc; mas no verao tornam a subir por medo 
► dos Galas gentios, de quem falamos no capitulo i , que por alli par- 

ticularmente facem muytas entradas roubando e cativando molheres 



Il6 HISTORIA DE ETHIOPIA 

e mininos, que aos homens todos matam, e ainda algumas veces as 
molheres com grandes crueldades. Seram por todos os que estam 
em Guixen Amba, quando no verSo se juntam, 200, contando mo- 
Iheres e mininos, mas dicem que antiguamente eram mais de 500. 

7. Quae rctulit Isto he brevemente o que passa sobre o que propusimos no 

Auctor circa AmbA a_'^ 1 j ^ «^ i j • r j 

Guixto scivit a Sel- ^itulo deste capitulo, segxmdo a mforma^am que me deram os prm- 
t4n SagAd et a qui- cipes, que estiveram muytos tempos em Guixen Amba, e outros 

busdam Principibus a a 

qui longo tempore senhores da corte e o emperador Seltan Qagued, a quem, pera mais 
lanr Ei^"«"u°^^ »"« certificar. por ter muyta confianga pera falar com elle, Ihe pre- 
tae et Alvarez circa guntei de proposito as cousas principaes, dicendo que as queria 

originem consuetu- 

dinis praedictae. escrever, e as refirio da maneira que aqui as tenho escritas, concor- 

dando com o que os outros senhores me tinham dito. Por onde 
o que escreveo frey Luis de Urreta no cap. 1 2 sobre esta materia 
tudo he muyto contrario a verdade, por carecer della a informa- 
<;iam que siguio ; e pera que o leitor tenha mais particular noticia 
de suas cousas, refirirei algumas das muytas que alli conta, come- 
<;ando polla pagina 132, onde diz que o meter os filhos dos Em- 
peradorcs em o monte Amhara he costume tam antiguo que o in- 
stituyo el rey Josue neto de Salomam, filho de Menilehec, pera ti- 
rar as ocasioes de ambicpam, vandos e guerras civis, e que depois 
alguns Emperadores, enternecidos com o amor de seus filhos e for- 
^ados dos rogos das mays, deixaram hum pouco de tempo ; mas o 
emperador Abraham teve revela^am de Deos que restaurase o co- 
stume antigiio e tornase a por e fechar em aquelle monte os Prin- 
cipes heredeiros, se queria perpetuar o ceptro e monarchia em sua 
gera^am e estirpe de David. 

8. Ex dictis supra Bem se vee quam contrario he isto ao que temos dito, pois tan- 

tos centos de annos depois dos filhos de Menilehec se come^aram 
a meter em Guixen Amba, a que elle chama monte Amhara, os fi- 
Ihos dos Emperadores; nem Menilehec teve filho que se chamase 
Josue, como se pode ver em os catalogos dos Emperadores, que pu- 
simos no cap. 5; nem em todos elles se acha Emperador que se 
chame Abraham, nem ha quem saiba dar re^am delle, senam quise- 
rem dicer que Abraha e Abraham he tudo hum. Mas ainda que 
fora assi, este Abraha foi tambem muytos centos de annos antes 
do filho do *emperador IcQnu Amlac, que come^ou a meter os prin- ^- 48,v. 
cipes em Guixen Amba. Bem sei que Francisco Alvares em sua 
Iltstoria Ethiopica fol. 66 e 73 diz que a hum emperador Abra- 
ham Ihe foi revelado que metese em huma serra todos os Princi- 



LIVRO T, CAPITULO X. 117 

pes, excepto o que ouvese de herdar o imperio, e nam sabendo que 
serra podia ser aquella, Ihe foi outra vez revelado que ficese olhar 
pollas serras mais altas, e que onde visem andar cabras do mato 
como que se despenhavam alli era a serra onde os Infantes de 
Ethiopia se aviam de guardar; e mandando buscar a serra, achou 
ser aquella que he tam grande que tem bem hum homem que su- 
bir dous dias do pee ate o alto, toda ella penha talhada e tam 
dereita e alta que, quando homem vai pollo pee e olha ao alto, pa- 
rece que o ceo esta sentado sobre ella. Atc aqui Francisco Alva- 
res; e mais adiante fol. 77 diz, que no alto daquella serra se facem 
outras serras e montes, que sam causa de que aja alguns valles, 
entre elles hum entre duas asperissimas serrcis, que em nenhuma 
maneira se pode sair delle, porque esta fechado com duas portas, 
e em este valle metem aquelles que sam mais chegados ao Empe- 
rador, como sam irmaos, tios, sobrinhos e os demais que ha pouco 
que estam fechados, pera que alli estejam com mayor resguardo. 

Toda esta historia he apocrifa, porque nem ouve tal empera- 
dor Abraham, nem os Principes se meteram em aquella serra por 
revela^am, senam polla causa que ja dissemos, nem metiam la pri- 
meiro sos os principes que nam aviam de herdar, senam tambem 
o herdeiro; nem estiveram nunca em valle, senam em o alto de 
Guixen Amba, que nam he serra como elle a pinta, senam como 
a descrevemos em o capitulo 6. Mas nam he maravilha que errase, 
porque, como era estrangeiro e hia tam de passo e com tanto tra- 
balho, como elle diz, por aquelles caminhos, nam se podia infor- 
mar tam en particular das cousas, nem examinar tanto como era 
necessario as rela<;oes que Ihe davam; que, ainda que fossem al- 
gumas tiradas dos livros da terra, pediam muyto examem, por esta- 
rem casi todos cheios de patranhas. 

Diz mais frey Luis de Urreta pag. 133: « Juntanse estes Prin- 9. Alia commenta 

Urretae risu diena. 

< cipes, siempre que quieren, a jugar, ca^ar, pescar y entretenerse 
« en lo que mas les da gusto; pero de obligacion se han de juntar 
« todos pera oyr missa los dias de fiesta, y los demas officios di- 
« vinos; a la qual junta no pueden faltar sino por enfermedad, y 
« el orden que en esto guardan es el siguiente. Ay una sala de- 
« putada para este ajuntamiento muy espaciosa y ricamente ador- 
« nada de panos preciosissimos y colgaduras de grande valor, y 
« quando ja estan todos los Principes juntos, salen en orden ha- 
« ciendo una procesion desta manera. Van cuatro maceros delante 



Il8 HISTORTA DE ETHIOPIA 

« con mantos de damasco negro todos muy plegados *al cuello y f. 49. 
« tan largos que les rastran por el suelo con grandes faldas y co- 
« las, las mangas largas hasta el suelo, que llaman mangas de punta, 
« Uevando alos hombros sus ma^as de oro. Despues se sigue un 
« mancebo vestido de damasco hecho a girones de negro y ama- 
« rillo: la ropa le Uega hasta media pierna, con una almohadilla en 
« las manos, y sobre ella una corona de oro forrada de raso a^ul, 
« para dar a entender con esta insignia que todos aquellos princi- 
« pes son del linage y descendencia de David y aptos por ser ele- 
« gidos por Emperadores. Luego se siguem de dos en dos los Prin- 
« cipes, Uevando los mayores en edad el mejor lugar, que es la 
« mano derecha, vestidos de negro, cada uno con su cruz a^ul al pe- 
< cho y cairelada con un hilo de oro por las orlas. La cruz es el 
« Tau de s. Anton con unas florecillas, y un bonete de clerigo en 
« la cabe^a de cuatro picos ; y esto se usa desde Paulo III, que lo 
« mando, que antes los Uevavan redondos, que es el habito delos 
« comendadores de s. Anton. Detras de ellos se siguen todos los 
« pages y criados, los quales son todos gente principal hijos de 
« Reyes, y despues la demas gente. Con este orden caminan para 
« la iglesia del Sp." S.'°, a cuya puerta esta aguardando el Abad 
« espiritual de aquella abadia, vestido de pontifical, con el baculo 
« pastoral en la mano, y un cavallero militar junto a el con un 
« estoque desnudo ; que este modo de assistencia es ordinario a los 
« Abades espirituales ; y echandoles a todos los principes agua 
« bendita, entran en la iglesia, puniendose el Abad a la mano yz- 
« quierda del mas anciano de los principes, con el qual se hacen 
« las mismas ceremonias en el discurso de la missa que se aco- 
« stumbran a hacer con el Emperador ». 
10. Iterum alia. Mais adiante diz que os monges de aquella abadia, que sam 

1500, tem cuidado do insino dos Principes e do governo de seus 
pa^os e criados, os quaes poem e tiram a sua vontade e, pera mi- 
Ihor acudir a este ministerio, sincilam cada semana cuatro de los 
monges que tem cuidado de assistir e acudir ao servigo dos Prin- 
cipes, mandando o que se ha de facer; e que cada hum dos prin- 
cipes tem dez criados pera o servi^o ordinario de sua pessoa, e sam 
filhos ou descendentes dos Reys vassallos do imperio, e tem obri- 
ga^am de servir alli hum anno, aos quaes escolhe o Abade espi- 
ritual, e acabado o anno, se tornam a suas abadias onde residiam 
e Ihes *deram a cruz; mas cada hum com huma muyto boa joya f. 49,^. 



futantiir. 



LIVRO I, CAPITULO X. II9 

que os Abades espiritual e militar de s. Cruz, juntamente com o 
Principe a quem sirviram, escolhem do thesouro das pedras pre- 
ciosas, conforme aos servigos de cada hum; e como estes decem 
de cima, sovem outros dez a servir ao Principe. Sem estes criados, 
estam em sua companhia algumas pessoas graves, sinaladas em 
conselho, letras e virtude, embiadas por o Emperador e seu con- 
selho, de cuja discre^am e virtude se aproveita o Principe. 

Estas e outras muytas cousas diz alli o Author, que, se foram n. Breviter re- 
certas, eram de grande policia e governo, suposto que aviam de 
ter alli os Infantes; mas tudo he mera fic^am de quem Ihe infor- 
mou, porque primeiramente, como dissemos no cap. 6, la cima do 
monte nam ha animaes de ca^a, excepto huns que nos chamamos 
coelhos, por se parecerem com os de Portugal, e estes ninguem os 
come, e tambem bugios ; nem ha peixe nenhum. Por onde os Prin- 
cipes nam se podem juntar pera ca(;:ar e pescar, nem menos se jun- 
tam pera ir a missa em aquella sala, que pinta tam ornada com 
pannos ricos, porque nam ha tal sala, e quando muyto dous da- 
quelles Principes, se sam amigos, vam juntos a missa, e se nam a 
quiserem ouvir, ninguem Ihes preguntara o porque : tam longe estam 
de ir a missa por obriga^am em aquella tam bem ordenada proces- 
sam que fingio Joam Balthesar. Nem levam cruz a^ul no peito, 
nem paiece que se vio nunca em Ethiopia varrete de cuatro can- 
tos, quanto mais tracello elles em a cabega. Huns poem touca, outros 
varrete redondo ou que acabe acima em ponta, da cor que acham ; 
e mais ordinario he andar com a cabe^a descuberta e o cavello 
cumprido. O vestido comummente he branco de algodam ; . e nam 
se sirvem de filhos de reys, senam de escravos, como acima disse; 
nem sei onde aviam de achar tantos filhos ou descendentes de reys, 
se cada Principe avia de ter dez e cada anno Ihe aviam de dar 
outros novos. 

Do que se ve quam grande fabula seja que, cumprido o anno, 
se juntam os Abades espiritual e militar da abadia de s.** Cruz com 
o Principe a quem sirviram e vam a sala do thesouro das pedras 
preciosas e dam a cada hum a sua conforme a seus merecimentos; 
pois nam ha taes criados, nem ouve la nunca thesouro nenhum, nem 
abadia do Sp.'° S.'**, nem da s.^'' Cruz, nem ha tal religiam de 
f. 50. Cavaleiros Monges e militares de s. Antani; *nem de outros frades 
ouve la cima nunca mais que quando muyto 14 e 30 clerigos, como 
fica declarado tudo no cap. 6, septimo e 9. 



I20 HISTORIA DE ETIIIOPIA 

la. Faisum deni- Em o fim do cap. 12 pag. 139 diz mais o Author que esta pro- 

que mulieres nullas •• • • -i . . , n ji 1 

subiisse unquam hivido com gravissimas penas que nenhuma molher, de qualquer 
Amb& Guixftn. estado ou condicjam que seja, possa subir a este monte, e que nam 

subio nenhuma desda reynha Candace, que foi em tempo de Christo, 
que subio a bautizar os Principes que la estavam; e refuta Fran- 
cisco Alvares, porque disse que os Principes estavam la cima do 
monte casados com filhos, os quaes tambem casavam, porque Joam 
Balthesar falava como testemunha de vista, que fora criado do em- 
perador Alexandre 3°, que morreo anno de 1606, quando, sendo prin- 
cipe, estava em o monte, e depois subio e residio muytas veces nelle. 
Porem Francisco Alvares escreveo a certe^a do que entam passava 
e dura ate agora, porque he cousa patente e sabida de todos em 
Ethiopia, quc os Principes, que se guardavam em Guixen Amba, 
casavam e seus descendentes sempre casaram e tiveram e tem suas 
molheres e filhos la cima, como ja dissemos. Tambem falou como 
quis Joam Balthesar em o que disse que sirvio ao emperador Ale- 
xandre 3°, que morreo o anno de 1606, que, sendo principe, estava 
no monte, porque nunca ouve em Ethiopia mais que hum Empe- 
rador deste nome, a que elles chamam Escander, e este morreo 
pollos annos de 1475, tanto tempo antes que nacese Joam Balthe- 
sar; pois diz o Author pag. 7, que, quando chegou a Europa e Ihe 
deo estas informa^oes, caminhava pera os 70, e ainda o derradeiro 
principe que tiraram daquelle monte pera Emperador, que se cha- 
mou Naod, saio de la algxms 50 annos antes que nacese Joam Bal- 
thesar; porque de entam ate os annos de 610, que se imprimio o 
livro de frey Luis, sam 118 annos. Eu tambem entrei em Ethiopia 
em mayo de 603 e nam achei tal Alexandre, como declarei em 
o cap. i^, mostrando quantas veces se contradiz no que poUo di- 
scurso da historia fala de Alexandre 3°. Nem os Principes se po- 
diam servir la de pagens como Joam Balthesar, senam de escravos, 
como fica declarado no capitulo. Nem ha pera que determe em re- 
futar o que diz que a reynha Candace subio a bautizar os Principes ; 
pois tenho mostrado no fim do cap. i e do 7, que o primeiro que 
os comegou a meter naquelle monte foi Udm Arad poUos annos 
de 1295, 



r 



f. 5o,v. CAPITULO XI. 

£m que se trata do modo que tinham antiguamente 
em Ethiopia em eligir Emperador, escolhendo hum 
dos Principes de Guix^n Ambli, e do que agora 
se usa. 



Mu)rto grandes e bem ordenadas foram as cousas que frey Luis i. Refemntur fa- 

«TT^j* j • ••jij. bulae Urretae circa 

de Urreta disse que se guardavam em a cnacjam e insmo de lotras clectionem impera- 
e bons costumes dos Principes, que estam em Guixen Amba, como torum eiusdemque 

caeremonias. 

vimos no capitulo precedente. Mas muyto maiores e de nam menor 
concerto sam as ceremonicis, que affirma em o cap. 1 3 se giiardam 
em a elei^am do Preste Joam emperador de Ethiopia, porque, como 
elle diz pag. 141, « Entre los de la EthiopiH, la dignidad imperial se 
« da por sucession y juntamente por eleccion ; la qual se hace con 
« tanta christiandad y virtud, que mas parece eleccion de prelado 
« entre religiosos que no eleccion de Emperador entre seculares. 
« Cuyo estilo, observancia y ceremonias vera el que me acompa- 
« iiare en este capitulo. 

« Concluidas las obsequias del Emperador precedente, aviendo 

« encomendado el alma a Dios y el cuerpo a la tierra, se da luego 

« orden a la futura eleccion del Emperador, para la qual se publica 

w € ayuno por todo el imperio de 30 dias continuos, a los quales 

« estan obligados por costumbre no solo los ecclesiasticos, sino tam- 

C. BKCiAlu. /frr. Ae/A. Script, occ, ined, — II. lO 



122 IIISTORIA DE ETHIOPIA 

« bien los seculares de qualquier estado y condicion que sea. Estos 
« dias de ayuno comien^am del dia que se publica la niuerte del 
« Emperador y por todos estos 30 dias se canta por las iglesias del 
« imperio, que son innumerables, missa del Spiritu S.*** . Entre tanto 
« el gran Consejo, el qual, mientras dura la vacante, tiene todas las 
« veces y poder absoluto sobre todo el imperio, ordena que cuatro 
« Reyes de los sugetos al imperio vajan al monte de Amhara, los 
€ quales con tres Patriarchas, tres Ar<;:obispos y tres Obispos y los 
« embaxadores de los otros Reyes assistan en la eleccion. Los qua- 
« les no pueden aloijar en ciudad, ni pueblo alguno, sino baxo de 
« sus pavellones y tiendas, aunque las ciudades circunvecinas les 
« embian todo lo necessario para su comida y de la gente que va 
f en su compania con mucha abundancia y regalo. En llegando al 
« monte Amhara, se alojan baxo sus pavellones y estan aguardando 
« que esten juntos todos los que son necessarios y tienen officio en 
« la tal eleccion. Entretanto los dos *Abades espirituales de las dos f. 51, 
« abadias del monte, que son los electores del Emperador, baxan 
« a recibir, visitar y regalar a los del Gran Consejo, Reyes y Per- 
« lados, que estan al pie del monte, y han ido para la futura elec- 
« cion. Juntos todos los que estan obligados a assistir, el embaxa- 
« dor del gran Abad o Maestre de la orden de santo Anton senala 
« el dia competente para la eleccion del Emperador. Entretanto to- 
« dos los Perlados, Ar^obispos y Obispos cantan missas del Spiritu 
« Santo en los pavellones, dando la comunion no solo a los electo- 
« res, sino tambien a todos los que quieren del pueblo. Cada dia 
« de mafiana y de tarde predican, exortando y amonestando a to- 
t dos que con lagrimas y oraciones pidan a Dios les de a los elec- 
« tores su espiritu, favor, gracia y sabiduria para que elijan per- 
« sona tal qual conviene al bien espiritual y temporal de todo el 
« imperio ; y este estilo de comulgar y predicar se guarda por toda 
« la Ethiopia hasta que llegan las nuevas de la eleccion del Em- 
« perador. 

« Llegado el dia senalado, en que se ha de hacer la eleccion, 
- confiessan y comulgan en la abadia del Sp.'" S.*'' los principes 
^v del linage y estirpe de David, de los quales se ha de hacer la 
<^ eloccion para Emperador. Dcspues de aver comulgado, los llevan 
> cada uno a su palacio y en el los encerran como en conclavi, de 
<i tal suerte que nadie los puede hablar, ni ver, ni ellos recebir, ni 
'^ embiar recaudo alguno ; y para esto ay muy diligente y vigilante 



LIVRO I, CAPITULO XI. 123 

♦ guardia. Encerra-dos los Principes, los quatro Reyes, Abades y 
« Embaxadores, Perlados y parte del Gran Consejo, que estavan 
« baxo de pavellones a pie del monte, suben a lo alto a la abadia 

« del Sp.*"* S.*** y estando en la iglesia los cuatro Reyes, se visten 

j 

I « un habito largo hasta el suelo de color a^ul con una cadena de 

^ « oro pendiente del cuello y della colgando un joyel de oro, que 

4 es la figura del apostolo s. Mateo, y sus coronas en la cabega 
« se asientan en un lugar alto, que tienen aparejado para este efecto 
« al lado del Evangelio; y al lado de la Epistola se asientan un Pa- 
« triarcha, un Argobispo y un Obispo vestidos de pontifical, los 
« quales tienen delante una mesa y en cima della un libro de los 
« evangelios; y junto a estos asientos estan los del Gran Consejo con 
f. 5'»v« « los otros perlados, y detras dellos los embaxadores de los *otros 
« Reyes, conforme a la dignidad y antiguedad de cada uno. Este 
« mesmo orden guardan los cuatro Reyes a los quales segun su an- 
« cianidad asignan los lugares ; el qual cuidado incumbe a los Aba- 
« des espirituales de las dos abadias del monte, y estos dos Aba- 
« des, que son los electores, estan en medio de la iglesia en sus 
« asientos en compania de los dos Abades militares y de doce con- 
« sejeros de las abadias. 

^ « Quando todo esto esta hecho y sentados todos en sus luga- 

« res, entra el embaxador del gran Abad y, sentandose en una silla 
« alta dos grados en medio de los perlados y Reyes, les hace a 
« todos una breve platica acerca de la eleccion. Acabada esta pla- 
< tica, el Patriarcha, que esta a la parte de la Epistola junto al altar, 
« hace cantar un hymno em lengua chaldea, que es casi el mismo 
« que canta la iglesia latina del Sp.'" Santo, * Veni, creator Spi- 
« ritus '. Concluido el hymno, Uama a los dos Abades espirituales 
« del monte y haciendoles jurar sobre el libro de los evangelios, 
« que tienen abierto sobre la mesa, que responderan segun su con- 
« ciencia- y que en la vocacion del Emperador miraran solo al ser- 
« vicio de Dios, al pro ccmun del reyno, sin interes ni passion, ni 
« afi^ion, les pregunta quantos principes de la casa y linage de Da- 
« vid ay en el monte y que edad sera la de cada uno, que incli- 
« naciones son las suyas, en que virtudes se senalam mas, que 
« defectos son los de cada uno, que mas puedan ofender al bien 
« comun del imperio, y abiendo respondido a todo, se arrodillan 

W « en tierra los Abades espirituales y el Patriarca, al<?ando la voz, 

« les dice: Padres, vosotros, que, como confessores, como ayos y 



124 HISTORIA DE ETHIOPIA 

« maestros, que aveis tenido officio de padres espirituales y tem- 
€ porales, governando y ensenando a estos principes, conoceis y sa- 
« beis sus naturales inclinaciones y costumbres, y entendeis las ne- 
*: cessidades que al presente se ofrecen en el imperio y juntamente 
« deseais su remedio, nombrad entre ellos el que os parezca mas 
« idoneo y apto para el govierno del imperio y para mayor ser- 
« vicio de Dios y bien de todos nosotros. 

« Concluida esta habla, el Abad del Sp '" S.*° dice : Fulano 
« tiene estas prendas, se sefiala en tal y en tal virtud, y assi me 
« parece digno de tal dignidad y merecedor de la corona y cetro 
« de toda la Ethiopia, y como a tal le nombro por Emperador. Y 
« si el otro Abad, que esta a su lado, que es de la *abadia de la f. 52. 
« Cruz, es del mismo parecer, ipso facto esta hecha la eleccion en 
« el principe nombrado ; y si a caso no concordasen estos dos Aba- 
« des (lo qual nunca ha sucedido), passa la eleccion a los otros dos 
« Abades militares de las abadias del monte con los doce cavalle- 
« ros de su consejo ». 
a.Itenimaliacom- Ate aqui sam palavras do Author, e pouco mais adiante diz 

inenta Urretae. 

que guardam tal christandade, tanta virtude e religiam em suas 
elei^oes que nunca ouve vandos, nem pretensoes, nem cismas, nem 
parcialidades ; e que, como os Emperadores sam de tantas virtudes, 
os de Ethiopia Ihes sam tam obedientes que nunca entre elles ouve 
tredos nem homicidas e agressores contra seus principes. E pag. 1 46 
diz, que, feita a elei^am e nomeado o principe que ha de ser Em- 
perador, vam os dous Abades eleitores onde tem ao principe re- 
colhido e o vestem com o habito dos cavalleiros de s. Antam e o 
levam a igreja do Sp.*° S.'*', onde estam os outios eleitores, e de- 
pois de muytas ceremonias Ihe poem huma rica coroa de ouro na 
cabe^a e dam na mao o coptro, que he huma cruz de ouro, que 
entre todos os reys e monarchas do mundo nenhum leva cruz por 
ceptro senam o Emperador de Ethiopia. E por aqui vai contando 
tantas cousas que se [se] ouveram de referir, fora multiplicar muyta 
escriptura e cansar ao lector com o que he muyto alheo e diiFe- 
rente do que em Ethiopia se usa. Com tudo, porque no fim do 
cap. pag. 151 poe algumas cousas, que, se foram certas, faciam 
muyto pera o que principalmente pretende em sua Historia, que he 
provar que os de Ethiopia sempre foram e sam muyto obedientes 
a s.''' Igreja romana, e nunca admitiram doctrina contraria a sua, 
as referirei por suas mesmas palavras, que sam as siguintes: 



LTVRO I, CAPITULO XI. 125 

« Acabada la platica, el Patriarcha, llegandose al Emperador, 
« tomandole juramento, le dice : Jurais de guardar todas las leyes 
< divinas y de procurar que se guarden por todo vuestro imperio ? 
« Jurais de guardar los cuatro concilios generales Niceno, Ephesino, 
« Chalcedonense y Constantinopolitano ?, y jurais de guardar el con- 
« cilio Florentino celebrado por Eugenio 4°[?|. Jurais de guardar la 
f. 52,v. « observancia e obediencia *a la s.^* romana Iglesia de los apo- 
« stolos s. Pedro y s. Pablo? y jurais de guardar las constituciones 
« e estatutos del emperador y senor Juan el Santo y Phelipe 7°[?]. 
« A todo lo qual el Emperador jura como le esta demandado ». 

Depois de Ihe dar este juramento, diz que se alevantam todos 
e levam ao Emperador em procissam poUa crasta cantando hymnos 
e psalmos, e tornando a entrar em a igreja, se asenta o Emperador 
em seu throno, e todos os outros em seus lugares com o mesmo 
ordem que antes estavam, e os seis do magistrado com os Abades 
e seu conselho vam a tracer os outros principes dos pacjos onde os 
tinham fechados e, vestidos com o habito dos cavalleiros de s. An- 
tam, vem a igreja, e quando entram, se alevantam todos e Ihes fa- 
cem reverencia, e elles de dous em dous vam onde esta o Empe- 
rador e Ihe beixam a mao e juram fidelidade e obediencia. Logo 
os 4 Reys facem o mesmo e depois delles todos os prelados e em- 
baixadores conforme a dignidade e antiguedade de cada hum. E 
concluido este juramento, se recolhe o Emperador aos aposentos 
do Abade daquella abadia, Ihe dam de comer e descansa o que fica 
daquelle dia e dorme aquella noite. 

Com isto acava o Author o cap. 13, onde, como temos visto, 3. Electio Impera- 
diz sobre a eleicjam, a jura e coroa^am do Emperador tantas cousas, b^C^st^^ln "Guixftn 

mas casi nenhuma dellas he conforme, nem tem que ver com o que AmbA neque eam 

praeceasit ieiunium. 

se acostuma em Ethiopia ; porque primeiramente nunca em Guixen 
Amba se juntaram pera a eleigam do Emperador, nem la o jura- 
ram, nem coroaram, nem ha mais ceremonias que as que logo di- 
remos, nem se pubricam os 30 dias de jejum que diz, nem pregam, 
nem ha rey nenhum sugeto ao imperio, mais que o de Dancali, que 
he mouro e nunca veio a corte mais que huma vez, pouco tempo 
ha, a pedir socorro ao Emperador, porque outro seu parente o des- 
varatou em batalha e se apoderou do reyno; mas o Emperador Ihe 
deo gente com que o tornou a recuperar. Tambem antiguamente (se- 
gundo dicem) era sugeto el Rey de Dequin mouro, que agora o 
nam he, so corre com amizade ; e a estes nam aviam de meter na 



126 HISTORIA DE ETHIOPIA 

elei^am, pois sam mouros, nem os que ouvese gentios, nem o que 
ate oje ficou do reyno que chamam Zenyero entra, que he gentio. 
E tambem frey Luis de Urreta mostra que os Rey[s], de quem fala, 
sam christaos, porque diz pag. 1 6 1 que os que levam a cada Rey 
diante *do Emperador pera que jure, dicem : Senhor, eis aqui el f. 53. 
rey de tal reyno, que vem a vos jurar fidelidade e obediencia, diz 
aver vivido catholicamente e que ha guardado puntualmente o sacro 
concilio florentino etc, e que todos juram desta maneira. Mas agora 
nenhum rey christao ha mais que o do reyno de Narea, que avera 
32 annos pouco mais ou menos este de 622 que o emperador Ma- 
lac Qagued foi la com exercito e o fez christao, e este nam vem. 
Se antignamente os avia nam sabem dar re^am. 
4. Numquam Re- Enganouse o Author por Ihe parecer, ou por Joam Balthesar 

ges alii interfuerunt 1« a^ r% • ^r* 

electioni, neque Ar- ^"® affirmar, que eram Reys os que nam sam mais que Vissorreys ; 
chiepiscopi et Epi- e assi diz pag. 162 que aos que Francisco Alvares em sua Historia 

scopi, quia unu8 Bpi- 

scopus in tota Ae- chama Vissorreis nomea elle Reys, porque o sam verdadeiros, e assi 
nec^miquam ^^v^- ^ reyno se herda de pays a filhos, e se o Emperador priva a al- 
triarcha. gfuni do reyno, sucede o filho ou o parente mais chegado. Mas nam 

ha tal cousa, porque o Emperador tira a todos quando quer, e muy- 
tas veces sem estarem tres annos, e poe outros, que nem sam seus 
filhos nem parentes, como eu tenho visto muytas veces. Nem achei 
quem disese que entrasem nunca Reys, nem no livro, que elles tem 
muyto antiguo das ceremonias, que ham de guardar e dos que por 
obrigaQam se ham de juntar a coroar o Emperador, se acha feita 
mengam de Rey nenhum, nem de Patriarchas, Argobispos, nem Bi- 
spos ; que em Ethiopia os nam ha mais que o prelado que Ihes vem 
mandado pollo Patriarcha de Alexandria, a quem chamam Abuna, 
que he nomem arabio e quer dicer « Padre nosso » ; nem este he 
Patriarcha, segundo me disse o abuna Simam, que mataram pouco 
tempo ha, como adiante diremos ; a quem entre outra^ cousas pre- 
guntei se era Patriarcha, e respondeo que nam, senam Bispo e que 
nem seus antecessores tiveram nunca tal tittulo. 

Este Abuna so he o que da ordens; mas o anno de 16 15 Ihe 
fez demanda hum frade, que he como Geral da religiam que cha- 
mam de Taquela Haimanot, scilicet «: planta da fe » e se intittula 
Ichegue, dicendo que a elle pertencia dar as ordens, e ao Abuna 
bencer os olios; e dando o Emperador juices, depois que cada hum 
alegou cumpridamente de sua justicja, julgaram que so o Abuna 
podia dar Ordens; o que declararemos mais em o livro 2°, onde tra- 



LIVRO I, CAPITULO XI. 127 

taremos do modo com que da as Ordens e dos Ar^obispos e Bi- 
spos que Ihe meteram em cabega a frey Luis de Urreta que avia em 
f 53»v. Ethiopia. Quanto aos Abades espirituales e militares *da Ordem de 
s. Antam, ja disse no fim do capitulo precedente e do 7°, como em 
Ethiopia nam ouve tal modo de religiam, e o veremos cumpridamente 
no fim do 2^ livro. 

Acerca do que diz que em as elei^oes dos Emperadores nunca 
ouve vandos, nem cismas, nem parcialidades, nem tredos, nem ho- 
micidas e agressores contra seus principes, ja vimos no capitulo 5 
como os da familia de Zagne tiveram usurpado o imperio 340 annos, 
e adiante veremos quantas revoltas, parcialidades e alevantamentos 
ouve em Ethiopia particularmente de 60 annos a esta parte. 

Em o que diz, que entre todos os Reys e monarchas do mundo 5. Imperatores 

i_ 1 . T- j j T^^i_« • a. praefcnmt Cnicem 

nenhum leva cruz por ceptro senam o Emperador de Ethiopia, tam- ^^^^ ^^ sccptmm sed 
bem se enganou muyto, porque nam tracem a cruz por ceptro (nem ^^ insigne diacona- 

tU8. 

cuido que souveram nunca que cousa era ceptro), senam pera mo- 
strar que sam diaconos ; que estes e os sacerdotes tracem de ordi- 
nario cruces em as maos como de hum palmo e meio de cumprido, 
as mais de ferro. Estas ordens de diacono tomam os Emperadores 
e homens grandes somente pera poderem entrar a comungar e ouvir 
missa onde a dicem, porque os que nam tem ordens todos ficam fora 
no alpendre, que tem a rcda da igreja, sem ver o que se faz dentro, 
porque estam humas cortinas diante e alli Ihes tracem a comunham. 

Mas vindo a cousa mais essencial que o Author refer em este 6. Nequc iurant se 
capitulo sobre o juramento que da o Patriarcha ao Emperador, que Slla^una^cuin Flol 
guarde os 4 concilios geraes e o florentino e a obediencia a santa '«»*»»<> observatu- 

ro8. Contumcliae 

Igreja romana, digo que prouvera a divina misericordia que assi quaccontraCalcedo- 
o ficeram e guardaram, porque nam se perderam tantos milhares S^^^^SbitS 
de almas, como por falta disto ate oje se perderam e se ham de Masaquftbt Haima- 

n6t ct aliac contra 

perder, se sua divina Magestade nam aplacar sua ira e Ihes der g. Lrconcm Papam in 

particular gracja pera que se sugetem a sua s.*^ Igreja romana e a •^*** At^!ujb6^*** "**" 

doctrina que ella insina. Porem nam se da tal juramento ao Em- 

perador de nenhuma maneira, nem no livro, que tem das ceremonias, 

que usam na coroagam do Emperador, se faz men^am de tal jura- 

mento ; e por ser esta cousa de tanto momento, nam me contentei 

com a preguntar a muytos velhos e senhores grandes, senam ao 

mesmo emperador vSeltan (^agued que oje vive; e me disse que nam 

se dava aos Emperadores tal juramento, nem a elle Ihe deram nen- 

hum ; mas que, quando ouvese dous competidores em o imperio, o 



iz8 HESTORIA DE ETHIOPIA 

que o levase avia de jurar de cumprir as condi(;oes que concedese 
a seu competidcr. E mais como aviam de facer jurar ao Emperador 
que guardase o concilio chalcedonense, se elles nam o admitem, *an- i 
tes falam delle com palavras tam alheas de christaos que o chamam 
concilio de Judeos?; e em hum livro que elles intitulam Mazaguebt 
Haimanot, que quer dicer t Thesouro da fe > , falando deste concilio, 
diz assi: * Juntaramse mestres parvos 630 com vanagloria e soberva 

* querendo ser dobrados que os 318 justos da fe 1; e pouco mais ad- 
iante diz: « Tiraram huma palavra da fe de Nestor, que pus duas 
1 pessoas em Chisto, huma do filho de Maria e outra do filho de Deos, 
« e disseram que polla uniam se ficeram huma pessoa. Isto disseram 

* polla escomunham do patriarcha Cyrillo e compuseram das pala- 
« vras do patriarha Cyrillo e das palavras de Nestor e assi disse- 
« ram Christo huma pessoa, duas vontades, duas naturcpas, duas 
« complacencias da divindade e da humanidade. Disseram que a 
t divindade faz obras de divindade, c a humanidade obras de hu- 
« mantdade por dous caminhos: hum obra maravilhas e outro pa- 
t dece infirmidades, e por isto he menor a humanidadc que a di- 
t vindade >. 

Ate aqui sam palavras daquelle livro, em que quercm mostrar 
que se juntaram deproposito muytos no concilio chalcedonense, pera 
com forija desfacer o que os Padres do concilio niceno tinham de- 
terminado, como se alli se tratara das duas natureijas, duas vontades 
e duas opera^oes em Christo, e ccmo se isto fora erra na fe, que 
elles affirmam que o he; o por esta re<;am falam de s. Liam papa 
com palavras muyto torpes, dicendo que foi como Lucifer; e em 
hum livro, que chamSo Haimanot Abbo scilicet * fe dos Padres > , diz 
Theodosio patriarcha de Alcxandria cap, 2 estas palavras : « Nam 
afastamos como aquelle enemigo Liam maldito, que afastou a quem 
nam se afastou, e disse duas naturei;as, duas complaccncias e duas 
obras a hum Christo». E pouco mais adiante diz: « Este maldito e 
tredo Liam disse duas naturegas e duas obras, e dicendo huma pes- 
soa, em isto quis o maldito seu erro em dicer huma pessoa t. Quer 
dicer que pera encubrir s, Liam seu erro das duas naturecas etc, 
pus huma pessoa, 

Acerca do que sentem do Concilio Ephesino, porei as palavras 
huma carta em que se assinaram os padres Manoel Fernandez 
eus companhoiros de nossa Companhia, que entraram em Ethio- 

com n padrc bispo dom Andre de Oviedo, e refer o padrc Fer- 



LIVRO I, CAPITULO XI. 129 

nando Guerreiro cap. 5 fol. 296 da Addi^am que faz a as cousas 
de Ethiopia na Rela^am dos annos 607 e 608, que dicem assi: 
f. 54,v. « Ainda que o Bispo poUa grac^a divina *sempre a elle (convem 
€ a saber ao emperador Claudio) e a todos concluia, ficavam po- 
« rem gombando e bradando, dicendo que elles tinham vencido, 
« de maneira que tudo com elle ficava em vao. Pollo que, vendo o 
« padre Bispo o pouco que em isto se facia, tomou todas as princi- 
« paes materias e pontos de seus erros e se deo a escrever sobre 
« elles, e depois Ihe apresentou estes escritos; aos quaes el Rey 
« respondeo com facer outros sobre elles, resolvendose juntamente 
« que nam avia de ovedecer a Roma, e depois de ter isto asaz de- 
« clarado e se mostrar desgostoso contra o Bispo e dicer pubrica- 
« mente que nam queria o concilio ephesino 1°, pera o qual o Bispo 
« o chamava, senam somente os costumes e fe de seus antepassa- 
« dos, o Bispo se despidio delle com determina^am de (saltem ad 
« tempus) dar lugar a seus desgostos. Estes tam claros desenganos 
« deo el Rey no fim de decembro de 58 ^. 

Quanto ao que frey Luis de L rreta diz que o Emperador jura 
de guardar as constitui^oes do emperador Joam o Santo e Phe- 
lipe 7°, respondo que nam somente nam ha taes constituigoes, mas 
nem ainda taes Emperadores ouve nunca em Ethiopia, como adiante 
mostraremos. 

Ja temos visto quam fabulosa foi a informagam que frey Luis 8. Quae narrat au- 

-TT^«' "I 1» j-i^ j • clor circa electionem 

de Urreta siguio sobre a elei^am do Emperador; vejamos agora a habuit ab ipao Sel- 
que dam alcfuns dos principes de Guixen Amba, com quem falei, e ^ SagAd, ab Abba 

^ 6 r r »1 MarcA et aliis fide 

outros muytos velhos, assi senhores grandes como frades, particu- dignis. In libris ae- 
larmente hum que se chama Abba Marca e tera mais de 80 annos, re^nMmdo^Electores*^ 
homem letrado e que tem muyta noticia das cousas antiguas e o Em- q^i «* Gubematores 

tempore vacationis, 

perador Seltan Qagued o fez Quez Ace, que que dicer « Sacerdote novem, scil.: 2 Be- 
do Emperador » e parece responde a Capellam mor. Destes me in- ^^4x^*^*11 dA ^e* 
formei, por nam achar livro que tratase desta materia, e disseram rAx, a GoitH, et i Aca- 
que, morto o Emperador, se juntavam logo na corte ordinariamente nmicluin electionis 
os eleitores do principe, a quem se avia de dar o imperio, que eram vocabatur jAn ^arar. 
alguns dos que tinham o mesmo titulo dos officiaes que Salomam 
deo a seu filho Menilehec pera governo de seu imperio e servi^o 
de sua casa, que nomeamos no cap. 4, e sam Behet Oaded, o da 
mao dereita e o da izquerda: Uzta Azax, o da mao dereita e o da 
izquerda ; Hedug Eraz, o da mao dereita e o da izquerda : Goita, o 
da mao dereita e o da izquerda : Acabi^at. Estes eram os eleitores 

C. Bbccari. Rer, Aeth, Seript, oce, tned, — II . 17 



IJO IIISTORIA DE ETHIOPIA 

do que avia de ser Emperador, mas sempre metiam pera conselho 

alguns religiosos e doctores graves a que chamam Debteroch, e 

todos jup.tos tratavam entre si qual doj principes de Guixen Amba 

seria mais apto pera o bom *governo do imperio e mais util e f, 55. 

proveitoso pera seus vassallos; e depois de responder cada hum 

conforme a noticia que tinha dos principes, se resolviam os elei- 

tores e nomeavam o principe que milhor Ihes parecia. Mandavam 

logo entrar hum senhor grande, cujo officio era chamar ao prin- 

cipe eleito, e por retjam de seu cargo se intitulava Jan (^arar, * cha- 

mador do Emperador >• ; e Ihe deciam que fosso a Guixen Amba e 

chamase tal principe; e juntamente com elle hia Tigre Mohon, que 

entam tinha muyto mayor poder e mando do que tem agora, le- 

vando grande companhia de gente de armas, e, subindo ao monte, 

entravam na casa do principe eleito e Ihe docia Jan (^ararr Cha- 

mam vos os Governadores ; porque os eleitores o cram de todo 

o imperio em quanto durava a vagante ; e punhalhe logo na orolha 

dereita hum anel de ouro, a que chamam Belij], que era insignia 

de ser escolhido por Emperador, como dissem'-s no cap. 5. Depois 

se juntavam todos os Principes do monte e Ihe davam os parabens 

de sua ditosa sorte, o despidindose delles com muytas mostras de 

amor, decia ao campo, onde achava huma fermosa tenda armada 

com tudo o necessario de mulas e cavallos pera o caminho, a que 

o siguinte dia dava principio. 

Rec«ptio, un- Em quanto o Principe vinha, aparelhavam os Governadores o 

elecdiaReKem fGcebimento que Ihe aviam de facer e, chegando perto, saiam ao 

flebant a 4 e primo- rnininho com grande acompanhamento e aparato, todos vestidos de 

^ e, apeandose de suas mulas e cavallos, Ihe faciam reverencia 

Ile dava logo sinal com a mao que tornasem a cavalgar e, to- 

ndoo no meio, o levavam com muytos tangeres e modos de dan- 

ate huma tenda de campo, que tinham armada, muyto grande 

edonda casi ao modo das nossas, a que chamam Debana. e nin- 

:m pode ter tenda desta maneira senam o Emperador; as dos 

nais nam sam redondas senam cumpridas e muyto mais pique- 

; e nam se apeava senam dentro da tenda e logo o tomavam 

meio Quez Ace, Lfca Debteroch, Lica Memeran, Cerai Ma^are, 

■ sam dignidades ecclesiasticas, como Priores. e muytos sacer- 

es, e cantam alguns psalmos. Depois Cerai Mai;are o unge com 

I cheiroso, e Ihe vestem huma rica vestidura que chamam Leb- 

ahai, que quer dicer » vcstido do sol » , e poemlho na cabei;a *huma f. 55.V, 



cdo 



LIVRO I, CAPITULO XI. 131 

coroa de ouro, que tem por remate huma cruz, e damlhe na mao 
huma espada desenvainhada, pera significar que em as cousas da 
justi^a ha de cortar rectamente, sem ter de ver com parentesco, 
nem amizade, por grande que seja, nem dobrarse por outro nenhum 
respeito humano. E logo Quez Ace e as demais dignidades o le- 
vam polla mao e o asentam no throno imperial, que tem ricamente 
adornado e alli Ihe dam muytas ben^oes. 

Acabado isto, sobe Quez Ace em huma cadeira alta e como 
quem da pregam diz: Ficemos reynar a foam; e logo os circun- 
stantes gritam de certa maneira que usam em sinal de grande fe- 
sta e alegria e tangemse muytos instrumentos. Depois chegam os 
eleitores e os demais magistrados por ordem a Ihe beixar a mao 
e dar a obediencia. O mesmo facem Quez Ace, Lica Debteroch, 
Lica Memeran com todos os sacerdotes que se acham preser>tes e 
come^anse grandes festas, que duram por muytos dias. Mas nam 
se acavam com isto as ceremonias de sua coroa^am; anfes a esta 
nam a tem por tal, nem se pode chamar Emperador, senam Rey (se- 
gundo elles dicem), ate que se unga e coroe em a igreja de Ag^um 
do reyno de Tigre com as ceremonias que veremos no capitulo si- 
gninte, ou ao menos em huma igreja do reyno de Amhara que se 
chama Garangaredaz. 

Isto he o que se usava antiguamente, quando escolhiam por lo.Praedictaecae- 

T-' ji • /-^•AAiA remoniae locum ha- 

Emperador algum dos pnncipes, que estavam em Guixen Amba; buenint usque ad 

mas do emperador Naod ate agora nam tomaram de la nenhum, Na6d. 

sempre deram o imperio ao filho mais velho do Emperador que 

morria; e ao emperador Athanaf Qagued, que nam teve filho, Ihe 

sucedeo Adamas Qagued seu irmao, e a este Malac Qagned filho 

mais velho de 4 que tinha. Mas morrendo este muyto longe de sua 

corte, vindo de huma guerra, nam somente os grandes que estavam 

no arrayal, mas os capitaes e todas as cabc^as das familias dos 

soldados, que sam mu>^as, se juntaram pera eleger Emperador e no- 

mearam a Jacob filho bastardo do Emperador defunto, porque nam 

tinha outro. 



i 



CAPITULO XIL 

Das ceremonias que usam em Ethiopia 
em a coroa^am do Emperador. 



Acabas as ceremonias e festas, que dissemos no capitulo pre- i. Solemnis un- 

,,j,3fej,. . -, ' ^ ctio ct coronatio 

f. 56. cedente, *determmam o tempo que Ihes parece mais oportuno pera imperatorum fit ab 
ungir e coroar ao Emperador em a igreja de Ag-cum do reyno de immemorabili in ec- 

, ^ 0^0 ^ clesia urbis Axum. 

Tigre, que, ainda que algumas veces se coroavam em a igreja Ga- 
rangaredaz do reyno de Amhara, tinham por mais honrra coroa- 
remse em a de Ag^um, por aver sido asento da reynha Sabba e 
de seu filho Menilehec e cidade muy sumptuosa, posto que agora 
seja povoacjam piquena; e tinham por menos inconveniente dilatar 
muyto o tempo de sua coroa^am que facer isto em outra parte; 
como ficeram muytos, particularmente o emperador Malac (^agued, 
que, depois de ter muytos annos o imperio, se foi a coroar a Ag- 
giim, pudendoo facer facilmente, se quisera, em o reyno de Amhara ; 
e seu filho Jacob, a quem eu conheci, nam se coroou nunca, com 
ter o imperio, depois que o eligeram, dez annos ou pouco menos, 
contando seis ou perto de sete que, por ser piqueno, governou em 
seu nome a emperatriz Mariam Cina molher de seu pae, que elle 
nam era legitimo. 

Chegado o tempo, em que o Emperador se ha de coroar, vai a. Nomina digni- 

j ^ A A j j 1 • j tatum, quae iuxta li- 

com grande aparato a Aggum, onde se guarda sempre o livro das 



134 HISTORIA DE ETHIOPIA 

brum caeremonia- ceremonias, que se ham de facer em a coroa^am dos Emperadores, 

nim coronationis, • ^ ^ ^ ■» rn > i_ . t_ 

adesse debent caere- ^ juntamente estam os nomens dos omciaes, que por obnga^am ham 
moniae^letquiduna- (jg assistir a ella ; mas da maneira que os nomiavSo antigiiamente, 

quaeque praestet. 

e assi os porei aqui. Elahaquetat, scilicet « cabec^a do povo », ou 
« Mordomo mor »; Quelebas, scilicet « conselheiro », e traz huma 
buceta; Ceraima^are: este traz olio pera ungir al Rey em huma i 

buceta de ouro e agoa benta; Quezagabez, scilicet « thesourero da 
igreja »; Lica Diaconat scilicet « Arcediago »; Arnes, que he Ma- 
gare, vai diante facendo afastar a gente com huma corda grossa e 
cumprida de retroz amarrada em hum pao curto ; Arnez, que traz 
o sombreiro ou tirasol ; Ceoacergoi, scilicet ^ compadre » ; Delcamoa 
e Neguz Hezbai, scilicet « governadores da casa del Rey »; Rac- 
macera e Dec^af, scilicet « estribeiro dos cavallos » e * estribeiro 
das mulas » . Todos estes assistem a as ceremonias e officios da co- 
roagam, e estam em pee, quando o ungem, com as cousas de seu 
cargo em as maos, seis a mao dereita e seis a izquerda, e nenhum 
outro entra em este ministerio. Elahaquetat traz animaes sylvestres 
e mansos e aves que se possam comer, Quelabaz traz flores do 
campo e frutas e todo genero de semente que se come, Ceoacer- 
goi traz leite e vinho de ubas, as Doncelas de Syon tracem agoa 
e vinho de mel e folhas *cheirosas ; o que leva a buceta traz nella f. 5^»^. ^ 

mezque, que he v unguento do reyno » ; o Quezagabez e o Lica Dia- 
conat cstam em pee, tendo a pedra de ara ; Racmacera tem o 
cavallo polla redea e Dec^af a mula. 
3. De caeremoniis, El Rey vem em seu cavallo pera Ag<;um polla vanda de oriente, 

roi^tionem l^peral ^ ^^^^ ^^ ^""^ lugar sinalado esperam, como acostumam a esperar 
tor interrogatur a sempre aos Reys, todos os Grandes e o povo, cada hum em seu lu- 

pueUa quisnam sit ; . 

responsio ; ovationes gar. loda e clerecia com suas vestimentas e aparato e tres don- 

populi. Imperator QgU^g ^q meio, huma a mao dereita e outra a izquerda, afastadas e 
aunim spargit: qui- * ^ * 

nam iUud coUigant. a 3"^ no meio de ambas. Estas duas, que estam a as ilhargas, tem 

hum cordam de retroz poUas pontas de maneira que fica atrave- 
sado, tomando o caminho por onde el Rey ha de passar, e che- 
gando el Rey perto, Ihe diz a do meio: Quem sois vos? Elle re- l 

sponde: Eu el Rey. Diz ella: Nam sois. A segunda vez pregunta: 
De quem sois vos Rey ?, e elle responde : Sou Rey de Isrrael. Diz 
ella: Nam sois vos rey. Na 3*^ vez pregunta: De quem sois vos Rey? j 

Entam tira el Rey sua espada e corta o cordam dicendo: Eu sou 
Rey de Sion; diz ella: Em verdade, em verdade sois Rey de Sion; f 

e logo todos os presentes, grandes e piquenos, dicem da mesma 



f 



LIVRO I, CAPITUl.O XII. 135 

maneira e henchem o ar com voces de alegria e tangem todos os 
instrumentos. El Rey vai passando botando ouro pollo cham, que 
recolhem sos aquelles que tem costume, e chegando a porta da cerca 
da igreja, onde estam postas no cham muytas alcatifas, torna outra 
vez a botar ouro por ellas e isto recolhem pera igreja que he pre- 
sente de Sion. 

Os que tracem os presentes sam: De Belene, que he a terra 4. Domestica et 
de Amacen tracem lora, scihcet « vaca do mato »; de Zalamt e de ^^^ incolis circum- 
Zagade Gox, scilicet « bufara » ; de Cemen Hayel, que he como ve- «taatium regionum 

\ offenintur viventia: 

ado, mas os cornos difFerentes ; de A^a tracem Agacen, que tambem monachi psalmos et 
he como veado mas tem os cornos torcidos ; de Torat tracem Jabedu, pSu«°flor<M*sDaSit 
que he cabra do mato; Tigre Mohon traz Amba^a scilicet « liam » e supcr thronum rcgis. 
outros animaes bravos. El rey Grabra Mazcal com conselho de Jared 
sacerdote acrecentou a isto a ceremonia que se faz domingo de Ra- 
mos, mandando que os do povo trouxesem palmeiras e oliveiras 
com fruto. Os religiosos estam em pe com a cruz e o turibulo e 
os cantores cantam : « Benedictus qui venit in nomine Domini etc. » 
f. s7- e *outras cantigas com diversas toadas e duas em louvor particular 
del Rey. Isto cantam dando voltas a roda do lugar onde facem as 
ceremonias, e logo tracem o Testamento Velho e Novo e leem os 
lugares que tratam dos Reys e dos sacerdotes, e os psalmos de 
David e o Cantico de Salomam e outras cantigas, e entam o povo, 
que esta presente, como em procissam da huma volta ao lugar onde 
esta a cadeira real e botam flores e cheiros sobre ella e, se dentro 
do lugar das ceremonias esta algum que nam seja dos diputados, o 
botam fora. E alli perto estam amarrados em colunnas hum liam 
e huma bufara, e el Rey com sua lan^a fere ao liam, e logo lar- 
gam os demais animaes mansos e do mato e todas as aves, e a gente 
do arrayal mata por festa os que pode alcan^ar. 

Entrando el Rey no lugar onde esta sua cadeira, vai botando 5« Ante thronum 

offertur reg^i in va- 

ouro pollas alcatifas que estam postas no cham, e asentandose na ^iB aureis Uc et vi- 
cadeira, tracem dous pratos de ouro e dous de prata, em os dous °"°* ?* meUe, m ar- 

^ ^ genteis aqua et vi- 

de ouro leite e vinho de mel, e nos de prata agoa e vinho de ubas. num de vite: inde 
Entam ungem al Rey conforme ao costume e burrufam todas as njoribus; pergit ad 
cousas da ceremonia com aeroa que tem do rio Jordam e cortam os orandum in eccle- 

siam; accipitabAbu- 

cavellos da cavega del Rey como aos clerigos em a primeira ton- na et singulis cleri- 
sura ; e os clerigos levam os cavellos, os diaconos a pedra de ara ritnl * bei^dictio- 
e candeas acessas e vam cantando, e os clerigos com turibulos en- nem; denuoipsebe- 

nedicit omnibus et 

censando, e depois de dar as voltas como em piocissam a roda do rsvertitur domum. 



136 HISTORIA DE ETHIOPIA 

lugar onde esta a cadeira real, vam pera huma pedra, que esta a 
porta da igreja Sion, que se chama Meidanita Negestat, scilicet « va- 
ledoura dos Reys » e poem em cima della os cavellos e botam fogo 
dos turibulos e logo toda a clerecia encomenda el Rey a Deos e 
a nossa Senhora, e tornando, dicem al Rey tudo o que ficeram. En- 
tam come^am a tanger todos os instrumentos do arrayal, e o povo 
da grandes voces de alegria. Depois vai el Rey a igreja e, chegando 
perto do altar, encomenda sua alma a Deos e a nossa Senhora e 
logo torna ao lugar onde foi ungido e, estando em pe no meio dos 
douce officiaes, seis a mao dereita e seis a izquerda como primeiro, 
chega o Abuna e os Priores das igrejas, clerigos e diaconos e cada 
hum por si Ihe da sua ben^am. Depois chegam os Grandes e da 
mesma maneira da cada *hum sua ben^am, e como acavam, da el t 57,v. 
Rey tambem a todos ben^am e logo vai a sua casa acompanhado 
como veio. 

Ate aqui sam palavras do livro e nenhuma outra cousa diz 
sobre a corc^a^am do Emperador. Onde se ve que nomeando os que 
de obriga^am se ham de achar a ella, nam faz men^am de Reys, 
de Patriarchas, de Argobispos, nem Bispos; e he certo que nam 
ouvera de passar em silencio taes personagens, se elles entraram 
em este acto, nem ouveram de deixar de entrar pollo menos alguns, 
se os ouvera em Ethiopia. Com o que se confirma o que dissemos 
no cap. precedente, que foi muy fabulosa a informa^am que sobre 
esta materia teve frey Luis de Urreta. 
6. Cur Auctor non De todas estas ceremonias pudera eu dar re^am de vista, se o 

potuit interesse co- joi^'^/"' aj ••« ^ ■% .... 

ronationi Sclt4n Sa- ©niperador Seltan vagned, sem elle o pretender, mo nam impidira ; 
g4d: caeremonias porquc» levantandose hum tirano no reyno de Ticfre e fincfindo que 

tunc habitas refert ^ ^ J 6 6 n 

ex informatione lo- era o emperador Jacob (que o precedente anno morrera em bata- 
t^^^^^aui^ti^^caoito- ^^^ ^ tinham langado fama que escapara), se Ihe juntou tanta gente 
neus et amicus im- que Ihe foi forc^ado ao Emperador ir de Dambia com exercito em 

peratoris interfuit. ^ 

mar^o de 1608 e de passo determinou de se coroar em Ag^um. 
Do que eu folguei muyto, por desejar de ver aquella festa, que 
aquelle tempo estava em Tigre, e assi fui com outro padre ao re- 
ceber hum dia de caminho ; o que elle agardeceo muyto e nos fez 
muytas honrras. Tinha posta sua principal tenda entre humas ar- 
vores a longo de huma ribeira, e todo o campo, com ser muyto 
grande, estava cheio de tendas com grande multidam de gente; mas 
a limpa de gu[e]rra, que depois vi em ordem, nam me pareceo que 
passava de vinte e cinco mil homens. Dalli foi pera Ag^um e che- 



I 



LIVRO r, CAPITULO XII. 137 

gou hum sabbado polla minha e, por dicerem que a quelle mesmo 
dia se avia de coroar, fui diante e tomei lugar de onde pudesse vor 
tudo; mas elle nam quis entrar: ficou como hum 4° de legoa em 
hum campo muyto chao, e antes de meio dia me mandou chamar 
e disse, que so domingo avia de estar alli, e 2* feira queria ir 
a ouvir missa e prega^am em nossa igreja, que esta como duas le- 
goas dalli, no caminho por onde avia de passar. PoUo que me fui 
logo pera poder armar a igreja e aparelhar o necessario. Mas o 
capitam dos Portug^eses, que se chama Joam Gabriel, que vinha 
com elle, me disse depois que aquella tarde foram a tenda do Em- 
perador alguns frades com o Abade do mosteiro que ha em Agcjum, 
em cuja igreja se avia de coroar, e trouxeram o livro onde estam 
f. 5^' *as ceremonias que a cinia referimos e Ihas leram e declararam 
todas, pera que soubese o que avia de facer; o que elle ouvio com 
aten^am, sem Ihes reprovar nada; mas depois que sairam, disse ao 
Capitam: Quanto eu, nam hei de facer todas as cousas que disse- 
ram estes frades, porque algumas me parecem superstigoes genti- 
licas. Respondeo o Capitam : Senhor, nSo enxerguei nenhuma contra 
a fe e, nam o sendo, se V. Mag.^® nam as quiser facer, ha de ser 
muyto notado, porque os frades se ham de queixar, e outros ham 
de diccr que o que todos os Emperadores ficeram e os letrados 
tem aprovado V. Magestade o reprova e desprepa. Disse o Empe- 
rador que nem elle notara nada contra a fe, mas que algiimas da- 
quellas cousas Ihe pareciam muy impertinentes. 

Domingo polla minha saio o Emperador ricamente vestido de 7. Dcacriptio cac- 
borcado e setim carmesi com cadea de ouro ao coUo, de que pen- vaWe" distat^ab*ca 
dia huma cruz muyto fermosa, em hum poderoso cavallo muyto bem «upcrius aUau ez li- 

. bris ecclesiae Azum. 

enxae^ado, e por ser de corpo dos mais bem despostos de sua corte, 
de cores va^as, o rosto cumprido, os olhos grandes e fermosos, a 
nariz afilada, os beigos delgados, a barba preta e em boa propor- 
9am cumprida, mostrava grande magestade, e tinha entam 32 annos. 
Levava diante todos seus capitaes cada hum com sua gente posta 
em ordem, a de pe na dianteira e logo a de cavallo, todos vesti- 
dos de festa com muytas vandeiras e tangendo seus atabales, trom- 
betas, cheremellas e frautas, que tem a seu modo, e disparando 
muyta espingardaria, com o que resonava todo aquelle espa^oso 
campo. Ultimamente vinha o Emperador com muytos senhores de 
cavallo. Estava esperando como hum tiro de besta da povoa^am o 
Abuna com muytos frades e clerigos revestidos e com cruces e tu- 

C. BsccAlu. Rer. Aeih, Scripi, occ, ined, — II. 18 



1^8 mSTORIA DE ETHI. iPIA 

ribulos e grande multidam de gente. Tinhani postas n» cham muy- 

tas alcatifas a longo de tiuraa pedra nam mu^to a)ta, de dous co- 

vados de lai^o e de grosso menos de dous palmos de huma e outra 

parte cham, e toda escrita de letras tam antiguas que agora nam ha 

qaem as saiba ler; e como hiam chegando alli os capitaes, se pun- 

ham a huma c outra vanda do caminho, apeandose todos, e pas- 

sando o Emperador poilo meio, se apeo hum pouco antes de che- 

aas onde estavam os sacerdotes, e foi so andando ate chegar ao 

'dam de retroz que tinham polias pontas as duas doncellas. como 

semos acima quc se ordena no Ii\TO das ceremonias. e a outra 

meio Ihe preguntou: *Quem sois vos? Respondeo: Eu el Rey. t. 58,^. 

ise ella: Xam sois. Entam ^Hrou elle pera atras e dando cinco oa 

s passos tor[noa] a voltar pera ella (que ainda que no Uvro nam 

a isto, disseramlhe os frades que assi o avia de facer) e como che- 

i, Ihe torpou a preguntar : De quem sois vos Rey?; elle respon- 

) : Sou rey de Isrrael. Disse ella : Xam sois nosso Rey. Deo volta 

i como primeiro e, por ser esta huma das cousas que Ihe pare- 

m impertinentes, nam pudo deixar de dar alguma mostra de riso, 

da que poucos Iha enxergaram. A 3* vez que a doncella Ihe 

rguntou, levou elle de huma espada larga muyto rica, que tracia 

iracollo, e cortou o cordam dicendo: Eu sou Rey de Sion; e 

nando a espada a vainha. come<;ou a semear pedacinh^js de ouro 

llas alcatifas. Disse a doncella duas veces; Em verdade sois rey 

Sion; entrai. E logo todos em alta voz disseram: Vi^-a, \-iva el 

y de Sion, e come^aram a tocar todos os instrumentos musicos 

i tinham e disparar a espingardaria com muyta festa. 

Acabado isto, foram em procissam ao mosteiro cantando os fra- 
i e clerigos: ■■ Benedictus qui venit in nomine Domini etc. » com 
:ras cousas, ate entrarem a primeira cerca, onde esta hum patio 
inde e debaixo de humas ar\'ores 12 asentos de pedra bem la- 
ida postos em fieira, e hum pouco afastado 4 colunnas de pedra 
n seus capiteis bem fcitos, e parece sustentavam primeiro alguma 
jbeda. Entre ellas outros dous a.sentos de pedra, e dicem que so- 
• estcs e os outros 1 2 as'ia antiguamrnte cadeiras de pedra mujto 
n lavradas e que, quando se coroava o Emperador, as cubriam 
las de sedas e borcados. 

Francisco Alvaros em sua IHsforia fol. 45 diz tambem que as 
a e que eram de huma so pf^dra f- feiias tam ao natural que pa- 
iam de madeira, c que af^ucllas \z foram dos 12 ouvidores, que 



UVRO I, CAPITULO XTI. 139 

o Emperador tracia em sua corte. Mas agora nam ha taes cadeiras, bua flt mentio in li- 
posto que em as pedras se veem os encaxes onde parece que esti- ffj^storia^micla^ 
veram; e isto da tambem a entender o livro das ceremonias, di- Alvare». 
cendo que a cadeira real estava no lugar onde se faciam as cere- 
monias, porque onde estam aquellas colunnas se acostumaram a 
coroar sempre os Emperadores que vieram a Ag^um. Estes dous 
asentos de entre as colunnas somente cubriram com pannos de seda 
e o cham com alcatifas muyto fermosas, e no [da] mao dereita se asen- 
tou o Emperador e no da izquerda o Abuna. Os frades e clerigos fica- 
f. 59. ram da vanda *de fora de hum parapeito baixo de pedra, que de 
novo tinham feito a roda das colunnas, e cantaram e leram em os 
livros grande espa^o de tempo e em certos passos se alevantava o 
Abuna e facia suas ceremonias : humas veces ungia ao Emperador 
na cabepa, e outras Ihe cortava os cavellos onde tinham tocado os 
olios; e os sacerdotes os levaram cantando e encensando com seus tu- 
ribulos e os queimaram perto da porta da igreja e meteram a cin<;a 
dentro de huma pedra, que tem pera isso, e fecharam com outra e 
tomaram pera os outros que ficaram cantando perto do Emperador. 
Acabadas as ceremonias, que duraram muyto tempo, se ale- 
vantaram o Emperador e o Abuna e, levando diante os frades e 
clerigos com suas cruces e turibulos cantando, foram em procissam 
a igreja, que esta dentro da segunda crasta, e entrando, depois de 
facer ora^am, se asentou o Emperador em hum trono que Ihe tin- 
ham feito com cortinas de seda a roda ; e disseram missa solemne, 
em que comungou o Emperador; e como se acabou, saio muyto 
acompanhado, com hum chapeo de velludo a^ul escuro de falda larga 
em a cabe^a, e a copa toda a roda chea de chapas de ouro como 
flor de lis, e no alto seu remate com algumsis pedras piquenas 
engastadas ; que este he o modo de coroa que usaram os Empera- 
dores ate este, que em setembro de 616 fez huma coroa de ouro 
como as que usam nossos Reys, por huma forma que Ihe veio da 
India, e subindo em seu cavallo, foi pera as tendas com o mesmo 
ordem que veio, e ainda que me tinha dito que avia de passar o 
siguinte dia, esteve alli tres dias com muytas festas. 

Quarta feira como as dez horas chegou a nossa aldea, que se 9, Post coronatio- 
chama Fremona, onde Ihe estavamos esperando tres padres com a U^gj^ Auctorem 
igfreja muyto bem concertada pera dicer missa e pregar , mas por Fremonac eique au- 

. rum et terras dat pro 

vir encalmado, disse que ficase pera o dia siguinte, e entrando em ecclesia Patmm. 
nossa casa com alguns Grandes esteve praticando comnosco so- 



I40 HISTORIA DE ETHIOPIA 

bre diversas materias com tanta familiaridade, como se fora algum 
senhor dos mais devotos que ca temos, ate que se punha o sol, 
sem comer nem beber, por ser cuaresma (que nella nam comem, 
nem bebem ate entrado o sol), e aquellas horas se foi pera as tendas 
que estavam perto ; onde Ihe mandamos algumas igoarias e, ainda 
que poucas, as estimou muyto por serem temperadas a nosso modo. 
Aquella noite Ihe vieram negocios, sobre o que Ihe foi necessario 
tomar *conselho, e assi poUa minha mandou marchar o exercito e . s^.v. 
ficou elle na tenda com os capitaes, e invio nos a dicer que a re- 
cobagem e gente de pe hia antes que entrase muyto o sol, msts que 
elle avia de ouvir missa. O conselho porem nam se acabou ate 
pouco antes de meio dia; pollo que parteo com toda a cavalleria, 
que era muyta, e mandou nos dicer que Ihe pesava de que o tempo 
nam desse lugar pera poder ouvir missa e deonos peso de trecen- 
tos cru^ados em ouro; que ca (como ja tenho dito) nam ha moeda; 
e a as terras que antes tinhamos nos acrecentou outras muyto maio- 
res, que se continuavam com ellas. 
10. Inde aggredi- Tendo caminhado dous dias, Ihe vieram novas que o alevan- 

tur cum 8UO ezercitu ^ , ^ , ^ 

rebelles tigrenses, ^ado entrara em humas terras muyto asperas e montuosas, que estam 
quorum dux tamen perto do mar, e assi determinou de ter alli a Pascoa, porque, de- 

cum paucis fuga sa- '^ ^ mt ^ 

lutem invenit. mais de que nam acostumam a caminhar os oito dias, antes queria 

que visem a que parte fora, pera saber por onde avia de entrar ; e 
mandoume dicer sabbato de Ramos, que, ja que primeiro nam pu- 
dera ouvir missa, Ihe fosse a pregar a semana santa; com o que 
folguei muyto, porque em Ethiopia casi nunca pregam. Mas 2^ feira, 
estando eu pera partir, chegou outro recado que nam tomase tra- 
balho em ir, porque Ihe era for^ado caminhar com muyta pressa, 
antes que o alevantado fugise pera humas terras de gentios, onde 
deciam que queria entrar. Foi elle logo e fez tomar os passos, de 
maneira que o alevantado nam achou outro conselho pera poder esca- 
par, senam deixar a gente que tinha e meterse pollo mais basto do 
mato com sos cuatro homens de quem se fiava, e sucedeolhe tam 
bem que por mais diligencia que fez o Emperador, nunca o pode 
achar, porque esteve escondido em hum lapa, sustentandose do leite 
de algumas poucas cabras que lebou comsigo. E vendo o Empe- 
rador que se Ihe chegava o inverno, que ca come^a em junho, se 
tornou pera Dambia sem facer nada ; mas depois do inverno, pas- 
sandose o alevantado a outras terras com obra de 600 liomens, o 
mataram, como adiante veremos. 



r 



LIVRO I, CAPITULO XII. 14I 

Em o que temos dito se ve bem quam difFerentes sam as cousas ix. Ez dictis au- 

r T ' j TT j. r 1- j-i^ pfA dc coronatione 

que frey Luis de Urreta refer no cap. 13, sobre a coroa^am do Em- Bequitur descriptio- 

perador de Ethiopia, a as que na verdade se usam. Tambem no ^*™ Urretae fabulo- 

sam ease. 
cap. 14 conta como, depois que o coroam, Ihe entregam os thesou- 

ros de Guixen Amba com grande solemnidade e elle reparte libe- 

ralmente com os presentes; depois dece do nionte acompanhado 

dos senhores do Gram Conselho, dos Reys, cmbaixadores e prela- 

dos, e dos demais, que subiram a elei^am, e vai pera a cidade de 

f. 60. Zambra, onde Ihe facem grande *recebimento e elle entra com grande 

aparato em hum elephante ricamente enjae^ado; e passados 15 dias 

que gastam em festas, se parte pera a cidade de Saba. E em o 

capitulo 15 diz que todos os Reys sugetos ao imperio vem a ci- 

dade de Saba a dar a obediencia ao Emperador e cada hum de por 

si entra em hum elephante, e esto mesmo tornam a facer depois 

de sete em sete annos. Mas todas estas cousas sam fabulas c 

meras fic^oes, porque, como dissemos no cap. 9, nam ha en Gui- 

xen Amba (a que elle chama monte Amara), nem ouve nuuica the- 

souros nenhuns , nem la se juntaram, nem juntam pera eligir, nem 

jurar ao Emperador, nem ha taes Reys, como vimos em os dous 

capitulos precedentes, e muyto menos ha elephantes mansos, nem 

os ouve nunca em Ethiopia, nem taes cidades de Zambra e Saba, 

como adiante diremos. 



CAPITULO XIII. 

Em que se trata do modo com que o Emperador de 
Ethiopia ouve os officios divinos. 



Antiguamente, quando os Emperadores de Ethiopia nam se x. Vetus consue- 

tudo iuzta quam ne- 

deixavam ver de nmgiiem, mais que de trmta minmos de servic^o j^^ poterat aspicere 
que tinha dentro de seu paco, de suas molheres e do Behet oaded y'*!*^ Imperatoris 

^ ^ ^ iam inde a tempore 

da mao dereita e o da izquerda e do Acabipat, que se algnm outro Prancisci Alvare* a- 

homem grande, ainda que fosse cunhado ou jenrro, alcancjava licen^a 

pera falar com o Emperador, avia de ser de noite, e tiradas todas 

as candeas, de maneira que nam Ihe via o rosto, como dissemos 

no cap. 4, quando os Emperadores se aviam desta maneira com 

seus vassallos, tambem indo a missa, tinham grande resgnardo, pera 

que nam os visem ; e asi o emperador Zara Jacob fez hum caminho 

com cerca muyto alta de huma e outra vanda do pa^o ate a igreja 

(como se conta em o livro de sua historia), e por alli hia sem que 

o visem ; e quando entrava, nam avia de estar em a igreja mais 

que os superiores de alguns mosteiros grandes, pera cantar, e logo 

se metia entre suas cortinas e dalli ouvia missa, e quando queria 

entrar na capella pera comungar, saiam todos, sem ficar mais que 

Acabicat, e- outros cuatro sacerdotes, e depois tornava ao pa^o 

pollo mesmo caminho; mas assi a ida como a vinda dava sinal 

hum pagem com a mao de dentro do pa^o, aos musicos que espe- 



144 HISTORIA DE ETHIOPIA 

ravam fora com muytos instrumentos, pera que tangesem e ficesem 

festa, e com isto sabia a gente de fora quando entrava e saia de 

missa, como dissemos no cap. 5. Mas depois foram deixando os 

Emperadores esta superstif^am, e se comei;aram a mostrar *ao povo f. 6o,v. 

e hiam com grande aparato a missa, como affirma Francisco Al- 

res em sua Historia Ethiopica fol. 147, falando do emperador 

ivid, que depois se chamou Onag (^agued, a quem dou muyto 

lis credito em este particular que a inforraaijam da gente desta 

rra, porque diz, que o vio dia de Pascoa de resureitjam antes 

amanhecer; poUo que referirei suas palavras que sam as si- 

lintes : 

« Despues de media noche fuimos llamados y cn llegando a la 
puerta principal de su gran tienda, vimos que, desde ella hasta la 
iglesia de s." Cruz (que estava de alli hum tiro de arcabuz), avia 
por los lados mas de seis mil candelas encendidas y puestas con 
^ande orden apartada la una hacera de la otra casi 40 o 50 pas- 
jos; detras dellas avia inlinita gcnte, de manera que los que las 
tenian, les hacian reparo, porque tenian caiias atadas en hilera 
anas dc otras y puestas ante si, sobre las quales ponian las can- 
Jelas en gran compas. Delante de la tienda del Emperador andavan 
:uatro sefiores a cavallo, y pusieron nos junto a ellos; y luego salio 
3I Emperador sobre un hermoso macho mor»;ii]o, tan grande como 
nn gran cavallo, y el lo tenia en muclin trayendolo siempre con- 
iigo. Venia el Emperador vestido de unas ropas de brocado muy 
luengas que llegavan al suelo, y tambien iva cl macho cubierto 
3e lo mismo. Llevava en la cabe»;a su corona y en la mano una 
:ruz. Tras del lc trayan dos poderosos cavallos enjae^ados y cu- 
biertos de brocado, los quales con la lumbrc de las candelas pare- 
:iam ser todos de fino oro, y cada uno llevava su diadema bien 
:umplida com grandcs penachos cn la cabei;a, Luego que el Em- 
perador salio, se iueron aquellos cuatro de cavallo y nos pusieron 
3etras del, para quc fuessemos alli, sin que otra persona le siguiese, 
ialvo vinte o treinta sefiores que ivan delante delle a pie, Desta 
iuerte llegamos a la iglesia de s.'* Cruz, en la qual luego el Em- 
perador se metio en sus cortinas y, salida la clerecia que avia den- 
:ro y juntandose con otra mucha que eslava fuera, por no caber 
;n la iglesia, sc hi^o una procession muy solemne, yendo nosotros 
il principio della entre las dignidades mas honradas que avia. Buel- 
:os que fuoron a la iglesia, officiaron la missa y ya que era aca- 



LIVRO I, CAPITULO XIII. 145 

« bada y querian dar la comunion, nos dixeron que fuessemos a decir 
« nuestra missa, que ya teniamos una tienda armada para ello junto 
« a las tiendas del Emperador. Nosotros fuimos luego y, como vie- 
« semos que nos tenian armada una tienda negra, pensamo[s] que se 
€ burlavan y assi la dexamos y fuimos a nuestras tiendas que esta- 
« van junto al rio ». 
f. 61. *Ate aqui sam palavras de Francisco Alvares, em que se ve 3- Quomodo ircnt 

^ 11- ^ Imperatores ad au- 

o aparato com que o Emperador hia a missa ; mas entam o que- dicndam Missam 

reriam mostrar mayor que o que usava de ordinario, por ter estran- tempore Auctoris. 

geiros em sua corte. Agora raramente vai o Emperador de noite 

a igreja, nem Ihe he necessario isso pera ouvir missa; porque, ainda 

que em todas as igrejas se come^am sempre os officios duas horas 

ou mais antes de amanhecer, em as festas sam tam cumpridos, que 

nam se acavam ate saido o sol, e entam se come^a a missa, e al- 

gumas veces muyto mais tarde. Porem a qualquer hora que se seja 

tempo da come^ar, estam obrigados os das duas igrejas, que tem 

o Emperador perto fora da cerca de seu pago, a dar sinal pera se 

quiser ir a ouvir missa, nam com sinos, que nam os ha, como dire- 

mos no segundo livro, senam com hum atambor de cada igreja casi 

da sorte dos nossos; e perto da porta do pa^o dam com a mao 

nelles algumas pan^adas, e logo o Emperador Ihes manda recado 

se ha de ir, ou nam. Mas quando elle quer ouvir missa, ordinaria- 

mente manda recado muyto antes que se comege e poem la com 

tempo sua cadeira, 

Este de agora tem como as nossas de damasco carmesi com 4« Deacriptio ca- 

- . - ' n n t j i_ thedrae Imperatoris 

franjas de retroz carmesi e de no de ouro; os pregos de cabe^a j^ ecdesia et pom- 
cnrande, muyto bem feitos, dourados e no alto dous pranchonos de P*« ^? rwlitu. De- 

o ^ j '^ scriptio seUae impe- 

cobre tambem dourados. Tem outras cadeiras da China douradas, rialis in regio ten- 

com os asentos de velludo verde e carmesi. Sempre vai a igreja 

a pe, porque esta muyto perto do pa^o e quando sae delle, leva 

diante muytos senhores ricamente vcstidos e detras alguns pagens 

piquenos, tambem muyto bem vestidos, e ordinariamente de huma 

e outra vanda do caminho esta cheo de gente e diante de aquelles 

senhores vam muytos porteiros do pago com huns paos curtos em 

que tem amarradas correas muyto cumpridas, com que facem afa- 

star a gente pera que de caminho. E como o Emperador entra na 

igreja, se asenta em sua cadeira, que esta entre cortinas muyto fer- 

mosas de seda, c de alli ouve missa, e torna da mesma maneira 

que foi. Mas no pago nam se asenta ordinariamente em estas ca- 

C, Bbccari. /ifr. Aeth, Script, occ, insd, — II. 19 



146 HISTORIA DE ETHIOPIA 

deiras senam em hum esquife dourado com quatro colunnas tam altas 

como hum homem, com muyta laceria e a cabeceira casi tam alta 

como as colunnas com algunas figiiras, conchas e folhagens, que 

Ihe dam muyto lustre, e seu pavelham de seda muyto fermoso e 

todo elle muyto bem omado com colchas de seda, e os rodapes de 

borcado com franxas de fio de ouro. 

5. Descriptio pom- *Isto he o que eu vi mu^rtas veces indo a missa o emperador f. 6!,v. 

^ ^bT contulit ad Seltan (^agued. Tambem o emperador Atanaf (^agned, que primeiro 

audiendam miMam g^ chamava Za Denguil, em junho de 1604, depois de eu ter por 

comm ab Auctore muytos dias disputas diante del com seus letrados sobre as cousas 

e ratam. ^^ ^^^ contrariam nossa santa fe e de ter muyto bem entendida 

a verdade e estar resoluto em dar a obediencia a s.** Igrejaromana, 
me disse que desejava muyto ouvir nossa missa e ouvir pregagam. 
Respondi que nam tinha vinho, que o tinha mandado a huma terra 
onde estavam os Portugueses dous dias de caminho, parecendome 
que avia de ir logo pera que confessasem e comungasem. Mandou 
elle que me desem pasas, dfcendo que. por falta de vinho, nam 
deixase de Ihe dar aquelle gosto, parecendolhe que nos deciamos 
missa com vinho de passas como seus sacerdotes. Respondi, que 
faria tracer o vinho com toda pressa, que com aquello nam se po- 
dia dicer. Como chegou o vinho, mando elle armar huma tenda muyto 
grande de tres mastos, dentro da cerca do pa^o, que era muyto 
espa^osa, onde concertei hum altar o milhor que pude com algu- 
mas imagens, e pera a vanda do evangelho hum pouco afastado, 
puseram outra tenda piquenha muyto fermosa e no cham ricas al- 
catifas e sobre ellas sua cadeira com dous coxins de velludo car- 
mesi diante. Depois, como foram horas, veio o Emperador vestido de 
setim carmesi do mesmo corte de Turcos cumprido ate os pes, mas 
a roupa de debaixo com colarinho alto como os nossos. Tracia diante 
muytos porteiros que faciam dar caminho com correas como as que 
a cima disse; porque a gente era tanta que com difficultad[e] davam 
passo. Tras dos porteiros se seguiam muytos senhores ricamente 
vestidos, e no ultimo o Emperador com o governador do imperio 
e seu mordomo, e detras alguns pagens; e como chegou, se asen- 
tou em sua cadeira, ficando todos aquelles senhores aos lados da 
tenda piquena sentados no cham em alcatifas, de maneira que 
nam o podiam ver; sos dous pagens piquenos, vestidos de bofeta 
e cabayas de tafi<;ira de seda carmesi, com tocas em as cabe^as 
e espadas em as maos, nam nuas s^^nam com vainhas, estavam a 



LIVRO I, CAPITULO XIIL 147 

porta da tenda hum de huma vanda e outro de outra; e desta 
maneira ouvio missa e pregagam com grande silencio de todos; e 
como se acabou, se foi com o mesmo ordem que veio. Adiante, 
quando tratar deste Emperador, referirei mais en particular as cou- 
sas que auve em esta e outra vez que ouvio missa; que agora nam 
f. 62. pretendo *mais que mostrar o modo com que os Emperadores vam 
a igreja e estam nella. 

Frey Luis de Urreta trata esta materia no capitulo 16 e traz 6. Festum Inven- 

1 r ^ • • jt' T- j j T-^v' • tionis 8. Crucis de- 

algnmas festas principaes, em que diz que o Emperador de Ethiopia scriptum ab Urreta 

vai com pompa e aparato a igrejia. A primeira he da inveuQam commcntitium, im- 

mo ig^otum apud 
da ss.* Cruz, em cuja vespra affirma que poem huma rica tenda Aethiope8,quitamen 

fora da cidade e dentro armam os sacerdotes hum curioso altar e J^brant f^um^al- 

sobre elle poem huma cruz de cedro em memoria da que achou tationia eiusdem. 

a s.** emperatriz Elena ; e o dia siguinte sae o Emperador em hum 

elephante acompanhado de toda sua corte, e chegando a tenda, en- 

tra, e posto de joelhos diante da cruz, adoura com grande devoc^am 

e facendo o mesmo os demais, tiram seus vestidos e poem outros 

pretos, como o faz o Emperador; o qual chega logo ao altare, to- 

mando a cruz com grande reuerencia, a leva a cidade a pe em com- 

panhia daquelles cavalleiros e prelados, que vam em procissam por 

ordem ; e chegando ao pa^o, a poe decentemente na capella impe- 

rial onde estam ajoelhados como hum 4° de hora, e depois se va 

cada hum a sua estancia. Isto diz frey Luis; mas primeiramente, 

como jam temos dito e me affirmou o mesmo Emperador, nunca em 

suas terras se vio elephante manso, nem se faz de nenhuma maneira 

festa da inven^am da s.** Cruz. E preguntando eu a hum frade ve- 

Iho, que podia dar milhor re^am que os demais, se primeiro fa- 

ciam esta festa, me disse que antiguamente a faciam, mas nam 

sabia se com estas ceremonias; e ainda que a ficeram assi, nam 

aviam de levar a cruz ao pa^o, porque dentro nunca ouve capella, 

senam a huma de duas igrejas, que tem o Emperador ordinaria- 

mente hum bom tiro de pedra afastadas : huma he de Jesu e outra 

de Nossa Senhora. Nem aviam de estar de joellios, como diz, por- 

que ca nam se usa facer orapam senam em pe ou asentados no 

cham. Porem o dia da exalta^am da s.** Cruz facem muyto grande 

festa, balhando toda aquella noite, e ainda em algumas terras, como 

no reyno de Tigre, come^am hum mes antes a balhar nas ruas to- 

das as noites, e o mesmo dia, antes de amanhecer, andam os mance- 

bos e mininos com fachas acessas muyto cumpridas feitas de pauci- 



148 HISTORIA DE ETHIOPIA 

nhos delgados muyto secos gritando e pidindo a Deos com palavras 
de g^ande alegria que os deixe chegar a outro anno, e quando aman- 
hece acendem muyta lenha, que tem junta. Este dia vai o Empe- 
rador a missa *com o acompanhamento e ordem que acima dis- f. 02,v 
semos ; mas nam faz ceremonia nenhuma das que frey Luis aponta, 
e como torna, vam muytos mancebos a balhar a porta do pa^o, e 
mandalhes dar oito ou dez vacas. Depois andam pollas casas dos 
senhores balhando e tambem Ihes dam vacas, ou fato, com que as 
comprem. Em isto gastam oito dias. Ate os gentios, que nam obe- 
decem ao Emperador, facem esta festa, acendendo grandes fogos e 
matando muytas vacas. 
7. Palsa descrip- A 2* festa que poe he domingo de Ramos, em que diz que o 

tio festi in Dominica -1- j • • • ^ j j ^i 

Palmaram ab Urreta Eniperador vai a igreja com a pompa acostumada, e de seu throno 
tradita. ouve os officios ate que se comecja a paixam, que dece do throno 

e, tirado o vestido imperial, veste o que tracia no monte e o mesmo 
facem todos os circunstantes e, tirados os vestidos ricos, poem outros 
pretos e os tracem toda a semana santa, em que nam trata nego- 
cios, nem se acompanha com pessoa nenhuma senam com os em- 
baixadoures de Portugal e do Vissorrey de Goa e do Consul dos 
mercadores de Italia, e com elles come aquella santa feira, e dia 
de Pascoa vai a igreja acompanhado das mesmas pessoas e as de 
sua corte; e em come^ando « Gloria in excelsis Deo », mudam os 
vestidos ordinarios em outros ricos assi o Emperador como os ca- 
valleiros que o acompanham; e como acavam de ouvir missa, de 
comungar e dar gragas, torna o Emperador a pe ao pa^o e ao 
siguinte dia, de pois de ouvir missa, se poem tres grandes mesas 
com tres aparadores ricos, hum com a baxella de ouro, outro de 
prata e outro de porcelanas e barro fino. Em a primeira mesa come 
o Emperador com dous sacerdotes; em a 2* os embaixadores e 
cavalleiros da terra latina; em a 3* os filhos dos Reys com os do 
g^an conselho do Emperador, e como se alevantam as mesas, Ihe 
ofFerece cada hum alguma pe^a curiosa como de christal ou cousa 
semelhante. 

Tudo quanto aqui diz frey Luis tambem he muyto contrario 
ao que ca se usa, porque o Emperador e os que o acompanham 
domingo de Ramos nam mudam os vestidos em a igreja, nem ouve 
nunca consul dos mercadores de Italia, nem veio embaixador nen- 
hum de Portugal, nem do Vissorrey da India, depois que o padre 
bispo dom Andre de Oviedo entrou em Ethiopia, que foi em mar<;:o 



LIVRO I, CAPITULO XIII. 149 

^^ ^557J ^ como foi recibido diremos adiante; nem com o Empe- 
rador come nunca ninguem de nenhuma maneira, ainda que seja 
sacerdote ; nem ha taes aparadores com baxella de ouro e de prata 
f. 63. *se nam de hum barro preto fino, porcelana e cobre, como dissemos 
cap. 9. Quanto das ceremonias que usam em a semana santa os ec- 
clesiasticos e seculares, trataremos em o segundo livro. 

A 3* festa que frey Luis poe he a do ss.** Sacramento e diz 8. Quam absonum 
que a mandou celebrar em Ethiopia o papa Paulo 3°, que foi eleito reta^circa fMtom^s" 
no anno de 1534; e chegando seu breve em tempo do Preste Joam Sacramenti in Ae- 

_ .j j , , , ,. thiopia celebratum 

David, dous annos antes que morrese, obedeceo como obediente ex mandato pontifi- 

filho da igreja romana e mandou logo que por toda a Ethiopia se ^*'^* ^^^* 

celebrase. E diz que facjem huma solemne procissam poUa cidade 

com o santissimo Sacramento, e detras del vai o Emperador e que 

as candeas que levam sam innumeraveis, e que casi todos balham 

e facem muytas dan^as, e tem por costume que, em quanto passa 

a procissam por alguma rua, ninguem pode estar em janella nem 

terrado, senam que todos ham de sair a rua, descuberta a cabe^a, 

e ajoelhamse com grande devo^am ehumildade; e guardam isto com 

tanto rigor, parecendolhes que ver o ss.™** Sacramento de alguma 

janella ou lugar alto he irreverencia ; que as freyrais, cujos conventos 

sucede estarem em as ruas por onde passa a procissam, sendo cousa 

forcjosa avella de ver de seus corredores, he costume muy recebida 

que de^am todas a porta da igreja e se ponham em dous coros cu- 

bertas com seus veos e com candeas em as maos estam ajoelhadas 

em quanto passa a procissam. 

Isto que diz o Autor tambem foi inven^am de quem o infor- 9. In Aethiopia 

r Tr-1.1-' • j. 1 • r nullae domus cum 

mou; porque nem se laz em Ethiopia tal procissam, nem se fez fcnestris sedtantum 
nunca, que por nenhum caso tiram o Sacramento da igreja; so o parvae casae terreae. 

NuUa monasteria 

tracem ate a porta onde comungam as molheres e os homens que monialium. 

nam tem ordem sacro; porque sem elle nam podem comungar nem 

ouvir missa la dentro. Se o summo pontefice Paulo 3° mandou que 

se ficese ca esta festa, nam se executaria; nem os edificios de ca 

sam como os de Europa, pera que se possam por as janellas, se- 

nam, como ja por veces tenho dito, casas terreas algumas como 

lojas cumpridas e outras redondas muyto baixas, todas cubertas de 

palha que Ihes chega ate muyto baixo, excepto a provincia que 

chamam Hamacen, onde acustumam terrados; mas nenhuma casa 

ha sobardada e todas muyto baxinhas. Este emperador Seltan (^a- 

gued fez pouco ha huns pa^os de dous sobrados com terrado e no 



I50 . KISTORTA DE ETHIOPIA 

mais alto huma casa, *que Ihe serve de mirador, e do cham ate f. 63,v. 

cima sam 60 palmos. As freiras tambem moram em estas casinhas 

de palha nam juntas, senam cada huma onde quer e vai por onde 

quer, sem que ninguem Ihe pregunte porisso; porque, em dando- 

Ihes os frades o veo, se tornam a casa de seus pays ou parentes, ou 

a sua, se a tinha ja afastada, e se algumas se querem ficar enco- ^ 

stadas ao mosteiro dos frades que Ihes deram o veo, tambem mora 

cada huma afastada em sua casinha e vai pera onde quer; mas 

dicem que antiguamente estavam algfumas em communidade. 



^. 



CAPITULO XIV. 

Do aparato que leva o Emperador quando caminha 
e da ordem com que asenta suas tendas. 



Assi como antiguamente o Emperador de Ethiopia, quando i. Modus iter ha- 

..... bendi Imperatonim 

estava em seu pago, nam se deixava ver de ninguem mais que tempore antiquo. 

dos que dissemos no capitulo precedente, assi tambem, quando ca- 
minhava, ningnem o via; porque, como diz hum livro de Ethiopia, 
que trata da cousas do emperador Zara Jacob, todos hiam muyto 
afastados, excepto tres que Ihe tomavam o sol e o cubriam com 
tres sombreiros grandes de seda e alguns que abanavam as moscas. 
E em outro livro, que trata dos officiaes do Emperador,. diz que, 
quando se apeava, se as tendas nam estavam armadcis, tinham apa- 
relhado hum panno como docel, posto em humas varas, com que Ihe 
tomavam o sol e o cubriam alguns filhos de parentas suas, que tin- 
ham sempre isso a seu cargo, como tocamos no cap. 4. Mas de- 
pois em lugar de aquelles sombreiros usaram cortinas, como affirma 
Francisco Alvares, em sua Tlistoria fol. 117, que se facia em tempo 
do emperador David, e por que fala de vista, porei suas mesmas 
palavras : 

€ Otro dia nos fue mandado que caminasemos segun el orden a. Quomodo sua 

.. . ^ . ^ . itinera instituerit 

€ que se nos diese ; y Ja causa fue porque ya el Emperador no AtanAf SagAd iuxta 
€ queria caminar secretamente, como los dias passados, que se ^««criptionem Alva- 

rez. 

€ quedava atras, o passava adelante; pero agora comencjo a cami- 
c nar a vista de todos, como dire. El iva sobre una mula con su 



152 HISTORIA DE ETHIOPIA 

« corona en la cabe^a y dentro de uncis cortinas coloradas cubier- 
« tas con un cielo de lo mismo, de suerte que estas cortinas le 
'. cubrisen los lados y lcis espaldas. Eran muy altcis y cumplidas, 
« y los que las llevavam iban de la parte de fuera *teniendolas f. 64. 
« con luengas varas en las manos. I.a mula llevava muy ricas ca- 
« be^adas sobre el freno con sus chapas o puntas; y a los lados della 
« yban dos pages, que parecian guiar la mula por el freno. Luego 
« se seguian otros dos, cada uno tambien de su lado, con una mano 
« sobre el pescue^o de la misma mula; y tras destos venian otros 
« dos con las manos en las ancas cerca del arcjon trasero. Estos 
« pages llaman ellos en su lengua legamoveos, que quiere decir 
« * prges de diestro '. 

« Adelante destos iban otros 20 pages a pie, y mas adelante 
« dellos se Uevavan seis cavallos muy poderosos y muy ricamente 
« enxae^ados y con cada uno dellos iban cuatro personas princi- 
« pales, los dos a los lados del freno como los otros del Empe- 
« rador, y los otros dos a los lados de la silla con las manos encima 
« della. Adelante destos cavallos se Uevavam otras cuatro mulas tam- 
« bien cuatro hombres com cada una dellas, ni mas ni menos, a 
« los lados, como de los otros. Mas adelante aun dellas jrvan 20 se- 
« nores de los principales a mula con sus albomoces vestidos, y 
« luego delante destos yvamos nosotros, porque alli nos senalaron 
« lugar y a ninguna otra persona se permitia que fuese ni adelante 
« ni a los lados de nosotros, sino eran algunos de a cavallo, que 
« andavan galopeando, porque la demas gente anduviese apartada. 

« Los Betudetes Ilevavan la guardia de la persona del Empe- 
« rador y yva cada uno de su lado con mas de seis mil hombres de 
« guardia. Yvan apartados de los lados del Emperador comun- 
« mente tanto como un tiro de arcabuz y a las veces algo mas o 
« menos, segun que el camino se ofFrecia. Si acontecia que no avia 
« mas que un passo en alguna parte, por donde todos avian de pas- 
« sar, entonces se adelantava el Betudete de la mano derecha con 

♦ sus soldados y despues passava el otro como en retaguardia, yendo 
« los unos de los otros apartados quanto media legoa. Demas desto 
^ se llevam tambien los cuatro leones con sus fuertes cadensus, como 

* ya tengo dicho, y las iglesias con toda reverencia ». 

3. Quid in suo ve- Ate aqui sam palavras de Francisco Alvares, em que se ha de 

ris Lim™teverirscll ^^vertir que os que levam as maos sobro o collo e ancas da mula 
tftn SagAd. ^q Emperador, que ordinariamente o facem quando vai por algum 



LIVRO I, CAPITULO XIV. 153 

ruim passo, pera que nam caia, se chamam Dagafoch, e nam Lega- 
f. 64,v. moveos, que nam ha tal nome, e *se queria dicer Leguamoch, estes 
nam podem chegar ao Emperador, porque sam mo^os da estrebaria. 
Tambem nam ha de dicer Betudete, senam Behet Oaded, que quer 
dicer « soo amado » . Em o ordem e modo de caminhar o Emperador 
diz bem, porque asi se usava entam ; mas ja ha muyto tempo que 
os Emperadores deixaram as cortinas e somente levavam na cabe^a 
hum chapeo de falda larga comummente de velludo a^ul escuro com 
humas chapas de ouro e algumas pedras na copa, que era sua coroa ; 
o que tambem usou este emperador Seltan Qagued ate agora pouco 
tempo ha, que pos coroa como as nossas em chapeo de setim car- 
mesi de falda curta e da mesma que os de Portugal ; porque todo 
nosso modo Ihe contenta muyto; e mandou facer chapeos pera a 
coroa das cores que elle acostuma a vestir, pera que o chapeo diga 
sempre com o vestido. 

Quanto acerca do modo com que este caminha, direi o que 4« Auctor descri- 

.^jj ••j-jj- ^bit fuse et de visu 

VI muytas veces, nam tratando dos primeiros dias depois que paite modum itcr habendi 
da corte, porque caminha pouco, e assi muytos ficam em suas casas ScltAn SagAd tempo- 

re beUi. £xercitU8 in 

e a gente que vai diante delle (que sempre he muyta) leva pouca quatuor acies distin- 
ordem, posto que nam os que acompanham a sua pessoa, que sam esampcrator^secim^ 
seus officiaes e gente de guarda com outra muyta cavalleria; fa- dae Fit Aorarl, ter- 

tiae Cdnhe AxmAcb, 

larei so de quando se Ihe juntou a gente e vai por terras que he quartae Querft Az- 

necessaria mais ordem. Mas pera que milhor se entenda isto, se ha ^^- 

de advertir que toda a gente limpa do arrayal do Emperador (nam 

tratando da que tracem os Vissorreys que o vem a acompanhar, por- 

que essa segue a seu Vissorrey) esta repartida em cuatro partes: 

huma, que sam os officiaes e a guarda do Emperador com alguns 

senhores grandes acompanham sempre sua pessoa ; outra parte se- 

gue ao capitam da dianteira, a quem chamam Fit Aoran ; outra vai 

com o capitam da mao dereita, que chamam Canhe Azmach, e a outra 

com o capitam da mao izquerda, que chamam Guera Azmach. 

Suposto isto, quando o Emperador ha de caminhar, sempre o 
capitam da dianteira da sinal com seus atabales, quando amanhece 
ou hum pouco depois, e logo todos desarmam suas tendas o come- 
gam a carregar seu fato. Dalli a pouco sae com sua bandeira, tan- 
gendo os atabales, que ordinariamente sam cuatro sobre duas mulas, 
huns de cobre vermelho e outros de pao cubertos com coiro de 
f- 65. vaca, e *seguemo todos os que tem obriga^am. Depois cavalga 
diante da tenda do Emperador seu estribeiro mor, o que outro nen- 

C. Bbccaki. /ier. Ae/A. Script, occ, ined, — 11. 20 



154 mSTORIA DE ETHIOPIA 

hun:, pr^ T grande que seia, pode facer, e ^'ai em cavallo ou em mula, 
conio elle c-er: mas ordinariamente todos vam em mulas com os 
cavallos a destro diante. hogo saem os capitaes da mao dereita e 
da izquerda ccm suas vandeiras e atabales e espera cada hum em 
seu I-gar com soa gente. ate que saia o Emperaior. Elle cavalga 
der.tro da tenda e f-ma o estribo o estribeiro piqueno; outros tem 
a mula p^lla redea, e oatr«7s a cobrem toda a roda com cortinas, 
de maneira que, ainda que esteja averta a porta da tenda, ninguem 
de fora o pi-de ver cavalgar. O freo da mula leva sempre mu^^ta 
prata la\Tada em pontas que Ihe faz parecer mu\to bem, e a sella 
cuberta de borcado. sobre que asentam no ar<;om [sii] traseiro polla 
vanda de fora prata dourada, em que abrem rosas e flores de lis. 

O Emperador algumas veces sae de borcado, nias poucas, por- 
que pesa: o mais ordinario he setim ou damasco carmesi, porque 
folga com esta cor, e chegalhe o vestido ate mais de meia pema, 
com os caU^oes do mesmo hum pouco estreitos e cobremlhe toda 
a pema ate o ^apato, que botas nam cal^a nunca. Sobre tudo veste 
albcmoz de veludo carmesi com grande capello e muj^tos pasa- 
miios de fio de ouro e botoes grossos de ouro; chapeo como os 
nossos, da seda que veste, e sobre elle a coroa, que he de ouro muyto 
fino com algumas pedras engastadas c em todas as pontas, que facem 
as flores de lis perolas e no mais alto do chapeo por remate huma 
pedra fermosa engastada na ponta de hum pioncinho de ouro, que 
a copa delle entra dentro da coroa. Em a cabe<;a de baixo do cha- 
peo, poe algumas veces huma toca branca muyto fina, cujas pontas 
decem por debaixo da barba e dam volta de maneira que Ihe co- 
brem a b^>ca e narices por causa do po ; outras veces nam poe mais 
que o chapeo, e a coroa leva hum page diante. Como sae o Em- 
perador da tenda, come^am a tanger suas cheremelas, que,' ainda 
que nam sam como as nossas, facem boa musica e logo o capi- 
tam da mao dereita e o da izquerda e os de mais vam marchando 
por seu ordem afastados bom peda^o do Emperador , e se he perto 
de onde ha de pelejar ou no caminho ha algum arreceo, o capi- 
tam da mao izquerda, |>assa com sua gente e vai perto do capitam 
dianteiro; depois se sigue o capitam da mao dereita, e com este 
de rigor avia de ir o capitam dos Portugueses com sua gente, mas 
ordinariamente fica perto do *Emperador, porque elle folga de levar f. 65,^. 
alli os Portugueses. 

A gente dos Vissorreys, que vem a acompanhar ao Emperador 



LIVRO I, CAPITULO XIV. 155 

dos reynos vecinhos, vai em os lugares que Ihe sinalam; depois 
vam comummente alg^ns sacerdotes, que levam as pedras de ara 
de cuatro igrejas, que sempre traz em seu arrayal o Emperador. 
Francisco Alvarez em sua Historia 112 diz que sam trece, mas 
parece que se usaria esto em aquelle tempo ; porem de muytos an- 
nos a esta parte nam foi costume levar mais que 4 (segundo dicem 
todos) e carregam as sobre a cabega ou no hombro, e vam cuber- 
tas com pannos de seda ou borcado, e diante de cada huma dous 
acolitos hum com cruz e turibulo em as maos, e outro tangendo 
com huma campainha, e tem todos tam grande respeito e reverencia, 
que, se estes sacerdotes se apresam pera passar adiante (que o po- 
dem facer, porque nam tem lugar sinalado, senam que vam onde 
querem, como nam seja ficar detras do Emperador), todos se afa- 
stam do caminho ate que passem. Detras dos sacerdotes hum pouco 
afastado vam as vandeiras do Emperador, que ordinariamente sam 
tres de damasco carmesi, nam tam grandes nem quadradas como 
as vandeiras de campo, que se usam entre nos, senam como guioes 
e na ponta da vara por remate huma bola de cobre dourada e so- , 
bre ella huma cruz do mesmo. Logo se seguem os atabales que co- 
mummente sam oito de cobre muyto grandes cubertas as bocas 
de pelle de vaca e as veces leva mais carregados em mulas: em 
cada huma dous ; c os que os tangem vam sobre as ancas das mu- 
las. Perto delles vam os desembargadores do pa^o com seus criados. 
Depois de tudo isto vai a guarda de a pe do Emperador, que 
sam agora oitocentos mancebos de adargas brancas, a que chamam 
Characa, scilicet c lua » , e outros tantos de adargas pretas, todas de 
coiro de bufara, e a estes chamam Cocab scilicet « estrella >, ainda/jue 
nam sam tam resplandecentes, senam pretos como suas adargas. Cada 
hum destes leva dous gargunchos e huma macinha de pao mu)rto 
duro e pesado : esta tira primeiro e depois hum dos gargunchos que 
tem o ferro como de gineta, ficandolhe sempre na mao outro que 
he de ferro largo e de dous palmos de cumprido. Demais destes 
vam muytos de espingarda e boa parte dellcs mancebos muyto al- 
vos, porque sam filhos de turcos que aqui se ficeram christaos, e 
ordinariamente vam juntos em esquadroes em hum os de adargas 
brancas, em outro os das pretas, e em outro os de espingarda, ainda 
que algumas veces vam em duas fieiras. Em o meio dellas levam 
f. 66, polla redea *duas mulas do Emperador e algumas veces 4, com 
freos e sellas muyto ricas. Depois seis cavallos de destro e algumas 



156 HISTORIA DE ETHIOPIA 

veces oito, muyto grandes e ricamente enjaeijados ; em os freos tem 
muyta prata dourada e em os pesco^os outros arreos do mesmo 
como os traz o Gram Turco, porque os fez pouco tempo ha hum 
official que de la veio ; as cubertas e sellas de velludo carmesi e 
outras de borcado. O cavallo que vai mais perto do Emperador 
leva o ar^am dianteiro de prata dourada muyto bem lavrada, e o 
ar^am de detras do mesmo poUa vanda de fora, mas com laceria 
e no que fica vao tem por dentro seda de diversas cores, com que 
se real^a mais o ouro. Junto a este cavallo vai o pagem de lan^a e 
outros que levam as armas do Emperador. Logo se seguem 1 2 man- 
cebos bem estreados filhos dos Turcos que ja disse, seis por vanda, 
vestidos de panno vermelho com alxabas [sic] no hombro muyto bem 
guarnecidas de ouro e nas maos arcos turquescos e na cabe^a humas 
caraminholas de cobre douradas com seus penachos. 

Depois vem o Emperador e, se esta o que he Eraz, que quer 
dicer « cabecja > e tem o mesmo officio que tinha o que antes cha- 
mavam Behet Oaded, elle leva a mao dereita, ficando hum pouco 
detraz do hombro do Emperador, e o que he como Mordomo mor, 
a quem chamam Balatinoch Gueita, vai a mao izquerda, e alli perto 
outros officiaes do Emperador, os Vissorreis e senhores grandes. E 
quando o Emperador fala com algum dellos, se traz capa ou hum 
panno de seda rico que acustuman a por sobre o vestido, o abai- 
xam ate a cinta. Detras destos levam o leito do Emperador cu- 
berto com hum panno de seda, porque, quando se apea, ordinaria- 
mente se asenta ou encosta em elle. Aos lados e detras vai muyta 
cavalleria, mas bom peda^o afctstada. 

Detras do Emperador e dos senhores que vam com elle, vem 
a Emperatriz como hum tiro de espingarda, que ordinariamente o 
acompanha com outras muytas senhoras e levam grande multidam 
de criadas e criados. Depois se segue a recovagem que he como 
outro exercito, porque demais das tendas e matalotagem e fato do 
arrayal, que levajn carregado em mulas, bois e jumentos, vem muyto 
grande numero de taberneiros e mercadores. Ultimamente na reta- 
guarda vai sempre hum capitam com muyta gente do guerra, mas 
cada dia se muda este capitam e em seu lugar entra outro ; e dous 
ou tres dias antes *que cheguem onde ham de pelejar, se arreceam f. 66,v, 
que a guerra sera forte fica a Emperatriz, todas as senhoras e a re- 
covagem em lugar seguro com gente de guarda, e o Emperador vai 
com seu exercito. 



LIVRO I, CAPITULO XIV. 157 

Esta he a ordem que levam quando vam por terra de arreceio, 5- Quomodo Sel- 

^ ^ ^ ^ tAn SagAd iter fa- 

mas quando nam, nem o Emperador leva vandeiras nem capitam ciat tempore pacis. 
nenhum, senam so atabales e chercmelas; e a Emperatriz e mais «"'*^**!?*'' . * °^" 

' * ^ mero et armis vali- 

senhoras vam muyto cedo diante, se querem; e os capitaes guar- dus, saepisaime vin- 

- . - ,./-•,,, citur ob defectum di- 

dani pouca ordem, porque sua gente vai afastada huma de outra, sciplinae et ordinis. 
pera andar mais a sua vontade, e como he tanta, sempre que sae 
o Emperador, cobre os campos de maneira que raramente podem 
escapar os animaes sylvestres que se alevantam entre elles, ja per- 
dices e outras aves que ha que nam avoam muyto de nenhuma ma- 
neira, senam a certam de esconderse em parte que nam as vejam. 
Muytas veces desejei saber quanta gente limpa de guerra iria ordina- 
riamente com o Emperador (que a outra com difficultad[e] se podera 
contar), e nunca me souberam dar re^am, pollo que huma vez man- 
dando o Emperador a seus capitaes que Ihe desem mostra de sua 
gente, Ihe preguntei a elle mesmo quanta teria, e respondeo que 
de certo nam o sabia. Quanto a vez que eu vi mais, nam cuido que 
passavam de cuarenta mil, mas se quiser juntar toda sua gente 
(que o pode facer com facilidade, por nam aver no verSo rio que 
lo possa impedir), parece que seram muyto mais de cem mil ho- 
mens ; com que pudera nam somente recuperar as terras, que tem 
tomado os gentios que chamam Galas, mas sugetar outras muytas, 
se pelejaram unidamente. Mas guardam muyto pouca ordem militar 
e se os dianteiros come<;am a tornar atras, logo biram todos os de- 
mais, que, ainda que antiguamente tinham por gran deshonrra o 
fugir e ao que fugia o castigavam, facendolhe as afrontas que dis- 
semos no cap. 4, ja nam tem esse primor e ponto de honrra, com 
ser gente muyto mais lustrosa e bem armada que seus enemigos, 
porque estes vem despidos da cinta pera cima e nam tracem mais 
que huma adarga, dous gargunchos e huma macinha de pSo e seus 
cavallos sam mu)rto curtos e ruins ; e elles tem muyto boas malhas 
e capacetes e grandes e fermosos cavallos, muytas langas, arcos e 
frechas e espingardas. E assi vendoos eu hum dia postos em ordem, 
como quando querem dar batalha, a gente de pe diante em esqua- 
droes e logo a cavalleria, disse ao Emperador que me maravilhava 
de como nam venciam sempre seus enemigos, sendo tanta gente e 
tam lustrosa e tendo tam boas armas e cavallos; e respondeo: Nam 
cuide V. R. que esta minha gente peleja com cora^am nem ordem, 
f. 67. porque huns arremetcm e *outros ficam em pe olhando, e assi, como 
nam se unem, facilmente os desbaratam os Galas, que vem sempre 



158 HISTORIA DE ETHIOPIA 

rauyto unidos e resolutos de pelejar ; mas, quando guardamos ordem, 
poucas veces deixamos de alcan^ar victoria. 
6. D«8cribitur mo- Acerca do modo e ordem, com que asentam as tendas, o ca- 

du8 castratnetandi. .... 

pitam dianteiro tem a seu cargo escolher o lugar onde se ham de 
plantar, e sempre procura que seja algum campo graride, onde aja 
agoa bastante pera o exercito e herva pera as mulas e cavallos e 
jumentos de carga e no meio delle, se he chao, ou em alguma parte 
mais alta poe logo huma vandeira branca em sinal de que alli se 
ham de armar as tendas do Emperador ; pera que cada hum saiba 
o lugar que ha de tomar. Logo se armam alli poUo menos duas 
tendas muyto grandes, nSo redondas senam cumpridas de tres ma- 
stos com as portas pera occidente; tracem tambem huma tenda re- 
donda muyto grande, a que chamam Debana e como esta nin- 
guem pode por senam o Emperador, mas nam sempre a armam. 
A roda destas tendas hum pouco afastado cercam com cortinas de 
panno de algodam entretexidas de branco e preto, que se susten- 
tam em varas mais altas que hum homem e a roda deJlas fica hum 
campo de 40 lan^as de largo cada huma de 15 palmos, e dentro 
deste circuito nani se pode armar tenda nenhuma, excepto a que 
serve de igreja de nossa Senhora, que fica a mao dereita pera a 
vanda do norte; e a da igreja de Jesu a mao izquerda pera o sul. 
Detras das tendas do Emperador, fora dos limites daquelle terreiro, 
estam as da Emperatriz cercadas com ccrtinas da mesma sorte; e 
logo a roda por huma e outra vanda se vam continuando as dos 
parentes e parentas do Emperador com as da gente de S3U ser- 
viijo; e todas as destes senhores e senhoras tem a roda cortinas. 

Detras destas tendas se poem as da cocinha do Emperador, 
humas a mao dereita e outras a izquerda. Perto das da Empera- 
triz se asontam as do Balatinoch Gueita, que he como mordomo 
mor do Emperador, e logo as do principal secretario, thesoureiro 
e outros muytos officiaes do Emperador com muyta gente de guarda. 
A mao dereita perto das tendas das parentas do Emperador estam 
as de 22 senhores e outros tantos a mao izquerda, com muyta gente, 
a que chamam Jan Beit tabacoch, que quer dicer « giiardas da casa 
do Emperador * ; porque ainda que Jan propriamente em lingua an- 
tigua seja « elephante », tomase ja por «Emperador», como dissemos 
no cap. 5. Perto destes, a mao *dereita, se poem as tendas de Eraz f. 67,v. 
com as de sua gente que he muyta, porque tem a suprema hon- 
rra e mando do imperio. Detras destas estam as do capitam da mao 



LIVRO I, CAPITULO XIV. 159 

dereita com as de toda sua soldadesca, e da mesma maneira esta 
o capitam da mao izquerda. Diante pera occidente, perto das ten- 
das dos parentes do Emperador, estam as dos embargadores do pacjo, 
a quem chamam Azaxoch, scilicet c mandadoures » e entre elles fica 
sempre huma rua muyto larga, e os mais principaes estam a mao 
dereita da rua e os outros a izquerda; da vanda destes estam as 
tendas do capitam da dianteira e as de sua gente. Aqui esta huma 
igreja de sam Miguel; logo se continuam de huma e outra vanda 
da rua as dos que sam como ouvidores, a quem chamam Unbaroch 
scilicet « cadeiras », porque estes juices ccisi sempre estam sentados 
em cadeiras pera julgar. Mais adiante se poe grande multidam de 
tendas de taberneiios que vendem vinho feito de mel e outro de 
cebada e milho e de outras sementes, a que chamam ^aoa, e agas- 
salham a gente de fora por pouco premio. Logo se seguem as ten- 
das dos orivez e com estas se continuam as dos ferreiros, que tam- 
bem sam muytas. 

Esta he a ordem que guardam sempre, em asentar suas tendas, 
os que por obrigacjam andam em o campo do Emperador e nam 
se podem passar de huma parte pera outra, como da mao izquerda 
pera a dereita, senam que cada hum ha de estar em seu Ingar, se 
o Emperador nam o muda ou Ihe da licen^a; e assi com muyta 
preste^a asentam todos suas tendas sem aver comummente difFe- 
rencias, porque se conhecem huns vecinhos a outros, e se da vanda 
da mao dereita tem alguma dififerenga sobre a largura do lugar 
ou sobre alguma rua, logo a determinam os desembargadores e ca- 
pitam daquella vanda, a cujo cargo esta isso; e o mesmo facem os 
desembargadores e capitam da mao izquerda, se la se ofFerece al- 
guma cousa. 

Afora esta gente, que de ordinario seg^e ao Emperador, ha outra 
muy ta dos Vissorreys dos reynos vecinhos, que o vem a acompanhar, e 
estes tambem tem seus lugares a mao dereita ou a izquerda, conformc 
manda o Emperador; mas suas tendas ficam na borda do arrayal, 
alg^mas veces em terra de paz hum pouco afastadas de maneira 
que cada hum destes Vissorreys faz arrayal por si ; pollo que ocu- 
pam muyto grande campo. E pera a vanda de diante hum pouco 
afastado do arrayal ha cada dia feira (excepto os domingos e fe- 
stas), a que se junta infinidade de gente, e alli se acham roupas de 
toda sorte mantimentos e as demais cousas necessarias. 



•• -^ 



CAPITULO XV. 

Em que se declara se o Preste Joam contrae sempre 
matrimonio com algumas das familias dos tres Reys 
Magos, ou com a senhora que milhor Ihe parece em 
seu imperio. 

Por cousa muyto certa e averigiiada supoe frey Luis de Ur- x. Fabulae Urre- 
reta no cap. 1 7 do i livro de sua Historia que o Preste Joam sem- q^g ducunt uzores 
pre casa com molher de huma das familias dos tres Reys Magos, R«g** Aethiopiae. 
que adoraram ao menino Jesu e assi diz pag. 170: « Los Empe- 
« radores de la Ethiopia ham procurado contraer matrimonio con 
« mugeres de linage santo, noble y illustre, y pareciendoles que 
« en todos sus reynos y estados no avia mejor linage que el de los 
« santos Reyes Magos, presumiendo y con mucha probabilidad que 
« las virtudes heroicas aquella fervorosa devocion, aquella santi- 
« dad unica alfin como primicias de la Iglesia santa resplandeceriam 
« en los hijos, se hi^o un estatuto que, siempre que ubiesem de 
« tomar esposa y muger, fuese de uno destos tres linages, que se 
« hallan oy dia en Ethiopia. Y es cosa recibida en toda ella que 
« estos Reyes uno era de la Ethiopia y los otros de Arabia, los 
« quales aviendo vivido christianamente con sus familias en sus 
« reynos mucho tiempo, por la grande persecucion de los Aria- 
« nos les fue forgoso, assi a los descendientes de Melchior, que 
« fueron reyes en Arabia, como a los de Balthasar, que lo fueron 
« em Persia, recogerse a Ethiopia, como a tierra de christianos. 
« A los descendentes de Balthcisar dio el emperador Juan el Santo, 

C« Bkccaju. Rer. Aeth, Script» occ, ined, — II. 21 



l62 HISTORIA DE ETHIOPIA 

« que vivio en tiempo de san Basilio, el reyno de Fatagar ; y a 

« los del linage de Melchior dio el de Soa ; pero a los descendentes 

« de Gaspar, que tenian el reyno de Saba, se le troco por el tie 

« Bernagasso que oy tienen. Desta manera han venido a estar jun- 

« tas estas tres familias en Ethiopia ; y es cosa milagrossa que de 

« todas ellas nacen los varones ligitimos con una estrella figurada 

« en un lado de su cuerpo; y esto es tan certo que el ano de 1575, 

« que fue del Jubileo en tiempo del papa Gregorio 13, se hallaron 

« en Roma tres cavalleros de todas tres familias con esta seiial, y 

« haciendolo saber a su Santidad el senor cardenal Farnesio, que 

« aya gloria, protector de la Ethiopia, lo quiso ver y los hallo a 

« todos con ella en presencia de muchos principes y cardenales. 

« Mas aunque esto nos cause admiracion, es lo mayor el ver *que f. 68,v. 

« no solo nacen con esta seiial los varones destas familias que son 

« christianos, sino los mahometanos tambien, siendo legitimos; que 

« si don Juan no me jurara averlo visto em Persia y en Arabia, 

« 110 me atreviera a referirlo. Por honrrar estas familias instituyo 

« el mismo Juan el Santo y Phelippe 7° que los Emperadores que 

« se hubiesen de casar (que no todos se casan) fuesse con muger 

« de una destas familias. 

« Para que sc effectuen los desposorios, la esposa sale del reyno 
« de sus padres acompanada con su madrc, hermanos y parientes 
« y con toda la noble^a de su reyno, y camina pera la ciudad de 
« Saba, donde esta el Emperador esperando. Ella va siempre den- 
« tro de una litera y en llegando a un humilladero, que esta mas 
« de legua de la ciudad, halla plantados muchos pavellones donde de- 
« scansa aquella noche. A la mafiana tiene aparejado un hermoso 
« elephante ricamente enjae^ado y en cima del esta asentada una 
« silla alta de respecto, donde asientan a la Emperatriz, y las demas 
« damas y senoras que la acompafian, unas van sobre elephantes, otras 
« en cavallos, y otras a mula, y todas con adere^os costosos. Cami- 
« nando desta suerte, salen de la ciudad quatro Reynas, que para este 
« menester son llamadas del Emperador, las quales cavalleras en ele- 
« phantes la reciben y puniendose a los lados, la acompafian hasta 
« cierto puesto, donde esta aguardando el Emperador con su vestido 
« ordinario, a cavallo, acompafiado de los primogenitos de los Reyes, 
« y del gran Consejo y toda la corte, y en llegando la Empera- 
« triz, se hacen entrambos muchos complimentos y cortesias, y de- 
« jando toda la corte pera que acompanem a ella, se buelve solo con 



LIVRO I, CAPITULO XV. 163 

« quatro hijos de Reyes y con el Ambajador del gran Abad y se 
« va a la iglesia donde se hacen los desposorios y alli se viste con 
« su habito imperial y en una silla y trono real, que esta fuera 
< de la puerta de la iglesia, se sienta con magestad y grandec^a aguar- 
« dando a la Emperatriz ; a su lado esta una silla rasa. Acabado el 
« passeo, que hace la Emperatriz por las calles seiialadas para estas 
« fiestas, las quales estan ricamente adere^adas, y los de la corte 
« con vestidos costosos y todos muy de fiesta y regocijo. 

« En llegando al trono del Preste Juan, apea del elephante y 
« el Emperador la toma de la mano y la asienta en la silla rasa. 
« Luego sale vestido de pontifical el Ar^obispo mas antiguo, que 
« tiene las veces del summo Pontifice, acompaiiado de dos Obispos, 
« y se pone a la puerta de la iglesia y el Emperador, algandose del 
« trono Uevando a la Emperatriz de la mano, se van para el Ar^obispo 
f Gi). « y arrodillandose delante del los desposa *con las ceremonias que 
« usa la iglesia romana. Concluidos los desposorios, se quita el Empe- 
« rador el habito imperial y llevando a la Emperatriz de la mano a 
« pie, sa van a palacio acompanados de toda la corte ; por las calles 
« les echan flores, aguas de olores y con mil bendicciones los signen » . 

Ate aqui sam palavras de frey Luis de Urreta e a mesma ma- a. Magoram, qui 
teria em o que toca aos tres Reys Magos trata difusamente no 3 stum, nulla memoria 
livro da pacf. 628 pordiante. Mas tudo quanto delles diz que passa ^^ Acthiopia. impc- 

^ ° ^ 1 ^ ratorcs sempcr nu- 

em as terras do Preste Joam sam fabulas e meras fic^oes ; porque pscrant et nubunt 

t_^^j. T\ ^ r nunc cui volunt. 

nam somente nam ha estatuto que o Preste Joam case sempre com 
molher de huma das familias destes santos Reys, mas nenhuma ha 
em todo seu imperio, nem memoria de que a ouvese nunca. E pera 
averiguar esta verdade, nam me contentei com preguntar a muytos 
que podiam dar regam disso, e disseram que nunca tinham visto em 
iivros nem ouvido tal cousa; mas cheguei a falar com o mesmo 
Emperador e refirindolhe en soma todas estas cousas, rio muyto de 
que tam facilmente dessem credito a hum homem nam conhecido 
pera as authori^ar imprimindoas, e disse, que nam avia tal estatuto, 
nem nenhum de seus antecessores se chamara Joam, nem em suas 
terras ouve nunca familia nenhuma dos tres Reys Magos, nem ti- 
nham mais noticia delles que a que dava o s^° evangelho ; e que os 
Emperadores sempre casaram com a molher que milhor Ihes pareceo, 
e que, se quissesem, ainda con mouras podiam casar, facendose chri- 
staas. Isto me disse o emperador Seltan Qagued, e eu sei que de 
facto trouxe o emperador Jacob huma moura dos Hadcas mouros 



tia. 



164 HISTORIA DE ETHIOPIA 

no anno de 1 605 pera casar com ella, segundo me affirmou entam 
hum capitam grande e muyto intimo seu, e conforme ao que facia 
o Emperador e ao modo que eu vi que tratava com ella se deixava 
isso bem entender, mas antes que casase o mataram. 

3. Exempla recen- Tambem conheci e tratei muyto a emperatriz Mariam Cina mo- 

Iher que foi do emperador Malac Qagued, e nam era de sangiie real, 

ainda que senhora grande natural da provincia de Sirei; e muyto 
menos o era a senhora com quem casou, depois que eu ca entrei, 
o emperador Za Denguil, e a Emperatriz, com quem agora he ca- 
sado o emperador Seltan Qagued, nam he de muyto alto sangue; 
porque, ainda que casem com filhas dos senhores de seu imperio, 
por estarem (jercados de mouros e gentios e nam Ihes poderem vir 
*molheres de outros reynos de christaos, com tudo isso mais aten- f. 69.V. 
tam a que sejam bem parecidas, que nam em serem filhas dos ma- 
yores senhores, que ainda que sejam de menos qualidade, bastalhes 
chegar a casar com o Emperador pera terem quanta honrra podiam 
desejar; e assi, ainda que a Emperatriz seja filha do mayor senhor 
de Ethiopia, quando se ofFerece falar della em historia ou praticas 
particulares, nam a nomeam por seu proprio nome, se a querem hon- 
rrar, dicendo a Emperatriz foam, senam acrecentam ao nome do 
Emperador esta palavra « Mogo^a », que significa suprema honrra, 
pera declarar que do Emperador, con quem casou, Ihe veio toda sua 
honrra. E assi a molher do Emperador Adamas (^agued a nomeam 
« Adamas Mogo^a > e a de seu filho o emperador Malac (^agued, « Ma- 
lac Mogo^a », chamandose ella Mariam Cina, e a a deste emperador 
Seltan (^agued, que se chama Oade^ala, nomeam « Seltan Mogoija » . 

4. Refutatur alia Quanto ao que diz o Author, que todos os varoes que por linea 

dlena Ae^l^pes^^so- ^^^^^ ^^^ ^® aquellas ties familias, nacem com huma estrella em 
lent, sicut ct Maho- hum lado e que em tempo do papa Gregorio 1 3 se acharam em 

xnedani, varia einble- _ 

mata in brachiis et Roma tres cavalleiros de todas tres familias com este sinal, nam 
alibi sibi imprimere t^nios que dicer: isso saberam la; mas, se for certo que se viram, 

elegantiae causa. ^ ^ 

tambem o he que nam eram das terras do Preste Joam ; pois nellas 
nam ha taes familias. O que eu sei e tenho visto muytas veces he que 
cm estas terras e pera a vanda do Cairo, faz a gente muytos si- 
naes por galanteria, huns picando com agulha e botando anil e outras 
cousas em o sangue e fica o sinal a^ul, outros com navalha facem 
o sinal que querem e sem botar tinta Ihes fica sinalado de maneira 
que casi parece natural. Ate o Abuna, que mataram os annos pas- 
sados, tracia liuma cruz muyto bcm sinalada no brago izquerdo com 



LIVRO I, CAPITULO XV. 165 

humas como estrellas a roda, o que eu Ihe vi por veces falando 
com elle; por que ordinariamente vestia camisa de mangas largas 
aguisa de turcos e assi discubria o braQO. 

Acerca do que diz que a esposa do Emperador vem de suas ter- 5. Mulieres etir.in 

, -.^ j. ^ .jj j e nobilioribus equi- 

ras em huma htera e depois pera entrar na cidade, onde espera ^^^ solent in mulis, 
o Emperador, sobe em hum fermoso elephante e 4 reynhas a saem ^^^ ^^ equis, mul- 

• i T .^ toque minus m ele- 

a reciber em elephantes e outras senhoras tambem a acompanham phantis, qui in Ae- 

11 11 A i_* z j.' thiopia sunt omnes 

em elles e em cavallos, e que o Ar^obispo mais antigno acompa- gyiyegtres. 
nhado de dous Bispos os desposa, ja tenho dito algumas veces que 
nam ha Ar^obispo nem Bispo mais que o Abuna, nem Reynhas 
e por testimunha de muytos e do mesmo emperador Seltan Qa- 
f. 70. gned, que nam ha em todo seu imperio elephante manso, *nem me- 
moria de que ouvese nunca; nem as senhoras sobem em cavallo 
de nenhuma maneira, nem viram nunca litera, nem sabem que cousa 
he : todas andam em mulas com sellas hum pouco largas, cubertas 
com pannos de seda ou outros somenos, conforme a qualidade da 
pessoa, e cada huma leva dous homens perto do axQam dianteiro, 
hum de huma vanda e outro de outra, e cada hum sua mao sobre 
o pescocjo da mula, e ella muytas veces se encosta pondo a mao 
no hombro do que quer. Outros dous vam detras da mesma ma- 
neira com huma mao no ar^am, assi por honrra como pera que 
nam tenha perigo de cair; mas as que nam podem tanto levam 
hum so homem a mao dereita. 

O modo e ceremonias de que usam em seus casamentos he o 6. Descriptio cae- 

.^A^ X- j !_• j^'j remoniae nuptiarum 

sigumte. Antes que o Emperador pubnque com quem determma de impcratoris. 

casar, se informa com muyta diligencia se aquella senhora decende 

de gente que em algum tempo tivese alguma doenpa contagiosa, 

como levra, ou outra semelhante, e achando que nam, se ella nam 

esta na corte, a faz tracer com grande acompanhamento e a enco- 

menda a alguma sua parenta de quem se fia, pera que a tenha em 

sua casa e a tente muyto bem por seu natural, se he aspera ou 

branda de condigam, e Ihe insinhe as ceremonias do paQO e o niodo 

que ha de guardar com os principes e grandes o com os que sam 

de menos qualidade. Depois que se acha ser de boa condigam e 

que esta bem instruida, sinala o Emperador o dia em que a ha de 

receber, e polla minha vam amos a huma igreja. O Emperador 

sae do pago a pe ricamente vestido e acompanhado de todos os 

grandes da corte; e ella vem da casa, onde estava, tambem muyto 

costosamente vestida e acompanhada das senhoras mais nobres da 



l66 HISTORIA DE ETJIIOPIA 

corte, e amos ouvem missa e confessain e comungam, e logo vam 
ao paQO com todo aquelle acompanhamento, e alli ordinariamente 
o Abuna acompanhado de muytos fracjes e clerigos Ihes da as ben- 
^oes, regando o que pera isso tem ordejiado em Ethiopia, que sam 
algumas oragoes e psalmos, e como ac^va, tangem a porta do pacjo 
as cheremelas do Emperador e outros instrumentos musicos. Logo 
se poe a mesa pera o Emperador e cojne so, como faz sempre. A 
Emperatriz em outra mesa com algumas senhoras grandes paren- 
tas do Emperador e a todos os sacerdotes e aos grandes do im- 
perio, que estam juntos, se Ihes da eiplendido banquete em outra 
casa; e como acabam, entram na sala onde esta o Emperador e a 
Emperatriz com as demais senhoras e todo aquelle dia e outros 
muytos passam em festas e se dam grandes banquetes. 
7. Post nupdas, *Demais destas festas se facem depois outras o dia que o Em- f. 7o,v. 

statuto die, solemEi- , . 1 j t- ^ • _^ j i_ 

ter imponitur Impe- perador smala, em que se da a Emperatriz certo nome de honrra 
ratricinomenltegue, g^^ j^g Itegrie, porque ordinariamente nam se Ihe da o dia que casa 

cuius interpretatio- ^ o ^ ^ ^ 

nem frastra Auctor pera que seja com novo aparato e pera isto vam todos os grandes 
inquisivi . ^^ corte ao pa^o ricamente vestidos e, estando em a sala do Em- 

perador em pe, postos em ordem cada hum conforme a seu estado 
e o Emperador asentado em seu throno, entra a Emperatriz acom- 
panhada de muytas senhoras grandes e, chegando perto do Empe- 
rador, Ihe facem mesura, e logo elle manda que vistam a Emperatriz 
vestidos imperiaes; o que facemalli diante do Emperador, e depois 
se asenta no estrado que Ihe tem aparelhado perto do Emperador, 
e logo hum dos mayores senhores da corte sae ao terreiro do pa^o 
acompanhado do outros, onde esta grande multidam de gente espe- 
rando e, subindo em huma cadeira alta de ferro, diz em alta voz, 
de parte do Emperador : Anegucgana Danguecerachen, que quer di- 
cer : « ficemos reynar nossa serva » . E logo todos os circunstantes le- 
vantam grandes voccs de alegria e se come^am os tangeres e festas. 
E dalli por diante chamam todos a Emperatriz Itegue, que parece 
nome de magestade; que sua propria significa^am nam me soube- 
ram deciarar, com preguntar a muytos, como tam pouco a sabem 
dar a outro nome que tem o Emperador, que he Azegue. Mas nem 
quando dam este nome de Itegue a Emperatriz nem em outro tempo 
nenhum Ihe poem coroa na cabe^a. 

Das ceremonias que guardam e das festas, que se facem em 
os casamentos da demais gente, falaremos em o livro 2 quando 
tratarmos dos erros que tem no sacramento santo do Matrimonio. 



CAPITULO XVL 

Em que se trata dos juices que tem o Preste Joam, do 
modo de proceder em a justi^a e do castigo que 
dam aos delinquentes. 



Todos os juices, que o Preste Joam tem em seu imperio, a que x.liidices supremi 
chamam Azaxoch, que quer dicer « mandadoies », c Umbaroch, scili- umbar6ch i^c^tur 
cet « cadeiras » (porque ordinariamente estam em cadeiras pera ouvi- «* eliguntur ex anti- 

quis familiis nobili- 

rem £is partes e julgar), decendem por Imea recta daquelles juices bus: ludexaulae re- 
que Salomam deo a seu filho Menilehec, segundo elles affirmam por ^*® ^ dicitur. 
cousa muyto certa e averiguada e o testificam seus livros, do que 
se pre^am muyto, e procuram tanto que se conserve esta descen- 
dencia em o officio de julgar que de nenhuma maneira admiten a 
f. 71. elle se nam sos *os que vem de aqucUes antiguos por via mascu- 
lina, de sorte que, se as filhas destes casam com homens que nam 
sejam daquellas familias, a seus filhos nam os deixam entrar em este 
officio, porque dicem que se Ihe cortara logo a linea dereita de seus 
antepassados, como declaramos no fim do capitulo 4, por testemunho 
de muytos e do mesmo Emperador e, ainda que elle da este titulo 
de Azax a alguns, que nam sam daquellas familias, nam por isso 
ficam sendo juices como estes, que nam se Ihes da senam por 
honrra. Estes Azages sam como supremos desembargadores, mas 
nam podem mandar matar, nem cortar membro, nem desterrar, sem 



l68 HISTORIA DE ETHIOPIA 

o Emperador confirmar sua sentencia. A hum destes chamam Fara 
Cemba e he como corregidor da corte. Os Umbares sam como ouvi- 
dores de menos al^ada, e destes tem sempre em seus desembargos 
os Vissorreys. 

2. L.OCU8 iudicum Os da corte moram sempre de fronte do pa^o do Emperador, 

in residentia Impe- j-' ^t -j^ j-i^ i j 

ratori8. Unus est V^^ ordmanamente he pera occidente, e quando o Emperador anda 
praeses in utroque gm campo, de fronte de sua tenda asentam as suas, como dissemos 

tribunali. 

no cap. 14; e entre elles fica sempre huma rua muyto larga, e os 
Azages todos sam como de conselho real e facem hum so tribunal, 
mas os Umbares da mao dereita da rua sam como de mais tribunal 
que os da izquerda, e perto da cerca do pa^o de huma e outra 
vanda da rua tem casas ou sombreis onde ouvem as partes e julgam, 
posto que muytas veces o fa^am dentro dsis suas. Dos Umbares que 
mais se senalam em facer bem seu officio tomam pera Azages com 
beneplacito e aprova^am do Emperador. Em cada tribunal dos Um- 
bares esta hum como presidente e assi tambem em o tribunal dos 
Azages. A estes presidentes pertence dar juiz a quem o vem a pe- 
dir pera qualquer negocio que seja; mas elle nam tem obriga^am 
do pedir aos presidentes dos tribunaes inferiores, senam a quem 
. quiser, porque bem pode pedir ao presidente dos Azages e ainda 
ao mesmo Emperador. Elle logo manda dar a quem Ihe parece, 
porque nam he necessario que estes juices sejam das familias dos 
Umbares e Azages, ainda que, quando he cousa de importancia, 
ordinariamente vai hum Umbar, e se for de muyta, hum Azax. 

3. ludicia omnia Tirado o juiz, se a demanda he dentro da corte, elle so ouve 

etiam de eravioribus ^ , . ^ ^ 1. 

deiictis oretenus ^ partes e o que dicem as testemunhas que presentam, sem se 
nonscriptohabentur. escrever cousa nenhuma, porque nunca escrevem *nada, por mais f. 7i,v. 

Quid sit Barcaf&ch. r- t i- / » 

Rei de levioribus grave que seja o negocio, mas, se a demanda se ha de facer em 
rcT^de^^ravioribuB ^^^^^ lugar, este juiz, ainda que seja mandado por o Emperador, 
vinciuntur catena : tem obriga^am de chegar ao senhor do lugar, (que todas as terras 

omnibus datur f acul- , . , 1 /-1, -r- 

tas sibi defensorem tem senhores, amda que nam vam de paes a tilhos, porque o Em- 
eligendi. perador os muda todas as veces que quer) e pedir que Ihe de hum 

homem (a quem chamam Barcafach) que assista com elle pera ouvir 
aquella justi^a, e se o senhor do lugar tem algum previlegio do 
Emperador (que acostuma a dar a alguns, como nos tem dado a nos), 
nam deixa entrctr aquelle juiz, mas manda ao que elle tem posto no 
lugar que ou^a a justi^a, e se nam tem previlegio, sinala hum lio- 
mem, o qual se asenta juntamente com o juiz, e amos ouvem as 
partes; e se aquelle a quem demandam pede tempo pera buscar 



LIVRO I, CAPITULO XVI. 169 

procurador, Ihe dam tres dias, se nam for sobre cousa de hereiKja, 
de adulterio, de traigam, ou de morte, porque entam Ihe dam dez, 
e entretanto o juiz come a custa do que o levou, e o outro, se nam 
da fian<;a pera estar a justipa, fica presso ; e se Ihe acusam de al- 
gum destes casos graves, nam admitem fian^a, senam que o pren- 
dem e muytas veces de amas as maos, porque sua prissam he por 
huma argola de ferro no brago dereito com huma cadea curta aper- 
tada de maneira que nam possa tirar a mao, e outra argola, que 
esta na outra ponta da cadea, metem no bra<;o izquerdo de algum 
de que se fiam pera que o guarde, que se chama coranha, e se o 
prendem de ama^ as maos, poem pressos com elle dous, hum de 
huma vanda e outro de outra. 

Como se cumpre o tempo que deram pera buscar procurador, 4. Modus proce- 
se asentam amos os juices em cadeiras ou na cham sobre alguma ******* ^ ^* ■• 
alcatifa ou outra cousa, e as partes com seus procuradores ficam 
em pe diante, e o que demanda come^a primeiro a falar ou seu 
procurador por elle, e diz quanto quer, sem que nimguem Ihe in- 
terrumpa. Depois responde o accusado ou seu procurador, dicendo 
tambem o que quer, sem que o interrumpam, e como acaba, se o 
que demanda tem que replicar, o fciz, e se pedem tempo pera tra- 
cer testimunhas, Iho dam conforme Ihes parece necessario, e dalli por 
diante comem os juices a custa do acusado, mas, se depois se achar 
nam ter culpa, ha de pagar tudo o que acusou ; e como presentam 
as testimunhas, ha de dicer a outra parte se tem alguma suspei^am 
que por e a ha de provar, e se nam, Ihes dam juramento e teste- 
f. 72. munham *diante das partes, e ellas alegam logo de seu dereito, se 
tem alguma cousa, e depois julga o que deo por companheiro o 
senhor do lugar dicendo : Fetna Neguz aiatafa Egziabehez, que quer 
dicer: « A justi^a e el Rey nam perca Deos >, scilicet c nao per- 
mita que se perca » ; e logo da a sentencja que Ihe parece; e o outro 
juiz diz tambem as mesmas palavras e julga; e se as partes sc dam 
por satisfeitas, alli se acava a demanda, e se nam, agravam pera 
o tribunal que deo o juiz e, se o deo o Emperador, ham de ir de 
for^ado ao infimo que he o dos Umbares da mao izquerda. Nem 
porque vam primeiro a outro tribunal alto que deo o juiz, se Ihe 
tira a parte que depois de julgarem os daquelle tribunal nam su- 
plique se quiser da senten^a, pidendo que julguem tambem os do 
tribunal inferior, porque, ainda qne antiguamente replicaram muyto 
a isso os tribunaes supremos, com tudo ordenaram os Emperadores 

C. Bbccaki. /ier, Aeik, Scri^i, occ, ined, — II. 22 



I70 HISTORIA DE ETHIOPIA 

que nam se prohivisse, dicendo que queria que se ouvise o parecer 

de todos, pera que milhor pudesem dar a justiga a quem a tivese. 

5. Modus ferendi Supondo pols que levam a senten^a a os Umbares da mao iz- 

sententiam. ludices, j n ^ j • j j» • 

nonstantes uti retu- Querda, elles se asentam em suas cadeu^as e de ordmano sam tres 

lit Alvarez, aed ae- qu 4, e os dous juices com as partes e seus procuradores ficam em pe 

dendosententiamdi- 

cimt. e o que pus o senhor da terra, onde se fez a demanda, fala primeiro 

refirindo tudo quanto disseram as partes e as testimunhas e o que 

elle julgou. Depois repete o mesmo o outro juiz e diz o que elle 

julgou e, se aos juices Ihes ficou por referir alguma cousa, a acre- 

centam as partes ou seus procuradores e alegam de novo tudo o que 

Ihes parece pera bem de sua justi^a, sem interrumpir hum a outro, 

e entam se he necessario facer alguma nova diligencia, sinalam os 

Umbares tempo pera ella, e se nam, julga o inferior asentado como 

esta em sua cadeira. Bem sei que diz Francisco Alvarez em sua 

Historia fol. 164 que os Ouvidores se alevantam pera julgar; mas 

foi engano, equivocandose com os que nam o sam ; porque algumas 

veces os Ouvidores dicem por cortesia a alguns dos que estam pre- 

sentes que julguem, e aquelles se alevantam em pe pera julgar; 

mas os Ouvidores nam se alevantam, nem convinha, pois estam em 

lugar do Emperador e assi ninguem se pode asentar alli em ca- 

deira senam elles. Depois vam julgando os Ouvidores hum e hum 

comegando o inferior por aquellas palavras: A justi^a e el Rey 

nam perca Deos: e assi facem todos os demais, julgando sempre 

*o presidente por derradeiro. E se a parte condenada quer, agrava f. 72,^. 

pera os Umbares da mao dereita e entam o presidente dos da mao 

izquerda vai com as partes e refer tudo da maneira que se pro- 

cedeo e o que se julgou em seu tribunal, declarando se ouve pa- 

receres diferentes ou nam; e logo julgam aquelles Umbares poUa 

mesma ordem que os primeiros e, se confirmam a sentenga e o con- 

denado quer estar por ella, parecendolhe que julgaram bem, alli 

se acava, e se nam, agrava pera os Azages, e os dous presidentes 

dos Umbares vam com as partes e referem por ordem todas as cou- 

sas e o que julgaram, e logo julgam os Azaxes, ficando sempre o 

presidente por derradeiro, e alli se acava a demanda, se nam for 

sobre cousa de trai^am contra o Emperador, adulterio, morte ou 

heran^a ou alguma outra cousa muyto grave ; porque estas nam po- 

dem acabar os Azages sem chegar ao Emperador, nem julgao diante 

das partes : somente ouvem o que disseram as testimunhas e o que 

julgaram os jui^es, e logo vam ao Emperador e Ihe referem tudo 



LIVRO I, CAPITULO XVI. 171 

por ordem e julgam hum e hum, come<;ando os da mao izquerda e 
ultimamente julga o Emperador. 

Antiguamente, quando o Emperador avia de julgar alguma e.Ordoconfirman- 

,. -j^jiA «j ... di sententiam a tri- 

causa, hia o presidente dos Azages com seis dos mais prmcipaes e ^ujiaii supremo et 
o Behet Oaded da mao izquerda e o da mao dereita e, ficando as •*> Imperatore quis 

fuerit antiquitua et 

partes e seus procuradores fora do pago, entravam elles e postos quig sit nunc. 

em pe diante do Emperador, referia hum todo o processo do ne- 

gocio e o que se julgou em cada tribunal, e, se ouve pareceres di- 

ferentes e se Ihe esquecia alguma cousa, Iha lembrava outro, e de- 

pois julgavam hum e hum, come^ando o menos antiguo, e o ultimo 

era o Behet Oaded da mao dereita, que ainda que elle c seu com- 

panheiro nam sejam da familia dos Azages, com tudo, por serem as 

supremas cabe^as do imperio, julgavam juntamente em cousas gra- 

ves. Depois o Acabi^at, cuja dignidade e officio declaramos no 

cap. 4, asentado perto do Emperador, julgava, e ultimamente o 

Emperador, e logo se executava sua senten^a sem mais replica. 

Agora ordinariamente (como eu tenho visto muytas veces) nam 
entram mais que o presidente dos Azages com dous dos mais prin- 
f. 73- cipaes e como referem o negocio e julgam pollo ordem *que temos 
dito, julga o Emperador, sem o Acabi^at estar presente, ainda que 
em as cous£us mais g^aves sempre manda o Emperador que se jun- 
tem outros Azages e o que he Eraz, se esta na corte, e o Balati- 
noch Gueita. 

Isto facem sempre em 4* e 6* feira, que sam dias mais acom- 7. Dies asaignati 
modados, porque jejuam e nam comem ate a seis horas da tarde frp^SirLS',': 
pouco mais ou menos. Digo entre anno, que na coaresma nam co- ^^ *<1®™ ^^^^ *c in 

aula regia. 

mem ate posto o sol. Mas se algum negocio nam sofre dilac^am, 
tambem em outro dia ouve o Emperador e tal pode ser o caso, que 
sem passarem por estes tribunaes, mandem ao delinquente que ar- 
ra<;oe logo de final, como eu vi duas veces a huns alevantados, que 
trouxeram dentro da primeira cerca do pa^o e o Emperador man- 
dou muytos Azages com o Balatinoch Gueita e Ihes ficeram muy- 
tas preguntas e vieram com sua reposta ao Emperador; depois tor- 
naram a Ihes preguntar e assi gastaram em idas e vindas boa parte 
do dia ate que deram senten^a que Ihes cortasem as cabe^as, e logo 
se executo. 

Os Vissorreys tambem tem destes Umbares em seus desembar- 
gos e nelles se ham casi com o mesmo ordem que os da corte e 
como julga o Vissorrey alli sc acava, ainda quc de senten^a de 



172 HISTORIA DE ETHIOPIA 

morte, porque esta em lugar do Emperador; mas algiimas veces 

remitte alguns casos ao Emperador, particularmente de heran^a e 

trai<;am. 

8. ludex localis A fora destes Azages e Umbares, que estam em os tribunaes 

vocamr ^Xum^^ereH- ^^ Emperador e de seus Vissorreys, ha em cada villa e aldea po- 

gitur e qualibet fa- g^Q pQ^ o Senhor della a que chamam Xum. Este nam he das fa- 

xnilia ab ipso pagi 

domino. Ordo pro- milias dos Umbares, senam outro qualquer que o senhor do lugar 
istis^iudicib^r" * quer. Este juiz ouve todas as demandas daquelle lugar, se o que 

ha de facer a demanda nam traz juiz da corte do Emperador ou 
do Vissorrey daquella terra, porque, se o trouxer, nam entra na 
justi^a senam por companheiro sinalandoo o Senhor do lugar, como 
acima dissemos ; e entam leva elle de tres partes huma do que ga- 
nha o juiz que veio de fora. Mas nam tracendo outro juiz, elle se 
asenta em lugar pubrico e ordinariamente com elle os velhos e mais 
honrrados do lugar, ainda que nam por obriga^am, e ouve as par- 
tes e sucis testemunhas, e como acavam de arragoar, diz a hum 
dos que estam sentados que julgne. Este se elevanta em pe e refei 
o que as partes alegaram, e logo julga o que Ihe parece e da me- 
sma maneira vam facendo os outros, posto que os mais honrrados 
nam se alevantam pera *julgar, e ultimamente julga elle, e se a parte f- 73»v. 
condenada quer estar poUa senten^a, alli se acava e paga poucas 
custas, e se nam, agrava pera os Umbares da corte, se o lugai' esta 
em seu districto, ou pera os do Vissorrey a quem pertence a terra; 
e este juiz vai com as partes e diante dellas refer aos Umbares 
tudo o que alegaram e provaram e o que elle julgou, e dalli por 
diante vai correndo a causa em a forma que acima dissemos, e os 
Umbares pera quem primeiro foi a sentenga tem certo premio com- 
forme for a demanda, que paga a parte que for condenada; mas 
ainda que agrave pera os outros tribunaes nam se Ihe acrecentam 
mais custas que as que ha de pagar no primeiro; que todos tem 
suas comedias do Emperador. 

g.Poenaesuntexi- Os castigos mais ordinarios que dam aos delinquentes, ainda 

lium, abscissio ma- ^ t^ j ^ j. 

nus, vel pedis, vel P^^ cousas graves, que toquem ao Emperador, sam desterrar ou 

auris, capitis obtrun- mandar pressos a huma ilha, que chamam Dec, da alagoa de Dam- 

Hom'icidae aliquo- bia, a que elles chamam mar, ou a alguma serra forte ; e alli estam 

ties tradmitur vindi- ^^^ guarda ate que os perdoam, que comummente nam he muyto 

tui. Selt&n SagAd, tempo. Antiguamente botavam alguns poUas rochas a baixo, como 

rogatus ab Auctore, ,r jaja/^aj 

ne in posterum hoc niandou facer o emperador Adamas vagued, mas agora nam se usa 
fieret prohibuit. senam cortar a cabega ou pe, ou mao, ou enforcar. Aos ladroes, 



LIVRO I, CAPITULO XVI. 173 

polla primeira vez, se o furto nam he muyto grande, os acoitam 
com humas correas cumpridas, e na 2^ vez Ihe cortam as orelhas 
ou narices e as veces huma mao ou pe, e na 3" o enforcam ; e tal 
pode ser o furto que a primeira vez o mandem enforcar. Tambem 
enforcam por outros delictos, como por matar, se a pessoa he baixa, 
e algumas veces, quando hum matou a outro, depois que julgaram 
que morra e o Emperador confirmou a sentencja, o entregam aos 
parentes do morto pera que fa^am delle o que quiserem, e alguns 
o perdoam por rogos ou fato, outros o levam ao campo e o ma- 
tam as lan^adas ou as cutiladas. Mas algumas veces, porque a gente 
que alli se junta da grandes voces com piedade de ver aquilo, el- 
les se afastam de pressa deixandoo por morto, sem o estar, como 
sucedeo a hum o anno de 16 14, que tendolhe dado muytas feridas 
e duas que o atravesamam de vanda a vanda, o deixaram, pare- 
cendolhes que ficava morto ; e levandoo seus parentes pera o en- 
terrarem, o acharam vivo e assi o esconderam e curaram e me vie- 
ram a pedir Ihe alcangase perdam e seguro do Eroperador, porque 
seus contrarios o aviam de matar onde quer que o achassem. Pedi 
eu este seguro ao Emperador, e respondeo que de boa vontade o 
f. 74- daria, porque ja aquelles *o deixaram dandose por satisfeitos do 
mal que Ihes tinha feito, e mandou logo ao presidente dos Azages 
que alli estava que lan^ase pregam que ninguem ficesse mal a aquelle 
homem, so pena de morte. Disse elle que nam era cousa nova, por- 
que ja aquelle caso estava julgado outras veces daquella maneira. 
Com esta ocasiam falei ao Emperador, que seria bem mandar que 
nam entregasem os juices os matadores daquella maneira, porque 
os matavam com crueldade e nam careceria de odio. Respondeo, 
que tinham este costume, porque quando Ihos entregavam, ordina- 
riamente os perdoavam; mas que nem a elle Ihe parecia bem; e 
dalli por diante nunca mais ouve que se ficesse isto. 

Tambem dicem que antiguamente botavam aos lioes os que 10. Antiquitus rei 

^ j, T^ A ^ etiam leonibus obii- 

eram tredos ao Emperador, mas agora nam se acostuma, nem se ciebantur. Morte da- 
fez muytos tempos ha senam a huma molher muyto nobre, que, por ter ninati, sacramends 

E^clesiae non ren-' 

tomado nossa santa fe, a mandou botar aos lioes o emperador Ada- ciuntur. 
mas Qagued, mas nam Ihe ficeram mal, como adiante veremos. O 
que vai a padecer por algum delicto nam se confessa, nem ha 
quem Ihe lembre como se ha de aparelhar pera aquelle passo; o 
que tambem adverti ao Emperador e Ihe contei o que se faz em 
nossas terras, e Ihe pareceo muyto bem e disse que mandaria que 



174 HISTORIA DE ETHIOPIA 

Ihe desem tempo pera se aparelhar, e aos Azages Ihes pareceo 

muyto bera. 

XI. Mulier adulte- O adulterio nunca se castiga com morte, senam com pena de 

nia. Vir potest Mm- ^^^^' ^^ ^ marido pede justi^a, julgam que o adultero Ihe pague 

per eam dimittcre. f^^o conforme a sua pessoa e que a adultera rape a cabe^a e deixe 

ao marido o fato que tinha, e feito isto, pode ir a casar com quem 
quiser. Tambem todos os que querem deixam as adulteras e casam 
libremente com outras, porque dicem que Christo N. S. deo licen^a 
pera isso no evangelho ; mas com as continuas praticas e disputas, 
que temos com elles e seus letrados sobre esta materia, muytos en- 
tendem ja que nem Christo N. S. quis dicer tal cousa, nem se pode 
facer, como declararemos no 2° livro. 
12. Fabulae Urrc- Do que temos dito se vee claramente quam falsa informa^am 

tae circa iudicia ex ^. - r t • j tt ^ • j» 

dictis refutatur. ^^ve sobre esta materia frey Luis de Urreta, pois diz no cap. 19 

que o Gram Conselho do Preste Joam, o qual conhece de todos os 
negocios do imperio assi civis como criminais, porque tem sobre 
tudo suprema authoridade, consta de 30 conselheiros. seis Patriar- 
chas, seis Ar^obispos, seis Bispos, seis Abades da ordem de s. An- 
tam e seis cavalleiros seculares, todas pessoas de muyta prudencia, 
letras *e virtude escolhidos entre os nobres. Isto he muyto diife- f. 74»^' 
rente do que ca passa ; porque em nenhum tribunal ou conselho do 
Emperador entram mais que os que acima dissemos e dos Um- 
bares sobem a Azages e todos sam homens casados ; nem em Ethio- 
pia ha Patriarchas, nem Ar^obispos, nem Bispos, como ja decla- 
ramos, senam o que elles chamam Abuna, scilicet « Padre nosso » e 
sempre Ihes vem mandado por o Patriarcha de Alexandria. 

Pouco mais adiante, pag. 179, diz que nam tem necessidade 
de letrados nem jurisperitos, porque nam tem leys escritas fora de 
127 estatutos qui ficeram os emperadores antiguos Joam o Santo 
e Phelipe 7°, os quaes estam postos em pubrico na pra^a maior de 
qualquer cidade, e segundo elles dam as senten^as, e o demais vai a 
jui^o de bom varam ; e a este proposito conta huma historia de 
huns letrados de Portugal por estas palavras: 

« En tiempo del Preste Juam, que se llamy va Panusio, llegaron 
« a la Ethiopia muchos doctores en leyes, los quales embiava el 
« Rey de Portugal con grandes librerias de sus Baldos y Bartu- 
« los, con proposito de introducir la doctrina de sus derechos. El 
« Emperador, viendo tantos libros, pregunto que de que sciencia 
« tratavan y fuele respondido que eran libros de leyes inperiales, 



LIVRO I, CAPITULO XVI. 175 

« civiles y canonicas, y que ellos eran doctores en leyes, cuyo of- 
« ficio era ayudar al buen govierno de las ciudades, provincias y 
« reynos, determinar pleytos, proseguir causas y dar su derecho a 
« quien se le deve; y para aquel fin avian traido aquellos libros. 
« Respondio o Emperador como se escupieria en ayunas : En fin 
« que lo que sacamos de todo lo dicho es que vosotros os Uamais 
« Doctores : yo no co[no]zco otros Doctores sino los de la Iglesia, 
« s. Augustin, s. Athanasio, s. Hieronimo y s. Basilio, ni en mis 
« tierras se permite que nadie se Uame doctor sino sean los sa- 
« grados theologos. Estos libros son de leyes : yo no se que aya 
« otra ley que la de Jesu Christo, y harto sabios seriamos, si su- 
« piesemos esta ; que a las demas no las Uamamos nosotros leyes, 
« sino constituciones ; y pues vuestro ofl&cio es perseguir causas, in- 
« formar de la justicia, yo no he menester pleitos en mi reyno. Y 
« assi hallo que conviene a la quietud de mi imperio que os vol- 
« vais a Portugal, y que dentro de tantos dias salgais de todas mis 
« tierras, llevandoos todos essos libros, porque los echare a todos 
« en el Nilo sin remission, y, si porfiaredes, a vosotros tras ellos. 
« Viendo ellos la resolucion del Preste Juan y que les hablava com 
« semblante airado, la vista severa, quexoso en las palavras. ame- 
< na^ando com ellas, tuvieron por mas acertado embarcarse pera 
« Goa, sin aguardar mas replicas ni dilaciones del derecho ». 
f. 75. 'Ate aqui sam fabulas de Joam Balihesar, ou de quem infor- 13« Ante Petrum 

r A .1 . . ^ -xtjjx • de Covilham nullus 

formou ao Author ; porque primeiramente nunca ouve em ilthiopia lugitanus in^essus 
taes emperadores Joam o Santo, Phelipe 7, nem Panusio, nem vie- «^st Aethiopiam. Im- 

'^ peratoresanteadven- 

ram a ella taes letrados portugueses, porque o primeiro Portugues tum Patrum e s. I. 
que descubrio esta Ethiopia e entrou nella foi Pero de Covilham, buertmt^codicis le- 
a quem mandou el rey de Portucral dom Joam o 2° nos 7 de mayo gum lusitanarum. A- 

, ^ . -^ * , ' ^ -^ tanAf SagAd et Sel- 

de 1487 e depois entrou outro portugues, que se chamava Joam tAn SagAd iiium pe- 

Gomes com hum clerigo que mandou Tristam de Acunha, como diz ^®""^* * P* ^*^*' 

Francisco Alvares fol. 94 de sua Historia\ e no anno de 1520 en- 

trou o embaixador dom Rodrigo de Lima, mandado por el rey dom 

Manoel, e Francisco Alvares seu capelam com outros que os acom- 

panhavam, e estiveram seis annos em Ethiopia. Depois no annb de 

1541 entrou dom Christovam da Gama com 400 soldados e torna- 

ram a recuperar o imperio, que casi todo o senhoreavam ja os mou- 

ros; e o anno de 1555 entrou o embaixador Diogo Dias, que mandou 

o vissorrey da India e com elle o padre mestre Gon^alo Rodri- 

guez com seu companheiro; e em margo de 1557 entrou o padre 



] 



l-jt HISTORIA DE ETHIOPIA 

bispo dom Andre de Oviedo com cinco da Companhia e algiins 
poucos Portugueses. Ultimamente do anno de 1603 ^tte este de 1622 
entramos sete Padres e nenhuns outros Portugueses cuido que en- 
traram em Ethiopia ate oje. Mas como quer que isto seja, he cousa 
muyto certa que nunca entraram em Ethiopia os letrados que o 
Author diz, e se vieram, nam sam os Emperadores tam pouco apri- 
morados que tratasem daquella maneira os letrados que hum tam 
grande principe como el Rey de Portugal Ihe mandava a sua terra, 
antes ate os mouros e gentios, que vem de outras partes, os rece- 
bem e tratam muyto bem, como eu vi facer a muytos, antes huma 
das cousas com que mais ouveram de folgar sam leys de Portugal, 
segundo eu tenho visto sempre nelles ; porque o Emperador, que fice- 
ram pouco depois que cheguei, que se chamava Za Denguil e depois 
se intitulou Ata[na]f (^agued, me escreveo, antes que me juntase com 
elle, que Ihe levase o livro da justi^a dos Reys de Portugal, porque 
desejava muyto do ver; e Eraz Athanatheus jenrro do emperador 
Malac ^agiied, que, por sua morte e o principe Jacob ser piqueno, 
governou o imperio com e emperatriz Mariam Cina sete annos, me 
pidio muyto por veces que ficesse vir os livros d^is Ordena^oes de 
Portugal, porque os desembargadores nam sabiam julgar, e muyto 
menos os Emperadores, e assi, quando Ihes levavam as senten^as, or- 
dinariamente confirmavam *o que os desembargadores tinham jul- f. 75,^. 
gado; e o emperador Seltan Qagued, que oje vive, me tem dito muy- 
tas veces que trabalhe porque Ihe venham estes livros. 
14. Rcfutatur ca- Outra cousa diz pag. 183, que pudera bem escusar, ainda que 

lumnia ab Urreta r jjji.t^i' cn r -jj 

apposita quibusdam *^^^ verdade, de huns Italianos, que amrma foram convencidos do pec- 
mercatoribus italis. cado mao, de que nunca se tivera noticia na terra do Preste Joam, e 

assi foi tal o escandalo e turba^am que causou entre os Abexins, que 
o Gram Conselho se achou confuso, sem saber que castigo Ihes da- 
riam, e assi por mandado do Emperador os remitiram ao Conselho 
Latino para que julgase conforme as leys de Europa, e os conse- 
Iheiros, considerando a gravedade do delicto e o escandalo que ^via 
causado, julgaram que fossem queimados, mas o Gram Conselho 
nam quis que se ficesse em Ethiopia, senam que os levasem a 
Mo^ambique e alli executasem a senten^a. Porem o Emperador os 
mandou levar pressos a Goa, onde em chegando os queimaram pu- 
bricamente. 

Tudo isto he mera fic^am, porque nem em Ethiopia ouve nunca 
Conselho Latino (como depois diremos), nem ha memoria de tal 



LIVRO I, CAPITULO XVI. 177 

caso, e, se sucedera, ouverao de ter ouvido os Portugueses velhos 
que ca ha: e todos affirmam que nunca tal cousa ouveram; nem se 
ouvera de esquecer disso a gcnte da terra; e os que sam contra- 
rios a nossa santa fe, nos ouveram de dar cada dia em rosto com 
elle; que ainda outras cousas falsas inventam pera desacreditar a 
s. Liam e aos da fe catholica; por onde he certo que nunca tal 
ouve. Tambem dicer que os mandavam pressos a Mo^ambique hc 
cousa ridicula, se entende que aviam de ir por terra, poUos innu- 
meraveis desertos e sortes de gente que ha no meio ; nem por mar 
ha embarca^am pera la; nem ainda pera Goa os puderam mandar 
pressos senam com grande dificultad. 

Tambem he fabula o que diz pouco mais adiante, que aos he- is.Falsoaaseritur 

« . 4 -n T apoatataa in Aethio- 

reges e apostatas botam aos hoes e que el Preste Joam tem con- ^g^ iconibua obiici 
certos com todos os Reys mouros seus vecinhos, como o de Borno, pactionem interce- 

deie inter Imperato- 

o Baxa de Egypto, os Reys de Arabia, que se algum de Ethiopia rem et Reges mahu- 
renega a fe, facendose mouro, Iho tornem a entregar, e o botam mac^^S pretio'ha! 
vivo aos lioes, [e] ou se reddu^a a fe catholica ou fique pertinaz em bere Patres Domini- 

canos monasterii de 

sua apostasia, de toda maneira ha de morrer; e que o Preste Joam Alleluia. 
tambem esta obrigado a entregar aos Reys mouros a qualquer mouro 
que se ficer christao, pera que facjam justica delle. Mas ha huma 
aventagem de parte dos christaos que comsintiram os mouros, e he 
que, em facendose algum infiel christao, logo o entregam aos re- 
ligiosos de s. Domingus, os quaes o catequi^am e poem hura esca- 
f. 76. pulario piqueno com certo senete *do Prior, com o qual ninguem 
pode dicer nada, nem o Preste Joam esta obrigado a entregar a seu 
Rey, e sabendo os mouros que o novamente convertido leva as in- 
signias de sam Domingus, calam e desistem de sua demanda, por- 
que he tam grande a opiniam que tem dos Religiosos da Alleluya, 
que o dam por bem feito, parecendolhes que estando em poder de 
taes Religiosos nam pode ser senam que vam muyto acertados. 

Isto diz frey Luis de Urreta, mas nada passa assi, porque nam 
ha tal concerto entre o Preste Joam e os Reys mouros nem os de 
Arabia nem o Baxa de Egypto, que estam tam longe, ouveram de 
entregar os que se ficessem mouros; mas nem ainda os Turcos, que 
estam em Alquico, a que elles chamam Adecono com scr terra 
firme de Ethiopia, nam entregaram de nenhuma maneira ao chri- 
stao que se ficer mouro, e muyto mcnos entregara o Emperador 
ao mouro que se ficer christao; antes vindo por aca fugido hum 
mancebo mouro de casta real das terras que aqui parece chama 

C. Bbccari. Mer, AetA, Script, occ, ined, — II. aj 



178 HISTORIA DE ETHIOPIA 

frey Luls Bomo, que nam se chamam senam Dequin, e pidindo el 
Rey destas terras ao Emperador que Iho tomase a mandar, se queria 
que correse o contrato dos cavallos (porque dalli Ihe vem muytos e 
muyto bons ao Emperador), com ser o mancebo mouro, respondeo 
o Emperador diante de mi : He muy to parvo esse mouro, se cuida 
que eu hei de entrcgar aos que se vem a valer de mi: cousa que 
nem os gentios facem. E mandoulhe logo dar mujrto boas terras, 
e depois se fez christ^io. Nem aos hereges e apostatas botam aos 
lioes, senam, quando algimi que se fez mouro, ou gentili^ou, vem 
e diz que errou e que se quer redducir, tomamo a bautizar e quando 
muyto Ihe dam alguma penitencia. Nem em Ethiopia ha frades de 
sam Domingus, como veremos no 2° livro, nem dos frades que ha 
nem dos christSlos facem conta nenhuma os mouros, antes nos tem 
a todos por homens sem ley nem conhecimento de Deos. 
16. Faisum pari- Diz mais pag. 185 que as feiticeras entaipam pera sempre e 

ter hariolas ct blas- 

phemos magnis af- ^.os blasphemos castigam a i* vez com reprehensam de palavra, a 
fici poems. 2^ com o por meio num a porta da igreja em dia de festa com 

huma candea na mao, e a 3* vez, tendoo por besta irracional, o 
vestem de amarelo e Ihe poem hum cabresto no collo e boca e o 
levam por toda a cidade e depois o deg^adam pera huma ilha de- 
spovoada do mar vermelho ou la perto do cabo de Boa Esperan^a, 
onde morra de fome. Porem nam ha tal cousa, porque nem entai- 
pam as feiticeras nem sabem *que cousa he, nem aos blasphemos f. 7<>. 
levam a taes ilhas, nem ainda, que o Emperador quisera, o podia 
facer, porque no Mar Roxo nam senhorea nada e muyto menos 
pera o cabo de Boa Esperan<ja, e fora muyto bom se Ihes deram 
castigo, mas muytas veces se ouvem blasphemias, sem aver quem 
atente por ellas pera as castigar. 



CAPITULO XVII. 

Da residencia que tomam aos Ouvidores do Emperador 

e aos de seus Vissorreis. 



Nam fora necessario facer capitulo particular pera tratar da 
residencia que tomam aos Desembargadores e Ouvidores do Em- 
perador e aos de seus Vissorreys, porque tudo o que sobre esta ma- 
teria ha que dicer se pudera declarar em poucas palavras, se frey 
Luis de Urreta nam me obrigara a referir algumas cousas das que 
diz no capitulo 20 de seu 1° livro, porque, passando eu sem facer 
men^am dellas, nam cuide alguem que tem fundamento o que nam 
he mais que mera ficgam inventada e tra^a do no entendimento de 
quem o informou. Diz pois desta maneira: 

« Entre todas las naciones del mundo, una de las que mas abo- x- Refenintur so- 
« minan dadivas y donativos son los Ethiopes, tanto que por tener rcicgationcm ludi- 
« noticia el Emperador Phelipe g que avian recebido un presente ^^^ *" Amb& Gui- 

^ '^ "^ ^ ^ xftn dum m conim 

« en la vacante de su antecessor, mando que de 7 en 7 anos la mi- administrationem 

« tad del Gran Consejo fuesse al monte de Amara a estar en resi- '"^^^*" 

« dencia de su govierno y administracion de justi^a, lo qual se guarda 

« el dia de oy en la forma y manera que se dira. Estando el Em- 

« perador con todos los del Consejo en una sala, manda los 1 5 de- 

« Uos ir al monte de Amara con uno de los primogenitos de los 

« Reyes que le sirven en compania de mil cavalleros de su guarda. 



l8o HISTORIA DE ETHIOPIA 

« y al punto que se despiden del Emperador, se ponen en camino, 
« yendo delante dellos un cavallero con su estandarte de tafetan 
« amarillo y en el las armas del imperio. Llegando al monte (donde 
« son recibidos de los Abades militares), los consejeros se apean 
« de sus cavallos y quedandose en el suyo el primogenito dice estas 
« palavrgis a los Abades : Sefiores, yo os entrego los 1 5 del Gran 
« Consejo que aqui estan por orden y mandado del Emperador el 
« mayor Rey sobre todos los Reyes abissinos, Emperador de la 
« Ethiopia, siempre David mi senor. Y en diciendo esto, da la buelta 
« a la corte donde refiere al Emperador el discurso de su camino. 
« Luego el Emperador lo hace saber a todas las ciudades del im- 
« perio por medio de sus procuradores, *que de continuo residen f. 77 
« en la corte, para que qualquiera que se sintiere agraviado de los 
« tales consejeros, manifieste su agravio y pida satisfacion del, para 
« que le sea hecha justicia. Llegado este mandato a las ciudades, 
« los nobles dellas con parte de su clero se juntan y lo hacen pre- 
« gonar publicamentc, mandando que los que ubieren recibido algun 
« ag^avio lo escrivan en un memorial con su nombre y el del con- 
« sejero, de quem se tiene por agraviado, y la ocasion y el tiempo 
« en que sucedio ; lo qual ellos hacen y echando los papeles de sus 
« quexas en una arca bien cerrada, que esta puesta en publica pla^a 
« por espacio de 8 dias continuos, con una boca angosta a modo de 
« cepo, por donde pueden entrar los papeles y memoriales, pero en 
« ninguna manera se pueden sacar. Passados los ocho dias seiiala- 
« dos, cada ciudad embia su arca, assi, como esta sin abrilla (por- 
« que solo el Emperador tiene la llave) a la corte con buena guar- 
« dia de soldados y por guia va un ciudadano que lleva un estan- 
« darte tendido con las armas de aquella ciudad. Llegando a la 
« corte van camino derecho a palacio, y el Emperador da una Uave 
« a su camarero (que es el que mas le ha servido de los primoge- 
« nitos), mandandole abra con ella una sala grande, donde se ponen 
« estas caxas y metiendola el cavallero en ella, da licencia a los 
« soldados y gente que la traen para volverse a su ciudad ; y este 
« estilo y modo de proceder se guarda con todas las arcas que traen 
« las ciudades. 

« Despues de recogidas todas las arcas en la sala, quando al 
« Emperador le parece, entra en ella acompanhado de todos los 
« primogenitos de los Reyes sus vassallos y de otros 20 cavalleros 
« de su casa, y mandando abrir las dichas arcas, se sacan los pa- 



LIVRO I, CAPITULO XVII. l8l 

« peles y puniendo los de cada ciudad de por si, hacen dellos 
< un libro y volumen y en cima del escriven el nombre de la ciu- 
« dad que lo embio, y juntos los de todas ellas, se meten en otra 
« caxa grande, la qual embia con el embaxador del gran Abad de 
« la orden militar de s. Antonio, que llamamos Gran Maestre, en 
« compania de trecientos de cavallo, a los sacerdotes de Saba, que 
« han de ser los jueces, en una litera cubierta de raso negro. Quando 
« llega a la ciudad, la salen a recebir con mucha pompa y la po- 
« nen con buena gnardia en el Consistorio, que es el lugar donde 
« se junla la noble^a, y el embaxador se buelve a la corte con toda 
« su compania. Luego los sacerdotes de Saba salen fuera de la igle- 
« sia, donde estan, bien acompanados, cubiertas las caras segun la 
« costumbre de los sacerdotes abissinos y Uegando al consistorio, 
f. 77.V « se sientan a una mesa redonda y, echada la demas *gente fuera, 
« abren la caxa y sacan todos los papeles y, leyendo unq por uno 
« los agravios alli escritos, los sacerdotes de Saba los escriven y 
« embian con buen recaudo a los sacerdotes y nobles de la ciudad 
« donde vino la demanda o quexa, para que, hecha informacion del 
« caso, les embien relacion del, y pareciendo tener el consejero algxma 
« culpa, los sacerdotes de Saba le dan dello aviso, para que, si tienc 
« descargo contra lo que le imputan, le de dentro de cierto tiempo, 
« en el qual embia a dar ra^on de si con un cavallero del monte, 
« y, si para su defensa es menester provanga, embian al mismo ca- 
« vallero los sacerdotes para que se haga donde fuere menester, y 
« constandoles estar el consejero inocente de los capitulos puestos, 
« mandan a los sacerdotes de la ciudad, de do vinieron las quexas 
« y acusaciones, hagan luego castigar a quien las embio conforme 
« a la gravedad del crimen, segun la pena del talion para exemplo 
« de todos. 

« Hecho esto y lo demas, que para concluir la residencia es 
« necessario, los sacerdotes de Saba encierran los cargos y descar- 
« gos de los consejeros junto con su sentencia o parecer en una 
« caxa de cedro, la qual embian al Emperador con los sacerdotes 
« que nombran por comissarios para esto, los quales la llevan a la 
« corte y, antes de llegar, se aloyan baxo de pavellones, y al punto 
« el Emperador manda un primogcnito, que los salga a recibir, en 
« compafiia de cien cavalleros de su guardia, y el primogenito, des- 
« pues de los aver recibido y saludado cortesemente, los acompana 
« con su gente liasta Palacio, yendo ellos cubiertas las caras con 



l82 HISTORIA DE ETHIOPIA 

« sus velos y apeandose de sus cavallos, y subidas las escaleras, el 
« Emperador los recibe con muchas muestras de amor, y dandole 
« los Comissarios la arca, la manda guardar en su camara y les 
« da Hcencia para tornarse; lo que hacen en la misma forma que 
« vinieron. 

« Aviendo visto el Emperador el parecer de los sacerdotes de 
« Saba, embia una carta y provision al mas antiguo de los Prin- 
« cipes del imperio, que habitan en el monte de Amara, para que 
« haga bolver los consejeros a sus plagas y, si algtmo dellos se 
« escluye por la carta, es visto por el mismo caso ser privado del 
« gran consejo para siempre sin remission. Esto hecho, se buelven 
« los consejeros a la corte acompanados del cavallero que llevo la 
« carta y de doce mil de a cavallo de la guardia del Emperador, 
« y llegando los consejeros cerca de la ciudad de Zambra, se alo- 
« jan baxo de pavellones y tiendas aquella noche. Al otro dia de 
« manana los bienen a acompanar los nobles y ciudadanos de la 
« corte con mucha fiesta de trompetas y otros instrumentos musicos. 
« Con esta fiesta y aplauso los llevan al palacio, donde hallan *al f. 78. 
« Emperador sentado en un alto trono de doce grados, cubierto de 
« alhombras y tapetes ricos, vestido con magestad imperial, y al re- 
« dedor delle todos los primogenitos de los reyes sus vassallos y, 
« en Uegando los consejeros delante del Emperador, levanta una 
« cruz que tiene en la mano por cetro, y ellos se arrodillan en tierra 
« arrimados a unos banquillos largos, y entretanto el embaxador del 
« gran Abad sube en un pulpito y hablando con el Emperadorle 
« dice : Veys aqui, senor, los que para beneficio de vuestros pue- 
« blos subditos os aconsejan, y aviendo estado en el monte de Amara 
* por vuestro mandado en residencia, no se ha hallado contra ellos 
« cosa alguna; aora con orden vuestro han buelto a vuestro Gran 
« Consejo para serviros en el como solian. Entonces todos los cir- 
« cunstantes a una dan voces, diciendo: Viva el Emperador que con- 
« serva las constituciones de su imperio a gloria de Dios y de los 
« principes de los Apostoles, con observancia de las leyes institui- 
« das por Juan el Santo y por Philipe 7. A todos los quales el 
« Emperador con rostro alegre y risueno da muestras de condecen- 
« der con lo que dicen y que recibe contento del que sus pueblos 
« han mostrado, y con esto se da fin a la residencia ». 
a. Confutantur Ate aqui sam palavras do Author, em que, tirado o que diz no 

prac icta. zponitur pj.jj^^jpJQ (jg^g peitas (que ainda isso encarece demasiadamente), nam 



LIVRO I, CAPITULO XVII. 183 

ha cousa nenhuma que diga com a verdade do que ca passa com quomodo in Aethio- 

. V . . o t_ j. ' j. ' ' pi* agantur recuraus 

que eu tenho visto em 18 annos que ha que entrei em este impeno ^^ -^ fructu. 
e o mais deste tempo gastei na corte. E pera mais me enteirar das 
cousas, as preguntei miudamente ao presidente do supremo conselho 
e a outros dous seus companheiros, e me affirmaram que nenhum dos 
que estam agora em este e em os demais tribunaes (com alguns se- 
rem muyto antiguos) foram ao monte de Amhara, pera Ihe toma- 
rem residencia, nem ouviram dicer que seus antepassados fossem 
la nunca pera isso, nem avia tal estatuto, nem tempo limitado 
pera se Ihes tomar residencia, nem se Ihes tomava a todos em 
forma de residencia, mas que todas as veces que alguma pessoa 
se queixava de hum ou de mais delles, Ihe dava logo o Empe- 
rador juiz e diante delle propunha seus agravos e facia sua de- 
manda. e o juiz dava sua senten^a, e se algiima das partes nam se 
dava por satisfeita e queria agravar, vinham a seu tribunal, e o 
juiz referia todo o discurso da demanda, e o que julgara, e as par- 
tes, que estam presentes com seus procuradores, acrecentam, se o 
i". 78,v. juiz se esqueceo de alguma cousa *que Ihes releve pera sua justi^a 
e propoeni de novo o demais que Ihes parece; e logo os Azages 
vam ao Emperador e Ihe referem tudo, e julgam diante delle o que 
a cada hum Ihe parece, e ultimamente o Emperador, e logo se pu- 
brica e executa sua senten^a. 

Se o Emperador tem ruim informa^am daquelle Ouvidor, con- 
tra quem Ihe pedem juiz, nam somente o da, mas alg^mas veces, 
posto que raramente, manda lan^ar pregam nam mais que na ci- 
dade ou arrayal onde elle esta, que todos os que tiverem agravo 
daquelle Ouvidor, o demandem ; e assi o facem os que querem, e 
muytas veces o acusam, sem se dar este pregam, de que tem to- 
mado peitas, com ter o Emperador feito por escomunham que nam 
as tomem. Mas casi nunca chegam com estas demanda^ de peitas 
a que julgue o Emperador, porque ainda que a parte possa bem 
provar, antes disso dessiste ou se concerta por rogos dos outros ou 
por medo de nam Ihe vir depois a cair em as maos em alguma 
ocasiam. E pouco tempo ha que demandaram a hum dos do su- 
premo conselho que as tinha tomado, e nam faltava prova, porque 
era certo que tomava muytas, e com tudo isso nam chegou a cousa 
a que o juiz do Emperador desse sentenga. Logo isso se atabafou 
por rogos ou por algum fato que daria em segredo. 

. Em a mesma forma se facem as demandas aos Ouvidores dos 



} 



184 HISTORIA DE ETHIOPIA 

Vissorreys, que, quando algum esta agravado, pede juiz ao Vissor- 
rey e diante de quem elle da, faz sua demanda e se he neces- 
sario julga tambem o Vissorrey ; mas se a parte quer, pode agra- 
var pera o Emperador ; e aqui se encerram todos os misterios que 
faz frey Luis de Urreta na residencia dos do Gram Conselho. Nem 
ouve nunca em Ethiopia taes emperadores Joam e Philippe 7, nem 
ainda Philippe i^, como me affirmou o emperador Seltan Qagued e 
se vee em os catalogos dos Emperadores, que pusimos no capitulo 5. 



CAPITULO XVIII. 

Em que se declara se ha em Ethiopia, ou ouve Conselho 
Latino pera se tratarem os negocios tocantes a Europa. 



Muytas e varias cousas conta frey Luis de Urreta, em o cap. 21, i. De Consilio La- 
de seu 1° livro, sobre o Conselho Latino, que affirma aver em Ethio- notitia^n Aethiopia! 
pia pera os negocios que se offerecem aos que de Europa em ella 
residem ; a que brevemente puderamos responder que todas sam fa- 
f. 79. bulas inventadas por *Joam Balthesar ou imaginadas por quem a o 
Author deo a informa<;am (i); mas pera que milhor se entenda o que 
ouvermos de dicer, referirei primeiro alguma cousa do que o Au- 
thor diz do Conselho Latino, que o demais nam vem aqui a pro- 
posito. 

Diz pois no cap, 21:« Aviendo escrito el orden del Gran Con- 

(i) Hic in ms. Auctor delevit quae sequuntur: « mas porque redundam em descre- 
dito de pessoas muyto graves e dignas de venera^am como sam o Christianissimo ze- 
lador do augmento da sancta Tgreja Romana el Rey de Portugal dom Joam o 3°, o 
rev.mo s.' dom Joam Nunez Barreto patriarcha de Ethiopia, o padre Bispo Melchior 
Cameiro e outros Padres de nossa Companhia, convem que as declaremos mais em par- 
ticular, pera que se manifeste a verdade do quc passou e nam fique escurecida diante 
dos que nam advirtirem que cn cousa tan grandc nam se ouvera de dar credito a in- 
fcrma^am de hum homem nam conhecido pera se imprimir e pubricar ao mundo por 
verdadeira, que ainda refirindo eu outras cousas que diz o livro de muyto menos im- 
portancia, se maravilho muyto o emperador SeltAn (J!agued de que tam facilmente des- 
sem credito a homem que nam conheciam pera authenticar suas mentiras imprimindo ». 

C. HeccARi. Rer. AeiA, Scripi, occ, ttted, — II. 24 



1 



l86 HISTORTA DE ETHIOPIA 

« sejo, viene a proposito tratar del otro Consejo menor, que tiene 
« el Emperador em su corte, Uamado latino, el qual fundo Alexan- 
« dro 3°, porque viendo que cada dia, despues de su descubrimiento, 
« acudian muchas naciones y mercaderes de tierra latina a sus esta- 
« dos, le parecio no solo util, sino cosa muy necessaria al buen 
« govierno hacer y fundar un consejo latino para la gente latina, 
« que de su nombre se llamo el consejo latino, y a los consejeros 
« sefialo grandes estipendios y muy pingues salarios, y eligio de 
« cada nacion que acudia al imperio dos personas de ciencia y con- 
« ciencia experimentados y temerosos de Dios, que fueron dos Ve- 
« necianos, dos Florentines y dos Portugueses. Los Venecianos y 
« Fiorentines vienen los mas por el Cairo, y los Portugueses de Goa 
« y algunos de Portugal. Destos seis consejeros consta el Consejo 
« Latino, que sirve de informar al Emperador de las cosas de Eu- 
« ropa, en especial llegando algunos destas partes a contratar o a 
« ver el imperio con cartas de algunos Principes u de los mismos 
« Abissinos que havitan en Roma. En tal caso uno u dos de los 
« consejeros, a quien por el consejo se comete, van al Emperador 
« a darle cuenta por menudo, no solo del fin y motivo que el fo- 
« rastero tubo para entrar en el imperio, sino tambien de su tierra, f. 79,%-. 
« calidad *y condicion ; porque segun la relacion deste consejo trata 
« el Emperador a los forasteros y a veces los acaricia y regala, si 
« lo requiere su calidad. Tiene tambien a su cargo este Consejo el 
« interpretar las cartas que van al Emperador de tierra latina y 
« responder a ellas en la lengua que fuere menester. Este consejo 
« se hi^o a instancia y persuasion del muy R.*^° padre Andres de 
« Oviedo religioso de la Compania de Jesus, que por ser tan docto 
« y exemplar, fue embiado de la Sede Apostolica con titulo de Pa- 
« triarcha, y en esta dignidad vivio muchos anos con mucho exem- 
« plo y provecho espiritual de los Abissinos, y el Preste Juan le 
« honrro muchissimo y le dio el cargo de presidente deste coti- 
« sejo; el qual exercito el buen padre con tanta satisfacion, con- 
« tento y aplauso de los Abissinos qual ellos pudieran dessear >. 
Ate aqui sam palauras de frey Luis; mas nenhuma cousa ha nel- 
las que diga com a verdade ; porque primeiramente ninguem sabe dar 
re^am de tal Alexandre 3^, nem nos catalogos dos Emperadores, 
que pusimos uo cap. 5, ha mais que hum Alexandre, a quem elles 
chamam Escander, e este foi muyto antes que os Portugueses de- 
scubrisem Ethiopia, porque, como dissemos no cap. 16. o primeiro 



LIVRO I, eAPITULO XVIII. 187 

Portugues, que descubrio Ethiopia e entrou em ella, foi Pero de 
Covilham, que partio de Portugal a 7 de mayo de 1487, e o em- 
perador Alexandre ja era morto no anno de 1475; e falando o Au- 
thor deste mesmo Alexandre 3° pag. 118 e 139, diz que morreo o 
anno de 1606, e eu entrei em Ethiopia em mayo de 1603 ^ n^tm 
achei tal Alexandre, senam Jacob filho do emperador Malac Qa- 
gued, que avia 7 annos que morera, tendo reinado 33 ; nem depois 
pera ca ouve quem se chamase Alexandre, e dado que ouvera tal 
Alexandre 3°, o que aqui diz delle que fundou o Conselho Latino 
a instancia do padre patriarcha Andre de Oviedo, e que a elle deo 
o cargo de presidente deste Conselho Latino, nam concerta com o 
que diz adiante pag. 616, que o emperador Mena (que nam se cha- 
mava se nam Minas) escreveo ao papa Pio V que o padre Andre 
de Oviedo era presidente do Conselho Latino e que o reverencia- 
vam como a Santo, porque logo na pag. 617 affirma que Alexan- 
dre 3° sucedeo a Mena, e assi he muyto clara contradigam ; porque, 
se Alexandre 3° fundou o Conselho Latino, como Mena, que foi 
antes delle, escreveo a Pio V que o padre patriarcha Andre de 
Oviedo era presidente do Conselho Latino, que ainda nam era feito [?]. 
f. 80. *Outras muytas veces se contradiz o Author falando deste Alexan- 
dre 3°, como mostramos no capitulo i , que, se elle as advirtira, ba- 
stara pera nam dar credito a as informagoes de Joam Balthesar, 
por mais que affirmara que eram papeis autenticos, como diz pa- 
gina 211. 

Mas, deixando a parte as contradigoes e a Alexandre 3*^, he cousa 
muyto certa que nem ha, nem ouve nunca em Ethiopia Conselho 
Latino, e assi o affirma hum veneceano que se chama Joam An- 
tonio, que diz ha 32 annos que ca entrou, e o capitam dos Portu- 
giieses pcr nome Joam Gabriel, homem de 66 annos, que de menino 
se criou com o padre patriarcha Andre de Oviedo, diz que nunca 
vio, nem ouvio que em Ethiopia ouvese tal conselho. O mesmo te- 
stificam muytos homens velhos filhos de Portugueses, que tambem 
se criaram na casa do padre Patriarcha, e outros desta terra a quem 
preg^ntei; e quanto do anno de 603 a esta parte, eu sou testimu- 
nha de vista que nam ha tal cousa; e toda via o Author affirma 
pag. 210 que perseverava, quando elle escrivia, que seria pollos 
annos de 608. Por onde tudo quanto diz do Conselho Latino he 
falso, e nam menos carecem de verdade casi todas as cousas que 
logo conta sobre a missam, que ficeram trece Padres da Compa- 



|88 HISTORIA DE ETHIOPIA 

nhia ii Ethiopia, tomando ocasiam do que tinha dito que o padre Ao- 
dre de Oviedo fora presidente do Conselho Latino, pera mostrar 
como entrou em Ethiopia, e principalmente pera refutar a Nicolao 
Sandeiro, ao padre Fero Mafei e outros padres da Companhia, que 
escreverara sobre esta materia ; mas quam sem re^am o fez veremos 
no livro 3", onde elle tambem trata de proposito do padre patriar* 
cha Andre de Oviedo. 



CAPITULO XIX. 

Em que se declara se o Preste Joam visita pessoalmente 

as cidades de seu imperio. 



Depois de aver pintado frey Luis de Urreta, no cap. 22 de seu x. Commento Ur- 
1° livro, o aparato e pompa grande com que diz que o Preste Joam jj^nj civitatum Ae- 
vai a visitar as cidades de seu imperio, hum anno depois que se t*i-opi*« <v^^ a^ i*»- 

peratore fiebat. 

coroa em Saba, e dalU por diante de 7 em 7 annos, continua sua 
Historia pag. 221 por estas palavras: « Llegado el Emperador a una 
« ciudad, se aloja en su pavellon junto a ella y aviendo descansado 
« en el aquella noche, luego a la mafiana, vestido de habito imperial, 
« cavallero en un elephante, con toda la magestad y grandega (que 
« para ser jurado fue a Saba), camina a la ciudad, en la qual no puede 
f. 8o,v. c estar el Rey *ni residir, antes le obligan a que se vaya luego a otra 
« parte, mientras dura la visita, y al entrar el Emperador estan a la 
< puerta los seis Regidores o Jurados, de quien depende el govierno 
« de la ciudad, aguardando con ropones de damasco negro, y un ca- 
« vallero con un estandarte, en que Ueva las armas de la ciudad, y 
« assi mismo todos los sacerdotes, entre los quales esta uno con un 
« missal en la mano, y el Corregidor de la ciudad con una vara 
« corta y una beca negra como de collegial en los hombros, salvo 
« que esta se echa al cuello y cae por delante a manera de estola, 
« con unas borlas de oro por remate y las armas del Emperador, el 



igo HISTORIA DE ETHIOPIA 

« qual se apea del elephante y, puniendo la mano en el missal, jura 
€ de guardar las constituciones del Concilio Florentino y de toda la 
« Sede Apostolica con las de Juan el Santo y Phelippe 7**. Hecho 
€ esto, los sacerdotes llegan a hacerle reverencia, de dos en dos, 
« y tras ellos el Corregidor y Regidores, los quales, aviendole ju- 
« rado obediencia, prometen de darle cada tres hijos el uno para 
« defensa del imperio, como diremos en su lugar. Luego entra el 
« Emperador en la ciudad a pie, acompaiiado solamente de los 
« 42 hijos de Reyes y de los quince de su Gran Consejo, del em- 
« baxador del gran Abad y de algunos cavalleros de tierra latina. 
« Con este acompanamiento va a visitar las cuatro parrochias y la 
« abadia de s. Antonio y despues al consistorio de la noble^a, 
« donde les hace un ra<;onamiento acerca de la observancia de los 
« estatutos del imperio, en que concluye con oflFrecer su remedio 
« y patrocinio imperial para todo lo necessario, como en efecto le 
« pone en las cosas que le parece conveniente. Despues desto se 
« Uega al monasterio de las doncellas (que tiene cada ciudad uno), 
« donde las provee con mucha charidad de lo que les falta, y lo 
« mismo hace en los seminarios de la juventud, de que diremos 
« luego ; y si en el de las doncellas se halla alguma pera casar, le 
« da licencia para ello, que de otra manera no pudera, sin perju- 
« dicar la costumbre que ay de que ningun hijo de Rey pueda ca- 
« sarse sin licencia del Emperador, ni el noble sin la del Rey, el 
« ciudadano sin la delos nobles, ni el plebeyo sin la de los ciuda- 
« danos, salvo en caso que el Emperador la de, como decimos ; el 
« qual prosigue la visita de las demas ciudades de le manera que 
« hemos dicho :». 
a. Quam longe sit Ate aqui sam palavras do Author, em que casi nam ha cousa 

hoc a vero demon- • r , 1 j j 

stratur ct ex veteri V^^ ^^^ ^^J^ labula; porque, comeQando do que se usava antigua- 
consuetudine Impe- mente, os Emperadores estavam tam longe de *visitar as cidades f 81, 

ratorum et ex ns 

quae recenter ipse de seu imperio, que nem se deixavam ver ainda dentro de seu pa^o, 

Auctor oculis usur- •■ n j 

•^ senam de suas molheres e de 30 escravos piquenos, que o serviam, 

e tres homens grandes, que governavam o imperio; e se algum 
outro avia de falar com elles, ainda que fosse jenrro ou cunhado, 
avia de entrar de noite e, tiradas todas as candeas, falava sem ver 
nada mais que ouvir a voz do Emperador, e ainda isto se tinha 
por muyto grande merce, porque raramente se concedia, como dis- 
semos no cap. 4 ; mas quando aviam de dar sentenga sobre alguma 
cousa grande, entravam juntamente com aquelles tres que goveravam 



LIVRO I, CAPITULO XIX. 191 

o presidente dos Azages e seis dos mais principaes, como decla- 
ramos no cap. 16. Nem depois que deixaram aquella supersti^am, 
se usou tal modo de visita, como todos affirmam ; e quanto do anno 
de 603 a esta parte, eu sou testemunha de vista, que casi sempre 
andei na corte, e nunca o Emperador fez tal cousa. Nem ha cida- 
des da maneira que frey Luis cuida: so, onde estam os Vissorreys 
e algum governador de assento, sam povoagoes grandes; e quando 
delles ou de seus ouvidores ha alguns agravos, se querem pedir 
juiz ao Emperador, o da logo pera que va la a facer justi^a, e se 
as cousas sam grandes e Ihes parece que padecera detrimento sua 
justiga facendose la, procuram que o Emperador mande vir o cul- 
pado, ou esperam que elle venha a corte, que ainda os Vissorreys, 
que nam estam muyto longe, vem algumas veces, e entam os de- 
mandam diante dos desembargadores do Emperador, a quem de- 
pois dam conta de tudo pera elle julgar. 

Quanto ao que diz que o Emperador vai a cidade em hum ele- 
phante, nam somente nam sove nelle, mas nem se vio nunca manso 
em Ethiopia, posto que aja muytos bravos, e ainda que o Empe- 
rador fora a visitar as cidades, mal Ihe aviam de dar juramento 
na entrada sobre o missal que guardase as constitui^oes do Con- 
cilio Florentino e de toda a Sede Apostolica com as de Joam o 
Santo e Phelippe 7°, pois elles nam obedecem a Igreja Romana, 
como ja temos dito e veremos no 2° livro cumpridamente; nem ouve 
nunca em Ethiopia emperador que se chamase Joam, nem Philippe 7°, 
nem costume de dar ao Emperador de cada tres filhos hum pera 
defensam do imperio, que, quando he necessario, todos vam a guerra, 
excepto os velhos que lavram a terra. Nem ha taes 40 filhos de 
Reys que acompanhem ao Emperador, nem embaixador do gram 
f. 8i,v. *Abad, nem menos ha mosteiro de doncellas em todo o imperio, 
quanto mais hum em cada cidade. Nem he necessario licen^a do Em- 
perador (que Reys nam os ha, como ja dissemos) pera que as don- 
cellas nobres casem, nem licenga dos nobres pera os citadoes e de- 
stes pera os plebeyos, porque, sem nada disso, casa cada hum quando 
quer e com quem milhor pode. 

Ha porem hum costume que, se o mancebo ou a doncella, que 3« Quomodo im- 
ha de casar, he parente do Emperador, Ihe da parte disso, nam quibus donia cumu- 
porque Ihe seia necessaria licenca, que sem ella pode casar, se qui- ^®* cognatos suos 

' ^ "^ ^ nuptias contractu- 

ser, senam pera que Ihe faga certas honrras, que sam ir ao pa^o ros. 
a tarde antes da boda, quando come^a a anoitecer, se he mancebo 



192 HISTORIA DE ETHIOPIA 

acompanhado dos principaes senhores da Corte, e se he doncella, 
de senhoras, debaxo de hum panno de seda, ou quando menos de 
algodam com varias pinturas, que Ihe vem da India e levamo pol- 
los cantos cuatro doncellas a modo de dosel, mas he muyto mais 
cumprido que largo ; e assi outras doncellas vam perto da senhora 
alevantando com as maos o panno, pera que nam Ihe toque na ca- 
be^a, e cae tanto poUas ilhargas e por detras, que nem as que o 
levam pollos cantos se veem de fora, senam muyto pouco; e isto 
usam todas e so as parentas do Emperador, quando vam de huma 
casa a outra a pe, que a mula nam o levam. E em chegando o man- 
cebo ou doncella ao Emperador, Ihe beixa a mao, e logo o manda 
entrar em outra camara e vestir muyto ricos vestidos, que Ihe tem 
aparelhado, e saindo torna a beixar a mao ao Emperador, e elle 
com boas palavras Ihe da bengam e o despede, e saem com elle 
muytos pagens do Emperador com tochas, e diante vam tangendo 
com seus atabales e cheremelas, e assi o levam ate sua casa, onde 
se come^am as festas das bodas com muytas musicas e balhos que 
duram por muytos dias. 






I 



CAPITULO XX. 

Em que se trata das cidades de Ethiopia e edificios, de 
seu govemo^ distincam de moradores e trajos. 



Em Ethiopia nam ha cidades mais que a corte do Emperador i- Nullae in Ae- 
e onde estam de asento os Vissorreys ou algnm Governador grande ma casarum 'et tcn- 

e ainda a alcfumas destas puderamos chamar villas, e quando os tfriof^iniagglomera- 

° ^ ^ tio circa residentiaa 

Vissorreys se miidam pera outras partes (que o facem muytas ve- Imperatoris etVice- 

ces, e os Emperadores algumas), ficam aquellas cidades como villas frM^ntermutantlu" 
ou aldeas bem piquenas, que dos hedificios Ihes da pouco, por se- ^.libi parvi pagi ex 

casis miserrimis. 

rem taes quaes logo diremos. As demais povoa^oes sam villas de 
poucos vecinhos, e aldeas que nam passam de cinquenta casas e 
f. 82. muytas tem menos, porque ordinariamente se juntan alguns *onde 
tem suas lavoras e alli facem suas casinhas; poUo que, deixando 
algumas serras e desertos que nam se habitam, o demais comum- 
mente esta cheio destes lugarinhos, particularmente agora ; porque 
depois que huns gentios, que chamam Galas, foram entrando poUas 
terras e tomando muytos, como ja dissemos no cap. i, a gente del- 
las se foi retirando pera estotras e assi estam muyto cheas. 

Os edificios sam muyto pobres, como ja outras veces temos 
dito: casinhas de pedra e barro, ou de paos, redondas, terreas e 
muyto baixas, cubertas de madeira e palha cumprida, e algumas, 
que sam largas, tem huma coluna ou esteo de pao no meio, sobre 

C. licccARi. Ker. Aeih, Script, occ, iucd, -- II. 2«; 



194 HISTORIA DE ETHIOPIA. 

qiie se sustenta a armagam daquella madeira. Outras sam cumpridas 
com esteos depao no meio em fieira, sobre que carrega toda a ma- 
deira, tambem cubertas de palha e terreas, a quem chamam (^acala, 
e em estas moravam ordinariamente os Emperadores; e assi quando 
deciam : vai ao ^acala, ou : esta no ^acala, era como decir : vai ao 
pago, ou: esta no pa^o; ainda que nam so o Emperador usa este 
modo de casas, senam os senhores e todos os demais que querem. 
2. Casae omnes Em algumas partes, principalmente onde nam chove muyto, 

tantum planopede r j^j ji<i j^i 

constnictae, plerum- fa^cem casas de terrado, nam de chunambo, senam de terra bem 
que paleis, alicubi batida, e todas eram terreas, que de muyto tempoaesta parte ra- 

solano contectae ; 

SeltAn Sag4d in re- ramente se facia alguma sobardada, e durava pouco, porque nam 
fd*lacum°Dambrense ^ sabiam facer. Mas o emperador Seltan Qagiied, que agora vive, 
contignationem su- fez em huma peneinsula da lagoa de Dambia, a que elles chamam 

perstnixit cum sola- 

rio et superius cubi- mar, huns pagos fermosos de pedra branca muyto bem lavrada, com 
culum cum fenestris g^^g aposentos e salas, e de cima tem 50 palmos de cumprido, 28 
Descriptio eiusdem. de largo, e 20 de alto, que por batir alli muyto o vento no inverno 

Quomodo et quonim j t_ • ^ i_ 1 ^ 1 ^ • o 

expensis fiant domus ^ ^ ^^^ ^^ abaixo tambem ser alta, nam a alevantaram mais. So- 
enibematonim. bre a porta principal tem huma varanda grande e fermosa e nas 

ilhargas duas mais piquenas com muyto boa vista. A madeira casi 
toda he de cedro muyto fermosa, e as salas, e hum aposento do 
alto, onde dorme o Emperador, com muytas pinturas de varias co- 
res. He de terrado com chunambo e o parapeito arroda com co- 
lunnas de pedra muyto fermosas, e sobre seus capiteis bolas gfran- 
des da mesma pedra, mas em as colunnas dos 4 cantos bolas de 
cobre douradas com fermosos remates. Sobre a escada, por onde se 
sobe ao terrado, se alevanta outra casa piquena, com tres janellas 
grandes, que Ihe serve de mirador, porque de mais de estar a casa 
situada no mais alto de peneinsula, que he grande, tem 60 palmos 
de alto e assi toda a cidade, *que tambem fez nova, Ihe fica de- f. 82,v. 
baixo, e descobre grandes campos e casi toda a lagoa, que tera 
algiimas 25 legoas de cumprido e quince ou mais de largo, agoa 
doce muyto boa. Esta tambem este mirador cuberto de terrado com 
suas colunnas de pedra a roda como as de abaixo, e em os 4 can- 
tos humas bolas de cobre douradas. Outros pa^os pola mesma tra^a 
destes fez depois hum seu irmSio, que se chama Eraz Cela Christos 
em o reyno de Gojam, onde elle he vissorrey, mas nam tam gran- 
des. Estes dous edificios sam os maiores que ha no imperio (nam 
falando de igrejas) ; todas as demais casas sam ruins, como digo, e or- 
dinariamente Ihes facem cerca de espinhos, e assi, se acerta de dar 



t- 



LIVRO I, CAPITULO XX. 195 

fogo na cerca ou na casa, com dificultad[e] se apaga sem se acabar 
tudo. Os que facem de terrado algumas veces se juntam dez ou 15 
e edificam huma casa pegada com outra aroda com as portas 
pera dentro, onde deixam campo bastante pera suas vacas e mais 
gado, com so huma porta pera a rua, que fecham de noite, e assi 
ficam segfuros dos animaes bravos e de fogo. O senhor do lugar 
poucas veces faz casas de seu fato, porque os villoes Ihas facem 
a sua custa, e quando o Emperador Ihe tira as terras e as da a 
outro (que o faz muytas veces), se os villoes ficeram as casas, ficam 
pera o novo senhor, e se o passado as tinha feito com seu fato, 
leva a madeira. 

O governo das cidades he o mesmo que pusimos no cap. 16, 3- ii* quolibetpa- 
tratando dos juices do Preste Joam e dos tribunaes que tem em ^1^^ iudiccs, quorum 
sua corte e os dos Vissorreys dos reynos de seu imperio. Afora "?^® vocatur Leba- 

•^ -^ A . dJ™5 quaenam smt 

estes ha em cada provincia hum juiz, que chamam lebadim, cujo eomm partes. 
officio he inquirir dos ladroes daquella terra e mandallos pressos 
ao Vissorrey a quem ella pertence, ou aos ouvidores da corte do 
Emperador, com pessoa que refera as culpas que delles achou, se 
elle nam pode ir; mas em certos casos acaba elle. Tambem ha 
outro juiz, a quem levam todas as cousas perdidas, de que nam se 
sabe dono, como escravos, mulas e outros gados, e se o que o acha 
nam o leva dentro de tanto tempo, tem pena; e o juiz o guarda 
e se serve delle ate que acha dono, e nam o pode vender; e assi 
o que perdeo alguma cousa destas, facilmente a acha na casa de- 
ste juiz. Em cada villa e aldea ha hum juiz, que chamam Xum, 
posto poUo senhor da terra, e porque assi isto, como no modo que 
tem de proceder na justi^a, se declaro cumpridamente no mesmo 
cap. 16, nam sera necessario tornallo a repetiz. ^ 

f. 83. Tambem a distingam dos moradores da corte he a mesma *que 4- Quonam ordine 

. . j ^ t 1 -r^ 1 1 aediflcatae fuerint 

guardam em o asentar das tendas no campo do Emperador, que de- domus in nova urbe, 
claramos no fim do cap. 14, e assi, querendo elle facer a cidade, **" Pf^fo in penin- 

^ sula lacus DambiA. 

qne acima disse, em a peneinsula da lagoa de Dambia, lan^ou pre- Solus Auctor privi- 
gam que certo dia fossem todos la com elle e armasem suas tendas J^j^dUibi *ocum pro 
da maneira que acostumavam no campo, pera que soubese cada domo aediacanda. 
hum o sitio de sua casa, sem aver diferengas; mas com tudo nam 
faltaram sobre quanta largura avia de ter cada hum aroda de suas 
casas, e pera que meus companheiros e eu CvStivesemos libres disto, 
me disse que fosse primeiro e tomase a minha vontade onde mi- 
Ihor me parecese ; que nam foi piqueno previlegio, assi por nam se 



196 HISTORIA DE ETHIOPIA 

facer nem a sua mae, como por terem os Portugueses obriga^am 
de asentar a mao dereita, e pera aquella parte acertou de ser ruim 
sitio, poUo que o tomamos muyto bom diante. De maneira que to- 
dos tem suas moradas conforme a sua nobre^a ou officio, mais perto 
ou mais afastado do pa^o, a mao dereita ou a izquerda, diante ou 
detras ; e nam somente da de grac^a o Emperador o sitio das casas, 
mas faz que aroda da cidade fiquem campos sem se lavrar, pera 
que os gados comam. Em as cidades dos Vissorreys nam ha tanta 
ordem, e em as villas e aldeas casi nenhum, posto que o senhor 
da terra sinala o lugar ao que ha de facer casa de novo. 
5. Puse deacribun- Acerca dos traxos, antiguamente eram ruins, porque ainda os 

tur vestes et ornatus t ■* j j ^ ^ « 

virorum nobilium senhores grandes, ao menos quando andavam na corte e entravSo 
tempore Auctoris. no pa^o, nam vestiam camisa, senam hum calpam largo, que Ihe 

chegava ate perto do pe, de algodam preto ou vermelho, e hum 
panno cumprido de algodam ou de seda em lugar de capa, e quando 
entravam no pa^o, o cingiam na cinta de maneira que Ihes caia ate 
perto dos pes e o demais do corpo ficava num, ou quando muyto 
huma pelle de liam sobre os hombros, ou de outro animal, que 
chamam Guecela, de cavello preto muyto macio. Mas falando do 
que agora usam qs senhores grandes e gente nobre, he hiima ca- 
misa branca de bafeta fino da India assi como olanda, cumprida 
ate perto dos pes, com coUarinho alto e justo com botoes de tafeta 
carmesi e verde entresachados, e algumas veces de prata ou ouro, 
que se fecham com huns cordoncinhos de retroz das mespias cores, 
e mangas justa^ ate a mao, mas muyto cumpridas; e assi quando 
as vestem, facem muytos pregues e perecem bem. Esta cingem com 
huma toca da India de bordas de fio de ouro ou vermelhas, ou 
com cinto de seda com muytas pe^as de prata douradas. Sobre esta 
camisa vestem algumas veces *outra tambem de bofeta, aberta por f. 83,v. 
diante como rapam e da cumpridam da i*, mas sem coUarinho como 
cabaya de mouros, e as mangas largas de ponta ate o covado com 
botoes como os outros, mas nam se fecham, so servem de fermo- 
sura. Outras veces poem cabayas do mesmo corte de damasco, se- 
tim, veludo, borcado, de panno muyto fino, de todas as cores, que 
vem do Cairo. Algumas veces estas cabayas tem as mangas estrei- 
tas e muyto cumpridas e entam nam as vestem, mas tiram os bracos 
por aberturas que tem como ropam. Alguns tracem cal^oes largos ate 
mais de meia perna de bretangil vermelho. O mais ordinario hecal^oes 
estreitos, que chegam ate o pe, onde se fecham com botoes ; e muy- 



LIVRO I, CAPITULO XX. 197 

tas veces o que delles aparece he de damasco, velludo ou borcado 
e entam os botoes sam de ouro ou prata. Tracem ^apatos verme- 
Ihos ou de outras cores e algumas veces de veludo; mas botas e 
bor^eguis nam usam. 

Poem ao collo cadeas de ouro de muytas voltas, que Ihes chega 
perto da cinta e della pende huma cruz da maneira das que tra- 
cem os comendadores de s. Joam, e ordinariamente pesa cem cru- 
gados a cruz so, que as cadeas commummente sam de 400. Algu- 
mas tem a cima certo remate de ouro de onde as mesmas voltas 
da cadea decem tambem pollas costas outro tanto como por diante, 
e nas pontas estam enga^adas humas como campainhas cumpridas. 

Os que nam podem tracer cadeas, poem cruces de ouro ou de 
prata esmaltada, ou de pao preto com muytas lavores, de meio palmo 
ou menos, penduradas de muytos cordoes de retroz delgados e co- 
mummente preto. Tracem punhaes grandes na cinta com o punho e 
vainha de prata dourada e em alguns pedras engastadas, que, ainda 
que falsas, sam lustrosas. Este emperador Seltan Qagued come<;ou 
a usar [g]abanos como os de Espanha, mas de pois os deixou, por 
causa da calma. 

Em a cabe^a tracem algnns tocas como mouros, outros bar- 
retes redondos proporcionadamente altos, de panno vermelho e de 
outras cores, e quando caminham, poem chapeos como os nossos, 
mas nam tam finos, e albornoces ou ferreruelos como Portugueses, 
que delles os tomaram. Outros tracem cavello cumprido, de aue facem 
muytas invengoes torcendoo de maneira que fica a cabe^a cheia 
de muytos como cordoncinhos e nam Ihes passam das orelhas ; ou 
tros os encrespam de muytas maneiras e ordinariamente os tracem 
f. 84. untados com *mantega. Os meninos tracem topete bem cumprido e- 
chega de huma orelha a outra e mais acima rapam com navalha 
ate perto do alto da cabe^a de onde Ihes saem tres trencas de ca- 
vellos cumpridos, que caem pera atras e no tortigo [sic] tam bem 
Ihes fica hum pouco de cavello, que Ihes da graga. 

As molheres, particularmente senhoras, tambem tracem topete 6. Dc yestibus et 

- omaxncntis mulie- 

muyto alto e as doncellas poem mais acima huma guirnalda de flo- nim nobilium, sivc 
recinhas de ouro com muyta argenteria, e dos demais cavellos fa- ^rginum, sive nup- 

tarum. 

cem muytas trancas delgadas, que caem pera as costas e ornam 
com outras pegas de ouro. As casadas raramente poem ouro em 
os cavellos, mas perto do topete rapam com navalha largura de hum 
dedo e dalli comegam as trancas dos cavellos ; e quanto mais pre- 



igS HISTORIA DE ETHIOPIA 

tos mais folgam, e assi tem certa confei^am de aceite que os faz 
muyto. Nam usam de posturas de alvayalde e vermelham, ainda 
que algumas sam casi tam alvas como portuguesas, senam de certos 
licores cheirosos com que Ihes fica o rosto muy lustroso. 

Seu vestido he huma camisa muyto larga e cumprida ate os 
pes e por detras arrasta hum peda^o ; as mangas largas, mas perto 
da mao estreitas, e a avertura do coUo cumprida, pera que sem 
danar os cavellos a possam vestir; com tudo Ihes cobre os hom- 
bros; e tem muytas lavores aroda de retroz ou fio de ouro. Em as 
festas tracem de damasco carmesi ou de outras sedas, e nos demais 
dias de hum panno branco de algodam fino como olanda, que vem 
da India. Esta camisa cingem com alguma touca fina ou veo de 
seda, e algumas veces poem sobre ella outra como basquinha com 
muytos pregues na cinta, mas nam branca senam de outras cores. 
Tracem calcpoes estreitos, que chegam ate o pe e gapatos. Sobre tudo, 
em lugar de manto, cobrem hum panno grande, humas veces branco 
como o da camisa, outras de seda com franjas de fio de ouro aroda. 
Em o pescogo poem collares de ouro muyto fermosos, outras veces 
de continhas de vidro, entresachados nella canutilhos de ouro. Em 
as orelhas cjarcilhos de ouro ou de prata grandes com humas pe^as 
airadas [sic] do mesmo esmaltadas em lugar de perolas, se he don- 
cella, e as mais das casadas vam alargando aquelles buracos metendo 
poico [sic] e pouco cousas mais grossas e depois poem huns canudos 
de ouro ou prata dourada fechados por todas partes e bem guar- 
necidos, e as de menos sorte metem hum pedacinho de pao preto 
cuberto com alguma seda. Quando caminham levam sobre tudo *al- f. 84,v. 
bornoces com muytos botoes de ouro, e a cabe^a e rosto cuberto 
com huma toca de maneira que nam aparecem mas que os olhos, 
e encima chapeo como de Portugal de alguma seda e do veo de- 
cem sobre os hombros humas pontas cumpridas. 
7. Vestes homi- Os homens, que nam eram nobres, vestiam antiguamente so hum 

num et mulienim de i i •■ i i i « 

plebe. panno grosso branco de algodam, e quando muyto punham cal^oes 

brancos do mesmo ate meia perna, descalgos e a cabe^a descuberta, 
e nam podiam por outra sorte de vestido sem licen^a dos que go- 
vernavam sua terra. Agora, se tem, podem vestir nam so camisas 
brancas, mas cabayas de panno e de seda, e por toca ou barrete 
na cabe^a ; mas, se nam estam em o lugar do senhor daquellas ter- 
ras e vam de outra parte a falar com elle, a primeira vez que en- 
tram, nam podem levar cabayas de panno nem de seda, senam so 



r 



LIVRO I, CAPITULO XX. 199 

camisa branca ou de taficira, ou sem ella; e cingem na cinta o panno 
que levam em lugar de capa, de maneira que Ihes cubra ate perto 
dos pes, e dalli por diante podem vestir o que acharem. O mesmo 
he dos senhores grandes pera com o Emperador, a primeira vez 
que entram a elle, quando vem de outra terra ; mas sempre levam 
camisa ordinariamente de taficira. Os villoes que lavram a terra 
ainda agora vestem coiro de vaca, que concertam a modo de camu^a 
sem calpam nem outra cousa nenhuma. Alguns tracem hum peda- 
cinho de panno grosso de algodam amarrado na cinta, que Ihes 
chega ate o joelho, ou pouco mais, e huma pelle de carneiro com 
sua laa as costas, amarrado hum pe e huma mao diante do peito ; 
mas os domingos e festas vestem pannos grandes de algodam os 
que tem, e se vistisem camisas e pusesem tocas e barretes, nam 
teriam pena por isso, nem Ihes diriam nada, ainda que no reyno 
de Narea (segundo dicem) ate agora se guarda o custume antiguo 
de nam poder variar o trajo sem licen^a do que govema. 

As molheres dos villoes vestem coiro como seus maridos e em 
algumas partes huns pannos de laa de cinco ou seis covados de cum- 
prido e tres de largo, a que elles chamam Mahac, e puderam com 
muyta re^am chamar silicio, porque he muyto mais aspero que o 
que vestem os frades capuchos; que em Ethiopia nam sabem facer 
pannos, nem serve a laa pera isso, que he muyto grosseira ; e to- 
das andam descal^as e muytas veces descubertas dos peitos pera 
cima, e no coUo continhas muyto miudas de bidro de varias cores 
enfiadas de maneira que tem dos dedos de largura. Os cavellos fei- 
tos em muytas trencinhas como acima dissemos; mas em algumas 
f. 85. terras *as usam muyto delgadinhas e as cortam de maneira que 
nam Ihes cubra mais que as orelhas. 

Frey Luis de Urreta trata as mais destas cousas em o cap. 23 8. Quid commen- 

j oi- rijj j «jjj* • xr tatus sit Urreta circa 

de seu i hvro, e lalando do governo das cidades, diz assi: « iin n^odum gubemandi 

« cada ciudad se eligen seis regidores cada afio diferentes, dos no- ^^ Aethiopia. 

« bles, dos ciudadanos, y dos plebeyos, que, fuera de ser a su cargo 

< el aver de mirar por el bien publico, tienen la juiisdicion ordi- 

« naria para conocer de las causas tocantes a su calidad, de ma- 

« neira que los dos nobles no se entremetem en el juicio de los 

« ciudadanos o plebeyos, ni al reves, con tanto que ni los unos ni 

« los otros juzgxien sin acuerdo del corregidor de la ciudad, el qual 

« se elige cada un aiio de los nobles, una vez de una familia y otra 

« vez de otra, de suerte que igualmente gocem todos el honor y 



:oo HISTORIA DE ETHIOflA 

> participen del trabajo. Y porque tanpoco el corregidor se apas- 
• sione, no puede juzgar las causas [sin a]sistencia de dos sacer- 
» dotes de la parrochia del reo, en el ajuntamiento de los plebeyos 
1 assiste siempre un ciudadano, y en el de los ciudadanos uno de 
s nobles, para dar cuenta a los suyos de lo que se ha tratado, 
ira que los nobles lo hagan saber al Emperador o Rey. Esto 
ismo guardan las personas particulares en quanto al no vender 
is bienes muebles sin licencia de los mayores en calidad; y para 
le se evite la gente holga<;ana, vagabunda y ociosa, ninguna 
srsona puede ir de un pueblo a otro, sin Ilebar patente de sus 
eces de la ciudad de donde sale, y al que le cogen sin ella le 
■enden y dan quenta a la ciudad de donde viene, y constando 
]e es malhechor o vagabundo, le castigan rigurosamente ». 
Isto diz frey Luis, mas foi por falta de informa<;am ; que nen- 
la dcstas cousas se usam nem se usaram nunca, porque nam ouve, 
1 ha taes regidores e corrcgidor, que se elijam cada anno, nem 
modo de governo, senam o que acima dissemos; nem he neces- 
o levar patcnte dos juices da cidade os que della vam pera outras 
;es : cada hum anda por onde quer, sem que ninguem Ihe pre- 
te nada, nem inquirem dos vagamundos; somente ha huma cousa, 
, achandose algum morador do lugar que come e veste bem, sem 
facenda ou officio com que possa ganhar aquilo, entam o juiz 
uelle lugar, que se chama Xum, Ihe pregunta quem Ihe da aquelle 
, e se acha que elle o furta, ou outros Iho dam aguardar fur- 
>, o prende e entrega a quem pertence conhecer daquella causa. 
Tambem no cap. ultimo de seu i" livro pag. 368 trata o Au- 
■ de duas cidades, que affirma tem o Preste Joam *e as faz tam f. 8s,v, 
irentes do que eu aqui tenho dito que as igoala a as mais in- 
les que ha em Europa. PoIIo que referirei suas mesmas pala- 
1 : » Aunque las ciudades de 1a Ethiopia no passem de tres mil 
sas, se exceptan las dos famosas ciudades, la de Saba y la de 
imbra, que son magnificas, populosas, de grande numero de ca- 
s, con edificios publicos, torres, porticos, agujas, arcos, obeli- 
os, piramides, lonjas, plai;as, templos, palacios, murallas, ho- 
enages, y de las hermosas y regaladas que tiene el mundo. La 
udad dc Saba fue la mayor de toda Ethiopia, de mas casas y 
; mayor numero de vecinos, y la cabe^a de todo aquel grande 
iperio. Fundola la reyna Sabba, quando volvio de Jerusalen de 
sitar el santo templo, y della tomo el nombre, y tambien le da 



r 



LIVRO I, CAPITULO XX. 20I 

c al reyno donde esta edificada, porque se Uama el reyno de Saba. 
« Es ciudad muy rica y proveida, por los muchos bienes de que la 
€ naturaleQa y el primor de la arte la dotaron ; tiene famosos tem- 
« plos, altos y apuestos edificios, sumptuosos palacios, curiosas 
« portadas, gallardos frontispicios de extraordinaria y peregrina ar- 
« chitectura. El numero de sus casas son quincemil, grandes y ma- 
« gnificas las calles, muy anchas y espaciosas, y todas ellas con 
« soportales y coberti^os de bobeda, de suerte que se puede andar 
« toda la ciudad por ellos sin que offenda el sol. Los muros son 
« de argamasa bastantemente altos y tan anchos que puede ir un 
« carro castellano por encima muy holgadamente. Esta hermoseada 
« con muchas fuentes, pilares y canos de agua. 

« Ay junto a esta famosa ciudad muchas minas de oro, venas 
« y betas de plata ; ay muchos jardines, huertas y vergeles de 
« grande deporte y recreacion, llenos de mil rosas y varias flores, 
« donde la mano industriosa de la naturale^a ayudada de la arti- 
< ficial del jardinero se ha senalado tanto que parece que quiso 
« competir con la de Dios en hacer segundo parayso en la tierra, 
« en contraposicion del otro primero. Los arvoles dan tres veces 
« fruto al ano. Los Emperadores en ser electos toman la posses- 
« sion del imperio en la ciudad de Zambra, que al presente es la 
« corte, y luego se parten a la ciudad de Saba, donde los juran 
« todas las ciudades y pueblos y reyes sugetos. 

« La famosa ciudad de Zambra es la mayor de cas[as] y edi- 
« ficios que ay en la Ethiopia: tiene treintamil casas, sus vecinos 
f. 86. t son muchos, y de innumerable concurso de gente. *Esta edificada 
« en el reyno de Cafates junto al gran lago Cafates, que por esta ciu- 
« dad suelen llamar el lago de Zambra. Es illustre ciudad, por ser 
« corte de los Preste Juanes, los quales, deixando sus antiguas y or- 
« dinarias correrias y peregrinaciones, morando en los campos baxo 
« pavellones y tiendas, pusieron en esta ciudad su silla y corte im- 
« perial, por ser proveydissima de mantenimentos, sus campos fer- 
« tiles y muy deleitosos. Sus calles son muy anchas y espaciosas, 
« fuertes y altos muros, sobervios palacios, sumptuosos y magni- 
« ficos templos. El palacio imperial es de grande magestad y bel- 
« le^a: en el vive el Preste Juan con los primogenitos de los Reyes, 
« y la Emperatriz, y las 42 hija.s de Reyes con sus damas, y los 
« del Gran Consejo con los del Consejo Latiho. Esta ciudad se edi- 
« fico por los afios de mil y quinientos y setenta por los officiales 

C. Beccari. Xer, Aeik, Scripi» occ, ined, — II. 26 



\ 



202 HISTORIA DE ETHIOPIA 

« y architectos que embio el Duque de Fiorencia en tiempo del 
< Preste Juan Alexandro 3°. Esta edificada a lo moderno con mil 
« primores y belle^as a la tra^a de la ciudad de Florencia; tiene 
€ muy buen puerto y muy capaz en la laguna Cafates >. 

10. Eadem fabulia Ate aqui sam palavras de frey Luis de Urreta; mas tudo quanto 

scatere demonstra- nj-ir',, n ^- «^j r 

^r^ em ellas diz he fabula e mera nc^am poetica, pmtada contorme a 

idea que quis formar em sua imaginacjam quem o informou, ou quem 
escreveo o livro de que elle o tirou ; porque primeramente em quan- 
tas terras senhorea el Preste Joam nam ha taes nomens de cidades 
Saba e Zambra. Mas poUo que diz da que chama Saba, que a edi- 
ficou a reynha Sabba, quando tomou de Jerusalem, parece que sera 
a povoa^am que agora chamam Ag^um, que esta no reyno de Ti- 
gre, porque em hum livro, que por antigualha se guarda em hum 
mosteiro deste lugar, li eu que a reynha Azeb (que he a mesma que 
Sabba, que amos nomes Ihe dam os livros de Ethiopia, como de- 
claramos no cap. 2) edificou huma cidade cabe^a de Ethiopia que 
se chamou Debra Maqueda, e no livro onde esta o catalogo dos 
Emperadores de Ethiopia se conta que a reynha Azeb come^ou a 
reynar em Ag^um. Mas agora esta muyto longe de se poder cha- 
mar cidade. porque quando muyto tera 1 50 ou docentas casas ter- 
reas muyto piquenas e tristes cubertas de palha e cada morador 
tem sua cerquicinha de espinhos aroda, ainda que alguns poucos 
a facem de pedra e barro, ficandolhes as ruas muyto estreitas e 
*sem nenhum ordem nem concerto. Nem ha nella fontes, nem outras f. 86,v. 
agoas mais que hum tanque piqueno e alguns po(;os, e bom pedacjo 
afastado da povoa^am duas riberinhas, de com que nam se rega 
nada. Nem ha rasto de jardins e arvoredos, so tem alguns dentro 
das cercas de suas casas parreiras, mas muyto poucas. 

11. Ruinae quae Os moradores de aquellas terras affirmam que tem por tradi- 

prope Axum visun- ^ ^ ., ^. .-jj j. - ' 

turcttraditio populi 9^"^ muyto certa aver sido antiguamente cidade muyto msigne e a 
demonstrant ibi maior que nunca ouve em Ethiopia, e as ruinas dos edificios, que 

quondam urbem in- 

signem extltisse. ainda agora aparecem, dam bem mostra de que foram sumptuosos. 

E em hum terreiro dentro da povoacjam estam oje em pe trece pe- 
dras bem lavradas, algumas como de 30 palmos de alto, e huma 
com muytas molduras, que tem por cada ilharga cinco palmos de 
grosso e dianto douce e dc alto tera cento, com nam ser mais que 
huma so pedra, e parece que acabara em 4 ou cinco palmos com 
hum remate a modo de meia lua com as pontas pera baixo. Ou- 
tras muytas estam caidas e entrellas duas bem lavradas com mol- 



_^r 



LIVRO I, CAPITULO XX. 203 

duras : a huma tem por cada ilharga dez palmos de grosso e diante 
16 e de cumprido cento e trinta e cinco, e parece que tinha muytos 
mais, porque Ihe falta gram peda^o da ponta, e do pe esta tam- 
bem muyto soterrado. He pedra hum pouco parda. Outras ha pique- 
nas com muytas letras antiguas, que agora ninguem sabe ler. Avia 
hum mosteiro muy sumptuoso com muytos frades, e igreja muy fer- 
mosa. Mas porque della e das demais de Ethiopia hemos de tra- 
tar no 2 livro, nam me deterei aqui em falar de sua grande^a e 
architectura. 

Quanto a cidade, que o Author chama Zambra, nam pode ser la. DcBcriptio ur- 
outra senam a que chamavam Gubai, porque esta foi edificada pol- cum Dambi&^im- 
los annos de 1574 perto da grande lagoa de Dambia; mas nam por pcratore MalAc Sa- 

sr&d aedificata cuius 

Alexandre 3** (que nunca em Ethiopia ouve Alexandre 3°, como ja vix vestigia Auctor 
mostramos no cap. i), senam por Malac Qagued, que ainda seu pae ^b^cdcm^posuit^fn 
Adamas Qagued esteve alli muyto antes hum inverno, nam ficou loc© dicto Cogft, scd 

_ tempore Auctoris 

em forma de cidade ate que o emperador Malac Qagued fez na- seltAn SagAd elegit 
quelle lugar de proposito seu asento. Nem a edificaram architectos ^ ««dem in Den- 
de Florencia, que, como ja tambem temos dito, nam ha memoria 
de que viesem nunca a Ethiopia, nem os edificios eram tam sum- 
ptuosos e magnificos como o Author os pinta, senam casinhas ter- 
reas, baixas e cubertas de palha, como dissemos no principio deste 
capitulo que sam as de Ethiopia. Nem os muros eram de argamasa, 
que chunambo nam tinham, nem ainda pedra que se pudese lavrar, 
f. 87. se nam a traciam de muyto longe, e assi *puseram de huma vanda 
e outra da cerca estacas grossas e o meio encheram de rebolo e 
lama, e nam levantaram muyto mas, com largura que podiam andar 
por cima folgadamente dous homens de cavallo hombro por hombro. 
Com tudo, por a lama ser ruim e alli chover muyto, come^ou a 
caer antes que se acabase de cercar tudo, e assi levaram mao da 
obra e em pouco mais de dous annos caio quanto tinham feito; so 
ficou huma cerca piquena de rebolo, que ficeram a roda das casas 
do Emperador, que depois tambem caio. Agora nam sabem dicer 
quantos vecinhos tinha aquella cidade, mas parece que nam aviam 
de ser mais que os que oje tem a deste emperador Seltan Qagued, 
que nam cuido chegam a 15 mil. Esteve alli o emperador Malac 
Qagued alguns [meses], e depois se passou pera huma terra fria, que 
chamam Aiba, hum dia de caminho dalli, e logo se foi despovoando 
de maneira que nem huma so casa ficou naquelle sitio, porque 
no inverno avia muyta lama. Eu fui de proposito a o ver pouco 



204 HISTORIA DE ETHIOPIA 

ha e esta em huma terra que chamam Anfaraz, como duas legoas 
dos limites de Dambia pera oriente. A longo da cidade corria huma 
ribeira piquena e outras duas grandes nam muyto longe, e a lagoa 
de Dambia, que tambem entra por aquella terra, Ihe ficava pouco 
mais de meia legoa pera a vanda do sul. Tinha aroda campos 
muyto largos e fermosos, em que agora ha grandes sementeiras. 
Quando eu entrei em Ethiopia, que foi em mayo de 603, jao em- 
perador Jacob, filho do emperador Malac (^agued tinha tornado a 
por a corte, meia legoa dalli, em hum sitio alto que se chama Coga, 
muyto milhor que o de Gubai, e alguns polla vecinhan^a que tem 
com este o chamam Gubai novo. Mas tambem, como o emperador 
Seltan Qagued, que Ihe sucedeo, se passou pera a peneinsula, que 
a cima dissemos, nam ficaram alli senam como 1 50 casas, e ainda 
esta peneinsula ficou agora casi depovoada, por facer o Emperador 
outra cidade nova em huma terra mais fria, que chamam Dencaz, 
pouco mais de hum dia de caminho dalli, que, como dissemos no 
principio deste capitulo, em passando o Emperadur sua corte a outra 
parte, poucos ficam naquelle lugar. 

Nem teve menos falta de informa^am o Author em o que diz 
que os Preste Joaes, deixadas suas antiguas peregrina^oes morando 
em os campos debaixo de tendas, *puseram sua cadeira e corte em f. 87»v- 
esta cidade; porque, ainda que no inverno ordinariamente estava 
nella o Emperador, todos os veraos saia a guerra e andava em suas 
tendas, como ficeram ate oje os que depois delle foram. 
xs.Deridenturalia Tambem as gostosas e alegres festas, que diz pag. 373 se fa- 

comnienta Urretae 

circa ludos circcnses ciam perto daquella cidade, a que hia a Emperatriz e suas damas 
etpompa8,quaepro- gj^ elephantes ricamente enjaecados e se corriam muytas feras e 

pe urbem Zambra ab ^ ^ "^ ^ -^ 

Imperatoribus in- animaes monteses, facendo que brigasem lioes e tigres com ele- 

phantes, lioes e tigres entre si, cavallos monteses huns com outros, 
emas e bugios, gatos e on^as e ultimamente touros, nunca taes fe- 
stas se ficeram em Ethiopia, nem se viram elephantes mansos, como 
ja por veces dissemos i). E mais em poucas regras no mesmo lugar 
se contradiz, porque, tratando do ordem com que hiam a estas festas, 
diz que a certo dia saia o Preste Joam da cidade Zambra acompa- 
nhado de mil cavalleiros muy lucidos e detras delles levavam 
cem cavallos de destro com ricos jaeces, logo muytos elephantes, 
dromedarios e mulas ricamente ornadas e que tudo se levava de- 

(i) In maigine sequentia verba leguntur: c Se parecer, pode ficar isto da contra- 
di^am, pois vai pouco ». 



LIVRO I, CAPITULO XX. 205 

tras do Emperador so por grande^a e magestade ; depois se seguia 
o capitam da guardia imperial "e tras elle os primogenitos dos Reys 
em fermosos cavallos, tras estes hiam os ouvidores do Gram Conse- 
Iho, e depois de ter passado toda esta cavalleria e acompanhamento, 
vinham as damas da corte todas sobre elephcntes, e no meio dellas 
a Emperatriz e a sua mao izquerda o Emperador. Se o Emperador, 
como elle diz, hia diante e depois se siguia por ordem tam grande 
acompanhamento e no fim de tudo a Emperatriz, mal podia ir a 
sua mao izquerda o Emperador que tam longe estava della na dian- 
teira. Mas seja o que for da contradi^am, o certo he que tudo 
quanto diz das festas e do aparato, com que se hia a ellas, he mera 
fabula, porque nunca tal cousa ouve em Ethiopia. 



CAPITULO XXI. 

£m que se declara alguma cousa da nature^a 
e costumes que tem os vassallos do Preste Joam. 



Tem a gente de Ethiopia comummente boas fei^oes no rosto, x. Aethiopes vultu 
os corpos fortes e robustos, sofredores sobre maneira do trabalho, ^^3 viribus laboram 
fome, sede, calmas, frios e visrias. No entendimento, que he o mi- ®'^^®» ^amis, frigoris 

patientes. Animo 

Ihor do homem, nam Ihes facem ventagem os de Europa. Sam de pieramque mites, i- 

f. 88. nature^a branda e compassiva, *que, posto que nam faltem homens SmaTremfttunt^RoI 

de agreste e duro cora^am como em outras partes do mundo, estes ?**» P^o amore Dei 

j . ^ , • 1- j . r M ** ^' Virginis nihil 

sam os menos: os demais sam muyto bem mchnados e assi facil- unquam denegant. 

mente perdoam quaesquer agravos e injurias, por grandes que se- 

jam, ainda mortes de paes, de filhos e irmaos, como eu tenho visto 

muytas veces e experimentado em alguns destes perdoes [em] que me 

meteram, que com nam conhecer algumas veces aquelles a quem 

hia a rogar, os alcangei com facilidade ; e se ao que pedem que va 

a rogar, se escusa, ficam muyto agravados, e ainda os outros o no- 

tam, muyto particularmente se pedem isto por amor de nosso Se- 

nhor ou da Virgem nossa Senhora, porque raramente Ihes pediram 

por elles cousa que nam concedam; e como huma vez perdoam, 

tem por grande baxesa e ainda escrupulo tornar a falar sobre 

aquilo, e assi os que se reducem a nossa santa fe, se acusan) na 

confissam que tornaram a falar (ainda que fosse com algum seu 

amigo) sobre o que ja tinham perdoado. 



2o8 HISTORIA DE ETHIOPIAl 

a. Lriberalitas om- Sam tambem muyto piadosos e liberaes com os pobres, e assi, 

Magistratus dictus ^^^ come^arem elles a pedir pollas portas das tres horas antes 
pater orphanorum, ^je amanhecer, Ihes dam naquelle tempo muytas esmolas, por Ihes 

distnbuit nomme ^ ir ^ ir 

Imperatoris in vi- parecer que alguns daquelles nam se atreveram a pedir de dia. De- 
rcdditus^qut^^ocan- P^^^ ^^^ amanhece, se asentam perto de alguma igreja, ou na rua 
tur Col6. por onde passa mais gente, ou na entrada da cidade, e alli pedem 

esmola ate que os homens grandes comem, que ordinariamente he an- 
tes das dez horas de polla minha e as cinco da tarde, e entam se 
juntam a suas portas e, como acavam de comer, Ihes dam o que 
sobeixa. A porta do pa^o nam chegam, porque nam he costume 
darse alli esmola, mas faz muytas e muyto grandes o Emperador, 
porque demais do que liberalmente da a as igrejas e mosteiros, so- 
corre com abundancia aos que sabe tem necessidade, particular- 
mente se sam honrrados. Demais disto tem huma pessoa de con- 
fian^a, a que chamam pay dos orfsios, que todos os annos reparte 
a as viuvas e orfaos, que sam parentes dos Emperadores (ainda que 
o sejam muyto longe), grande cantidade de mantimento das rendas 
que os villoes pagam ao Emperador, a que chamam Colo, que quer 
dicer torrado ; porque, ainda que esta renda he muyto grande, com 
tudo, como he cousa de mantimento pera o Emperador, Ihe puse- 
ram este nome, como se fora alguma cousinha pouca que Ihe ofFe- 
reciam pera torrar. 
3. Ecclesias fre- Tambem sam muyto devotos e assi com se comegarem *os of- f. 88,v. 

quentant omnes, ibi- ^ . . ,, . , -i . 

que devote et decen- ncios em as igrejas como canta o gallo, que sera tres horas depois 
ter officiis divinis ^^ mela noite (que ca nunca cantam os cfallos a meia noite), como 

assistunt: qui domi ^^ *=* ' 

mancnt orant et re- dam sinal, que nais parrochias he certas pancadas em huns como 
que^tii^rondoVnter" atambores, e nos mosteiros com tres tabuinhas, que tem amarradas 
mittunt preces quo- pollas bordas e soam muyto, ou com humas pedras delgadas e cum- 

tidie dicere. 

pridas nam muyto largas e de longe parece que tangem sinos, mas 
estes nam ha em Ethiopia, so hum piqueno tenho visto e outro que 
eu fiz tracer da India pera nossa igreja ; em dando aquelle sinal, 
se alevantam homens e molheres e vam a as igrejas onde podem 
entrar (que nem em todas entram as molheres, nem ainda os ho- 
mens passam de certa cortina, se nam tem ordem, como adiante 
diremos), e ouvem os officios e re^am em pe o mais do tempo, ainda 
que tambem se asentam; e de nenhuma maneira entram com ^apa- 
tos, posto que si com a cabega cuberta, como em cumprimento do 
que Deos mandou ao propheta Exo. 3, que se descal^ase por reve- 
rencia e respeito, e nam que desbarretase. Nem cospem dentro no 



k 



j 



LIVRO I, CAPITULO XXI. 209 

cham, senam em seus len^os, por reverencia das igrejas, e poUa 
mesma causa, se vem a cavallo, se apeam antes de chegarem a ellas, 
e nam tomam a subir ate terem passado hum bom pedaQo. Os que 
ficam em suas casas, muytos re^am ate amanhecer ora^ocs ou psal- 
mos de David, ou leem por sam Paulo ou o Evangelho e depois 
facem seus negocios. E o que mais he que quando caniinham, seja 
sos ou indo a g^erra, todo homem honrrado leva hum criado com 
o livro de re^ar e estante de ferro delgado, aforrado de coiro ver- 
melho, de modo que se possa dobrar; e como se armam as tendas, 
que se ouveram de por a descansar do trabalho do caminho, se asen- 
tam logo a re^ar, nam porque tenham obrigagam, senam por sua 
devo^am e ser ja costume comum. 

Em algumas igrejas do imperio ha sepulturas de homens que 4« !>« P"» peregri- 

^ j j ^ , ^ nationibus et ieiu- 

tem por santos, onde de muyto longe vam cm romeria com muyta ^^{3^ ^^^ rigide ad- 

devo^am, e ainda a Jerusalem vam muytos homens e molhercs, com jno<lum servare so- 

lent. 

ser caminho muyto cumprido e trabalhoso, assi por sua aspere^a, 
como poUas grandes calmas das terras per onde passam. Todos 
os frades e freiras e os que tem ordens de diaconos, ainda que 
sejam homens casados, tracem huma cruz na mao de prata, ou 
de ferro, ou de pao preto, como de hum palmo de cumprido. 

Sobre tudo sam muyto dados a jejuns e penitentias. Jejuam 
f. 89. todas as 4** e sextas feiras do anno, excepto as depois *da pascoa 
de Resurreipam ate o Spirito Santo. Comem a tarde quando a som- 
bra tem oito pes, que ca nam a relogio, mas seram cinco horas 
pouco mais ou menos. Nam comem ovos, leite, nem mantega, se- 
nam hervas bem mal temperadas, graos, lentilhas, fabas e outras , 
sementes que tem, e peixe quem o acha, que ha muyto pouco, se- 
nam he ua lagoa de Dambia e em alguns rios, e muytos nam co- 
mem o que nam tem escama, poUo costume que Ihes ficou dos 
Judeos. Tambem jejuam algiins dias antes do natal, e quince antes 
da Assump^am de nossa Senhora, mas nam todos, porque isto he 
por devo^am. Em a coaresma jejuam todos e nam comem ate po- 
sto o sol, nem bebem gota de agoa, ainda muytos dos que estam 
doentes e alguns particularmente frades estam dous dias e mais sem 
comer. Os sabbados porem nam jejuam, mas em lugar delles je- 
juam sete dias antes que entre nossa coaresma, come^ando da 2" feira 
depois da sexagesima, e alguns por mais penitencia comem humas 
sementes amargosas e ainda herva babosa Sua Pascoa humas ve- 
ces cae no mesmo dia que a nossa, outras 8 dias depois e algumas 

C. Bkccari. Rer, AgfA, Script, oee, ined, — II. 27 



\ 



2IO HISTORIA DE ETHIOPIA 

hum mes, como succedeo no anno de 1617, que nossa Pascoa foi 
a 26 de mar^o e a sua na lua siguinte. 

5. Quas insuper Outras muytas penitencias facem os frades na coaresma e en- 
mae^n>od8 afflictal trellas estar muyto tempo em pe em ora^am (que de joelhos nam 
tiones sibi monachi acostumam) e quando muyto se encostam a parede ou sobre seu 

imponere soleant. / 1 ^ jt 

baculo, se cansam demasiado ; e ainda diz a historia de hum frade, 
que se chamava Taquela Haimanot, que poremos no livro 2°, que 
esteve muytos annos em pe dentro de huma casinha, sem se enco- 
star a huma nem outra parte, e em hum pe sete annos. Tambem 
affirmam que antiguamente alguns frades dos que estavam em os 
desertos (que entam eram muytos) se metiam em humas arvores, 
que ha muyto grossas e lisas ate o alto, a que chamam Dema, fa- 
cendo desta maneira : pregavam estacas no tronco huma a cima de 
outra (que o podiam facer facilmente, por ser esta arvore dentro 
branda) e por ella subiam ate altura que pudesem ficar segnros 
das feras, e alli cortavam e faciam hum buraco a modo de casinha 
quanto podia caber hum homem, e nella se metia hum frade e nam 
saia mais. Outros Ihe davam de comer ate que se fechava aquella 
casinha (que por dentro se torna a hencher muyto de pressa) e assi 
o hia apertando ate que ficava alli morto e sepultado. 

6. De poenitentiis As penitencias que dam aos seculares em a confissam, ainda 
Abuna et sacerdotes *que sejam muyto grandes por culpas leves, as aceitam e cumprem f. 89,v. 
imponunt. Confessio jg \^q^ vontade ; e posto que muytos nam se sabem confessar. por- 

publica. 

que nam especificam os peccados, senam dicem somente: Pequei, 
errei, e quando muyto declaram algumas cousas e tudo o demais 
que tem fica; mas he porque nam os insinam que todos os pecca- 
dos ouveram de confessar muyto bem, como outros facem, e ainda 
alguns desejam tanto de se salvar que pubricamente confessam seus 
peccados, por grandes que sejam, como me affirmaram algnns Por- 
tugueses, que viram ao penultimo Abuna, que ca veo, assentado em 
sua cadeira e de huma e outra vanda delle muyta gente em pe e 
poUo meio vinham outros hum e hum, e chegando perto delle de- 
cia em alta voz seus peccados e, se algum era grave, decia o Abuna: 
Isto ficestes ? e alevantando seu baculo, Ihe dava nas costas tres ou 
4*^ muyto boas, e mandava logo a dous homens, que alli tinha com 
correas cumpridas, que Ihe desem 30 ou 40 a^oites, como milhor 
Ihe parecia e como Ihe comegavam a dar, rogavam os outros que 
Ihe perdoase, e assi o mandava deixar; mas se seus peccados nam 
eram graves, Ihe dava outra penitencia. 






i 



LIVRO I, CAPITULO XXI. 211 

Quanto dos costumes, nam referirei mais que alguns por nam 7« Acjhiopcs siint 

. . « A valde coniites inter 

cansar ao leitor com muytas cousas que tem de pouco momento. As ^ . paiutationes, 
cortesias, de que usam, quando se encontram homens cfrandes, sam ^^* scqipcr in plu- 

rali usurpant, sunt: 

baixarem as cabecjas, e algumas veces tambem por a mao dereita cwr Alu, ch«r ceba- 
no peito, sem descubrirem as cabe^as de nenhuma maneira, ainda roininhA ^SS^ bic6n 
que tragam barretes ou chapeos ; e o que primeiro fala diz : Cher »y^^^ «* «li^e, quas 
alu, que propriamente quer dicer: « bem estam? », que, aindaque seja tur. 
hum, Ihe fala em plural por cortesia. Elle responde : Cher cebahat 
la egziabeher: « bem, gloria a Deos ». E logo tambem preg^nta o ou- 
tro com as mesmas palavras se esta bem, ou dicendo : Mininha alu, 
scilicet : « como estam » [?] ; e alguma vez o primeiro que fala diz : Bi- 
c6n ayaul; «seu contrairo nam permane^a » . Em esta palavra contrairo 
se entende nam somente imigo, mas todo genero de mal, porque Biz 
quer dicer « mao » . Desta palavra em plural esta obrigado a usar o que 
nam he tam nobre como aquelle com que fala, mas os igoais, ainda 
que sejam homens grandes, muytas veces se fala hum a outro por 
huma palavra, particularmente os muyto amigos; e nam somente 
ha de falsu- em plural o menos nobre, mas ha de baixar o panno 
que traz em lugar de capa, de maneira que descubra poUo menos 
hum hombro, e tal pode ser o senhor com quem fala, que tenha 
f. 90. obriga(;am de discubrir amos hombros e ainda cingir *o panno na 
cinta. E o mais nobre responde : Cher alec ? « Estais bem ? » E quando 
vam a visitar huns a outros, ordinariamente tiram os (japatos na 
entrada da casa, e se o senhor ou senhora della he parente do 
Emperador, cingem tambem os pannos na cinta, como dissemos que 
facem no pa^o do Emperador. E quando saem, dicem : Bafe^a yau- 
leo « com alegria permanecja ». Tambem dicem : Baheioat caru « com 
vida fiquem » . Outras maneiras tem tambem de falar, mas estas sam 
as mais comuas. 

Ao Emperador nam Ihe dicem nada, quando chegam diante 8. Mos a nobili- 
delle os senhores e senhoras, e sempre acostumam de entrar (se uaurpatus *^*qSinAo 
nam for alguma parenta muyto chegada e confiada, particularmente imperatorem invi- 

8unt« 
se he ja molher de dias, que Ihe diz: Bi^on ayaul, « seu contrairo 

nam permane^a »), so baixam as cabe^as e ficam em pe no lugar 

que conforme a sua nobre^a Ihes cabe, assi as senhoras como os 

senhores, ate que o Emperador sls manda asentar. A ellas oidina- 

riamente as tem muyto pouco em pe, mas aos senhores, por gran- 

des que sejam, devagar os manda asentar e em cadeira por nenhum 

caso, senam na cham sobre alcatifas, e ainda isto nam se usava 



212 HISTORIA DE ETHIOPIA 

antes, porque nenhum senhor se asentava diante do Emperador; 
mas pollos annos de 1597 se comeQou a introducir, por ser o em- 
perador Jacob piqueno. 

Tambem quando algum senhor vem de fora na corte, ou seja 
chamado, ou nam, chega a porta do pa^o e manda recado por o 
porteiro mor, ou por algum seu amigo (que sem licen^a nam pode 
entrar) desta maneira: Fuao diz ao Acegue: Bi^on ayaul: « seu con- 
trairo nam permane^a » , e se o Emperador manda que entre, o cha- 
mam e chegando Ihe beixa a mao ou o joelho sem dicer nada e se 
afasta pouco o muyto conforme a sua nobre^a. Logo o Emperador 
Ihe pregunta alguma cousa, ou elle, esperando hum pouco, toma a 
chegar e fala algnm negocio, se tem. Mas se o Emperador, quando 
Ihe dicem que esta alli aquelle senhor, nam responde (que ordina- 
riamente disimula por grande espa^o), fica elle esperando a porta 
ate que Ihe de licen^a. E se for Vissorrey (o qual comummente 
nam vem se nam chamado), fica na porta da primeira cerca e manda 
recado ao Emperador, e elle invia logo pollo menos dous homens 
grandes e algumas veces 4, e dicemlhe: Diz o Emperador que seja 
boa vossa vinda, que entreis. Elles tambem o saudam e se tornam, 
e elle vai detras e espera outra vez na porta da 2* cerca (que sem- 
pre o pa^o tem duas) ate que venham outros a Ihe dicer que entre, 
e com estes vai e veixa a mao ao Emperador e fica em pe falando 
ate que o despede ou manda que se asente. Quando o Emperador 
manda recado de palavra ou carta fora da corte, aquelle para quem 
vai, por grande que seja, sae *fora da porta de sua casa, e cinge f. 90»^. 
o panno pera ouvir o recado e tomar a carta. 
g. Describitur scl- O Emperador ordinariamente esta asentado em algum esquife 

la seu thronus Im- , , , , , r 

peratoris. lacreado ou dourado, como este tem humas veces, com lermosas 

cortinas ou pavelham de seda, outras sem ellas, e sempre tem 4 ou 
seis colchas; huma chega com a borda perto do cham, outra hum 
pouco mais alta, e assi as demais, de maneira que de cada huma 
apare^a hum pouco, e a ultima sempre he de seda muyto rica, e 
hum ou dous coxins de veludo ou de borcado em que se encosta; 
mas no esquife dourado ordinariamente estam ats colchas encima 
sem caer casi nada pera abaixo, porque tem rodapes de borcado 
ou de velludo com franjas de fio de ouro. Este he squ throno, po- 
sto que algumas veces tambem se asenta em cadera alta de espal- 
das de damasco ou veludo com franjas de fio de ouro e pregos dou- 
rados, como ja temos dito. 



LIVRO I, CAPITULO XXI. 2 1 3 

Todos os senhores se asentam no cham sobre alcatifas, ainda 10. De suppcne- 

. « . . ctili domestica etiam 

em suas casas, porque raramente se asentam em cadeiras, e assi nobilium. De cibis 
sempre comem no cham sobre humas tavoas redondas com a borda »agi« usitetis. Quod 

mo8 edendi camem 

de dous dedos de alto e, com serem de huma so pe^a, ha algumas vaccae cmdam sit 
de oito palmos. A esta mesa chamSo Gabeta, e nam poem sobre ella mums^exemplis^de- 
toalha, nem guardanapo, senam humas apas muyto delgadas de trigo monstrat. 
ou de outras sementes que ca ha, e sobre ellas os pratos com o co- 
mer e pam como o nosso de trigo. Comem toda sorte de carnes: 
vacas, carneiros, cabras, galinhas, perdices, excepto porcos, que 
muytos nam os comem, e lebres e coelhos ninguem; e das milhores 
iguarias pera alguns he a carne de vaca crua, que acabandoa de 
matar a poem na mesa, e dandolhe alguns golpes, Ihe botam en- 
cima seu mesmo fel, e logo vam cortando e comendo, e dicem que 
Ihes sabe muyto bem, tanto que os mais nam deixaram este comer 
por nenhum caso, ainda que Ihes custa muyto caro, porque se Ihes 
criam no estomago huns bichos delgados como lombrigas cumpri- 
dos, que Ihes facem muyto mal, se nam tomam cada dous meses 
hum fruto de huma arvore, que chamam C096 : a cousa mais amar- 
gosa que parece pode aver, e tam forte que, se se descuidam acre- 
centando na medida, morrem muytos e alguns botando sangue poUa 
boca. E que os bichos Ihes venham de comer esta came crua di- 
cemo elles mesmos, e se ve claro, porque os filhos dos Portu- 
gueses antiguos, os Mouros e Judeos, que a comem, tem tambem esta 
doen^a, e se nam a comem ou a deixam, depois de algum tempo, 
nam tem aquelles bichos, nem tomam a micinha ; e este emperador 
Seltan Qagued, que deixou de comer esta carne crua, ha ja muy- 
f. 91. tos *annos que saro desta doen^a, e o principe mais velho. que se 
chama Faciladaz, nunca a teve, porque, como me disse o Empera- 
dor, nunca quis nem provar a carne crua. 

Nam ha a^ouguens; somente na corte do Emperador matam xx. Bestias esui 

■,,., r j 'j ^ ii'< destinatas mactant 

cada dia algiimas vacas fora da cidade no campo, e alli vai a com- ^omi, ibique pariter 
prar a gente ordinaria, nam por peso senam a olho, facendo quin- coquunt pancm. Po- 

tu8 comunis cereiri- 

hoes. Os que podem matam em sua casa as vacas ou carneiros sia, quae ubique pro- 
que tem necessidade. e cocem tambem nella o pam que ham de ^^T^'"^ 
comer, porque nam ha paderias, senam algumas molheres pobres melie. ViUici tenen- 

. r ' ^ 1 « ^^ s^^^ sumptibus 

que levam a feira algum pam, de que nam compram os homens cibum et potum pa- 
honrrados. ^"« nobilibus iter 

agenubus. 

Sua bebida he vinho, que facem de mel, e algum he tam forte 
como de ubas, mas dura pouco, quando muyto hum mes, e logo se 



2 14 HISTORIA DE ETHIOPIA 

aceda. Tambem ha outra sorte de vinho ou cerbexa, que facem de 
milho e cevada e de outras sementes, que nam ha em Espanha ; e 
isto bebem comummente os que nam podem alcan^ar vinho de 
mel, que de ubas casi nunca o vem, como adiante diremos ; e assi 
ha muytos taberneiros que o vendem, nam por miudo, senam por 
cantaros, porque custa pouco ; e quando caminham se acha a cada 
passo, por estarem os lugares muyto perto huns de outros; mas o 
vinho de mel raramente se acha, senam nas cidades, e assi os senho- 
res, quando caminham, levam mulas ou bois carregados de huns cor- 
nos muyto grandes cheos deste vinho, e mel pera o facer ; e se o 
caminho ha de ser cumprido, em qualquer lugar que cheguem a se 
agassalhar de noite, Ihes ham de dair pousada e tudo o necessario 
pera comer de gra^a, conforme a calidade das pessoas, que tam- 
bem aos homens baixos agassalham desta maneira. Cousa de gran- 
dissima opressam pera os villoes, que elles sam os que tem esta 
obrigagam. Mas em as cidades nam se usa isto : cada hum come a 
sua custa. Suas jomadas comummente sam curtas, mas quando Ihes 
releva, as facem nam menos cumpridas que em Espanha e nam fa- 
lam por. legoas, porque nam dividem os caminhos com semelhante 
parti^am, senam por dias. 
la. Modus ven- O modo, que comummente tem de comprar e vender, he tro- 

dendi et emendi : , ^ ^* ^ 

pro pecunia Aethio- ^^^ humas cousas por outras, como mantimento por mantega ou 
pibus eat, vei aurum pannos de alffodam, ou por pedras de sal, que cada huma tem oito 

rude.velsal. Decul- ^ s » t' i- »H 

tu agrorum; currus dedos de cumprido e dous e meio de largo pouco mais ou menos; e 
^^ ' *' com estcLs pedras se acha milhor o que querem, que com ouro em 

muytas partes, e valem mais ou menos conforme a maior ou me- 
nor distancia da parte onde se cortam (que so em huma terra se 
tiram, ainda que em outras ha sal miudo). Aqui na corte, onde vem 
de i6 ou i8 dias de caminho, 32 valem hum cru^ado, e alg^mas 
v^ces mais, *outras menos, e estas Ihes servem de moeda, que ca f. 9i,v. 
nam se bate nenhuma. O ouro dam por peso feito em pedacinhos 
e a ordinario peso chamam Oquea, que sam 8 venecianos de peso 
justamente, e meia Oquea, e daqui vam deminuindo ate peso muyto 
piqueno. Pera o algodam tambem tem seu peso, e os pannos que 
facem delle, e as sedas e roupa que Ihes vem de fora medem por 
covados ; o mantimento, mel e mantega com certas medidas. Os 
campos nam os lavram de nenhuma maneira senam com bois e 
poemlhes o jugo no pesco^o da mesma maneira que em Espanha 
o poem a as mulas, e assi cansam muyto e lavram pouco. Carros 



LIVRO I, CAPITULO XXI. 215 

nam usam, nem a terra he pera elles, por aver muytas serras aspe- 
ras, e as planicies no verao comummente estarem cheas de fendas 
e aberturas muyto grandes. 

As armas de que usam sam arcos e frechas comummente ervo- 13. Quibus armis 

4 4 r • 1 « -1 » t utantur et quibus in- 

ladas [stcjj espadas e lan^as cumpndas e outras mais curtas, que ar- Btrumcntis musicis. 

remecjam, e humas macinhas de pao muyto duro, com que tiram de 

longe. Agora tem muytas espingardas, que antiguamente nam avia, 

mas arrebentam muytas veces, por nam saberem temperar bem o 

ferro. Nam sabem fundir artilharia, nem ainda aproveitarse de oito 

cameletes que primeiro tomaram aos Turcos. Tem tambem armas de- 

fensivas, como capacetes e sayas de malha, adargas brancas e pre- 

tas de coiro de bufaras muyto fortes. Os atabales sam de cobre e 

alguns de pao cubertos com coiro de vaca e outros como atambo- 

res. Tem trombetas, cheremellas (ainda que nam tam boas como 

as nossas), violas e outros instrumentos a modo de harpzis, com que 

facem arragoada musica. 

O modo que tem em seus casamentos e as ceremonias de que 14. Dc iure hacre- 

.. ^ . , . . ditatis in singulis fa- 

usam nelles tocamos acima no cap. 15 e declararemos mais cum- ^iiiac membris. De 
pridamente no 2 livro ; so diremos aqui brevemente o costume que catpensis pro funere. 
tem em suas heran^as, quando morre o marido ou a molher. Se, 
quando hum homem casa, for com condi^am que, morrendo elle, a 
molher leve o 3® do fato ou menos, com isso sae, e certa cousa 
mais que Ihe julgam conforme ao fato que ouver, porque rapa a 
cabe<;a, e o pay ou a may do morto herda tudo o demais, nam tendo 
filhos o defunto: e se nam ficeram concerto, os pays do defunto 
levam tudo, excepto o que Ihe julgam por rapar a cabega, e aquilo 
com que ella entrou. Mas se o marido nam tinha ja pay nem may, 
ainda que tenha irmaos, ella leva tudo. Quando ficaram filhos, a may 
toma dous quinhoes do fato e o filho primogenito outros dous e 
cada hum dos outros filhos hum quinham ; como se morrendo hum 
homem deixase tres filhos e 600 cru^ados de fato, entam a molher 
leva 200 e o filho primogenito outro taiito e cada hum dos outros 
dous filhos leva cento. 
.92. *Antes que se fa^am as partilhas, se toma do monte mor nam 

somente o que se gastou o dia do enterramento em esmolas, que 
as facem conforme a sua posse, senam o que se ha de dar depois ; 
porque aos sete e a os dez dias dam algfuma cousa ao prior do mo- 
steiro ou igreja onde se enterra, e aos frades, que senalam pera que 
por 30 dias recem os psalmos de David e outras ora^oes, e no ul- 



2l6 HISTORTA DE ETHIOPIA 

timo matam vacas, se era homem rico, e Ihes dam de comer a el- 
les e a quantos pobres se juntam; e aos 40 dias levam muytas 
candeas e encenso a igreja, e matam muytas mais vacas e dam 
grandes esmolsts. Tambem dam aos 80 dias e quando se cumpre o 
anno; mas nam tanto, e a isto chamam Tascar, que quer dicer « lem- 
branga » , e com se lembrarem tanto dos defuntos, com tudo isso 
muytos negam o Purgatorio, como diremos no livro 2. 
15. De luctu in O doo, de que usam por pay ou may, marido ou molher, he 

morte parentum, , ^ • -1 •• it • -i 

mariti vcl uxoris. raparem as cabe^as ate os criados da casa, e a molher e cnadas 
Exempla recentia ab amarrarem polla fronte huma tira cumprida de panno branco muyto 

Auctore oculis usur- 

pata. fino de algodam, que Ihes vem da India, de pouco mais de dous 

dedos de largo e amas as pontas Ihes cacm sobre as costas. 

O vestido he preto, e tracemo hum anno. Os parentes vestem 
acjul, ainda que alguns, que querem mostrar mais sentimento, tam- 
bem vestem por alguns dias preto e rapam as cabe^as; mais nam 
he obriga^am, e ordinariamente facem grandes estremos botandose 
na cham de golpe e dam taes quedas, que eu conhe^o hum que 
esteve pera morrer e outro que ficou aleijado pera toda sua vida. 
As molheres arrancam os cavellos e arranham o rosto ate Ihe cor- 
rer o sangue, e ainda alguns dos do reyno de Gojam, que chamam 
Gafates, se ferem na cabe^a e nos bra^os com facas. Choram com 
grandes boces de hum pouco antes de amanhecer ate as 8 ou nove 
horas, isto por muytos dias, e o mais do tempo estam em pe ba- 
tendo com as maos e algumas veces dando nos peitos; e tomam 
alguma cousa do vestido ou das armas do defunto e a mostram di- 
cendo tantas cousas, que nam podem deixar de chorar os que as 
ouvem. Huma vez fui a hum destes choros, por ter muyta obriga- 
^am ao defunto, que era grande defensor de nossa santa fe e cha- 
mavase Abeitahum Bela Christos, primo do Emperador, pollo que 
elle mandou armar no terreiro do pacjo sua tenda imperial, que he 
muyto grande, e aUl se juntaram todos os senhores e senhoras da 
corte e trouxeram as armas e cavallo ^enjaegado do defunto cuberto f. 92,v. 
com hum panno de doo e o puseram de fronte da tenda, e alguns 
de seus vestidos dentro, e logo veio o Emperador cuberto de doo 
e asentouse no cham sobre alcatifas, tendo aroda cortinas pretas ; 
e na entrada do Emperador comegou a molher do defunto a facer 
grande pranto e todos choraram por muyto espacjo, mas asentados. 
Depois se alevantou huma molher ja de dias e, tomando na mao 
izqueida huma gorra do defunto, a alevantou em alto dicendo com 



LIVRO I, CAPITULO XXI. 217 

muytas lagrimas: Onde esta agora aquelle principe que tracia em 
sua cabe^a esta gorra? Que foi daquelle grande e valeroso capitam, a 
quem na guerra ninguem passava diante e nas letras nam tinha igoal ? 
E desta maneira foi dicendo tantas cousas que, por mais duro que 
fora o coragam, o ficera enternecer. E assi todos ate o Emperador 
derramavao muytas lagrimas; o que durou ate perto de meio dia. 
Pouco tempo depois, me achei a morte de hum principe filho de- 
ste Emperador, que era ja de 20 annos, e estive a sua cabeceira aju- 
dandolhe o milhor que pude naquella hora e muyto tempo antes, por 
o Emperador mo ter encomendado, e como espirou, que ja era alta 
noite, armaram a tenda e no meio della puseram o corpo em hum 
lugar alto com tochas aroda, e pouco de pois de meia noite veio 
o Emperador cuberto de doo com todos os grandes e ficeram extra- 
ordinario pranto ate que amanheceo, que o levaram a enterrar a 
hum mosteiro, que esta em huma ilha da alagoa de Dambia, onde 
agora se enterram os Emperadores. Hiam todos cubertos de doo e 
levavam diante as vandeiras e atabales do Emperador, tangendo a 
saom [sic] de triste^a e por muytos dias choraram na corte e sempre 
mostravam alguma cousa do defunto, como fez aquella molher; mas o 
Emperador nam saio em pubrico senam aquella noite, posto que em 
sua camara chorava sempre muyto, porque Ihe tinha grande amor, 
e assi decia, estando hum seu muyto privado e eu sos com elle: 
Quem me dera, meu filho, morrer eu antes que vos[?]; e outras cou- 
sas, em que mostrava bem a dor e triste^a grande de seu cora^am. 
Concluiremos esta materia, deixando outros muytos costumes, 
com hum que tem alguns christaos, e he que, como acaba de morrer o 
homem ou molher daquella casta, antes que se esfrte o corpo, Ihe 
quebram os ossos dos bra^os e das pernas e o faccm como huma 
bola e assi o amortalham e enterram e se riem muyto e ^ombam 
dos outros, dicendo que enterram os defuntos assi como ficam quando 
morrem ao cumprido ccmo se fosse hum pao. 
f. 93. *Do que temos dito se vee como frey Luis de Urreta nam teve x6. Kx dictis con- 

. - , - , . j . j f utantur novae fabu- 

certa mformagam de algumas destas cousas, pois diz no cap. 23 de lae Urrctaeclrcama- 
seu primeiro livro, onde as trata, que em cada cidadc tem o Em- ^"*™ praesentcm. 
perador muytas terras pera trigo e graos que se cultivani e semeam 
a sua custa, e tudo o que se recolhe manda repartir a pobres, a 
mosteiros e igrejas, sem ficar pera elle cousa alguma. Isto nam corre 
desta maneira, porque o mantimento que se reparte aos pobres, que 
ordinariamente ham de ser viuvas e orfaos parentes dos Empera- 

C. Bbccari. Jier, AeiA, Scri^i, occ, tned, — 11. 28 



2l8 HISTORIA DE ErHIOPIA 

dores, e alguma vez pode ser que se de a mosteiros e igrejas (que 
sera raramente, porque elles tem suas terrais), nam he senam da renda 
que os villoes pagam ao Emperador, que chamam Colo scilicet tor- 
rado, como a cima dissemos, e nem a decima parte desta renda se 
reparte, e tudo o demais gasta o Emperador com os embaixadores 
que vem de fora, que dalli Ihes manda dar peni elles e sua gente 
e cavalgaduras, com alguns soldados que nam tem terras bastantes, 
e no demais que elle quer. Tambem a cor amarela nam he infame 
(como elle diz), porque ainda que os senhores comumraente fol- 
guem mais com outras cores, algumas veces vestem dista e muytos 
frades e freyras tambem vestem amarello. 

Diz mais que os inferiores por cortesia tiram o barrete aos su- 
periores, como sam o Emperador e homens grandes, e como em 
Espanha dicem : « Merced » , ca dicem : « Quisquis » ; mas nem tira 
ninguem o barrete a outro, por mais grande que seja, nem em quantos 
modos tem de falar ha tal palavra Quisquis. Nem ainda comem em 
mesas altas, como elle diz, nem, como affirma, se enganaram os que 
dicem que comem ca carne crua ; porque com ella folgam muyto e 
assi aos,senhores Ihes matam a vaca pouco antes que ajam de comer, 
e nam a ham bem acabado de esfolar quando ja Ihes levam a carne 
a mesa, que, se esfria, nam folgam * tanto. Nem he isto encareci- 
mento, nem cousa de ouvidas, senam que eu tenho visto muytas veces. 

Tambem diz que primeiro nam sabiam que cousa era vidro, 
mas que depois que o duque de Florencia dom Francisco entre ou- 
tros officiaes Ihes mandou vidreros, ja o usam e se servem delie; 
e que tem officiaes que concertam a laa e texem muyto bons cor- 
dillates, anascotes e as demais cousas que se costumam facer da 
laa. Porem ca nam ha taes vidreros, nem outro vidro senam o que 
Ihes vem do Cairo e da vanda de Arabia, que he muyto pouco, 
nem sabiam de que se facia; e assi alguns grandes me pregunta- 
ram diante do Emperador que cousa era. Nem sabem facer os pan- 
nos de laa que diz, senam aquelles que no capitulo precedente dis- 
semos que vestem algumas molheres pobres, que mais se podem 
chamar silicios que pannos. 

Tambem diz que os filhos varoes *primogenitos de todas as f- 93»^' 
familias sucedem em todo o fato de seus paes com cargo de ali- 
mentar seus irmSos menores a jui<;:o do vigairo de sua parroquia 
e de dous parentes. Mas nam corre desta maneira, porque todos le- 
vam suas por^oes na forma quc acima dissemos. 



CAPITULO XXII. 

Em que se declara se em Ethiopia ha seminarios e col 
legios pera insinar mininos e mininas e universida- 
des onde se leam as ciencias. 



Muyto grandes e bem ordenados collegios e seminarios pera i. Refenmtur alia 

. • * 1 1 t t inventa Urretae circa 

o msmo dos menmos e menmas e universidades, onde se leem as seminaria pro adole- 
ciencias, em Ethiopia pinta frey Luis de Urreta no cap. 24 de seu «««ati^iw «* puellie. 
1° livro, e poe aos Ethiopes entre as na^oes que mais se esmera- 
ram na cria^am da juventud, por estas palavras: 

< Entre todas las naciones, que mas se sefialaron en la crian^a 
« y educacion de los ninos, fueron los Ethiopes; pues no solo en 
« tiempo de la gentilidad y de la primitiva iglesia tenian coUegios 
« y seminarios para la ensenan^a de la juventud, pero aun oy en 
« dia com mayor rigor que nunca se guarda esta costumbre, y assi 
< en todas las ciudades del imperio ay fundados seminarios y col- 
« legios, cada uno de tres quartos diferentes : uno para los nobles, 
« otro para los ciudadanos y otro para los plebeyos; el uno de- 
« stos seminarios es para le ensenan^a de los ninos y el otro para 
« la ensenan^a de las ninas. Este tiene su sitio dentro de la ciudad, 
« y aquel de los nifios fuera della medio quarto de legua. A este 
« llaman el lugar de las virgines y aquel de la Sabiduria. En este 
« viven todas las hijas de vecinos desde diez aiios hasta veynte; y 



2 20 HISTORIA DE ETHIOPIA 

« en aquel todos los hijos desde ocho hasta diez y seis. Desta sa- 
« len las doncellas, unas para monjas y otras para casadas, y otras 
« para servir en las casas ; y de aquel los mancebos, unos para to- 
« mar estado, y otros para servir al Emperador o Rey en la corte 
« o en la guerra, conforme a la qualidad y obligacion de cada uno ; 
« y al fin en ambos se ensena la dotrina christiana y lo demas que 
« han menester, como es a los varones letras y las demas artes a 
« que se inclinan y requiere su calidad, y a las mugeres sus labo- 
« res y otros exercicios, segun el uso de la tierra. Para esto los unos 
« y los otros tienen sus ayos y maestros, aunque son diferentes los 
« maestros de los nobles de los que enseiian a los ciudadanos; y todos 
« estos viven apartados de los maestros de los plebeyos, de manera 
« que cadaqual se govierna por los de su calidad, sin que los unos 
« se entremetan con *los otros, salvo que de los nobles ay cuatro f. 94. 
« cavalleros y cuatro matronas superintendentes ; ellos del seminario 
« de la Sabiduria y ellas del otro de las Virgines, que tienen abso- 
« luto poder sobre los ciudadanos y plebeyos. 
a. Itcm circa Uni- « Los medicos son muy estimados en toda la Ethiopia, y la 

« gente que go^a de mzis previlegios en todo el imperio, porque, 
« estando obligados todos a dar de tres hijos uno para la guerra, 
« la qual obligacion tambien tienen los Reyes, solo los medicos 
« estan exemptos dcsta obligacion tan rigiirosa. Tambicn pueden 
« passar por la ciudad cavalleros en elephantes, la qual cavalleria 
« solo la pueden hacer los Emperadores, perlados y sacerdotes vir- 
« genes. Pueden poner becas al cuello, que es habito proprio de los 
« Corregidores. Son libres de todos los pechos, tributos, imposicio- 
« nes del imperio. Finalmente es la gente mas franca y libre, y la 
« mas estimada de todos. La ra^on es. porque no se estudia otra 
« ciencia em publico sino la medecina, para cuya ensefian^a ay 
« siete universidades generales en la Ethiopia. EI ser estudiante 
« no va a la voluntad de cada uno, sino que va por eleccion, por- 
« que de cada ciudad y villa los regidores seiialan tres mancebos 
« los de mejor entendimiento y habilidad que se inclinem a letras, 
« y han de ser de los nobles y solos estos van a las universida- 
« des y cursan muchos aiios, porque aprenden no solo medicina sino 
« la cirurgia y boticaria, y cada uno es medico, boticario e ciru- 
« giano ; y como son tan estimados y tan honrrados y los estudiantes 
« van por eleccion, estudian deveras, porque si no tambien les qui- 
« tan el estudio y embian otros en su lugar. Son sustentados a co- 



LIVRO I, CAPITULO XXII. 221 

€ sta de las ciudades que los embian : salen desta suerte famosissimos 
« medicos y en particular grandes herbolarios, por las muchas yer- 
« bas muy medicinales que ay. 

« Los estudiantes, despues que han acabado sus cursos para do- 
« torarse (que Uaman ellos hacerse philosophos), los examinan los 
« doctores, que estan seiialado en las universidades, y aprovandolos, 
« les dan la carta del examen, y con ella van al convento de AUe- 
« luya y de Plurimanos de la orden de santo Domingo, donde acom- 
« paiiados de parientes en las iglesias de los monesterios salen los 
f- 94,v. « frayles y el prior le viste una cugulla negra con sus *mangas 
« como de frayle Benito ; y luego le hace jurar obediencia a la 
« iglesia romana y al concilio de Florencia en tiempo de Euge- 
« nio 4°. Hecho el juramento, le pone al cuello una como estola de 
« tela de oro con sola una caida, como escapulario, que cae de- 
<K lante por los pechos con las arm^s del Emperador en ella; y con 
« esto queda doctorado. 

« La santa theologia non se lee en las universidades, sino en los 
« monesterios de religiosos Dominicos y de s. Anton, y en las igle- 
« sias de los clerigos solo la estudian los ecclesiasticos. El modo 
« de leer es en su lengua natural y ethiopica, y el texto, que co- 
« mentan, como entre nosotros s. Thomas o el Maestro de las sen- 
« tencias, son los 4 concilios generales, que los doctores suelon 
« llamar otros cuatro evangelios, quo son el concilio Niceno, y el 
« concilio Constantinopolitano, y el concilio Ephesino primero, y el 
« concilio Chalcedonense ; y assi como entre nos otros decimos: Tal 
« doctor lee la i* parte de s. Thomas, o la 2* question tal, o el pri- 
« mero o 2^ de las sentencias distinc. tantas, assi ellos dicen : Tal 
« maestro lee el concilio Niceno o Ephesino, canon. tantos. Las par- 
« tes de s. Thomas, traducidas de latin en su lengua con cl libro 
« de Contra Gcntrs, tienen los padres Dominicos y las estudian, 
« aunque su estilo ordinario de leer es por los Concilios. Leen la 
« Sagrada Escriptura, la qual esta en lengua caldea, la qual apren- 
« den, como aca el latin, los que son de iglesia y en la Escriptura 
« hacen mas fundamento ». 

Ate aqui sam palavras do Author, mas casi em todas estas 3- Confutantur 

^ . . /. 1 . . praedicta. Quomodo 

cousas teve tam ruim mforma^am como em as demais, que ate agora \^ ^ quibus docean- 
vimos ; porque primeiramente nam ha, nem cuve nunca em as ter- ***' reapse pueri. 
ras de Ethiopia, que senhorea o Preste Joam, taes seminarios de me- 
ninos e meninas, que, posto quo muytos fa^am insinar seus filhos e 



222 HISTORIA DE ETHIOPIA 

filhas a ler e alguns tambem a escrevcr, nam he naquella forma; 
mas cada hum como quer da seu filho a algum frade que o insine 
e Ihe paga muyto bem ; e o frade ordinariamente junta seis ou 8, 
e os tem em sua casa; que os frades nam moram em mosteiros fe- 
chados como os de nossas terras, senSo cada hum em su casa 
perto da igreja comummente e alguns tambem longe, posto que 
antiguamente muytos moravam dentro de huma cerca em casinhas 
afastada huma de outra, e ainda agora ha algum rasto disto. AUi 
estam os meninos sempre com o frade, e seus pays Ihes dam tudo 
o necessario, e elle Ihes insina ler e algumas veces escrever, e 
Ihes faz aprender de coro os psalmos de David, e pera isto se ale- 
vantan antes de amanhecer; e quando Ihe parece da licen^a pera 
que vam a folgar *a casa de seus pays, e como acavam de apren- f. 95 
der de coro os psalmos e sabem bem ler e se aviam tambera de 
escrever, pagam o que concertaram e vam pera suas casas ; e se a al- 
gum ha de declarar sam Paulo ou outro livro, se ham de conceitar 
de novo com difFerente paga. 
4. Viri nobilcs Os filhos dos senhores grandes muytas veces nam estam desta 

alunt domi suae mo- . 1 r -i i r 1 

nachum, qui eorum maneira em casa dos frades pera aprender; porque ao frade, que o 
fiUos doceat. Sed ta- senhor escolhe por mestre pera seu filho, o leva a sua casa e alli 

les magistn inhiant \ 

potius pecuniae et come e esta casi de ordinario, pera milhor poder insinar ao menino: 

honoribus quam di- , j ^i, • j u 

scipulorum profe- ^ ^ mesmo modo guardam com as nlhas, que os mais dos senho- 
c*u>- res as facem aprender nam somente ler, mas que entendam sam 

Paulo e o evangelho, porque toda a Escriptura esta em muyto di- 
ferente lingua da comua, e assi, ainda que a saibam ler, nam a en- 
tendem, se nam Iha declaram, como entre nos o latim; e por isto 
tem frades em suas casas que as insinem ; que de clerigos nam facem 
muyto caso. E ordinariamente os frades que insinam estes meninos 
e meninas, se nam morrem, os acompanham depois de casados e Ihes 
bencem agoa e tambem a mesa como capellaes e, com ser a benijam 
muyto cumprida, estam todos em pe ate que se acava, e quando fa- 
cem Vissorrey a algum destes senhores ou Ihe dam outro mando, 
o frade seu mestre vai com elle pera achar fato, e o da molher 
com ella, e comem e bebem juntos. E he certo que, se insinaram 
como era re<;tam, ouveram de facer muyto fruito; mas nam preten- 
dem tanto o bem das almas quanto honrra e fato, e assi nam di- 
cem o que pode dar desgosto aos senhores : sempre Ihes falam a 
vontade e como Ihes parece milhor pera suas preten^oes; e di- 
cendolhes nos a alguns em particular, porque nam declaram a ver- 



h 



)> 



LIVRO I, CAPITULO XXIL 223 

dade da fe e o mais que tem obrigaQam, respondem que nam se 
atrevem, porque perderam o comer e Ihes faram mal. Nem deixam 
alguns dos senhores de entender muyto bem que nam pretendem 
mais que honrra e fato; e assi hum dos mais principaes de todo o 
imperio, que se chama Eraz Athanatheus, jenrro do emperador Ma- 
lac ^agued, me disse huma vez estas palavras: Padre, nam temos 
mestres. Estes nossos frades sam como phariseos: nam procuram 
mais que honrras e fato, nem sabem nada, e se entendem alguma 
cousa, nam se atrevem a dicer. Vee V. R. o que la esta? (que era 
hum fradc que estava de fronte afastado muyto modesto) Pois 
aquelle he meu mestre e tam phariseo como todos os demais. 

Em este passo mete frey Luis de Urreta muytas cousas das 5. Quae de mere- 
molheres pubricas, mas todas sam fabulas, sem nenhum modo de retulitUrretolgnota 
f. 95,v. fundamento. Aponto isto, porque, se o passarmos em *silencio, pode prorsusAethiopibus. 
ser que algum as tenha por verdadeiras e, ainda que o foram, pudera 
bem escusar de tratar essa materia; e nam menos apocrifo he o que 
alli diz que as que se convertem mandam a Goa ao mosteiro das Con- 
vertidas e que aos filhos dellas e qualquer outro bastardo ou illegitimo 
mandam a Goa, ou a Ormuz, a Ceylam, ou Mo^ambique, onde os 
alimentam a custa dos sacerdotes ; porque em Ethiopia nam podem 
estar. Mas nem a ellas nem a elles mandam pera nenhuma de essas 
partes, nem sei que re^am podia aver pera obrigar aos sacerdotes 
da India que sustentasem os bastardos e illigitimos de Ethiopia, 
que nem ainda os sacerdotes della Ihes dam nada com aver muytos 
na terra, se nam for aos seus. 

Quanto a as sete universidades, que poe, onde se lee a me- 6. Confutatur Ur- 
dicina c se estuda com tanta curiosidade, como pinta, tambem he tates.^Quid praest^t 
mera fic^am; que nam ha taes universidades, nem as ouve nunca niedici in Aethiopia. 

Medentur omnibus 

em Ethiopia, nem taes examens, nem dotoramentos de estudantes; infirmitatibus ieiu- 
e quando os ouvera, bcm longe estava o prior do convento de Al- utuntur*Coc6^contra 
lcluya e o de Plurimanos (que nam se chama senam Debra Li- tumores carbunculi 

v^ . - succo arboris CorpA 

banos) de darlhcs juramento que obedecesem a Igreja Romana, pois vel GuindA dictae. 

elles mesmos nam obedecem. Nem se Ihes facia previlegio a estes 

doctores em os esentar de dar de tres filhos hum pera a guerra, 

porque ninguem o da, nem ouve nunca tal costume; que quando 

he necessario e o Emperador chama, todos ham de ir por for^a, 

sem ficar mais que os villoes que lavram o campo. Nem tambem 

podiam passear poUa cidadc em elephantes; pois, como muytas ve- 

ces temos dito, nunca em Ethiopia se vio elephante manso. Os me- 



2 24 HISTORIA DE ETHIOPIA 

dicos que ha em Ethiopia sam algims que conhecem hervas e com 
elles curam e ainda destas sabem muyto pouco ; e o mais ordinario 
he, quando adoecem, nam facer micinha nenhuma, senam muyto 
grande dieta, ate que ou naturec^a prevalece ou morre. Huma mi- 
cinha, que tomam poUo menos cada dous meses, a que chamam C096, 
de que no capitulo precedente falamos, parece que os preserva de 
muytas doencjas, porque, juntamente com matar os bichos, que de 
comer carne crua Ihes nacem no estomago, pera o que elles a to- 
mam, Ihes serve de purga bem eficaz ; mas se tomam demasiada, 
tambem morrem, 

Ha outra arvore, de cuja casca da raiz e do leite de suas fo- 
Ihas se aproveitam muyto, e he singular remedio pera resolver hin- 
cha^os antes que comecem a facer materia, e o entraz ou carbun- 
culo, que he tam perigoso, infalivelmente o sara, se o poem logo. 
Chamase esta arvore Corpa e alguns a chamam *Guinda. Tem as f. 9'^- 
folhas largas e nam muyto cumpridas e ainda que sam verdes por 
cima tem cor de cin^a ; seu fruto sera como hum mermelo arra^oado 
e assi fica depois amarelo, mas dentro he vao e nam tem mais que 
huma pele muyto delgada, e nam nace senam em terras muyto 
quentes; e, se bem me lembra, a vi na ilha de Goa pera a vanda 
de santa Anna. Das folhas de esta arvore (que ordinariamente nam 
he muyto grande) tomam o leite em farinha de trigo ou de cevada, 
mas os que querem facer milhor toniam a casca da raiz e depois 
de seca a moem, e em esta farinha tomam o leite e o levam pera 
onde querem, porque se conserva muytos tempos ; mas a casca da 
raiz basta, ainda que o leite he milhor e poese desta maneira : moem 
muyto bem aquella ccisca depois de seca e misturam os pos com 
mantega de v:ica fresca e untam o hinchago duas veces cada dia, 
e nam doe nem se sente, mas ao entraz ou carbunculo ham de un- 
tar aroda e nam na ponta ou cabecinha que iaz, e ham de beber 
desfeita em agoa daquella casca como dous graos de trigo, ou pouco 
mais; o leite raramente bebem, porque he muyto forte. Tambem 
aos cavallos, mulas e bois poem em os hincha^os, mas caelhes 
o cavello a que toca e depois torna a nacer ; o que nam faz aos 
homens. 
7. De duabus mc- Ja que falei em micinhas, nam deixarei de referir o que tam- 

Turcas^usurpari cum bem vi estando cativo em o estreito de Meca. Andavam dous meus 
successu Auctor concautivos muyto doentes com o rosto hinchado e amarello, sem 

ezpertus est. 

poderem comer nada, e disseramlhes que tomasem por la minha 



LIVRO I, CAPITULO XXII. 225 

em jejum em hura ovo malasado como meia casca de noz de pos 
de raiz de lirio, nam cebola a^ucem, senam dos outros que tem a 
flor a^ul, e com isto ficaram rosados e muyto bem despostos; so 
deciam que sentiam hum pouco de enxomento ate facer huma ou 
duas camaras. Tambem me aflirmaram que era cousa muyto certa 

^ e provada que, tomando por 15 dias em jejum tanto como meia ca- 

sca de ovo do ^umo desta raiz de lirio com hum pouco de bina- 

gre destemperado e espiga de nardo moida, saram os hidropicos. 

Frey Luis de Urreta pag. 237 diz que ha em Ethiopia huma 

folha como edra, que posta pisada sobre as feridas as sara dentro 

I de poucas horas, mas nam pude achar quem soubese dar re^am 

della, n6m da nova momia mais excellente que a nossa, que af- 
firma inventaram os medicos de Ethiopia. 
f. 96,v. A cerca do modo que diz tem em ler a s.'* theologia, *comen- 8. Quomodo cie- 

_ _ rici studeant Conci- 

tando os cuatro Concilios Geraes, tambem o enganaram, porque m^ ^i s. scripturac. 
nem leem de essa maneira, nem admitem o concilio Calcedonense, 
antes o bituperam, porque declarou por de fe a doctrina de s. Liam 
sobre as duas nature^as, donde se siguem tambem duas vontades e 
opera^oes em Christo N. S., que elles negam, e condenou a Dio- 
I scoro, que veneram por santo; e assi em hum livro, que elles cha- 

^ mam Mazaguebta Haimanot, scilicet « thesouro da fe », quc milhor 

se pudera chamar « thesouro de mentiras », e em outro, [que] inti- 

tulam Haimanota A.bb6 scilicet « fe dos Padres » dicem que os pa- 

dres daquelle santo concilio eram parvos e sobervos e sam Liam 

j maldito e tredo, como vimos no cap. 1 1 e declararemos mais cum- 

pridamente no 2.° livro. 

O que declaram dos Concilios que tem nam he ordinariamente 9- !>« quodam mo- 

- . , . nacho eximio sacrae 

mais que a Iingoa em que estam a quem nam a sabe, porque he Scripturae interprete 
diferente da vulear. Da Sacfrada Escriptura tem aleuns interpretes JP^id Acthiopcs : re- 

o o r o r feruntur quaedam 

muyto fracos e cheos de erros, e ainda estes alcan^am poucos, e o ipsius interprctatio- 

r- 1 V ^ j 1 nesrisudignae. Quid 

irade, que chega a entender alguma cousa, nam a msma senam a ^^ talibus magistris 

sos aquelles que Ihe pagam muyto bem, e assi sc fecha com elles senscrit Selt&n Sa- 

gAd. 
em alguma casa pera declarar o que Ihes leo, sem deixar entrar a 

outro nenhum. E por derradeiro, muyto do que insinam sam fabulas 

e patranhas, como facia hum frade, que se pre^ava de grande escri- 

turario e, por ter tal fama, o tomou por mestre este emperador Sel- 

I tan (^agued, e dalli a pouco Ihe morreo. E depois, estando eu falando 

P com elle sobre algumas cousas da Escriptura, me disse que aquelle 

! frade, que Ihe insinava, chegando a declarar aquelle lugar do Ge- 



C. BsccARi. /ier. Ae/A, Script, occ, ined, -II. 29 



2 26 HISTORIA DE ETHIOPIA 

nesis 6, que diz: « Vidcntes filii Dei filias hominum quod essent pul- 
chrae etc. » , Ihe dissera que os que aqui chama a Escriptura filhos 
de Deos eram anjos, e que, vendo que as molheres eram fermosas, 
se ajuntaram com ellas e pariram filhos gigantes de tam grande e 
extraordinaria estatura que metiam o bra^o ate chegar ao fundo do 
mar Oceano, e alevantandose, asavam o peixe, que de la tiravam, na 
regiam do fogo e, como acabaram de asolar quanto peixe avia no 
mar, entraram pollos animaes e, estes acabados, comegaram a comer 
os homens, que nam eram de sua casta; e vendo Deos tam grande 
desaforamento, mandou as agoas do diluvio, com que os castigou. 
A isto respondi que tudo era fabula, porque os que aqui chama 
a Escriptura filhos de Deos, nam eram anjos, senam filhos de Seth, 
a quem quis com este honrroso nome differenciar dos da gera^am 
reprovada de Cain, cujos descendentes *eram tam maos que se en- f. 97. 
tregavam de todo ponto na mao de seus appetites. As filhas de- 
stes miseraveis eram muyto fermosas, o que vendo os filhos de 
Seth, levados de sua grande vellec^a e fermosura, quebrantaram a 
tradi^am e costume que tinham de nam admitir a sua conversa^am 
e trato gente de tam perverso tronco e, casandose com ellas, toma- 
ram juntamente os perversos costumes que traciam comsigo; com 
o que se veio a perverter geralmente a religiam e culto divino e 
chegaram as maldades dos homens ao cume da dissolu^am que po- 
dia caber em criaduras da terra, tanto que nem a divina Escrip- 
tura quis particulari(;:ar tam nefandos delictos, senam que se con- 
tentou com dicer, que em todos seus peccados mudavam o estillo e 
ordem naturcJ que a re^am insina. « Omnis quipe caro corruperat 
viam suam super terram » Gen, 6. Esta, senhor, foi a causa porque 
Deos nosso senhor mandou as agoas do dikivio, nam ja porque os 
gigantes comesem os peixes do mar e os animaes da terra. Disse 
o Emperador: Assi tambem me parecia a mi muyto fora de ca- 
minho tal explicagam, como tambem me pareceo outra que me deo, 
preguntandolhe como se multiplicaram tanto os filhos de Isrrael no 
tempo que estiveram em Egypto, porque respondeo que, a primeira 
vez que pariam as molheres, vinha cada huma com dous, e a se- 
gunda vez com 4, a 3" com 8 e a 4^ com 16, e assi hiam sempre 
dobrando. Disse eu : Certo que Ihes obrigava a as cuitadas a acar- 
retar por alguns meses huma carga muyto grande, e mais, de pois 
que parisem, que leite e que peitos aviam de bastar pera dar a 
mamar tam grande multidam de filhos como por tempo aviam de 




LIVRO I, CAPITULO XXII. 227 

vir a parir juntos. Rio muyto o Emperador e disse : Aqui vera 
V. R. quaes sam nossos mestres ; que ainda este era dos mais afa- 
mados que temos. 

Como seus interprctes da Escriptura c seus mestres sam tam 10. Quid Auctor 
fracos e isso pouco que sabem o vendem tam caro, se maravilham ^^^ca versionem in 
e hedificam muyto de ver que insinamos tudo de gra^a c muyto aethiopicamlinguam 

ahquorum 8. Scrip- 

mais de quam bem declaram os nossos as Escripturas, porque Ihes tujac interpretum et 
dimos tresladada na lingoa de seus livros a Epistola ad Romanos, ^^° ructu. 
como a declarou o padre Toledo e a Epistola ad Hebraeos por o 
padre Ribadeneira, o Apocalipsis por o padre Bras Viegas, o Evan- 
gelho de sam Matteus e de sam Joam por o padre Maldonado, e 
agora himos tresladando o de sam Lucas e o que falta de sam 
Paulo por o padre Benedicto Justiniano, e o principio do Genesis por 
o padre Benedicto Pereira ; tambem hum tratado sobre todos os 
erros de Ethiopia, em que se mostra a verdade de nossa santa fe 
com a doctrina de muytos Santos, com a Sagrada Escriptura e san- 
f. 97»v. tos concilios, com re^oes e com authoridades de seus *mesmos li- 
vros, e se responde a todas suas obiecgoes e argumentos, e tudo 
quanto ate agora se Ihes deo escrito esta tam bem recebido, polla 
misericordia do Senhor, que casi todos louvam e engrandecem tanto 
esta doctrina, que dicem que nam pode ser senam que o Sp.*° S.*° 
Iha dictou a aquelles padres, porque nam parece que entendimento 
humano podia chegar a alcan^ar cousa tam alta. Com o que em 
estremo folga o Emperador e Eraz Cela Christos seu irmao, por 
ver que por todas vias se vam acreditando nossas cousas e pedem 
com muyta instancia que fa^amos vir os comentos do mais que 
falta da Sagrada Escriptura e limpemos seus livros, que estam cheos 
de erros. 



► 



Cv 



CAPITULO XXIII. 

£m que se trata dos animaes assi domesticos 
como bravos, que ha em Ethiopia. 



Muytas e varias terras de christaos, de gentios, de mouros e i- Nulla regio ex 

iis bene multis quas 

turcos tenho corndo e em algumas dellas estado muyto tempo, Auctor peragravit 

muytos bastos bosques e cumpridos desertos tenho passado, em que ^*^®* ^* genera et 
•^ -1 r r -1 species animalium 

avia muytos e varios animaes; mas em nenhuma parte vi nem ouvi quot Aethiopia. Squi 

dicer que ouvese tantos animaes, nem tam difFerentes sortes delles, fop^ ^t velocM. ' 

como dicem que ' ha em Ethiopia e eu em parte tenho visto ; por- 

que primeiramente ha de todas as castas de mansos que ha em 

Europa, como cavallos muyto bons no reyno de Tigre e outros mi- 

Ihores, que Ihes vem do reyno de Dequin, que he de mouros, a que 

chamam Balous, diante de Quaquen. Mas estes duram pouco em esta 

terra, porque se Ihes facem chagas em os pes, de que morrem. Os 

demais cavallos do imperio comummente sam piquenos, mas fortes 

e correm bem. As mulas sam muytas e andam bem, posto que or- 

dinariamente mais piquenas que as de Europa, e disseme o Empe- 

lador que em o reyno de Gojam. pariram duas e morreram logo 

com os filhos ; mas pessoas de credito me affirmaram que no reyno 

de Tigre pareo huma pouco tempo ha e que ate (0 ^. 

may e o filho. E nem a ellas nem aos cavallos ferram nunca, pollo 
que muytas veces manqueixam. 

(i) Hic in ms. Auctor reliquit spatium vacuum. 



230 HISTORIA DE ETHIOPIA 

a. Camell, aaim et Ha camellos, jumentos mansos e bravos do mato muytos, mas os 

taeet optJmae, ea- chatms e os que vam a guerra comummente nam carregam se nam 
prae et ovea paucae, eni bois. De vacas ha grande multidam e em alEmmas partes do 
aeceauiv«ldebonae. <=< i 

rcyno de Tigre, como na provincia de Amacen, de Bur e outras, pa- 

rem mais veccs que as de Europa, porquo (i) goi;am de duos inver- 
nos, em que acham grandes hervas, que sam muy tcmperados, por 
que quando he invcrno pera a vanda do Mar Roxo, que la co- 
mega na fim de otubro e dura ate fevereiro ou marpo, ca polla 
terra dentro he verSo, e quando ca he inverno, que comepa na *fim r. 98. 
de mayo e dura ate otubro, la he verao, e he cousa maravilhosa 
que humas serras sam sempre os limites do invenio e do verao, e 
assi pera aquella parte onde he inverno levam sempre as vacas, por- 
que acham muyta herva, que,ainda que chove muyto, nam fa2 frio. 
Tem alguns bois muyto grandes, que chamam Guech e criam 
os de piquenos com leite de duas vacas e nam lavram com elles; 
nam servem ordinariamente senam pera comerem os senhores. Os 
comos de estes sam tam cumpridos e grossos que se servem delles 
pera levarem o vinho de mel, quando vam a guerra ou facem al- 
gum caminho cumprido. Cabras e ovelhas nam sam muytas, nem 
de boa carne, mas em algumas partes sam bons os carneiros e al- 
guns tem quatro cornos grandes que quanto piquenos ainda hum 
boi vi eu com oncc, os dous como de cabra e os outros aroda de 
cumpridam e grossura de hum dedo meninho ou pouco mais, que 
o mostravam por cousa muy extraordinaria. Alguns carneiros tem 
o cabo como de hum palmo ou mais de cumprido e casi outro tanto 
de largo, Outrns que, com serem muyto altos, Ihes chegam os ca- 
bos casi ao cham e de hum palmo ou mais de largo e, como o peso 
hc grande, andam devagar: estcs comummentc sam brancos. 
3. Caoea multi et Ha muytos caes alguns bem fortes, mas os que servom pera 

lu^apt^iMlm^s»™' "^^^^ "^"^ chcgam aos galgos de Espanha ; os mais sam como 
etjamsylTeBtTea.Cati podencos. Tambem ha caes bravos do mato, e hum vi que tinham 
Pelea multl et pulcn. 

tomado piqueno, e casi nam se deferonciam dos mansos senam 

em o fucinho que he muyto mais cumprido e chamamo Tacula, 
e dicem que se acham em montes muyto bastos e que quando ca- 
(;am se poem huns escondidos em os lugares por onde ordinaria- 
mentr sae a cai^a e outros a buscam ate a facer alevantar e seguem 
procurando da levar pera onde estam os outros que satndo poucas 

(T) Hic in margine e»dem illa maniis, qiia sccundiis liuius ojieris lilicr exar.itus 
apparet, notal; « Variedade de Invcinos no Mnr Roxo e reino de TigrC- ". 



LIVRO I, CAPITULO XXIII. 23 1 

veces Ihes escapa e a gente tambem arremetem. Gatos tambem ha 
muytos e fermosos. 

Dos animaes sylvestres ha muytas mais diferencias que em 4- Animalia sylve- 
Europa. Alguns filhos de Portugueses me disseram que no reyno 8unt:rhinoceros,qul 
de Gojam em huma terra, que se chama Nanina, andando a caca, ▼oc**»*' Aurarft» ct 

habet non unum sed 
^ viram em hum valle hum fermoso cavallo com a coma muyto cum- duo comua. 

prida e o cabo que chegava ao cham, e muytos animaes como ca- 

bras monteses, gazelas e merus que o acompanhavam e nos vindo 

fugio com muyta velocidade e entrou em hum mato muyto fechado, 

e todos aquelles animaes o siguiram, e ainda que nam enxergaram 

se tinha corno na fronte ou nam, Ihes pareceo que nam podia ser 

senam unicornio. 

Ha outros animaes que, conforme ao que delles mc disseram, 

parece que sam rinocerotes ou abadas, porque affirmam que tem 

f. 98,v. o corpo tam grosso ou mais *que huma vaca, os olhos muyto pique- 

nos e a pelle tam dura que com dificultad a podia passar huma 

lan^a. So me faz duvida se sam abadas, porque tem dous cornos, 

hum sobre as narices e outro na testa, e a abada, que eu vi em 

Madrid o anno de 1587, nam me lembra se tinha mais que hum 

aserrado. Os de ca tem dous, e pouco tempo ha que Ihe trouxeram 

L huns ao emperador Seltan Qagued pegados ainda na pelle, que elle me 

mostrou e deo hum : o da testa era preto e na raiz grosso e pouco 

mais acima casi de tres dedos de largo e menos de hum de grosso 

e perto de tres palmos de cumprido, e a ponta nam era aguda : pa- 

recia peda^o de alfange com sua vainha preta, que da mesma ma- 

neira virava hum pouco em arco pera a vanda de cima da cabe^a. 

O outro da cima das narices nam era preto, senam da cor que sam 

ordinariamente os dos bois e redondo como clles, na raiz grosso e 

cuatro dedos mais acima come^ava a adelgagar mu)rto e na ponta 

era muyto agudo e hia em volta casi como o outro e da mesma 

cumpridam que elle, e amos maci^os e afastado hum de outro perto 

de meio palmo; mas parece que estaram muyto mais afastados, 

porque aquella pelle estava ja muyto seca e encolhida, e de huma 

ponta a outra avia mais de hum palmo de distanc^a. A este animal 

chamam Aurarez. 

' Ha outro animal a que chamam Jeratacachcn, que quer dicer s.Camelopardalis, 

Qui vocatur Ter&ta** 

« cabo delgado s, de diforme altura. Hum nic mostrou o Emperador, cachftn etequus Ze- 
mandandome chamar pera isso, quando o trouxeram, e com ser ainda *^" ^®^^* describun- 

tur ab Auctore. 

novo, do cham ate o alto da cabecja eram 1 9 palmos e deciam que 



li 



232 HISTORIA DE ETHIOPIA 

os velhos sam mais cumpridos. A cabe^a he muyto piquena e de 
fei^am de camello, mas na testa, ca^i no mais alto, tem duas pon- 
tas, huma perto de outra, delgadas e 4 dedos de cumprido e pa- 
rece que aquello he osso, porque esta cuberto de pelle com cabello. 
O pesco^o delgado, cumprido e dereito pera cima; o corpo de gros- 
sura de hum boi, mais cumprido; as maos muyto grossas e de- 
sproporcionademente altas, por ser em sua compara^am os pes 
muyto curtos; as unhas fendidas e como de vaca; a cor parda 
clara e todo o corpo cheo de rodas muyto vermelhas tam grandes 
como a palma da mao, que Ihe dam muyta gracja. Nam morde nem 
faz outro mal nenhum e nos matos corre mais que hum cavallo e, 
se o tomam sendo novo, fica muyto manso, mas nam sobem nelle, 
porque, como os pes sam curtos e as maos em seu respeito muyto 
cumpridas, facilmente derrubaria a quem fosse nelle. 
6. Onagri et »e- Jumentos do mato ha muytos e dicem que nam se difFeren- 

ciam dos caseiros, mais que em serem muyto vivos e ligeiros; mas 
ha outros, a que tambem chamam jumentos do mato, de estremada 
*fermosura, porque parece que os estiveram pintando com pincel. f. 99. 
So as orelhas tem hum pouco grandes como sam as dos jumentos, 
msis tambem sam fermosas, porque estam cheas de riscas delgadas 
em circulo, humas muyto pretas e outras brancas e todas uniformes; 
aroda dos olhos, tambem tem outros circulos como aquelles e do 
alto da testa Ihe decem outras riscas dereitas ate as ventas das na- 
rices, mas alli as riscas brancas nam o sam tanto como as outras, 
porque tiram hum pouco a vermelhas. Todo o pescogo esta cheo 
aroda daquellas riscas brancas e pretas, e da cruz Ihe vai correndo 
por o lombo ate a ponta do cabo huma risca muyto preta, de mais 
de dous dedos de largo, e della por huma e outra vanda Ihe de- 
cem outras riscas mais estreitas brancas e pretas e muy uniformes. 
Em as maos e pes, da cima ate as unhas, tem risceis em circulo 
como as das orelhas. As unhas sam como as dos jumentos e o ca- 
vello curto muyto macio. Destes tem dous o Emperador, e a seu 
irmao Eraz Cela Christos Ihe vi hum, que da cabeca ate hum pouco 
mais da metade do corpo era como estes, mas dalli por diante nam 
deciam as riscas pera baixo, senam tornavam dereitas pera as an- 
cas, que causavam nova fermosura. Estes animaes nam se acham 
senam em terras muyto quentes e sam poucos e assi muy estima- 
dos, Sam de corpo como os mayorcs [jumentos] que ha em Espanha. 



i 



LIVRO I, CAPITULO XXIII. 233 

Tambem ha muytas vacas bravas do mato, que chamam Tora, 7. Boves sylves- 

, r 1 t_ ^ i_ 1« • ^' tres, bubali, elephan- 

bufaras, elephantes, mas nenhum manso, hois, tigres, ongas, mas ^gg^ leones, tigres, 
nam tam feroces como os que tracem de Africa pera Espanha. Ha pantherae comunes 

^ et nigrae, porci do- 

porem outro animal, que chamam Guecela, do tamanho de hum mcstici et sylvestres, 
liam e dicem que he muyto bravo e feroz ; sua pelle tenho vista rirSi^si^Hn^^^ 
e o cavello he muyto macio e preto. Ha porcos mansos e dos do meri et invadunt ho- 

• t 1 . mincs in ipsis pagis 

mato de tres fei^oes, e muytos porcos espmhos e huns animaes como etiam interdiu. 
raposas, mas pouco maiores, a que chamam Cabaro. 

Lobos nam tem conto e tam bravos que no mato arremetem 
a gente de dia, e de noite vem muytas veces a entrar dentro das 
cercas, e ainda na de nossa casa de Dambia o ficeram algiimas, com 
ser de pedra e espinhos e termos muyto bons caes ; c pouco tempo 
ha que, tendo Eraz Cela Christos irmao do Emperador asentado 
seu exercito em huma terra que chamam (^arca do reyno de Gojam, 
vieram os lobos de noite e levaram rastando hum mogo, que dormia 
na borda do arrayal, e ainda que gritou, quando Ihe acudiram, ja 
o tinham despeda^ado. 

Os gatos de algalia sam muytos e assi a elles como a al- 8. Feles odoratae 

... ^* '^ i_ • j A. ji multae ; Aethiopes 

galia chamam Tinnh, e sam casi duas veces maiores que gatos e da pi^rgg captivas deti- 
mesma feicam ; temos sempre em gayolas e alli Ihes dam de comer c °«»*» ^* " musco 

quaestum faciant. 

beber, porque sam tam ariscos, que nunca se amansam, e se se sol- Moscus, feles syl- 
f. 9o,v. tam, com dificultad os tornam a tomar. Tem *algalia em huma bol- ^*®^"* •* mortes. 

sinha, que a nature^a Ihes pus entre as pernas, e tem cuidado da 
tirar a tempo, nam somente pollo ganho que nisso ha, mas por o 
dano que o gato recebe, que adoece de fevre, se Iha deixam estar 
muyto, e assi os que andam em os matos se rogam nas pontas dos 
paos secos, pera se descarregar della, e como ja sabem isto, a vam 
a buscar onde elles andam; o ainda no reyno de Narea, que ha 
muytos, Ihes poem de proposito (segundo dicem) na terra paos cur- 
tos com a ponta de cima aguda, e alli acham muyta. Tambem ha 
almizcle a quem chamam Mezque. Gatos monteses sam muytos e 
facem grande dano em as galinhas, elles e outras duas sortes de 
animaes que ha como furoes. 

Os bugios sam innumeraveis e de muytas castas : huns muyto 9. De variis simia- 
piquenos com cabo cumprido, outros pouco mais grandes e fermo- I^^^Sbus^dTml 
sos ; tem debaixo das maos e parte do pescoQo e da cabega branco. nosae. Mures sine 

numero, tam in do- 

1 Estes estam de ordinario em o mais alto das arvores. Ha outros mibus,quaminagris; 
^ mais cfrandes feos como os piquenos, e outros como cfrandes caes 8«'P«»^«« pl^^«s ma- 

=» r- n » o gm^ gc^ venenci non 

e muyto niais feos que todos, tem dos peitos pera cima atc a ca- adco frequcntcs. 

C. Bkccari. /ier. Aeth, Script, occ, ined, — II. 30 



► 



2 34 HISTORIA DE ETHIOPIA 

bega huma caveleira mais cumprida que de liam, e mordem muyto. 
Todos facem muyto grande dano em as sementeiras e, se nam as 
vigiassem tanto como acostumam, sem duvida acabariam as que 
estam perto dos bosques e rochas onde elles andam. Com tudo fur- 
tam muyto, porque, em quanto o que guarda vai pera huma parte, 
elles saem por outra. Huma vez, estando eu em hum valle, levantei 
os olhos a as voces que dava hum homem pera que nam Ihe en- 
trasem em huns graos que guardava, e hum delles, que hia mais 
diante, correo e, chegando a borda dos graos, arrancou a toda pressa 
com amas as maos quantos Ihe puderam caber na boca, e acolheose 
antes que o dono pudese chegar. E com serem tam grandes, sobem 
por rochas tam ingremes que parece que sos pasaros podiam che- 
gar. Chamamos Zenyero, e aos que tem branco Gure^a. Tracem 
por brinco em as casas com cadea assi de huns como de outros, 
mas muyto poucos. Outra praga muyto grande ha em todas estas 
terr^is de Ethiopia que tenho vistas, como o reyno de Tigre, Beg- 
meder, Gojam, Dambia e outros, particularmente na provincia de 
Oagra, que sam ratos sem conto e facem grande dano nas semen- 
teiras, nem ainda em as casas dam vida, por mais gatos que tenham, 
nem armadilhas que Ihes ponham. 

Ha cobras pe^onhentas, posto que nam muytas, e serpentes 
muyto grandes, e dicem que o bafo de algumas basta pera facer 
hinchar os gados e morrerem, se nam Ihes facem logo micinha. 
Outros muytos animaes ha que deixo, assi por serem conhecidos, 
como de muy pouca importancia. 
lo. Urretae fabu- Do que temos dito se vee quam falsa foi a informac^am *que f. loo. 

lae circa FauDaixi 

Aethiopiae refutan- deram a frey Luis de Urreta sobre algumas destas cousas, pois, 
^^' como afirma no cap. 25 de seu 1° livro, o Preste Joam pode por 

na gnerra 500 elephantes encastellados, sendo assi que nenhum ha 
manso em todas suas terras, nem memoria de que o ouvese nunca, 
como affirmam todos e me disse o mesmo Emperador. Tambem diz 
que em Ethiopia nam ha lobos, nem caes, sendo innumeraveis assi 
huns como outros. Pollo que causou muyto grande riso a todos os 
que ouviram isto, e nam menos me causou a mi o que juntamente 
affirma que nem em Arabia ha caes, porque, se fala (como parece) 
da Arabia, que corre da fortalecja de Mascate (que he de Portu- 
gueses) ate bem dentro das portas do estreito de Meca, eu corri 
grande parte della e sempre achei muytos caes. E se se lembrara 
que tinha dito na pag. 96 que os principes, que estam no monte 



LIVRO I, CAPITULO XXIIL 235 

de Amhara, tem caes ventores, lebreos, e sabuesos pera ca^ar, nam 
affirmara aqui, pag. 254, que em toda Ethiopia nam ha caes e que, 
se chcgam naos de Europa e deixam algnns de Irlanda e Ingla- 
terra, morrem dentro de hum mes. 

Tambem diz dos gatos de algalia, que cada hum conhece sua 
casa como os outros animaes domesticos e que, vam acs montes a 
ca<;a, porque nam se sustentam de outra cousa, e quando co- 
mem mais carne do mato, he milhor a algalia, e que, quando a bol- 
silha onde ella se recolhe esta chea, vem a suas casas correndo e 
dando saltos como raibosos, e como entram, o primeiro que os vee 
toma hum pao e como que Ihe quer dar a elle da no cham e pol- 
las paredes, e elle anda saltando de huma parte a outra ate que 
cansa e sua ; e entam Ihe abrem sua gayola de madeira, onde en- 
tra correndo, e alli com huma colher Ihe tiram a algalia, e logo fica 
durmindo dous e tres'dias, e como acorda, se torna outra vez pera 
o mato. Disto cjombaram muyto todos, porque sempre os tem em 
gayolas e alli Ihes dam de comer, e se algum se solta, com diffi- 
cultad o podem tomar a tom.ar. 

Mas o que principalmente Ihes caio em gra^a, foi outra fabula 
que conta das monas ou bugios pag. 252, por estas palavras: « De 
4 las monas se sirven cn la Ethiopia en todos los menesteres como 
« de criados, que no ay mas differencia que el hablar o estar mudo. 
« Ellos fuegan, traen agua, barren, para asar la carne menean el 
« asador. Ay hombres que tienen 30 y 40, que les sirv^en en sus 
« labran<;as como gaiianes ; danles de almorgar por la mafiana y a 
« cada unp le dan su agadilla y escardillo, y embianlos al campo 
« donde entrecavan las sementeras, las escardan, quitandoles la ma- 
« lega, despedrandolas y las dexan muy limpias y lo hacen con 
«c tanta curiosidad como un hombre, y acabando, se buelven a su 
« casa adonde les dan de comer. Embianlos a comprar carne y vino 
« y otras mil cosas, que parecen increibles. Los soldados, que estan 
f.ioo,v. « en frontera de enemigos, *en los presidios y fortale^as, sc sirven 
« de las monas por escoltas y atalayas y, subiendo sobre el chapitel 
« de la tienda o en la guarita del muro, hacen la vela toda la noche 
« mucho mejor que un ^oldado, porque tienen el oydo mas vivo, 
« que a penas sientcn el ruido de media legua, quando a gritos 
« despiertan a todos los soldados ». 

Isto he o que das monas refer o Author, a quem nam Ihe pa- 
receo increivel, pois o escreve como cousa certa. Porem os de Ethio- 



i 



236 HISTORIA DE ETHIOPIA 

pia, nam somente nam viram nunca estas cousas em sua terra, mas 
nem as ouviram ate agora, que eu Ihas contei e temas por tani fa- 
bulosas que Ihes parece que em nenhuma parte as pode aver. E 
isso me basta pera com regam condenar a quem Ihe disse que as avia 
em esta terra, e ainda o darselhe tanto credito que se escrevesem 
como certas ; nam reprovando o que traz do padre Joseph de Aco- 
sta, de quem diz que, tratando das cousas naturaes do Peru, refer 
cousas semelhantes das monas e de huma que a mandavam por 
vinho a taberna e, se Ihe deciam alguma cousa os rapages, punha 
a basiiha perto de alguma porta e hia apos elles a as pedradas, 
e como fugiam, a tornava a tomar e proseguia seu caminho. Em 
esto nam tenho que falar, porque sei muyto bem que aquelle padre 
nam avia de escrever cousa por cierta que nam o fosse muyto. 

Nam menos novo se Ihes fez o modo que diz tem ca de matar o 
rhinoceronte ou abada, que conta desta maneira pag. 246 : « EUos 
« andam en la provincia de Gojama a las raices de los montes de 
« la luna, donde nace el rio Nilo, y en sola esta tierra se hallan 
« entre todas las de la Africa. Quando tienen noticia de alguno, ar- 
« man sus escopetas y toman una mona, que la tiencn industriada 
« para esta ca^a, y la echan al campo, y ella al punto anda bu- 
« scando al rhinoceronte, y en viendole, se va para el y empie^a 
« a dar mil saltos y a bailar, haciendo mil monerias, y el muy con- 
« tento esta mirando las fiestas que le hace ; dando saltos la mona 
« por una pierna se le sube en cima de las espaldas, donde le ra- 
« sca y le va florando el pellejo, con lo qual recibe grande gusto 
« y placer, y saltando en el suelo, le empiega a fregar la barriga, 
« y el rhinoceronte con el regalo se echa en tierra y se estira y 
« despere^a muy tendido en el suelo. Entonces los cagadores, que 
« estan escondidos en algun lugar seguro, le assiestan con sus bal- 
« lestas o escopetas al ombligo, el qual tiene muy delicado y tierno 
« con el pellejo de la barriga y hiriendole en el, luego queda muerto, 
« por tener alli el pulso. En estando muerto, acude mucha gente y 
« atandole de los pies traseros le cuelgan de un arvol la cabe^a 
« colgando para que le venga toda la sangre y humores a ella, y 
« esta desta suerte unos quartos dias, y despues le cortan el cuerno, 
« que es lo que se procu[ra] de ellos, y assi tiene mas virtud 
« contra qualquier veneno, y para que tenga mas fine^a el cuerno, 
« aguardan ciertas *lunas del aiio, que no los matan en todo f. 101, 
« tiempo » . 



LIVRO I, CAPITULO XXIII. 237 

Ate aqui sam palavras de frey Luis de Urreta, e desejando eu n. Quid Auctori 

, ^jii ^ '^jj rctulerit Selt&n Sa- 

saber a certe^a dellas, por ser tam gracioso este modo de ca^ar ^^^ ^^^^ modum, 
hum animal tam feroz, preguntei ao Emperador Seltan Cagued, por V^^ ^P®^ «* *^^* ^^*" 

nocerontes venando 

Ihe ter primeiro ouvido que os matava, sendo mancebo, e junta- capere solent. 

mente Ihe referi o que aqui diz, e festejou com muyta gra^a a festa 

que affirma faz a mona ao rhinoceronte, e disse que nam avia tal 

modo de ca^ar em Ethiopia, nem sabiam que cousa era besta pera 

tirar, senam que hiam com seus cavallos e lan^as curtas, com que 

tiram de longe e com ellas os matavam, e que tambem elles muy- 

tas veces Ihes matam os cavallos e, apontando com a mao pera hum 

seu jenrro, que alli estava, muyto grande cavalleiro, disse: A este 

Ihe tem morto ja dous cavallos muyto fermosos. Eu hia primeiro 

muytas veces a esta cacja, e huma tirei a hum com minha lan<;a e, 

dandolhe em huma ilharga, Ihe meti todo o ferro dentro, e meus 

criados o acabaram de matar. Disse seu mordomo : Aqui esta fuao, 

que tem morto cinco por sua mao. Mas pera isso nam esperamos 

certas luas, nem sabemos que em humas tenha o corno mais vir- 

tude que em outras, e em matandoos Ihes cortamos os cornos. 



CAPITULO XXIV. 



Das aves que ha em Ethiopia. 



Assi como em Ethiopia ha grande multidam de knimaes, tam- i. Avium omnia 

V t_ _^ j • £r • -^ j gcnera in Aethiopia. 

bem se acham muytas difrerencias e varias sortes de aves, porque Gaiiinaceae;Colum- 

tem casi todas as que sam comuas em Europa e outras muytas la ^*®* 

nunca vistas. Ha galinhas caseiras e outras do mato tam grandes 

como ellas com a penna que tira a agul semeada de muytas e bem 

ordenadas pintas brancas menores que huma lentilha, e quando 

estam gordas, que he no tempo que se recolhe o mantimento, sam 

muyto boas pera comer. Destas ha tantas que nam tem conto e, se 

as tomam piquenas, ou botam seus ovos a as de casa, ficam muyto 

mansas e dicem que algumas criam em casa e chamamas Ze- 

gra. Ha pombas mansas e das do mato de tres ou 4 sortes. Ha outras 

aves muyto brancas, que chamam Sabisa e andam vandos muyto gran- 

des e de longe parecem pombas ; mas nam aproveitam pera comer, 

porque sua carne he muyto preta e ruim ; tem o pesco^o, o bico e as 

pernas muyto mais cumpridas que as pombas. Ha rolas de tres ma- 

neiras, humas muyto piquenas, outras como as de Europa e outras 

maiores, e desta vi eu huma toda branca. Perdices se acham tambem 

de tres feigoes : humas muyto mais grandes que as de Europa e na 

penna, pes e bico se parecem muyto com ellas ; as outras duas sortes 

no corpo sam igoaes com as nossas e no bico e pes semelhantes a el- 



seraceae. 



240 HISTORIA DE ETHIOPXA 

las, mas na penna se differenciam muyto e nenhumas destas chegam 
a vondade das de Europa, antes tem carne *muyto seca e desabrida. f.ioi,v. 
Francolins cuido que nam ha, porque nunca os achei, nem quem 
soubese dar re^am delles; mas no estreito de Meca, da vanda de 
Arabia, nam faltam. Na casa, onde eu estava cativo, andavam dous 
soltos com as galinhas, mas cortadas as asas, e nam se difFerenciam 
das perdices de Europa mais que em terem hum peda^o debaixo 
do bico e ate perto dos olhos muyto preto e cantarem de outra 
maneira. 

De codornices ha grande multidam no verao e, como chega 
o inverno, parece que se passam a outras terras onde entam co- 
mega o verSo, porque dentro das mesmas terras, que senhorea o 
Preste Joam, ha sempre juntamente inverno e verao : quando pera a 
vanda do mar he inverno, ca mais polla terra dentro he verao e 
viceversa. 
2. Psyttaci ; Pas- Ha muytos papagayos, pouco maiores que hum tordo, e dicem 

que em algumas partes se acham de casta grande e comummente 
sam verdes, posto que alguns tem no collo hum pouco vermelho. 
Ha papafigos, estorninhos, pardaes, outros, e nam menos daninhos, 
de seu tamanho, o corpo amarello e as asas pardas, outros mais 
piquenos apues, outros pretos como acebiche, outros como velludo 
carmesi e a pena parece tambem cabello de velludo, outros pin- 
tados de branco e preto com crista e barbas como gallo e de de- 
tras da crista Ihe saem humas pennas fermosas, que biram sobre 
ella; outros muytos ha bem fermosos differentes dos de Europa. 
Dos que cantam bem ha canarios solitarios e outras muytas sortes 
de passarinhos, que facem muyto boa musica. Ha outros tam gran- 
des como huma pomba rajados de pardo e branco, que cantam 
muyto mal : tem o bico de meio palmo de cumprido e arcado ; e 
outros do mesmo tamanho verdes com o peito amarello, e quando 
cantam, parece totalmente que ladra algum cachorro. Outros gritam 
de maneira que quebran os ouvidos: sam tam grandes como ga- 
linhas, huns pardos e outros muyto brancos, e tem o bico de casi 
hum palmo de cumprido arcado e delgado, e chamase Anan. Ha 
outras aves casi tam grandes como hum cysne, mas com so o 
peito e pontas das asas brancas e o demais tira a preto: tem os 
pes e collo cumprido, o bico curto e na cabega humas penas cum- 
pridas delicadas e como loras que parecem coroa. Destas andam 
sempre muytas juntas, particularmente em Dambia, a cujo Vis- 



LIVRO I, CAPITULO XXIV. -41 

sorrey cham^o Cantiba, e a estas aves Cantiba Mecercana, « che- 
remellas do Cantiba » , porque quando gritam se parecem com as 
cheremellas que elle leva sempre diante e Ihe facem asaz de ruim 
musica. 

Ja que himos falando de tam bops cantores, nam sera re- 
Qam que deixemos de fora os corvos, de que ha duas ou tres 
f. 102. sortes: huns muyto grandes com huma pinta branca *no tortic^o [szc], 
outros de todo pretos do tamanho dos de Europa, outros com o 
peito e pescoijo branco, ainda que estes mas parecem gralhas 
que corvos. 

Tambem ha muytas maneiras de abutres : huns brancos com o 3» Vultures, stm- 

, . 11 ^ ^ 1 ji '^ t thiones; circa quos 

bico e pes amarellos, outros pretos com hum pouco do peito branco; fabula quaedam ex- 

outros pardos de muyto grande corpo e de muy extraordinario chei- ploditur. 

rar, porque como morre algum animal, vem logo de muyto longe 

e se ajuntam grandes vandos. Ha outros, que na gTande<;!a do corpo 

e no coUo se parecem com os gallipavos do Peru, mas sam pretos 

com so as pontas das asas brancas, e na cabe^a perto do bico, que 

he g^rande, tem hum corninho de tres dedos de cumprido e dous 

de gTosso, mas todo vao e averto na ponta, e dicem que he con- 

trapeQonha e que val pera a peste, e que, se comem sua carne os 

leprosos no principio da doen^a, se acham bem: chamase Hercum. 

Ha outro tam g^rande como este a que chamam Eceitan faraz, « ca- 

vallo do diabo » por ser muy feo, c do pescogo pera o cabo cum- 

prido, e andar muyto mal, posto que ligero ; he pardo e tem o bico 

e pes amarellos e no tortigo humas pennas cumpridas dereitas pera 

atras que Ihe podiam servir de redia. Em companhia deste podia- 

mos por a ema ou abestruz, se he certo que se ha de contar entre 

as aves, porque tambem he asaz fco ; mas, ainda que alguns facem 

semelhantes seus pes aos do camello, se parecem muyto pouco 

com elles, porque tem dous dedos em cada pee como de ave, po- 

sto que grossos e malfeitos: o da vanda de dentro he cumprido e 

o outro muyto mais curto ; nem sei como com aquelles dcdos pode 

tomar pedras e tiralas pera atras contra os que os seguem, como 

tambem dicem, porque nam sam pera as poderem tomar; e muytas 

veces os vejo correr na cerca do Emperador, andando os pagens 

apos elles brincando, e nunca vi que tirasem pedra ; parece que os 

veriam ir fugindo por cntre pedras e, como correm com muyta for^a, 

pondo os pes sobra algumas, saltariam pera atras e cuidariam que 

elles as tomavam e as tirav^am. Em esta terra ha muytos, e dicem 

C. Beccari. /ier. Aetk, Script, oce, ined, — II. 31 



242 HISTORIA DE ETHIOPIA 

que correm tanto, que com muyta difficultad os alcan^ara hum 
cavallo. 

4. Rapaccs diur- Aves dc rapina ha muytas e de diversas especies, como ga- 
' * viaes, falcoes, azores, que matam muytas perdices e gallinhas do 

mato e algumas veces se arreme^am a as de casa. Mas a gente 
nam sabe cat^ar com elles. Ha outros que tomam codornices e ou- 
tros passaros piquenos. Aguias reais dicem quc ha algumas, mas 
ate agora nam vi nenhuma ; das que tomam ratos ha muytas e dc va- 
rias sortes. Minhotos tambem ha muytos, e cygonhas de muytas ma- 
neiras : humas mais piquenas que as de Europa e da mesma cor, a que 
chamam Hebab oat, *« engulidor de cobra», que a cobra chamam He- f.io2,v. 
bab ; outras sam grandes, mas tem o peito branco e o demais preto, e 
destas ha duas sortes ou tres difFerencias. Grous ha muytos no verSo, 
particularmente em Dambia e hc cousa pera notar, e tem obser- 
vado os moradores desta terra, que todos os annos entram nella 
em hum mesmo tempo, sem haver difFerencia de huma vez a outra 
mais que tres ou 4 dias, quando muyto, e como se chega o tempo em 
que ham de tornar pera sua terra (que tambem o tem certo), as 
que estam em Dambia sobem todas as minhas tam altas que casi nam 
se enxergam, por 8 ou dez dias continuos, e andam gritanto ate 
perto de meio dia, como chamando a as que estam em as terras ve- 
cinhas que se juntem pera caminharem todas em companhia, e dc 
facto vem outras muytas a Dambia em aquelles dias e partem to- 
das juntas. 

5. Palmipedae. Das aves, que andam em os rios e lagoas, ha muytas mais sor- 

tes que de outras nenhumas, e tantas que nam tem conto ; e a fora 
de gargas, que sam bem conhecidas, corbos marinhos, ha adens de 
muitas maneiras e humas que sam como grandes patos e a carne 
como elles, mas pretos e o peito branco, a que chamam Uy^a. 
Outras hum pouco mais piquenas, pardas, que chamam Ibroch, e 
se he huma, Ibra. Estas sam muytas e facem grande dano em os 
mantimentos, e assi, quando tem fruito, he necessario guardallos; 
porque se nam os destruiram ellas e os grous. Tambem ha outras 
aves tamanhas como abutardas, todas brancas, e tem o bico amarello 
de hum palmo de cumpridc e de tres dedos de largo. 

Nam me quero deter em falar das aves das alagoas, que se de 
so as que andam a longo desta de Dambia, onde eu estou mais de 
ordinario, se ouvera de tratar, fora cousa muy cumprida, porque 
nam tem conto. 




> 



LIVRO I, CAPITULO XXIV. 243 

Tambem ha muytas aves nocturnas, como bufos, mochos, co- 6. Strigidae. 
rujas, morcegos, e estes nam sam pouco perjudiciaes em as igre- 
jas, onde se juntam muytos, porque sam escuras e altas e assi as 
enfigoam com seu mao cheiro; ao que se junta aver nellas de or- 
dinario muytas endroninhas, que tambem as sujam mu)^to, porque 
criam dentro. 

Esta materia das difFeren^as das aves que ha em Ethiopia trata 7. Quae de incu- 

rT-jTT^ ,- o-. , batione gaUinarum 

frey Luis de Urreta no cap. 26 de seu i livro; mas em algumas retulit Urreta falsa 
cousas nam teve corta InformaQam, como no que diz pag. 268, quo ®^?** .9*^^^^®. .^*7° 

nulliDi in Aethiopia. 

nam ha aves noctumas, nem gabiaes, nem azores, nem outras aves 
de volateria, senam as que tracem da Persia pera presentar aos 
Reys e principes. Tambem que as gallinhas como poem nam se 
podem comer, e que pera chocar os ovos poem mil e dous mil jun- 
tos na area, e cubrindoos com esterco, botam em cima area, e que, 
como he terra que casi nunca chove e o sol muyto forte, se cho- 
cam e saem os pintainhos e, tomando de pois hum gallipavo, Ihe 
depcnam os peitos e a^oitam com ortigas e assi o ensinam a criar 
f. 103. os pintainhos e vam dous mil apos elle. Isto, segundo dicem, *se 
acostuma la pera o Cairo, onde chove pouco ou nada, mas nas ter- 
ras do Preste Joam nam ha tal cousa, nem viram nunca gallipavos, 
nem ha memoria de que trouxesem alguma vez da Persia gabiaes 
ou falcoes, nem ca sabem ca^ar com elles, que, se souberam, nam 
Ihes faltavam em sua terra. 

Sobre todas estas cousas he muyto fabulosa e ridicula em 8. Deridetur de- 

T- - . . ^ j i_ n ja '^ t j. scriptio Urretae cu- 

Ethiopia a quc conta de huma ave no nm do capitulo, por estas iugdam avis mirabi- 

palavras : ^^^ absque pedibus. 

€ La otra ave, que la he guardado pera el fin de este capitulo, es 
€ la que aca llamamos del Parayso, o como llaman en Ethiopia, Ca- 
€ menios, que quiere decir camaleon del aire. El cuerpo desta avecita 
€ con la cabe^a sera como el artejo de hum dedo, mas pequeno que 
€ el cuerpo de un ruyseiior ; el pico es mas grande que todo el 
€ cuerpo, y abre la boca mucho mayor de lo que se presume para tan 
« chico cuerpo ; sus plumas son muy grandes de mas de tres palmos, 
« las mas hermosas de mas vivos colores, bellos matices y diiferencias 
€ de esmaltes que produxo la naturalecja, que ni el papagayo, ni el pa- 
« von, ni ave alguna se puede igualar a ella. Xo tiene pies y siempre 
€ anda bolando por el aire de dia y de noche, y en el aire se sustenta 
« de mosquitillos y del mismo aire y en el duerme, sin que jamas se 
« asiente sobre arbol ni mata, antes en tocando en tierra muere 



k 



244 HISTORIA DE ETHIOPIA 

I luego; y es tan delicado que a veces los muchachos ponen liga 
€ en alguna caiia larga y, en viendo estos paxarillos, procuran to- 

< calles que se peguen.y mientras baxan la cana, yaUega muerto. 
t Dira alguno: Si mueren en tocando en tierra, como se multipli- 
t can? como ponem los huevos y los empollan? A todo esto acudio 
s la industriosa naturalei;a con un artificio estrafio; para que, consi- 
e derando estas maravillas, alabemos a Dios en sus obras : diole 
t naturalei;a un nervio en lugar de los pies tan largo como las 
« plumas y tan delgado como cuerda de vihuela, y quando es el 
« tiempo en que su naturale<?a lo inclina a su jnultipUcacion, va 

* buscando la hembra y con aquella cuerdecilla la ase y se abro- 
t cha con ella, y esto todo bolando. Quando la hembra quiere poner 

< sus huevos, anda buscando al macho y en viendole, afierra con el 

< y se ata con aquel nierviijuelo y pone los huevos en cima de las 
« alas del macho, entre las quales formo la naturale<;a un asiento 

* y hoyo como nidal, y juntamente se esta alli la hembra fomen- 
« tando sus huevos hasta que estan los hijuelos nacidos; y siempre 

< andan bolando, mientras estan en su cria, sustentandose de mo- 
« squitos y del aire. Sacados los poUitos, se va la hembra y el 
« macho llcva su dulce carga a cuestas hasta que les nacen plu- 
« mas y se echan a bolar. Destas aves ay muchas en la Arabia 

* y en la Ethiopia en muchas partes, en especial en el monte de 

< Amara, porque son regiones donde llueve muy raras veces, ni se 

* enturbia el aire ». 

*Tudo isto he mera fic<;am, que na[m] ha tal passaro em Ethiopia, f 
nem parecc que o avera no mundo; e assi, preguntando eu por elle 
diante do Emperador a senhores muyto grandes, que estiveram 
muyto tempo no reyno de Amhara, se riram muyto desta patranha, 
e o Emperador Ihes refirio com muyta festa outras que eu Ihe tinha 
contado, como dos grandes thesouros. que o mesmo livro diz que 
ha em Guixen Amba, a que elle chama o montc de Amhara, e que 
ouvese formigas tam grandes como caes; e elles se maravilharam 
de que ouvese quem se ocupase em inventar tantas mentiras; por- 
que, demais do serem muyto grandes as dos thesouros e formigas 
e que aja tal pasaro em Ethiopia, chove muyto em todo o reyno 
de Amhara e muytas veces cae tanta pedra que dana as semen- 
teiras, por onde mal puderam andar la semelhantes pasaros, quando 
os ouvera, e ainda que nunca chovera, bastavam os ventos, que 
muytas veces sam tam grandes que quebram as arvores, pera dar 



LIVRO I, CAPITULO XXIV. 245 

com todos esses pasaros pollas rochas ou arvoredos, sem poderem 
resistir a seu grande impetu, sendo de tam piqueno corpo e tendo 
tam cumpridas pennas. E quanto ao que diz que ha tam bem muy- 
tas destas aves em Arabia, se fala da que confina com o Mar Roxo, 
eu andei muyta parte della polla terra dentro, eni sete annos que 
os Turcos la me tiveram cativo, e nunca vi tal ave, nem ouvi di- 
cer que a ouvese. 



CAPITULO XXV. 

Em que se trata do clima, mineraes e fertilidade 
das terras do Preste Joam. 

Casi todas as terras, que senhorea o Preste Joam, tem bons ares, x. Aer plenimque 
sam temperadas e sadias. tanto que ha muytos homens de cem annos «r^rubruten 
muyto bem despostos, e ainda vi alguns de cento e vinte e 1 30 com calidissimus, alicubi 

. - f rigidissimus. Aquae 

boas forcpas. Com tudo ha algumas terras baixas, onde faz grandes bonae et salubres. 

calmas ; no fim do verSo, quando comega a chover ha nellas muytas 

doen^as e morre gente; pollo que alli ordinariamente moram em 

lugares altos, mas por muyta calma que fa^a, se se poem a sombra, 

acham fresco. Tambem ha terras muyto frias, como no reyno de Beg- 

meder, em a provincia de Oagra, e sobre tudo na provincia que 

chamam Cemen, que he frigidissima. 

As agoas, assi das terras quentes como das frias, comummente 
sam boas e sadias. No tempo ha grande variedade, porque de abril 
ate agosto os dias sam mayores que em Espanha; pondo o rosto a 
oriente as sombras vam pera a mao dereita; depois diminuem os 
dias de mancira que em novembro e decembro sam muyto piquenos 
e as sombras vam pera a mao izquerda. 
f. 104. Minas de ouro ha algumas, particularmente no reyno de *Na- a. Aumm inveni- 

^ .11 1 ^•11' j i_ *ur in alveo flumi- 

rea, mas o milhor he o que tiram de hum rio grande, que chamam ^^^^ . fodinae sive 
Beber, labando a area de praya. Alguns mcrgulham no mais fundo ®^"» «ive argenti 



248 HISTORIA DE ETHIOPIA 

tempore Auctoris levando humas gamellas de pao amarradas com cordas, e como as 
bundans; plumbi henchem da area de dentro, puxam poUas cordas outros que estam 
parcitas. na borda do rio, e alli acham muytas veces grandes pedacjos. Em 

outra terra nam muyto longe desta, que se chama Fazcolo, dicem 
que ha muyto, se o souberam tir[ar], porque quando dam fogo aos 
matos, que o facem muytas veces, e sam bambuaes, saem pegados 
nas pontas dos bambus que nacem peda^os de ouro, e isto he o 
mais fino que ha em Ethiopia. Tambem em outra terra, que ha 
pouco tempo que sugetou Eraz Cela Christos irmao do Emperador, 
a que chamam Ombarea, perto do reyno de Gojam ao poente, 
ha bom ouro, mas nem alli o sabem tira.r, que sam Cafres groseiros. 
Em o reyno de Tigre, na provincia que chamam Tamben, dicem 
que se achou primeiro huma mina de ouro, e que o emperador Ma- 
lac (^agued mandou que a cubrisem e que nam se falase em ella, 
porque os Turcos nam procurasem de tomar aquella terra. Tam- 
bem em Ag^um, que [esta] no mesmo reyno, quando chove muyto 
dicem que se acham sobre a terra alguns pedacinhos dc ouro. 

Ha tambem minas de prata na provincia de Tamben e na de 
Zalamt, e quando eu entrei em Ethiopia, que foi em mayo de 1603, 
a tiravam huns gregos por mandado do emperador Jacob, e me mo- 
straram alguma e era muyto boa e branda; mas dalli a pouco des- 
sistiram da tirar e dicendolhe cu pouco ha ao Emperador Seltan 
^agued (que mandava comprar da que vinha dos Turcos), porque 
nam a facia tirar, pois a tinha em aquellas provincias, me respon- 
deo, que, porque era muyto trabalho e pouco proveito. 

Ferro ha em muytas partes e chumbo em algumas, mas disto 

tam pouco que casi nam Ihes basta pera piloros de suas espingardas, 

e assi, quando ham de ir a guerra, o repartem os capitaes aos sol- 

dados com muyto tento. 

3. Tcrrae maxime Quanto a fertilidade das terras, he muyto grande, porque ainda 

fertiles: messes ple- . . r ^ 

rumque bis in anno : ^^^^ ^J^ algumas menos iructuosas, sam poucas as que nam se semeam 
triticum, hordeum, cada anno, sem nunca descansar, e em algumas dellas se recolhem 

avena etc. reddunt 

fructumtrigesimum, dous frutos cada anno, nam somente em os valles, onde se podem 

Daguc&^er TeTmm- ^^S^^> ^^^ ^^ ^s campos, e com tudo isso de humas sementes, que 
cupatae, centesimum chamam Dagu^a e Tef, que nam ha em Europa e sam miudas como 

et eo amplius. , , , ,. , ,, 

mostarda, muytas veces de huma medida se recolhem cento e 150; 
e disto facem pam, que come a gente ordinaria, mas he preto e de 
pouca sustancia. Tambem o milho responde muyto. Ha trigo de 
muytas fei^oes, cevada, graos, *favas, lentilhas, feixoes e outras f.io4,v. 



r 




LIVRO I, CAPITULO XXV. 249 

sementes em abundancia, mas nam respondem tanto como as pri- 
meiras; quando muyto dam 20 ou 30 por hum. 

Semeam muyto linho, e ainda em os campos, onde nam se rega, 4« ^^^ Acthiopcs 

r . j, ji T^ V 1 seminibus utuntur 

se laz tam grande como o de Espanha; mas nam se sabem apro- n^ esum, sed tcxtl- 
veitar delle pera facer panno, porque a cana botam fora e a se- ^®f ^**'" abiiciunt. 

Olcum ez sesamo et 

mente recolhem pera certo comer que facem della. Tem gergeli e Nug trahunt, ez oli- 
outra semente que chamam Nug como linha^a, mas he preta, de que '^^^^^J''' ^^in^. 
facem muyto aceite, que de aceitonas nam o ha ; semeam muytos <!«•« s^* ctiam in 

,. , ^ , , Indiis comuneft. 

alhos e cebolas, cobes, mas sam rums; rabaos e outras cousas como 
nabos, que em Espanha nam ha, a que chamam Xux e Denich, com 
que se remedia a gente pobre em tempo de fome. Ha canas de 
a^ucre, gengibre, cardamomo, cominhos pretos, endro, funcho, cuen- 
tro, mastur^o e alg^mas alfa^as ruins; mas agora faz dous annos 
nos veio da India semente dellas, de cobes [sic] e chicorias, e tudo se 
come^a a dar muyto bem; juntamente veio semente de malageta e 
ja ha muyta e folgam com ella. 

Arbores de fruto nam ha de tantas diferen^as como em Espanha, 5. De arboribuB 

, ^ .• '/i.jjT-k^i fructiferi8;pluraco- 

mas ha muytos pesigueiros, romeiras, ngueiras das de Portugal e mndem gcnera de- 

da India, e outra sorte, que na folha casi nam se diferencia das acribuntur. 

figueiras da India e, ainda que nam da fruto pera comer, he mais 

proveitosa que ellas, porque o tronco ou meollo do meio da folha 

comem, e da mesma folha facem cordas [e] esteiras muyto finas; fiam 

linhas, com que facem pannos que vestem os pobres ; e a raiz, que 

he ordinariamente de mais de dous palmos de largo, comem co- 

cida e della facem farinha muyto fina e branca, que comem co- 

cida com leite ; mas o pam della nam he muyto bom ; e se cortam 

tudo a longo da terra, bota aroda muytos olhos, que dispoem em 

outras partes e logo prendem; chamase Encet. 

Ha narangeiras, cidreiras, limoeiros, galegos^j^i:] e outros que 
dam o fruto muyto grande. Tamarinheiros, jambolans, maseras da 
India, humas arvores grandes, que a ellas e ao fruto chamam Xe, 
no sabor, cor, e feigam se parece com datil, senam que he mais 
delgado na ponta. 

Tambem semearam pouco ha palmeiros de cocos, e come^am 
j a a dar fruto, e de datiles ha algumas piquenas, mas no reino de 
Dancali ha muytas. 

Vinhas como em Espanha nam ha: todas sam parreiras e de- 6. Dc cultu vitis; 

1 ^ • ^ rt j j dc eosaypio et cius 

stas poucas, e plantam juntas 8 ou dez varas e nunca as podam, e visurDcolcastriBopi- 

assi huma so parreira toma muyto campo e tem necessidade de ^»© Auctoris. 

C. Beccari. ^*r. Ae/A, Script, occ» ttud. — II. ja 



2 50 HISTORIA DE ETHIOPIA 

grande ramada ; mas com tudo dam muytas ubas e grandes cachos. 
Agora ja vam prantando os principaes, porque o Emperador he 
muyto curioso e em huma das cerccis de huns pa^os, que hti pou- 
cos annos que fez, plantou em setembro 1 50 parreiras e por o Natal 
comeo alg^ns vinte cachos maduros, com nam aver bem 4 meses 
que se tinham plahtado, que tudo eu vim ; e depois mandou plantar 
em hum campo cinco mil, e como as poem muyto afastadas, por- 
que *nam as ham de podar, ocupam muyta terra; e pollo muyto f. 105. 
que deseja que todos plantem, lan^ou pregam que todo aquelle que 
plantase parreiras ou quaesquer arvores de fruto, nam perderia nunca 
a terra ainda por traigam a coroa; com ser costume tirar o Em- 
perador, todas as veces que quer, as terras a huns e dallas a outros, 
excepto aquellas que compraram a Coroa. Agora novamente se- 
mearam papayas, que vieram da India e se dam muyto boas. 

Ha muyto algodam, de que facem alguns pannos muyto bons, 
mas ordinarios: nam sam como os da India, ou porque o algodam 
nam sera tam bom, ou porque nam o saberam concertar. Com tudo 
facem outra sorte de panno muyto largo e forte que Ihes scrve na 
cama de colcham e cobertor como de Papa, e he muyto quente 
porque tem o cabello 4 dedos de cumprido, a que chamam Becet, 
e sam alguns tam bons que valem dez cru<;ados. 

Tudo o que se semcar e plantar em esta terra, parece que se 

dara, particularmente oliveiras, porque ha muytos zambugeiros, e 

algnns tem o fruito casi tam grande como aceitonas, nam porque 

os enxertasem nunca, que elles nam o sabem facer, senam por a 

terra Ihes ser acommodada. 

7. De arboribus As arvores sylvestres comummente sam espinheiros, alguns 

puae spcciesenumc- iTt^^yto altos e gTossos. Ha tambem muytos cedros altos, mas nam 

rantur. ^q^ ^ copa como os dc Espanha, senam os ramos espalhados, como 

os pinta e descreve Dyoscorides: he madeira cheirosa e muyto 
boa pera casas; ha angeli muyto fermoso, pao preto e humas ar- 
vores, que chamam Zegueba, muyto altas e grossas, madeira branca 
e fermosa com outras muytas sortes de arvores que nam ha em 
Europa, particularmente huma, que chamam Dema. Esta se faz tam 
grossa que nam a abarcaram cuatro homens, e ordinariamente, com 
serem muyto altas, nam lan^am os ramos ate perto da ponta, e o 
tronco he liso dentro; ainda que nam he oco esta muyto fofo, e 
alguns frades, que andam no deserto, metem nelle estacas huma 
acima de outra ate chegar muyto alto, e, subindo por ellas, cortam 



LIVRO I, CAPITULO XXV. 25 1 

facilmente e facem dentro sua casinha, onde dormem de noite por 
medo dos lioes, e ainda affirmam que antiguamente se metiam alli 
algxin se outros Ihes davam de comer, ate que se fechava aquella 
casinha, que por dentro torna a hencher muytode pressa, e assi 
ficava alli morto e sepultado, como ja dissemos. 
^ Em as ribeiras ha muytos jazmins, quc tambem se dam poUos 

matos com outras muytas florcs cheirosas. 

Ainda que estas terras de Ethiopia sejam tam fertiles e abun- 8. Locustae iden- 

,,j j,' A. j. j'x a.j' A. tidem invadunt arva 

dantes de mantimentos, como temos dito, com tudo isso muytas ^^ omnia devorant. 
veces ouve grande falta delles em algumas paites, por causa dos 
innumeraveis gafanhotos, que acostumavam vir da vanda dc oriente, 
praga tam grande que, por onde quer que chega, deixa as semen- 
f.io5,v. teiras feitas em poo, as ervas asoladas *e as arvores sem folha 
verde, c muytas veccs se asentam tantos juntos que ccm seu peso 
quebram ramos bem grossos. PoUo que, se esta praga fora geral e 
de cada anno, sem duvida se despovoram as terras e ficaram to- 
talmente desertas. Mas nam vinham todos os annos por huma me- 
sma parte e agora, segundo dicem, avera 30 annos que nam che- 
garam aos Reynos dc Gojam, Begmeder, Dambia e outros, e no 
reyno de Tigre, em que faciam grande dano casi todos os annos, 
^ avera ja 12 que nam se viram senam muyto poucos. 

Desta materia dos mineraes e fertilidade da terra de Ethiopia 9. Errores Urre- 

^ ^ r T'jTT^ j 01' tae et Alvarez circa 

trata frey Luis de Uireta no cap. 27 de seu 1° hvro, mas em muy- auri fodinas refutan- 

tas das cousas que diz foi mal informado, como que em o reyno de ^^ «* dictis. 

Damot aja muytas minas de ouro e o mais fino e de mais subidos 

quilates que tem toda Africa. O que parece que tomou de Fran- 

cisco Alvares fol. 170 de sua Historia Ethiopica, Mas enganouse, 

porque em Damot nam ha minas dc ouro, o se as ha, nam as con- 

hecem, se nam toma este nome Damot em tanta latitud que com- 

prehenda tambcm o reyno de Xarea, como a gente vulgar faz; e 

ainda com tudo isso, he cousa certa, como affirmam todos e me 

disse o emperador Seltan Qagued, que o mais fino ouro, que ha 

em todas suas terras, he o do reyno de Fazcolo, que esta longe 

de Damot. 

Nem tambem parece certo o que diz, que Pero de Covilham xo. Item circaar- 
affirmou a Francisco Alvares, que no reyno de Begmeder ha hum ^*^ 
I monte muyto grande todo de prata, e que nam a sabiam tirar os 

V Ethiopes , mas que faciam huma cova e alli Ihe davam fogo, como 

se fora forno de chunambo; e que corria a prata como ribeiras. 



252 HISTORIA DE ETHIOPIA 

Isto nam so foi encarecimento, mas patranha; porque, se ouvera 
tam rico monte e de que tam facilmente sc tira tanta prata, nam 
se perdera tam de pressa a memoria delle, que agora nam ha quem 
saiba, nem ouvise dicer tal cousa, nem se ouveram de ocupar em 
tirar na provincia de Zalamt e de Tamben prata de pedra, como o 
faciam huns gregos por mandado do Emperador, quando eu en- 
trei em Ethiopia, e ainda que a prata era muyto boa, dessistiram 
depois da tirar, porque tinham muyto trabalho e pouco proveito. 
Nam he menor patranha a que alli mesmo diz pag. 252, que 
como ja sabem tirar a prata, ha tanta, que a estimam em pouco; 
porque nunca ouve tanta prata em as terras do Preste Joam que 
nam Ihes fosse necessario comprala aos Turros, com Iha venderem 
bem cara; e os annos passados davam aqui por cinco patacas huma 
on<;a de ouro que he peso de huma. 

Tambem diz no mesmo lugar que o sal ja nam corre por moeda, 
como antiguamente, senam que o levam por mercaduria a Mono- 
motapa e Congo. Mas nam he assi, porque ate oje sempre *correo f. 106. 
por moeda, que a de cobre, que quis introducir Eraz Athanateus, 
govcrnando o imperio com a emperatriz Mariam Sina sua sogra, 
por ser o emperador Jacob menino, nam a quiseram admitir, como 
ja dissemos no fim do cap. 9. Nem sam tam vecinhos os reynos 
de Monomotapa e Congo, que de ca se Ihes possa levar carre- 
gado o sal ; antes he tam g^ande a distancia que nam somente 
nam tem communicaQam com elles, mas nem ainda Ihe sabem 
o nomem. 
XX. Itcm circa Diz mais que os rabaos se facem muyto grandes, mas que nam 

plantas et arbores. . • • 1 1 . • 

se podem comer, porque na acrimonia nam ha malagueta nem pi- 
menta que Ihes igoale, e que nam se dam cebolas nem alhos de 
nenhuma maneira; mas foi engano, porque os rabaos se comem 
muyto bem, ainda nao queimam tanto como os de Portugal. Cebo- 
las se criam muytas, posto que piquenas, e alhos ha em grande 
abundancia e cabe^as tam fermosas, que nam Ihes facem ventagem 
as milhorcs de Espanha. 

Semelante a isto he o que diz pag. 292 que Ethiopia he terra 
de mu^^ta seda e que os bichos lavram seus capullos em as mes- 
mas amoreiras pollos campos; de que ha grande multidam; e que 
muytos tambem criam os bichos em casa; porque nem ha seda 
nenhuma em as terras de Ethiopia, que senhorea o Preste Joam, 
mas nem viram nunca os bichos, nem sabem como a lavram, e assi 




f 



LIVRO I, CAPITULO XXV. 253 

elle mesmo me pregimtou por veces diante dos grandes que cousa 
era e depois que feigam tinham os bichos, e todos se maravilharam 
muyto, quando Ihes disse como os criavam, como dormiam e mu- 
davam a pele etc. Nem amoreiras ha de nenhuma maneira ; so ouvi 
dicer que em humas terras mu)rto longe, que nam cuido senhorea 
o Emperador, avia humas arvores que tinham o fruto como o das 
sylvas; estas pode ser que sejam amoreiras. 



CAPITULO XXVI. 

Do rio Nilo, de sua fonte, de seu discurso 
e causa de suas crecentes. 



Ja que tratamos da fertilidade das terras, que senhoreao Pre- i. Nili fluminis, 

^ T /• j «^ j' 1 j quod Abaof vocant 

ste Joam, nam sera fora de proposito dicer agora alguma cousa dos Aethiopcs, scatebras 
principaes rios e lacfoas, que tambem a fertilicam e facem mais *** ^ahalA binas Au- 

^ ^ 6 ' M V ^^^ dctexit die 21 

abundante. E o primeiro, que se offerece como mais insigne, he o Aprilis 1618. 
grande e famoso rio Nilo, que como tem pera si os S.***' antiguos 
e casi todos os doctores modernos, he o que a divina Escriptura, 
Gen. 2, chama Gehon e o poe no segundo lugar, quando nomea 
os 4, que sajam do Parayso dicendo: « Et nomen fluvii secundi 
f.io6,v. Gehon. *Ipse est qui circuit omnem terram Aethiopiae ». A gente 
deste imperio o chama Abaoi, o tem sua fonte no reyno de Gojam 
em huma terra que se chama Qahala, a cujos moradores chamam 
Agous. Sam christaos, mas tem muytas supersti^oes gentilicas pollo 
trato e vecinhan^a de outros Agous gentios seus parentes, que sam 
muytos. Esta [a] fonte casi ao poente daquelle reyno, na cabe<;a de 
hum vallecinho que faz em hum campo grande, e aos 2 1 de abril 
de 1 6 1 8 que eu chegnei a a ver, nam apareciam mais que dous olhos 
redondos de cuatro palmos de largo, e confesso que me alegrei de 
ver o que tanto desejaram saber antiguamente el rey Ciro e seu 
filho Cambises, o Gram Alexandre e o famoso Julio Cessar. 



i 

256 HISTORIA DE ETHIOPIA 

a. Aquae qualitas A agoa he clara e muyto leve, a meu parccer» que a bebi; 

e pro un 1 ^^ ^^^ corre por encima da terra, ainda que chega a borda 

della. Fiz meter huma lancpa em hum dos olhos, que esta pegado 
com huma ribancerinha, onde come^a a aparecer esta fonte, e en- 
trou once palmos e parece que tapava em baixo em as raices das ar- 
vores, que estam na borda da ribancerinha. O segundo olho da fonte 4 

esta mais abaixo pera oriente, como hum tiro de pedra do i^, e 
metendo nelle a langa, que era de 1 2 palmos, nam se achou fundo. 
Hum Portugues tinha amarrado primeiro duas lancjas que amas ti- 
nham 20 palmos, e metendoas tampouco achou fundo. Dicem os 
que alli moram que o nam tem, e quando andam por perto de 
aquelles olhos, bole e treme tudo aroda, de maneira que se vee 
claramente que debaixo tudo he agoa, e que nam se anda por cima 
se nam por estarem as raices das hervas muy entretexidas com al- 
guma pouca de terra, e ainda me aflSrmaram muytos e o mesmo 
Emperador, que estava perto com seu exercito, que entam tremia 
pouco, por aver sido muyto seco o verao ; que outros annos com 
muyto medo chegavam alli; porque, em pondo o pe sobre a erva, 
parecia que se queria ir tudo ao fundo e ate oito ou dez passos 
mais adiante bulia decendo e alevantando. O circuito, que mostra 
ser lugar como de alogoa, he casi redondo e nam se pode che- ^ 

gar de vanda a vanda com huma pedra, mas com funda folga- 
damente. 
3.Regio,quaecirca Perto da fonte da vanda de cima mora gente e dalli se vai su- 

scatebras protendi- 1.. j ^ i_ i_ 

tur graphice descri- "i^^clo pouco e pouco ate chegar a huma serra, que estara como meia 
bitur, itemque mores legoa da fonte ao poente, a que os moradores chamam Guix, e ainda 

incolarum. 

que por esta parte parece que de seu pe ate cima podera chegar huma 

espingarda, pollas outras partes he muyto alta. Mas por todas se 

pode subir ate cima, e la se alevanta hum bico, onde os *gentios f. 107. 

sacrificam muytas vacas; e antiguamente vinha em certo dia do 

anno seu feitizeiro, a quem tinham por sacerdote, e sacrificava huma 

vaca perto da fonte e botava a cabe^a nella e a facia ir ao fundo ; 

e logo hia pera aquelle bico, onde facia solemne sacrificio, matando 

muytas vacas, que os gentios Ihe traciam ; e depois se cubria todo 

com o sevo dellas e asentavase em huma cadeira de ferro, que tinha 

posta no meio de muyta lenha seca, e mandava por fogo e estava 

dentro delle ate que a lenha se acavava, sem se queimar, nem ainda 

derreterse o sevo. E algumas veces entrava depois do fogo acesso i 

e se asentava em sua cadeira; e com estas feitizerias enganava 



LIVRO I, CAPITULO XXVI. 257 

aquella gente, de maneira que o tinham por grande santo e Ihe da- 
vam quanto fato queria. 

Do pe daquella serra ate a fonte semeam muyto trigo e ce- 4- Nilus e fond- 

* 1J11J jj 1 '^ ^i_v bus primo sub terra 

vada, e aroda della da vanda do sul pera oriente e norte ha hum decurrit, paulo poat 
bom pedaQO de mato baixo, que se parece com tamargueira, e de- ©«leraus recipit duo« 

rivulos et fluxnexi 

pois muytas terras que semeam, e sera tudo como huma legoa de jamA, et post 35 leu- 
campo ; mas por qualquer parte que queram ir a ella (excepto vindo fl^™^n*^[^,^DamI 
daquelle bico) se ha de subir, e por todas as partes podem, ainda biA, unde post 6 leu- 

. cas effluit. 

que poUa vanda de oriente e occidente he mais alta e dificultosa 
a subida. De nortc a sul se passa facilmente e pera a vanda do 
sul, como huma legoa da fonte, esta hum valle fundo e largo, onde 
nace huma ribeira muyto grande, que vai a entrar no Nilo e pode 
ser que venha da mesma fonte decima. O fio da agoa, que vai por 
debaixo da terra, quando sae daquelle circuito redondo da fonte, 
corre pera oriente por espago de hum tiro de espingarda, se- 
gundo mostram as hervas e a aparencia da terra, que por alli 
he mais baixa como ribeira nam muyto larga, e logo yai decli- 
nando mansamente pera o norte, e tendo andado como hum 4° de 
legoa, se descobre a agoa entre humas pedras e faz huma ribe- 
rinha que, quando eu a vi, nam era de grossura de hum homem, 
posto que em outros tempos he maior, segundo dicem ; e pouco mais 
adiante se le juntam duas ribeiras piquenas, que vem da vanda de 
oriente, e depois recolhe outras muytas, com que sempre vai en- 
grossando, e tendo andado pouco mais de hum dia de caminho, re- 
colhe hum rio grande, que se chama Jama. Depois, dando muytas 
voltas, vai pera occidente e tendo andado 20 ou 25 legoas, ja he 
rio g^ande, e comcQa a declinar pera o norte e vai voltando sem- 
pre, de maneira que a as 35 legoas de seu curso, pouco mais ou 
menos, torna a correr a oriente e entra por huma ilharga de huma 
lagoa grande, que esta entre a provincia, que chamam Bed do reyno 
de Gojam, e o reyno de Dambia. E eu cheguei ao lugar por onde 
f.io7iV. entra e depois passei *bom peda^o adiante e, olhando da borda da 
lagoa de lugar alto, me pareceo que passa o rio por dentro della 
como meia legoa e engergase muyto bem o fio de sua conente, 
quando a lagoa esta em calmeria, como entam estava, porque hu- 
mas hervas verdes, que traz o rio antes Je entrar nella, as vai le- 
vando mansamente sem se bulirem as palhas e outras cousas que 
de huma e outra vanda estam sobre a agoa da lagoa. E ainda que 
nam cheguei ao lugar por onde sae della, conforme ao que dalli 

C. Becc ARi. Rer. Aeth, Script, occ, tned, — II. 3j 



258 HISTORIA DE ETHIOPIA 

me mostraram e o tempo que deciam tardava hum homem cami- 
nhando bem em chegar da entrada a saida, seram seis legoas pouco 
mais ou menos. Mas, quando sae da lagoa, leva muyto mais agoa 
da que tracia quando entrou, e ainda que he rio muyto grande, 
toda via por algumas partes onde espraja se passa a pee no verao. 

5, E lacu pcr 5 Como sae da lagoa, vai declinando pera o sul muyto devagar, 

leucas currit versus ^jjj «i i_ i.^ u 

meridiem usque ad ^ tendo andado como cmco legoas, chega a huma terra que cha- 
Aiat&, ex cuius ru- mam Alata, onde cae a pique por humas rochas, que teram de alto 

pibus ita praeceps 

ruit ut aqiiae in va- catorce bracjas e sera necessario funda pcra chegar com pedra de 
5rcr.rr"^i"„^ vanda a vanda; e no inverno da pancada que da em baixo se le- 
Oojim habens ad vanta agoa como fumo no ar, tanto que se vee de muyto longe, 

orientem Begmedftr, . • j. ^ ^ -^ j 

inde Amhar4, olacA, como eu VI muytas veces; e pouco mais adiante se estreita de ma- 
Xao^ et Damdt. Ora- ^^1^^ entre duas rochas, que facilmente atravesam paos de huma 

ditur dem per re- ^ ^ 

gnum Fazcol6 et a outra e facem ponte, por onde algumas veces passa o Empera- 

OmbareA, ultra quo- - ^, . j.jii'r i.i_ 

rum fines Auctor fa- ^^^ ^^^ ^*^^^ ^eu exercito, e perto de alh faz a mesma rocha hum 
tetur se nequivisse arco, por onde alfifuns, que sam mais atrevidos, passam, ainda que 

ulterius cursum Nili ir o x 

investigare. por cima he muyto estreito. Aqui Ihe fica pera oriente o reyno de 

Begmeder, e corre alguns dias por entre elle e Gojam; logo o reyno 
de Amhara, depois Olaca e logo o reyno de Xaoa e apos este o 
de Damot, dando sempre volta a longo do reyno de Gojam e che- 
gando de fronte de huma terra, que chamam Bizan da vanda de 
Damot e outra que se chama Gumar (^anca da vanda de Gojam, 
vem a estar o rio tam perto de sua fonte, que se pode chegar a 
ella em hum dia. E preguntando eu diante do emperador Seltan 
(^agued a seu irmao Eraz (^ela Christos, quantos dias de caminho 
seriam de Gumar ^anca, indo poUa ribera acima ate chegar a sua 
fonte, foi elle contando com alguns homens grandes, que estavam 
presentcs, e acharam 29, se bem me lembra. De Gumar ^anca adiante 
ainda vai correndo alguns dias a roda de Gojam e depois passa 
por entre o reyno de Fazcolo e o de Ombarea de gentios muyto 
pretos, que o anno de 16 15 sugetou com grande exercito Eraz 
(^ela Christos, e por ser terra tam grande e pouco conhecida, a cha- 
maram elles Ayez Alem, que quer dicei « novo mundo ». Dalli 
por diante nam *senhorea o Emperador, nem sabera dar re^am dos f. 108. 
nomens das terras nem do curso do rio, mais que dicerem que vai 
por terra de Cafres gentios pera o Cairo. 

6. Refenmtur ve- Deixando pois de seguir o curso deste grande rio, passarcmos 

terum scriptorum 1 j 1 ^ 1 

et Urretae opiniones ^ ^^^ *^ re^am de sua annual crecente, que, por ser sempre em hum 
de causis inundatio- mesmo tempo e este de julho por diante, quando em outras partes 

num Nili. 



LIVRO I, CAPITULO XXVI. 259 

se diminuem e se vam secando os rios, fez tanta dificultad a sam 
Irineo lib. 2 Adversus haerescs c:ip. 47 (como refer frey Luis de 
Urreta pag*. 303) que, com tracer muytas opinioes, nam se atreveo 
a dar por certa nenhuma, senam que disse que a verdade Deos a 
sabia; e Lucano e Abulense dicem que he segredo de nature<;a 
muy escondido, e Theodoreto confessa que nam o entende, e ou- 
tros, que guiados por so seu discurso quiseram dar a causa, disse- 
ram mil disparates, como que, soprando os ventos ao contrario da 
corrente do Nilo, detinham as agoas, e assi creciani em alto. Ou- 
tros, que a muyta area, que leva o Nilo, se detem nas bocas por 
onde cntra no mar, e fecha seu curso e, tornando as agoas detindas 
pera atras, causam a inunda^am de Egypto. Ate Aristoteles prin- 
cipe dos philosophos, em hum livro que fez de rmindatione Nzlt\ 
disse que a longo do Nilo ha muytas fontes, que no inverno estam 
fechadas e no verao com a quentura do sol se dilata a terra e assi, 
saindo ellas, crece o Nilo. 

Tambem frey Luys de Urreta em seu 1° livTo pag. 305 philo- 
sopha a seu modo e attribue estas crecentes a as agoas do mar 
Oceano, que batidas em aquelle tempo com furiosos ventos entram 
por segredos arcaduces e veas ate a lagoa de onde nace o Nilo e a 
facem crecer e dalli vem crecer tambem o rio. 

Tudo isto vai muyto fora do que a experiencia, que nam pode 7. Eas falsas esse 

.... , demonstrat expe- 

enganar como o discurso dos homens. tem mostrado, nam somente rientia, quae faUere 
aos naturaes de Ethiopia, mas a todos os de Europa, que estamos ^®^.'*** ^^^^} ratioci- 

'^ r- ^ natio a prion. 

nella, e he que ordinariamente na entrada de junho come<;a em estas 
terras o inverno e chove tanto ate setembro e algumas veces por 
todo elle c parte de otubro, que nam somente os rios, mas as 
ribeiras muyto piqucnas crecem de maneira que nam se podem 
passar sem barcas, que facem de huma palha a maneira de junco, 
que, ainda que he de 4 dedos de grosso, como se seca, fica muyto 
leve e nunca se vam a fundo, ainda que se virem. Destas ribeiras 
ha muytas no reyno de Gojam, que no inverno parecem grandes rios 
e todas entram no Nilo, e de outras partes Ihe vem tambem muytas 
e rios caudalosos, que, depois de terem corrido muytas terras e re- 
f.io8,v. cebido no inverno grande *multidam de agoas, descarregam no Nilo. 
Tambcm a lagoa de Dambia, por onde (como acinia dissemos) passa 
cste rio, acaba dc hencher meiado agosto, pouco mais ou menos, com 
as muytas agoas que Ihe entram, o dalli por diante desagoa em elle 
com mais furia, sem se divertir por outra parte, porque nam sae della 



26o IIISTORIA DE ETHIOPIA 

outro rio nenhum, nem ainda ribeira, com Ihe entrarem muytas e 
muyto grandcs, particularmente no inverno. Esta pois he a verda- 
deira causa da enchentc annual do rio Nilo : as muytas agoas que 
se Ihe juntam, por ser inverno ca naquelle tempo e chover muyto. 
Todas as de mais, que dam, sam fabulas e meras imaginagoes. 
Na fim de setembro comcQam ordinariamente as agoas desta la- 
goa de Dambia a diminuir e as ribeiras a baixar, por ir faltando 
a chuva e consiguientemente o Nilo. Mas nam se acaba isto tam de 
pressa que nam leve mais agoa da ordinaria ate o Natal. 
8. Piscium multae Por algumas partes de sua ribeira nam tem arvores nenhumas ; 

species in Nilo et , . , , 

esuioptimae.Dehip- P^r outras as cria muyto altas, como sam cedros sylvestres e outras 
popotamis et de tor- arvores, que nam ha em Espanha. Andam nelle cavallos marinhos, 

pedine vera narran- ^ ^ ^ 

tur. que ca chamam Gumari e a gente que passa em as embarcagoes se 

guarda muyto delles, porque algumas veces arremetem e, pondo as 
maos sobre ellas, as biram com sua grande forga e peso e matam aos 
que alcan^am com os dentes, que os tem muy cumpridos. Ha grande 
multidam de peixe de muytas sortes e gordo, por achar bem que co- 
mer, e entre elle o que nos chamamos em latim torpedo e a gente de- 
sta terra chama Adenguez, que quer dicer « espanto >, porque, como 
elles dicem, quem o toma na mao, se vole, fica espantado e ainda Ihe 
parece que todos os ossos se Ihe descojuntaram ; como Ihes sucedeo 
a alguns Portugueses, que mo contaram, e principalmente a seu capi- 
tam Joam Gabriel, que, estando huma vez folgando com outros na ri- 
beira do rio, tirou com sua cana hum peixe de mais de hum palmo, 
sem escama, que se parecia muyto com cacjam, e veio sem bulir, e to- 
mandoo na mao, pera o tirar do anzol, como bulio, o tornou largar, 
porque Ihe pareceo que todos os ossos ate os dentes se Ihe abalaram 
e que ficara fora de si, e ouvera de cair, se nam estivera asentado. 
Tornou logo em si e entendeo que peixe era, c por ^ombar de hum 
seu criado, o chamou e disse que tirase aquelle peixe do anzol, e 
tomandoo na mao, bulio e logo elle caio no cham fora de si sem saber 
que Ihe sucedera, e tornando a se levantar disse : Senhor, que fiz a 
vossa merced para que assi me espancase? Rio muyto o capitam 
e os demais, vendo quam desacordado ficara, que nam sabia o que 
Ihe succedera. Esperaram que morrese o peixe pera o tirar do anzol. 
E disseme o Capitam que tinha *pera si que, em quanto nam bole, f. 109. 
nam causa aquelle effeito, porque elle nam sintio nada em quanto 
nam bulio ; e que outro Portugues tirara outro destes peixes de hum 
covado de cumprido. 



LIVRO I, CAPirULO XXVI. 26 1 

Do que temos dito se vee claro quam mal informado foi frey 9. Referuntur 
Luis de Urreta sobre as cousas do rio Nillo, pois, falando de suas dcTontS^usNiiiaiia- 
fontes, que poem em huns montes inaccessiveis, diz estas palavras q^« valde absona ad 

hoc flumen spectan- 

pag. 298 de seu 1° livro: « Son montes asperissimos y tan altos que tia, quaecum Auctor 
« los Alpes y Pireneos son humildes cho^as en su comparacion. L^^ "r^mimwibus 

« Llamanlos los naturales los montes Gafates. Es la subida destos regni, risum excita- 

vit. 
« montes tan difficultosa que humanamente no se puede subir a la 

« cima de ellos, por las muchas aguas que continuamente baxan, 

« porque estan Uenos de pantanos, fuentes, arroyos, desgoladeros 

« y aun rios caudalosos, las quales aguas todas se vienen a recoger 

« en un gran lago, que llaman con el nombre de los montes Gafates, 

« y el Zaire por otro nombre, y el lago Zambra, que, como es tan 

« grande y espacioso, scgun las diversas provincias que bafia, le 

« dan los nombres. Es una de las grandes lagunas que deve de 

« tener el mundo, porque de largo norte a sur tendra cerca de 1 50 

« leguas, y de ancho en el medio tendra mas de 80 leguas. Del 

« salen tres famosos rios: el Zaire y Aquilunda hacia el puniente, 

« y el Nilo que corre siempre hacia el norte ». 

Tudo isto he muy diferente do que na verdade passa, porque 

a fonte do Nilo nam esta senam em aquelle campo que dissemos 

se faz sobre os montes, nem alli ha outra lagoa nenhuma mais 

que aquelle piqueno circuito que os olhos da fonte tem aroda, por 

onde no vei-ao se pode andar da maneira que fica dito; nem ainda 

em quanto senhorea o Preste Joam se achara lagoa tam grande 

como hum ter^o do que elle diz; nem dos montes sae agoa mais 

que algumas ribeiras muyto piquenas, nem sam tam altos que se 

possam comparar com os Alpes e Pireneos, quanto mais dicer que 

estos sam humildes cho^as em seu respeito, nem se chamam montes 

Gafates, mas o principal Guix, como ja dissemos; nem a subida he 

tam difficultosa, que nam se possa chcgar a cima por todas as 

partes e por duas muyto bem ; e assi o emperador Malac Qagued 

atravesou por alli huma vez com grande exercito e asentou suas 

tendas aroda da mesma fonte, e oje estam comigo alguns dos 

Portugueses que entam o acompanhavam, e o emperador Seltan 

Qagued passou com grosso exercito a longo da fonte na fim de 

abril de 1618. 

f.io<),v. *Nem he menos fora de proposito o que diz mais adiante, 

pag. 300, que o rio Nilo entra polo reyno de Tigre Mohon e 

adiante se divide em dous grandes bra^os c faz a famosa ilha Meroe, 



262 HISTORIA DE ETHIOPIA 

que tem de cumprido cem legoas e de largo 34, e que o bra^o que 
fica ao levante divide a ilha do reyno de Lacca e Barnagasso; 
porque primeiramente as terras que govema Tigre Mohon nam sam 
reyno, senam huma certa parte do reyno de Tigre, mas sam terras 
largas, e por isso diz Francisco Alvares em sua Htstoria Ethiopica 
fol. 40, que he reyno muyto grande ; e se por Bernagasso quer dicer 
Bahar Nagax, como em outras partes de seu livro faz, este governa 
outras terras do reyno de Tigre da vanda do Mar Roxo que chegam 
perto de Arquico, e assi, por la parte que o Nilo esta mais perto 
das terras de Tigre Mohon e das de Bahar Nagax, ficam no meio 
tres provincias muyto grandes e o reyno de Dambia. Nem ha tal 
ilha Meroe em quanto o Nilo passa por las terrsis do Preste Joam, 
como me affirmaram muytos e elle mesmo me disse que nunca 
ouvera falar em tal ilha, nem sabiam que o Nilo tivesse alguma 
povoada, e que as que facia em sua terra eram muyto piqueninas, 
que nam se podia estar nellas. 

Com esta ocasiam Ihe referi diante de muytos grandes o que 
frey Luis conta mais adiante pag, 303 e 307, que perto dc esta 
ilha tinha elle posta muyta gente esperando poUo aviso dos que 
em outra parte vigiavam certos po^os de pedra, onde estava sinalada 
con numeros a medida da crecente que era necessaria pera a ferti- 
lidade de Eg)'pto, e como a agoa chegava ao sinal que tinham 
posto na pedra, partiam poUa posta em dromedarios, e chegando 
com o recado aos que cstavam perto da ilha Meroe, divertiam a 
agoa da henchente do Nilo pera o Mar Roxo por humas grandes 
acequias que tinham feitas pera que nam innundase demasiadamente 
Egypto ; e porque de tudo nam tirase o rio e ficasem la perdidos, 
Ihe pagava o Turco, cuja he a terra, cada anno trecentos mil zcquies 
de ouro, que tem cada hum 16 reales. Riram muyto todos da fabula, 
ate o mesmo Emperador c disseme que nem elle tem, nem tiveram 
seus antepassados tal gente posta no rio, nem se diverte a agoa 
de sua henchente pera parte nenhuma, nem o Turco Ihe paga, nem 
pagou nunca tal tributo. Por onde val muyto pouco o que frey 
Luis traz no fim do 3 livro do doctor Luis de Bania, que diz paga 
o Turco tributo ao Preste Joaui. 

Nam me maravilho muyto dcstas fabulas, se sam informa^oes 
de Joam Balthesar, porque ainda o que affirmou com juramento 
por verdade o acho muyto longe della, como o que diz frey I-uis 
pag. 305, quc Ihe jurou que no anno de 1606, em que elle parteo 



LIVRO I, CAPITULO XXVI. 263 

de Ethiopia, avia dez annos que nam chovia, sendo assi que, en- 
trando eu nella em mayo de 603, achei os cuatro meses siguintes 
muyto grandes chuvas no reyno de Tigre, onde estive, e disseramme 
depois que no reyno de Gojam foram muyto maiores, e o anno de 
f. iio. 604 estive *julho, agosto e setembro em Gojam hum dia de caminho 
da mesma fonte do Nilo, e foram tam grandes as chuvas e as 
enchentes das ribeiras, que nam somente nam pude chegar a ella, 
mas nem sair casi de casa. E depois, sendome for^ado ir pera 
outra parte, achei em otubro tantas lamas, que nam podia caminhar 
a mula senam con muyto trabalho. Tambem preguntei a homens 
honrrados de 60 e 65 annos, se viram que algum anno deixase de 
chover em estas terras, e nie aflirmaram que em toda sua vida 
[nam] viram tal cousa, nem ouviram dicer nunca que sucedese. Do 
que se pode ver o credito que se deve dar a as informacjoes de 
Joam Balthesar. 



\ 



CAPITULO XXVII, 



Dos rios Mar&b e Tacac£ e do discurso de suas correntes. 



Ao rio Marab chama frey Luis de Urreta, no cap. 29 de seu i. Commenta Ur- 

^ «. -Tk • xT «1 retae circa flumen 

i^ livro, Rio Negro, nam porque suas agoas nam sejam claras e Mar^bquodipseper- 
transparentes, senam porque corre sempre por terra de negros: e P«ram Flumen Ni- 

gprum appeUat. 

que seja este o rio de que elle alli fala, mostrase polla descrip^am 
que poe, dicendo que nace perto do convento da AUeluya no reyno 
de Tigre Mohon em Ethiopia e que divide o reyno de Dambia do 
reyno de Medra, ainda que deste nomem nam sabem dar regam 
em Ethiopia; e conta deste rio tantas maravilhas, antepondoo em 
riqueQa a todos os rios do mundo, que me obrigou a deixar pera 
depois outros rios caudaloso[s], que estam mais perto do Nilo, e 
tornar atras ate perto do Mar Roxo, pera tratar delle, nam porque 
mere^a compararse com aquelles, senam porque, ja que frey Luis 
Ihe da o primer lugar depois do Nilo, nam sera bem falar de outro, 
antes de declarar ao leitor quam verdaderas sejam as cousas que 
delle escreve ; pera o que sera necessario referir ao menos em soma 
o que elle conta diffusamente. 

Diz pois, falando naquelle capitulo do Rio Negro, estas palavras : 
€ Su nacimiento, segun tienen por cierto los Ethiopes, es unos gran- 
€ dissimos pantanos, resumaderos [szc] y lagunas que estan junto del 
€ convento del AUeluya, que es de la Orden de los Predicadores, en 

C. Beccari. ^#r. Ae/A, Scrs//, oee, ined, — II. 34 



266 HISTORIA DE ETHIOPIA 

« el reyno de Tigre Mohon en la Ethiopia, cujas aguas tomando 

« su camino para hacia la Equinocial, se hunden baxo de tierra y 

« vienem a salir em una grande laguna a la qual Uaman el Lago 

« Negro, que tiene de largo norte a sur poco mas de 40 leguas y 

« ancho unas 20; deste lago sale el Rio Negro, sirviendo de terminos 

« y limites *de toda la Ethiopia para la tierra de Negros divide f.iio,v. 4 

« el reyno de Ambian cantiba (ha de dicer Dambia, porque assi 

« se chama o reyno e ao Vissorrey qualquer que for chamam 

« Cantiba) que es de la misma Ethiopia, del reyno de Medra; y 

« saliendo de la Ethiopia divide el gran reyno de la Nubia del reyno 

« de Biafara, y llegando a unos grandes montes se hunde por baxo 

« tierra, y caminando mas de 30 leguas escondido, sale con grande 

« impetu en el reyno de Zafara, haciendo un grande lago que corre 

« leste oeste y de levante a poniente 50 leguas de largo y de ancho 

« tendra 30, y passando adelante y saliendo del reyno de Mandinga 

« y del reyno de Cano, hace un grande lago, donde se rebalsa por 

« muchas leguas de anchura. El lago es triangular, y cada lado tiene 

« cerca de 46 leguas, de suerte que tendra de circuito ciento y 

« treinta y ocho leguas. Llamase el lago Guarda. Desta grande 

« laguna sale el Rio Negro, llebando su curso para el puniente y 

« entrando entre el reyno de Tombotu al norte y el reyno de Melli 

« a sur, recoge un rio de su nombre, y aqui se buelve a reba,lsar, 

« haciendo una lacuna de 30 leguas de largo y 1 7 de ancho, de 

« donde nacen cuatro rios caudalosissimos, en que se divide el Rio 

« Negro: el uno corre hacia el norte entre el reyno de Caragoli 

« y el reyno de Genchoa, y entrando en el reyno de Arguim, de- 

« semboca en el Oceano meridional a los 19 grados de altura. 

« Llamase este rio de s. Juan y causa en su boca un buen puerto 

« que llaman de Tofia, y esta poco mas de 30 leguas baxo del Cabo 

« Blanco. El otro rio, en que se divide el Negro, corre derecho a 

« poniente por el reyno de Senega, de^sjemboca en cima de Cabo 

« Verde. El 3°, en que se divide el Negro, corre derecho a poniente y, 

« dividiendose en dos bra^os, desemboca en el Mar Oceano, cerca de 

« 30 leguas encima del Cabo Verde hacia la Equinocial. El ultimo 

« ramo del Rio Negro luego se divide en dos : al uno llaman rio de 

« s. Domingo, y descarga sus aguas en el mar cerca de la ciudad 

« de Stacara, a los trece grados ; el otro bra^o, declinando hacia la 

« Equinocial, hace a la entrada del mar de la otra parte del Cabo 

« Roxo una grande ensenada, y Uamanle a este bra^o Rio Grande. 



LIVRO I, CAPITULO XXVII. 267 

« Este es el discurso que hace el Rio Negro, el qual es el mas 
« rico que deve de tener el mundo universo, porque, no solo en sus 
« arenas se halla oro muchissimo y en gran abundancia y muy fino, 
« sino que tambien se hallan muchas piedras preciosas y ricas: 
€ hallanse rubins los mayores y mejores que se hallan en toda la 
« Africa, hallanse zafiros, esmeraldas, topacios y muy finos, y es de 
f. III. « manera la riquega deste rio, que las mas piedras preciosas *que 
« estan en el guardajoyas del monte Amara, como se dixo arriba, 
« se an sacado deste rio. Hallanse grandes pedagos de piedras de 
« granate y en tanta abundancia que se servian de ellos antigua- 
« mente para piedras de silleria en los edificios de los templos, 
« porque no conocian su valor y precio; pero despues que el Duque • 

« de Florencia don Francisco de Medicis embio al Preste Juan 
« muchos lapidarios y officiales para que labrasen piedras, les en- 
« senaron el valor del granate y de otras muchas, y destos Italianos 
« aprendieron los Abissinos a labrar las piedras preciosas ; y en 
« especial de los granates hacen mil maneras de jarros, agiiamaniles, 
c y vasos curiossissimos. 

« En sus orillas ay mil suertes de arvoles hojosos y enramados 
« que revisten sus riberas, agradables a la vista y en particular 
« donde se hunde debaxo tierra, todo aquel espacio de mas de 30 
« legfuas es la tierra la mas frutifera y abundante que tiene toda 
« la Ethiopia ni aun la Africa. Acuden a esta puente muchos gen- 
« tiles del reyno de Beafrix, del reyno de Zafe e de otras partes, 
« por goi^ar de la frescura de los arboles y dehesas, donde hacen 
« sus fiestas a la creciente de la luna, a la qual adoran. Ay grandes 
« praderias para ganados, y ansi son innumerables los que en esta 
« puente pasturan assi de la Ethiopia como del reyno de Borno. 

« Cogense en este rio muchas perlas y de las buenas que se 
« hallen en toda la India. El artificio para coger las perlas es este. 
« Echan unos maderos y grandes troncos en la boca del Rio Negro 
« en el Oceano que Uaman Rio Grande, y alli por cierto tempo los 
« ostiones se pegan a los troncos, los quales tienen prendidos con 
« sus fiadores, y assi sin peligro ni trabaxo ninguno cogen los 
« ostiones y sacan las perlas ; para la qual pesca tiene el Preste 
« Juan sus guardas y juntamente sirven los desta guardia para coger 
« el ambar que arrojan las vallenas en el Rio Negro ». 

Ate aqui sam palavras dei frey Luis de Urreta, mas casi todas a.Refutanturcom- 

.. r t ^ r 1 1 menta. Flumen Ma- 

quantas cosas diz sam fabulas tam labulosas que nam sei como as ^^^ ^qq habet scate- 



268 HISTORIA DE ETHIOPIA 

bras prope monaste- inventou quem Ihas meteo em cabe^a pera as escrever ; porque pri- 
alTw- co lod vertit rneiramente o nacimento do rio Marab, a que elle chama Rio Negro, 
adoccidentemetpost n^jn sam os pantanos e lagoas, que poe perto do convento de Al- 

circiter 50 leucas in- 

fluit in flumen Taca- leluya, que alli nam ha mais que huma lagoa muyto piquena, que 

ultra dccurrit in^rcl ^® ^^^^ "^ verao ; nem o convento he de frades de s, Domingos, 
gnum Dequln. que nam os ha nas terras do Preste Joam, como ja temos dito e 

mostraremos no fim do 2^ livro; e ainda que o rio se sume debaixo 
da terra, quando torna a sair, nam faz a lagoa que diz de 40 legoas, 
nem adiante sirve de limites de toda Ethiopia, como logo, falando 
de seu discurso, declararemos, e muyto menos divide depois Dambia 
do reyno de Medra, porque, conforme alli fala, ja entam tem pas- 
sado o rio *das terras que senhorea o Preste Joam, e entre elle e f.iii,v. 
Dambia ha grandes provincias. Nem he possivel que va a entrar 
no Oceano perto do Cabo Verde, porque, demais de ser cousa muyto 
disparata, fica no meio o rio Nilo, que saindo do reyno de Gojam 
faz seu curso, como dissemos no capitulo precedente, e passando 
do Cairo entra no Mar Mediterraneo, como todos sabem e o mesmo 
frey Luis diz pag. 301. E o convento da Alleluya esta no reyno de 
Tigre seis dias de caminho de Arquico ou Adecono, como ca dicem, 
da costa do Mar Rcxo, e do convenuto da AUeluya vai declinando 
ao poente e, tendo caminhado alguns dias, entra, segundo alguns 
dicem em hum rio grande, que se chama Tacace, de que logo fa- 
laremos, posto que outros affirmam que nam, senam que se acaba 
no reyno Dequin; mas ainda que passara adiante, era impossivel 
passar ao Mar Oceano, porque forcjadamente avia de encontrar com 
o Nilo. 
3. Sazis tantum- Quanto ao que diz, que [he] o rio mais rico de ouro e pedras 

modo dives non au- . . 

rovel lapidibuspre- preciosas que deve ter o mundo, enganouse muyto, porque nam se 
tiosis, immo paupcr j^cha nelle ouro nenhum, nem os rubins, zafiras, esmeraldas e to- 

aquarum terras ab- 

luit omnino steriles. pacios muyto finos que diz ; antes topadas muyto finas, porque nam 

faltam cjlhaos que quebrem os pes dos que se descuidam ao passar 
que nam he tam grande rio que nam se passe a pee ainda no in- 
verno. Ja as pedras de granate que poem em tanta abundancia que 
edificavam os templos com ellas, nem as ha, nem sabem que cousa 
he ; nem ha memoria de que o Duque de Florencia mandase nunca 
lapidarios nem outros officiaes ao Preste Joam. Tambem o que diz 
que em particular, de onde entra este rio debaixo da terra ate que 
sae, he terra mais frutifera e abundante que tem Ethiopia e de 
grandes pastos pera os gados, he fabula como o demais, porque 



LIVRO I, CAPITULO XXVII. 269 

nam he senam terra esteril e de muyto pouca erva, por ser area, 
posto que ha algumas arvores frescas, mas nam de fruto. Nem he 
menos fabula e imaginac^am sem fundamento dicer que tirem deste 
rio perolas e recolham ambre, porque nenhuma destas cousas ha 
nelle, nem em outro nenhum de quantos senhorea o Preste Joam, 
e quando concederamos hum absurdo e impossibilidade tam grande, 
como he que saia ao Oceano perto do Cabo Verde, era impossivel 
ao Preste Joam por la gente de guarda para recolher as perolas 
e ambre, pollos muytos e grandes reynos e provincias incognitas e 
nunca ouvidas em Ethiopia, que estam entre ella e o Cabo Verde. 
Por onde, deixando estas fabulas, diremos brevemente alguma 
cousa do nacimento e discurso deste rio Marab. 

Tem o rio Marab sua fonte como duas legoas pera occidente 4* Scatebra flumi- 

-, -11 ^ TNi_A t_ j nis MarAb ct eius de- 

de huma villa, que chamam Debaroa, se a hemos de nomear como cursua exacte descri- 
se escreve nos livros de Ethiopia, que muyta da gente comua nam buntur ab Auctore. 
a chama senam Baroa. Aqui reside de ordinario o governador da- 
quellas terras, a quem chamam Bahar Nagax, porque vem a deferir 
f. 112. *e pagar dereitos alli o fato que tracem os mercadores de Ethiopia 
da ilha de Macpua do Mar Roxo, onde chegam as naos da India, 
que esta tres dias de caminho de Debaroa. Duas legoas pois desta 
villa tem sua fonte o rio, que fui a ver, pera milhor dar re^am della ; 
e esta entre duas rochas, huma afastada da outra de^aseis covados, 
e de alto teram vinte. Como a agoa sae de entre ellas, vai por 
huma lagem chaa 36 passos e logo cae a pique por huma rocha 
da mesma pedra muyto funda, e entam, por ser na fim do verSo, 
era tam pouca agoa, que depois que caia em baixo, corria muyto 
pouco espago sem se secar, e disseramme que os mais dos annos faz 
assi naquelle tempo, mas, quando corre, vai dereita a oriente, e 
deixando Debaroa a mao dereita muyto perto Ihe entra alli huma 
ribeira arra^oada e vai dando volta pera o sul. Depois se Ihe chegam 
outras ribeiras, mas sempre vai passando com nome de Marab, e 
volta a roda de huma provincia que chamam Zaraoe, que Ihe fica 
a mao dereita, e a izquerda outra que se chama Zama e outra Guela; 
logo se continuam as terras de Tigre Mohon, A^a, Harice, Torat, que 
sam grandes provincias, e com tudo isso he tal Zaraoe, que ella so fica 
correndo da vanda dereita do rio em quanto as outras se continuam 
a izquerda; e aos tres dias de caminho ja declina pera o norte e 
chega ao mosteiro da Alleluya, que Ihe fica a mao izquerda em hum 
alto monte como hum tiro de espingarda, e de huma e outra vanda 



2 70 HISTORIA DE ETHIOPIA 

do monte Ihe vam duas ribeiras piquenas, e faz seu caminho por 
entre grandes serras de basto monte ; e em quanto eu pude alcan^ar 
com a vista do alto do mosteiro, nam vim se nam cousa muyto pouca 
lavrada; e passando dalli algumeis legoas, entra debaixo da terra 
e vai a sair trece dias de caminho, e alli chamam ao rio Taca, 
que quer dicer agoa espalhada. 

5. Quid rctulerit Toda esta terra, que serve de ponte ao rio, dicem que he esteril, 

Auctorijoam Gabri- •Jii ij. 'j. ^ -n ^. t 

el circa flumen Ma- P^^ ^^^ ^ mais della area solta ; e o capitam dos Portugneses Joam 
^^^' Gabriel me affirmo que caminhara por ella tres dias em companhia 

de hum Vissorrey de Tigre. que se chamava Azmach Dargot, e que 
achavam muyto pouca herva, mas que avia arvores frescas, com 
cuja sombra folgavam muyto poUa grande calma que alli facia, e que 
pera beber cavavam na area oito palmos de fundo e as veces 12 e 
achavam muyta agoa, que corria e peixe que tiraram com a[n]zol, 
e elle comeo dous grandes. Os moradores daquella terra sam gentios 
e obedecem ao Emperador, posto que mal. *Pouco mais adiante f.ii2,v. 
come^a hum grande reyno, que se chama Deguin : he de mouros 
muyto pretos, a que chamam Balous e nam obedecem ao Preste 
Joam, mas correm com amjzade e tracemlhe muytos e fermosos 
cavallos a vender e alguns Ihe presentam ; porem nam duram muyto, 
por certa doen^a que Ihes da em esta terra. 

6. Cur in regno Em este reyno Dequin rega o rio muytas terras, que logo como 

Dequln mutet nomen jji.'Ji. j'"j tt _^ 

et ulterius non pro- ^^® "® debaixo da terra, dividem os mouros a ago[aJ por muytas 
grediatur. partes ; e por isso se chama Taca, scilicet agoa espalhada ; e dis- 

seramme os moradores de la que todas as terras que rega sao as 
mais frescas, as mais fertiles e fermosa[s] que ha em Ethiopia. 
Alguns christaos dicem que, depois que rega aquellas terras, se vai 
a juntar com hum rio grande, que chamam Tacace, que depois entra 
no Nilo ; mas os mouros daquella terra me affirmaram que nam passa 
de seu reyno Dequin, senam que toda sua agoa se gasta em aquellas 
terras que rega e ainda nam basta, porque se some na area algumas 
dez legoas antes de chegar ao fim do reyno. 

7. FlumenTaca^ft Ja que ficemos menc^am de Tacace, que he rio muyto mayor 

e tribus scatebris ori- •\jr ^-l. • j. -j^j^ 

tur in loco dicto Ax- ^^^ comparagam que Marab, e eu o passei muytas veces, mdo de 
guaguAregniAng6t; Dambia a Tigre e tornando, que nam se pode ir de hum destes 

decurrit primo occi- 

dentem versus ha- reynos a outro sem se passar, sera bem dicer brevemente alguma 
canA et^Ote"ad ^e^ ^^^^^ delle. Tem suas fontes muyto perto dos limites do reyno de 
ptentrionem, EbenAt Angot, em huma terra que se chama Axguagna, ao pe de hum alto 

et QuinfAz ad meri- ,, /- 1, , 

diem; inde flectit ad nionte que Ihes fica a oriente, e sam tres olhos gjandes que saem 



LIVRO I, CAPITULO XXVII. 27 1 

do fundo con muyta furia como fervendo, hum afastado de outro septentrioncm me- 

. j- ^. j j .^^j dius inter Bargal€ et 

como 20 passos, e pouco mais de num tiro de pedra se juntam todos cemftn et inter Ti- 
tres e facem cfrande ribeira, correndo pera occidente por alcTuns dias ^frft et ZalAmt cum 

*^ ^ ^ r- o deserto AldubA. Est 

entre as provincias Dacana e Oag da vanda do norte, e Ebenat e valde dives aquarum 
Quinfaz da vanda do sul, e depois com muytas voltas vai declinando ti^J^^quia^requent^^^ 
pera o norte, deixando a mao dereita a provincia de Bargale, e a crocodili. 
izquerda a de Cemen, que he de serranias as mais altas e asperas 
que casi ha em quantas terras senhorea o Preste Joam e por estremo 
frias. Passando adiante correndo ja dereito ao norte, deixa a mao 
dereita a provincia de Tamben, a de Adet e de Zana do reyno de 
Tigre, e a izquerda Zalamt, que he muyto grande. Por aqui o passei 
eu a vao no verao com muyto grande trabalho, porque traz muyta 
agoa e nam espraya muyto; e prosiguindo assi seu curso pera o 
norte, deixa a mao dereita a provincia de Sirei do reyno de Tigre» 
e a izquerda o deserto de Alduba, que he hum mosteiro de frades, 
a quem concederam os Emperadores que casi em tres dias de ca- 
minho indo a Dambia e pera occidente muyto mais, nam se povoase, 
porque folgam de estar solitarios, pera con mais commodidade se 
darem a ora^am e facer suas penitencias. Ate aqui vem este rio por 
entre serras muyto altas e montuosas, e por esta parte, ainda que 
tambem o sam, tem bom passo no verao, porque espraya, e assi 
f. 113. poUo mais *fundo do vao nam chega a agoa mais que a cinta. He 
muyto clara, mas no principio do inverno que se come^a a enturbar, 
se passa com perigo, por causa dos lagartos que ha, que mordem 
a gente e aos animaes, e ainda alg^mas veces os levam, e assi 
naquelle tempo nam passam sem ir batendo na agoa com paos, e 
no inverno de nenhuma maneira se pode passar senam com certo 
modo de xangada [sic] que facem. 

Nam tem em toda sua ribeira arvores de fruto, mais que 8. Prope eius ripas 

- ^ . 1 . j ^ 1 .. T^ arbores fructiferae 

alguns tamarmheiros e nem destes se sabem aproveitar. Fouco nuUae: piscesmulti. 
mais adiante Ihe fica a mao izquerda huma provincia, que chamam Influit in Nilum pro- 

pe Berbftr. 

Oalcaoit, e passando della dicem que vai por terras muyto quentes 
ate entrar no rio Nilo, segundo me disseram alguns grandes diante 
do Emperador, e facendo eu dificultad, por me parecer que seu 
curso era muy diferente do do Nilo, disse o Emperador que nam avia 
duvida, que era cousa muyto sabida; e depois os moradores de 
huma terra, que se chama Berber me affirmaram que perto de seu 
lugar se juntava com o Nilo. He rio de muyto peixe e muyto bom 
e dicem quc tambem ha cavallos marinhos. 



W 



CAPITULO XXVIIL 



£m que se trata dos rios Zebt e Haollx. 



Entre outros muytos rios, que ha em as terras que senhorea o x. Flumen Zebfc 
Preste Joam, muy caudalosos e de grande 'nome, depois do Nilo (a regniNareA:fluitpri- 

quem, como ja dissemos, chamam Abaoi) sam Zebe, de que dicem ^^ occidentem ver- 

8U8, dem ad aepten- 
alguns em Ethiopia que ainda he maior que o Nilo, com o nam trioncm, cixcumien^ 

ser, e Haoax, que tambem affirmam compete muyto em grandeija ^f^jj^i^nde ad^mcri- 

COm elle. dieni abluitque ter- 

raa CoratA. Variae 

Tem Zebe seu nacimento em huma terra que chamam Boxa do apud Aethiopea opi- 
reyno de Narea, que sam as ultimas terras que pera a vanda do ^/^^^^ ^® ^*^^ "^*f- 

•^ ' ^ ^ r- non decursu et in 

sul senhorea o Preste Joam ; e comcQando seu curso pera occidente, oceanam effluxu. 

dalli a pouco torna pera o norte e vay dando volta a hum reyno pi- 

queno que chamam Zenyero, que quer dicer « bugio », e assi se mostra 

aquelle rey aos seus como bugio, porque tem feito perto de sua 

casa hum motecinho de terra alto a modo de torrecinha e em cima 

esta huma tenda com alcatifas dentro, onde elle so sobe por detras 

sem ser visto, e como aparece acima, todos os que estam embaixo 

a vista se prcstram no cham ate chegar a fronte a terra e logo a 

beixam e alevantandose facem outras ceremonias que referiremos 

no 4 livro, quando tratarmos da viagem que o p. Antonio Fer- 

nandes de nossa Companhia fez por aquelle reyno, a que Zebe vai 

dando volta, de maneira que Ihe fica muyto pouco pera facer ilha ; 

C. Becjari. Rer, Aeih, Scripi, occ, ined, — II. 35 



2 74 HISTORIA DE ETHIOPIA 

e como se afasta delle, torna pera o sul e entra por huma terra, 
que chamam Corata e dicem que, depois nam muytos dias de ca- 
minho, vai a desembarcar no Mar Oceano, e alguns tem pera si que 
sae em Momba^a, ou *perto na costa de Melinde; e hum homem f.ii3,v. 
de huma terra vecinha ao reyno de Zenyero affirmou que hum seu 
criado fora, pouco tempo ha, por perto deste rio ate chegar a huns 
homens brancos que tinham fortale^a a longo do mar, e que seus 
livros tinhao as folhas por fora douradas, e outros vermelhas, e 
nam pode ser Mogambique, porque disse que caminhara poucos dias, 
e Mo^ambique esta muyto longe daquella terra e ha no meio, se- 
gundo dicem, tantos desertos e gentes tam incognitas, que nam so 
nam tem comercio com Mo^ambique, mas parece que nem o podem 
ter, ainda que queram. Outros dicem que o rio que v^ai a sair a 
Momba^a nam he.Zebe, senam outro nam inferior a elle. 
a. Flumen Haolbc O 2° rio de grande fama em Ethiopia depois de Zebe he Haoax, 

scaturit ad pedem , ju i. u/-i^^^ 

montis Gecualli qui ^ sae do pc de hum monte, que se chama Cjecuala e esta entre o 
dividit regna Fata- j-eyno de Fatagar e o de Oye pera o sul, e o reyno de Xaoa pera 

g4r et Oye a regno ^ n • r ^ j n- 

XAoa cuius terras ^ norte, e casi pera elle vai lacendo seu curso, e dalh a pcuco se 
abluit, donec ingre- jj^^ ajunta outro rio que se chama Machi e sae de huma lacfoa a 

diatur provinciam "^ * 

Au^Agural* regni A- que chamam Zoai no reyno de Oye, e depois entrando por Auga- 
nat' fcrtilitetc.^* °" g^rale, provincia do reyno de Adel, que he de mouros, rega todas 

aquellas terras e outras muytas do mesmo reyno, onde chove muyto 
pouco ou nada, e assi com muyta diligencia repartem a agoa do 
rio pera regar todas as que pode alcan^ar e as faz muyto fertiles; 
mas nam achei quem me dissese de certo se se acavava alli, ou pas- 
sava ao mar, posto que muytos tem pera si que passa. 
3. Somnia Urretae Frey Luis de Urreta no cap. 30 de seu 1° livro trata tambem 

erAqui?onda. *^" ^e dous grandes rios que diz ha em Ethiopia, a que ella chama os 

rios Zayre e Aquilonda, e affirma que saem da mesma lagoa que 
o rio Nilo. E comecando pollo Zayre. diz estas palavTas: 

« Su corriente es corta comparado com el Nilo, porque solo 
« riega dos reynos: el uno el de Gojame en la Ethiopia al oriente, 
« y entrando en el reyno de Congo al poniente, le atraviesa corriendo 
« por el por espacio del 125 leguas, y aunque es de tan corta cor- 
« rida, con todo es muy caudaloso y de hondura profundissima, de 
« muy ancha y estendida tabla, de tal suerte que pueden por el 
« navegar naves gruesas de alto bordo; solo ay un inconveniente 
« que en cierto passo ay unos escolhos y pefiascos, por donde se 
« va desgargantando el rio, de tal suerte que impiden la navegacion 



LIVRO I, CAPITULO XXVIII. 275 

€ y que no puedan subir naves del mar* a la laguna, ni baxar della 
« al mar. Pero el Preste Juan, que vive agora, con muchos oflficiales 
« y gente anda quitando los arrecifes del rio y con algunos inge- 
« nieros, que para este fin le ha embiado el Duque de Florencia, 
« para hacer la navegacion facil, que salido con esto, pueden las 
« naves, saliendo de la laguna y de la ciudad de Zambra corte del 
« Preste Juan, que esta en sus orillas, entrando por el rio y desembo- 
« cando en el Oceano, venir hasta Lisboa y Sevilla sin entrar en 
« otro seiiorio si no es el del rey don Phelippe 3*^, de suerte que 
f. 114. « *entrambos Reyes pueden comunicarse por sus proprias terras ». 
« De la misma laguna Gafates salen otros dos rios, mas arriba 
« del Zayre acia el polo antartico; el uno llamado Prata obra de 
« 30 legTias del rio Zayre. y a las 16 leguas del rio Prata nace de la 
« propria laguna el rio famoso Aquilonda. Su corriente es de le- 
« vante a poniente en el reyno de Malemba en la Ethiopia y cor- 
« ren por ella obra de 55 leguas y entrambos descargan sus aguas 
« en el gran lago Aquilonda, tomando el nombre del rio. 

« Todos estos rios crecem de la suerte que crece el Nilo en 
« los mismos tiempos, porque, como todos tengan su origen y ma- 
« nantial de la laguna Gafates, quando elia crece por los vientos 
« del Oceano, que es la ra^on dicha, es averiguado que han de 
« crecer ellos ». 

Ate aqui sam palavras de frey Luis de Urreta, todas bem dif- 4* Ex dictis refu- 
ferentes do que na verdade passa, porque em quantas terras sen- 
horea o Preste Joam nam ha taes nomens de rios Zayre e Aquilonda, 
nem Prata, nem tal lagoa Gafates, nem da lagoa, por onde passa 
o Nilo, sae outro rio nenhum, como dissemos no cap. 26; nem estes 
rios, ainda que os ouvera, creceram por crecer a lagoa com os ven- 
tos do Mar Oceano, como tambem elle disse pag. 305, onde tratou 
isto difusamente; porque isso he fabula, nem crecem os rios de 
Ethiopia de junho ate a fim de setembro, pouco mais ou menos, 
senam porque naquelle tempo he inverno e chove muyto, como ja 
dissemos. Tambem parece que faz ao reyno de Gojam contigno com 
o de Congo, porque diz que o rio Zayre rega sos dous reynos, o 
de Gojam em Ethiopia a oriente, e o do Congo ao poente. Mas he 
muyto fora de caminho, porque, demais de aver tantos reynos y 
provincias entre hum e outro, se cUe saira de Gojam, impossivel 
fora deixar de entrar no Nilo, porque este, como ja dissemos, da 
volta a Gojam, sem Ihe ficar mais que hum pouco ao poente, e o 



276 HISTORIA DE ETHIOPIA 

rio Tacace, de quem tambem acima falamos, com ficar de Gojam 
pera a vanda do norte seis ou 8 dias de caminho, vai a entrar no 
Nilo muyto abaixo no reyno de Dequin. 

Tambem he mera ficcjam que o Preste Joam, que vivia quando elle 
escrevia isto, que, como elle diz em outra parte, era no anno de 608, 
andava ocupado em tirar as rochas do meio do rio Zayre com muy- 
tos officiaes e algxms engenheiros que Ihe mandara pera este fim 
o Duquc de Florencia; porque eu entrei em Ethiopia em mayo de 
603 e casi de ordinario estive com tres Emperadores, que ate o 
anno de 608 ouve e sei mu)rto bem que naquelle tempo nam ouve 
tdl cousa; nem elles puderam ocuparse em isso, ainda que quise- 
ram, porque tudo ate entam ardeo em guerras e alevantamentos e 
dous destes Emperadores mataram em batalha os mesmos ale- 
vantados, e o Emperador, que entrou no imperio o anno de 1607, 
que agora vive e se chama Seltan Qagued, *tambem teve ate oje f.ii4»v. 
muytas guerras e alevantamentos, que Ihe derao tanto trabalho, que 
tinha mais necessidade de cuidar como se avia de defender que de 
se ocupar em tirar as rochos do rio ; nem elle sabe de taes rochas, 
nem ouvio falar ate agora nellas; e eu preguntei a homens gran- 
de|s] perto de 70 annos, que sempre andaram na corte, e me dis- 
seram que nunca ouviram falar em taes rochas, nem que o Duque 
de Florencia mandase officiaes, e quando tudo isto fora certo, nao 
o era que as naos podiam ir da corte do Preste Joam ate Lisboa 
e Sevilha, sem entrar em outro senhorio mais que o seu e o del 
rey dom Phelippe 3^, porque entre o Mar Oceano e as terras, que 
senhorea o Preste Joam, ha muytas que nam Ihe obedecem nem 
Ihe obedeceram nunca. 



CAPITULO XXIX. 

Em que se trata das principaes lagoas 
que ha em Ethiopia. 



Sam tantas as lagoas que ha em as terras que senhorea o Em- i. Dc lacubus Ac- 
perador de Ethiopia, que fora cousa muyto cumprida e pode ser iJ^^Zoid^ ^i^nve- 
que molesta ao leitor falarmos de todas ellas; pollo que nam no- nitur in regno Oys 

1 j . j'j ••1 ct7 leucas distat a 

mearei mais que algumas das maiores, deixando a prmcipal pera ^^^ ^^^^. circuitus 
o ultimo lugar, por ter cousas mais particulares, de que sera bem i^abct xo leucamm; 

. . rr 1 rr A . ^^ ^'^8 mcdio cst iu- 

tratar. E a pnmeira que se offerece he a que chamam Zoai, e esta sula parva, ibique 
no reyno de Oye como seis ou 7 legoas de Zef bar, onde o em- ^°^ fl*^jien Ma^^^ 
perador Atanaf Qagued teve sua corte 15 annos. Corre esta lagoa Propchuncaliuapar- 

vus lacus ^Cacalft 

de norte a sul, tanto que pera Ihe dar volta dicem que he neces- 
sario casi hum dia enteiro caminhando a bom passo, e he casi tam 
larga como cumprida. Tem no meio huma ilha piquena e nella 
hum mosteiro, em que estam alguns frades, que nam Ihes falta peixe, 
porque o ha alli em abundancia. Pera a vanda do norte sae della 
hum rio, que se chama Mache, e dalli a pouco entra no grande rio 
Ilaoax, como dissemos no capitulo precedente; e algumas tres le- 
goas desta lagoa no mesmo rcyno esta outra, que se chama Xacala, 
a que se podera dar volta em pouco mais de meio dia, e he muyto 
mais cumprida que larga. 



278 HISTORIA DE ETHIOPIA 

a. De lacu HAic Em o reyno de Angot perto do reyno de Amhara esta outra 

m regno g . lagoa, que chamam Haic e poderam dar volta aroda em meio dia ou 

menos. Tem huma ilha em que esta hum mosteiro e alguns frades e 
a igreja he de s. Estevam. Bem sei que Francisco Alvares, em sua 
Historia Ethiopica fol. 80, poe esta lagoa no reyno de Amhara; 
mas enganouse, por estar menos de huma legoa dos limites de 
Amhara, como me affirmou gente, que esteve muyto tempo la, e o 
emperador Seltan Qagued. 

3. Praecipuus la- A principal lagoa de quanta.s ha em Ethiopia esta entre o reyno 

cus est Dambi& Ba- j/-^»a 1 jt^-l»-- x i_ -r\i_"^ 

hAr. Habet 25 leucaa ^^ Cjojam ao sul e o de Dambia ao norte, a que chamam Dambia 
longitudinis,etx6la- Bahar, que quer dicer « mar de Dambia ». *Corre de norueste pera f. 115. 

titudinis. Planities 

quaecircumstantval- sueste, se hemos de falar como os mareantes, e tera de cumprido, 

Seltln^agrd^ho^^^^ ^^ ^^ ^^^ P^^ ^^ pray[a], 25 legoas ou mais, e de largo 16, pouco 
arboribus fructiferis mais ou menos, segundo me pareceo em tres veces que Ihe dei 

omnigenis consitus, ... 

prope lacum. volta aroda, e outras muytas que passei casi de ponta a ponta 

polla vanda de Dambia, por onde tem grandes sementeiras que he 
terra muyto chaa e se puderam facer ortas de muyta recrea^am, 
se a gente fora curiosa, mas nam se dam a isso; so este Empe- 
rador come^ou huma, em que plantou figueiras das de Portugal e 
da India, papayas, parreyras, pesigueiros, romeiras e muytas ar- 
vores de espinho, e se dam muyto bem, e tira agoa com nora, que 
parece he a primeira que se vio em esta terra de Ethiopia, ao me- 
nos os que agora vivem nam ouviram que a ouvese. Pola vanda 
do reyno de Gojam tambem ha a longo desta lagoa muyto fermosas 
terras, que se semeam, mas nam tantas como em Dambia, porque 
em partes ha matos de cedros sylvestres e outras sortes de arvores 
muyto altas, que nam ha em Espanha. 

4. Multae in me- Tem esta lagoa muytas ilhas com grande arvoredo, humas de- 

dio lacu insulae val- , , , •i.ujni. j. * 

de fertiles- ex hisai sertas e outras povoadas, e em vmte e huma dellas ha mosteiros 
habcnt monasteria. ^om muvtos frades. As principaes, comecjando polla parte de oc- 

Praecipuae sxint Ga- " ^ ^ >v 

lilA, Dec, RemA, Que- cidente, se chamam Galila : esta fica de fronte de huma peneinsula 
brftn et Debra An- ^^1^^^ ^ espa^osa, onde (como ja dissemos no cap ) o emperador 

Seltan Qagued fez huma cidade, onde pus sua corte, ainda que de- 
pois a mudou pera outra terra, que chamam Dencaz, pouco mais 
de hum dia de caminho. Estara a ilha da praya de Dambia legoa 
e meia ou mais. Outra se chama Dec e he muyto mais chaa que as 
outras, e tam grande que me affirmou o governador della que la- 
vravam dentro cuatro centas juntas de bois. Aqui acostuma o Em- 
perador a meter alguns homens grandes dos que manda prerder, 



LIVRO I, CAPITULO XXIX. 279 

quando quer que estejam mais seguros. Esta ilha tem duas igrejas, 
e esta mais pera o reyno de Gojam que ao de Dambia. Perto de- 
sta esta outra mais piquena e muyto alta, que se chama Rema, com 
hum celebre mosteiro, onde de alguns annos a esta parte se enter- 
ram os Emperadores ; perto desta esta outra grande, que se chama 
Qaana com mosteiro e boa igreja, segundo dicem. Mais adiante esta 
outra alta, a que chamam Quebran com muytos frades, e aqui nam 
deixam entrar molheres de nenhuma maneira. 

Como tres quartos de legoa desta ha outra tambem alta, que 
se chama Debra Antonz, onde estam frades e freiras. Em esta en- 
trei eu, e he tam forte que cuatro homens bastaram pera defender 
f.ii5,v. a entrada a muyto ^grande forc^a de gente se nam levar espingar- 
das. As demais ilhas nam sam de tanto nome, e por isso nam fa^o 
mengam dellas. 

As barcas, em que os frades passam de humas ilhas a outras 5. Describuntur 

^ n j ^ j j • parvae cymbae qui- 

e vem a terra nrme e de que usam todos os demais, sam, como ^^^ utuntur maxime 
acima dissemos, de huma palha a maneira de junco, que ha em monachiutdeunain 

aliam insulam trana- 

abundancia em algumas partes a longo da mesma lagoa e, com ser mittant. Abunae an- 
muyto grossa, fica muyto leve depois de seca ; e pera facerem estas ^,J|^*fn.^^r^nda 
barcas tomam hum pao pouco mais grosso quc huma perna e da navi maiori; ipse 

naufragium fecit et 

cumpridam que querem a barca, que ordinariamente he curta e vitam nando serva- 



estreita, mas com seu modo de popa e proa, e sobre elle a fun- 
dam, amarrando aquellas palhas de huma e outra vanda, nam com 
cordas senam com huma cousa que sove pollas arvores como edra, 
mas muyto delgada e forte, e com se facer muyto cumprida, fica 
sempre uniforme como corda. Depois metem dentro muytas da- 
quellas palhas juntas bem amarradas, e sobre ellas poem a carga 
e se asenta a gente. Nam tem vela nem os remos sam como os 
nossos, senam humas varas delgadas e cumpridas, e tomandoas pollo 
meio, vam dando com as pontas na agoa de huma e outra vanda. 
Xam soffrem grandes mares, nem que a gente carregue muyto pera 
huma vanda, porque facilmente se biram, mas nam se vam ao fundo 
e assi quem souber nadar pode logo subir em cima. Com tudo, ainda 
que seu Patriarcha sabia bem nadar, arreceou tanto estas embar- 
cagoes que pera entrar em hua sua ilha, mandou facer hum batel 
como de nao o anno de 613; mas, por ser a madeira pesada e bo- 
tarle demasiada carga, se foi ao fundo, indo elle dentro, e saio a 
nado ainda com outra pessoa as costas, com estar longe da terra, 
mas milhor Ihe fora afogarse que ser depois, como foi, causa de 



vit. 



2 8o HISTORIA DE ETHIOPIA 

muytas mortes e acabar as lan^adas a ii de maio de 617, como di- 
remos no 2® livro. 

6. Lacus abundat Em esta lagoa ha muyto grande abundancia de peixe de dif- 
scibus esui optimis" f^^entes sortes, assi do que tem escama como do que nam, e deste 
Eonim duac species ^a hua feicam Que se parece muyto com cacam, excepto na cabeca, 

monbusommnosiii- 

gularibus, ab Aucto- que a tem grande e fea como de sapo, e no inverno, quando a la- 
escn untur. ^^^ ^^^^ cheia o dia que chove muyto, sae tanto polas terras que 

estam a longo da praya (que por algumas partes se cobrem de agoa 
hum pedac^o) que ate com paos matam muytos, e naquelle tempo 
he sabroso, por que esta gordo. Ha outra sorte de peixe com escama 
do tamanho de hum besugo ou pouco mais, e de boca grande que 
como desouva anda sempre alli ate que saem os filhos e depois os 
acompanha, e como sente alguma cousa de medo, abre a boca e logo 
entram a porfia quantos podem, e ella fecha a boca e foge com elles, 
e como se torna a asegurar, a abre e os larga. Huma vez, estando 
eu a longo da praya pera a vanda de occidente, onde o Empera- 
dor nos tem dado terras, lan^ou hum pescador *sua rede e entre f. 116. 
outros tirou hum destes e, abrindo a boca diante de mi, sairam bu- 
lindo seis pexinhos e, parecendome que os tinha tomado pera co- 
mer, disse ao pescador : Antes que acabasse de engulir a pressa, o 
tomastGs. Respondeo elle, que nam os metera na boca pera les fa- 
cer mal, senam pera os guardar, porque eram seus filhos e con- 
toume o que agora referi, e tomou a botar na agoa os pexinhos. 
Tambem depois me afiirmaram outros que era cousa muyta certa e 
sabida. 

7. De Hippopota- A cousa mais fera e monstruosa que [ha] em esta lagoa he hum 

mis aethiopice Gu- ., ^j^ vi-AT^^ 

maris dictis. Gra- animal, a quc a gente da terra chama Gumari e os Portugueses, que 
phice describuntur. vieram com dom ChristovSo da Gama, chamavam cavallo marinho, 

e parece que o sera, conforme ao que ouvi dicer na India aos que 
viram cavallos marinhos. He animal quadrupedo e tam grande como 
huma vaca, mas os pes sam muyto curtos e em cada hum tem cua- 
tro unhas, as duas de diante sam grandes e cumpridas, outra mais 
piquena e a outra ainda menor, e nam estam unidas senam afasta- 
das. He largo de corpo e nam muyto cumprido ; tem orelhas cur- 
tas como cavallo e o fucinho rombo ; dous dentes de cima sam de 
alguns 4 dedos de grosso e de palmo e meio de cumprido, pouco 
mais ou menos, e arcados como de porco do mato. Alguns dos pi- 
quenos medi e tinham oito dedos de cumprido e casi tres de grosso. 
Quando abre a boca mostra que sera de tres palmos ou mais, e seu 



LIVRO I, CAPITULO XXIX. 281 

rincho se parece alguma cousa com o de cavallo ; o coUo he curto 
e nam o dobra bem; tem cavello muyto rallo e como de porco, e 
o cabo he muyro curto com algumas cerdas na ponta e pelle tam 
branda que com qualquer frecha ou azagaya que tiram a passam, 
com ser muyto grossa, mas como se seca, com dificultad a passara 
espingarda. Sua gordura se parece com a de tocinho e a a carne 
com a de vaca. 

Destes animais ha muytos em esta lagoa e de dia estam den- 8. Multi sunt ad 

j. Ji ^ *j. r j ripas lacus Dambift, 

tro da agoa e de noite saem a comer ao campo e facem grande ^^ damna infemnt 
dano em as sementeiras, se nam as cercam, mas com quaesquer pedras messibus. Eorum- 

dem mores. 

que ponham de dous palmos de alto nao entram, por terem as per- 
nas muyto curtas. Tambem, se facem fogo na borda das sementeircis, 
nam chegam. Andam dez e 12 juntos e estam de ordinario perto 
da praya, onde nam ha muyta agoa, que longe ao fundo raramente 
vam, e ao lugar onde huns tem seu asento, que sempre he onde acham 
chao, pera poder sair a comer, nam chegam os que sam de outra 
companhia, so pena de terem muyto grandes brigas. Ainda que 
estejam muytos juntos, dicem que nam ha entre elles mais que hum 
macho, e ainda aflSrmam cs que os ca^am que, quando alguma da- 
quellas femias pare macho, foge logo muyto longe com elle, por- 
que se nam seu pae o mata, e estam la amos ate que o filho he 
f.ii6,v. grande e entam a may o morde *e briga com elle pera provar se 
tem for^a bastante pera pelejar com seu pay, e como Ihe parece 
que pode, o leva ao lugar de onde fugio, e logo o pay aremete ao 
filho e, se nam o mata senam que fica vencido, foge a outra parte 
onde espera ate que se sente com mais corpo e for^as, e entam torna 
a brigar com seu pay e porfia tantas veces ate que huma o mata 
ou o vence e faz fugir daquelle lugar, com o que fica senhor da- 
quella companhia e de sua mesma may; mas quando pare femia, 
nam se afasta a may, nem o pay Ihe faz mal, antes a guarda com 
tam grande amor, que se passa por perto alguma gente, ainda que 
seia em as embarcac^oes que acima disse, aremete como hum liam 
e pondo as maos sobre a embarca^am, a bira e faz em peda^os com 
os dentes a quantos acha; e ainda que nam tenhao filhos, sam tam 
bravos, particularmeute no inverno que estam gordos, que arreme- 
tem como toros; e eu conhe^o hum pescador, a quem Ihe cortou 
huma perna com os dentes, indo em sua embarca^am, e escapou com 
grande trabalho ; e pouco ha que morreo hum Portugues que, che- 
gando perto da agoa, onde estava hum destes Gumaris, saio com 

C. Beccari. K^r. Ae/A, Scripi, occ» ined, — II. 36 



282 HISTORIA DE ETHIOPIA 

tanta furia que, sem se poder afastar o Portugues, o alcangou por 
hum bra^o com os dentes e Iho fez em pedagos, e com a pancada 
que Ihe deo com o fucinho o botou muyto longe e, se nam Ihe acu- 
diram outros com muyta pressa, o ficera em peda^os. 
g.Deridentursom- Esta lagoa, como tenho dito, he a mayor que ha em quantas 

xiia Urretae de lacu- , vt^^th ^r 

bus Aethiopiae. terras senhorea o Preste Joam; pollo que se enganou muyto frey 

Luis de Urreta em por no reyno de Gojam, como diz pag. 298 de 
seu i*^ livro, huma lagoa, que de norte a sul tem perto de 100 e 
cinquenta legoas e de largo mais de 80. Tambem na pag. 322 diz 
que nos confins de Ethiopia ha outra lagoa, a que chamao Aqui- 
londa, que de norte a sul tem 35 legoas e 20 de oriente a poente. 
Mas nam ha ca tal nomem de lagoa, nem quem saiba que aja outra 
tam grande como esta de Dambia. Sobre ella vi decer muytas ve- 
ces das nubes mangas como redemoinho e alevantavam tanta agoa 
ate lacima e com tanta furia que, se nam o vira, nam o pudera 
crer, e dicem que, quando acha alguma embarca^am com gente, a 
suberte sem se poder salvar ninguem ; o que tenho por cousa muyto 
certa, por ser tam grande sua furia e a destrui^am que vi facer em 
as casas da corte a huma que, saindo da lagoa, passou por huma 
ilharga. 



CAPITULO XXX. 

Em que se trata das rendas e tributos 
que pagam ao Preste Joam seus vassallos. 



Pois temos ja visto quam grande seja a fertilitade das terras, x. Annua tributa 

, T»xT u.^jj •• • 1 Impcratoris sunt: e 

que senhorea o Preste Joam, e tratado dos prmcipaes rios e lagoas yegno NareA cnicia- 
que a^ facem mais insiinies, sera bem dicer a&fora alfifuma cousa toram aureoram 15 

^ 6 » 6 6 miUia; e regno Qo- 

das rendas e tributos que Ihe pagam seus vassallos cada anno. £ j&m zxmilliaetquin- 
comeQando poUo ouro do reyno de Narea, onde se acha mais que f? mUHa^^etwxceml; 
em outra nenhuma de suas terras, Ihe vem cada anno peso de «« al"« partibua 4 
f. 117. quince mil crugados de muyto bom ouro. *Primeiro Ihe pagavam 
trinta mil, e huma vez, segundo dicem, Ihe mandaram cinquenta 
mil. Mas agora, com as continuas gfuerras, que aquelle reyno tem 
com huns gentios que chamam Galas, esta tam quebrado que nam 
Ihe obriga o Emperador a dar mais. O reyno de Gojam paga once 
mil e quinhentos cru^ados, mas o ouro nam he tam fino como o de 
Narea. Em outras partes tambem se tirava ouro, mas pouco, e pa- 
gavam alguma renda delle: estam ja porem tam destruidas dos 
Galas que nam podem pagar nada. 

Pollos mandos que o Emperador da, como de Vissorreys e go- 
vernadores, tambem Ihe dam algum ouro, cavallos, mulas, pepas de 
seda e outras cousas. O Vissorrey de Begmeder da cuatro mil cru- 
gados em ouro, e o do reyno de Tigre deo pouco ha cinco mil, 



284 HISTORIA DE ETHIOPIA 

Bahar Nagax cinco mil, Sirei Xum cuatro mil, Xum Tamben cua- 
tro mil, Abargale tres mil, Xum Xahart mil, Amba<^anet dous mil, 
Emderta trecentos, Agamia mil, Zama trecentos. Todas estas sam 
terras do reyno de Tigre, por onde deste reyno se tiram ordinaria- 
mente 25600 cru^ados; Qagade mil crugados, Dambia Cantiba mil, 
Bed Xum mil, Cola Xum mil, Alafa Xum mil. Isto he o ordinario, 
mas humas veces dam mais, outras menos, e as veces perdoa o Em- 
perador muyto de aquello que Ihe prometem, e quando da estes 
mandos a seus jenrros, nam Ihes toma nada. 
a. Praeterea quod- Demais deste ouro que pagam as terras deonde se tira e os 

libet regnuxn solvit - - j ^ t^ j ^ j 

tributa gossypii, senhores a quem se dam mandos, tem o Emperador outras rendas 
mellis, mulorum, e- ^q pannos de algodam, mel, mantega de vacas, mantimentos, e estas 

quorum etc. Quomo- j. o o 

do de istis disponc- sam certas e determinadas as que ha de pagar cada reyno. O de 
ret e ag . Gojam da cada anno, segundo me disse Eraz Cela Christos irmao 

do Emperador, que agora he vissorrey de la, tres mil pannos de al- 
godam, que ordinariamente val cada hum hum crugado; mas poucos 
destes chegam a mao do Emperador, porque muytas veces os deixa 
aos senhores a quem tem dadas por comedia muytas daquellas 
terras; que muyto poucas das do imperio sam proprias dos parti- 
culares, senam do Emperador, e assi as tira a huns e da a outros 
todas as veces que quer. Paga tambem docentos pannos de algo- 
dam de outra laya, que chamam Bezet: estes sam mu^^to largos 
e nam muyto cumpridos, felpudos e bem tapados e usam delles os 
senhores em suas camas em lugar de colchoes, porque sam bran- 
dos e quentes, e alguns sam tam bons que val cada hum dez cru- 
(jados. Mel paga muyto pouco, porque nam tem este tributo mais 
que so huma provincia daquelle reyno, e esta da quinhentos caloes, 
que tera cada hum pouco menos da medida que em Castella cha- 
mam arroba. Mantimento nam paga nenhum, pollo perdoar este Vis- 
sorrey e ordenar com beneplacito do Emperador que nam se pa- 
gase mais, com ser valia de dezmil e setecentos cru^ados. Tambem 
pagava primeiro muytas mulas *e, segundo dicem, tresmil cavallos, f.ii7,v 
que, ainda que sam piquenos como quartagos, corrcm bem e sofFrem 
muyto trabalho. Esta renda [h]a ja annos que deixou o emperador 
Malac Qagued, pera que com aquelles mesmos cavallos pelejase a 
gente da terra com os Galas, que vem alli muytas veces. 

Tambem a quem davam o mando de Bahar Xagax no reyno 
de Tigre, pagava primeiro cento e cinquenta cavallos muyto mi- 
Ihores que os de Gojam, e agora nam da mais que 40. Outros se- 






i^- 



LIVRO I. CAPITULO XXX. 285 

nhores daquelle reyno tambem pagavam cavallos e ja dam muyto 
poucos. 

Em os outros reynos nam pagam tantos pannos, porque alg^ns 3. ViUici omnes 

•11 j X* -L 1 ^ i-» j '11* j solvunt quotannis 

villoes dam mantimento e mel e outros pannos. Cada villao dos que imperatori tributum 
nam pagam pannos da certa quantia de mantimento, que chamam ^^^ vocatur Cold: 

et dominis quintam 

C0I6 do Emperador, que quer dicer r torrado », pera mostrar que partem omnium fni- 

nam he mais que hum reconhecimento e cousa tam pouca, que nam ^"^^^^^«1^8^^ 

merece nome mais que de torrado, mas toda via cuatro hanegas d^as gaUinas. 

de Castella ou pouco menos ; e a esta quantia chamam elles Hand- 

chan huma carga, e como sam tantos os villoes que com diffi- 

cultad se podem contar, vem a ser esta renda huma cousa muyto 

grande. 

Demais disto paga o villao a renda das terras que lavra, ainda 
que isto nam he geral, porque em algumas partes em lugar disso 
dam pannos. Esta renda era antiguamente a terceira parte do que 
recolhiam das terras ; mas depois, porque os que as semiavam escon- 
diam muyto e, quando chegavam na era a tomar a 3" parte do 
mantimento, achavam pouco, ordenou o emperador Malac Qagued 
que nam ficessem desta maneira senam que, quando o mantimento 
estivese pera se poder segar, fosse o juiz da terra com o dono e 
outros dous ou tres, e conforme fosse o mantimento julgasem o que 
devia pagar o dono delle ; mas nunca Ihe julgam a 3* parte, senam 
a quinta pouco mais ou menos. Esta renda he pera o senhor, a 
quem o Emperador tem dadas as terras por comedia, e a elle tam- 
bem paga o villao dous cantaros de mel cada anno, hum polla Pa- 
scoa de Resurrei<;am, e outro na Exaltagam da s.** Cruz, e em cada 
hum destes dias da juntamente huma gallinha. 

As demais terras, que o Empcrador tem escolhidas pera si, que 4. Redditua arvo- 

. j. X j j rum quae propria 

sam muytas, e as que toma todas as veces que quer, acodem com ^^^^^ impcratoris. E- 
tudo isto a seus feitores. Cada pastor, que sam familias conhecidas, numerantur alia tri- 

buta, quae solvuntur 

paga hum cantaro de mantega, e cada teselam hum panno, se he in portubus et in 
christao, e se mouro, certo peso de ouro que tera hum cru^ado. nJJ^eras' vaccarum 
Tudo isto tambem arrecadam os feitores do Emperador. quas unaqtiaeque 

. . provincia quotannis 

Demais destas rendas, tem os dereitos que se pagam em as praebcre dcbet. 
feiras, que sam muytas; mas estas ordinariamente as da aos Vis- 
f. 118. sorreys e a outros senhores. Ha tambem muytos portos na *terra 
onde todas as facendas que vem do mar pagam de dez hum, mas 
das que sam proprias da terra nam tomam tanto. Com tudo, como 
ha muj^to trato de escravos, marfil, sal, cera e outras cousas, vem 



286 HISTORIA DE ETHIOPIA 

a ser muytos os dereitos. Estes portos ou os arrenda, ou os da 
por tempo a senhores com algum' reconhecimento de pe^as que 
Ihe presentam. 

A fora destas rendas e tributos que cada anno pagam ao Pre- 

ste Joam, tem outra de vacas que arrccadam de tres em tres annos, 

e he muyto grande, porque o reyno de Gojam paga doucemil, 

Ola^a cinco mil, Damot dous mil, Amhara dous mil, Begmeder 

seis mil, Dara cinco mil. De Dambia, Oagra, (^alamt e outras muy- 

tas provincias, que tambem pagam, nam pude saber o numero certo 

e por isso as deixo ; mas o reyno de Tigre paga quince mil e no- 

vecentas, (^agade e Oalcait tres mil. 

5. Ex dictis confu- Frey Luis de Urreta no cap. 32 de seu 1° livro faz tanto mais 

tae. E quibus fontil ^^^^ ® poderoso ao Preste Joam do que eu tenho dito, que, excepto 

bus Auctor hauscrit el rey dom Phelippe, o antepoe, pag. 342, a todos os Reys e monar- 

omnia supcrius ex- 

posiu. chas do mundo, por estas palavras: 

« Superior es a todos los del mun[do] en rique^ats de oro y plata 
€ y piedras preciosas y en gente; pues en diez dias puede juntar 
« docientos y trecientos mil soldados, y en un mes juntara un mil- 
« lon de gente ; que no se yo que aya principe en el mundo que 
« lo pueda hacer. Y aunque los Emperadores de la Ethiopia en 
« tiempos antiguos eran poderosissimos, segun encarecen las histo- 
« rias, nunca lo han sido tanto como en estos tiempos; porque Ale- 
« xandro 3°, que murio ano de 1606, y Zerascaureat, que oy go- 
« viema, tienen todos los senorios y reynos que tuvieron sus an- 
« tepassados y otros muchos que se han conquistado ». 

Isto diz o Author, mas todas estas cousas sam tam fabulosas, 
como as que de ordinario traz em seu livro; o que se ve claramente 
pollo que fica dito no capitulo 9 sobre os thesouros que elle punha 
em Guixen Amba, e o que aqui temos referido das principaes ren- 
das, que oje tem o Empcrador, tudo por informagam de Eraz Cela 
Christos irmSo do Emperador e do thesourero, que nam me aviam 
de enganar, dicendo menos do que era; porque, demais de serem 
homens tam graves e de grande primor, se confessam comigo e Ihes 
declarei que Ihes preguntava pera o escrever e, porque no numero 
das vac£Ls que se pagam cada tres annos tinham duvida, me deo 
huma lista o principal dos secretarios do Emperador, que tinha ti- 
rada de hum livro, em que estam escritas as rendas do imperio, 
qu eu enam pude aver. Mas, falando com Eraz Cela Christos diante 
do Emperador sobre as rendas do ouro, mc disse o Emperador que 



LIVRO I, CAPITULO XXX. 287 

a seus antecessores nam Ihes pagavam antig^amente tanto ouro, 
f.ii8,v. *como do emperador Malac (^agued a esta parte, que avera 26 an- 
nos que morreo. 

Quanto ao numero de gente de guerra que tem o Emperador, 6. Bxercitus ad 

.. j^Mi. 1* ' j» • ^ summum numerari 

nam cuido que seram docentos mil homens hmpos, amda que junto potesta:ro miniami- 
todo seu poder : e falando dos exercitos que tenho visto de tres ^*^^™ ' ®**^ ^*® *®"*" 

pore quo Auctor 

Emperadores, que ouve depois que entrei em Ethiopia, nam me pa- mansit in Aethiopia, 

rece que teria nenhum cinquenta mil homens, com procurarem el- rmpH^'''^^^^^^^^ T 

les algnmas veces juntar muyta for<?a, posto que o numero da de- mUiia fucrunt. 

mais gente, que seguia o exercito, era grande. Tambem he falso o 

que diz que os Emperadores, de agora sam mais poderosos e tem 

mais reynos que seus antepassados; porque nem poder, nem reynos 

tem tantos com muyto como os antiguos, nem ouve nunca mais 

que hum Emperador que se chamase Alexandre, e este morreo 

muytos annos ha, como por veces temos ja dito; nem ha tal Ze- 

rascaureat, porque eu entrei em Ethiopia em mayo de 1603, e o 

que entam era se chamava Jacob, e dalli a pouco Ihe sucedeo ou- 

tro, que se chamava Za Denguil, a quem mataram em otubro de 

604, e tomou Jacob, a quem tinham degradado, e a este tambem 

mataram o anno de 607, como temos tambem dito e declararemo[s] 

no 4 livro, e entrou o que agora vive, que se chamava Suzeneos, 

e intitulo[u]se Malac Qagued; mais depois deixou este nome e se 

chama Seltan Qagued. 

Nam he menos fabula o que diz no mesmo cap. pag. 344, que 7. Aliacommcnta 

j j»jT--i_*j T- j -r» 11 Urretae et Francisci 

cada anno dia da Epiphania dam ao Emperador os Reys que Ihe Aivarer, qui ab ipsis 
sam sufiretos, cada hum por si, hum elephante carrcgado de ouro, f«*iiiopibu8circatri- 

® x' » i' o ^^^ f^j^ manifeste 

seda e borcado, e juntamente das cousas que produce seu reyno; dcceptus. 
porque nam ha tal tributo, nem se vio nunca em Ethiopia ele- 
phante manso, nem pagou nunca o reyno de Gojam de tributo tre- 
centos e trinta mil cru^ados em ouro, como elle diz na siguinte 
pagina« Bem sei que isto de Gojam e o demais que conta dos tri- 
butos daquelle reyno e do modo que tem dos entregar ao Empe- 
rador o tomou de Francisco Alvares, ainda que nam o cita, porque 
fol. 157 de sua Historia Ethiopica esta casi pollas mesmas pala- 
vras que elle o refer ; mas, ainda que Francisco Alvares affirma que 
vio entrar tres mil mulas, tres mil cavallos, tres mil Be<;et, « pan- 
nos de algodam > , e trinta mil pannos de outra sorte e de muyto 
menos pre^o, e o ouro com a ordem e ceremonias tam cumpridas, 
como alli conta, digo que quereriam mostrar mais apparato do que 



2 88 HISTORIA DE ETHIOPIA 

comummente usam, por estar gente estrangeira em sua corte, e que 
o enganaram em o numero do ouro, pera dar a entender que tin- 
ham grande rique^a; porque nunca do reyno de Gojam se pagaram 
de renda trecentos e trinta mil cru^ados em ouro. 

8. Ipse SeltAn Sa- Tambem diz pag. 346 que em Gojam ha humas formigas 

g&d valde deridet , v j j 

fabulam Urretee de ^^ tamanho de grandes caes e na terra que tiram *de dentro a boca f 119. 
formicis, quae sta- (je seu formigueiro saem pedacos de ouro e prata, e pera os reco- 

tura canes aequarent ^ jt t j- jt 

etc. Iher vai a gente com grande silencio, quando faz maior calma, que 

ellas fogindo della se metem no mais fundo, e nam se detem alli a 
gente muyto, antes se torna com muyta pressa, porque, se os sentem 
as formigas, sae logo huma multidam increivel e nam ha escapar fu- 
gindo, porque sam muyto ligeras e tam fortes, bravas e crueis que 
despeda^am e comem quantos acham. E ainda que refer isto de 
alguns authores, diz que nam Ihe cause risa ao leitor, porque nam 
he novo em o mundo aver semelhantes formigas. Mas com toda 
esta advertencia nam pudo o Emperador conterse, quando Iho con- 
tei, senam que, rompendo por toda sua mesura e gravedade, riou 
bom peda^o e festejou muyto a patranha, parecendolhe que nam 
so em Gojam, mas nem em parte nenhuma do mundo podia aver 
taes formigas. 

9. Exponimtur et Sem.elhante a isto he o que diz mais adiante pag. 348, que o 

refutantur errores t^ ^ t j -» r ^ . , 1 

geographici praedi- J^ reste Joam tem de costa no Mar Oceano pera a parte onental do 
cti scriptoris. cabo de Boaesperancpa mais de oitocentas legoas, e, come^ando do 

cabo de Guardafui, vai nomeando muytos reynos ate a boca do rio de 
Cuama, que diz sam todos do Preste Joam, conquistados por elle e 
lancjada fora muyta mourama; e que afora destes tam grandes reynos, 
Ihe pagam huma maneira de tributo e reconhecimento muytos reys 
gentios poderosissimos, nam somente por serem conquistados por o 
Preste Joam David, mas porque o vem tam grande e poderoso prin- 
cipe, desejam tello por amigo e protector, pera estarem seguros dos 
outros reys gentios, que nam se atrevem a facer guerra aos que sam 
amigos do Preste Joam, temendo seu poder, e entre estes Reys, que 
diz que com presentes o lisongeam e como vassallos Ihe pagam 
tributo, nomea o Rey de Biafara e de Gelofos, Tungubutu (que he 
metropoli e cabe^a do reyno dos Follos) com outros da costa de 
Guine e que estam na terra firme que corre de antes do Cabo Verde 
ate Serraleoa. Tambem o Rey do Congo e o de Monomotapa, o 
qual diz que he senhor de toda a terra que cae ao cabo de Boae- 
speran^a. Finalmente todos os Reys da ilha de s. Louren^o reco- 



LIVRO I, CAPITULO XXX. 289 

nhecem ao Preste Joam, mandandolhe presentes e donativos, por- 
que estam perto de suas terras, que he o reyno de Titut e Sibit. 

Isto diz o Author, mas tudo he muyto fora de caminho e mo- 
stra bem quam pouco sabe os limites das terras do Preste Joam; 
porque em toda a costa do Mar Oceano nam tem nem hum palmo 
f.ii9,v. e muyto menos.senhorea *os reynos que diz pera o cabo de Boae- 
speranpa, porque o derradeiro reyno de seu imperio pera a vanda 
de Mogambique he o de Narea, e de Gojam ao cabo delle se pode 
chegar em degoito dias, segundo me affirmaram os que estiveram 
la muyto tempo, e dalli a Mo^ambique sam tam grandes os desertos 
e tantas as terras de Cafres nam conhecidas dos va[ssa]llos do Preste 
Joam, quc nam somente nam tem trato com ellas, mas, segxmdo el- 
les dicem, nem ouviram nunca seus nomens. E falando eu poucos 
dias ha de proposito com o mesmo Emperador sobre esta materia, 
me disse que sua gente nam passava de Narea e que nam avia 
lembran^a de que seus antepassados senhoreasem nunca dalli por 
diante, nem agora sabiam que sorte de terras eram aquellas. Por 
onde, se alguns destas chegaram a Mogambique ou a costa de Me- 
linde, seria embarcandose em as gelbas que daquella costa vem com 
escravos a Moca, como eu vi estando la cativo. 

Daqui se vee claramente quam fabulosas sam tambem as cou- xo. Refclluntur 

j. . • o. • ai j. itcxn alia commenta 

sas, que diz pag. 354 sobre as victonats que amrma teve o empe- ^^ victoria impera- 
rador David dos Trogloditas, que elle poe perto de Mo^ambique, ^^^®, David contra 

Trogloditas, et quod 

de fronte da ilha de sam Louren^o, e de hum capitam que diz se eius imperio vecti- 

revelou contra sua senhora a reynha Betfaga, senhora de toda a Monomotapac?^^" 

terra que cae ao cabo de Boaesperan^a, que chamam Monomotapa, 

a qual pidindo favor ao Preste Joam David, prometendolhe suge- 

(jam e certo tributo, foi elle mesmo a favorecer e, dando batalha 

ao capitam revel, o venceo, e cortandolhe a cabe^a, a mandou a 

reynha Betfaga, e ella co[mo] bem agradecida acudio sempre com 

grandes does e tributos ao Preste Joam; o que guardaram todos 

seus sucessores. Mas como o mesmo Preste Joam, que oje he, affirma 

nunca tiveram noticia de tal Reynha, nem comercio nenhum com 

aquellas terras, o que bastava pera se ver o credito que se Ihe deve 

dar a quanto diz sobre esta materia; com tudo pera maior confir- 

ma^am referirei por suas mesmas palavras o que diz da 3" victoria 

que teve o emperador David : « La 3* victoria y triunpho insigne 

€ fue el que tuvo contra el poderoso Rey de Monicongo, al qual 

« vencio en batalla campal, en la qual avia un millon y mas de gente. 

C. BeccARl. ^tfr. Ag^A. Script, occ, ined, — II. 37 



290 HISTORIA DE ETHIOPIA 

I Pero fue dichoso el Rey do Monicongo en quedar vencido del Pre- 

* ste Juan ; pues quiso Dios que por aquella via viniese en conoci- 
s miento de la ley cliristiana y se convirtiesc, y el y los mas de su 

* reyno se bautizaron, siendole padrino el Preste Juan ; y desde en- 

■j tonces ay muchos christianos *en aquel reyno » . ( 

Nam se podia pintar cousa mais apocrifa que esta, pois he tam 
notorio, de mais do testificarem muytas historias, que el Rey de 
Congo com grande parte de seus vassallos se bautizaram no anno 
de 1491, sendo Rey de Portugal dom Joam 2", que, pello grande 
zelo que tinha de nossa s." fe e conversam da gentilidade, mandou 
[a] aquelle reyno Rodrigo de Sousa por embaixador e com elle tres 
religiosos da sagrada ordem do glorioso s. Domingos, e foram os 
primeiros que naquelle reyno pregaram o santo evangelho com 
muyto grande zelo do bem das almas e bautizaram al Rey e a 
Reynha com a mor parte dos grandes de sua corte ; e depois pollo 
tempo em diante se foram bautizando os mais do povo ; com que 
aquelle reyno ficou tudo christao polla via de Fortugal e zelo del 
rey dom Joam o 2° e nam pollo Preste Joam. Nem Ihe fora pos- 
sivel chegar la, ainda que o procurara metendo todo seu resco, por 
la grande distancia que ha destas suas terras ao reyuo de Congo, 
pois confina com o mar Oceano do cabo de Boaesperanga pera a 
vanda de Portugal. 
11. Refenur dein Tambem diz pouco mais adiante pag. 356, que, morto o em- 

t^ fllii' imperatorla pcrador David, Ihe sucedeo no imperio seu filho Abraham e que 

David, qui ante p«- em huma baCalha, que teve com el rey de Adel, saio ferido e, ainda 

CTemsuuminpraelio ^ ^ 

occubuit. que, tendo pelejado da minha ate a noite com muytas mortes de 

huns e outros, se afast?ram sem se conhecerqual levava a victoria, 
com tudo isso foi tam exorbitante seu sentimento, por ver que o 
ilouro se Ihe ouvese defendido tam valerosamente, que se encendeo 
em huma grande fevre, com que se Ihe agrabou a ferida de ma- 
neira que em poucos dias morreo e depois fugio sua gente ; pello 
que o mouro se teve por victorioso; e depois eligiram em seu lu- 
gar a Claudio seu irmSo. 

Isto foi falta de informaijam, porque primeiramente este filho 
do emperador David, e por outro nome Onag ^agued, nam se cha- 
mava Abraham, senam Fiquitor, e nam morreo depois de seu pay, 
ienam antes; porque, sendo vencido o Emperador de hum mouro de 
Vdel, que se chamava Ahamed, e comummente o chamao Granh, 
)orque era izquerdo, que issoquer dicer Granh na lingoa de Ethio- 



LIVRO I, CAPITULO XXX. 29 1 

pia, e andando fugindo do mouro de huma parte a outra, Ihe disse seu 
filho Fiquitor, que era muyto esfor^ado, ainda que nam de muyta 
idade: Ate quando, senhor, hemos de fugir? Nam sera milhor morrer- 
mos pelejando? E vendo elle a determina^am e valor de seu filho, 
f.i2o,v. Ihe entregou o imperio e, juntando seu *exercito, saio ao encontro ao 
Mouro e pelejaram no reyno da Xaoa e foi desvaratado e morto; 
e porque seu pay era vivo, nam o contaram entre os Emperadores, 
segundo todos dicem, e parece ser assi, porque nam se acha em 
os catalogos dos Emperadores que pusimos no cap. 5 tirados de 
seus mesmos livros como nelles estam. Tambem o que alli affirma, 
que pera mostrar o Mouro que aquella victoria nam fora alcan^ada 
com proprias forgas, senam com ajuda divina, quando a quis fe- 
stejar, subio em hum jumento: nam foi este mouro o que o fez, 
senam outro que se chamava Nur, que matou ao emperador Claudio, 
como veremos no 3** livro, quando referirmos sua historia. Outras 
muytas cousas diz naquelle cap. 32, que sam muyto menos do que 
elle encarece; mas o que acrecentou ao emperador David, tirou no 
fim do mesmo capitulo a as que dom Christovao da Gama com 
seus soldados fez em Ethiopia; pollo que nam sera bem passar 
adiante sem declarar quanto se enganou no que dellas disse. 



CAPITULO XXXI. 

Em que se come^am a referir algumas das cousas 
que dom Christovao da Gama fez em Ethiopia. 



Como meu intento seja dar alguma noticia das principaes cou- i. Ea quae Auctor 
sas desta parte de Ethiopia, que senhorea o Preste Joam, e das mais stis Christophori^de 
insicfnes que nella sucederam sejam as que fez aquelle valeroso e G«nia desumpta siint 

tum ex relatione cu- 

esfor^ado capitam dom Christovao da Gama, bem conhecido em Por- lusdam senis, qui 
tugal por sua grande nobre^a e fidalguia, e muyto mais em Ethio- ^"'tum^ex^scrimis 
pia poUas maravilhas que Deos nosso Senhor teve por bem de Femandi Guerreiro 

. r -i . r «t Michaelis de Ca- 

obrar por elle contra os mouros em defensam de sua santa le, me Btanhoso. 
pareceo que nam cumpria com minha obriga^am, se nam refirise 
algumas dellas. Tambem, porque, passandoas em silencio, nam pa- 
reciese que aprovava o que dellas diz frey Luis de Urreta no ca- 
pitulo 32 de seu 1° livro, onde por falta de informa^am as conta 
muy diferentemente do que na verdade sucederam, conforme ao que 
contam os velhos de Ethiopia e hum delles, que, sendo piqueno acom- 
panhou a dom ChristovSo, desde que entrou ate o dia que foi desba- 
ratado, e o que traz o padre Fernam Guerreiro de nossa Compa- 
nhia no fim da Addigam que faz a Relagam de Ethiopia no livro 
das annuas de 607 e 608, tomado, como elle diz, de Miguel de Ca- 
stanhoso, hum dos Portugueses que entraram em Ethiopia com 
dom Christovao da Gama, a quem como testemunha de vista se 
deve dar todo credito. 



294 HISTORIA DE ETHIOPIA 

a. Errores Urretae Diz pois frey Luis de UiTeta pag. 358 : « Entretanto el moro 

circa historiam prae- ^, -ia-ix^ ^ i-j*^ 

sentem. * *(convem a saber, Granh) estava por los reynos confines de la f. 121 

« Ethiopia, haciendo mil males y executando inauditas crueldades 
« en los tristes christianos, la madre del Preste Juan, que se Uamava 
« Elisabeta, embio un correo al Vissorrey de Goa, que se Uamava 
« don Estevam de Gama, pidiendole socorro ; y el embio 400 soldados 
« y por capitan dellos a don Chistoval de Gama su hermano. Par- 
« tieron de Goa con mucha^ armas en el mes de junio de 1541 y 
« embarcandose Uegaron, aunque con trabaxo, a la Ethiopia y to- 
« maron puerto en el reyno de Bemagasso, donde les acudio mu- 
« cha gente. Entendido por la Emperatriz el socorro que le venia, 
« salio de su escondrijo y fue a visitar al capitan, el qual la re- 
« cibio con gran salva de artilleria y con mucha fiesta. EUa pro- 
« veyo de bastantes y aun sobrados mantenimentos, y considerando 
« don Christoval de Gama que no era tiempo de detenerse, partio 
« con sus 400 soldados y con muchos millares de Ethiopes, por 
« grandes jornadas, caminando de dia y de noche, por coger al 
« enemigo descuidado. Como lo deseo le sucedio, porque hallo a 
« los moros tan descuidados de que tuviesen al enemigo tan cerca, 
« que estavan desarmados, y tan sin orden de guerra, como si no 
« estuvieram en tierra de enemigos, y dando contra ellos de sobre- 
« salto, los tomaron a manos antes que pudiesen venir a las ma- 
« nos y antes que se pudiesen abroquelar, los <;amarrearon de suerte 
« que no se les quito el escocimiento, tan presto fueron facilmente 
< vencidos, y volviendo las espaldas, dieron todos a huir a corre 
« mas corre, y como el huir sea linage de volar, dexavan de cor- 
« rer y volavan. Murieron muchissimos en los alcanges y el rey 
« Gradahametes herido de un mosquetero, que le passo la pierna y 
« le mato el cavallo, vino al suelo, aunque los suyos le pusieron 
« en cobro ; de la qual herida convalecio. El buen capitan go^o de 
« un riquissimo despojo, de infinitas armas y arcabuceria, con que 
« armo su gente y, caminando en seguimiento de su enemigo, arremo 
« y vela navegava el triunphante vencedor por el mar de sus vic- 
« torias. Entro por el rey[no] de Adel quemando, talando, derrivando 
« y Jlevandolo todo a fuego y sangre, hasta un monte, donde se 
« avia hecho fuerte el rey Gradahametes y alli le cerco el capitan 
« Gama con intento de no partir hasta le coger muerto o vivo y 
« embiarle al Preste Juan ». 



LIVRO I, CAPITULO XXXI. 295 

Casi todo quanto o Autor aqui diz passou muyto diCFerente- 3. Brevitcr refu- 
mente, porque nem dom Christovao da Gama partio de Goa sina- 
f.i2i,v. lado pera vir a Ethiopia, nem podia partir no mes de junho, *que 
la he invcrno fechado e nam se pode andar no mar quanto mais atra- 
vesar o golfo pera Etiopia ; nem quando entrou nella, se Ihc ajun- 
taram os milhares de Ethiopes que diz, nem venceo aos mouros 
poUos achar descuidados e desarmados, e muyto menos depois da 
victoria entrou por el reyno de Adel, asolando e abrasando tudo, 
porque nunca la chegou com muytas legoas, como adiante vere- 
mos. Tambem se advirta de pstsso que este mouro nam era Rey 
de Adel senao Guazir, como chamam os mouros, que he tanto como 
governador do reyno debaxo del Rey. Nem se chamava Gradamar- 
tes Isu]: seu proprio nome era Ahamed, como ja dissemos; mas os 
de Ethiopia o chamam Granh, porque era izquerdo, que isso quer 
dicer granh; e parece que o Autor juntou estes dous nomes Granh 
e Ahamed, cuidando que era hum, e, corrompendoos amos (como 
faz a outros muytos), disse Gradahametes ; e porque comummente 
Ihe dam este nome Granh, eu tambem o nomearei daqui adiante 
por elle. Nem a Emperatriz may do Preste Joam se chamava Elisa- 
beta, senam Zabelo Oanguel. 

Suposto isto, referiremos agora esta historia na puntual ver- 
dade com a maior brevedade que pudermos; e foi desta maneira: 

No anno 1541, sendo governador da India dom Estevam da 4. Stephanus de 
Gama, filho segundo do conde Almirante dom Vasco da Gama, que indj^j^ni^ mov^t 
foi o primeiro que a descubriou, fez huma grossa armada com in- c^™ classe lusitaaa 

contra Turcas, ad 

tencjam de irao estreito de Meca, e entrando pollo Mar Roxo, che- MareRubrum.Rein- 
gar ate Suez e queimar as gales e armada do Turco, que naquelle ^*^ ulit Ma^ 'm '"bi- 
porto estava aparelhandose pera ir a India e, posto que nam,a pode que legatos Zabel6 
queimar, polla terem, quando elle chegou, barada em terra, com Aethiopiae,auxiiium 
as novas que tiveram da sua, a volta todavia fez ffrande estrago P^^^^^j^ contra Ma- 

^ 00 humedanos, recipit, 

em muytos lugares de Arabia, saqueando e queimando tudo e to- et^consilioinitocum 

, , . , ujMiJxfA. Buis, fratrem suum 

mando quantos navios achava; e chegando a ilha de Ma^ua, veio chriatophomm cum 
alli a ter com elle hum senhor dos da casa de Adegana, que se ^oomilitibusexpedi- 

T^ 1 A -VT >v ,• tis ad Imperatricem 

chamava Isaac e entam era Bahar Nagax, que quer dicer « gover- mittit. 
nador do mar » , por que o he de todas aquellas terras maritimas, e 
com elle outro senhor grande, que se chamava Robel, com cartas 
da emperatriz Zabelo Oanguel may do emperador Claudio, que ja 
reynava por morte do emperador David seu pay, em que Ihe pe- 
dia encarecidamente quisese socorrer este imperio christao, a quem 



296 niSTORIA DE ETHIOPIA 

o mouro Granh avia 14 annos que tinha poUa mor parte conqui- 
stado, matando e cativando grande infinidade de gente e queimando 
e asolando muytos mosteiros e igrejas de grande nome. Ouvindo 
isto o governador, tomou conselho com os capitaes, e *fidalgos que f. 122. 
hiam na armada e todos convieram em que, alem de ser grande 
servi^o de Nosso S.°' acudir aquella necessidade tam urgente, o seria 
tambem del Rey de Portugal seu senhor por muytas re^oes, e of- 
fereceramse com grande fervor e zelo pera esta empressa muytos 
capitaes e fidalgos nobilissimos e entre elles dom Christovao da 
Gama, a quem, depois de muyto considerado, com muyta re^am Iha 
encomendou o governador seu irmao, dandolhe pera isso 400 sol- 
dados : e dicem que ofFerecia mil, e que o Bahar Nagax Isaac nam 
se atreveo a tracer tantos, por estar a terra tam perdida que Ihe 
parecia nam os poderia sustentar. 
5. Christophoms Com esta gente muyto lustrosa e bem apercebida com armas 

itinera difflciUima dobradas e algumas pe^as de artelharia se parteo dom Christovam 
post octo dics per- (ja ilha de Macua aos g de julho de 1541, tracendo tambem em 

venit DcbaroA, ubi ^ v j o^ y 

a BahAr Nagftz, a sua companhia ao Patriarcha dom Joam Bermudez e hum sacerdote 

eno^ glySio^^^vC' ® ^^"^ ^^^ ^® xnais, e, segundo ca dicem, o tracia o governador de 
t^r« proposito pera ver se o podia meter em Ethiopia onde elle ja tinha 

andado, e Ihe prometeram que, se trouxese algum socorro de gente. 
o recibiriam por Patriarcha, aceitariam a fe da santa igreja romana 
e dariam al Rey de Portugal a 3* parte do imperio. Foram en- 
trando polla terra dentro de Ethiopia em companhia do Bahar Na- 
gax com grande trabalho, por ser aquella parte muyto quente e 
fragosa e virem casi todos a pee, que escasamente acharam ca- 
mellos e mulas bastantes pera caregar o fato, munigoes e artelharia, 
c em muytas partes era necessario descarregar e levar tudo bom 
espa(;:o as costas, sendo dom Christovam o primeiro que com grande 
alegria e fervor tomava o que podia sobre as suas, com o que os 
soldados se animavam a facer o mesmo, com virem muyto cansados. 
Desta maneira caminharam seis dias ate sair das serras, e alli 
descansaram dous dias e o siguinte chegaram a huma villa que cha- 
mam Debaroa, onde, como ja dissemos, reside de ordinario o Bahar 
Nagax, de onde saio muyta gente e muytos frades em procissam 
com suas cruces a receber a dom Christovao, que com a nova de 
sua vinda tinham deixado as serras fortes, onde estavam recolhidos 
por medo dos Mouros, e chegando a dom ChristovSo, Ihe deram 
muytas gra^as pollos vir a socorrer em tempo de tam grande ne- 



LIVRO I, CAPITULO XXXI, 297 

cessidade; e disseram que, pois o Senhor por sua infinita miseri- 
cofdia o trouxera pera isso, procurase vengar os desacatos e inju- 
rias que aquelles malditos e sacrilegos mouros tinham feito as santas 
igrejas derrubandoas e profanandoas e as crueldades que tinham 
exercitado com os sacerdotes e religiosos e as afrontas que tinham 
f.i22,v. *feito as molheres casadas, viuvas e doncellas. 

Acabado isto, come<;:aram todos em alta voz a pedir a Dcos 
nosso Senhor misericordia e que dese for^a a dom Christovao con- 
tra seus enemigos, com tanta piedade e lagrimas que nam puderam 
deixar das derramar tambem os Portugueses. Consoloos dom Chri- 
stovSo dicencfo, que elle nam viera a esta terra senam a trabalhar 
por botar os Mouros della e que esperava na divina misericordia 
que cedo se veriam livres dos trabalhos em que estavam ; e tornando 
com a mesma ordem que vinham, foram todos os Portugueses jun- 
tamente a facer ora^am a igreja, e dalli as tendas, que o Bahar 
Nagax Ihes tinha ja feito armar perto da povoagam, onde os agas- 
' salhou com muyta festa. 

O siguinte dia reparteo dom Christovao sua gente pollos ca- 6. Nuncios dc suo 

• T j T^ TM- 1 j /-. 1 TT' ^ adventu mittit duos 

pitaes, que eram seis: Joam de tonseca, Manoel da Cunha, Vicente ^ suisad Imperatri- 
de Acunha seu irmao, Inofre Dabreu, Francisco Dabreu seu irmao, cem, quae in mpibus 

Dam6 morabatur. 

e Franciso Velho, dando a cada hum dos cinco cincoenta soldados, Ipsa descendit, invi- 
e aos demais encomendou a guarda da vandeira real, e mandou logo ^iratu/a ma 01^™- 
a Manoel da Cunha e Francisco Velho com sua gente pera que vi- d>nem pugnandi, et 

, ^ ^ custodiae Lusitano- 

sitasem de sua parte e trouxesem a emperatriz Zabela Oanguel nxm ae committit. 

may do emperador Claudio, que estava hum dia de caminho dalli 

em huma pedra muyto alta, que chamam Damo, a que se sove por 

cordas e, chegando, mandou ella que os dous capitaes subisem 

acima e foram levados em huns cestos amarrados com correas muyto 

fortes e, como chegaram acima, os recebeo a Emperatriz derramando 

muytas lagrimas de pracer e dando gra^as a Deos, que Ihe man- 

dava tal socorro e a tirava daquella como prissam onde avia tanto 

tempo que estava; e depois de preguntar por dom Christovao e sua 

gente com muytas particularidades, os mandou agassalhar aquella 

noite com grande honrra e aparato, e outro dia deceo a Empera- 

triz com muytas criadas e gente que tinha de servi^o dentro da- 

quelles cestos, porque pera o alto daquella serra nam ha outra ma- 

neira de entrada nem saida, por ser toda aroda pedra talhada e 

muyto alta, e acima tem bom campo, onde semeam e muytos po(;os 

como cisternas, em que o invcrno se recolhe muyta agoa. 

C. Bkccari. Rer. Aeth. Scripi. occ. ined, — II. j8 



298 HISTORIA DE ETHIOPIA 

Como acabaram de decer todos, veio a Emperatriz em huma 
fermosa mula cuberta de seda ate perto do cham e ella vestida de 
pannos brancos de India muyto finos e sobre elles hum albomoz 
de setim pardo com franjas de fio de ouro, e o rosto cubcrto com 
huma beatilha muyto fina, que nam Ihe apareciam mais que os 
olhos, como he costume das senhoras que caminham. Levavamlhe 
alguns homens hum dosel de seda, com que hia cuberta *de ma- f. 123. 
neira que nam se podia ver senam pordiante, e chegando perto do 
arrayal de dom Christovao, a saio a receber ricamente vestido de 
setim e tela de ouro com toda sua gente posta em ordem, que era 
muyto lustrosa e saluarama duas veces com toda a artelharia e espin- 
garderia, e chegando dom Christovao, se deteve a Emperatriz e por 
Ihe facer honrra e dar mostra de amor, mondou tirar o dosel e 
descubrio hum pouco o rosto ; e logo dom Christovao a saudou e 
disse como elle e toda aquella gente vinham por mandado do go- 
vernador a a socorrer e servir, e que soubese de certo que todos esta- 
vam resolutos a morrer polla santa fe de Christo e defensam de 
seu imperio. A Emperatriz Ihe deo muytos agardecimentos pello 
zelo que mostrava e a vontade com que elle e os demais Portu- 
gueses se ofFereciam a tam grandes perigos e trabalhos que al Rey 
de Portugal ao governador e a elles pagaria tudo o poderoso Deos, 
porque nem ella, nem seu filho, nem principe nenhum da terra tinha 
poder pera satisfacer cousa tam grande ; e que este imperio nam o 
tinha por seu, senam por del Rey de Portugal. 

Acabada a pratica, tomaram os Portugueses no meio a Empe- 

ratriz e as senhoras e doncellas que acompanhavam em mulas muyto 

fermosas e, tomando poUa redea a Emperatriz o Bahar Nagax, a le- 

vara ate suas tendas. 

7. Ibidem hicmare Pa^ssados dous dias, foi dom Christovao com os Portugueses ri- 

et ad praelium ne- .. ^-j • 1 ^ ^- i_ 

cessaria parare sta- ^^mente vestidos e com as mais lustrosas arnias, que tinham, a vi- 

tuunt. Claudius im- sitar a Emperatriz e diante de sua tenda deram mostra do modo 

perator certior fa- 

ctus de Lusitanorum que tinham de peleijar; do que ella ficou muy maravilhada, vendo 

adventu, transacta ^ ji 1 ^ 1 

. . ' ,j „^ „^ cousa tam nova e desusada na sua terra e nam menos alei>["re e con- 

niemey eos aa se ve- c> 

nire quantocius iu- tente, por Ihe parecor que seni duvida avicim de librar seu imperio 

bet. Cbristophorus . ^, . 

exploratores Gr&nh da tirania dos mouros, e entrando na tenda dom Christovao com o 

morte punit: et re- j^^j^ri^^. >Jaiifax e alca.ms senhores iJ^randos, asentaram com a Empe- 
giones circumstan- c> o o ' f 

tes, quae rebellave- ratriz de estar alli ate a fim de otubro, que se acava em esta terra 
' ' o inverno, e mandou dom Christovao recado de sua chegada ao 

Preste Joam Claudio, que ja se chamava Atanaf Qagued, que estava 



LIVRO I, CAPITULO XXXI. 299 

muyto longe retiiado em humas serras fortes, sem se atrever a sair 
pollo ter desbaratado o mouro Granh e morto muyta gente. Co- 
me<;ou logo dom Christovao a facer pertuchos de guerra e carre- 
tinhas em que levar artelharia, quc eram seis meios ber^os e dous 
ber^os, e tinha sempre muy grande vigia em seu arrayal, porque 
continuamente mandava o Granh espias pera saber quantos eram os 
Portugueses, que armas traciam e em que sc ocupavam. O que sou- 
beram de duas espias que tomaram em traxo de Abexins, a quem 
dom Christovao mandou depois despeda^ar em as carretinhas que 
tinham feitas, com o que tiveram tam grande medo que dalli por 
f.i23,v. diante *nam se atreveram maisase por a tal perigo. Ficeram tam- 
bem em este tempo duas saidas por mandado da Emperatriz e de- 
ram em algumas terras vecinhas, que por serem muyto fortes, nam 
queriam obedecer os moradores dellas e, matando muytos, trouxe- 
ram grande numero de mulas, vacas e bois, com que se proveram 
pera o caminho, que nam tinham em que andar. 

Na fim do invemo chegaram cartas do Preste Joam, em que 
com muyto corteses e amorosas palavras dava os parabens a dom 
Christovao e aos demais Portugueses de sua chegada e Ihes facia 
grandes oferecimentos, e pedia que com a mor pressa que pudesem 
se fossem chegando, que elle tambem viria a se juntar com elles. 

Com esta nova se alegraram todos muyto e apressaram o que »• Lusitani cum 
faltava, pera milhor podcrem facer seu caminho, c como tudo foi aca- grediuntur ct per 
bado, partiram de Debaroa aos cinco de decembro, levando com- ««P®'^""*^» montee 

' ^ secum trahentes tor- 

sigo a Emperatriz e sos 200 Tlabexins que os acompanhavam. Hia menu beUica, post 
diante dom Christovao com 250 Portugueses bem apercebidos, de- veniunt in conspe- 
pois se seguia a recovagem, a que davam guarda dous capitaes ^™ AmbA Canet a 
com sua gente, e hum pouco mais atras a Emperatriz com suas manu occupatum. 
donas c doncellas, e 50 Portugueses e alguns daquelles Habexins, 
Desta maneira foram caminhando alguns dias com muyto trabalho 
por acharem serras tam asperas que parecia impossivel levar por 
ellas a artelharia e muni^oes, mas com a industria e trabalho de 
dom Christovao se facilitava tudo, de maneira que maravilhada a 
Emperatriz decia muytas veces, que nam avia gente como os Por- 
tuguescs ; porque nenhuma outra pudera sair com cousas tam arduas 
e difficultosas. 

Tambem era muyto grande a vigilancia de dom Christovao, tra- 
cendo sempre diante quem descubrise o campo, e mandando con- 
tinuamente espias ao Granh, e elle em pessoa corria duas veces cada 



300 HISTORIA DE ETHIOPIA 

dia o arrayal pera ver se marchavam com ordem, e prover o que 
fosse necessario, e pera isto tracia mulas que caminhavao bem, que 
ate entam nam tinham cavallo nenhum, e por ondequer que passava 
fugiam os Mouros, que o Granh tinha posto pera arrecadar a renda 
das terras, e os moradores dellas, que por mcdo os obedeciam, vinham 
com grande alegria a ver os Portuguesos e sugetarse a Emperatriz. 
g. Describitur lo- Prosiguindo dom Christovao seu caminho, chegou i° dia de fe- 

cus natura ct arte ., , j. r ^ /--'^t-^-t^ 

Aethiopibus inezpu- vereiro de 1542 a huma serra muyto forte, quc o Granh tmha to- 
8^^'^*s* mado com engano e trai^am, e posto nella hum capitam com 1500 

soldados, e tardou tanto no caminho, nam porque esteja muyto longe 
de Debaroa, que indo por dereito caminho em tres dias se chega 
folgadamente, senam porque deo muyto grande volta por outras 
terras pera as redducir e quietar, e determinou da acometer por- 
*que, se passase adiante deixando alli aquelles mouros, os aviam f. 124. 
de tornar a obedecer todas aquellas terras e Ihe podiam facer muyto 
mal, tolhendolhe os mantimentos e dandolhe asaltos. Mas disse a 
Emperatriz que nam intentase tal cousa, porque de ncnhuma ma- 
neira podia sair com ella; o que vendo os mouros, ficariam com 
mais animo e coragam pera o acomoterem depois. Respondeo 
dom Christovao, que era for^ado trabalhar por tomar aquella serra, 
e deo tantas regoes pera isso que a Emperatriz, ainda que contra sua 
vontade, condecendeo com elle. Tem esta serra perto de huma lcgoa 
de campo lacima, posto que nam muyto chao, e agoa bastante 
pera muyta gente e, ainda que ha tres entradas, sam tam fortes 
que com muyto pouca guarda parece quo a for^a de armas nam 
era possivel subir. Tudo o demais aroda he rocha talhada muyto 
alta, que eu tenho visto por veces. A principal destas entradas se 
chama Amba Canet, e este mesmo nome dam a toda a serra. Ao 
pe desta entrada estava huma parede muyto forte com sua porta, 
e dalli se vai subindo hum pedago por caminho muyto estreito e 
ingreme, e no fim esta outra porta na mesma rocha. A 2^ entrada 
se chama Amba Xambut, e nam he tam forte, posto que muyto. 
A 3* se chama Amba Gadabut, mais forte sem compara^am que 
as outras, porque nam tem caminho senam huns buracos feitos ao 
picam na rocha, por onde com dificultad[e] podem subir descal^os, e 
fica descuberta a rocha de maneira que de cima com so pedras se 
pode defendor facilmente a entrada; e estara huma de outra como 
hum tiro de espingarda; e em cada huma dellas estava hum capi- 
tam com 500 mouros de arcos e frechas, lanc^as e adargas. 



LIVRO T, CAPITULO XXXI. 301 

De tudo isto se tinha muyto bem informado dom Christovao; xo. Christophonis 

- ^ • v j j . -11- *^* militea et tor- 

mas antes dc acometer, quis chegar a ver onde se podena milhor xnenta beUica in tres 
por a artelharia e facer que os mouros cfastasem suas frechas e os *^^*® dispertit. Uno 

" tempore omnes emi- 

penedos quc tinham aparelhados, pera que depois nam Ihe fices- nus pugnam insti- 

. . , . , j • • j. ^ tuunt : at, ad hostes 

sem tanto dano, e pera isto encomendou a pnmeira entrada aos faiiendos se retra- 
capitaos Francisco Vclho e Manoel da Cunha com sua gente e deo- hunt. 
Ihes tres pe^as de artelharia; a. 2^ deo a Joam de Fonseca e a Fran- 
cisco Dabreu com os seus e outras tres pegas de artelharia; a 3^, 
por ser mais perigosa, tomou pera si com os outros Portugueses, 
excepto 50 de espingarda, que deixou em guarda da Emperatriz ; e 
disse aos capitaes que todos postos em ordem desem mostra de 
quererem entrar aquelles passos, mas que nam se chegasem muyto 
e que, quando elle se retirase, ficesem todos o mesmo. Desta ma- 
f.i24,v. neira se foram chegando aquella tarde, e eram tantas as frechas *e 
pedras que de acima tiravam, que nam tinham conto, e lan^avam 
penedos tam grandes polla rocha abaixo, que so o estrondo que 
faciam bastava pera causar nam piqueno medo aos que nam foram 
tam valerosos e esfor<;:ados como aquelles Portugueses. Elles tam- 
bem tiravam com suas espingarda[s], por disimular o que preten- 
diam, e depois de bom espa^o e de ter dom Christovao visto a sua 
vontade o que desejava, se retirou com todos os demais, e vendo 
isto os mouros, deram por sua a victoria e, tendose por bem segu- 
ros, a festejaram com grandes alaridos e depois toda a noite tan- 
gendo trombetas e atabales. A Emperatriz, que estava a vista de 
tudo, ficou muyto triste e desconsolada, parecendolhe o que parecia 
aos mouros e que nam avia em os Portugueses mais cora^am do 
que alli tinham mostrado. Sabendo isto dom ChristovSlo, Ihe man- 
dou dicer a causa porque se chegara e retirara, e que polla minha 
veria S. A. como pelejavam os Portugueses e que homens eram. 

O siguinte dia em amanhecendo, tomou hum sacerdote hum xx.Alteradiesum- 
Crucifixo em as maos, e dom Christovao e os demais Portugueses ™o n^« P^ignam in- 

^ staurantatque, hosti- 

se ajoelharam diante delle e com muyta devo^am Ihe pidiram vir- bus omnibus inte- 

^ r • 11 rr i remptls, fortissima 

tude e forga contra seus enemigos e Ihe ottereceram suas almas e munitione potiimtur 
suas vidas com cfrande fervor e deseixo das acabarem em defen- ** *5*P^^*' muliercs 

° christianas libertate 

sam de sua santa fe, e o Patriarcha dom Joam Bermudez, que estava donant. 
presente, Ihes lan(;ou sua bengam, e com isto foram postos em or- 
dem pera a serra, e repartiramse em os passos como a tarde antes 
tinham feito, e em dando dom Christovao sinal, arremeteram todos 
com grande animo e comec^aram a tirar com artilhariaeespinganderia; 



n 



302 HISTORIA DE ETHIOPIA 

o que causou tanto medo aos mouros que nam se atreviam a se descu- 
brir muyto. Com tudo lan^avam muytos penedos, com que faciam 
grande dano e mataram dous Portugueses, antes que pudesem che- 
gar bem a rocha. Vendo isto dom Christovao e que era necessario 
pressa e conclusam, arremeteo com grande esfor^o, e todos os seus 
o siguiram e, encostando os fains a rocha, foram subindo por elles, 
mas firiram muytos e duas veces os derrubaram abaixo. Com tudo 
tomaram a subir com grande animo, sendo dom Christovao dos 
primeiros, e trabouse com os mouros huma briga muyto forte ; po- 
rem, como era ja mano a mano, nam puderam resistir muyto espa^o 
o impetu dos Portugueses a assi viraram aquelles 500, e dom Chri- 
stovao foi dando nelles. A este tempo tambem tinham entrado Fran- 
cisco Velho e Manoel da Cunha, costandolhes mu^rto trabalho, por- 
que na primeira porta do passo Ihes firiram muytos soldados, e, 
passada esta, Ihes mataram dous, e ainda que se retiraram, os mou- 
ros nam quiseram fechar a porta *de cima, parecendolhes que alli, f. 125. 
por ser lugar mais forte, acabariam os Portugueses ; e assi os espe- 
raram muyto unidos. Com tudo arremeteram animosamente os Por- 
tugueses e come^ando as lanc^adas e cutiladas se baralharam muyto, 
peleijando com grande valor e csfor^o o capitam dos mouros, e tirando 
huma lan^a curta que tracia, deo nos peitos ahum Portugues comtanta 
for^a que, com ter muyto boa saya de malha, o atravesou da vanda a 
vanda e levando do terc^ado, deo tal golpe no capacete de outro 
que Iho amolgou e fez cair no cham desacordado. Mas acudio outro 
Portugues e matou o mouro e foram logo facendo retirar os demais. 

Em quanto andavam as cousas desta maneira neste passo e o 
de dom Christovao, entraram tambem o seu Joam de Fonseca e 
Francisco Dabreu, posto que com muyto trabalho e perda de tres 
Portugueses, por que os mouros pcleijaram fortemente; mas ven- 
dose entrados, se foram retirando pera cima, e sem saberem huns 
do desbarate dos outros, se vieram a juntar todos em hum lugar, 
onde quiseram resistir. Mas chegando dom Christovao com sua gente 
e os demais capitaes por outras, os tomaram no meio e os mata- 
ram, sem ficar nenhum dos que alli estavilo, e alguns, que primeiro 
fugiram pera as casas, que tinham no mais alto, tambem foram mor- 
tos a espada, e os que destes, cuidando que se salvariam, se bo- 
taram pollas rochas, morreram feitos em peda^os. 

Acharam aqui grande numero de molheres christaas cativas e 
outras muytas mouras com algum fato, nove cavallos e dez mulas 



LIVRO I, CAPITULO XXXI. 303 

muyto fermosas, e como se juntaram os Portugiieses la cima, vi- 
ram que faltavam oito, que na entrada morreram, e que estavam 
mais de 40 feridos, a quem dom Christovao fez curar com diligencia 
e tracer os mortos, e mandou limpar a mesquita dos mouros pera 
que a bencese o Patriarcha e se enterrasem nella, 

Acabado isto, mandou dom Christovao recado a Emperatriz, xa. Christophorus, 
dandolhe conta da merce que Deos N. S. Ihes ficera e que, se queria ^d imperatricem 
ver sua serra Amba Canet e como a tinham concertada os mouros, nji««o, templum 

^ Turcarum in Eccle- 

o podia facer seguramente, porque ja todos eram mortos. Ficou siam vertit, ibique 8 
ella muyto contente e alegre com estas novas e tam maravilhada p^\^^*^id^ran^ 
que nam podia acabar de crer que todos aquelles mouros fossem sepeliendos, gratias- 

.^ , -, . , . que solemnea Deo 

mortos em tam pouco tempo, e certincandolhe seus criados que assi agendaa curat. 
era, deo louvores ao Senhor, que tam grande virtude e for^a dera 
aos Portugueses; e decia com muyta tenrura que verdadeiramente 
eram homens mandados por Deos pera salva^am deste imperio e 
f.i25,v. que ja*nenhuma cousa Ihe pareceria impossivel pera elles e, man- 
dando a dom Christovao os agardecimentos de tani boa nova, disse 
que nam se atrevia a subir la, porque, demais de ser tam aspero o 
caminho, Ihe deciam que estava todo cheio de mouros mortos, que 
Ihe aviam de causar grande nojo. 

Como dom Christovam soube que nam avia de subir la a Em- 
peratriz, pidio ao Patriarcha bencese a mesquita, o que elle fez 
com solennidade, pondolhe por nome Nossa Senhora da Victoria, e 
enterraram logo nella os oito Portugueses, e outro dia polla minha 
disse missa com muyta festa, e derao todos gra^as ao Senhor que 
Ihes concedera ter tam insigne victoria e trocara aquella casa, que 
antes era de abomina^am, venerando nella a Mafamed, em templo 
onde se offerecesse tam alto e venerando sacrificio. Acabada a 
missaj deixou dom Christovao la os feridos bem acommodados, 
porque nam podiam decer, e foi com os demais onde estava a Em- 
peratriz, que o recibeo com o amor e benevolencia devida a quem 
com tam grande valor e esforgo a servia. Entregou ella logo a 
serra a hum seu capitam, cujos antecessores foram senhores della, 
e estiveram alli todo o mes de fevereiro por causa dos feridos, e 
como correo a nova da tomada da serra, cousa tam pouco espe- 
rada dos vecinhos, foram muyto bem providos, nam somente delles, 
mas dos que estavam longe, que Ihes traciam em abundancia man- 
timentos e as demais cousas necessarias. 



304 HISTORIA DE ETHIOPIA 

13. Gubematorem Em este tempo chegaram alli do mar dous Portugiieses com 

a Gama certiorem fa- 

cit de rebus a se ge- gente da terra, que os guiava, e traciam recado de Manoel de Va- 
8ti8 ab eoque beUi- gconcelos capitam mor de cinco fustas, que o cfovernador dom Este- 

cum apparatum pe- ^ » ~i e> 

tit. vam da (iama tinha mandado pera saber das gales dos Turcos e 

o sucesso que tivera a entrada de dom Christovao em esta terra 
e se tinha necessidade de algum socorro ; com o que nam so dom Chri- 
stovao e os Portugneses ficaram muyto alegres e contentes, mas tam- 
bem a Emperatriz e todos os seus, tendo por certo o remedio de 
seu imperio. Despachou logo dom ChristovSo a Francisco Velho 
com 40 Portugueses bem aparelhados e com muyto boas mulas, 
pera que a toda pressa fossem a Magua, onde Manoel de Vascon- 
celos estava, a Ihe dar cartas pera o governador e re^am do que 
passara e do estado em que ficavam as cousas, e que trouxesem 
das fustas algumas muni^oes de polvora, pilouros e outras cousas 
necessarias; e como elles partiram, determinou dom ChristovSo com 
2. Emperatriz de passar adiante a humas terras muyto boas, onde 
estava hum capitam christao, que por for^a obedecia aos mouros 
e mandava rccado que fossem logo, que nam achariam resistencia 
nenhuma. 



f "6 CAPITULO XXXII. 

De como, prosiguindo dom Christovao seu caminho, veio 
em sua busca o Grlinh com grande exercito, e do que 
com elle passou. 

A poucas jomadas depois que dom Christovam parteo da serra ^ viribus suorum 
Amba (^anet, llie chegou hum correo com cartas do Preste Joam, rcfcctis, cum rescis- 

, set ipsum Gr&nh 

em que Ihe decia que elle vinha a toda pressa, que dom Christo- cum exercitu adven- 
vam tambem apressase seu caminho quanto pudese, porque o Granh **", illico decertare 

'^ ^ ^ *^ ^ statuit. Lroco oppor- 

hia em sua busca com grande exercito, e se nam se juntasem antes tuniori delecto et 

jt_ i^A, • ^ - jv^ii per ezploratores de 

de chegar o (iranh, seria muyto pengoso dar batalha; e porque hostiumnumerocer- 
dom Christovam desejava esto mesmo, foi caminhando a jornadas ^^^ factus, eorum 

impetum praestola- 

cumpridas e, chegando a as terras do capitam que o tinha chamado, tur. 
saio elle ao receber e Ihe presentou oito cavallos muyto fermosos 
e disse que se aparelhase muyto bem, porque suas espias Ihe ti- 
nham certificado que o Granh o vinha a buscar com muyta gente 
e que estava ja tam perto que nam podia passar sem se encontrar 
com elle. Agardeceolhe dom Cliristovam o aviso e encomendou que 
tornase a mandar espias, que soubesem bem onde chegava e quanta 
gente tracia, e elle foi prosiguindo seu caminho pesaroso, por ver 
que, se estava tam perto como deciam, nam podiam tornar a tempo 
os Portugueses que mandara ao mar, nem chegar a se juntar com 
o Preste Joam antes de pcleijar. E dalli a dous dias, entrando por 
huma terra chaa, que chamam Q^rt, estremo do reyno de Tigre, 
vieram as espias dicendo, que o Granh estava ja tam perto que 
nam seria hum dia de caminho, e que tracia gente sem conto. Ou- 

C. Bkccari. /ier. Aeik. Seript, oce, iMed, — U. 39 



306 HISTORIA DE ETHIOPIA 

vindo isto dom Christovao, se determinou de peleijar, dicendo aos 
soldados que nam podiam facer outra cousa, pois nam era possivel 
passar a se juntar com o Preste, estando todas as terras pollos 
mouros, que nam somente Ihes aviam de tolher os mantimentos, 
com que morreriam de fome, mas os iriam entretendo com asaltos 
ate que chegase o Granh com seu exercito, e que o mesmo perigo 
dos mantimentos tinham tornando atras, porque a gente nam se avia 
de atrever a Ihos dar, sabendo que o enemigo vinha tam perto com 
tam grande poder, e que a victoria estava em as maos do Senhor, 
que a podia dar assi aos poucos como aos muytos, e que, se nam 
fosse servido que a tivesem, morreriam peleijando por sua santa 
fe. E aprovando os capitaes e soldados este parecer, se puseram 
todos com grande confian^a nas maos de Deos. 

*0 siguinte dia, que foi sabbado de Ramos, indo caminhando f.i26,v. 
por aquelles campos chaos, chegaram duas espias de cavallo, que 
dom Christovam tracia diante descubrindo o campo, e disseram que 
chegava o Granh huma legoa dalli ; pollo que dom Christovam man- 
dou logo asentar seu arrayal em hum oteiro, que se alevantava no 
meio do campo, muyto a proposito pera o que pretendia, perto de 
huma fermosa ribeira, que se chama Afgol, e pondo a Emperatriz 
no milhor lugar, que como molher nam tinha pouco medo, vigia- 
ram com muyto cuidado toda aquella noite ; e domingo polla minha 
apareceram sobre hum oteiro afastado cinco mouros de cavallo, que 
vinham a descubrir c campo e, como viram o arrayal, deram logo 
volta com muyta pressa. Mandou entam dom Christovam dous Por- 
tugueses com bons cavallos, que do mesmo oteiro visem quam 
grande era o arrayal do enemigo e onde o asentava, e tornaram 
dicendo que a gente que tracia cubria os campos e que se asen- 
tava pegado com aquelle cabc^o ; e em quanto se armavam as ten- 
das, subio o Granh acima com obra de 300 de cavallo e tres van- 
deiras grandes, duas brancas com meias luas vermelhas, e huma 
vermelha com meia kia branca, e dalli estcve olhando o arrayal 
de dom Christovilo, e depois niandou a sua gente que fosse em or- 
dem; e levavani tantas vandeiras, tam grande multidam de trom- 
betas e atabales e hiam com grande grita e alarido que parecia 
muyto mais gente da que cra. Pareceolhe a dom Christovam que 
queriam acometer e fezse prcstes pera peleijar; mas elles nam pre- 
tendiam senam cercar o arrayal, e como o ficeram, vigiaram toda 
a noite com muytos fogos e grandes gritas. Os Portugueses esti- 



LIVRO I, CAPITULO XXXII. 307 

vcram tambem sempre aparelhados com panellas de polvora em as 
maos e com morroes acessos pera as espingardas, e de quando em 
quando desparavam alguns ber^os, com o que faciam que nam se 
atrovesem a chegar os enemigos, e parecia o arrayal tam crespo 
quc nam se podiam persuadir que fossem os Portugueses tam pou- 
cos como de dia parcciam. 

Passada a noite com aquelle tam grande trabalho e comccjando ^^ OrAnh leeatum 

a sair o sol, mandou o (iranh hum embaixador a dom Christovam, ■<* Christophorum 

mittit ut eum ad suas 

dicendo, que se maravilhava muyto como tivera atrevimento pera partes trahere stu- 
entrar naquella terra e aparecer diante delle com tam pouco po- phorus^oer xumcfum 
der, que bem parecia tam mancebo como Ihe deciam e inocente responderit. 
sem esperiencia, mas que por sua pouca idade e saber que aquella 
molher e a gente da terra o tracia enganado, que era tam falsa 
127. que nem a seu proprio Rey guardava *lealdade, tinha piedade delle 
e determinava usar de sua grande^a e acostumada clemencia, per- 
doandolhe atrevimento tam mal considerado, com condicjam que se 
fosse logo pera elle com todos os Portugueses, e que, se nam qui- 
sese andar em sua companhia, se tornase pera sua terra e elle Ihe 
aseguraria o caminho, pera que nam Ihe fosse feito mal nenhum; 
e que ficesse logo o que Ihe mandava, pois via tam claramente a 
verdade do engano com que o trouxeram ; e que recebese o que o 
embaixador Ihe daria, que era hum capello de frade e hum rosairo, 
mostrando que nam o tinha em conta de capitam senam de frade, porque 
a todos os Portugueses, que alli estavam, punham este mesmo nome. 
Depois que dom Christovam ouvio a embaixada, fez muyta 
honrra ao que a tracia e deolhe huma roupa de setim roxo e huma 
gorra de gram com sua medalha de bom prego e disse que se fosse, 
que elle mandaria a reposta a seu senhor; e fez que o acompa- 
nhasem ate sair do arrayal. Ordenou logo dom Christovam com 
conselho dos principaes que nam fosse Portugues com a reposta, 
pois avia tam pouco que fiar de mouros, senam hum escravo de 
Portugues, que era albo, e vistindoo muyto bem, Ihe deram huma 
mula em que fosse e o que avia de dicer escrito em arabio, para 
que o pudesse ler o Granh, e era: que elle tinha alli chegado por 
mandado do gram liao do mar e poderoso senhor na terra, o qual 
sempre acostumava a socorrer os que pouco podem, e assi, por ter 
noticia que o christianissimo Emperador de Ethiopia seu irmSo em 
armas estava desvaratado e desapossado de seus reynos por gente 
infiel e enemiga da santa fe catholica, Ihe mandava o socorro que 



3o8 HISTORIA DE ETHIOPIA 

alli via, que, ainda que piqueno, bastava pera toda sua multidam, pois 
eram tam maos e tomaram aquella terra sem nenhuma regam nem 
justic^ta, nam com sua forga, senam poUo permitir assi o verdadeiro 
Deos, pera castigar os Ilabexins por seus peccados; mas que esperava 
cm sua divina misericordia que se aplacaria sua ira com o que ja 
tinham padocido e que os tomaria a sua antigua livertade e posse 
de suas terras por meio dos Portu^eses, e que, ainda que poucos, 
outro dia veria como peloijavam e pera quanto eram ; porque nam vie- 
ram pera se tomarem, senam ao buscar a elle. E mandoulhe hum 
ospelho grande e humas tena^as piquenas, de que acostumam usar 
as molheres pera as sobrencelhas, facendo delle molher. 

Chegando o escravo ao Granh com esta resposta, teve g^ande 
paixam ; mas com tudo disse, que homens de tam grande coragam, 
que, sendo tam poucos, se atreviam a peleijar com elle, que tracia 
tam grande *poder, mereciam que todos os Reys Ihes ficesem muy- f,i27,v. 
tas honrras e merces. E com isto se tornou o escravo. 
3. GrAnh parvam Determinava o mouro dos ter alli corcados, sem Ihes deixar 

manum Lusitano- 

rum undequaque cir- ontrar mantimentos, pora assi os tomar a fome; o que podia fa- 
^j°i j-.^°*^^^ *™^ cor facilmento, porque tinha quincc mil homens de pe todos de 

ad deditionem com- ^ f i 1 f 

pellere studet. Chri- adargas o (^argunchos, arcos o frochas, e mil e quinhentos de ca- 

stophDrus praelium ,, , , x^ . 

incredibili audacia vailo, e docentos turcos arcabucoros, e os Portugueses nam eram 
committit: victona j-nais que trecentos e cinquenta, porque oito eram mortos e os de- 

diu anceps; tandem * a i -1 

Gr^h,graviaccepto mais estavam ausentes. E os Turcos foram tam atrevidos, que, nam 
exercitu terga vertit. ^^ contontando com terem aos Portugueses cercados de longe, se 

chegaram muyto perto e ficeram humas paredes de pedra ensosa, 
de onde tiravam e faciam tanto dano, que foi necessario mandar 
dom Christovam a Manoel da Cunha e Inofre Dabreu com sesenta 
Portugucsos pora os botar dalli; o que elles ficeram com grande 
valor e osforgo, nias acudindo os mouros de cavallo a dar costas 
aos Turcos, se trabou huma briga muyto grande, em que firiram 
alguns Portuguoses e elles mataram muytos mouros, ajudando os 
do arrayal com a artilharia, e vondo dom Christovam que hiam car- 
regando muytos mouros, mandou tocar a recolher ; o que os Por- 
tuguosos ficoram logo com muyto boa ordom e os Mouros tambem 
se afastaram, por nam so atrever a chegar perto do arrayal, mas 
ficaram toda via aroda na forma que antos o tinham cercado. 

Entondondo dom Christovam que o intento dos mouros era to- 
malo a fome, determinou dar batalha antes que viose a tal estremo, 
e assi outro dia, que foram 4 de abril de 1542, ao cantar do gallo, 



LIVRO I, CAPITULO XXXII. 309 

mandou carregar as tendas e o dcmais fato e, repartindo os capi- 
taes com sua gente a mao dereita e izxjuerda, pus a Emperatriz 
no meio com suas molheres e 200 Habexins que a acompanhavam, 
e elle tomou a retaguarda, porque de todas partes ostavilo cerca- 
dos e, em rompendo a lua, romec^ou a abalar seu arrayal com esta 
ordem. O que vendo os Mouros, mostraram grandc alej^ria, por Ihes 
parecer que, como deixaram aquelle oiteiro, Ihos seria facil desba- 
ratalos; e assi se foram logo pera ellos, tangendo tantas trombetas 
e atabales e com tam grande grita que parocia que se fundia o 
campo ; e come^ando os Portugiieses a tirar com suas espingardas 
e jugar por todas partes com a artelharia, ficeram afastar a gente 
de pcc, de maneira que Ihes davam campo franco. O que vendo os 
Turcos, se puseram na dianteira e foram chegando tanto que fa- 
ciam muyto dano com as espingardas. Em isto se abalou o mesmo 
f. 128. Granh com as tros vandeiras que sempre *tracia diante e com mais 
de 500 de cavallo e, chegandose polla vanda onde estavam os Tur- 
cos, se trabou a cousa do manoira que so viram em grando aperto 
os Portugueses; pollo que dom Christovam Ihes disse que nam se 
afastasem tanto senam que doixasem peleijar coma artelharia; o que 
faciam com tanto animo os que a tinham a seu cargo, e tiravam 
tam a miude que nam deixavam chogar os cavallos e matavam muy- 
tos. Mas os Turcos peleijavam fortemente e se chegavam muyto, e 
assi foi for^ado a dom Christovam mandar a Manoel da Cunha com 
50 Portugueses que desse nelles, e arremetendo se varalharam to- 
dos tanto que os Turcos pegaram do guiam e mataram o a| l]ferez 
e outros tres Portugueses e firiram com huma espingarda na perna 
a Manoel da Cunha, poUo que se recolhco, deixando mortos e fe- 
ridos muytos Turcos. 

Em este tempo andava dom Christovam animando a gente, que 
muyta della estava ferida, e punhase sempre na parte onde avia 
mais perigo, e assi llie deram huma espingardada na perna, o que 
foi pora todos os seus de grande sentimento e a elle de muyta 
maior honrra, porque, assi forido como estava, acudia a todas par- 
les, esforc^ando os soldados e peleijando com t.mto valor e arte qual 
pode ser nam ficeram em tal aponto os mais insignes e famosos 
capitaes, que celebram muyto as historias. 

Andando pois a batalha muyto acessa e sendo ja mais de 
meio dia, pareceolhe ao Granh (que estava vendo de fora) que sua 
gente enfraquecia e, acudindo a ajudar com os que o acompanha- 



3IO HISTORIA DE ETHIOPIA 

vam, se chegou tanto que o alcan^aram com huma espingardada c Ihe 
atravesaram a pema e juntamente o cavallo, e assi caio logo morto, 
Vendo isto sua gente e que Ihe corria muyto sangue, abatiram tres 
veces as vandeiras, dando sinhal de recolher, e logo o foram le- 
vando em os bra<;os; e conhecendo bem dom Christovam que elle 
era o que levavam ferido, mandou tanger de festa as trombetas e 
atabales e arremeteo com os Portugiieses e os 200 Habexins, le- 
vando tam grande impetu que em pouco espago fez virar todos os 
mouros, e deixando o campo alastrado delles mortos, siguio o al- 
can^e ate que os Portugueses ficaram muyto cansados, e como nam 
tinham cavallos, arreceou dom Christovam que, passando adiante, 
podiam conhecer sua canseira os mouros de cavallo e tornar sobre 
elles. PoUo que mandou tocar a recolher e, quando tomaram ao 
arrayal, achou a Emperatriz com suas criadas em huma tenda amar- 
rando por suas maos os feridos com seu[s] proprios tocados, sem 
querer esperar por outros pannos. 

*Como chegou dom Christovam, fez correr o campo pera tracer f.i28.v. 
a enterrar os Portugueses que morreram, e acharam once. Tambem 
conheceram alli os Habexins cuatro capitaes do Granh muyto prin- 
cipaes e 30 Turcos mortos; e como acabaram de enterrar os Por- 
tugueses, que dom Christovam ouvera de descansar de tam exces- 
sivo trabalho, como tinha levado, se pus a curar os feridos por sua 
mao, porque o ^urgiam que tinham estava ferido na mao dereita; 
e depois de curar a todos se curou a si mesmo, tendo mais senti- 
mento das feridas dos soldados que da sua propria. E como foi 
noite, embiou scgredamente hum homem aos Portugueses que fo- 
ram a Magua, que Ihes dese nova da victoria que tiveram e como 
fora ferido o Granh ; que viesem com toda pressa, porque esperava 
no Senhor que com sua chegada se acabaria a conquista. Estive- 
ram alli alguns dias, esperando que os feridos tornasem a poderem 
tomar armas e que os outros Portugueses chogasem ; mas vendo 
que tardavam e arreceando que o mouro se reficese e tornase a dar 
sobre elles (como na verdade ja tinha mandado que viesem com 
muyta pressa os capitaes que tinha espalhados, e cada dia Ihe en- 
trava muyta gente), determinou dom Christovam de Ihe dar logo 
outra batalha, tendo grandes esperan^as na misericordia do Senhor, 
por quem todos peleijavam, e em cujas maos tinham postas suas 
vidas, que, ainda que era tam grande a multidam dos enemigos, Ihes 
daria victoria, como primeiro tinha feito. 



CAPITULO XXXIII. 



De como dom Christovam deo a 2" batalha ao Gr&nh. 



Passados 12 dias depois que dom Christovam venceo ao Granh, 1. Sccunda vice 
sintindose ja os feridos pera poderem tomar armas, se confessaram lium^^mnSttit^cum 
todos e domingo da Pascuela, antes de amanhecer, alevantaram o «crcituGrAnh, mul- 

tisque mahumeda- 

arrayal e, postos em ordem, se foram pera os mouros que estavam nis caesis, reliquos 
perto e, como foi esclarecendo, que os viram, sairam com a grita aco- ^^™ c^^^ii^^ *" 
stumada e nam menos sobervos que a primeira vez, porque Ihes 
tinha entrado mu)rta gente e quem principalmente Ihes dava animo 
era hum capitam muyto arrogante, que se chamava Garad Amar e 
viera de novo com 500 de cavallo e tres mil de pe. Este decia aos 
capitaes do exercito, como era possivel que, sendo tam poucos os 
Portugueses, durasem tanto diante delles, como tam grande multi- 
dam nam os facia logo em poo [?] ; e tomando elle a dianteira arre- 
f. 129. nieteo *com os seus tam afotamente, como se nenhum caso ficera 
dos Portugueses. E na verdade, se todos seus 500 de cavallo fo- 
ram tam resolutos como elle, os ouveram de por em grande aperto; 
mas por medo da artilharia, que matava niuytos, nam se atreveram 
a romper unidamente. So o capitam com cinco mouros de cavallo, 
homens muyto esfor^ados, se metcram pollos fains dos Portugueses 
e morreram peleijando valerosamente. A este tempo mandou o Granh, 
a quem alguns, por estar ferido, traciam em hum catre carregado 



312 HISTORIA DE ETHIOPIA 

sobre os hombros, que toda a demais gente de cavallo arremetesse 
por diversas partes; o que elles ficeram com muyta forga, e tra- 
bouse muyto a batalha, peleijando de huma e outra parte por grande 
espa^o valerosamente ; mas os que entre todos se senalavam, eram 
oito Portugueses, que tinham cavallos, arremetendo com grande 
animo onde os mouros mostravam maior for^a, e sempre rompiam 
e matavam muytos ondequer que chegavam ; mas como eram tam 
poucos, nam se atreviam a afastar muyto siguindo o alcance, que, 
se todos tiveram cavallos, ficeram aquelle dia maravilhas, sem Ihes 
poder escapar o Granh; nem as deixavam de facer em seu districto 
os Portugueses de pe, porque tambem faciam suas saidas, matando 
muytos dos Turcos e tantos mouros que todo o campo aroda do 
arrayal estava alastrado delles. 

Andando pois a batalha muyto trabada e acessa e carregando 
os mouros de cavallo a parte, que viram em os de dom Christo- 
vam mais fraca, tomou por d(^sastrc fogo a polvora, que alli tinham, 
e matou dous Portugueses c queimou outros, que ficaram muyto mal- 
tratados, e foi tamanho o estrondo que fez e a lavareda que ale- 
vantou, que os Portugueses todos st^ tiveram naquelle instante por 
acabados e os cavallos dos mouros viraram com tanta furia que, 
sem obedecer de nenhuma maneira ao freo, levavam a seus senho- 
res pollo campo, e assi se afastaram bom peda^o e deixaram aquelle 
lugar desaprcssado. Pollo que, ainda quc* foi grande desastre to- 
mar fogo a polvora, pois se queimaram aquelles Portugueses, ajudou 
muyto pera alcan^.ar victoria, porque, demais que os mouros tinham 
posto em grandc aperto e perigo aquelle lugar, como se afastaram 
tanto, sem poderem facer tornar a virar de pressa os cavallos, fica- 
ram mais libres os Portugueses pera darem nos Mouros de pee, e 
assi o ficeram de maneira que ate os Turcos, que eram os que 
principalmc^nto peleijavam, se afastaram, e dalli por diante nem elles 
nem os de cavallo se atniviam a cht»gar muyto. No que conheceo 
dom Christovam que hiam ja erifni(|uecendo, e assi *arremeteo com f.i2g,v 
tam grande impetu que, nam pudendo os Mouros resistir, se foram 
retirando (^ peleijando ate que se viram tam aportados que toma- 
ram por remedio virar as costas e fugir a quem mais podia, ten- 
dose por muyt(j ditosos e bcm afortuiiados os que escapavam com 
as vidas, porque os Portugueses hiam com muyta furia matando 
em elles como em carneiros; e assi siguiram o alcan^e obra de 
meia legoa, ficando tam cansados do que tinham corrido e peleijado 



l 



LIVRO I, CAPITULO XXXIII. 313 

que nam puderam passar adiante, ainda que o deseijavam, por ve- 
rem de longe levar as costas em seu catre ao Granh e fugindo to- 
dos a quem mais podia, pello que, se tiveram cavallos, nam Ihes 
ouvera de escapar e com sua tomada se acabara a demanda. 

Vendo dom Christovam que sua gente estava mu)rto cansada, 
se tornou tocando arrecolher e, chegando ao arrayal dos mouros, 
acharam as tendas armadas e muyto fato dentro, que com a pressa 
de fugir nam puderSo levar ; e como acavaram de recolher os de- 
spojos, que se juntaram todos os Portugueses, acharam que falta- 
vam catorce, e logo os foram a buscar poUo campo com muyta 
diligencia e a todos trouxeram mortos e os enterraram com grande 
sentimento, mas dando juntamente muytas gra^as ao Senhor por 
tam insigne victoria; e por estar o campo destruido de erva pera 
os gados e nam tam acommodado pera os feridos, que passavam de 
setenta, de quem depois morreram 4, se passaram a outra parte, 
onde estava huma ribeira fresca e, chegando perto, viram muytos 
mouros sentados a longo della e entrelles ao Granh, que determi- 
nava descansar alli aquella noite, por ser ja muyto tarde e Ihe pa- 
recer que os Portugueses nam podiam chegar tam longe, ainda que 
quissesem; e assi, quando os vio, disse com grande ira (como de- 
pois refirio hum Habexim que com elle estava) : Muyto he que nam 
me qucram deixar estes frades, que assi chamava sempre aos Por- 
tugueses; e alevantandose todos com muyta pressa, fugiram oito 
dias, sem se darem por seguros ate entrarem em huma serra muyto 
forte ; e no caminho morreram muytos, assi por nam acharem man- 
timentos bastantes; que a gente da terra, como os via ir desvara- 
tados, nam Ihos dava, como por irem muytos feridos e levallos com 
tanta pressa. 

Ficou dom Christovam perto daquella ribeira descansando e a. ConBilio inito 

, r> • j j • . 1-1. cum primoribiis Ae- 

curando os fendos, por ver que nam podia por entam passar adiante thiopiae hiemare 

siguindo o alcance, e dalli a dous dias chegaram os Portugueses, «tatuitadpedesmon- 

tis OflA prope (inea 
f. 130. que tinham, ido *a Magua, e o Bahar jSagax com 30 de cavallo e regni Ang6t et in 

500 de pe, e foram rccebidos com grande festa e alegria ; mas elles ^^^l!^^*** caatrorum 

vinham com extraordinaria triste^a, por nam se terem achado em 

aquellas batalhas, nem aver sido de effeito seu caminho, porque 

nam acharam as fustas dos Portugueses, quc ja sc tinhao afastado, 

por causa das gales dos Turcos, que guardavam aquella costa, pera 

que nam pudesem chegar a tomar novas do que passava em Ethio- 

pia. Vcndo pois dom Christovam os Portugueses quc tanto deseijava, 

C. Bkc ari. Rer» Aeth, Script, occ, ined, — II. J9 



314 HISTORIA DE ETHIOPIA 

determinou ir logo em segnimento do Granh, e assi deixou 14 Por- 
tugiieses, que estavam mais feridos, em huma serra muyto forte 
encomendados ao governador da terra, a quem chamam Tigre Mo- 
hon (que os fez curar com muyta diligencia e prover do necessario 
com grande abundancia), e foi caminhando dez dias ate chegar a 
serra, onde se tinha acolhido o Granh, que era muyto grande e forte, 
e por entrar ja o inverno com muyta chuva (que parece come^ou 
aquelle anno mais cedo do que acostuma), aconselharam a Empe- 
ratriz e os seus a dom Christovam que invernasem ao pe de outra 
serra, que se chama Ofla e esta em os confins do reyno de Tigre, 
casi na entradada do de Angot e a vista da do Granh, porque dalli po- 
diam tolher que nam Ihe entrasem mantimentos senam polla vanda 
do mar, de onde Ihe viriam poucos, e entretanto chegaria o Preste 
Joam, quc aquelle era seu caminho. O que pareceo bem a dom Chri- 
stovam e Ihe escr[ev ]eo logo dandolhe conta do que tinha passado e 
que convinha apressar sua vinda porque nam Ihes escapase o Granh, 
e mandou com esta carta hum mulato, que se chamava Aries Diaz, 
assi porque sabia a lingoa da terra, por ter primeiro andado em 
Ethiopia com dom Rodrigo de Lima, como porque Ihe ajudavam 
as cores pera milhor poder passar. Mandou logo a Emperatriz que 
a gonte da terra ficesse casas pera todos, o que cumpriram com 
muyta diligencia e acabaram de pressa, porque eram piquenas, de 
madeira, que alli nam faltava e cubcrtas de palha; e traciam man- 
timentos e tudo o demais necessario em grande abundancia, pello 
muyto que folgavam com os Portugueses. 
3. Sub fincm hie- Estando aqui dom Christovam, veio a elle na fim do inverno 

lusitiuiis lUK^tu ag- ^um Judeo, que fora capitam de huma serra muyto forte, que se 

greditur fortissimam chama Oati, da provincia de (,^emen, que era perto, e Ihe disse que 

maurorum munitio- 

nem ad flumen Ta- em aquella serra estavam muytos cavallos e os mouros de guarda 

cac6, eaquesuperata, q^^^ poucos, que, se queria, a podia tomar com cem Portugueses, 

nes caedit spoliisque indo segredamente polla parte que elle sabia, e que tornaria muyto 
opimis potitur. 

de pressa com todos aquelles cavallos, e que soubese tambem que 

o Preste Joam nam tinha outro caminho pera passar mais que aquelle, 

e que tracia tam pouca gente que de nenhuma maneira o podi«i fa- 

cer, estando alli aqut*lles Alouros. Ouvindo isto dom Christovam, ficou 

muyto triste, porque cuidava que vinha com grande poder, e pre- 

guntando a Emperatriz se era certo o que o judeo decia, respon- 

deo que si; com o que ficou mais *desconfiado, ainda que o nam f.130. 

deo a entender, e determinou de facer o caminho franco ao Preste, 



j 



LIVRO I, CAPITULO XXXIII. 315 

com quem desejava muyto de se ajuntar, e ver se podia tomar 
aquelles cavallos, que Ihes aproveitariam muyto pera a guerra; e 
assi deixando o arrayal bem concertado, tomou a Manoel da Cunha 
com cem Portugtieses e parteo a meia noite segredamente, porque 
nam entendese o Granh que elle faltava, e caminhando a toda pressa, 
chegou a hum rio grande que chamam Tacace, de que falamos no 
cap. 27, que no inverno leva muyta agoa e furiosa corrente, mas 
com tudo o passaram em xangadas e odres cheios de vento, e de- 
pois, sem serem sentidos, subiram a serra por onde o Judeo guiava, 
mas acharam acima muytos mais mouros dos que elle tinha dito, 
porque estavam tres mil de pe e cuatro centos de cavallo, que, vendo 
os Portugueses, se puseram com muyta pressa em armas. Subio en- 
tam dom Christovam em seu cavallo e oito Portugueses, que tam- 
bem os levavam e juntos com os de pe foram arremetendo. Em 
isto se adiantou dos seus em hum fermoso cavallo o capitam dos 
Mouros, a quem chamavam Cid Ahamed, que quer dicer « senhor 
Ahamed >, e veio demandando a dom Christovam; elle tambem Ihe 
saio ao encontro com tanta forga que, ainda que o mouro a tracia 
muyto grande, em pouco espa^o o matou e se foi logo metendo 
pollos mouros, derrubando a huma parte e outra muytos mortos. O 
mesmo faciam os demais Portugueses com tanto impetu que com 
serem muytos os mouros, os ficeram virar, e foram bom peda^o 
matando nelles e dos que Ihes ficaram escaparam poucos, porque os 
Judeos, que alli estavam, os mataram. 

Como tudo. isto foi acabado, se recolheram os Portugueses, 
dando muytas gra^as a Deos que, sem morrer nenhum, Ihes dera 
tam grande victoria, do que ficaram muy maravilhados todos os 
Judeos que moravam na serra, e o que os guiava, vendo o que ti- 
nham feito, ao que nam Ihe parecia podiam chegar for^as huma- 
nas, disse que nam era possivel senam que os Portugueses tinham 
verdadeira fe, pois Deos tanto os ajudava, e assi se fez christao 
com douce irmSlos seus capitaes daquellas terras; e porque, ainda 
sendo judeo, fora sempre fiel ao Preste Joam, o deixou dom Chri- 
stovam por capitam daquella serra como antes era, encomendan- 
dolhe que mandase com muyta pressa recado ao Preste Joam, como 
era ja tomada a serra, pera que viese com brevedade, sem arrecear 
o perigo do caminho. Tomou aqui dom Christovam muyto fato, que 
tinham guardado os mouros, por ser lugar tam forte, muytos escra- 
vos, trecentas mulas e 80 cavallos escolhidos, que estimou mais que 



3l6 HISTORIA DE ETIIIOPIA 

tudo, e com isto se tornou mu^rto alegre e passou o rio Tacace da 
mesma maneira que primeiro; mas depois, porque o caminho era 
muyto aspero e que hiam os cavallos devagar, deixou com *elles f. 131. 
Irinta Portugueses e foisse com os demais a toda pressa, porque 
sua tardancja nam fosse causa de algum trabalho, sabendose que 
faltava elle e tantos Portugueses no arrayal. 
4. Gr&nh caedibus Em quanto passavam estas cousas, nam perdia tempo o Granh, 

suorum perterritus ^ ja.^ji ^ il/^ x. 

auxiliares copias ct ^''^tes, vendo tantos dos seus mortos e os que Ihe ncavam tam ame- 
tormenta bellica a drantados que nam se aviam de atrever mais a facer rosto aos Por- 

Turcis Arabiae ex- 

petit, iisqueacceptis, tugueses, trabalhou muyto porque Ihe viese gente nova de outras 
cum usitanis com- pQ^j-^Qg ^ principalmente Turcos, e pera isto escreveo ao Baxa de 



mittere parat. 



Zebid, terra da outra vanda do estreito na Arabia, declarandolhe 
o aperto em que estava e quam poucos eram os Portugueses: que 
Ihe socorrese com os mais Turcos que pudese, que elle tambem 
era vassallo do gram Turco; que nam quissese deixar perder as 
terras que tinha ganhado; e mandoulhe muyto ouro com grandes 
promessas pera depois. O que vendo o Baxa, que tinha tres mil 
Turcos pera guarda do estreito, Ihe mando setecentos, ou, como 
outros affirmam, 900 de espingarda, em que entravam trinta de ca- 
vallo com estribos dourados, e dez pegas de artelharia de campo. 
Vieram tambem muytos mouros A.rabios que Ihe mandaram outro[s] 
senhores de Arabia seus amigo[s], e dos de Ethiopia se Ihes jun- 
tou grande numero, e chegando os Turcos ao Granh a mesma 
noite que dom Christovam entrou em seu arrayal, logo outro 
dia dcceo da serra dando mostra de sua gente, . que era tanta 
que cubria o campo, e asentou seu arrayal tam perto dos Por- 
tugueses que a artelharia dos Turcos, que logo dispararSo, chegava 
a elles. 

Vendo dom Christovam o socorro grande, que Ihe viera ao 
Granh, tomou conselho sobre o que seria milhor facer, e todos dis- 
seram que de nenhuma maneira se podiam retirar, porque a gente 
da terra se alevantaria logo contra elles e nam somente nam Ihes 
daria mantimentos, mas nem os deixariam passar; nem o Granh os 
avia de largar: que forgadamente aviam de peleijar, mas que nam 
o ficessem ate chegar os Portugueses com os cavallos, que podiam 
tardar dous dias, e entretanto se defenderiam o milhor que pude- 
sem em seu arrayal, que o tinham fortificado aquelle inverno com 
boas tranqueiras; e com este acordo mandaram logo recado aos 
Portugueses, que traciam os cavallos, que viesem a toda pressa, por- 



LIVRO I, CAPITULO XXXIII. 317 

que o Granh decera com muyta gente e mostrava querer dar logo 
batalha; e elles se aparelharam e fortaleceram todo aquelle dia e 
noite, que nam foi piqueno trabalho pera os que vinham cansados 
do caminho ; mas nem com isto alcan^aram seu intento, que era de- 
fenderemse ate que chogasem os cavallos pera dar batalha, porque 
nam a puderam escusar antes disso, como no capitulo siguinte 
veremos. 



CAPITULO XXXIV. 

De como o Gr&nh deo batalha a dom Christovam, 

e do que sucedeo. 



f.i3i.v. *Vendose o mouro Granh com tanta, tam lustrossa e bem ar- i. Gr&nh prima 

ma[da] gente e sabendo quam poucos eram os Portugueses, teve ^^ ^^is ^Luaita^ 
por muyto certa de sua parte a victoria e assi determinou dar logo nos aggreditur. Ma- 

-^,, . •.^j- t_j r Kna virtute utrim- 

batalha, e pera isso o sigumte dia em amanhecendo, que loram q^e pugnatur, sed 
28 de acrosto de 1542, se foi pera o arrayal de dom Christovam ^ndem, nocte in- 

^ ^^ * ^ -^ cumbente et multis 

com toda sua gente em ordem e na dianteira 900 Turcos com dez suonim caesis, Lusi- 

j ^"11 • a_ j j j /-*i_ . ^ j o. ■ t*tii se retrahunt. 

pe<;:as de artilharia, e entendendo dom Chnstovam sua determma- 
<;am, ordenou tambem sua gente e reparteo as estancieis com ordem 
que dalli se defendesem, sem sair ao campo, ate que Ihes chegasem 
os cavallos, como primeiro tinham asentado, e vindo os Turcos a 
tiro de espingarda, se come^ou huma muyto forte e porfiada pe- 
leija, jugando de huma e outra parte com a artilharia e espingar- 
daria; o que durou por algumas horas, morrendo muytos Turcos e 
algnns Portugueses e ficando outros feridos, ate que, uniijdose 
muyto a gente do Granh, se chegaram os Turcos de maneira a as 
tranqueiras que feriam e matavam muytos com as espingardas; e 
vendo dom Christovam o dano grande que Ihe iaciam e que estava 
arriscado a Ihe abalroarem as tranqueiras, por nam serem tam fortes 
como convinha pera tam grande multidam e for^a de gente, de- 
terminou facer algumas saidas e tornarse a recolher ; e o primeiro 
que saio foi elle, levando comsigo cinquenta Portugueses de espin- 
garda, e deo com tam grande impetu em obra de cem Turcos e 



320 HISTORIA DE ETHIOPIA 

outros mouros, que estavam daquella vanda, que os foi levando por 
muyto espa^o diante de si, matando e firindo muytos; mas, por nam 
se afastar demasiado e vir carregando sobre elle muyta gente, se 
tornou a recolher, e entam Ihe mataram cuatro Portugueses e casi 
todos os demais vieram feridos e elle tambem com huma espin- 
gardada na perna. 

Como entrou dom Christovam, saio Manoel da Cunha por outra 
parte com sua gente e fez afastar os Turcos grande peda^o, que 
eram os que mais trabalho davam, por se terem chegado muyto 
as tranqueiras, e depois de ter peleijado bom espa^o com grande 
valor e esfor^o, matando e firindo muytos, indose recolhendo, Ihe 
mataram cinco Portugueses e Ihe firiram outros. Os demais capi- 
taes dcis estancias faciam tambem por ordem suas saidas e sempre 
levavam aos mouros e turcos grande espa^o pollo campo, facendo 
nelles muy grande estrago; mas ao recolher perdiam de ordinario 
gente e vinham muytos feridos, e desta maneira andaram com exces- 
sivo trabalho ate depois de meio dia, que veio a estar a casa da 
Emperatriz tam chea de feridos que nam cabia, c ella e suas don- 
cellas Ihes amarravam as feridas, derramando muytas lagrimas com 
grande angustia e afli^am, assi por ver cousa tam lastimosa, como 
por Ihes parecer que se chegava a hora em que aviam de caer nas 
maos de tam crueis *enemigos, porque se tinham chegado ja tam f. 132. 
perto das tranqueiras que metiam os pilouros dentro da casa, onde 
firiram duas molheres. 

A este tempo, com estar malferido, dom Christovam andava 
com grande diligencia correndo as estancias e animando os solda- 
dos e mostrando tam grande valor e esforgo qual se podia esperar 
de tam illustre e esfor^ado capitam, digno de ser posto entre os 
que por suas fa^anhas alcan^arao maior nome e fama no mundo, 
e vendo que, por se terem chegado tanto os Turcos, Ihe faciani 
muyto dano dentro do arrayal, mandou a Francisco Dabreu que 
dese com sua gente por aquella partc, e que seu irmao Inofre Da- 
breu estivesc fora com a sua, pera acudir com prestega quando elle 
se quisese recolher, porque os Turcos nam tivesem lugar de facer 
tanto dano. Saindo pois o valeroso capitam Francisco Dabreu, pe- 
leijou com tanto esforco que fez virar os Turcos e Mouros e os 
lcbou pollo campo, matando muytos e siguindo o alcance mais do 
que devera, ao recolher, Ihe deram huma espingardada com que 
caio morto. Arremeteo entam seu irmao e fez afastar os Turcos, 



LIVRO I, CAPITULO XXXIV. 32 1 

que vinham sobre elle, mas estando alevantando o defunto, o derru- 
baram morto com elle de outra espingardada ; e assi os que, de- 
mais de serem irmSos, se amaram muyto na vida, nam se afastaram 
na morte, nem se afastaram na gloria, que a teram muyto grande, 
pois padeceram tantos trabalhos e morreram peleijando en defen- 
sam da santa fe. 

Sintio dom Christovam na alma tam desastrado caso e perda 
de tam excellentes capitaes e, vendo que Ihe faltavam ja cuatro e 
muyta de sua gente e que os mais dos que Ihe ficavam nam po- 
diam peleijar, por estarem muyto feridos, e os Turcos, que enten- 
diam isto, se chegavam com muyta sobervia, tomou os que achou 
que Ihe podiam acompanhar, que eram bem poucos, e deixando en- 
comendado a Manoel da Cunha, que ao recolher desse elle com sua 
gente, e arremeteo com tam grande impetu e peleijou tam forte- 
mente, que em pouco espacjo nam ficou mouro nem turco que se 
atrevese a Ihe facer rosto, antes viraram todos as costas, e hia ma- 
tando nelles como em carneiros, tanto que, como affirmaram alguns, 
que estavam presentes, se a aquella hora tiveram comsigo os ca- 
vallos, que Ihe ficaram no caminho, sem duvida fora sua a victoria; 
mas nam tinha em todo seu arrayal mais que oito cavallos e com 
elles peleijaram todo o dia. Com tudo isso foi grande peda^o si- 
gxiindo os mouros, e sintindo aos seus muyto cansados, se tornou a 
recolher. Em isto viraram os Turcos e vinham detras a as espin- 
gardadas, com que Ihe mataram alguns Portugueses e a cUe Ihe quei- 
f.i32,v. braram o brago dereito. Acudio entam *Manoel da Cunha e com 
sua ajuda se recolheram, porem muytos feridos e todos tam can- 
sados que nam se podiam bulir, nem avia ja quem pudese tomar 
armas. Com todo isso dom Christovao, esquecido de suas feridas, 
os andava esfor^ando e rogando que se chegasem a as tranqueiras ; 
o que ficeram com grande animo e duas veces botaram os Turcos 
fora dellas, que com muyta for<;a e pressa hiam entrando e carre- 
gando alli todos os mouros davam grande bateria. 

Andando pois a cousa desta maneira o sendo ja muyto tarde, 2. Patriarcha Bcr- 

-. T^ . j /-M • ^ • 1- rnudc*, Impcratrix 

disseram us Portugueses a dom Lhnstovam que ja nam pocUam ^^ maior Lusitano- 

mais, que se recolhesom polla serra acima; o que elle de nenhuma "^™ P*"» tcncbris, 

sylva ct aspcritatc 

maneira queria facer, antes, tomando a espada com a mao izquerda, montis protccti, sa- 
hia com grande esfor^o pera a parte ondc o mostravam maior os ^ ^™ invcmun . 
mouros, dicendo aos seus que quem o quisese seguir o ficesse; e 
vendo os Portugueses sua determina^am, o detiveram com grande 

C. Bkccaju. /ier, Aeik, Script, occ, ined* — II. 40 



322 HISTORIA DE ETHIOPIA 

for^a, dandolhe muytas re^oes pera que se retirase e procurase de 
salvar sua vida e dos mais companheiros que ainda a tinham, por- 
que com ella se podia depois restaurar aquella perda, e tomandoo 
por forga em os bra^os, o puseram em sua mula e levaram polla 
serra acima, indo diante o Patriarca e a Emperatriz. Entraram logo 
os Turcos no arrayal e acharam nas casas mais de 40 Portugueses 
tam feridos que nam se podiam bulir, e comegaram a os matar com 
grande crueldade ; mas hum que estava na casa onde tinham guar- 
dada muyta polvora que ficeram no inverno, porque os turcos nam 
se aproveitasem della contra os christaos, foi rastando como pode, 
e tomando hum morram que estava acesso no cham, pus fogo a 
polvora, com o que elle e os Turcos que tinham entrado se abra- 
saram. Outros turcos e mouros foram siguindo os que fugiam e 
as frechadas e pedradas mataram alguns Portugueses, que nam po- 
diam andar tanto, por estarem muyto feridos e cansados ; mas como 
come^ou logo a anoitecer e a serra era de mato muyto basto, esca- 
param os demais ; porem o Patriarcha com alguns Portugueses por 
huma vanda, e a Emperatriz com outros por outra, e estes se sal- 
varam. Mas dom Christovam e 1 4 Portugueses, que o acompanha- 
vam, lan^aram por outro caminho e andaram toda a noite com 
grande traba[lho], assi poUa aspere^a do caminho, como por irem 
todos muyto feridos e cansados. 

Como amanheceo, se afastaram do caminho arre[ce]ando que os 
achasem os que os seguiam e meteramse por hum valle de muyto 
arvoredo e, achando no mais segrcdo delle huma fonte piquena, que 
nacia de huma quebrada, ajudaram a decer a dom Christovam da 
mula pera descansar e o curar, que ate entam nam o aviam podido 
facer, e como nam tivesem micinha nenhuma, mataram a mula em 
que hia e com o sevo curaram a elle e a si mesmos, que todos *esta- f j^^ 
vam malferido[s]. A este tempo ja tinham passado adiante 12 Tur- 
cos e 20 Arabios de cavallo em busca de dom Christovam, por te- 
rem noticia que foni por aquella vanda e, como nam o acharam, 
nem rasto nenhum no caminho, se tornavam. IVIas chegando de fronte 
de onde dom Chirstovam estava, atravesou o caminho por diante 
delles huma velha que parecia, que nam se podia ter em os pes. Foram 
elles pera a tomar desejando saber alguma nova, mas ella se foi me- 
tendo pollo mato de liuma mota em outra sem que a pudesem aver 
as maos, e chegando ao valle correo com muyta pressa pera as ar- 
vores onde estava dom Christovam com os Portugueses e siguindoa 



LIVRO I, CAPirULO XXXIV. 323 

os Mouros, que se determinaram de a nam largar, deram com elles 

de subito, e juntandose todos com grande grita, os prenderam, sem 

escapar mais que hum que nam estava tam ferido. Depois nam vi- 

ram mais a velha; pollo que deciam os mouros que Mahamed Iha 

mandara pera Ihes mostrar os Portugueses. 

Como foram tomados, conheceram logo a dom Christovam pol- 3'« At Christopho- 
, • 1 t >^ '*°^ sauciatos 

las armas que tmha, de quc muytas veces na guerra tiveram vista, cum paucis e suis 

e assi o levaram com grande alcgria e contentamcnto e presenta- P«>P«fo«»*«™*bho8- 
ram ao Gninh, que estava om sua tenda com grande festa e tinha ad OrAnh adducitur, 
diante cento e setcnta cabe^as de Portugnescs, porque dava gram nicliis ct suppliciis 

premio a quem Ihe tracia cabeca de Portugues, e assi nenhuma «**»lct*«n fortissi- 

mum affectum, tan- 

ficou no campo que nam Ihe levasem, e mostrandoas a dom Chri- dem sua ipse manu 
stovam, Ihe disse : Eis aqui com quem me queriais tomar minha **P**® ^ tmncat. 
terra. Conheces agora tua parbuicja ? Por este atrevimento te quero 
facer huma grande honrra. E foi mandalo logo despir num e atar 
as maos atras e a^oitar cruelmente. Depois Ihe davam no rosto com 
os (japatos de seus escravos e, levandoo pollo arrayal a as tendas 
dos capitaes, Ihe ficeram outras muytas injurias e afrontas e como 
todos se acavaram de desenfadar com elle, o tomaram a tenda do 
Granh, e mandou que das barbas Ihe ficessem torcidas com cera 
e Ihc pusescm fogo e que Ihe arrancasem as pestanhas e sobren- 
celhas com as mesmas tenacinhas, que dom Christovam primeiro Ihe 
mandou, dicendo que pera isso as guardara. O que tudo o esfor- 
<;!ado c catholico capitam sufria com admiravel paciencia, dando 
gragas a Deos, e com os olhos pregados no ceo Ihe pedia perdam 
de seus peccados e Ihe oiferecia sua alma. Mandou depois o Granh 
que o desatasem e por escarnio cubrir com hum panno sujo e vil, 
dicendolhe entre outras cousas que Ihe perdoaria a morte e Ihe 
faria honrras c merces e o deixaria embarcar pera India com todos 
os seus que se achasem vivos, com condicjam que os mandase cha- 
mar ondequer que estivesem e que viesem pera elle. Ao que re- 
spondco dom Christovam: Se tu, mouro, conhecera quem sam 
f , J3V. *Portugueses, nam falaras cousas de vento. De mi podes facer o 
que quiseres, pois estou em teu poder. Mas sabe certo que, ainda 
que me deses a metade de tuas terras, nem hum so Portugues faria 
vir pera ti, porque os Portugueses nam acostumam a viver com 
Mouros, que sam sujos e enemigos da santa fe de Christo meu se- 
nhor. Indignouse o mouro tanto com esta reposta, que, levantandose 
de onde estava e arrancando seu ter^ado, Ihe cortou a cabecja. 



1 



324 HISTORIA DE ETHIOPIA 

4. Turcae propter Sabendo os Turcos a morte de dom Christovam, tiveram mu^^ta 

mortem Christopho- j .. j , /- i- t. ^ 

ri iniram conversi, paixam, porque deseijavam de levar vivo ao Ciram lurco hum tam 
castraGrinhfereom- yaleroso e osforcado capitam e irmSo do ^overnador da India, e 

nes relinquunt. Per- 1 x- o ^ 

fuga lusitanus Impe- assi se foram pera a tenda do Granh e Ihe disseram como sem 

ratrici narrat necem * 

Christophori. Prodi- conselho ficera huma cousa tam grave, e vieram a taes palavras que 

gia subsecuta: Au- ficaram muvto quebrados e detorminaram de se ir logo a embar- 

ctoris vana tentami- 

na pro recuperandis car pera Zebid e levar a cabe(;:a de dom Christovam e trece Por- 

e usdem ezuviis. tugueses, que estavam presos ; mas deixaramlhe 200 Turcos, por- 

que assi o tinha mandado o Gram Turco, por re^am do tributo que 
cada anno Ihe pagava ; e a noite, antes que partisem, Ihes fugio hum 
dos Portugueses e foi a ter com a Emperatriz e contou todas estas 
cousas, que da prissam e morte de dom Christovam tenho referido ; 
e ainda dicem que affirmou que, acabando o mouro de Ihe cortar 
a cabe^a, saio logo huma fonte de agoa do mesmo lugar onde o 
corpo caio e seu sangue se derramou ; e ate agora falam mu^rto em 
Ethiopia daquella fonte e dicem que, quando os christaos senhorea- 
vam aquella terra (que agora tem huns gentios que chamam Galas 
e nam deixam entrar), hiam la muytos doentes poUa devo^am grande 
que tinham a dom Christovam e, labandose com aquella agoa, sara- 
vam de diversas infirmidades. 

Tambem dicem que, no mesmo dia e hora que morreo dom Chri- 
stovam, se arrancou huma arvore muyto grande, que estava na 
crasta de hum mosteiro de frades e se viraram as raices pera cima, 
com estar o dia muyto quieto e sereno; do que se maravilharam 
os frades e o atribuiram a algum grande misterio e assi notaram 
o dia e hora, e depois souberam que naquella mesma hora mata- 
ram a dom Christovam ; e secandose a arvore, cortavam os frades 
os ramos pera servi^o do mosteiro, mas dalli a seis meses, o dia 
que os Portugueses tornaram a peleijar com o Granh e o mataram, 
a arvore se virou e metendo as raices na terra, como antes as ti- 
nha, lan^ou logo folhas verdes. O que ouvindo os Portugueses, fo- 
ram a ver a arvore e a acharam com novas folhas, e os frades Ihes 
afirmaram que passara aquello desta mesma maneira. E pregiin- 
tando eu agora a alguns frades por isto, me disseram que o ouvi- 
ram contar a outros mais velhos por cousa muyto certa; e todas 
estas *cousas attribuem a querer Deos Nosso Senhor honrrar seu f. 134. 
servo e mostrar quanto Ihe agradou em sua vida e morte; e to- 
dos grandes e piquenos o tem e pregoam ate agora por grande 
martyr; o que piadosamente se pode crer, polla muyta paciencia 



LIVRO I, CAPITULO XXXIV. 325 

com quc sofreo tudo e pello odio grande de nossa santa fe com 
que aquelle enemigo della Ihe tirou a vida. Este mesmo nome Ihe 
da muytas veces o emperador Seltan (,^agued, que oje vive, e de- 
seijando eu tirar os ossos pera os embiar a India, Ihe pedi orde- 
nase a hum seu capitam, que estava perto daquella terra, que dese 
ajuda a algnns Portugueses, que la hiam pera oste eflfeito, e elle 
Ihe escreveo huma carta muyto encarecida e entre outras cousas 
Ihe decia, que nam convinha deixar estar no campo os ossos da- 
quelle santo martyr; que trabalhase o possivel pollos haver e os 
entregase aos padres da Companhia, pera que os pusesem em sua 
igreja com a honrra devida. Mas isto nam teve efFeito, por mais 
que se procurou, intentando muytos meios e dando peitas aos gen- 
tios, porque sam muyto falsos e tinham concertado de matar os 
Portugneses e a gente da terra que entrase com elles; o que Ihes 
descubriram alguns que sabiam do conselho, e assi se tornaram sem 
nada, de pois de terem gastado muyto fato. 

Do que temos dito se vee claramente quam longe da verdade 5. Rcfcrtur pro- 

/•••r ^ rT*jTT^i_ j brosa calumnia ab 

101 <i iniorma^am que teve frey Luis de Urreta sobre o modo com urrcta imposita lu- 
que dom Christovam e seus soldados se ouveram em esta ultima 8i**^p nomini caquc 

cx dictis rcfutatur. 

batalha, pois a refer por estas palavras, pag. 360: 

« Entretanto que los christianos tenian cercado al rey moro 
« Gradahametes, se ha de presuponer que el monte, donde estava, 
« tiene las espaldas al mar de Arabia, por donde embio su emba- 
« xadora los Reyes moros, pidiendoles favor y suplemento de gente y 
« armas, dandoles ra^on del peligro em que estava y de los danos que 
« le avian hecho los Portugueses. Acudiole mucha gente muy pro- 
« veida de armas y arcabuceria y ocho piegas de campaiia, con la 
« qual ayuda engrosso su exercito, y poniendose en orden de batalla, 
« baxo del monte en demanda de los Portugueses. Hallolos, qual el 
« fue hallado dellos, derramados por los campos, unos en tiendas y 
« otros en caserias, sin orden de guerra ni diciplina militar ; y dando 
« de repente el moro Gradahametes sobre los descuidados christia- 
« nos, unos dormidos, porque era de noche, otros aturdidos con la 
« artilleria, otros descuidados y todos desapercebidos, alfin, aunque 
« mostraron alguna defensa, al cabo come^aron a ciar, y despues a 
« se retraer, hasta que, no pudiendo mas resistir, huyeron alegres 
f.i34,v. « con llevar las *vidas. Huyo el capitan Christoval de Gama, mas 
« fue preso en un bosque de los soldados que yvan en su segni- 
« miento y Uevado al rey moro Gradahametes etc. ». 



326 HISTORIA DE ETHIOPIA 

No que aqui diz o Author do grosso socorro, que o mouro teve 
de Arabia, falou verdade, como acima vimos, ainda que pudera acre- 
centar que entre os Arabios vieram 900 Turcos. Mas no modo de 
discuido, neglijjencia, desordem e falta de diciplina militar, em 
que affirma que tomou os Portugueses descuidados e dormindo, por 
ser de noite, e na remissam e fraque^a com que mostra que pe- 
lejaram e fugiram, nam foi asi como elle pinta, senam como ja te- 
mos contado. Onde quem atentar bem, achara que dom Christovam 
da Gama, depois que do Mar Roxo saio em terra e come^ou a ca- 
minhar por Ethiopia ate o ponto em que Deos permitio que fosse 
desbaratado, nam faltou em seu officio em cousa alguma de tudo 
quanto de hum muy grande e excellente capitam se podia desejar; 
nem seus soldados deixaram nunca de mostrar o valor e esfor^o 
dos que, poUo terem muyto grande, sam mais afamados nas histo- 
rias; porque, deixando as espantosas batalhas que venceram e as 
insignes victorias que tiveram, quem nam pasmara do que em esta 
ultima batalha ficerao[?]; pois sos 335 Portugueses, contando os 
dous, que ultimamente vieram com recado das fustas, que chegaram 
a Mapua a saber novas e nam se puderam tornar, porque, dos 400, 
que primeiro sairam, ja eram mortos 37 e outros 30 ficaram no ca- 
minho de ^emen com os 80 cavallos, nem os Ethiopes que esta- 
vam com a Emperatriz, Ihes ajudaram aquelle dia em nada ; quem 
pois nam se maravilhara de que sos 335 Portugueses pelejasem com 
900 Turcos tam bem armados, como ja dissemos, e com tantos 
Arabios e outros Mouros de pe e de cavallo, que nam tinham 
conto, desde que saia o sol ate que se punha, sem nunca jamais 
terem hum so momento de descanso, nem deixarem de andar em 
huma roda viva saindo das tranqueiras a pelejar no campo com os 
Mouros ora huns capitaes, ora outros, poUo modo que ja dissemos 
matando tantos e levandoos de vencida todas as veces que saiam, 
sem Ihes ficar a victoria mais que por falta de cavallos com que 
a siguisem [? | Nam ha duvida senam que o ficeram como excellen- 
tes cavalleiros, mostrando o maior esfor^o que podia ser, de ma- 
neira que parecia que o Senhor Ihes dava for(;as mais que huma- 
nas. Pollo que com muyta re^am os podemos pregoar por dignos 
de perpetua memoria e fama, e condenar muyto o que tam sem re- 
gam o Author Ihe impoe a dom Christovam, sendo assi que foi 
preso e morto como temos dito, depois de ter feito tam estranhas 
provas que sSo honrra do nome Portugues. 



f.i35. CAPITULO XXXV. 

De como os Portugueses, que escaparam da batalha, se 
juntaram com a Emperatriz e depois com o Preste 
Joam, e deram batalha ao Grlinh. 



Acabada aquella tam triste e dolorosa tragedia em que, de- i. Lusitani super- 

■t . .ii_ • ^ • j r stitea Imperatricem 

pois de tam prosperos sucessos e maravilhosas victorias, se desfez aequuti in vertice 

como fumo a roda de tam grande felicidade e ditosa fortuna, fica- nioatis natura mu- 

nitissimi se colli- 

ram os Portugueses que escaparam da batalha espalhados pollos gimt. Reliqui la, per 
matos, e como os tomou logo a noite e nam sabiam os caminhos, Jes""*^*/**^^ 

hia cada hum por onde sua ventura o guiava. Os milhor librados dunt, quos incredi- 

^ bili audacia adoriun- 

eram os que puderam seguir a Emperatriz, porque, como levava tur et in fugam ver- 

comsigo gente da terra que sabia onde se podiam recolher, facil- ^'ip* ; *ai^d«™ «d «los 

salvi perveniunt. 

mente se puseram em salvo, metendose em huma serra muyto forte ; 
mas dos que ficaram entre os matos hiam outro dia dez ou 1 2 jun- 
tos, caminhando devagar, por estarem muyto feridos e cansados e, 
sendo ja dez horas de dia, foram vistos dc muytos mouros de pe 
e dous dc cavallo, que corriam o campo. e logo foram com grande 
furia pcra eUes. Disseram entam dos que estavam menos feridos, 
e se chamavam Fernam Cardoso e Pero de Almansa, que os de- 
mais, pois nam podiam pelejar, se fossem a toda pressa e se em- 
brenhassem, em quanto elles ficavam pelejando ate morrerem o se- 
rem cativos ; ao que se offereciam de boa vontade, porque elles se 



328 HISTORIA DE ETHIOPIA 

salvasem. Com esta determina^ao se tornaram pera os mouros com 
suas adargas e fains em as maos e se concertaram que, se os cati- 
vasem, por mais tormento que Ihes dessem, nam descubrisem os 
que hiam diante. 

Foramse chegando os dous mouros de cavallo e como esti- 
veram perto, se detiveram esperando pollos de pe pera os toma- 
rem e deciamlhes que entregassem as armas e que nam os mata- 
riam. Vendo elles tanta gente e que traciam muytos arcos e fre- 
chas, disseram entre si que milhor era entregaremse, porque as fre- 
chadas e pedradas os aviam de matar, antes que pudesem chegar a 
elles com os fains e entregandose poderia ser que dalli se tornasem, 
e salvarse hiam os outros; e assi disse hum delles, que ja sabia al- 
guma cousa da lingoa da terra, que gucirdasem o que prometiam e 
que tomasem embora as zirmas, e chegando *pera as entregarem, f.i^s.v. 
se sintiram interioritiente com novo espiritu e amos subitamente 
disseram : Santa Araria, com nossas mesmas armas nos hemos de 
matar?; e dicendo estas palavras, deo cada hum no seu mouro tal 
golpe que amos cairam em terra, hum morto e outro muyto mal 
ferido, ficando os cavallos sem se bulirem. O que vendo a gente de 
pe, com ser muyta, come^ou a fugir; entam os Portugueses su- 
biram em os cavallos e foram hum pouco apos elles, dando mostra 
de que os queriam seguir, mas, como os mouros se foram afastando 
e encubrindo com os matos, voltaram logo amos e foram em busca 
de seus companheiros, a quem dalli a pouco acharam, ficando todos 
maravilhados dos ver, porque os tinham ja por m<!yffds "ou cativos, e 
sabendo o que passara, o atribuiram a milag^e e deram gragas a 
Deos por tam grande merce, e tomando em os cavallos os que esta- 
vam mais feridos, foram com muyto trabalho caminhando, ate que 
polla misericordia do Senhor acejftaram a chegar a sera onde estava 
a Emperatriz com alguns Portugueses. 
a. Luctus Impera- Tinha ja mandado a Emperatriz muyta gente da terra que cor- 

stophori' dc Gama~ ^^^^ ^^ caminhos e os matos pera que guiasem onde ella estava 

Viribus refectis lao qs Portngiieses que achasem e procurasom, aver novas de dom Chri- 

Lusitani Imperatri- 

cemaequunturinCe- stovam, que nam sabiam mais de que saira muyto ferido. Estes 

men; reliqui 50 Ma- trouxeram alt^uns, o uutro dia tambem entraram os que vinham com 
9uam vemunt m In- '^ 1 

dias transmissuri. os cavallos e ate entani nam sabiam do desvarate, e assi. vendo seus 

companheiros tam feridos e em tam lastimoso estado, foi grande o 
sentimento que tiveram e muytas as lagrinias que derramaram. Em 
isto chegou o Portugues, que escapou quando prenderam a dom Chri- 



LIVRO I, CAPITULO XXXV. 329 

stovam, e dalli a pouco o que fugio dos Turcos, depois de sua 
morte, e contaram o que sucedera na forma que no capitulo pre- 
cedente referimos. O que lastimou tanto a todos, que, esquecidos 
de todos os outros males e perdas, so esta choravam com g^andis- 
sima dor e angustia de cora^am. Nam foi menor o sentimento que 
teve a Emperatriz e o pranto que fez com suas donas e doncellas 
polla morte de dom Christovam, porque o chorou por muytos dias 
como se fora seu proprio filho, o Emperador, sem admitir nenhuma 
consolaijam, posto que se esfor^ava a dar aos Portugueses o mi- 
Ihor que podia. 

Em esta serra estiveram algfuns dias pera se curar e descansar 
e que se recolhesem os que andavam espalhados ; e juntaramse como 
cento e vinte, e tiveram nova que Manoel da Cunha com cinquenta 
Portugueses, sem saberem o caminho por onde hiam, entraram em 
f. 136. as terras do Bahar Nagax, onde *foram muyto bem agassalhados. 
Depois determinou a Emperatriz com parecer dos Portugxieses pas- 
sarse a serra Oati de Qemen, que dom Christovam ganhara no in- 
verno, porque alli estavam mais seguros e tinham em abundancia 
tudo o necessario, que, demais de ser muyto forte e casi inexpu- 
gnavel, tem acima campos largos de sementeiras e herbas bastantes 
pera muytos gados e agoa em grande abundancia de fontes e ribei- 
ras que nunca se secam. Por isto se foram la e recebeoos com 
muyto amor e benevolencia o capitam que dom Christovam deixara 
naquella serra, dando a todos liberalmente nam so o necessario, mas 
o que pera outras cousas particulares Ihe pediam. 

Dez dias depois que a Emperatriz e os Portugueses entraram 3. ciaudius impe- 
em aquella serra ou, como outros dicem, 20, chegou o Preste Joam "^"^vcni^^ubr wU 
ao pe della com tam pouca e tam triste gente que, se a serra nam lecto ezercitu 500 e- 

quitum et 8 miHium 

estivera tomada, nam somente nam a pudera elle tomar aos mou- peditum, Lusitano- 

ros, mas nem se atrevera a chegar alli. Como os Portugueses sou- "^™ "orfSh ^^^^^ 

beram que estava tam perto, deceram em ordem levapido por van- tare statuit. 

deira a da Misericordia, e quando chegaram, vendoos daquella ma- 

neira e qne eram tam poucos e sabendo do desvarate e morte de 

dom Christovam, foi tam grande o sentimento e triste^a que teve qual 

pudera ter se Ihe morrera o unico filho erdeiro do imperio, tanto 

que nem depois avia consolalo, porque vinha muy desejoso de ver 

a dom Christovam, pola fama gprande que delle tinha. Receoos 

toda via com muyta honrra e falou com g^ande benignidade con- 

solandoos e dicendo que se nam ouvesem por estrangeiros e de- 

C. BiccARi. /P#r. Am/M, Sert^/. oec. iued. — U. 49 



330 HISTORIA DE ETHIOPIA 

semparados em seu imperio, porque elle o tinha por del Rey de 
Portugal seu irm^o, pois com o sangne de seus Portug^eses ver- 
dadeiros christSos fora comprado; e a tudo proveo logo muy co- 
piosamente de vestidos, tendas, mulas, criados que os sirvisem e 
tudo o mais necessario. 

Esteve em esta serra alguns meses em quanto se Ihe foi ajun- 
tando gente e, tendo ja como 500 de cavallo e oito mil de pe, pa- 
recendolhes aos Portugueses que com aquella gente se podia dar 
batalha aos mouros, pidiram muyto ao Emperador Ihe quissese aju- 
dar a vengar a morte de dom Christovam. Duvidou elle muyto de 
se poder facer com tam pouca gente, mas sabendo de pois que os 
Tnrcos eram idos a suas teras, sem ficar mais que docentos com 
o Granh, e facendo muyta instancia os Portugneses, determinou se- 
guir *seu conselho e pera isto mandou recado aos 50 Portugueses, f.i36,v. 
que foram a as terras do Bahar Nagax, que viesem a ter com elle 
com a mor pressa que pudesem e de caminho trouxesem as armas 
que dom Christovam deixara na serra Damo, onde achou recolhida 
a Emperatriz, e por ser cousa muyto forte, guardou alli as que tracia 
de sobresalente ; mas quando chegaram os criados do Empera- 
dor, nam acharam alli os Portugueses, porque, parecendolhes que 
ja os demais eram acabados e que elles nam podiam chegar onde 
estava o Emperador, se foram pera a vanda de Ma^ua a esperar 
se vinham algumas fustas em que se embarcasem pera India ; e assi 
se tornaram, tracendo toda via as armas, que foram de grande im- 
portancia, porque tinham muyto poucas. 

Sabendo o Emperador que nam avia que esperar por aquelles 

Portugueses, que estavam muyto longe, se partio dalli a seis de 

fevereiro de 1543 com os que tinha comsigo, que eram cento e 

vinte ou 30, em que entravam alguns aleijados, a quem o Empe- 

rador decia que ficasem; mas elles o nam quiseram facer de nen- 

huma maneira, deseijando de ir morrer com seus companheiros. Que- 

rialhes sinalar por capitam algum delles, mas nem isto admitiram, 

dicendo que, pois tinham perdido tal capitam como dom Christo- 

vam da Gama, nam aviam de ter outro senam a elle e a vandeira 

da s.** Misericordia. 

4. In provincia Com estes Portugueses e com os quinhentos de cavallo seus 

men hostium, duce ^ 8000 de pe foi em busca do mouro Granh, deixando a Empera- 

interempto, profligat triz sua may em aquella serra, e chegando a provincia de Oagra, 

achou hum capitam do Mouro com 300 de cavallo e 2000 de pe 



LIVRO I, CAPITULO XXXV. 33 1 

e mandou que desem nelle antes de amanhecer, indo cinquenta 
Portugueses de cavallo na dianteira; e em pouco espapo os desba- 
rataram, matando o capitam e os mais delles, e tomaram muytos 
cativos, de quem souberam como o Granh estava pouco mais adiante 
no reyno de Dambia, perto da lagoa, por onde passa o Nilo, com 
sua molher e filhos, que por aver muyto tempo que os deixara alli 
e por ser terra fertil, se veio pera elles pouco depois que venceo 
a dom Christovam. Teve logo novas da ida do Emperador e que 
tracia Portugneses comsigo, do que ficou muy espantado, porque 
cuidava que todos eram mortos, e os seus nam pouco arreceosos, 
por conhecer muyto bem o esforQo dos Portug^eses e entender que 
nam vinham senam a se vengar do passado. Aparelhouse com muyta 
pressa e facendo alardo de sua gente, achou que tinha trecemil 
homens de pe e de cavallo e docentos Turcos. 
f. 137. Chegando o Emperador a vista dos mouros asentou *seu ar- 5. Ixide magnis iti- 

rayal em huma terra que chamam Oinadaga e, antes de dar batalha, propJucum SambU 
tiveram por alguns dieis muytas escaramu^as, saindo de ordinario, y«*"* «* castra ponit 

in conspcctu caatro- 

70 Portugueses de cavallo, que faciam maravilhas, e vendo huma rom Qr&nh. Per plu- 
vez contra elles hum famoso capitam do mouro com 200 de ca- "^^eUiaho^te**!"^^ 
vallo, o mataram no primeiro encontro com 1 2 cavalleiros muyto «it qui, inaidias mo- 

n . n ,. ^ .^. ju. liti, ducem e primis 

esfor^ados e ficeram birar os outros; o que smtio grandemente o Aethiopum interfl- 

Granh, porque era o milhor capitam que tinha. Tambem o geral *^*^*' 

do campo do Emperador era grande cavalleiro e facia muyto boas 

sortes com sua gente, de maneira que sempre levavam os mouros 

o pior. Vendo o Granh o dano grande que este capitam Ihe facia, 

determinou de Ihe armar huma cilada com que o matase a trai^am, 

e pera isto mandou que cuatro Turcos bons espingardeiros se em- 

boscasem de noite a longo de huma ribeira, que estava a vanda 

do Emperador, e como amanhecese fossem dous de cavallo com 

huma vandeira branca e fingissem que Ihe queriam dar algum aviso 

em segredo e tratar de se passar pera elle e, como chegasse Ihe 

tirasem os Turcos. Ficeramo assi por huma parte que parecia que 

os dous de cavallo escondidamente sairam de seu arrayal e, postos 

a borda da ribeira, chamaram por seu nome ao capitam. Elle que 

ja aquella hora andava a cavallo, mandou saber que queriam, e 

responderam que tinham huma cousa que Ihe relevava muyto e que 

nam a podiam dicer senam a elle. Ouvindo isto, se foi chegando 

com muyta gente e vendo que nam eram mais que dous, pare- 

ceolhe que se queriam passar pera elle ou darlhe algum aviso de 



332 HISTORIA DE ETHIOPIA 

importancia, mandou ficar toda a gente e, levando sos dous criados, 
se chegou a borda da ribeira e estandolhe preguntando o que que- 
riam, Ihe tiraram os turcos com suas espingardas e o mataram e 
logo fugiram todos com muyta pressa, e como a gente do capitam 
ouvio as espingardas e vio fugir os mouros, entendeo a trai^am e 
correram muytos de cavallo apos elles, mas nam os puderam al- 
can^ar, porque os Turcos tinham alli perto cavallos prestes e de 
seu arrayal sairam muytos aos receber, e assi se tomaram com 
seu capitam morto. 
6. Altcra die prae- Sintio muyto o Emperador a perda deste capitam, porque era 

lium committitur. . c •* . * 

Res diu manet in an- niuy valeroso e com o esfor^o g^ande que mostravao dava aos ou- 
cipiti:attandemip8e ^^.Qg ^ ^ssj^ vendo que faltava, o perderam muytos, de maneira que 

GrAnh gravi vulnere * jt ^ 

saucius capite plecti- tiveram por impossivel a victoria e tratavam de fugir do arrayal 
ti^timivexwiamau^ segredamente. *Mas nam faltou quem dissese ao Emperador o que f.isr.v. 

praecipiti fuga terga passava, poUo que determinou dar outro dia batalha, arreceando 
vertit. 

que, se tardase, o deixariam so ; e em amanhecendo mandou que se 

pusesem todos em ordem e juntandose os Portugueses, arvoraram 

a vandeira da s.^ Misericordia e postos todos de joelhos se encomen- 

daram a Deos, pidindolhe pellos merecimentos da Virgem Nossa 

Senhora da Piedade, que nella estava pintada, os quisese ajudar 

contra seus enemigos e recebese as almas dos que tivese por bem 

que acabasem naquella batalha, e alevantandose, se puseram em or- 

dem e tomaram a dianteira, como o Emperador Ihes tinha conce- 

dido, levando comsigo docentos e cinquenta Habexins de cavallo e 

tresmil e quinhentos de pe, e na retaguarda hia o Emperador com 

outros 250 de cavallo e cuatro mil e quinhentos de pe. Desta ma- 

neira se foram pera os Mouros que ja vinham tambem repartidos 

em duas batalhas e o Granh na primeira com docentos Turcos de 

espingarda e seiscentos Mouros de cavallo e sete mil de pe, e na 

retaguarda vinha hum grande capitam com seiscentos de cavallo e 

seismil de pe. 

Como se juntaram os campos, arremeteram de huma e outra 

parte com grande impetu e come^ouse a travar fortemente a ba- 

talha, mas carfegando por huma vanda os Turcos hiam levando 

diante aos Habexins, o que vendo os Portugueses, voltaram sobre 

elles com muyta preste<;!a e mataram muytos, e os demais se reti- 

raram hum peda^o ate se ajuntarem com os outros mouros; mas 

os Portugueses nam os deixaram, porque com elles principalmente 

o queriam aver; e assi 70, que tinham cavallos, se meteram por 



LIVRO I, CAPITULO XXXV. 333 

elles facendo maravilhas e muytos dos do Emperador, por nam fica- 
rem envergonhados, os acompanharam e se acendeo mu^rto por bom 
espa^o a batalha, mas pelejaram os Portugueses com tam extraor- 
dinairia bravega que ficerao virar os Turcos e Mouros, que estavam 
naquella parte; o que veado o Grinh, acudio elle mesmo com hum 
seu filho mancebo e os que o acompanhavam, e fez que se detive- 
sem e pelejasem, e chegouse tanto esfor^andoos que foi conhecido 
dos Portugueses, e logo carregaram todos a aquella vanda e tantos 
tiros Ihe ficeram com as espingardas que hum Ihe deo em ospei- 
tos e caio de bra^os sobre o ar^am dianteiro do cavallo. Vendo 
isto os seus, Ihe acudiram e, abatendo as vandeiras, o levaram fu- 
gindo, mas de pois o deixaram no cham, querendo antes ir desem- 
f. 138- bara^ados pera salvar suas vidas, que acarretar *sem proveito o 
corpo que Ihes avia de ser causa de suas mortes, porque logo seu 
exercito se come^ou a desvaratar e por em fugida. So o capitam dos 
Turcos se determinou de morrer peleijando e venderse por justo 
pre^o e assi, alevantando as mangas da camisa, com os bra^os nus 
e com hum alfange largo e sua rodela em as maos, acometeo a 
cinco Habexins de cavallo e Ihes deo bem que facer e, queren- 
dolhe hum dar com a lan^a, pegou elle della [szc] e Iha tirou das maos 
e a outro cortou as pemas do cavallo : pello que nam se atraviam 
ja a chegar a elle. Estando em isto, chegou hum Portugues de ca- 
vallo e Ihe deo huma grande ferida com a langa, mas tambem 
lan^ou mao della com tanta forga que nam avia facerlha largar, e 
fose chegando tanto que alcan^ou com o alfange ao Portugues so- 
bre hum joelho e Ihe cortou os nervos de maneira que ficou aleijado. 
Lebou elle entam da espada e acabou de matar ao Turco. 

A este tempo hia a gente do Emperador sigiiindo o alcance »• Uxor OrAnh, 

caede viri sui et ma- 

dos mouros e facendo nelles grande matan^a, mas os Portugueses ioris partis ezercitus 
principalmente se ocupavam com os Turcos, que, como Ihes tinham ^***^?' ^Y^ paucis 
tam boa vontade, nam se curavam tanto de outros e assi de todos ripit. Aethiopes vi- 

ctores castris ho- 

docentos nam escaparam mais que 40. Estes foram pera a molher gtium et copiosa 
do Granh, que, sabendo o desbarate, se acolheo com 340 de cavallo, pr*ed* potiuntur. 
que estavam em sua guarda, e lebou o thesouro que seu marido 
tinha tomado ao Emperador e escapou, por andarem muyto todos tam 
ocupados matando e tomando os despojos do campo e do arrayal, 
onde acharam grande numero de cativos christaos, particularmente 
mininos e molheres; o que Ihes foi de grande alegria e contenta- 
mento, porque huns acharam su2is irmaas, outros suas molheres e 



334 HISTORIA DE ETHIOPIA 

outros seus filhos, a quem nam tinham esperan^a de ver nunca. Era 
tam grande o pracer de todos que Ihes parecia sonho, e reconhecendo 
que por via dos Portugfueses Ihes viera tam grande bem, se bota- 
vam a seus pes e Ihos beixavam, dandolhes muytas ben^oes e agar- 
decimentos. O Emperador tambem Ihes fez muytas honrras e se 
mostrou mais obrigado do que podia satisfazer, porque via que elles 
Ihe deram o imperio, que estava tam perdido que nam avia quem 
cuidase que se podia tomar a recuperar; e foi cousa maravilhosa 
que, com ser esta batalha tam travada e do principio della andarem 
os Portugueses na dianteira metendose tanto poUas espingardas dos 
Turcos e esquadroes dos mouros, nam morreo nella nenhum. Por 
onde se pode ter por sem duvida que a Virgem da Piedade (a quem 
antes de entrar na batalha se encomendaram) a teve delles e *lhes f.i^s.v. 
alcan^ou do Pay das misericordias esta tam grande. 
9. Quae hucusque Tudo o que temos dito em este capitulo, assi como nos demais 

a* tesdbus^^de "^bu ^^® tocam a dom Christovam da Gama, he por informagam de pes- 
flde dignis. Quomo- soas de vista e fide dignas : pello que se Ihes deve dar mais cre- 

do eadem narraverit 

Urreta. dito que a quem informou a frey Luis de Urreta sobre esta histo- 

ria, que elle conta, pag. 361, tam diferentemente do que na ver- 
dade passou, quanto vera o letor em suas palavras, que sam as 
signintes : 

« Mientras estas cosas passavan en el reyno de Adel, el Pre- 

< ste Juan baxava con un copiosissimo campo, que cubria los cam- 
« pos, los montes y valles y quitava la luz de la tierra, donde avia 
« mas de seiscientos mil hombres. A tres u quatro jomadas antes de 
« Uegar al reyno de Adel encontro con muchos de los suyos quehuyan, 
« y con algnnos Portugueses, que le dieron las tristes nuevas de todo 
« lo que passava y de la muerte de don Christoval de Gama. Grande 
« fue su mosta^a y enojo con la desgracia, mas corrido algo de mo- 
« strar sentimento por tales pajueleis, compuso su semblante y con 

< una fingida risa dixo: Pues a f e a fe, Gradahametes, que algum 
« dia me pagareis tanto[s] agravios, y no tardara mucho el ca- 
« stigo. O illustre capitam Gama, dichoso fuiste, pues padeciste una 
« muerte tan gloriosa. Alegrate, pues tienes un Emperador que ven- 
« gara tu muerte ; y doi palavra que ni el Rey de Portugal mi her- 
« mano, ni el Vissorey de la India hermano tuyo se podran quexar 
« de mi en ning^n tiempo. Y marchando a buela pie toda aquella 
« numerosa muchedumbre alegres y contentos, dando mil saltos de 
« placer, dieron sobre los Moros, hallandolos tan descuidados que 



LIVRO I, CAPITULO XXXV. 335 

€ estavan aun haciendo mil dan<;as y bailes por la victoria passada. 
€ Pero presto se bolvieron en tristes lagrimas, porque, estando el 
€ rey Gradahametes dando saltos y brincos, le cogio en el ayre 

< una dichosa bala, que le atraveso los costados y dio con el muerto 
€ en aquellos campos. Muerto el Rey, a todos los suyos se les mu- 
« rieron los ccracjones y viendo aquella muchedumbre de gente que 
« descargava sobre ellos, dieron a huyr enflaquecidos, desmayados 
« y debilitados, asaltadas las almas y juicios con aquel sobre- 
€ salto. Pera los valientes Ethiopes dieron en aquelle batallon de 

< los mouros hiriendo y matando con la brave^a y colera qual la 

< vengan^a de tales agravios pedia. Era un juicio y asombro ver 

< y oyr el temeroso ruido de las trompetas y caxas, el rebramar 

< de la alcabuceria, el rugir de las balas, la ferocidad de los ca- 
t vallos, el quebrar de las lan^as, el caer y el gritar, las voces, 

f. 139. < los alaridos, los suspiros, las heridas crueles, *las muertes desa- 

< piadadas, los arroyos de sangre, el polvo, el humo, la confusion 

< y esto es guerra. El emperador Claudio, como animoso y valiente, 

< vestido de una fuerte cora^a hasta media pierna de piel de elefante 

< con su rodela azerada y con lan^a de dos hierros, puesta su visera 

< y hielmo con una vanda de carmesi colgada de la cabe^a (modo 

< antiguo de entrar en las batallas los Preste Juanes), se metia por 

< los escuadrones mas serrados de los enemigos y los trato de arte 

< que no dexo alguno que no muriese a sus manos, o no huyese 

< de sus manos. Murieron casi todos los Moros, dando mil gritos 

< que hundian los cielos, llamando a su Mahoma, sino que, como 

< esta en el infierno, no los oyo ». 

Ate aqui sam palavras de frey Luis de Urreta, em que, con- ^^ Calumniosa 
forme ao que com certeca temos dito, falta muyto na verdade da *^"atio pluribus ar- 

gumentis refutatur. 

historia ; porque primeiramente o desbarate de dom Christovam nam 
foi no reyno de Adel, senam (como ja dissemos) em Ofla confins 
do reyno de Tigre e entrada do de Angot, muyto longe de Adel, 
nem o Preste Joam vinha com seiscentos mil homens, como elle 
diz, que, ainda que naquelle tempo nam se tiveram apoderado os 
mouros de casi todo seu imperio, senam que estivera muyto flo- 
rente e pacifico, nam pudera juntar nem a metade da gente que 
fingio quem o informou, nam teve nunca senam tam pouca que fora 
impossivel recuperar seu imperio, se os Portugueses nam vieram; 
porque, como contam seus livros, morrendo seu pay David (que 
tambem se chamou Onag Qagued) no reyno de Tigre na serra Damo, 



336 HISTORIA DE ETHIOPIA 

onde dom Christovam achou a Emperatriz Zabela Oenguel, que por 
serem muyto forte se tinham acolhido a ella por medo dos mou- 
ros, o levantaram a elle alli por Emperador, sendo de i8 annos, 
e tinha tam pouco poder que indo sobre elle dalli a cuatro ou cinco 
meses hum capitam do Granh, que se chamava Amir Ozman o de- 
sbarato[u] e escapou com muyto trabalho e se foi pera o reyno da 
Xaoa com so 80 homens e por la andou sempre fugindo em ter- 
ras muyto fortes com tam pouca gente que, com estar dom Chri- 
stovam em suas terras mais de hum anno (pois entrou em julho 
de 1541 e a batalha em que foi desbaratado se deo a 28 de agosto 
de 42), e mandoulhe muytas veces recado que viese, que elle tam- 
bem se hia chegando, nunca se atreveo ao facer ate que ouvio 
como dom Christovam tinha tomado a serra Oati da provincia de 
Cemen, nem estava tam longe que nam pudera chegar a juntarse 
com dom Christovam em menos de hum mes; mas por medo de 
alguns mouros, que estavam no meio, o nam fez, e quando veio, 
tracia tam pouca gente, como a cima dissemos, e depois de se jun- 
tar naquella serra com os Portugueses e estar *tanto tempo, nam f.139,, 
pode juntar mais que 8000 de pe e quinhentos de cavallo e taes 
que nam se ouvera de atrever a pelejar com o Granh, se os Por- 
tugueses nam o animaram e importunaram tanto, e ainda o dia an- 
tes da batalha estavam pera fugir, por ver que Ihes faltava o ca- 
pitam, que o Granh matou a trai^am. 

Tambem foi mera imagina^am que o Preste Joam, quando ouvio 
o caso de dom Christovam, ficesse contra o Granh os feros e amia- 
Qas que o Author diz ; nem teve por cousa tam de pajuelas a morte 
de dom Christovam e mais Portugueses que se correse de mostrar 
a grande triste^a e mortal sentimento que Ihe causou esta nova ; e com 
muyta re^am porque, demais de que Ihe ficavam muy poucas espe- 
ran^as de poder recuperar seu imperio, toda boa re^am e termo de 
agardecimento pedia que mostrase triste^a e sentimento, pois hum se- 
nhor tam grande como dom Christovam da Gama viera com os Por- 
tugueses ao socorrer em tempo de tanta necessidade e, depois de 
ter feito tantas maravilhas pelejando tam valerosamente, como te- 
mos visto, derramou seu sangue e acabou a vida em seu servigo. 
Nem o Emperador com os seus deo de subito em os Mouros, achan- 
doos em dan^as e balhos poUa victoria passada, como elle diz, pa- 
recendolhe que avia pouco que a tivera, sendo assi que eram ja 
passados seis meses ; e o Granh nam estava no lugar onde se deo 



LIVRO I, CAPITQLO XXXV. 337 

a batalha, senam muyto longe em Dambia, nem desapercebido : que 
bem sabia que o Emperador hia sobre elle e alguns dias antes da 
batalha tiveram escaramu^as. Nem o Emperador tinha por armas 
pelles de elephante, que elle nam usava tal cousa, nem ha quem 
diga agora que entrase na batalha, senam que ficava na retaguarda, 
e ainda que entrara, era grande encarecimento dicer que tratou aos 
mouros de maneira que nam deixou algum que nam morrese a suas 
maos ou nam fugisse dellas, senSlo he que entenda por suas maos 
as dos Portugneses e as dos demais de seu exercito; nem morre- 
ram tantos mouros como diz, por que muytos escaparam e se fo- 
ram com a molher do Granh. 



C. Bbccari. Rer, Aeik, Seript» oce, ined, — IL 4J 



CAPITULO XXXVI. 

De algumas cousas que sucederam depois que Preste 
venceo ao Gr&nh, e das exequias que fez a dom Chri- 
stovam e aos demais Portugueses que morreram. 



Como o Emperador teve por sua a victona, mandou logo armar »• ciaudius ad la- 

^ ^ cum DaxnbiA instruit 

suas tendas a longo da gram lagoa de Dambia, que estava perto, em castra ibique a duce 
quanto os soldados seguiam o alcance dos Mouros e recolhiam os dis- ^J^^^*^*^! q^^! 
pojos do campo, que nam foram poucos, e entrando nellas com grandes sed suam sororem 
f. 140. musicas *e festas muyto contente por tam bom sucesso, so Ihe dava iungere recusat, quia 
cuidado nam saber que fora do Granh, que, ainda que Ihe afiirmavao *®*® QrAnh lam de- 

^ . mortuo caput ab- 

que nam podia escapar com vida, porque o levaram ferido de morte, scidit. 
com tudo isso nam se quietava, por ser tam grande enemigo ; mas 
quis Deos darlhe perfeita alegria, porque dalli a pouco veio hum seu 
capitam, que se chamava Calid, correndo em seu cavallo e facendo 
grande festa, porque tracia a cabe^a do Granh, que era bem conhecida 
e, pondoa diante do Emperador, Ihe pidio cumprise a palavra que 
tinha dada que era que a qualquer Ethiope que matase ao Granh, 
o casaria com sua irmaa, e se fosse Portugues, Ihe faria muyto gran- 
des merces. Nam faltou quem dissese que elle o nam matara, se- 
nam que o [a]chara morto, quando Ihe cortou a cabe^a ; poUo que 
o Emperador mandou facer diligencia sobre isso, e acharam que os 
Portugueses o firiram, nem outros tinham espingardas mais que 
elles, e assi, ainda que o capitam affirmou que elle o matara, que 
estava vivo quando elle chegou a Ihe cortar a cabega, e se oflFereceo 
a provar isto, julgaram que demais de aver muytos que affirmavam 



340 HISTORIA DE ETHIOPIA 

que o achara morto, ainda que provara o que pretendia, nam ba- 

stava pera o Emperador ficar obrigado a Ihe dar sua irmaa, pois 

os Portugueses o firiram de morte e elle o achara caido, que de ou- 

tra maneira nam o ouvera de alcan^ar. PoUo que o Emperador nam 

Ihe deo sua irmaa, mas remuneroulhe com outras cousas o presente, 

nem aos Portugueses fez as merces prometidas, porque nam se souve 

qual delles o firira, que, se se pudera provar, nam faltara com sua 

palavra. 

2. 50 Lusitani, qui Mandou logo por a cabe^a em huma lan^a cumprida pera que 

rcvcrttmtur^in^^- ^ visem todos os do arrayal e depois a imbiou a Emperatriz sua 

mto, indeque cum mav, que ficara na serra de Cemen, e que dalli a levasem pollas 

Imperatrice ad Clau- 

dium 8e conferunt. outras terras, peraque a gente nam pusese duvida em ser morto, e 
o^sA^^iaere- ^^^^ ^ Emperatriz vio a cabecja, deo muytas gra^as a Deos, que 
gna circumfertur. librara seu imperio das maos de tam grande e cruel tyrano e Ihe 

deixara ver com os olhos o castigo que merecia a inhumanidade 
que usara com dom Christovam da Gama, a quem ella amava como 
a filho, e assi com grande alegria e contentamento mandou facer 
muytas festas, a que ajudaram os cinquenta Portugueses que foram 
a Ma^ua, porque, nam achando embarcac^oes pera ir a India, e sa- 
bendo do recado que Ihes mandara o Emperador, se tomaram e 
tinham ja chegado onde estava a Emperatriz, a qual, como festejou 
alguns dias a victoria, se foi pera onde estava seu filho, levando 
comsigo os Portugueses, e receberam a todos com grande appa- 
rato e alvoro^o, que ate entam nam se ocupavam senam em mu- 
sicas e festas, por se verem libres de tam grande tyrania e duro 
cativeiro. Aos Portugueses tambem recebeo o Emperador com muyta 
benignidade e mostras de amor, dandose por muy obrigado ao que 
por elle tinham feito, e mandou que os provesem abundantemente 
de tudo o necessario. 
3. Claudius ve- *A este tempo veio recado ao Emperador de hum senhor grande, f.i^o.v. 

niam dat ErAg Defifa- , t^a-t-x ^ i-i-ktA-vTAT 

nA aliisque ducibus, ^^® ^^ chamava Eraz Degana, pay do Bahar Nagax Isaac, que avia 

qui partes Grinh niuyto que se lancara com o Granh, por Ihe parecer que ja nam 

fuerant sequuti. Ex"^^ ^ r r- ^ j 

iUis unus, qui parti- era possivel poderse recuperar o imperio e estimavaho tanto o 
^ristot^^ri de^Ga- ^^"^^ V^^ ^ tinha feito ayo de seu filho e capitam de muyta gente, 
ma, a Lusitanis in- e escapando da batalha com o filho do Granh, como soube que o 

pay era morto, mandou dicer ao Emperador que se Ihe quisese 
perdoar, Ihe entregaria o filho do mouro ; mas ainda que era cousa 
de tanta importancia aver aquelle mo^o as maos, nam queria o Em- 
perador dar o perdam, pollo sentimento gfrande e justa indigna^am 



LIVRO I, CAPITULO XXXVI. 341 

que tinha contra elle, por se ter lan^ado da vanda dos mouros e 
pelejado muyto tempo contra os christaos. Mas depois, por inter- 
cessam de seu filho Isaac (a que o Emperador nam negava nada, 
porque Ihe trouxera os Portugueses), Ihe perdoou e mandou segnro; 
e assi veio logo tracendo comsigo o mancebo, a quem o Empera- 
dor mandou facer bom tratamento, mas que o guardasem com 
diligencia. 

Ouvindo outro grande capitam do mouro como o Emperadoi 
perdoara a Eraz Degana, metio tambem muytos intercessores pera 
que Ihe perdoase e dese seguro ; o que o Emperador concedeo por 
alguns respeitos, ainda que se tinha feito mouro e destruido muyto 
a terra, mas depois que entrou no arrayal, soube o Emperador que 
elle fora hum dos que prenderam a dom Christovam e desejou 
muyto do matar, mas por Ihe ter dado seguro, o deixava de facer. 
Os Portugueses desejavam isto muyto mais, porque o conheceram 
logo, e tinham grande paixam poUo verem cada dia diante de seus 
olhos, e assi se foram ao Emperador e Ihe pidiram encarecida- 
mente o mandase matar, pois o merecia tanto ; mas respondeo que 
nam podia facer tal cousa, por Ihe ter dado seguro e procurou dos 
satisfacer com boas palavras, em que entenderam claramente, que 
nam Ihe pesava se elles o matasem ; e assi foram dous a sua tenda 
e o mataram a as punhaladas ; do que nam Ihe pesou ao Empera- 
dor, nem ouve quem Ihe falase em isso. A alguns tambem mandou 
matar o Emperador dos que andavam com o mouro, mas depois d[e]o 
perdam geral, porque se a todos os que mereciam a morte ouvera 
de matar, poucos, ao menos dos grandes, Ihe ficaram em todo seu 
imperio. 

Esteve o Emperador em aquelle lugar dous meses, em quanto ^. Ezacto iam pro- 
Ihe entraram alinins homens crandes, que andavam com o mouro, Pf hicme, ciaudius, 

o o ' ^ plusquam 600 mona- 

e depois passou tres legoas mais adiante a huma cidade, que estava chis undequaque col- 

_^ n 1 1 . ji ■» ^ lectis, iusta solemnia 

perto da mesma lagoa, por ser lugar mais acommodado pera ter ^^^^^ memoriae 
o invemo que ja se chegava, e repartindo a gente de guerra pol- Cliristophori persol- 

vit. Inde, eoUecto 

los lugares aroda, deo hum muyto perto aos Portugueses, onde exercitu, per omnes 
foram providos abundantemente do necessario, e cada dia ivam ao diTOurrit^casque buo 
pa^o, porque o Emperador folgava muyto com isso. E na fim de impcrio denuo subii- 
agosto, no mesmo dia que morreo dom Christovam da Gama, deter- 
minou de Ihe facer humas solennes exequias como elles acostumao 
f. 141. quando se cumpre o anno; e pera isso mandou lancpar pregam *pol- 
las terras alguns dias antes, que todos os pobres que ouvese se 



342 HISTORIA DE ETHIOPIA 

juntasem alli pera aquelle dia, e vieram mais de seis mil e arma- 
ramlhes muytas tendas no campo, onde por mandado do Empera- 
dor se Ihes deo esplendidamente de comer e juntamente de vestir. 
Fez tambem que viesem seiscentos frades ou mais e ficeram com 
muyta solennidade seus ofiicios na forma que elles acostumam e de- 
clararemos no 2° libro; e mandoulhes dar grossas esmolas. E como 
passou o inverno (que, como temos dito, se acaba ordinariamente 
por todo setembro), mandou juntar a gente de g^erra, que ja eram 
como dous mil de cavallo e vinte mil de pe, e com elles foi cor- 
rendo as terras que os mouros Ihe tinham conquistado, pera as aca- 
bar de redducir e quietar ; em o que gastou muyto tempo com nam 
pouco trabalho, porque os mouros, que ainda em ellas estavam, 
eram muytos. 
5, Referuntur alia Algumas destas cousas conta frey Luis de Urreta pag. 363 

commenta Urretae et 

ex dictis refutantur. por modo differente, pollo ser muyto e de tudo contraria a ver- 

dade a informa^am que sobre esta materia teve ; e assi sera neces- 
saxio referir suas mesmas palavras que sSlo as que se vam conti- 
nuando com as que no capitulo precedente pusimos, desta maneira : 
€ No quedo contento com este castigo o Preste Juan, ni sati- 
€ sfi^o el desseo de su vengan^a con las muertes de aquellos mo- 
« ros, sino que como un rayo y con una brave^a que salia de madre, 
« acordandose de la muerte de su hermano, determino de una vez 
« quitar tan penoso y enojoso enemigo de sobre sus espaldas, y 
« assi, entrando por el reyno de Adel, no dexo lugar ni villa que 
« no quemase y derribase y fueron tantos los moros que murieron 
« a manos de los christianos Ethiopes, que se pudo decir por via 
« de encarecimiento gracioso : Que seno infernal podia bastar a re- 
« ceber tantos diabolos como alla entravan ? Basta que siendo un 
« reyno muy poblado y de infinita gente y tan grande que tenia 
« trecientas leguas de circuito, apenas quedaron vivas cuatro mil 
« personas. Derribo fortale^as, hi^o otras de nuevo en los passos 
« mas importantes y, trayendo gente de la Ethiopia para que po- 
« blasen aquel reyno, dio los puertos a los Portugueses con sus for- 
« tale^as para que ellos los guardasen de los moros de la Arabia 
« y se pudiesen recoger las armadas de Portugal, quando van y 
« vienen de la India. Este fin tuvieron las guerras del Rey de Adel » . 
Isto diz o Author ; tudo porem he mera fic^am tra<;ada no 
entendimento daquelle que o informou; por que o emperador 
Claudio nam somente nam fez estas cousas no *reyno de Adel, f.i^i.v. 



LIVRO I, CAPITULO XXXVI. 343 

mas nem em toda sua vida entrou nelle, nem ficaram os mouros com 
tam grande perda com o desbarate e morte do Granh, que nam se 
ouveram de defender muyto bem, se la fora. Antes o mouro, que 
sucedeo ao Granh no cargo de Guazir, scilicet governador, veio 
dalli a alguns annos com exercito contra o mesmo emperador Clau- 
dio, e dandolhe batalha, o desbaratou e matou nam muyto longe 
de onde elle tinha sua corte, como dicem todos e conta sua historia, 
que referiremos no livro 3°. 

Com tudo me parece muy provavel que nam informaram a 
frey Luis de Urreta desta maneira, senam que se confundio com 
os papeis de Joam Balthesar, de onde elle mesmo affirma que ti- 
rava, e que estavam muyto embaracjados ; e assi atribuio ao empe- 
rador Claudio o que seu pay David fez em Adel (o que veremos em 
sua historia que se pora no principio do 3** livro), e acrecentou 
muyto mais assi como a outras cousas que Ihe disse Joam Balthe- 
sar, o que elle mesmo testificou depois em huma peti^am que deo 
a Magestade del Rey dom Phelippe, queixandose que acrecenta- 
ram quatro veces mais do que elle dissera; cuio treslado vio o 
padre Fernam Guerreiro de nossa Companhia, como elle affirma 
fol. 268 da Addigam, que fez a Rela^am annua de 607 e 608. 



I 

L 



j^^ 



CAPITULO XXXVII. 

De como o emperador Claudio escluio ao patriarcha 
dom Joam Bermudez e fez seu asento no reyno 
de 6y6. 



Depois que o emperador Claudio, e por outro nome Atanaf «• Rebus imperH 
Qagued, teve redducidas a sua obediencia as terras que tomaram os fidem iamdiu datam 
mouros e pacificado seu imperio, vendose ja libre das angiistias e P*tti»«ba« Bermu- 
temores, com que sempre andava fugindo de huma parte pera ou- Romani obedientiae 

j j j'jT>.-itToii Bubmisaurum prae- 

tra, quando ouvera de ser mas agardecido a Deos N. S. poUas ^^ renuit et alium 
merces crandes que de sua misericordiosa mao tinha recebidas e su- «pwcopum ab Ale- 

^ zandnno Patriarcha 

getarse de todo cora^am a s.** Igreja romana, siguindo a doctrina ezpoacit. 
que insinava o santo Patriarcha dom Joam Bermudez, a quem avia tres 
annos que por tal tinha recibido e entregado as terras do Patriar- 
chado, que sam muyto grandes, entam mostrou quam longe estava 
desta obediencia e de seguir esta doctrina e nam receber de outra 
parte Patriarcha senam de Roma, como elle mesmo escreveo al rey 
de Portugal dom Joam 3®, que Ihe tinha mandado o emperador 
f. 142. David seu pay; *porque fez tracer outro Patriarcha de Alexandria, 
pera escluir o que tinha de Roma e no mesmo tempo se concer- 
taram os frades de hum mosteiro grande pera infamar a dom Joam 
Bermudez, cuja santidade de vida Ihes era muyto molesta ; e estando 
elle na corte, tomaram algiimas pe^as de prata da igreja de seu 
mosteiro e, entrando na casa do Patriarcha, que era perto, tiveram 
modo pera as meter secretamente entre sua roupa, e depois se fo- 
ram ao Emperador dicendo que faltavam aquellas pe^as da igreja 

C. Bbccaju. X0r. Aetk. ScripU oce, ined» — IL 44 



346 HISTORIA DE ETHIOPIA 

e que ningnem as podia ter tomado senam o Patriarcha. Mandou 
entam o Emperador que o chamasem e disselhe diante dos frades 
que ouvise o que deciam, e elles sem nenhum temor de Deos tor- 
naram a affirmar que faltavam aquellas pe^as e que ninguem as 
podia tomar senam elle. Ficou muyto maravilhado o Patriarcha e 
disse que nem por pensamento Ihe passara nunca tal cousa, nem 
sabia como se atreviam a cuidar aquello delle. Pidiram os frades 
ao Emperador que mandase ver sua casa e preguntar seus criados, 
pera que se soubese a verdade; e deolhe pouco disso ao Patriar- 
cha, como estava innocente; e assi foram alguns criados do Em- 
perador com os frades e olhando as cousas da casa, vieram a dar 
com as pe^as entre a roupa, e levaram as ao Emperador. Disse 
entam o Patriarcha que aquello nam podia ser senam maldade de 
alguns que Ihe queriam mal, porque elle nunca tomara taes pegas 
nem tinha pera que. Bem entendeo o Emperador que o Patriarcha 
nam avia de facer tal cousa, mas com tudo isso estranhou muyto 
o caso ; do que tomaram outros motivo pera falar muyto largo. 
a. Bermudez, pro- Vendo o Patriarcha estas cousas e que nam avia que esperar 

brosacalumniaamo- j-i^j j j j-j.* 

nachis conscioCiau- ^^ Emperador, nem dos seus acerca de sua redui^am, determmou 
dio, ezpetitus, terris ^e se tornar pera India e dicem alcfuns que escomungou ao Em- 

Aethiopiae mala pre- o x « 

catur et in indias re- perador em sua presen^a e lan^ou sua maldi^ao a as terras por 
vertitur. onde passou, excepto ao reyno de Tigre, que affirmam deixou a 

rogo de alguns Portugneses que o acompanhavam, que por terem 
grande conceito de sua santidade ja davam por perdidas as terras 
que elle amaldi^oava, e assi Ihe pidiram muyto que'deixase a Tigre, 
porque, se em algum tempo viesem Portugueses, achasem onde po- 
derem entrar; e por isto o deixou. E decia que via entrar em as terras 
do Emperador humas formigas pretas que a[s] destruiam, que parece 
eram huns gentios muyto pretos que chamam Galas, que pouco depois 
se foram chegando e facendo algumas entradas com grande dano da 
terra, e continuaram tanto isto que vieram a destruir todas as terras 
a que o Patriarcha lan^ou maldi^am, que sam tres ou 4 reynos e algu- 
mas provincias, as milhores que o Emperador tinha, e oje sam senho- 
res absolutos delles, sem aver quem os possa tirar de suas maos, *e f.i^z.v. 
ainda no que fica dam sempre asaltos, matando muyta gente e levando 
fato sem conto. E se todos se juntaram e vieram unidos, nem o Em- 
perador Ihes pudera facer rosto ; mas, por nam terem Rey (como ja dis- 
semos no cap. 1°), nunca se unem, antes os que sam de huma casta 
ou familia pelejam muytas veces com os de outra, permitindoo assi 



i 



LIVRO I, CAPITULO XXXVII. 347 

Deos N. Senhor, pera que nam acavem de destruir esta tam an- 
tigna christandade, que, ainda que inficionada com muytos erros, 
sempre ouve alguns bons que os condenasem e chorasem, pidindo 
ao Senhor misericordia, e oje mais que nunca, pello que espero que 
a tera delles e Ihes acudira. Tudo isto que referi do patriarcha 
dom Joam Bermudez dicem que he cousa muyto certa, e me con- 
taram alguns filhos dos Portugueses, que entraram com o mesmo 
Patriarcha, que o ouviram muytas veces a seus pays. 

Em o mesmo tempo que passavam estas cous^is entre o Pa- 3« Claudius in lo- 

^ *^ ^ co dicto 2df BAr re- 

triarcha e o Emperador, fez elle seu asento no reyno de Oye, por ^ (^^ sedem regni 
ser terra muyto forte e com que mais folgava; e pondo seu ar- conatituit, ibique ma- 

gnam urbem ez par- 

rayal em hum fermoso campo, perto de huma serra que chamam viscaais moreaeiio- 
Zef Bar, se edificou logo huma jyrande cidade, mas nam tam bem ^l"^?.^^. il'.«-iJ^! 

<^ o ' i2 annos mansit et 

aruada [sicly nem do lustre e fermosura que as de Europa, onde ha casas tandem a mahume- 

_ , . , .,, dano duce Nur in 

tam grandes de cantena, pa^os tam sumptuosos de maravilhosa praelio interfectus 

tra^a e architectura, senam de tam differentes edificios que a muy- **** 

tos delles com mais re^am se Ihe podia dar nome de cavanas de 

pastores que de casas de corte de Emperador ; porque eram redon- 

das, muyto estreitas e baixas e em lug^ar de paredes quaesquer 

paos toscos postos em pe e acafelados por dentro e fora com lama 

e cubertas de palha. Nem as casas dos grandes se differenciavam 

destas mais que en serem maiores e terem as paredes de pedra e 

barro e no alto milhor madeira e outras nam serem redondas se- 

nam cumpridas, porem todas terreas. O mais a que chegou a po- 

licia e grande^a do Emperador foi a facer huma casa sobardada, 

mas bem triste e alhea de pessoa imperial. A esta chamaram Gamb, 

quc este nome dam a toda casa sobardada, e a redonda, que o nam he, 

Beit, e se for cumprida e terrea, Qacala. Em esta cidade esteve 

o emperador Claudio casi de ordinario alguns 12 ou trece annos, e 

no fim delles veio com gente hum mouro de Adel, que se chamava 

Nur, e o matou em batalha, como tocamos no fim do cap. prece- 

dente e declararemos no 3° livro, e por nam ter filhos Ihe sucedeo 

no imperio hum seu irmSlo, que se chamava Minas, o qual mudou 

a corte daquella cidade, e assi logo se foi diminuindo, e depois to- 

maram todo aquelle reyno os Galas, e assi ha muytos annos que o 

asento daquella cidade esta tam deserto, que nem vestigios della 

aparecem. 



TAB. II. 






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EXEMPLAR SCRIPTIONIS II LIBRI ALIENA MANU TRANSCRIPTI. 



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LIVRO II 

DA HISTORIA DE ETHIOPIA 

EM QUE SE TRATA DA f6 QUE PROFESSAO O PRE- 
STE JOAO E SEUS VASSALOS, DOS RITOS E CE- 
REMONIAS ECCLESIASTICAS QUE USAM COM 
OUTRAS COUSAS TOCANTES A ELLAS. 



CAPITULO I. 

Do principio que teve a f6 e religiao christaa 

em Ethiopia. 

Muito se prezao os vassalos do Preste Joao da nobreza e an- i.iuxulibrosaxu- 
ticfuidade de seus Emperadores que tem por tao sem duvida proce- °*i**«>» Aethiopes fi- 

° iT ^ jT x- dem chmtianam am- 

derem da Salamao, que nao Ihes parece pode nisso aver contro- piezati sunt tempore 

n t. «j. 1 o j • • 1* reginae Candacis. 

veisia aJgnma, como dissemos no capitulo 2 do pnmeiro livro, e 
assim na nobreza de sua descendencia e antiguidade os querem an 
tepor a todos os Reis do mundo. Mas nao menos se honrrao por 
terem tambem por cousa certa que seu imperio foj o primeiro que 
publica e universalmente recebeo a santa fe de Christo Nosso Se- 
nhor sem as contradi^oes e trabalhos que ouve em outros reinos, 
antes que se pudesse acabar de introduzir; o que elles contao em 
seus livros por estas palavras: 

€ Antes que a rainha Sabaa fosse a Hierusalem a ouvir a sa- 

« bedoria de Salamao, todos os de Ethiopia erao gentios e ado- 

f.i43»v. « ravao differentes idolos; mas quando ella *tomou de Hierusalem, 



350 HISTORIA DE ETHIOPIA 

< Ihes trouxe a Historia do Genesis e estiverao na lei dos Judeus 
« ate a vinda de Christo, soieitandose a seus ritos e ceremonias e 
« guardando os mandamentos de Deos. Depois a causa de serem 
« christaos foi a ida do eunuco da rainha Candasse a Jerusalem 
« a adorar na festa da Pascoa, porque os gentios, que receberao a 
« lei dos Judeus, hiao a Pascoa a Jerusalem, por nao se Ihes ser 
« licito sacrificar em sua terra, senao no luguar onde foi invocado 
« o nome de Deos. Por esta rezao pois foj o eunuco da rainha Can- 
« dasse de Ethiopia a Jerusalem a fazer a festa da Pascoa e tor- 
« nandose, o anio do Senhor falou a Phelipe dizendolhe : Levantate 
« e vaj pera a banda do meio dia ao caminho que dece de Jeru- 
« salem a Gaza a deserta. Elle foj la e achou hum Ethiope eunuco 
« da rainha Candace de Ethiopia, que era thesoureiro de todas 
« suas riquezas e viera a adorar a Jerusalem, donde tornava pera 
« sua casa em hum carro, e chegandose Phelipe ao carro, ouvio que 
« lia huma profesia de Isaias e perguhtoulhe se entendia o que lia. 
« Respondeo que se alguem Iho nao ensinasse, como podia enten- 
« der[?J, e rogou a Phelipe que subisse no carro ; o que elle fes e, 
« tomando ocasiao do que pergnntou sobre aquella profesia, Ihe 
« pregou a Jesu Christo e o converteo e, informandoo nas cousas 
« da fe, o baptizou, e logo o Spirito levou a Phelipe e nao o vio 
« mais o eunuco; o qual, prosegiiindo seu caminho mui alegre e 
« contente do que Ihe tinha soccedido, chegou a Ethiopia e a casa 
« de sua senhora e, contando esta historia, crerao no Evangelho da 
« gra^a de Jesu Christo ». 
3. Opiniones SS. Ate qui sao palavras de hum livro muito antigo, que se guarda 

«f^if,^*- *?,???,^^!^ ria igreja de Agcum do reino de Tigre, onde a rainha Candace 

ram circa eunucum o j ot o » 

Candacis. teve seu asento, e dizem que ella fes edificar aquella igreja e que 

foj a primeira e mais sumptuosa que nunca ouve em Ethiopia; o 
que mostrao bem suas *ruinas, como declaramos compridamente no f. 144. 
capitulo 22 do primeiro livro. Mas hase de advertir que esta Rainha, 
que nos chamamos Candace, os de Ethiopia chamao Handeke, mas 
do nome proprio de seu criado nao achei quem me soubesse dar 
noticia. Tem porem todos por tradi^ao muito certa que era eunuco 
e o nome que Ihe da aquelle livro antigo, que conta sua historia 
e o mesmo texto dos Actos dos Apostolos, que he Heceii, nenhuma 
outra significa^ao admitte senao eunuco. Por onde o que affirma 
frei Luis de Urreta pag. 381, que os Ethiopes tem e tiverao sem- 
pre por cousa muito certa, que este santo varao nao era eunuco se- 



i 



LIYRO II, CAPITULO I. 351 

nao perfeito e enteiro de todos seus membros, foj falta de infor- 
ma<;&o e pello consiguinte reprovou sem rezSo a opiniSio de sam Hie- 
ronimo, s. Athanasio, s. Augfustinho e outros doutores que ali cita, 
que affirmao que era eunuco, se nesta parte (como parece) avemos 
de dar credito aos livros de Ethiopia e aos letrados della. O que 
► o converteo foj sam Phelipe diacono, segundo declarao os sagrados 

doutores, tirando Alberto Magno, que tem pera si que foi sam Phe- 
lipe apostolo. 

Outra duvida movem os Doutores e Santos sobre se este eu- 
nuco era gentio, ou ja convertido ao judaismo, quando foj a Je- 
rusalem, e por huma e outra opiniao cita frei Luis de Urreta pag. 383 
muitos e graves autores e segne os que dizem que era gentio; mas 
os de Ethiopia tem por cousa muito certa que, quando este eunuco 
foj a Jerusalem, ja era convertido ao judaismo e dilo claramente o 
livro de sua Historia, pois, como assima refirimos, a causa por que 
foj a Jerusalem affirma que foj porque aos gentios, que recebiao a 
lei de Moises, nao Ihes era licito sacrificar em sua terra, senao no 
luguar onde foi invocado o nome de Deos. 

Como aquelle livro acaba de contar o que temos referido do 3- Historia s. Fm- 

mendi iuxta libros 
eunuco, continua desta maneira: c Passados muitos annos depois disto Aethiopum. 

i f.i44,v. « veio hum mercador de *Tiro com dous criados, hum chamado Fre- 

c menatos e outro Sydracos, e adoecendo o mercador morreo perto do 
« mar na terra de Ethiopia; pello que trouxerao os mancebos a el Rei 
« e elle folgou muito com elles e mandcu que os tivessem juntos com 
€ seus filhos. Elles se maravilhavao muito do modo da gente de 
< Ethiopia e perguntavao como crerao na fe de Christo, porque os 
« viao fazer oragao e adorar a santissima Trindade e que suas mo- 
« Iheres traziao sobre suas cabe^as o sinal da santa cruz e davao 
« muitas gra^as a Deos que fizera tam grande merce aquella gente, 
« como era crer sem prega^ao e receber a fe sem Apostolo. Esti- 
« verao em quanto viveo aquelle Rei em sua casa e na hora da 
« morte os forrou e deu licenga que fossem onde quisessem ; pello 
« que Sydracos se tornou pera sua terra de Tyro e Fremenatos foi 
« ao Patriarca de Alexandria, deseiando se desse remedio a sal- 
« va^ao dos de Ethiopia, e referiolhe tudo o que tinha visto e como 
« creiao sem ensino dos Apostolos. O Patriarca se alegrou muito 
« e deu gracjas a Deos pella misericordia grande que Ihes tinha 

* « feito em Ihes manifestar sua santa fe. Depois disse a Fremena- 

« tos : Vos Ihe sereis pastor, porque a vos escolheo e alevantou 



352 HISTORIA DE ETHIQPIA 

« Deos. E ordenandoo sacerdote, o fez bispo de Ethiopia; e tor- 
« nando a ella paptizou seus moradores e ordenou muitos sacer- 
« dotes e diaconos que Ihe aiudassem ; e de todos era estimado e 
« venerado, e porque Ihes trouxe pax, o chamarao Abba Salama 
« (que quer dizer Padre de pas, ou pacifico). Sua entrada em Ethio- 
« pia foj no tempo que reinavao Abra e Asba irmaos, os quais re- 
« ceberao o ensino de justi^a como a terra seca a chuva do ceo ». 
4. De novem san- Isto he o que achei naquelle livro do principio e progresso que 

ctis monachis iuxta ^ ^, i- •* 1. • ^» t-^i.- • t- ^ i* 

eosdem libros. Com- ^^^e a f e e religiao chnstaa em Ethiopia. E em outro livro, que se 
menta Urretae brevi- gruarda na mesma icTeia de *Ai?cum e trata da rainha Sabaa e dos f. 145. 

ter refutantur. ^ 6 &y . 

Emperadores que Ihe socederao, se dis no catalogo delles, que, rei- 
nando Amiamid (que foy muito depois destes dous irmaos Abra 
e Asba) entrarao em Ethiopia muitos Religiosos santos que vierao 
de Rum. Alguns por esta palavra « Rum » entendem Roma, outros 
affirmao que nao quer dizer Roma, senao huma terra que senhorea 
o Turco chamada Rum, e della vem chamarem aos Turcos Rumes, 
ainda que, estando eu cativo entre elles, me disserao que aos que 
sao Turcos de na^ao nao os chamao Rumes, senao aos que sam 
de casta christaos. Mas ainda que fossem aquelles religiosos desta 
terra, certo he que aviao de obedecer a igreja romana e ensinar 
sua doutrina, pois erao santos, que de outra maneira nao o pude- 
rao ser. E isso nos basta, quando nao viessem de Roma. Nove de- 
stes, cuios nomes posemos no cap. 5 do primeiro livro, fizerao seu 
assento no reino de Tigre, onde edificarao muitasigrejas, que agora 
chamao de seus nomes, e ainda alguns tem pera sy que sos estes 
vierao a Ethiopia, os quais fizerao muitos milagres, com que os 
daquelle reino se acabarao de converter ; e tenho pera mim, pellas 
cousas que agora contao, que entao floreceo muito a religiao chri- 
staa em Ethiopia, e que nao somente elles, mas tambem muitos 
de seus discipolos forao santos, e que sao delles muitos corpos de 
frades, que de tempo immemoravel ategora estao inteiro[s] na pro- 
vincia de Bur do reino de Tigre ; mas depois pello trato e conver- 
sa<;ao que tinhao com os Judeus, que ate oje sempre ouve em Ethio- 
pia, e por Ihes virem seus prelados de Alexandria inficionados com 
erros, se Ihes pegarao tantos que quasi em todos os sacramentos 
e misterios de nossa santa fee os tem, como iremos vendo pellos 
capitulos adiante. Por onde o que frei Luis de Urreta pretende pro- 
var por todo o livro 2° de sua Historia Ethiopica, que o Preste 
Joao e seus vassalos sempre forao mui bons catholicos e obedien- 



r 



LIVRO II, CAPITULO I. 353 

tes a Igreja Romana e que, ainda que por muito tempo ignorarao 
f.i45iv. algnmas ceremonias della, toda via *no que toca a fe do misterio 
da santissima Trindade e dos 14 artigos e dos sacramentos, sempre 
do principio da igreia ate oje, se conservarao em toda a pureza e 
sinceridade da mesma maneira que se cre na Igreja catholica, tudo 
he fundado em falsa informagao, que, como elle dis, Ihe deu o ethiope 
dom Joao Balthesar. 

Tambem se ha de advertir que o que o Autor affirma no fim 
do cap. I® e 2® do segundo livro, que os Ethiopes vassalos do 
Preste Joao se acharao em muitos concilios, que ali nomea, prin- 
cipalmente no Florentino em tempo do papa Eugenio 4®, onde dis 
que em nome do Preste Joao e de todo seu imperio fizerao huma 
protesta^ao da fe, ainda que fosse assim, do que muito duvido, 
aproveitou pouco, porque nao somente nao guardarao, de muitos 
annos a esta parte, nem guardao oje o que naquelles santos con- 
cilios se decretou ; nem o que refere que elles protestarao, mas an- 
tcs quasi todo o contrario tiverao e tem por verdadeira fe. 

Outra cousa dis no mesmo luguar, de que nao pude achar me- 
moria em Ethiopia, com perguntar ao Emperador e a muitos fra- 
des e homens grandes velhos, que sempre continuarao o passo dos 

. Emperadores; e he que o emperador Alexandre 3** enviou a dar 

obediencia ao Summo Pontifice Gregorio 13° com doze sacerdotes 
e doze cavaleiros de sam Antam, entre os quais hia dom Joao Bal- 
thesar. Isto tem por fabula muitos daquelles, a quem perguntei, por- 
que nao podiao deixar de o saber ou ouvir alguma cousa, avendo 
tam pouco tempo que se mandou a embaixada e sendo tantos os 
que a levarao, e cuido que tem rezao, e que se la se deu tal embai- 
xada, que a fingio no caminho Joao Balthesar, como outras muitas 
cousas que disse ao autor frei Luis de Urreta; porque nao digo eu 24 
embaixadores, mas nem hum se pudera mandar, que pello menos 
alguns dos grandes o nao souberao, pello pouco segredo que ha 
em esta terra. Demais disto e de que nunca ouve em Ethiopia tal 
Alexandre 3**, he mera fic^ao e fabulosa patranha que aia em Ethio- 
pia cavaleiros de s. Antao, como adiante veremos. E assim, refe- 
rindo eu huma ves ao Emperador o que delles conta frei Luis de 
f. 146. Urreta no cap. ultimo do livro *3°, se rio muito e disse : Parece 
que aquelle Joao Balthesar vio em vossas terras alguma ordem de 

f cavaleiros como a que aqui pinta, e dali tomou motivo pera querer 

honrrar nossa terra, dizendo que avia nella outra semelhante ; mas 

C. Hkccari. ^tfr. Ae/A, Scrifi, occ, ined, — II. 45 



354 HISTORIA DE ETHIOPIA 

a verdade he que nunca tal cousa ouve. Do que se pode coUegir 
que assi como fingio que os embaixadores erSlo cavaleiros de s. An- 
tao, assim tambem fingio a embaixada a sua vontade. 
5. Quaeinsequen- Supposto isto, irei declarando por capitulos o que tenho achado 

tibus capitibus Au- .^ j. ^ . ^. ^. 1 j 

ctorezponetcircaer- ^^ muitas disputas gerais e praticas particulares, que do anno 
rores Aethiopum ex ^^ 1603, que entrei em Ethiopia, tive com os principaes letrados 

propna ezperientia, v/ ^ r jt jt 

ex eorum libris et ex della ecclesiasticos e seculares, refirindo singellamente seus erros 

disputationibus cum , j j • j. • • j j. • 'j. 

monachis comperta ^^^ nenhum modo de encarecimento, pois, amda em materias muito 
habuit, ideoque fi- leves nSo convem ao Religioso usar delle, quanto mais em cousa 

dem merentur. 

tam grave, como seria infamar a toda huma na^ao christaa e a hum 
imperio tam grande e tam celebre no mundo, usando de encareci- 
mentos ou de palavras que agravessem de maneira suas cousas, que 
parecessem erros, nao o sendo. 



CAPITULO II. 

Em que se declara como os Ethiopes 
negao proceder do Pilho o Espirito Santo. 



Mui gfrande deva^ao mostrao os Ethiopes a santissima Trin- ,, Licct Aethiope» 
dade, aquem em sua lengoa chamao c Quedezt Celace » Santa Trin- mysteriumTrinitatis 

^ o *» vcncrentur, tamcn 

dade e nao c Tinhiniah >, como diz frei Luis de Urreta pag. 405, por- pertinaciter cum 
que tem muitas igrejas dedicadas a ella e cada mes no 7** dia de- 11^^" spiritu ^Sanl 
pois dentrado Ihe fazem festa e hum dia no anno a festeiao com cto proccdere. 
grande solennidade, e no principio de seus livros, que escrevem to- 
dos de mao, por nao terem impressao, e nas cartas que mandao 
pera fora do imperio comummente come^ao com estas palavras: 
€ Bazma Ab tia Uald tla Manfaz queduz ahadu Amlac » , que quer 
dizer : « No nome do Padre e do Filho e do Spirito Santo hum Deos » ; 
e quasi todos as veses que come<;ao alguma obra ou se maravilhao 
de alg^ma cousa, repetem as mesmas palavras, de maneira que muito 
de ordinario as trazem na boca, no que confessao as 3 divinas pes- 
soas realmente distinctas e a summa ig^aldade que ha entre ellsis. 
f.i46,v. Mas negao como os Gregos *que o Espirito Santo proceda do Filho, 
affirmando que so procede do Padre, com tanta pertinacia que, por- 
que antiguamente hum frade quis defender que procedia tambem 
do Filho, o matarao as pedradas, como a s. Estevao, parecendo- 
Ihes que nem ouvir se podia cousa tam sacrilega como era dizer 
que o Spirito Santo procedia tambem do Filho. 

Sabendo eu isto, logo como entrei em Ethiopia, e entendendo ^^ Auctor pcrsua- 
a pertinacia com que defendiao tam crande erro, procurei de os ti- ^}^ multit veritatem 

^ ^ o JT doctnnae catholicae» 

rar delle, mostrandolhes claramente a verdade com as Escrituras quam etiam profeasi 



356 HISTORIA DE ETHIOPIA 

sunt Cela Christ^s SagradsLs, com os santos concilios, com autoridades de santos e com 
aliique ex pnmon- j-g^oes, buscando sempre occasiao pera Ihes falar nesta materia, e 

o mesmo fizerSo com muito cuidado os Padres meus companhei- 
ros, que qua estavSo, com o que foi o Senhor servido que mui- 
tos letrados religiosos e seculares se convencerao, de maneira 
que, deixado o erro em que estavSo, crem oie firmamente que o 
Espirito Santo procede iuntamente do Padre e do Filho. Os prin- 
cipaes destes sao o Emperador e hum seu irmao, que se chama 
Cela Christos e oje tem o titulo de Eras, que quer dizer « cabe^a », 
porque o he de todos debaixo do Emperador, e sendo primeiro 
tam contrario a nossa santa fe, que, como elle mesmo me dis agora 
muitas vezes, Ihe pareciao nossas cousas peores que as dos mou- 
ros ; depois que as entendeo as recebeo com tanto affecto e as cre 
con tanta firmeza que por veses se pos em risco de morte poUas 
defender, e agora que ia se confessa e comunga com nosco, dis 
publicamente que a fe da Igreja Romana he a verdadeira e que 
ninguem se pode salvar fora della, e aos que o contradicem nesta 
materia, por grandes letrados que seiao, os convence com suas re- 
z5es como a meninos, porque he homem de grande entendimento 
e muito visto nos livros de Ethiopia, e assim com isto e autori- 
dade grande, que pera com todos tem, fas muito fruto e redus 
muitos, e particularmente os que sao de sua obriga^ao estao mui 
firmes na fe e falao tambem publicamente como seu senhor, con- 
fessando e defendendo a verdade de nossas cousas ; e nos perigos, 
que se Ihes offerecem, acometem com grande confianza na santa fe 
que professao; e assim tendo novas Cela Christos no fim de no- 
vembro de 1617, que vinhao Galas gentios muito fortes a dar em 
humas terras que tem da outra banda do Nilo, chamou hum de 
seus capitaes chamado *Ascader, e disselhe que passasse logo com f. 147. 
sua gente em quanto elle aiuntava a demais pera ir em suas co- 
stas e, dandolhe sua bandeira diaute de muita gente, Ihe enco- 
mendo muito que, se tivesse algum encontro ante delle chegar, se 
ouvesse com a prudencia, valor e esfor^o que delle se esperava; 
e tomando o capitao a bandeira, levou da espada dizendo: Com 
esta peleiarei por meu senhor ate morrer sem tornar o pe atras, e 
se os enemigcs me ferirem nas costas e escapar de suais maos, nao 
fa^a meu senhor conta de mim, nem me veia mais. 
3. Cela Christ68 a- Ouvindo isto, Cela Christos Ihe disse : Muito pouco vos ha de 

liusque duz militum, .^ 1 • ji ji • 1 • • n r>' j /^i. • 

fidem catholicam aproveitar se peleiardes por amor de mim: peleiai polla fe de Chri- 



LIVRO II, CAPITULO II. 357 

sto que ensina a Igreia Romana, e entSlo Deos vos dara victoria e amplexi, victoriam 

prosperara todas vossas cousas. E eu tambem vos farei muitas ™e?!^^ * * ** 

honrras e merces. Nao sabeis quantas me tem feito derubando sem- 

pre a meus pes todos meus enimigos, depois que comecei a seguir 

e defender esta santa fe; pois assim fara a vos, se de cora^ao a 

seguirdes e peleiardes por ella. Respondeo o capitao : Lembroume, 

meu senhor, huma cousa muito boa: digo que nSo hei de peleiar 

senao pella santa fe de s. Pedro e por ella hei de morer, e se pe- 

leiar por outro respeito, ainda que Deos me de victoria e destrua 

os enimigos, el tire a vontade a meu senhor de por isso me fazer 

honrras e merces nem eu Ihas hei de agradecer, ainda que mas fa^a. 

Por huma cousa estou mui obrigado a meu senhor e Iha s^adeceo 

mais que quanto me tem feito, que he terme dado a conhecer a 

Deos e entender qual seia sua santa fe, pera me poder salvar ; que 

antes nSo a conhecia nem sabia por onde andava. Disse entao Eras 

Cela Christos : Se o que prometeis com as palavras de peleiar pella 

santa fe de Roma, comprirdes com as obras, tudo vos socedera 

muito bem; ide com a ben^ao do Senhor. 

Com isto se despedio o capitao Ascader e o dia seguinte to- 
mou a benpao de hum padre meu companheiro, que de ordinario 
esta com Eras Cela Christos e elle Ihe deu hum frade, que ha 
muito tempo se converteo e reduzio a nossa santa fe, pera que o 
acompanhasse e o encaminhasse nas cousas de sua alma. E pas- 
sando o rio Nilo com muito trabalho, por ir muito crecido e fu- 
rioso, dali a poucos dias teve vista dos Galas, que erao muitos e 
f.i47,v. bem consertados, como gente que saira de sua, s6 pera effeito *de 
peleiar e destruir os christaos. Ordenou elle tambem logo sua gente 
e deu batalha, cuio successo escreveo a seu senhor por estas pala- 
vras ; Antes de daremos batalha aos Galas, que vinhao repartidos . 
em muitos esquadrOes, mandei a todos meus soldados que adoras- 
sem a santissima Crus, que estava na bandeira e se esfor^assem a 
pelleiar nao por cobi^a de achar preza, nem por outros respeitos, 
senao por serem estes crueis enemigos da santissima Crus e lei de 
Nosso Senhor. E animandoos com isto, demos batalha, levando 
diante a bandeira da santa Crus; e affirmo diante de Deos nosso 
Senhor que nao por nossos zargunchos, nem por nossos arcos e fre- 
chas, senao por meio e milagre da sanctissima Crus, alquangamos 
tam facilmente victoria, que em pouco tempo os mais delles se pu- 
serao em fugida, com tam grande medo, que, deixando suas molhe- 



358 HISTORIA DE ETHIOPIA 

res e filhos e todos seus gados, nao procuravao outra cousa mais 
que salvarem suas vidas. Outros com virem primeiro como fero- 
cissimos leOes, se entregarSo nas nossas maos, como se forao man- 
90S cordeiros. 

Este tempo ia hia Eras Cela Christos com grande exercito e, 
passando o rio Nilo, se iuntou com este capitao e foj em busca dos Ga- 
las, que escaparao, que ia se tinhao tomado a refazer, iuntandoselhes 
outros muitos tam resolutos em peleiar que Ihe apresentarao logo 
batalha em campo, mas com o favor divino forao desbaratados e 
mortos muitos e Eras os seguio 2 dias fazendo grande matan^a, 
cativando molheres e filhos e tomando gados sem conto, como elle 
mesmo logo me escreveo pera que desse gra^as a Deos por tantas 
e tam grandes merces, como Ihe fazia, e todas as atribuia a ter elle 
recibido a doutrina e fe da santa Igreja Romana e defendela com 
tam bom cora^ao; o que confessa e afirma publicamente. 

4. imperator Scl- Tambem o Emperador fcis muito procurando sempre acreditar 

tftn Sag4d favet ca- _ . 

tholicae fidei et ipse nossas cousas e afei^oar os seus a ellas, sem perder nunca occasiao 
etiam Ichegu6; sed ^j^ ^^^ ^^^ ^ louve e declare da maneira que Ihas temos ensi- 

hic nescit solvere ^ ^ 

argumenta contra nado; e assim, estando hum dia com elle no pa^o muitos grandes 

processionem Spiri- ^ , ^ ••11. it^u- 

tuB Sancti a Filio : ® irades, em que entrava o prmcipal que ha em Ethiopia, a que 

ab imperatore advo- chamao Ichegue e he Geral da Religiao *de Abba Taquela Hai- f. 148. 

catur pater Paex ad *^ ® . 

disputandum. manot, disse que nao Ihe parecia bem os que affirmavao que o Espi- 

rito Santo procedia s6 do Padre; que a doutrina dos Portugueses 
era a verdadeira, que affirma que procede do Padre e do Filho. Fo- 
raolhe logo todos a mao dizendo que nao trouxesse tal cousa, por- 
que era contraria a verdadeira fe. Deu elle algumas resOes em 
prova do que dizia, mas a todas Ihe replicarao e trouxerao outras 
em contrario. Disse entao o Emperador: Chamem ao padre Pero 
Paes, que elle vos mostrara claramente ser verdade o que eu digo. 
Respondeo hum delles: Senhor, nao pode mostrar tal cousa, nem 
dar resao que nao seia apparente, e que nao Iha desfa^amos logo. 
Disse o Emperador (segundo me contou depois hum meu amigo 
que estava presente): Nao somente Ihe nao desfareis suas resOes, 
mas nem Ihe aveis de saber responder. 

5. Auctor probat A esta sazao estava eu na corte, como estou de ordinario, e 

veritatem catholicam 1 1 t 1 r 

ez ipBo libro Haima- assim me mandou logo chamar, e entrando me fes assentar perto 
n6t Abb6. in cuius ^q gy ^ percfuntou, se o Espirito Santo procedia s6 do Padre, ou 

recentioribus ezem- ^ r- o » r- x- 

plaribus demonstrat se procedia tambem do Filho. Respondi: Senhor, procede do Pa- 
Filio » abrasa fuisse. ^^^ ^ ^^ Filho ; e esta verdade esta declarada por 16 Concilios ge- 



LIVRO II, CAPITULO II. 359 

rais e determinada por artigo de fe ; coUigesse claramente do santo 
evangelho e de s. Paulo que dis que o Espirito Santo he espirito 
do Padre e do Filho, pello que assi o ensinao todos os doutores 
sagrados e os mesmos livros de Ethiopia. Disse hum frade, que se 
chama Abba Marca (que por ser dos mais velhos e Ihe parecer 
que podia responder melhor, tomou a mao a todos) : Nem os livros 
de Ethiopia ensinSo que o Espirito Santo procede do Filho, nem 
se pode diser tal cousa, que he contra nossa santa fe. O principal 
livro de Ethiopia, disse eu, he Haimanot Abbo (que quer diser c fe 
dos Padres », porque he de peda^os de humilias de santo Athanasio, 
Basil, Chrysostimo e outros Santos). Este dis em muitas partes que 
procede do Padre e do Filho. Respondeo o frade que nSo avia tal 
cousa em todo o Haymanot Abbo; e pidindo eu que trouxessem 
o livro, veio logo e mostrei duas partes, que ia tinha notadas, onde 
dis procede do Padre e do Filho e em 16 luguares: « he espirito do 
Padre e do Filho. » Respondeo elle : Nunca tal vi ategora : este li- 
vro esta errado ; tragSo outro. E como veio, achou que dezia : « pro- 
cede do Padre j> e a palavra : « e do Filho » estava raspada ; o que he 
f.i48,v. facil, por ser a escritura em pargaminho. *Disse entao: Este esta 
bem. Respondi eu: Frimeiro tambem estava: «e do Filho» : eis aqui 
o rasparao. Disse o Emperador: He verdade: Azax Qadenguil o 
raspou; venha outro. Trouxerao sinco mais, c em todos estava: « Pro- 
cede do Padre e do Filho. » Ultimamente veio hum novo, que em 
todos os luguares dizia : « Procede do Padre :» e todos o aprovarSo, 
dizendo que aquelle era bem. Respondi eu: Este tresladarao agora 
do que esta raspado; os antigos sao os verdadeiros, que estao tre- 
sladados dos mesmos li vros dos Santos. Disse o frade : Nao ; este esta 
certo: emmendense todos por elle. Respondi eu: Nao pode aver 
maior mal que tirar palavras dos livros dos Santos, ou acrescentar 
as que elles dizem, pera mostrar os que isto fazem que ensinao o 
que pretendem, ou pera que nao Ihe seia contraria sua doutrina. 
E por ser esta cousa tam pemiciosa e grave, fechou s. Joao seu 
Apocalipsi dizendo: Se algum acrescentar a estas palavras, acre- 
scentara Deos sobre elie as pragas escritas neste livro, e se demi- 
nuir das palavras delle, tirarlhe ha Deos a parte que tinha do livro 
da vida e da cidade santa, e das cousas que estao escritas em este 
livro. Disse entao o Emperador, mostrandose enfadado: Ninguem 
tire palavras dos livros ; deixemnos como estavao, pois sao de San- 
tos. E assi se calarao todos. 



36o HISTORIA DE ETHIOPIA 

6. Probat idcm ex Vendo eu que nao passavao adiante na pratica, disse : Deixe- 

hac^re^tici nesdunt ^^^ ^ Haimanot Abbo, e vamos ao santo evangelho, que nelle 
soivere argumenta acharemos tambem clara esta verdade, porque o mesmo Christo, 

Auctoris. 

falando do Spirito Santo, dis no cap. i6 de sam JoSo: « Tomara de 
mim e denunciarvos ha a vos outros > . Nenhuma cousa pode tomar 
o Espirito Santo do Filho sem tomar sua essencia. Logo nao s6 
tomou a essencia do Padre, mas tambem do Filho. Respondeo o 
frade : Quando Christo dis: « Tomara de mim ^, nao fala mais que da 
sciencia. He verdade, disse eu, que fala da sciencia, mas se o Spi- 
rito toma do Filho a sciencia, sem tomar a essencia, nao he Deos 
senao criatura. Respondeo que elles tambem tinhao suas esplica- 
Qoes pera este luguar; e com isto se fechou, sem dar nenhuma, 
nem querer responder. Disse eu entao: Pois *respondame V, R. ao f. 149. 
que disse Christo nosso Senhor no mesmo cap. de s. Joao e no 
seguinte: ♦ Todas as cousas que tem o Padre sao minhas >; de ma- 
neira que tudo o que tem o Padre tem o Filho, excepta a relagao 
de paternidade, como dizem os santos : O Padre tem ser principio 
do Espirito Santo; logo o mesmo tem tambem o Filho. Por onde 
nao procede so do Padre, senao tambem do Filho. Virouse elle pera 
os outros, dizendo: Nao vedes, nao vedes que falacia tira do 
Evangelho [?]. Respondi eu: Mostre V. R. onde esta a falacia. 
Todas sao palavras do Evangelho, de que nao se pode tirar fa- 
lacia. Desta maneira, disse elle, tivera o Espirito Santo dous pa- 
dres. Respondi: Nao se segue, porque o Espirito Santo nao pro- 
cede do Padre em quanto formalmente he padre, que entao o 
Espirito Santo fora filho, senao do Padre em quanto tem a essencia 
comum com o Filho, e assi necessariamente procede tambem do 
Filho. Aperfiou elle que era falacia, que nao avia gera que respon- 
der, mas os outros bem entenderao que o dizia porque nao tinha 
reposta. Vendo eu isto, Ihe disse: Ja que V. R. nao quer respon- 
der aos argumentos, declareme como o Padre gera ao Filho e como 
o Espirito Santo procede do Padre, que ahi Ihe mostrarei claro que 
necessariamente o Espirito Santo procede tambem do Filho, ou 
que nao ha differen^a nenhuma entre ambos, e assi nao serao tres 
pessoas senao duas. 

Disse outro frade: Deixemnos iuntar nossos frades pera re- 
sponderemos a isso. Acudio o Emperador dizendo: Esta muito bom 
desvio esse : se o Padre dissera : Deixemme iuntar meus Padres pera 
responder, tivera alguma cor sua escusa, porque esta s6; mas vos 



LIVRO II, CAPITULO II. 36 1 

outros sois tantos, e ainda dizeis que vos deixem iuntar mais? Re- 
spondei : que essa escusa nSo aproveita. Disse outro muito privado 
do Emperador: Nos bem sabemos estas cousas: declareas o Padre, 
pcra veremos de que maneira as entendem os Portugucses. Ao que 
respondi : VV. RR. tcm obriga^ao de responder, pois eu perguntei 
primeiro; e depois rcspondcrei ao que me perguntarem. Mas fes 
tanta instancia, que, porque nao cuidassem que me escusava por nSo 
f.i49,v. mostrar nossas cousas, ou porque me nao atrevia diante *delles, o 
declarei por estas palavras: 

« Bem sabem VV. RR. que, como Deos nosso Senhor seia de 
« todo perfeito e benavonturado, he neccssario que entenda e ame, 
« pois vemos que o mais perfeito que ha em nos he o entender e 
« amar ; e nisto excedemos aos animais ; nem Deos pode ter sua 
« gloria e benaventuran(;:a senao em entenderse e amarse, porque 
« com todas quantas cousas criou nao se Ihe acrescentou hum ponto 
« de gloria, nem perderia cousa algiima, ainda que as anichilasse, 
« assim como huma toca acesa nao ganha nada em sua lus ainda, que 
« acenda outras muitas, nem, porque se apagnem, pcrde cousa al- 
« guma. Vem pois como, sendo Deos N. S. de todo perfeito, he ne- 
« cessario que entenda? E de resao de entender he que esteia nelle 
« tambem presente a cousa entendida e conhecida, que fica na 
« noticia com perfeitissimo retrato e debuxo dessa mcsma cousa. 
« Isto vemos claramente por experiencia, porque, quando nos pomos 
« a considerar as arvores e flores, as tcmos tam presontes que quasi 
« nao parece que ha differen(;ta dellas ao que nos formamos dentro 
« de nos, e se tivera alguem virtude pera dar ser e vida aquilo quc 
« esta dentro de seu entendimento, sem duvida fora huma perfei- 
« tissima frol ou outra cousa contemplada ; mas, ainda que nosso en- 
« tendimento, por sua fraqueza, nao fac^^a isto, ao menos tira hum 
« debuxo tam perfeito e acabado da cousa que conhece, que nao 
« ha pintor que tire tam perfeito retrato com pincel como o tira 
« nosso entendimento. 

« Entendesse pois Deos, e nesse entendor tira hum perfei- 
« tissimo debuxo de si mesmo. Este debuxo nao podo ostar fora 
« dello, porque em ncnhuma (ousa criada pode sor tirado perfeita- 
« mento sou retrato, pois todas silo finitas e olle infinito. A este 
<c debuxo Ihe da ser c, como esteia dentro de Deos, dalhe seu me- 
« smo ser de Deose a este acto de rotratarse Deos chcmao os Sa- 
« grados Doutores « gcrar », e ao debuxo chamao filh<^, o qual he 

C. iiBC.ARi. /ier. Aeik, Scrtpt, occ, tned. — II. 46 



362 HISTORIA DE ETHIOPIA 

« Deos como o Padre, infinito e eterno como *elle, e chamao esta f. 150. 
« gera^ao eterna, porque nunca se pode entender Deos que esti- 
r vesse sem se conhecer e debuxar. Neste acto mostra Deos suas 
€ riquezas e omnipotencia, onde comunica a seu filho toda sua gran- 
« deza, sua fermosura, sua sabedoria, poder e virtude, porque em 
« todas as creaturas nSo se comunica senao como huma gota de 
« suas infinitas perfeigoes. E nSo somente se entende Deos, senao 
« que tambem he necessario que se ame, como tenho dito. Vendo 
« pois o Padre a fermosura, a bondade, a virtude e riquezas em 
« seu filho, aquem gerou tambem como elle tao sabio como elle e 
« tao poderoso e omnipotente como elle, naturalmente ama a esse 
« filho, que produzio tam conforme a sy, e vendo tambem o Filho 
« todas as grandezas e thesouros do Padre, de quem ve que Ihe 
« vem todas as riquezas e bens infinitos que tem, necessariamente 
« ama o seu padre que o gera, e este amor, com que se amao o 
« Padre ao Filho e o Filho ao Padre, he amor produzido e he a 
« pessoa do Espirito Santo ; e como o entender de Deos he infinito 
« e gera filho infinito, assim o amar de Deos he infinito e poderoso 
« e produs hum amor infinito e poderoso. Estas sao as 3 pessoas 
« que dizemos aver em Deos e nao pode aver mais que hum s6 
« Filho e hum Espirito Santo, porque em Deos nao ha mais que 
« hum entender e hum amar. Vem aqui VV. RR. como da mesma 
« maneira que o Padre produs ao Espirito Santo o produs tambem 
« o Filho, pois he o mesmo amor com que o Padre ama ao Filho 
« e o Filho ao Padre; e assim de todo o ponto nos he necessario 
« affirmar e crer que o Espirito Santo procede do Padre e do 
« Filho, porque de outra maneira nenhuma distin^ao podiamos dar 
« entre o Filho e o Espirito Santo e assi nao seriao tres pessoas 
« divinas se nao duas ». 
7. Inopportuna Tudo isto ouvirao com grande aten^ao, e depois que eu acabei, 

percontatio cuius- , , ,. 1. • , , < 

dam viri principis ^ nenhuma cousa das que disse replicarao, mas hum senhor grande, 
et responsio Aucto- ^q^ qyg a.li estavao, saio com este dcsproposito : Pois diganos V R., 

Irlo. 

se as trevoas sao creatura corporea ou nao ? Respondi eu : Senhor, 
que tem que ver as trevoas com o Espirito Santo de quem trata- 
mos? *Diga V. S. que sao creatura corporea ou que nao sao, que f.i5o,v 
pouco vaj nisso. Disse elle : Queremos saber que opiniao tem V. R. 
acerca disto? Quanto a mim, respondi eu, nao me parece que sao 
creatura corporea, senao somente priva^ao da lus, Disse elle : Logo 
nao he verdade o que affirmao os Judeus, que as trevoas sao crea- 



LIVRO II, CAPITULO II. 363 

tura corporea. Respondi que a autoridade dos Judeus era muito 
fraca, e que nom tudo o que affirmavao era verdade, pois affirmSlo 
que nao veio ainda o Messias, que em Deos nao ha Trindade de 
pessoas e tem por certissimas outras muitas cousas contra nossa 
santa fe; mas ou^a V. Senhoria huma das resOes em que me fundo pera 
> dizer que as trevoas [nao] sao creatura corporea. Se fechassem agora 

esta sala, de maneira que nao entrasse lus nenhuma, estaria nella 
esta creatura corporea; e se a abrissem, subitamente se desfaria, e 
todas as vezes que de noite tirassem e metessem aqui tochas ace- 
sas, se faria e desfaria esta creatura corporea; o que nao parece 
possivel em boa philosophia. Disse o Emperador rindo: Boa esta 
a creatura corporea, que tantas vezes e tam facilmente se pode fa- 
zer e desfazer. Acodio entao o frade Abba Marca: Pera que ga- 
stamos tempo em cousa de tao pouca importancia[?]. Que vaj que as 
trevoas seiao creatura corporea ou nao [?]. E com isto se acabou a 
pratica e saimos todos. 

Poucos dias depois me disse hum primo do Emperador, que 8. Auctor privatim 
se chamava Bela Christ6s e tinha bem entendidaa verdade de nos- lyiSrSicuiMuedeve- 
sas cousas: Nao perca V. R. ocasiao nenhuma, em que nao declare '*_^®_^^®^*ff*flit* 
a todos, como o Espirito Santo procede tambem do Filho, porque, 
^ com primeiro terem por certo que nao procedia mais que do Padre, 

; ia muitos vao entendendo que nao pode deixar de proceder tam- 

■ bem do Filho. E indo eu a visitar a Abba Marca, pera ver se, fa- 

lando com elle em particular, o podia tirar daquelle erro, como o 
f. 151. tinha tirado de autros que adiante ve*remos, me mostrou hum lu- 
guar no Concilio Niceno, que elles tem, em que dizia: O Espirito 
Santo procede do Padre e nao do Filho. Disse eu: Nao ha tal 
cousa no Concilio Niceno, nem ali se tratou esta questao do Espi- 
rito, porque ainda nao avia tal erro, nem se levantou senao dahi 
alguns 100 annos ou mais, como consta de muitos autores; por 
onde esta palavra: « e nao do Filho » esta acrescentada. Respondeo 
elle : He verdade ; aqui em Ethiopia a acrescentarao. Mostreilhe eu 
entao quam grandes males se seguiao de acrescentar palavras nos 
; Santos Concilios e nos demais livros, que ensinao a verdadeira fe, 

! e declareilhe compridamente como o Spirito Santo procede do Pa- 

dre e do Filho, com que ficou satisfeito. E posto que em muito 
tempo nao se atreveo a confessar publicamente esta verdade, ia a 
^ confessa e affirma sem ter de ver com ninguem. 

Outras muitas cousas pudera referir de praticas particulares, que 



perauasum dimittit. 



364 HISTORIA DE ETHIOPIA 

tive por vezes com alguns letrados ecclesiasticos e seculares, que 
pertinasmente defendem que o Espirito Santo procede s6 do Padre, 
mas bastara o que temos dito, pera que se veia quanto se enga- 
nou frei Luis de Urreta no que affirma pag. 416 por estas palavras: 
g. Bz dictis con- « Esta verdad catholica, que la Iglesia crc contra los GTiogos, 

hbtorfcus Vrretal^^ ^ ^^^ ^^ Spirito Santo procede del Padre e del Hijo, la tienen, 

« creen y professan los Ethiopes con grandes veras contra los mis- 
« mos Griegos, diziendo : * Spiritus Sanctus Paracletos Deus vivus. 
« qui ex Patre et Filio procedit '». Isto dis o Autor fundado em 
huma protesta^ao da fe, que affirma fizerao huns embaixadores do 
Preste Joao no Concilio Florentino e a refere pag. 397; mas aquella 
protestagao nao fas contra o que temos dito, que os Ethiopes vas- 
salos do Preste Joao tem que o Espirito Santo procede s6 do Pa- 
dre, porque, ainda que concedamos que aquelles, que se nomearao 
por embaixadores do Preste Joao, nao fingissem muitas das cousas 
que ali se referem, pera serem bem recibidos dos nossos e acre- 
ditar pera com elles sua fe, como facilmente fazem onde se achao, 
e temos mostrado por todo o livro primeiro, nas que o ethiope 
Joao Balthesar meteo em cabega *ao mesmo autor e no que aqui f.i5i,v. 
exprimentamos em alguns frades, que forao a Roma, onde prova- 
velmonte aviao de dizer que professavao a santa fe da Igreia Ro- 
mana e depois que tornarao qua, falao conio os demais frades da 
terra; ainda que concodamos que aquolla embaixada foj verdadeira 
e tudo o que professarao certo, nom por isso se segue que de en- 
tao ate oje guardem perfeitamente todas as cousas que ali prote- 
starao, a verdade he que de muitos tempos a esta parte tiverao e 
tem oje esta heregia que o Spirito Santo procede s6 do Padre e 
outras muitas que adiante veremos. 



CAPITULO m. 

Em que se referem os erros, 
que os Ethiopes tem sobre a sacrosanta humanidade 

de Jesu Christo N. S. 

Affirmao os Ethiopes vassalos do Preste Joao que a natureza z. Probatur Aethi- 
humana em Christo Nosso Senhor he icfual a divina e que esta em ^^ unam ^^}^^ 

^ ^ naturam in Chrxsto 

toda a parte ; e dizem que, depois que a natureza humana se unio proflteri cx ipsis eo- 
a pessoa divina, nao se pode dizer que cm Christo ha duas natu- xnan6t Abb6 et Ma-/ 
rezas senao huma natureza, e a Dioscoro, que ensinou estes tam Mg«*bt HaimanAt. 
grandes erros, tem por santo c como a tal Ihe fazcm grande festa 
cada anno, e a s. Leao papa, porque dis que estao em Christo 
duas naturezcLS, sem se mesturarem, confundirem, nem afastarem, 
Ihe tem muito grande aborrecimento e dao nomes bem alheos de 
gente christaa ; e assim, falando eu com hum frade velho sobre elle, 
disse que falara nesta cousa por boca de s. Paulo, e que fora san- 
tissimo varao ; ao que respondeo com extraordinaria impaciencia de 
ouvir isto : Nao foj senao hum satanas. Nem me espanto muito que 
Ihe tenhao tanto aborrecimento, pois os incita a isso a doutrina de 
seus livros, que elles tem por fe verdadeira ; porque, como ia dis- 
semos no cap. 24 do primeiro livro, as Homilias de Santos, que 
tem no livro que chamao Haimanot Abbo, aiuntarao muitas cousas 
f. 152. de Patriarcas *de Alexandria hereges, e hum delles, que se chama 
Theodoseos. dis no cap. 2° estas palavras: « Nao afastamos como 
aquelle inimigo Leao maldito, que afastou a quem nao se afastou, 
e disse duas naturezas, duas complacencias e duas obras em hum 
Christo: > E pouco mais adiante toma a dizer: « Este maldito e tredo 



366 HISTORIA DE ETHIOPIA 



I 
4 



Leao disse duas naturezas e duas obras e, dizendo huma pessoa, ni- 
sto quis (scilicet encobrir) o maldito seu erro, em dizer huma pes- 
soa: » E outro, a quem chamao Cenutheos, dis assim : c Os que falao 1 

e cuidao como o Concilio baixo, sujo, judeu, roim dos que se iun- 
tarao em Calcedonia, em que estava Leao, que nao tem lei, lobo I 

serval, robador, despeda^ador das almas ». E outro, que se chama 4 

Philatheos, tambem diz: «Nao crem como o Concilio judeu dos que 
se inntarao em Calcedonia e o livro da treicjao de Leao mentiroso. » 
Demais disto em hum livro, que elles chamao Mazagu6bt Hai- 
manot, que quer dizer « Thesouro da f6 » , dizem do Concilio Calcedo- 
nense, porque declarou por de fe a doutrina de s. Leao sobre as 
duas naturezas, vontades e operagoes em Christo Nosso S.**' , e con- 
denou a Dioscoro: « Juntaraose mestres parvos 630 com vamgloria 
« e soberba, querendo ser dobrados que os 318 iustos da fe ». E 
pouco mais adiante dis ; « Tirarao huma palavra da fe de Nestor, 
« que pos duas pessoas em Christo, huma do filho de Maria, outra 
« do filho de Deos, e disserao que polla uniao se fizerao huma pes- 
« soa. Isto deixarao polla excomunhao do padre Cyrilo, e compo- 
« serao das palavras do p. Cyrilo e das palavras de Nestor ; e as- . 

« sim disserao Christo huma pessoa, duas vontades, duas naturezas, I 

« duas complacencias da divindade e da humanidade. Disserao que ^ 

« a divindade fas obra de divindade, e a humanidade obra de hu- 
« manidade por dous caminhos: hum obra maravilhas, outro padece \ 

« infirmidades, e por isso he menor a humanidade que a divindade » . 
Ate qui sao palavras daquelle livro. 
a. Confirmatur ez Outras muitas cousas semelhantes pudera referir de seus li- 

di8putationibu8,qtias vros, que deixo por brevidade; bastara contar *em confirma^ao do f.i52,v. 

anno 1 604 Auctor ha- 

buit cum quibusdam q^^ pretendo as que passei com os principaes letrados de Ethiopia 
doctis monachis co- ecclesiasticos e seculares em humas disputas eerais, que por mui- 

ram Imperatore Za x- o » t r- 

Deng:ull.Summapri- tos dias tive com elles em junho de 1604 diante do emperador Za 

mae disputationis. t^mji 1 tii « 

Denguil e de muitos senhores, estando elle em huma terra que 

chamao Ondegue, ao longo da grande lagoa, que divide o reino de 

Goiam do de Dambia, nas quais se tratou quasi de todos os erros 

que ha em Ethiopia e principalmente destes que imos falando, que 

forao dos primeiros com que sairao ; porque, mandandome chamar I 

o Emperador a seu pa^o pera este effeito, me fes assentar perto i 

de si e disse, que folgaria de ouvir algnma cousa sobre o que ti- j 

nhao controversia os de Ethiopia com os Portugueses, pera ver se ^ 

era certo que avia tam grande diflferen^a como diziao. Respondi 



l 



LIVRO II, CAPITULO III. 367 

que perguntassem o que quizessem, que eu declararia como o en- 
tendiamos. Disse logo hum frade : Em muitzis cousas temos grande 
differenQa, particularmente em que dizem que em Christo estao 
duas naturezas, e que a natureza humana nao he igual a divina. 
Respondi que sim diziamos e que esta era a fe catholica, por- 
que, deixando o que dis s. Paulo em muitas partes que Deos der- 
ramou seu sangue pella Igreia, que nos remio com seu precioso 
sangue, no que mostra claramente que em Christo estao duas na- 
turezas, porque Deos em quanto Deos nao tem sangne, he spirito, 
e assim o que he Deos e derramou sangne necessariamente ha de 
ter duas naturezas, tambem, escrevendo aos Romanos, cap. 8, dis 
que Deos nao perdoou a seu proprio filho, mas que por todos nos 
o entregou; e mais adiante, cap. 9, que Christo nosso Senhor he 
de pais judeus seg^ndo a carne, e que o mesmo he Deos sobre 
todas as cousas; que mais claro pode dizer s. Paulo que Christo 
Nosso Senhor tem natureza divina e humana[?]. Isto mesmo ensina 
s. Joao em sua primeira Epistola com palavras muito claras. Mas 
deixando tudo isto, vamos ao santo Evangelho, que he a fonte donde 
elles tirarao esta verdade pera denunciar ao mundo. 
f- »53- *Falando Christo N. S.**' com Nicodemos, como conta s. Joao 

no cap. 3®, Ihe disse: Ninguem sobe ao ceo, senao o que desceo 
do ceo, o filho do homem, que esta no ceo. No que mostrou cla- 
ramente que tem duas naturezas, porque este, que falava e sabia e 
dizia que era filho do homem, nao estava entao no ceo senao na 
terra com Nicodemos, nem era Deos senao homem; porque Deos 
nao se pode ver nem tocar com os sentidos corporais, nem de- 
scera do ceo, mas nacera na terra da Virgem Nossa Senhora, 
Luc. 2 ; e com tudo isso elle mesmo affirmou que descera do ceo, 
e que entao quando falava na terra estava no ceo. Logo Christo 
N. S.***" tinha outra natureza afora a humana, segundo a qual pu- 
desse estar no ceo, quando com a natureza humana estava na terra. 
E mais adiante no cap. 9 dis s. Joao, que achando Christo N. S. 
aquelle cego a nativitate, a que pouco antes tinha dado vista, Ihe 
perguntou : Tu cres no filho de Deos \Y]. Respondeo : Quem he, Se- 
nhor, pera que crea nolle[?]. Disselhe Jesu: Ja o viste, e o que fala 
contigo elle he. Disse o que fora cego: Creo, Senhor; e prostran- 
dose o adorou. Que mais claramente podia mostrar Christo N. S.**^que 
tem duas naturezas, pois aquelle, que o cego, depois de receber vi- 
sta, vio, ouvio e adorou, dis que iuntamente he filho de Deos [?J. 



368 HISTORIA DE ETHIOPIA 

A isto respondeo hum dos seculares: « Depois da resurrei^ao, nSo 
ficou mais que huma natureza ». « Qual dellasp], disse eu; se se perdeo 
« alguma, avia de ser a humana. Mas isto he contra o santo Evan- 
« gelho. Senao dizeime quem era aquelle que no 8 dia depois da 
« resurrei^ao, estando entre os dicipolos, disse a Thome, que nao 
« fosse incredulo cuias erao aquellas chagas que Ihe mostrou e 
« Ihe oflFereceo que tocasse[?]; porque a divinidade nao sc pode ver 
« com os olhos corporaes, nem tocar com as mSos, nem ter cha- 
« gas; logo o que Ihe ofFereceo que tocasse e elle via, nSo era a 
« divinidade senSo a carne; e com tudo isso a aquelle mesmo que 
« via confessou por Deos e Senhor, Joafi, 20. Que mais claramente 
« se nos pode mostrar que Christo N. S.**^ depois da resurreigao 
« tinha duas naturezas, divina e humana [?]. 

« Alem disto quem era aquelle dis s. Lucas no *cap. ultimo, que f.i53.v. 
« aparecendo aos dicipolos, depois de sua resurrei^ao, e ficando elles 
« turbados cuidando que era spirito, Ihes disse : Quid turbati estis 
« et cogitationes ascendunt in corda vestra [?] ; vede minhas maos 
« e meus pes, que eu mesmo sou; palpaj e vede, porque o espi- 
« rito nao tem carne nem ossos como vedes que eu tenho. Logo 
« nao se pode duvidar, senao que tinha verdadeiramente natureza 
« humana, nem vos t^mpouco negais a divina. vSabei que a prin- 
« cipal causa porque, depois da resurrei^ao, esteve Christo N. S.°' na 
« terra 40 dias comendo e bebendo, conversando e tratando com 
« seus dicipolos, foj pera mostrar que verdadeiramente tinha natu- 
« reza humana e que conhecessem que aquelle mesmo, que tinhao 
« visto crucifigado e morto, resucitara » . 

A isto me nao respondeo uada, mas come^ou a falar com os 
autros sobre a interpretagao destes luguares. Disselhe eu : « Todas 
« sao palavras claras do Evangelho, que interpretagao tem \stc\ ; mas 
« pera que incurtemos a pratica, respondoime so a esta palavra : 
« Christo N. S.""^ he oie perfeito Deos e perfeito homem, ou nao [?]. » 
Nao queria responder, senao misturar outras cousas, ate que Ihe 
disse o Emperador: « Porque nao respondeis? Podeis negar que 
« Christo seia perfeito Deos e perfeito homem? ^-^ Respondeo entao 
que nao se podia negar. « Logo tem, disse eu, perfeita natureza di- 
<.< vina e perfeita natureza humana. » Respondeo outro : «j: Nos nao ne- 
« gamos que em Cliristo esteia natureza divina e natureza humana; 
« mas depois que se unirao, nao se pode dizer que estao duas, senao 
« huma. » Respondi que isto era dizer que cstao duas e que nao estao 



LIVRO II, CAPITULO III. 369 

duas. Estando em Christo verdadeiramente a natureza divina e 
humana, que sSio distintas, porque nao se pode dizer que estSlo 
duas [?]. c Se quereis dizer que Christo N. S.**' nSo se pode dizer 
f. 154. « dous senao hum, he cousa certissima, porque *nao tem mais que 
€ huma so pessoa. E isto principalmente pretende mostrar s. Joao 
« em sua i** Epistola, mas neste hum Christo estao duas perfeitis- 
« sima^ naturezas, divina e humana ». Tornou a responder que as 
naturezas nao se podiao dizer duas senao huma, depois que se unirao 
e ficarao iguais. Disse eu que por rezao da uniao nao deixarao de 
ser duas perfeitas e distinctas naturezas e que me maravilhava 
muito que affirmassem que estas duas naturezas erao iguais; pois 
nos ensinava o contrario o Evangelho e s. Athanasio (cuia doutrina 
me diziao que elles seguiao) o declarava expressamente em seu 
symbolo, dizendo que Jesu Christo N. 8.°' he igual ao Padre se- 
gundo a divindade e menor que o Padre segundo a humanidade. 
Respondeo hum : « Quantos falsos testemunhos alevantais a s. Atha- 
nasio ». Disse eu, que lesse bem seu symbolo, que nelle acharia 
estas mesmas palavras; mas que nao tinhamos necessidade da 
autoridade de s. Athanasio, onde estava tam expressa a de Chisto 
N. S.**', que dis em huma parte por s. Joao cap. 10 que he igual 
L com suo eterno Padre e huma mesma cousa com elle : e em outra, 

cap. 14, que o Padre he maior que elle; no que nos ensina que 

tem natureza divina, segundo a qual he igual ao Padre, e natu- 

reza humana, segnndo a qual he menor que elle. Respondeo, que 

quando disse que era menor que o Padre, falou por humildade, 

porque segundo a humanidade tambem era igual a elle, como o 

manifestou s. Marco no cap. ultimo dizendo, que, quando subio ao 

ceo, se assentou a sua mao direita, que he o mesmo que dizer que 

he igual a elle, e em quanto Deos nao se cissentou senao en quanto 

1 homem. « Nao nos avia de enganar Christo N. S.®*" por humildade 

; « (disse eu) : com palavras affirmativas nos declara que he menor 

' « que o Padre, nem em quanto homem pode ser igual a elle, porque 

« muitas cousa[s] ha em Deos, que implica contradi^ao comunica- 
f.i54,v. « remse a creatu*ra, como he ser increado, actu puro, infinito e outras 
« cousas semelhantes ; tambem se seguirao muitas cousas contra a 
« Sagrada Escritura, como aver no mundo dous omnipotentes, immen- 
« sos, infinitos, a deidade e a humanidade de Christo N. S."^ Demais 
^ « disto s. Joao e s. Paulo nos ensinao claramente que, em quanto ho- 

« mem, he menor que o Padre, porque s. Joao i'* epist. cap. 2 dis 

C. BsccAiti. /ier, Aetk. Scri^t, oce, intd, — II. 47 



\ 



370 HISTORIA DE ETHIOPIA 

« que he nosso avogado pera com elle, e sam Paulo affirma, ad Rom. 8, 
« que, estando a mSlo direita de Deos intercede por nos. Se fora ignal, 
« nSo podia ser avogado e interceder; e na i* ad Corinth, cap. 15, 
« dis que, quando o Padre tiver soieitado ao Filho todas as cousas 
« (que sera no dia do juizo), ainda entao o Filho sera soieito ao Padre ». 

Comeijarao elles a intrepretax estes luguares ; mas vendo o Em- 
perador que nSo levavao caminho, os interrompeo, perguntandome 
como se entendia aquelle luguar de s. Marco, porque assentarse a 
mSo direita do Padre parecia que denotava ser igual a elle. Re- 
spondi que isto nao queria dizer mais de que, em quanto Deos, tem 
a mesma gloria, honrra e poder que o Padre e, em quanto homem, 
Ihe deu o mesmo Padre mais gloria, mais honrra e mais poder que 
a todos os santos e anjos. Mas ainda que dissessemos que sentarse 
a mao direita [he] reinar, iulgar e governar todas as cousas com igual 
poder e honrra, nem por isso se segue que a natureza humana seia 
igual a divina, porque isto nao Ihe foj dado a ella em sy mesma, 
senao na pessoa divina, e assim nao se pode dizer que a natureza 
humana em si mesma esta assentada a mao direita do Padre, senao 
que he natureza humana daquella pessoa divina que esta sentada 
a mao direita de Deos Padre. Assi como na incarna^ao, nem porque 
Deos incarnou a humanidade ficou sendo Deos, senao humanidade 
de Deos, mas tomando tudo iunto en concreto dizemos: Este ho- 
mem he Deos e esta assentado a mao direita de Deos *Padre. f. 155. 
Por huma comparagao me declararei melhor: « Quando Vossa 
« Magestade se assenta em sua cadeira pera iulgar e governar seu 
« imperio, esta com sua roupa imperial, mas nam por isso se pode 
« dizer que a roupa esta sentada e que iulga e govema, senao que 
« he roupa de Vossa Magestade que esta assentado iulgando e go- 
« vernando ». 

« Muito folguei, disse o Emperador, de vos ouvir ; por oie basta 
isto >. E alevantandose, porque era ia muito tarde, sairao todos, 
sem ficar mais que hum muito seu privado chamado Lac Mariam 
e hum frade bem letrado, que se chama Abba Za Manoel e eu. E 
disseme diante delles o Emperador : « Eu sou parvo, que nao entendo 
muy to bem que a creatura nao pode ser igual ao criador ; com tudo 
folgaria que me mostrasses aquelle ultimo luguar, que alegastes de 
s. Paulo ». Disse eu onde estava, e mostrouo logo o frade em seu 
livro e dizia: « Quando Ihe forem soieitas todas as cousas, entao se 
vera que o Filho he menor que o Padre » ; porque em alguns de seus 



j LIVRO II, CAPITULO III. 37 1 

! li\Tos estk isto acrescentado. « Que necessidade temos de mais rezoes, 

disse o Emperador, falando s. Paulo tam claramente. Ide embora 
descansar » . 

O seguinte dia mandou o Emperador que se tomassem a iuntar 3. Summa alterius 
todos os letrados e das primeiras cousas que perguntarao foj, se ^^^ ^ "' 
^ avia em Christo N. S.°' duas vontades, e respondendo eu que sim, 

[ se rio hum como se ouvira algum absurdo muito grande. Disselhe 

eu entao, que isto mesmo confessara elle o dia precedente no que 

me concedera que Christo he perfeito Deos e perfeito homem, ver- 

dade certissima ; o que nao podia ser se nao ti vera iuntamente von- 

tade divina e vontade humana, pois a vontade he tam grande 

perfei^ao, que ninguem pode ser perfeito se Ihe faltar, e que o 

mesmo Senhor tivera por bem de nos tirar de duvida, ensinandonos 

no Evangelho com palavras claras, que tem iuntamente vontade 

divina e vontade humana, porque no cap. 6 de s. Joao diz : « Desci 

do ceo nao pera que fa^a minha vontade, mas a vontade daquelle 

f.i55,v. que me mandou »; e em s. Matheus 26, s. Marcos 14 e *Lucas 22 

dis : « Padre, se quereis, passaj de mim este calis ; porem nao se fa^a 

minha vontade senao a vossa » . Que mais claro nos podia dizer que 

j tem vontade humana com que se conformava e soieitava a vontade 

L ^e seu Eterno Padre, que he a mesma que elle tem em quanto 

Deos [?]. Respondeo elle, que aqui por vontade se entendia affecto na- 
tural. « Nao se entende, disse eu, senao vontade propriamente, porque 
assi como fala propria e precisamente da vontade do Padre, dizendo 
que veio a fazer a vontade do que o mandou e que se fa^a a von- 
tade do Padre, assim tambem fala propria e precisamente da vontade 
humana dizendo : Deci do ceo nao pera fazer minha vontade, e nao 
se fa^a minha vontade ». 

« Bem fora, disse elle ; poremos em Christo duas vontades, pera 

que quisesse iuntamente duas cousas contrarias » . Respondi eu que 

nao cuidasse que a vontade divina e a humana em Christo erao como 

1 a sua vontade e a minha, que elle quereria huma cousa e eu outra 

I 

! contraria, senao muito unidas e conformes, sempre a vontade hu- 

mana se soieitava e obedecia em tudo a divina ; o que nos declara 

muito bem s. Paulo ad Philip, 2°, dizendo que se humilhou assy 

mesmo feito obediente ate a morte e morte de crus. 

: A toda esta pratica, que foy comprida, porque mesturarao muitas 

w cousas fora de proposito, esteve mui attento o Emperador e fes bom 

conceito da verdade, como o tinha feito o dia dantes, de aver duas 



\ 



y 



372 HISTORIA DE ETHIOPIA 

naturezas em Christo N. S.°' ; e assim disse que passassemos a outra 
cousa; que nSlo era necessario porfiar mais nesta. Disse eu: « Se 
« Vossa Magestade da licen^a, folgara que me disserao so isto: se 
« Christo N. S.°' tem perfeita alma racional ». Respondeo hum: Que 
sim, perfeitissima. « Pois das cousas mais perfeitas que tem a alma 
« rational, disse eu, he a vontade, tanto que ella he a que escolhe 
« ou engeita o bem ou o mal, que o entendimento Ihe representa, 
« logo a alma de Christo N. S.°*^ tem vontade ; que sem ella nao fora 
« perfeita. E mais, quando Deos N. S.***^ disse : Fa^amos o homem 
« a nossa imagem e semelhan^a, Genes, i°, na alma o asemelhou 
« a sy, pondo nella (que he huma so substancia) tres potencias in- 
« separaveis, que sSo intendimento, vontade e memoria *assim como f. 15^- 
« elle, sendo huma so simplicissima substancia, tem tres pessoas, a 
« do Padre, do Filho e do Spirito Santo. Tambem vos concedeis 
« que em Christo N. S.°^ esta a vontade divina, por onde forgada- 
« mente aveis de confessar que nelle estao duas vontades, divina e 
« humana, mas muito unidas entre sy , como ia disse » . Respondeo 
elle que se estavao tam unidas, que a humana seguia sempre o que 
queria a divina, ia nao era mais que huma so vontade. « Muito mal 
« infiris, disse eu, porque, ainda que esta uniao seia tam grande e que 
« a vontade humana siga o que quer a divina, nem por isso perde 
« seu ser, assim como porque vos unais e sugeitois vossa vontade a 
« do Emperador, nem por isso perde ella seu ser ; tam perfeito o tem 
« depois que se soieitou como o tinha antes » . Disse o Emperador, que 
nao avia que falar mais nisso ; e assim passamos a tratar de outros 
erros que tem sobre as almas rationais e refirirei adiante em seu 
luguar. 
4. Ex dictis refel- Bem claro se mostra do que temos dito a pouca noticia que 

T?"* ta ^d**"* to d^' ^^^^^ destas cousas frey Luis de Urreta ; pois, defendendo aos Ethiopes^ 

ctrina Aethiopum dis pag. 424: « Los Ethiopes, como catholicos christianos obedientes 
circa Incarxiatioxieni* 

« a los sagrados Concilios, e em particular al Concilio Calcedo- 

« nense, confiessan e creen en Christo dos naturalezas perfectas, in- 

« comutables, distinctas, divina y humana >. Mas pera que se veia 

ainda melhor quam longe estao disto os Ethiopes, referirei no ca- 

pitulo siguinte o que Ihes soccedeo estes annos passados ao empe- 

rador Seltan Sagued, que oie vive, por querer fazer receber aos seus 

esta verdade catholica, que em Christo N. S.**"^ estao duas perfeitis- 

simas naturezas, divina e humana; o que tenho por certo folgara 

de ver o leitor, ainda que seia comprido, porque; demais de ser go- 




LIVRO II, CAPITULO 111. 373 

stosa historia, achara nao pequena occasiao de louvar a Nosso Senhor 
polla[s] merces grandes que fes a este bom Emperador e a Eraz Cela 
Christos seu irmao, livrandoos por vezes da morte, e, o que mais he, 
dandolhes conhecimento de sua santa fe; e rogara ao padre das 
misericordias, que Ihes fes esta tam grande, a quiera tambem fazer 
f.i56,v. *a todos os demais deste imperio, alumiandolhes os entendimentos, 
pera que deixem seus erros e se soieitem a sua santa igreia. 



CAPITULO IV, 

Em que se prosegue a prova de que os Ethiopes negao 

duas naturezas em Christo N. S.""^. 



Ainda que nas disputas, que tive com os letrados diante do i. imperator Za 
emperador Za DengTiil, ficarao alguns frades e homens grrandes veriStem^mpl^d^ 
conhecendo a verdade de nossa santa fe, todavia, como depois, en- ^"'5 q"*™ <>*> "«» « 

monachis commota 

tendendo outros que o Emperador a tinha recebido, amotinarSlo o piebe, vita privatur. 
povo e o matarSio, como diremos adiante no livro 4, nSo se atre- ^^.^^ auadet Cela 

^ ^ ChnstOBeiuaquecon- 

viao a falar em publico sobra ella, posto que em segredo comuni- aobrino Abeithum 

.,,, J01..0 j^ B«^* Chriatda duaa 

cavao comigo. Mas de poes que o emperador Seltan Sagued tomou ease in Chriato natu- 

posse do imperio, deseiou muito saber o fundamento dcus contro- **•• 

versias que temos com elles e assim humas vezes me perguntava 

estando s6, outras vezes fazia que me perguntassem diante delle 

alg^ns frades de quem se fiava, e foj Nosso Senhor servido que 

por este meio viesse a entender bem nossas cousas ; e tratando sobre 

ellas com Cela Christos seu irmSo, Ihe disse que Ihe pareciao muito 

bem, e que tudo quanto diziamos provavamos com a Escritura, 

Respondeo elle : Senhor, nao ha pera que dar ouvidos a suas cousas, 

que sSo tam differentes das nossas, que de nenhuma maneira as 

podemos admitir. Disse o Emperador: Nao desistais de as ouvir, 

porque nao sao da maneira que dizem nossos frades e atentai muito 

bem se achais algiima cousa contra a Escritura. Dali por diante 

come(;ou a me perguntar meudamente e o mesmo fazia a qualquer dos 

demais Padres que achava, mais^por curiosidade e ver se avia al- 

guma cousa dc que pegar pera zombar de nossas cousas. que pera 



i 

376 HISTORIA DE ETHIOPIA 

se aproveitar dellas. Mas achandoas tam conformes a rezao e a 
Sagrada Escritura, e vendo que todos nos ensinavamos huma mesma 
cousa, entendeo clara*mente que a doutrina da Igreia Romana era f. 157. 
a verdadeira; e assim se determinou a seguila e morrer por ella. 
PoUo que disse ao Emperador que elle primeiro estava muito en- 
ganado, mas que sem duvida a fe que ensinavamos era a verda- 4 

deira; do que folgou muito o Emperador. A isto se aiuntou que 
a hum seu primo, que se chamava Abeithum Bela Christos, a quem, 
ainda que homem casado, tinhao todos por oraculo em cousas de 
leteras e na verdade, na curiosidade e continua^ao do estudo podia 
competir com muitos dos estudiosos de nossas terras, e este tendo 
tambem entendida a verdade de nossa santa fe, disse ao Emperador 
o mesmo que seu irmao Ihe tinha dito e comegou a falar nisto com 
outros letrados, e assim se foy espalhando que elle e o irmSo do 
Emperador aprovavao nossa doutrina. 
a. SeltAnSagAdfa- Sabendo pois desta maneira os frades, que de segredo estavao 

vet monachis caUio- ^^ nossa banda, como tinhao por si tam cfrandes senhores, come- 

I1CI8 ct lubet haben t- ^ 

conventum omnium (^arao elles tambem a falar sem medo e disserao ao Emperador, que 

doctorum Aethiopiae , • ^ -i. ^ t ^ j 

ad doctrinam de du- niandasse mntar diante sy os letrados que avia na corte, e que 
plici in christo na- elles Ihes mostrariao claramente polla Escritura que em Christo 

tura excutiendam. 

estao duas naturezas, divina e humana, sem se misturarem, nem ^ 

confundirem. Folgou muito o Emperador de ouvir isto e mandou 
logo que todos se iuntasem certo dia em seu pa^o, o que elles 
fizerao estando a caso hum padre e eu com o Emperador, e elle Ihes 
fes huma pratica com muito boas e consertadas palavras, em que em 
suma Ihes disse que tinha entendido aver entre elles duas fees mui 
difFerentes, nao podendo ser mais que huma a verdadeira, e que 
entre outras cousas huns Ihe diziao que em'Christo estao duas na- 
turezas, outros que s6 huma; que deseiava saber a verdade disto, 
pera fazer que todos a seguissem uniformemente, poes nao era 
bem que em cousas de fe ouvesse tam grande difFeren^a. Respon- 
derao todos que era isto cousa muito importante e necessaria. 
3. Dtsputatio mo- Comegando poes logo a disputar a questao, os que erao *de f.i57,v. 

Marc&^<»u^iicus ad ^^^^ parte convenciao aos contrarios com a Escritura e rezoes fun- 
silentium redigit ad- dadas nella, de maneira que nao podiao responder senao cousas ri- 

versarios. Monachuf , 

quia coram Impera- dicolas, e vendoso hum dolles muito apertado, disse: Por huma 
tore probrosa verba gemelanca me declararei: Assim como quando aiuntao o ferro com 

leceratcontraMarca, r ~i 

severa mulctatur. o fogo, fica tam aceso e feito fogo que nao se pode dizer que alli ^ 

estao duas naturezas senao huma, assim tambem, depois que a na- 



i 



LIVRO II, CAPITULO IV. 377 

tureza divina unio assi a humana, ficarSlo de maneira que n^o se 
pode dezir que sSo duas senao huma. Respondeo o irmSo do Em- 
perador rindo : « Vem muito a proposito a semelanga pera provar 
nosso intento » . E hum frade chamado Marca disse : « Com isso de- 
« clarais o que nos dizemos que em Christo estao duas naturezas, 
« que por a natureza divina unir assy a humana, nao perdeo esta 
« seu ser, assim como o ferro por se unir com o fogo nao perde 
« sua natureza. Senao dizeime que he o que ali peza, o ferro ou o 
« fogo? Em que se dao as marteladas no ferro ou o fogo? » Ne- 
stas cousas gastarao a maior parte do dia ; e se alevantarao sem 
acabar de assentar em nada. 

Aiuntaraose depois outrcis duas ou tres vezes e ficarao os 
contrarios tam convecidos que vierao a confessar em Christo duas 
naturezas, mais por cran^a com a boca que com o cora^ao, como 
depois se vio. S6 hum frade, dos que ali estavao ficou sempre mo- 
strando sua pertinacia aflirmando, que em Christo nao avia mais que 
huma natureza ; pello que o Emperador o entregou a outros, pera que 
mais devagar Ihe mostrassem a verdade, e mandou lan^ar pregao 
que ninguem dali por diante soppena de morte dissesse que em 
Christo estava huma s6 natureza, senao duas perfectissimas, divina 
e humana. E outro dia, estando eu com o Emperador, trouxerao ao 
frade pertinas e disselhe Abba Marca : Entendestes ia a verdade do 
que dissemos? Pera que aporfiais em cousa tam clara na Escritura [?]. 
f. 158. Respondeo elle algumas cousas em que *parecia que queria dizer 
como ia entendera como em Christo estavao duas naturezas; mas 
antes que se acabasse de declarar, ficou subitamente tam enfiado 
que de bem preto que era se tornou seu rosto como branco e co- 
me^ou a deshonrrar a Abba Marca. Disse este entao ao Empe- 
rador : Senhor, como se a de sofrer que este me deshonrre diante 
de Vossa Magestade [?]. Mandeme o Emperador fazer iusti^a. Se- 
naloulhe logo juizes e hum iulgou que merecia morte, por ser 
tam descomedido diante do Emperador; outros dous disserao que 
era homem ignorante, que bastava a(;outalo. E isto aprovou o Eni- 
perador, e assim Ihe derao muitos e bons ac^outes no terreiro do pa^o 
diante de muita gente, e ainda que o castigo foy pollas deshonrras que 
disse e o atrivimento que teve diante do Emperador, a mais da gonte 
cuidou que era porque affirmava que em Cliristo estava huma s6 
natureza ; e assim ficarao com medo arreceando que, se o Emperador 
se enfadava, tambcm mandaria executar o pregao que tinha dado. 

C. Bbccaju. R0r, Atth, 6eri^t. occ. tMd, — II. 48 



i 



378 HISTORIA DE ETHIOPIA 

4. Alia ct acrior A este tempo estava seu Patriarca em outras terras longe, e 

disputatio cvun ipso 

Abuna qui cogitur vindo depois a corte, se forao logo a elle os frades que primeiro, 
?*f A* duas naturas. j. g^ acharem convencidos, confessarSo em Christo duas naturezas, 

Seltl^ SagAd dat de- ^ ' 

cretum pro doctnna e Ihe affirmarao que por forga disserSo aquilo, mas que, poes elle 

era cabec^a, tornasse por sua fe. Outros homens grandes o exhor- 
tarao tambem a isso em segredo e Ihe offerecerao todo o favor e 
aiuda; pello que elle foj ao Emperador e se mostrou mui sentido 
de que em cousas de fe se determinasse nada sem elle estar pre- 
sente. Respondeo o Emperador que nao pretendera mais que saber 
a verdade, porque nao ouvesse scisma, mas que, se Ihe nao parecia 
bem o que estava assentado, faria que se tornassem a iuntar todos 
e que de novo se disputasse a questao. Disse o Patriarca que assim 
era necessario e senalando dia em que por mandado do Emperador 
todos se iuntarao diante delle no pa^o, e come^^ando os que erao f.isS.v, 
de nossa parte a propor seus argiimentos e trazer luguares da Escri- 
tura, vio o Patriarca que nao podia responder: alevantouse dizendo 
que escomungava a todos os que affirmasem que em Christo estavao 
duas naturezas. Disse o primo do Emperador Abeithum Bela Chri- 
stos : As cousas da fe nao se determinao dessa maneira, senao vendo 
primeiro muito bem o que dizem os santos e o que ensinao as 
Escrituras Sagradas. Nao seia V. Senhoria tam apressado em cousas 
de tam grande importancia : ou^a nossas rezoes e depoes com ma- 
duro conselho resolvera o que Ihe parecer que se deve segnir. O 
Emperador tambem Ihe disse que se assentasse e que com quieta^ao 
propusessem huns e outros suas duvidas e as resOes em que se fun- 
davao, pera que milhor se pudesse declarar a verdade. Assentouse 
elle entao e depois de muitas porfias, nao podendo responder aos 
luguares de Escritura, que Ihe traziao, veio a conceder que em 
Christo N. S.®*^ estao duas naturezas ; e assim o Emperador mandou 
outra vez lan^ar pregao, dizendo que de novo se virao os livros e 
acharao como primeiro que em Christo estao duas perfectissimas 
naturezas, pello que ninguem dali por diante ensinasse o contrario 
soppena de morte. 

5. Attamen Abuna Com todos estes preg5es nao se acabou a cousa, antes secre- 

sacris interdicit om- 

nibus qui fidem Lu- tamente buscavao meios pora desfazer o que tinhao assentado e dizer 
sitanorum reccpcrint ^^^ ^^ Christo nao avia mais que huma s6 natureza, particular- 
frequenteverint. im- mente o Patriarca, que como nao disse de cora<;ao que em Christo 

perator e contra 111 

utrumque liberum cstao duas naturezas, senao por nao poder responder aos luguares 
esse omnibus decer- ^^^ Escritura, tinha grande paixao, e sabendo muito bem que todas 



LIVRO II, CAPITULO IV. 379 

estas cousas procediao de nos, pollas teremos ensinadas ao Empe- 
rador e aos demais que as defendiao, determinou de nos fechar as 
portas de maneira que ninguem pudesse trattar com nosco sobre 

f. IS9. ellas; e pera isto esperou *hum dia em que ouve grande concurso 
de gente em huma igreia grande, que esta no terreiro do pago a 
mao direita, e saindo a porta porque da banda de fora estavSo mui- 
tos, pedio aten^ao, fazendo alevantar huma como bandeirinha e disse 
que pello poder que tinha de s. Pedro e s. Paulo excomungava a 
quem tomasse a fe dos Portugueses, ou entrasse em suas igreias ou 
falasse com elles nas cousas da fe. Assertou de estar ali hum Por- 
tugues e chegandose a elle hum frade dos que erao da nossa parte 
e Ihe disse zombando de sua escomunhao : Portugues, dizei a este 
nosso Abuna que escomungue pello poder que trouxe de Dioscoro 
e deixe o poder de sam Pero e s. Paulo que esta em Roma. Dis- 
seme logo o Portugues o que passava, que eu tambem estava na 
corte : e a outro dia fui ao Emperador e Ihe disse : Veia Vossa Ma- 
gestade o que nos fas o Patriarca : hontem pos cscomunhao diante 
do pa<;:o nesta forma. Respondeo o Emperador : Nao tinha V. R. pai- 
xao disto; que eu darei remedio. E mandou logo a hum homem 
grande, que ali estava, que fosse aos desembargadores do pa^o (a 
cuio cargo esta fazer apregoar as ordens do Emperador) e Ihes dis- 
sese que langassem pregao, que todos os que quissessem entrar na 
fe dos Portugueses o pudessem fazer publicamente. Foy elle, mas 
responderao que nao podiao dar tal pregao, sem primeiro ouvir isto 
de boca do Emperador, porque o Patriarca tinha posta excomunhao 
nao s6 contra os que tomassem a fc dos Portugueses, mas contra 
os que entrassem em suas igreias. Estava eu ainda com o Empe- 
rador, quando tornou esta reposta, e enfadouse muito e disse que 
langassem logo o pregao, como Ihes mandava ; que nao tinhao ne- 
cessidade de ouvir de sua boca. E assim o fizerao, posto que muito 
contra sua vontade, porque tambem elles tinhao pera sy que cm 
Christo nao estao mais que huma s6 natureza. 

f.i59,v. Com este pregao ficou sobre maneira enfadado o *Patriarca e c. Abuna fretus 

os de sua parte com tam grande paixSo que a nao podiao dissimular; ch* ^ ^l* * * afriB *lm- 
mas esperarao tempo, pera vomitar a pe^onha que recoziao em seus peratoris anathcma- 

r-T- j L v..i-i_ t« *"«^*t profitcntes 

cora9(^es, e foi ir o Emperador com hum exercito sobre huns gen- diiaa in Christo na- 
tios que se tinhao rebellado, e ainda que se Ihe soieitarao lojro *^™ «* commovet 

^ T o populum contra Im- 

muitos, ficou a invernar perto delles em huma torra que se chama peratorem et Ccla 
Achafer, pera deixar melhor as cousas assentadas. Entretanto 



^ 



38o HISTORIA DE ETHIOPIA 

persuadirao ao Patriarca que pusesse excomunhao contra todos 
os que dissesem que em Christo estavao duas naturezas, e sem fazer 
conta nenhuma do Emperador, a pos, pera que tinha de sua parte 
muitos homens grandes e entre elles hum irmao do Emperador, 
que se chama Jemana Christos, que entao era muito poderoso, porque 
o tinhao feito Eraz, e assi dependiao todos tanto delle que nao se 
atreviao ao encontrar em cousa nenhuma e muito menos no que 
elle dizia que em Christo estava s6 huma natureza, porque elles 
tambem o tinhao por fe verdadeira. Sabendo isto o Emperador, o 
sentio muito e escreveo logo ao Patriarca como fizera aquillo, tendo 
primeiro declarado diante delle com tantos frades e letrados que 
em Christo avia duas naturezas e posto elle mesmo excomunhao 
contra quem dissesse que s6 huma? que se achara alguma cousa de 
novo, o ouvera de avisar, pera que iuntando outra vez os frades e 
letrados se examinasse, antes de desfazer o que com tanto con- 
selho tinhao declarado. Respondeo o Patriarca que atentasse muito 
bem pollas cousas dos Padres dos Portugueses, porque erao como 
os que em copo de ouro dam a beber aguguar misturado com mor- 
tifera pegonha. Tornoulhe a escrever o Emperador que nao Ihe per- 
guntava por isso, se nao que como mandara sem conselho o que 
com tanto tinhao assentado ; quc respondesse ao ponto, pois era de 
tanta importancia, porque as cousas da fe nao se mudavao daquella 
maneira. *Mas nao quis responder, nem desistir do que fazia iunta- f. i6o. 
mente com alguns frades e homens grandes seculares, que era com 
palavras de grande encarecimento procurarem amotinar contra o 
Emperador e Cela Christ6s seu irmao os que achavao presentes e 
com cartas aos ausentes, dizendo que deixavao sua fe antigua e to- 
mavao a dos Portugueses. 
7. Prorex Tigren- Entre outros a quem escreverao foj ao Viso Rei de Tigre, e 

ris *^^radcHter*"^ ^^^ ^^^ genrro do Emperador Ihe fizerao aquellas cousas tanto 

cum catholicis ipsas- abalo, que se pos logo de sua parte e com grande ira determinou 

que LfUsitanoram u- 

zores bonis omnibus ^^ ^^^ perseguir, por entender que tudo procedia de nos; e assim 

spoliat. impcrator mandou que tomassem as fazendas a todos os que tivessem entrado 

ccrtior factus de his ^ 

ab Auctore, irascitur em nossa fe, n^o so em nosso tempo,. mas no dos Padres antigos, 
co^eddi*omnia:proI ^^^ deixar nem o fato das molheres que estavao casadas com Por- 
mittit se suumque tugueses, amea^ando sobre isso, que, se nao tornassem a sua fe, 

imperium fidem ca-. 

tholicam amplexu- Ihes avia de cortar as orelhas e narizes; e pera mais nos molestar, 
'^™' encomendou a execu^ao disto a huns homens muito nossos con- 

trarios, que vendo tam boa occasiao, se aproveitarao della, pera 



LIVRO II, CAPITULO IV. 38 1 

mostrar o odio grande que nos tinhao e fizerao muitas crueldades 
no tomar do fato ate deixarem nuas molheres honrradas, pagan- 
donos com isto muitos bens que sempre Ihes fizemos, acodindolhes 
com muita charidade e nao pouco trabalho em suas necessidades 
e tribula^Oes. Mas os nossos sofrerao todos estes roubos e inhu- 
manidades com grande paciencia e alegria determinados de ofFe- 
recer ao cutello nao somente as orelhas e narizes, com que o Viso 
Rei Ihes queria fazer medo, mas ainda os pesco^os, antes que fal- 
tar hum ponto na fe daquelle Senhor em que tinhao postas suas 
esperan^as. 
f.i6o,v. Todas estas cousas me escreveo logo hum Padre que *estava 

em Tigre, e foj en coniun^ao que o Emperador me tinha mandado 
dizer que como o invemo desse de sy (que entao estava mui fe- 
chado), fosse ter com elle. Pello que, ainda que chovia muito, parti 
sem esperar mais tempo, e chegando me recebeo com grande ale- 
gria, porque deseiava minha ida, ainda que me nao obrigava por 
rezao do inverno , e contoume o que escrevera ao Patriarca e o que 
elle respondera. 

Referilhe eu tambem o que passava em Tigre, e disse quam 
mal pagava o Viso Rei aos Portugueses o que seus paes tinhao 
feito em Ethiopia, pois ainda o fato de suas molheres, que fossem 
da terra, mandava tomar. Ouvio elle isto com tam grandes mostras 
de sentimento que se Ihe arrosavao os olhos com lagrimas, e disse: 
Bem sei donde procedem todas estas cousas e quem escreve ao 
Viso Rei pera nos emburulhar, como tem por custume. Contra o 
emperador Za Denguil meu irmao (que assim o chama, ainda que 
era so primo) amotinarao o povo dizendo que deixara sua fe e to- 
mara a dos Portugueses, e assim o matarao. Isto mesmo me que- 
rem fazer a mym. Se Deos Ihe tem dado licen^a, cumprasse sua 
santa vontade, e se nao, nenhuma cousa me podem fazer. Quanto 
ao Viso Rey, eu Ihe mandarei que se nao meta mais nas cousas 
da fe e que torne logo o fato que tomou, porque se nao, ha de ter 
depois muita paixao, e certo que ma deu agora muito grande em 
se aver desta maneira com os Portugueses. Beizeilhe a mao poUa 
merce, e disselhe que seus imigos nao aviao de prevalecer, porque 
bem tinha Nosso Senhor mostrado, que o escolhera pera cousa de 
tam grande servi^o seu, como era a redu^ao deste imperio, pois 
f. 161. com tam pouco trabalho seu Ihe dera nas maos treze *que emdif- 
ferentes partes atc entao se tinhao alevantado com muita for^a, 



i 

t 



3^2 HISTORIA DE ETHIOPIA 

pretendendo cada hum o imperio e victoria de outros muitos ini- 
migos, e que tivesse por certo que Deos Ihe avia de aiudar em 
cousa tam alta e que por ella o avia de prosperar e perpetuar em 
seus descendentes o imperio. E conteilhe donde procedera sairem 
todos os Reis da casa de Austria ; mas que as cousas do servi^o de 
Deos sempre tinhao difficultades e contradi^oes no principio, e que 
a esta que elle tinha come^ada avia de trazer o Demonio muitas, 
porque via o mal grande que della se Ihe seguia ; mas que nSo ti- 
vesse paixao que Deos as venceria todas e alevantaria a verdade 
honrrando iuntamente a quem a defendia. 

Ao que respondeo que, depois que a acabara de entender, fi- 

cara muito quieto em seu cora^ao e resoluto de a defender, e que 

por mais adversas que sucedessem as cousas, avia de trabalhar ate 

morrer por introduzir em seu imperio a santa fe de Roma. Mandou 

logo escrever ao Viso Rei de Tigre, que se maravilhava muito de 

que, sabendo que os Padres e Portugueses erao seus amigos de co- 

ra^ao, os tratasse daquella maneira; que nao se metesse mais nas 

cousas da fe e que tornasse logo todo o fato que tivesse tomado. 

E pera que nao andasse com dilagftes, mandou a carta por hum 

seu pagem. Mas nem por isso Ihe faltarao escusas pera o nao tornar. 

8. Concionem so- Outro dia, nao estando eu presente, disserao alguns nossos ami- 

Htterasmater^^urct ^^^ ^^ Emperador, que avia muitas murmura^Oes no arrayal. por- 

frateretprimoresre- que favorecia tanto as cousas da fe dos Portugueses e que muitos 

gni eum a proposito . ,, x^ n t^ . . 

deterreri conantur; estavao como amotinados contra elle. Respondeo: Pouco vaj nisso, 
Ceia Chri8t6s gravi porque quanto elles podem fazer, nao pode passar da morte. Esta 

morbo cornpitur, at '^ ^ ^ '^ ^ r r 

Deo favente conva- n^o nos he possivel fugir, pois a menhaa ou outro dia forQada- 

lescit. 

mente nos ha de chegar a todos ; por onde, se for necessario, mor- 
ramos logo poUa verdade. E virandose pera hum clerigo, que en- 
tendia bem nosscis cousas e ia se confessava com nosco, Ihe disse: 
*Porque nao falais livremente o que sabeis? Tendes medo? Sy, f.it>i,v 
Senhor, respondeo elle ; arreceo esta gente que he trabalhosa. Disse 
o Emperador : Nao tenhais medo ; falai publicamente : quem quiser 
se aproveitara, e quem nao, sua sera a culpa; nao fique por vos. 
Vendo o Emperador que o Patriarca nao Ihe respondia, Ihe 
tornou a escrever que no fim do inverno fosse ter com elle, e man- 
dou que todos os Superiores de mosteiros e os letrados do reino 
de Gojam, de Begmederi, de Dambea, que erao vizinhos, fossem 
tambem naquelle tempo, pera que se acabassem de determinar as 
cousas da fe. Com isto se come^ou a alvoro^ar mais a gente po- 



LIVRO II, CAPITQLO IV. 383 

pular, e diziao que ia que o Emperador nSlo queria estar pollo que 
ordenava o Patriarca, que se unissem todos e dissesem como pri- 
meiro, que em Christo estava huma so natureza e morressem por isso. 
Tambem diziSo que alguns frades mancebos tomavao espada e 
rodella e esgrimiao dizendo que morreriao por sua fe antigua. Sa- 

^ bendo isto Jemana Christos irmao do Emperador, que estava no 

reyno de Begmederi, Ihe escreveo persuadindolhe com muitas rezOes 
que nSo fosse avante com as couscis da fe, senSo que mandasse quc 
todos seguissem a doutrina do Patriarca, se nao, que avia de per- 
der seu imperio. E na mesma forma Ihe escreveo sua maj, que 
estava em outra parte, porque os frades Ihe meterao em cabega que 
elle e seu irmao Cela Christos aviao de morrer, se instassem em 
querer introduzir a fe dos Portugueses. 

Sentio muito o Emperador que Ihe escrevessem desta maneira, 
e tendo na mao a carta de seu irmao disse diante de mim mui en- 
fadado que logo sem esperar mais avia de concluir o que tinha co- 
f. 162. me^ado e mandou *chamar a Cela Christos, que estava perto no 
reino de Gojam e assim apressou sua vinda, trazendo comsigo os 
principaes frades daquelle reino, com determina^ao de morrerem 
todos por nossa santa fe; com o que se alegrou muito o Empera- 

|b dor e, tomando conselho com elles do que aviao de fazer, Ihe dis- 

serao que se mostrasse como indifFerente por ambas as partes, af- 
firmando que nao pretendia mais, senao que se declarasse a verdade 
pera fazer que todos a seguissem e que a elles, que erao letrados, 
pertencia declarala; e entao elles mostrariao claramente com as 
Escrituras como em Christo estao duas naturezas E saindo do pa<;:o, 
se iuntarao todos em casa do primo do Emperador Abeit Hum Bela 
Christos e me mandarao chamar e propuserao as autoridades e re- 
zOes que traziao por sy os contrarios, que erao ridicolas, e escre- 
verao a reposta e as autoridades da Escritura e rezois que Ihes 
apontei pera confirmar nossas cousas. 

Poucos dias depois adoeceo Cela Christos de hum prioris muito 
forte, o que sentio na alma o Emperador e todos nossos amigos, 
por ser pessoa de tanta importancia, e se morrera, aviao de dizer 
os frades que por defender nossa fe Deos o matara. Sangrouse logo 

\ 4 vezes e tomou algumas mezinhas, mas com tudo isso o 7° dia a 

nojte se achou tam fraco e pertado da doen^a que Ihe parecco que 

r morria; pello que mandou sair todos: ficando eu s6 com elle (que 

de ordinario o acompanhava), me disse: Eu veio que vou aca- 



i 



384 HISTORIA DE ETHIOPIA 

bando. Certo que nSo me pesa de morrer, mas sinto muito fica- 
rem as cousas da fe desta maneira; se se concluirao e o seguinte 
dia eu acabara, fora muito consolado. Agora hao de di/.er os fra- 
des, que porque nao quis desistir destas cousas, como elles me pe- 
diao, me matarSo com suas ora^oes, que publicamente as fazem al- 
guns mosteiros e tomao as pedras de ara nas cabe^as pedindo a 
nosso Senhor que me tire isto do corac^^ao ou que me mate. E di- 
zem *que assim o fizerao em tempo do emperador Za Dengnil e que f.i62,v. 
Deos os ouvira e o matara. Confesseme V. R. e fagasse sua santa 
vontade. Respondi que tinha muito grande confian^a na divina miseri- 
cordia que Ihe avia de dar saude, mas que bem era confessarse ; e in- 
struio no modo com que se avia de aparelhar, por que nao me parecia 
que estava tanto no cabo, como elle cuidava. E assim foj ; porque ou- 
tro dia se achou melhor, pollo que me disse que ia que Nosso Senhor 
Ihe fazia merce de o aliviar, defiriria a confissao pera quando a pudese 
fazer com mais aparelho e quieta^ao, como fes depois. Soube logo sua 
maj que adoecera e teve grande sentimento, porque o amava muito 
como menor de seus filhos e merecelo elle por suas excelentes partes 
e acabou de dar credito ao que os frades Ihe diziao que Deos o avia 
de castigar por defender a fe dos Portugueses, e assim le escreveo 
que ia achara o que tanto ella arreceava, que pedisse a Deos perdao 
do passado e proposesse enmenda, e como teve novas que estava 
melhor, Ihe tornou a escrever exhortandoo com muitas palavrsis a 
que deixasse de defender as cousas dos Portugueses e seguisse a 
doutrina do Patriarca, ia que Deos Ihe dera saude, porque Ihe nao 
viesse outro maior cctstigo ; o que elle me referio zombando de 
como os frades Ihe metiao na cabe^a tam facilmente quanto queriao. 
g. Abunaconvoca- Como se chegou o tempo que o Emperador tinha senalado pera 

tis muitts monac is iuntassem os letrados, veio o Patriarca com muitos frades. 

coram Imperatore ^ ' 

defendit crrorem Juntaraose tambem muitos superiores de mosteiros e traziao com- 

Dioscori, non qui- . ^ ^ , . ^ • 1 « 

dem rationibus, sed sigo tantos companheiros que nao se via no arraial se nao esqua- 
clamoribus et minis. d^^es de frades. Vierao tambem muitas freiras que qua andao por 

onde querem, e assim ellas como muitos dos frades diziao a todos 
que vinhao a morrer por sua *fe antigua, ia que a queriao trocar, f. 163. 
e nao fes isto tao pouco abalo na gente ignorante, que nao viessem a 
cstar cm grande perigo os que defendiao nossas partes, e a mim me 
avisarao que me guardasse, porque me aviao de matar, e alguns me 
a conselhavao que me fosse do arrajal ; o que deixei de fazer por mui- 
tas rezOes e principalmente porque era necessario animar alguns dos 



1 



LIVRO II, CAPITULO IV. 385 

que esUvao da nossa parte e mostrarlhes as autoridades da Escritura 
e dos Santos, com que se prova a verdade, e soltar os argumentos 
dos contrarios. E chegou a tanto o atrevimento de alguns frades que 
se consertarao secretamente pera matar ao Emperador e Cela Chri- 
stos seu irmao a primeira vez que saissem iuntos a cavalo, e depois 
fazerem sua vontade nas cousas da fe e em tudo o mais ; do que teve 
noticia o Emperador e assi dissimuladamente pos remedio espa- 
Ihandoos. 

Estando ia iuntos todos os frades e letrados pedirao ao Em- 
perador Ihe sinalasse o dia em que se aviao de comegar as dispu- 
tas, e elle ordenou que fosse aos 29 de setembro de 16 13, dia do 
glorioso Archanjo sam Mignel ; e indo naquelle dia o Patriarca 
com todos os mais diante do Empersidor, disse elle, antes que se 
propusesse nada, que estava mui queixoso do Patriarca, porque, 
tendo primeiro declarado com os letrados que a verdadeira fe era 
estarem em Christo duas naturezas, divina e humana, unidas na pes- 
soa divina, e posto excomunhao contra quem dissese outra cousa, 
pello que elle mandara dar pregao que assim o praticassem todos, 
sem ninguem dali por diante ensinar o contrario, depois tornara a 
publicar que em Christo nao avia mais que huma s6 natureza, sem 
esperar que elle viesse da guerra, nem Ihe mandar dizer nada, nem 
iuntar os letrados que primeiro estavao presentes. Respondeo o 
Patriarca, que elle nunca dissera que em Christo avia duas natu- 
rezas senao huma. Ficou o Emperador maravilhado e disse que 
como afiirmava tal cousa, pois diante delle e de tantos letrados o 
dissera e assentara com excomunhao [?] ; pello que nao podia escu- 
f.i63,v. sarse *que fora falto de lingoa, senao que ali estavao quasi todos 
que testemunhassem. Respondeo o Patriarca que nao podiao teste- 
munhar contra elle, porque todos erao seus contrarios. Disse o Em- 
perador : Nao he rezao que minha verdade fique desta maneira : iul- 
gem se basta o que diz pera que nao testemunhem. E sinalando 
juizes julgarao que pois, sendo Patriarca e paj de todos, affirmava 
que aquelles erao seus contrarios, isso bastava pcra serem dados 
por sospeitos. Pollo que o Emperador se calou ; mas nem por isso 
deixou de ficar bem desacreditado o Patriarca. Levantoase logo Cela 
Christos e pedio iustiga contra hum letrado secular, porque, affir- 
mando primeiro que em Christo estavao duas naturezas e falando 
elle com os mais letrados que se pusesse excomunhao duas vezes 
contra quem dissesse o contrario, tornava a affirmar que nao avia 

C. BiccARl. Rtr, Aeik, Seripi, occ, ined, — II. 49 



386 HISTORIA DE ETHIOPIA 

mais que huma. Respondeo elle, que nao avia tal cousa, porque 
sempre tivera que em Christo esta huma s6 naturezd. Mas logo foj 
ganhado e convencido com muitas testemunhas ; pello que o Em- 
perador o mandou levar prezo ; o que sentirao muito os contrarios 
que tinhao nelle grande aiuda, nSo tanto por rezao de suas letras, 
quanto por abundancia de suas palavras, porque era muito falador; 
mas depois o soltarao, porque diziao que de proposito Ihes tiravao 
o principal que tinhao de sua parte pera que nao pudessem provar 
a verdade. Mas daqui se seguio verem todos claramente como o 
Patriarca negara o que primeiro tinha affirmado. 

Nestas e outras porfias gastarao todo aquelle dia, sem fazer mais 
que propor a questao ; e no seguintc provarao claramente Cela Chri- 
st6s e os demais que estavao da sua banda, que em Christo N. S."' 
estao duas naturezas com seus mesmos livros, com s. Paulo e com 
o Evangelho. E vendose os contrarios convencidos, disserao que 
nao aviao de responder, ncm ouvir suas cousas, senao o que Ihes 
ensinara seu mestre Dioscoro, que em Christo esta huma s6 natu- 
reza e que isto tinhao guardado-em Ethiopia todos os antepassa- 
dos; que tambem o fisesse guardar o Empcrador *e nao Ihe vies- i 
sem com fe nova. Disse Ccla Christosr Logo nao quereis rezao, 
senao for^a. Nao ha de ser desta maneira: aveis de ouvir e re- 
sponder. NSi) podemos, disserao elles, porque temos excomunhao 
de Dioscoro que nao ougamos as cousas de LeSo. Respondeo Cela 
Christos: Que aproveita essa excomunhao contra o que nos ensina o 
Evangelho[?]. Vos outrose nos temos excomunhao de s. Paulo, pera 
que nao admittamos cousa em contrario do que elle ensinou, ainda 
que hum anio o viesse a dizer. Julgem por quai excomunhao de- 
vemos estar: polla de sam Paulo ou poUa de Dioscoro? Disserao 
os juizes que pella dc sam Paulo: que vissem bem o que elle en- 
sinava e isso guardassem. Responderao os contrarios gritando que 
a doutrina de Dioscoro nao era contraria a de s. Paulo, que nao 
se aviao de por a disputar sobre isso, pois elle Ihes mandara que 
o nao fizessem. Que julgasse o Emperador. 

Mandou elle entao calar a todos e disse: As cousas da fe nao 
se determinao com gritas, nem as duvidas so podem resolver senao 
perguntando e respondendo. Os que tiveram difficultades as pro- 
ponhao e os outros respondao, pera quo se declaro a verdade, que 
isto he o que prctendemos. Sairao logo todos, porque era ia tarde 
e diziao publicamente que Ihes queriao fazer trocar sua fe e darlhes 



f 



LIVRO II, CAPITULO IV. 387 

dous Deoses, e que o Emperador era Portugues perfeito, com outras 
muitas cousas, em que mostravao bem sua soberba e pertinacia. 
Ate os mesmos criados do Emperador diziao que nSo queria iu- 
sti^a senao de toda a maneira defender as cousas dos Portugue- 
ses; com o que cada hora hia creccndo mais o motim. 

Vondo o Patriarca que a principal for^a dos que diziao que em 10. Abuna ad pc- 
Christo N. S."^ estao duas naturezas era o irmao do Emperador, provolutuseummul- 
determinou buscar os meios possiveis pera o afastar dclles, c mcteo **» Togat ne a fidc 

patrum sinat Aethio- 

algumas pcssoas grandes que Ihe persuadissem quisesse desistir, e piam dcsciscere ; re- 

f.i64,v. depois foj elle mesmo a sua *casa e botandose a seus pes Ihe pedio dc^^^duplici^^natuni 

com muita instancia deixasse de porfiar naquellas cousas e se lan- Christi cssc fldem 

maiorum clare de- 

gasse de fora. Felo elle alevantar e disse que, se Ihe tivera morto mostrari cx Evan- 

algum irmao ou feito iniurias muito graves, deixara logo tudo por ^^^^J concihis et 

sua intercessao, mas que as cousas da fe nao se podiao deixar por 

rogos Que nao Ihe falasse naquillo. Disse o Patriarca que aten- 

tasse quantos Emperadores e letrados grandes ouve em Ethiopia 

que forao por este caminho; que nao quissese elle ir por outro e 

deixar de sy tal nome que fizera trocar a fe antigua; que dese- 

stisse e que publicaria que sabia mais que elle e com suas rez5es 

o concluira. 

Respondeo Cela Christos, que elle nao buscava honrras nem 
trocava a fe antigua, antes a defendia, como o tinha mostrado no 
Evangelho, em sam Paulo e nos mesmos livros que Ihes vierao de 
Alexandria; que nao Ihe alegava com os de Roma. Disse o Pa- 
triarca : Quem sabe se estes livros, que vierao de Alexandria, os fez 
algum herege[?]. Nao quero mais de que nds deixe entre nos, sem 
aiudar a huns nem a outros. Nestas porfias esteve de polla menhaa 
ate meio dia, que Cela Christos Ihe disse que nao cansasse mais, 
porque ate morrer avia de defender que em Christo estao duas na- 
turezas, pois esta era a verdadeira fe. Saio com isto mui enfadado 
o Patriarca e, iuntando seus frades, determinarao de nao ouvirem 
senao gritar que fosse como primeiro, e a isto incitavao tambem 
aos seculares. 

O outro dia poUa menhaa me mandou chamar Cela Christos e „. cela Christ^s 
me contou o que passara com o Patriarca, e disse que estava muito ®* ipscmct J™P^*" 
triste, porque nao queriao ouvir rezao nem ver seiis mesmos livros, Abunacumsuis mo- 

, ^. ^ .11 nachis instaurat di- 

senao levar as cousas por motim ; e que ate seus criados se levan- spuutiones; victus 
tavam contra elle, de maneira que arreseava o matassem de noyte, auctoritatibus non 

dat maniis, sed m- 

6 que soubesse de certo que o Emperador e elle nao estavao hum sutproservandatra- 



388 HISTORIA DE ETHIOPIA 

ditione maionim. passo da morte. Pollo que era necessario fazer muita ora^ao e con- 
omnes sequantur fi- siderar bem que conselho toma*riao. Vendo eu tambem que as cou- f. 165. 
dem in libris ezpo- sa,s se hiao armando pera mal, Ihe disse que nSo me parecia que 

sitam. 

convinha levar aquillo por for^a, pois o Emperador por entam a 
nao tinha, senao que trabalhasem o possivel com bom modo pera que 
ouvissem as rezC^es e vissem os livros, que com isso mais suave- 
mente se renderiao, mas que, se ultimamente Ihes parecesse que nao 
podiao sair com o que pretendiao, que o Emperador dessc de suio 
pera que ficasse em aberto sem se determinar huma cousa nem 
outra, dizendo que isto era ponto de grande importancia e que pedia 
muito exame e considera^ao antes de se resolver; que ia que avia 
tam varios pareceres, tornassem todos a ver os livros devagar, pera 
que depois pudessem determinar melhor qual das duas cousas era 
verdadeira; que como passasse aquella furia, logo se esfriariao e 
poderiao ir persuadindo a verdade aos principaes, ou dilatariao isto 
ate que o Emperador tivesse forga bastante. Respondeo elle que 
assim o fariao, mas que nao cessassem dc rogar a Nosso Senhor 
os aiudasse o que continuamente eu fazia e escrevia aos demais 
Padres fizessem o mesmo, que cada dia aiuntavao nas igreias os Por- 
tugueses e meninos dos seminarios e diziao ladainhas por esta in- 
ten^ao. 

Como o Patriarca teve instruido seus frades no que aviao de 
fazer, foj com elles ao pa^o e pedio ao Emperador mandasse iuntar 
os demais pera que acabassem de tomar resolu^ao no come^ado; 
o que elle fes, e em vespora do glorioso s. Francisco, a quem eu 
pedi com muita instancia aquelle dia e o siguinte, que estiverao 
debatendo, alquan^asse do Senhor tivesse[m] bom fim nossas cousas; 
e tornando a provar Cela Christos e os dc sua parte que em Chri- 
sto N. S.*"^ estao duas natureza^ com s. Chrysostomo, Basilio, Atha- 
nasio e com outros muitos Santos antiguos, que elles tambem 
tem em seus livros, responderao os outros que nao aviao de ad- 
mittir estes Santos; e depois de m.uitas porfias disse Cela Chri- 
stos: « Pois respondeime ao que dis o sagrado Evangelho, *ia que f.i65,v. 
« nao dais credito aos Santos. Quando Christo N. S.""^ no horto 
« rogou com tam grandes angustias que passasse delle aquelle ca- 
« lis, quando suou sangue, padeceo e morreo, quando disse na crus: 
« Deos meu, porque me desemparastes, [?J e depois a seus dicipolos : 
« Vou a meu Padre e a vosso Padre, a meu Deos e a vosso Deos, 
< como disse e padeceo todas estas cousas? em quanto homem ou 



» 



LIVRO II, CAPITULO IV. 389 

« em quanto Deos? » Responderao que em quanto homem. < Logo 
tem natureza humana, disse elle, nem a natureza divina se afastou 
nunca della, depois que a unio a sy *. Concederao tudo. « Logo em 
Christo estao duas naturezas, divina e humana » , inferio elle. Respon- 
derao que nao, porque depois que se unirao nao se pode dizer que 
duas senao huma. « Vos outros, disse Cela Christ6s, affirmais duas 
« cousas contrarias, que em Christo esta a natureza divina e humana, 
« sem se trocar nem misturar, e que nao esta mais que huma natu- 
« reza. Se quereis dizer qtie ha hum so Christo, eu tambem digo isso, 
« porque nao tem mais que huma pessoa, mas nelle estao duas per- 
« feitissimas naturezas ». 

Nestas porfias estiverao muito tempo, e vendose ultimamente 
convencidos o Patriarca e os seus, e que nao podiao responder, se 
botarao aos pes do Emperador gritando que fosse como primeiro, 
que nao Ihes trocasse sua fe antigua, guardada e defendida por 
tantos Emperadores. Vendo o Emperador que nao queriao lcvar 
a cousa por rezao, senao por motim, nao se atreveio a dizer cla- 
ramente que assentassem em duas naturezas, senao que dessem 
pregao que ia virao os livros, que todos guardassem o que nel- 
les estava. Responderao Cela Chnstos e os seus : « Isso he, Se- 
nhor, o que pretendemos, que guardem o que esta nos livros, por- 
que nao ensinao outra cousa (como temos mostrado) senao que em 
Christo N. S. estao duas perfeitissimas naturezas, divina e humana ». 
f. 166. Deuse *o pregao como mandou o Emperador, mas gritou hum 

frade que ali estava, que queria dizer como antes, pello que mui- 
tos affirmarao depois que assim como antes tinhao que em Christo 
esta huma so natureza, assim aviao de ter. Mas o Patriarca e os 
que estavao de sua parte nas disputas bem entenderao o que queria 
dizer, e assi sairao mui enfadados, posto que o disimulavao quanto 
podiao, publicando que se avia de ter como antes que em Christo esta 
so huma natureza, ainda que nao faltarao entre elles alguns que 
entendessem muito bem a verdade que em Christo estao duas na- 
turezas, e posto que, por vergonha do que ia tinhao dito, nao se 
atreviao a o confessar, depois o affirmarao publicamente. 

O domingo siguinte mandou chamar o Emperador hum frade e xa. SeltAn Sag&d 
hum senhor grande cabo<;as dos que defendiao que em Christo N. S.**' gujt quemdam mo- 
estava huma so natureza e sos os fes falar diante delle com Cela Chri- ^«^^^m asaerentem 

unam esse in Chn- 

stos seu irmao muito grande espa^o e apertouos de maneira que sto naturam. Mona- 

r - r j 1 '^ 1- j n ii_ chi incolentes insu- 

lorao for^ados a conceder cousas muito absurdas; pello que Ihes ^^^^ g^ respuunt 



390 HISTORIA DE ETHIOPIA 

donarialxnperatoris: disse o Emperador: Eis aqui a lei que tendes, que pera a defen- 
scitur, sed rogatus a ^^r aveis de admitir cousas tam falsas. Quis o frade dar rezao ao 
matre gravcm iniu- TTniperador, mas no fim da pratica Ihe infirio do que dizia, que 

morrera a divindade. Respondeo o frade que assim era. Ouvindo 
isto o Emperador, se enfadou tanto, que com ser homem muito 
grave e mesurado no falar, disse em alta voz : « Como se pode so- 
fror isto[?]; se morreo a divindade em Christo, morreo tambem o 
Padre e o Spirito Santo. Como pode morrer a divindade ? » E ale- 
vantouse mostrando muita paixSlo e foyse p^ra outro aposento; pello 
que elles se sairao, sem se atraverem a responder palavra. 

Pouco tempo depoes tornou o Emperador a sua corte de Dambea, 
deixando concertadas as cousas daquellas terras que estavao ale- 
vantadas e chegando a somana santa mandou muitas tochas e in- 
censo as igreias, *como sempre naquelle tempo custuma, e parti- f.i66,v. 
cularmente ao mosteiro grande, que esta em huma ilha da alagoa 
de Dambia, a que chamao Sana, e chcgando o que as levava, que 
era homem grande, sairao sinco frades e Ihe disserao que nao se 
acendiao em sua igreia tochas de quem dizia que em Christo esta- 
vao duas naturezas, e nao as quiserao receber, por mais que im- 
portunou, dizendolhes que era materia de grande escandalo, e que 
o Emperador nao avia de deixar passar aquillo sem castigo. E nem 
a elle deixarao confessar e comungar naquella igreia, porque tam- 
bem dizia que em Christo estao duas naturezas. Vendo elle que 
nao aproveitavao nada seus rogos nem amea^as, se tornou e referio 
ao Emperador tudo o que passara , o que elle sentio muito e mandou 
que Ihe trouxessem logo aquelles frades e segundo estava cuidavao 
que em chegando os avia de mandar matar, ou dar algum outro 
grave castigo. Vierao elles e ficando fora do pacjo, mandou o Em- 
perador chamar muitos frades e homens grandes da corte e disse 
que iulgassem o que mereciao aquelles frades pollo agravo e des- 
honrra que Ihe fizerao. Que se algum mouro ou gentio Ihes mandara 
cera pera a igreia, a ouverao de toniar, e a sua engeitarao com pa- 
lavras de grande soberba e desprezo. Disserao todos hum e hum: 
Vossa Magestade fes iuntar no fim do inverno os principaes letrados 
de Ethiopia e depois de tantas porfias como tiverao mandou dar 
pregao que todos dissessem, como primeiro tinha declarado, que em 
Christo estao duas naturezas (que ainda que o pregao foj na forma 
que assima disse, bem entenderSo o que significava). Nao somente 
forao contra este mandamento, mas fizerao grande desacato e iniuria 



i 



LIVRO 11, CAPITULO IV. 39 1 

ao Emperador, poUo que mereciao morte ; mas visto serem homens 
[f. 167. ignorante[s] e de pouco *entendimento, parece que era bem usar 
o Emperador com elles de sua acustumada clemencia. Intercedeo 
tambem por elles sua maj e aiudarao outras senhoras grandes, que 
de proposito se tinhao ali aiuntado dissimuladamente pera este ef- 
feito; e assim o Emperador Ihes perdoou. 

Bem temos mostrado com quanta pertinacia defendem os mais 
dos Ethiopes que em Christo N. S.°^ esta huma so natureza, mas 
porque ainda manifestarao muito mais de pois de tudo isto quam 
arraigada tem esta heregia em seus cora^oes no que fizerao contra 
o Emperador e Cela Christos seu irmao, o refirirei no capitulo 
seguinte. 



CAPITULO V. 

De como os Ethiopes determinarao de matar ao empe- 
rador 9^^^^^ Sagued e a Celd Christ6s seu irmao, 
por dizerem que em Christo N. S. estao duas na- 
turezas. 



Vendo o Patriarca e os mais que erao da sua parte que o Eni- x. Monachi, duce 

j -. /-• 1 ' r»u w •* » •^jj»i.'i Abuna cum lemana 

perador e Cela Chnstos seu irmao nao aviao de desistir do come- christds fratre ct lu- 
<;ado, senSo procurarem, por todas as vias que pudessem, acabar que ^**? ^S^ ^^^^ impera- 
nao se falasse que em Christo N. S.°' esta huma s6 natureza senao Christds intcrficicn- 
duas, se determinarao de os matar e fazer outro Emperador tal que ^ssecretoconiurant. 
nao deixasse por mais em questao as cousas da fe, senao que cor- 
ressem como antes, e pera melhor poderem effeituar seu intento, 
escolherao por cabegas de sua coniura^ao, nao homens que por al- 
guma via pudessem aligar agravos do Emperador, senao a hum seu 
irmao que se chama Jemana Christos, a quem o Emperador tinha 
dado o supremo mando depois de si do imperio fazendoo Eras, como 
ia dissemos, e a outro dos mais famosos capitaes e demais gente 
que avia em Ethiopia chamado Julios, homem mui arrogante e so- 
berbo e muito mais desagradecido pera com o Emperador, porque 
tendoo criado de minino e alevantado, tanto que Ihe deu por molher 
f. 67,v. sua propria filha e grandes terras e riquezas *e o amava de maneira 
que continuamente escusava suas cousas e dava por sospeitos aos 
que Ihe faziao queixumc delle, e quasi nunca deixava de Ihe con- 
ceder quanto Ihe pedia e era tam apaixonado por elle e fazialhe 
tantas honrras que diziao todos que Ihe nao faltava mais que a coroa 

C. Beccari. Rer, Aeih. Scripi, occ, %H€d* — II. 50 



394 HISTORIA DE ETHIOPIA 

emperial; e em pago de tudo isso Ihe tinha tam grande odio no 
cora^ao que elle era o principal dos que Ihe deseiavao e procu- 
ravSo a morte, mostrandose mui zeloso de sua enganosa e falsa fe. 
Nem o irmao do Emperador aiudava a isto por pretender o 
imperio, porque bem sabia que Ihe nao partencia, nem Iho aviao 
de dar, porque nao he filho do paj do Emperador, senSo de sua 
mai ; mas parecialhe que facia grande sacrificio a N. S."' em aiu- 
dar a matar seus irmaos, ia que deixavao a fe que elle tinha por 
verdadeira, e porque entendiSo muito bem os coniurados o que 
tinhao no cora^ao estes dous senhores, nSo tiverao arreceo de os 
tomar cabe^as pera o que pretendiao, mas em segredo e de ma- 
neira que, ainda que o Emperador sabia que elies tinhao pera sy 
que em Christo N, S."' esta huma s6 natureza, nao imaginava que 
pudesse chegar a tanto sua maldade que Ihe procurassem a morte, 
nem se unissem daquella maneira com seus contrarios, 

Com o mesmo segredo forao amotinando contra o Emperador 

cB^liciafavni^Co^ quasi toda a gente da corte, e vendo o Patriarca que tinha tantos 

niurati ad auiam se pQj. ^y ^ f^y j, huma igreia, que esta dentro da primeira cerca do 

clancuJum inatni- pai;o, e sem fazer caso do Emperador, pos e.tcomunhao contra os 

•rrofTante^"™^ ^^^ dissessem que em Christo estao duas naturezas e contra os 

scunt pubiicam fidel criados que servissem ou obedecessem aos tais em alguma cousa, 

auae dedaratioiiem. , , . ,, . 

SeltAn SagAd. ambi- senao que logo os deixassem e as molheres se atastassem de seus 

gae reapondet. maridos. Ouvindo isto o Emperador e entendendo (como elle mesmo 

me disse depois) que pretendia que sua gente Ihe nao obedecesse, se 

enfadou muito e Ihe mandou dizer como fazia huma cousa tam 

grave[?]; *quealevantasselogoaquellaexcomunhao.queagenteigno- f. i68. 

rante cuidava que os obrigava, se nao, que atentasse por sua cabeija. 

Teve elle medo disto e publicou que alevantava a excomunhao, mas 

mandou dizer ao Emperador que ttnha que falar sobre cousas da fe. 

Respondeo elle que quando quisesse o podia fazer. E assim o outro 

dia pella menhaa convocou os seus e, entrando dentro da primeira 

cerca do pa<;o, se assentou em sua cadeira de baixo de huma arvore. 

Logo se encheo de gente o terreiro com ser grande, e todos dis- 

simuladamente traziao suas armas e, como estiverao iuntos, mandou 

dizer ao Emperador que a palavra com que declaravao « natureza » 

queria dizer tpessoa», pello que nao podiao dJzer que estao duas em 

Christo senao huma. Isto nao era mais quo buscar dondc pegar 

pera matar ao Emperador, ou quando menos deixalo e sairemse 

logo todos da corte e levantar outro, como ia come^avao alguns 



LIVRO ir, CAPITULO V. 395 

a dizer, porque a palavra de que usdo, que he Bahari, nao quer dizer 
« pessoa > senao « natureza » , e Acab « pessoa » . 

Estava entao com o Emperador Cela Christos seu irmao e, ou- 
vindo o recado, disse : Senhor, estes se iuntarao aqui com soberba, 
parecendolhes que tem for^a pera acabar o que pretendem. Deme 
Vossa Magestade licen^a que eu irei e matarei com minha espada 
tres ou quatro dos que sao cabe^as deste motim, e vera como nin- 
gnem se atreve a falar mais. Disse o Emperador que nao convinha 
levar as cousas daquella maneira, e com conselho dos que ali estavao 
respondeo que, se aquella palavra, de que usavao pera dizer que em 
Christo N. S.°' estao duas naturezas, significava « pessoa » , que elle 
mandaria que nao usassem mais della. Tornou a mandar dizer o 
Patriarca que declarassem sua fe, e como aviao de falar. Respondeo 
o Emperador que a verdadeira fe era ser Christo Nosso Senhor 
perfeito Deos e perfeito homem; que assim falassem todos. Nao se 
contentou com isso o Patriarca, antes andou com perguntas e re- 
f.i68,v. postas dando muitas voltas *e vendo que nao achava de que pegar, 
se foj dizendo que aquillo era o que pretendia que nao disse- 
sem duas. 

Ainda que o Patriarca procurava lan^ar esta fama, pera que a 3- l>ao primi du- 

,., -^^i. ^j» cea exercitus et eu- 

gente popular cuidasse que saira com seu mtento, bem entenderao nucus Cafl6 coniura- 
elle e os principaes que estavao da sua parte que o Emperador **■ iun^tur. Sei- 

tAn Sagad, specioso 

dizia estarem em Christo N. S.°' duas naturezas e que o tinha tam praeteztu, a Cela 
fixo no cora^ao que de nenhuma maneira o avia nunca de mudar. ^^^ qucMit^Sbos 
Pello que seu genrro Julios se acabou de resolver com outros muy- tmcidare. At res e 

. voto non Buccedit. 

tos de o matar ; e pera que estivessem mais nrmes em seu maldito 
proposito, deu iuramento ao capitao da mao direita do Emperador 
e ao da ezquerda, que tinhao muita gente e quasi a todos os se- 
nhores grandes da corte, e sobre o iuramento acrecentou excomu- 
nhao a hum eunuco, que se chamava Caflo, primeira pessoa no im- 
perio depois de Eras, e delle dependiao todos muito, porque por 
rezao de seu officio nao fazia nada o Emperador sem seu conselho, 
antes era tam absoluto que muitas cousas determinava elle contra 
vontade do Emperador e ficavao firmes. Este como a todas as horas 
que queria entrava na camara do Emperador, prometeo de o matar 
com muita facilidade, com condi^ao que Julios tomasse a sua conta 
matar a Cela Christos, e assentado isto com grande segredo, pedio 
Julios licen<;a ao Emperador pera ir as terras, onde tinha seu as- 
sento, que era huma provincia que chamao Oagra, dous dias de 



396 HISTORIA DE ETHIOPIA 

caminho da corte, e elle Iha deu, e assim se foj pera dali como 
achasse occasiao procurar de executar o que tinhao consertado. 

A este tempo sucedea que alguns quinhentos mouros de ca- 
valo se desavierao com seu Rei e fugindo entrarao em humas terras 
fortes do Emperador e parecendolhe ao eunuco bom luguar aquelle 
pera matar ao Emperador mais a seu salvo que dentro *do pa^o, f. 169. 
porque os capitaes se aviao de por da sua parte, como elle o matasse, 
determinou de o fazer ir la, dizendo que nao convinha que aquelles 
mouros estivessem ali, que ia que fugirao de seu Rei, que era amigo, 
e entrarao naquellas terras sem licen^a, devia o Emperador tomar 
aquelles cavallos e castigalos a elJes ou mandalos pera seu Rej, e que 
pera que isto se fizesse mais dissimuladamente, era bem ir elle me- 
smo, lan^ando fama que se queria desenfadar alg^ns dias cassando ; 
e tanto o importunou que veio nisso o Emperador, e assim foj a toda 
apressa, mas nao alquan^ou aos Mouros, ainda que o capitao da 
dianteira chegou a peleiar com elles, porque, vendo que a gente 
era muita, fugirao, e como tinhao bons cavalos, facilmente se pu- 
serao em salvo. Pollo que o Emperador deu volta mais de pressa 
do que cuidavao, e assim o eunuco nao se atreveo a fazer nada, 
porque esperava que Julios se declarasse primeiro por alevantado. 
4. Tunc Iuli68 Vindo saindo o Emperador daquellas terras asperas, langou 

Imperatorem aperte Julios pregao na provincia de Oagra, onde estava, que todos os que 
rcbeUat eumque in quisessem defender que em Christo estao duas naturezas se fossem 

itinere, aquadamex- ^ ^ 

peditione cum pau- pera o Emperador ou pera Cela Christos seu irmao; mas que os 
riri parat. ' * ^ ^^® tinhao zelo de sua antigua fe, que em Christo esta huma s6 

natureza, o seguissem. Com o que se Ihe aiuntou grande numero 
de gente a que tinha, que era rouita, e foj marchando pera o reino 
de Goiam, onde estava Cela Christos, que he perto, muito confiado 
de o poder matar, assim pella multidao de gente que levava, como 
por estar tambem consertado com muitos dos daquelle reino; mas 
pouco antes que passasse o rio Nilo pera entrar em Goiam, foj a 
elle o Patriarca e Ihe disse que nao era bom conselho ir a peleiar 
com Cela Christos que tinha muita gente; que tornasse sobre o 
Emperador, que trazia os cavalos cansados e os mais *dos soldados f.i69,v. 
se tinhao ia ido pera suas casas; que depois de morto o Empe- 
rador, nao averia difficuldade em matar a Cela Christos, e que sou- 
besse de certo que, se matava o Emperador, Ihe perdoaria Deos 
seus peccados e faria grandes merces, porque tinha deixado sua 
fe, e, se elle morresse na batalha, era martir. E como acabou isto 




LIVRO II, CAPITULO V. 397 

com elle, fes huma pratica a todo o arrajal, exortandoos a que 
peleiassem valerosamente contra o Emperador, e que procurassem 
de o matar, porque, se assim o fisessem, Ihe seriao perdoados todos 
seus peccados por grandes que fossem. Depois pos excomunhao 
que ninguem se afastasse daquelle arrajal, senao que todos seguis- 
sem a Julios e Ihe obedecessem, e a elle pedio encarecidamente pro- 
metesse de Ihe entregar os sinco Padres que qua estavamos. E as- 
sim Iho prometeo, e dizia que nos queria fazer cortar as cabe^as 
diante de si, ou que nos avia de meter dentro na nossa igreia com 
os Portug^eses e queimarnos ali a todos iuntos, porque nos eramos 
os que tinhamos feito trocar a fe ao Emperador e aos que estavao 
da sua parte. E com este conserto o acompanhou, e os mais dos 
dias no caminho tornava a renovar a excomunhao, que ninguem se 
afastasse do arrajal. 

Como o Emperador soube o que fizera Julios e que hia pera 5- SeltAaSagftdin 

his angustiis consi- 

Goiam determinado de peleiar com Cela Christos, apressou sua vinda, uum pctit a p. Pe- 
e checfando hum dia de caminho de onde eu estava, o fui a visitar ^^ ^*** ** f**.^**^ 

^ prozimo rebellium 

e, mandando sair da tenda toda a gente, me disse : Veia V. R, o adventu opportuno 

- ^ 1 ^ . ^ ^ j «* elcvato loco castra 

que me fazem : ate meu genrro, a quem alevantei tanto, procura de ponit. 
me matar. Que conselho me da, como farei [?]. Respondi : c Que con« 
€ selho posso eu dar a Vossa Magestade, que entende tam bem as 
« cousas de sua gente e sabe por experiencia como se ha de levar [?] ; 
« mas o que por agora se me ofFerece, he, que se os coragOes deste ar- 
« rajal estao com Vossa Magestade, seguramente pode ir por este 
f. 170. « caminho; que Julios nao se ha de atrever a peleiar; *e mandar re- 
« cado a Cela Christos que nao peleie com elle ate Vossa Magestade 
« chegar, senao que Ihe tome os passos, porque nao se passe pera 
« os Galas, porque nao damne a terra tornando depois com elles. Meis 
« se ha arreceos de que tenhao algum conserto com Julios, parece que 
« fora bem mandar Vossa Magestade chamar os capitaes e disserlhes: 
« Julios vai peleiar com Cela Christos; vamos nos por estoutro ca- 
« minho, que he mais perto, a iuntar com Cela Christos, porque 
« ordenemos as cousas de maneira que nao morra gente. Que como 
« Vossa Magestade se aiuntar com Cela Christos, nem estes se atre- 
« verao a fazer nada, nem Julios pode escapar >• 

Disse entao elle: « Nao ha que arrecear dos deste arrajal, por- 
que todos de hum cora^ao estao comigo ». Respondi: « Senhor, como 
« o Emperador tem o cora^ao limpo, parecelhe que todos sao dessa 
< maneira; pois eu ouvi dizer por cousa muito certa, que affir- 



398 HISTORIA DE ETHIOPIA 

€ mava Julios que todos os principais deste crrajal estavSo conser- 
« tados com elle, tirando 7 dos que tem menos for^a, a quem se nao 
« atrevio a falar, porque o nao descubrissem : « Nao pode ser isso, 
« (disse o Emperador) ; lan^a de proposito estas novas pera me fazer 
« desavir com minha gente. Pareceme que sera melhor ir por este 
€ caminho apos elle e mandar a Cela Christos que venha poUa 
« outra banda, pera que nos nao escape ; que quanto os outros ca- 
« minhos dos Galas, ia tenho mandado tomar. Tome V. R. pera 
« sua casa e escreva muito de pressa a Tigre ao capitao dos Por- 
« tugueses que me avise logo do que la passa » ; porque nao tinha 
muita confian^a do Viso Rei que la estava que, segundo diziao, 
se corteava com os coniurados, 

O seguinte dia depois que eu me despedi do Emperador, man- 
dou hum capitao com gente de espinguarda, que fosse a toda a 
pressa aiudar a *Cela Christos, se Julios Ihe quisesse dar batalha; f.i7o,v. 
mas encontrando a Julios no caminho, se tomou e mandou de pressa 
dizer ao Emperador como vinha, pello que o Emperador caminhou 
mais devagar e com ordem, e chegando perto de Julios, mandou que 
vissem algum luguar mais acomodado pera poderem peleiar, e o 
Eunuco com os outros capitaes da coniura^ao escolherao hum valle 
donde nao podia fugir o Emperador a cavallo, porque por diante, 
por onde avia de entrar o imigo, era muito chao e nas costas humas 
ribanceiras muito altas; mas o Emperador, que he grande homem 
de guerra, disse que nao aproveitava, e passou a hum oiteiro alto, 
que tinha ao pe muitas pedras grandes ; por onde nao podiao correr 
os cavalos, que erao os que elle mais arreceava. 
6. lulios, spretis ^ outro dia chegou Julios com muita gente de pe e de ca- 

precibus et lacryxnis valo, e assentou suas tendas no campo pouco mais de hum tiro de 

8uae uxons, acie in- '^ 

structa imperatorem espinguarda do Emperador; e o seguinte pella menhaa, que forao 
pr^o c^ncursu^^- ^^ ^® majo de 161 7, mandou por em ordem sua gente; o que vendo 
ztnim et sinistrum sua molher, Ihe pedio com grande instancia e lagrimas que nao 

comu per defectio- 

nem a pugna desi- peleiasse ; que ella Ihe faria amizade com o Emperador seu paj ; 
8tunt. lulios, ceu vi- ^^^ respondeo que nao queria sua amizade, senao sua morte. Disse 

ctoripermediaaacies r- -1 ^ 

Imperatorem petit, ella entao chorando, pera ver se Ihe podia abrandar o cora^ao: 

atlapidisictupercul- o t. • • ^ j t^ j 

8U8,abequopraecepa '^enhor, nao vos apresseis ; comei antes que vades. Respondeo 
ruitetagregariomi- elle: Primeiro hei de ir trazer a cabeca de vosso pai, e como a 

llte capite minuitur; , , 

rebellium copiae fu- puser aqui diante, comerei a minha vontade ; e come^ouse logo a 
Su^multis^^neri- ^^^^^' Entretanto estava o Patriarca com huma crus na mao, lan- 
bus acceptia et veati- <;ando muitas ben^Oes a cada esquadrao, de hum lugiiar alto, e como 



4 



LIVRO II, CAPITULO V. 399 

Julios se acabou de armar, pos esporas, ""cousa mui desacostumada bus ezutus, et ipae 

T-.i_. - i_»j t- jr ir-j'^ capite obtruncatur. 

em Ethiopia e sobmdo em num grande e femioso cavalo, foj diante ^ 
do exercito com os cavaleiros de quem mais se fiava, e bom poda^o 
antes de chegar a gente do Emperador, que tambem estava ia posta 
em ordem, aremeteo com grande furia. O que vendo o capitSlo da mao 
direita do Emperador, se retirou com sua gente pera huma banda e o 
capitao da izquerda e Eunuco, que tinhao muita gente, se deixarSo 
estar em seus luguares, entrando o imigo pello meio sem nenhuma 
resistencia, dizendo em alta vos ; « Onde esta o Emperador, onde esta 
o Emperador? », ate chegar perto da gente de sua guarda, que era bem 
pouca e toda de pe. Mas estes arremeterao com hum animo mui 
forte, e pera mostrar Deos Nosso S.°^ quam pouca cousa basta pera 
derubar os soberbos do mundo, permitio que hum dos mais baixos 
daquelles soldados, que nunca tinha entrado em giierra, atirasse 
huma pedra, com que Ihe deu perto do olho esquerdo e o derubou 
do cavalo, e levantandoselhe a malha hum peda^o ao cair, Ihe se- 
gfundou por ali com o zarguncho e, indo logo sobre elle, Ihe cortou 
a cabe^a, e acabou como Goliat o mais persumptuoso e arrogante 
capitao que avia em Ethiopia. Matarao tambem alguns dos cava- 
leiros que o acompanhavao e, carregando os de mais capitaes do 
Emperador sobre os outros, se puserao logo em fugida, por verem 
a seu geral morto. 

Como o soldado cortou a cabe^aa Julios, a levou ao Empe- 
rador e vendoa mandou logo tocar a recolher, mas nao obedece- 
rao os soldados tam de pressa que nao matassem primeiro muita 
gente e ao mesmo Patriarca, que se deixou estar em seu posto sem 
fugir, ou por ficar muito turbado, vendo o desbarate, como alguns 
f.i7i,v. dizem, ou por Ihe parecer *que ninguem se atreveria a Ihe fazer 
mal. E na verdade passarao muitos por elle sem Ihe tocarem nem no 
vestido, que pode ser o deixassem, por estar da sua parte nas cousas 
da fe, mas chegando hum cavaleiro, que por estas mesmas cousas 
Ihe tinha boa vontade, Ihe deu huma lan^ada no pescosso com que 
o derrubou e os que vinhao detras o despirao, sem Ihe deixarem 
cousa alguma. E assim esteve ali bom espa^o pedindo a quantos 
passavao com muita instancia alguma agoa, que parece Ihe causava 
grande sede o muito sangue que da ferida Ihe saia. Mas nem este 
tam pequeno refrigerio achou naquella tam angustiada hora, antes 
em luguar de agoa Ihe tirarao o sangue que Ihe ficava, cortandolhe a 
cabega; e assim acabou miseravelmente e ficou seu corpo nu dous 



i 



400 HISTORIA DE ETHIOPIA 

dias sem sepultura, Levarao logo a cabe^a ao Emperador, e man- 
doua por diante de sy no chSo sobre huma alcatifa iunta com a de 
Julios, e assim os que forao tam .amigos na vida nao se afastarao 
achando a mesma que nos queriao dar a nos. Depois 
Emperador cortar as cabepas a 7 dos principaes criados 
que Ihe trouxerao prezos, e aos demais perdoou e lan^ou 
e Ihe trouxessem todos os cavallos, capacetes, malhas e 
pre<;o, que erao muitas, e o mais ficasse aos soldados; 
! muitos enriquecerao, porque todos 05 do exercito de 
iao comsigo seu ouro, prata e as petjas de mais estima 
), por Ihes parecer que ali as tinhao mais seguras com 
que tinhao da victoria, tanto que, quando sairao pera 
;a, mandarao que Ihes tivessem aparelhado o que aviao 

que logo aviao de tornar a iantar e *assim me diziao f. 1 
Portugueses, que estavao com o Emperador, que quando 
Iquanije entravao por suas tendas, arharao as mesas po- 
omer aparelhado. 

ro dia chegou Cela Christos com grosso exercito e en- 
os com as lan^as baixas em sinal de sentimento por nao 
1 na batalha, ainda que o procuiarao, vindo a toda a pressa. 
e que o ordenou o Senhor assim, pera que nao attribuis- 
ria a suas fon;as, senao que a ttvessem por dada do ceo, 
ide por tal a tiverao todos os desapaixonados, principal- 
Lmperador; porque, indo eu logo a Ihe dar os perabens 
iisse : Veia V. R. a misericordia grande que me fes Nosso 
le, com trazer este homem tanta gente de pe e de cavalo e 
ite espinguardas, mos entregou todos sem que me matasem 
' homem. Nao he este mui grande milagre? Respondi que 
tinha eu tambem e que o Senhor o fizera pera mostrar 
i agradava o defender Sua Magestade as cousas da santa. 
jou elle logo a pratica, dando muitas graijas a Deos pol- 
s que Ihe fazia; mas nao estava alegre com a victoria, 
teiou muito, antes se vestio de veludo preto, mostrando 
I polla perda dos que morrerao, E na verdade, se elles 
) de enmendar e ser fieis, se pudera ter por muito grande, 
lo valerozos cavaleiros. 

se acabou isto, come(;ou o Emperador a informarse dos 
ao na coniura<;ao, e achou tantos que Ihe foy necessario 
com muitos ; s6 publicou e degradou alguns, e entre elles- 



UVRO II, CAPirULO V. 401 

a Jemana Christos seu irmSo, que pello ser Ihe perdoou a vida, 
merecendo com tanta rezcio a morte; mas com saberem alguns as 
cousas daquelle eunuco, nao se atreverao ao descobrir, poUo grande 

f.i72,v. medo que delle ^tinhao. Elle tambem mandava matar dissimulada- 
mente aquelles de quem mais se temia, como fes a hum frade, que 
sabia do conserto que tinha com Julios e Ihes pusera excomunhao a 
ambos por que o cumprissem, e a hum seu criado que levava os 
recados. Com tudo isso nao se teve por seguro, e assim, arreceando 
que por derradeiro se avia de saber sua trei^ao e que nao podia 
escapar, se resolveo em matar de toda a maneira ao Emperador e 
Cela Christos, que entao estava na corte com pouca gente; e pera 
isto disse ao Emperador que Ihe queria dar mostra dos soldados 
que tinha a sua conta : que Ihe desse licen^a pera os trazer diante 
do pa^o e que os veria da varanda, fazendo conta de entrar entao 
e o matar, que o pudera fazer facilmente, por estar o Emperador de- 
scuidado e com muito pouca guarda nas portas, e logo ir com sua 
gente, que era muita, a matar a Cela Christos, que de nenhuma 
maneira podia resistir. Mas o Emperador, com estar bem alheo de 
imaginar tal trei^ao, Ihe disse que nao era necessario, nem estava 
pera isso. 

Vendo o eunuco que Ihe nao saira esta traga, mandou fazer 
muito vinho, que qua he de mel, e chegou em 5 ou 6 dias, pera 
convidar a cear Cela Christos, e, como estivesse no milhor do vinho, 
matalo, e ir logo ao pacjo pera matar ao Emperador, e pera isto 
tinha acabado com hum pajem pequeno que Ihe abrisse a porta a 
qualquer hora que chegasse, porque avia de vir a tratar hum ne- 
gocio de muito segredo com o Emperador; mas foj nosso Senhor 
servido, que pouco antes do dia, em que elle determinava de fazer 
isto, tivesse o Emperador algumsis atoardas, pollo que o mandou 
prender e lan^ar pregao que todos os que sabiao delle alguma cousa 
a viessem dizer soppena de morte. Testemunharao logo muitos, que 

f. 173. queria matar ao Emperador *e a todos seus filhos e a Cela Chri- 
stos e depois levantar outro a sua vontade, poUo que le mandou 
cortar a cabe^a no terreiro do pago; ao que deu toda a corte 
grande aplauso e fes muita festa, parecendolhes a todos que Ihes 
tinhao tirado do pescosso hum iugo muito pesado, polla grande 
oppressao que em tudo Ihes dava, tratandoos com excessiva vio- 
lencia, procurando que ninguem alevantasse cabe<;a de maneira que 
o pudesse encontrar, e se entendia que alg^m, por grande que fosse, 

C. Beccari. Rtr* Aeih* Script, oee, ined* — IL 5' 



402 HISTORIA DE ETHIOPIA 

• 

o encontrava em alg^ma cousa, logo buscava modo pera o derrubar 
e o queria ingolir como hum lobo; e assim, por ser tal sua vida, 
permittio Deos N. S.®' que na morte seu corpo fosse botado no 
campo aos lobos, e que nSlo achasse sepultura, senSo huma cova delles, 
onde o meterao seus parentes e taparflo com pedra, levandoo secre- 
tamente de nojte, por ter prohibido o Emperador que ninguem o 
enterrasse. 
8. Ez dictis pro- Todcis estas cousas referi, assim por serem dignas de memoria, 

batur qiiam temere • i «^ • t . ^ r > 

asserueritUrreuAe- ^omo porque visse o leitor mais claramente quanto se enganou frei 
thiopesomnesdupli- Luis de Urreta no que disse pag. 424 da sua Historia, que os Ethio- 

cem in Chnato natu- 

ram cum catholicis pes como catholicos christaos confessao e crem em Christo duas 
pro ten. naturezas perfeitas, incommutaveis e distinctas, porque ainda agora 

estao muitos tam longe disso que, com verem a providencia grande, 
que Deos Nosso Senhor tem dos que defendem sua santa fe, e os 
manifestos castigos que deo as principaes cabe^as dos que a per- 
seguem, nao mudao proposito, nem os conhecem por tais, antes 
alguns affirmao que o Patriarca e Julios com os demais que mor- 
rerao naquella guerra forao martires. E se acertasse agora de mor- 
rer o Emperador, que Deos nao permitta, tenho por sem duvida 
que aviao de matar logo a Eraz Cela Christos, e que nem a nos f.i75tv- 
nos nao aviao de deixar; o que elle *mesmos me tem dito por vezes. 



CAPITULO VI. 

Bm que se trata dos erros que os Ethiopes tem acerca 

das almas racionaes. 



Ja que temos visto o que os Ethiopes dizem sobre a sacro- x. Aethiopes clrca 
santa humanidade de Christo N. Senhor, sera bem referir agora !fi^/**^**^l*l^ 

' o serunt: x} eas non 

brevemente o que affirmao acerca de sua sanctissima alma e das crcari sed per tradu- 

,.i ^^ ' ' r\ ' ' cem producl ; a) eas 

demais almas racionais, que sto tres erros gravissimos. O pnmeiro, quae poenis infemi 
que Deos N. S.**' nao cria as almas racionais, senao que vem dos ^'f*''"** ■f.** ^^"" 

^ ^ 8tum addictae, a 

pais, e que ainda a de Christo Nosso Senhor tomou o Espirito Santo Christofuisselibera- 
da sanctissima alma da Virgem Nossa Senhora, porque s6 a de animas, ante*^ ^^m 
Adao criou Deos; e outros dizem que a fes dos 4 elementos. O ittdiciiextrcmum,vi- 

^ sione Dei beatxfica 

2^ erro he que, quando a sanctissima alma de Christo Nosso Se- non fmi. 
nhor desceo aos infernos, tirou, nao somente as dos Santos Pa- 
dres que estavao no seo de Abrahao, mas tambem todas as dos 
condenados no inferno. O 3^, que todas as almas dos Santos» por 
gfrandes que fossem, estao no parajso terreal, sem gozar da glo- 
ria, e ali hao de esperar ate o dia do juizo, em que se unirao 
com seus corpos e entrarao iuntamente no ceo. Nem as dos con- 
denados estap no infemo, senao em outro luguar, nem hao de ser 
atormentadas ate que se iuntem com seus corpos. 

Estes tres erros condemnao os Doutores e Santos por heregias 
e, deixando outros muitos, o glorioso santo Thomats, falando do pri" 






404 HISTORIA DE ETHIOPIA 

meiro, i parte, quest. ii8, ar. 2, dis que he heretico affirmar que as 
almas intellectivas nSto as cria Deos, senSLo que vem dos pais; e 
s. Augustinho lib. De haeres, cap. 79, tratando do 2^ erro, affirma 
que he heregia. Quanto ao 3^, esta condemnado no Concilio Floren- 
tino sess. ultima e no Concilio Tridentino sess. 25, 
a. Auctor narrat Sobre todos estes erros tratei muitas vezes em *disputas e pra- f. 174. 

se multoties coram ^. ^.1 • • • 1 ^ j j T-^t_- • 1 

Imperatore primum ticas particulares com os pnncipais letrados de Ethiopia e algumas 
errorem confutasse diante do emperador Seltan Sacfued ; e percfuntandolhes sobre o pri- 

cx ipsis Aethiopum ^ o jt o jt 

libri8,multosqueiam meiro em que se fundavao, responderSo que na Escritura, que dis 

doctnxiam de anima- y-i "o t^-vt oi_ "i_j*„^j 

nim creatione susce- Genests 2**, que como Deos Nosso Senhor acabou de criar todasas 
P*s««- cousas, descansou no 7° dia, que quer dizer que dali por diante nao 

criou cousa alguma ; e que affirmar que Deos cria todas as almas 
racionais era nSo Ihe dar descansso, senao telo sempre ocupado em 
criar tantos milhares de almas como era necessario infundir cada 
dia nos corpos por todo o mundo. Respondi que a divina Escri- 
tura nao queria dizer ahi mais de que no 7° dia cessou Deos Nosso 
Senhor de criar mais cousas novas, nem com novo modo do que 
tinha criado as outras, mas governa e multiplica as obras que na- 
quelles primeiros dias fes ; e assim dis Christo N. S.**"^ por s. Joao 
c. 5° que seu Padre e elle ategora obrao. Por onde nao he incon- 
veniente que crie agora as almas, porque nao sao cousas novas, 
nem as cria com novo modo do que criou a primeira, nem, por criar 
cada dia tantas, tem Deos nisso ocupagao, assim como a nao teve 
quando criou o ceo e a terra e quantas cousas ha nelles ; pois, como 
dis David PsaL 148, nao fes mais que dizer e logo forao feitas, 
mandar e logo forao criadas. E desta mesma maneira podera criar 
outros mil mundos, se quisera. Depois Ihe trouxe algumas autori- 
dades dos Santos, de quem elles tem noticia, como de sam Chry- 
sostomo, que na Homilia 23 in varia loca Mathei dis que a alma 
nem gera, nem he gerada, nem conhece outro pai, afora daquelle 
per cuia vontade he criada; e de sam Hylar. que no libro 10, tra- 
tando da sanctissima Trindade, dis, que a alma do homem he obra 
de Deos e que a gera^ao da carne sempre he da carne. Mas fize- 
raolhe estas autoridades pouca forcja porque, como elles nao tem 
estes livros, cuidao que *aligamos falso. Pello que, passando adiante, f.i74»v. 
Ihe trouxe alguns luguares da Escritura, com que se prova esta 
verdade, como de Job c. 33 : O espirito de Deos me fes e o espi- 
raculo do Omnipotente me vivificou; e David /j*. 32 e 99: EUe nos 
fes a nos, e nao nos a nos; tambem Salamam Ecclesiasies ultimo, 



I 



\. 



LIVRO II, CAPITULO VI. 405 

onde dis: Lembrate de teu criador em tua mocidade, antes que che- 
g*ue a morte e torne o p6 a sua terra donde era, e o espirito torne 
a Deos que o deu; e Macabaeorum cap. 7, lib. 2, onde se conta 
que, exhortando santa Felicitas a seus 7 filhos que fossem e sof- 
fressem com bom animo os tormentos que Ihes davao e morressem 
polla lei de Deos, Ihes disse entre outras cousas que ella nSlo Ihes 
dera a alma, senao o criador do mundo. Respondeo hum frade que 
tinhao excomunhao pera nao admittir tal doutrina, que Deos cria 
as almas e assim nao era necessario gastar tempo em disputar sobre 
esta materia, e que nem estes luguares queriao dizer o que eu in- 
feria; mas outros entenderao bem a verdade e nem os mais que 
defendiao o contrario a puderao negar, antes a vierao a conceder, 
porque Ihes trouxe autoridades de seus livros e do mesmo que rezao 
em huma de suas missas, e Ihes provei que, se as almas dos filhos 
' vierao dos pajs, nao forao immortais ; e assim ia muitos crem e 
confessao publicamente que Deos as cria. 

O 2® erro fundao em dizerem de suas cabecjsts, que pollos me- 3. Idcm wt prae- 
recimentos do sangue de Chnsto Nosso S^**' sairao nao somente as altemm errorem et 
almas dos Santos Padres, que estavao no seo de Abrahaam, mas ^^"** ifMcX exitu, in- 

caasiim reclamanti- 

tambem as dos damnados, e que dizer que as dos Santos sairao e bas quibuadam mo- 
nao mais he deshonrar o sangue de Christo^ nachw. 

Quam falso seia isto mostrei por vezes a muitos com luguares 
da Escritura, com autoridades de Santos e com rez5es; e alguns 
convencidos da verdade a receberao, em particular o Emperador e 
f. i75^ seu irmao Cela Christos; o que entendendo *alguns frades, traba- 
Iharao muito pollos tirar disso, e trouxerao hum livro ao Empe- 
rador que, sem declarar se falava tambem do inferno dos damnados, 
dizia que Christo N. Senhor tirara todas as almas. Respondeo o 
Emperador que aquilo nao queria dizer mais de que tirou todas as 
almas do seo de Abrahaam ; disserao elles que tambem se entendia 
dos damnados. Disse eu entao : c Dessa maneira milhor foj a sorte 
« dos maos que a dos santos, porque estes trouxerao sempre sobre 
« seus pescossos o iugo da lei de Deos, com ser tam pesado, que 
« como dis sam Pedro Act. 15, nem seus pais, nem elles o podiao 
« levar e afora disso padecerao trabalhos sem conto, andando fu- 
« gindo pellos desertos, como dis s. Paulo, angustiados, affligidos, 
« huns mortos a espada^ outros scrrados, outros esfolados, e os mais, 
« com nao terem de ver com a lei de Deos, senao matar, roubar, 
« dar a seus apetites quanto deseiavao e chegar ate o fim da vida 



406 HISTORIA DE ETHIOPIA 

€ coin grande prosperidade e abundancia de todas as cousas, e mui- 
€ tos delles adorando idolos e sacrificando seus filhos e filhas aos 
« demonios, como diz David Psa/. 105. Que saissem depois suas 
€ almas iuntamente com as dos santos, que estavao no seo de Abra- 
« haam, pera receberem o premio da gloria, milhor foi a sorte da- 
« quelles que a destes, isto nflo se pode dizer ; que Deos N; Senhor 
« nao fas iguais os maos com os bons ; mas, como dis a divina 
« Escritura a cada passo, da a cada hum conforme suas obras e 
« porque as dos maos mereciSlo fogo etemo, os tinha condenado a 
« elle, e como ia estavEo la, nSio os remio o sangue de Christo N. 
« Senhor, porque no inferno nao ha reden^ao nenhuma >. Disse hum 
frade : Deixenos V. R. nao se meta agora em nossas cousas ; pello 
que calei; mas o Emperador Ihes respondeo de maneira que ulti- 
mamente n&o tiverSo que falar. 

Outra ves se unirSlo alguns frades pera acusar *hum primo do f.i75,v. 
Emperador que se chamava Eda Christos, porque dizia que Cri- 
sto N. S.**' nao tirara mais que as almas dos santos Padres, que estavSo 
no seo de Abrahao, e veio elle a mim nSo pouco attribulado, di- 
zendo que queriao que Ihe desse o Emperador juis contra elle e 
que determinavao de o fazer matar: que Ihe aconselhasse o que seria 
bem fazer e o que avia de responder. Respondi que, ia que defendia 
verdadeira fe e era senhor tam grande, assim tivesse o animo e 
coracao; que aquelles nenhuma cousa Ihe podiao fazer, nem Ihe 
aviao de saber responder; que dissesse livremente que esta he a 
verdade e que a provaria con autoridades de Santos, com rezois e 
com a Escritura Sagrada; e aponteilhe alguns Santos e luguares, 
como aquelle de Salamao Ecclestastes 9 : « Os mortos nao conhecerao 
mais cousa alguma, nem tem ia mais premio » ; quer dizer que no 
que Deos N. S. determina, quando os homens morrem, nao ha de- 
pois mudan^a, nem recebem novo preraio; se merecem gloria e nao 
tem que purguar, logo Iha da, e se inferno, la os lan<?a pera sem- 
pre; e o que dis mais adiante cap. 11: « Se cair o pao pera o austro 
ou pera o aquilo, em qualquer lugnar que caio ali estara * ; porque 
por austro entende a gloria celestial, por aquilo as penas do inferno ; 
e assim quer dizer que os, que huma ves cairao naquellas penas, 
nunca mais saem dellas. 

Tambem EccUsiast, 24 falando da divina sabedoria dis que pro- 
meteo de ver a todos os mortose alumiar os que esperavao no Se- 
nhor. Os que ^speravao no Senhor erao somente os que estavao no 
seo de Abrahao, porque os que estavao no infemo nao esperavao 



LIVRO II, CAPITULO VI. 407 

no Senhor, antes muitos delles nam tiverao nunca noticia do Se- 
nhor, porque erPLo gentios, idolatras, e gastarao toda sua vida em 
gravissimos peccados, e assim Christo N. 8.°' nao os alumiou, ali 
ficarSo em suas trevoas e tormentos. Isto mesmo nos declarou s. Ju- 
f. 176. das no prin^^^cipio de sua epistola, dizendo que os anjos maos estao 
nas prisoins etemas, assim como os de Sodoma e Gomorra, que por 
seus peccados estSo na[s] penas do inferno. Tambem se collige isto 
claramente do cap. 11 de sam Matheus, onde dis Christo Nosso 
Senhor que se ha de aver com mais brandura no dia do juizo com 
os de Tyro, de Sidao e de Sodoma, que com os de Coro^aim, de 
Betsaida ecc, quer dizer que estes hao de ter maior pena no dia 
do juizo que aquelles, porque, ouvindo a doutrina que elle pregava 
e vendo as maravilhas e milagres que fazia, nao se emmendavao de 
seus peccados e faziao penitencia; que os de Tiro, de Sjdao ecc. [se] 
virao estas maravilhas se ouverao de emmendar e fazer penitencia, 
mas porque as nao virao, sua culpa he menor que a daquelles, e 
assim tambem o sera a pena no dia do juizo. Por onde, ia que entao 
hao de ter tormentos, seguesse que nao os tirou Christo N. Senhor 
dos que ia tinhao quando deceo aos infemos, porque, se entao os 
tirara, nao os ouvera de tornar a meter nelles no dia do juizo. 

O mesmo se coUige no que mostrarao a sao Joao ApocaL 14, 
falando dos idolatras que morrerao ante de Christo N. Senhor (como 
elle declarou mais adiante c. 17) dis que o fumo de seus tormen- 
tos subira pera sempre dos sempres e que nao tem descango dia 
e nojte. 

Depois que [0] acabei de instmir no que avia de fazer e dizer, me 
pedio que fosse ao Emperador, pera me achar presente ; porque logo 
aviao de vir os frades, a Ihe pedir juis. Fui eu, entrando elle logo 
apos mim, e dali a pouco veio hum frade dos mais principaes e en- 
trando comc^ou a dizer em alta vos : < Deme o Emperador iusti^a 
contra Eda Christos, quo deshonrra o sangue de Christo, affirmando 
que quando deceo aos infemos, nao tirou mais que as almas dos san- 
tosPadres >. Respondeo Eda Christos: < Senhor, eu nao deshonrro 
o sangue de Christo, antes o tenho em grande veneracjao e defendo 
a verdade. Este frade deshonrra a iusti^a de Deos Nosso S.°S que, 
f.i76,v, tendo condenados a tormentos *eternos aos gentios idolatras e aos 
que, quebrantarao sua santa lei e gastarao toda a vida em pecca- 
dos, dis que depois se salvarao. Mandelhe Vossa Magestade que 
me responda e seia o Padre juis, que eu mostrarei claramente na 
Sagrrada Escritura ser falso o que elle affirma». 



408 HISTORIA DE ETHIOPIA 

Enfadouse muito o frade e disse : € Porque ha de ser o Padre 
nosso juis? Por ventura falta entre nos quem o possa ser tam 
bem como elle [?] » ; e come^ando a porfiar com mais liberdade do 
que convinha naquelle luguar, Ihe disse o Emperador enfadado que 
se fosse embora hum e outro ; que nao Ihes pertencia a elles deter- . 
minar aquellas cousas; e assim se sahio o frade sem levar juis, nem o 
pedio mais, por ver que o Emperador estava da nossa parte, mas 
sempre profiao muitos contra nos e contra os que tem esta verdade. 

4. Ex Scripturis et Acerca do 3° erro, tinhSlo comummente em Ethiopia, quando eu 

Pfttribus demozistrat - 

tcrtiam Aethiopum entrei nella, por tam certo que as almas dos Santos, por grandes 
opmionem errorem q^^ seiSo, estao no parayso terreal, sem gozar da gloria e que ali 
tiam e doctioribus hao de esperar ate o dia do juizo, em que se unirSo com seus corpos 

concedunt* 

e entrarao mntamente no ceo, e que as dos maos nSo estao no m- 
ferno, senao em outro luguar perto do parayso terreal, e que nSo 
hao de ser atormentadas ate que se aiuntem com seus corpos, que 
nao avia quem nisso pusesse duvida. Mas depois que os padres e 
eu Ihe fomos declarando esta materia em disputas publicas e pra- 
ticas particulares, Ihe mostramos claramente com luguares da Escri- 
tura e rezOes que as almas dos Santos, que nao tem que purgar, 
logo em morrendo entrao no ceo e gozao da gloria que merecem 
suas obras, e que as almas dos que morrem em peccado mortal vao 
logo ao inferno, onde sao atormentadas, muitos receberao esta ver- 
dade e a crem; porem muitos mais *sao os que ainda ficao em seu f- i77« 
orro. E assim estando eu com o Emperador, pouco tempo ha, entra- 
rao alguns frades e come^arao a falar sobre esta materia, e com Ihes 
trazer eu resOes e luguares da Escritura, a que nao souberao nem po- 
diao responder, nao se mostravao convencidos, ate que Ihes trouxe 
autoridades de seus mesmos livros, que nao puderao negar; e assim 
Ihes disse o Emperador : « Pera que porfiais em cousa que o Padre tem 
tam bem provada com a Escritura e com nossos mesmos livros [?] »; 
e assim respondeo o principal delles que nao se podia negar. 

5. Quid Urreta de jy^ q^g temos dito se ve claramente quam falsa foy a infor- 

hac re perperam nar- 

raverit. magao que frei Luis de Urreta teve sobre esta materia, pois na 

pag. 420 de sua Historia Ethiopica dis que os Ethiopes nao tem este 
erro dizendo: « Los Ethiopes con catholico sentimiento cren y tie- 
« nen y siempre han creido que las almas de los buenos, si no tienen . 
« que purguar en el punto que salem desta vida, veen la divina es- 
« sencia y gozan de Dios como bienaventurados ». 



1 

I 



I 
4 



CAPITULO VII. 

Em que se mostra como os Ethiopes vassalos do Preste 
Joao de muitos tempos a esta parte sao scismaticos 
desobedientes a santa Igreja Romana. 



Perguntando a muitos dos principaes letrados e velhos de Ethio- x. Doctiores inter 
pia de quantos tempos e esta parte estao desunidos da Igreia Ro- th1op\am*a*^empore 
mana, me responderSo que do tempo de Dioscoro: e esta he comum i^ioacori obedien- 

^ tiamPontificiRoma- 

pratica entre elles e parece cousa certa, porque sempre seguirao no detrectasse. 
suas partes e maldita doutrina e o venerSo por santo e a sam Liao 
papa, que o condenou, tem por herege, como fica dito no cap, 3 
deste 2° livro; e ainda que o emperador David, que depois se cha- 
f.i77tv« mou *Onag Qagued, escreveo cartas ao summo Pontifice e Reis de 
Portugual o anno dc 1524, mostrando querer unir seu imperio a 
santa Jgreia Romana, nao teve isto efFeito, porque morreo antes 
que qua chegassem os Portugneses, com cuia aiuda o queria fazer; 
e posto que seu filho Claudio (a quem quando fizerao emperador, cha- 
marao Athanaf ^agued) recebeo por patriarca a dom Joao Bermu- 
des, que veio com dom Christovao da Gama e mais Portugueses 
no anno de 1541, parece que nao fes isso maisquepor contempo- 
rizar com os Portugueses, de quem naquelle tempo tinha tanta ne- 
cessidade; porque, depois de Ihe terem livrado seu imperio da ti- 
rania dos Mouros e soieitados todos seus inimigos, quando se ouvera 

C. Bbccari. Rer, Aeik, Scrt/i, occ, insd, — II. 53 



» 



4IO HISTORIA DE ETHIOPIA 

de mostrar mais agradecido a Nosso Senhor, quc Ihe fizera tam gran- 
des merces, e aos Portugiieses, que por elle tomarao tantos traba- 
Ihos, entao mostrou quam longe estava de receber a santa fe da 
Igreja Romana e de obedecer a seu Patriarca, porque trouxe outro 
de Alexandria, e dom Joao Bermudes se tornou pera a India, dei- 
xandoo excomungado, como dissemos no cap. lo do primeiro livro. 
E pera que se veia mais claramente que, ainda que mostrou aceitar 
por patriarca a dom Joao Bermudes, seu animo nao era de obedecer 
a Igreja Romana, refirirei algumas das cousas, que poUo tempo 
adiante soccederao, em que elle mesmo mostrou bem este seu animo. 
a. Quam tenaciter Primeiramente, entrando em Ethiopia o padre mestre Gon^alo 

adhaereant, nostro -n * • i /-h «• i^ji-rN* tn* 

hoc tempore» schi- Rodriguez de nossa Companhia com o embaixador Diogo Dias o 
smati Aiezandrino anno de 1555, por ordem de dom Pedro Mascarenhas entao Viso 

probatur ex modo a- ^^y^ m. 

gendi Claudii impe- Rei da India, pera dispor e prevenir a este emperador Claudio 
cts^Patrlarch^ Berl P®^^ ^ vinda do padre patri*arca dom Joao Nunes Barreto da nossa f. 178, 
mudez et Oviedo, utt Companhia e de seus companheiros que ia se ficavao aparelhando 

constat ez relationi- r . . ,. . 

bu8 Consalvi Rodri- em Portugnal, procurou fazer isto com muita diligencia, mostran- 
guex e s. I., dolhe com rezOes a obriga^ao que tinha de receber ao padre Pa- 

triarca e seus companheiros e dar obediencia a santa Igreja Ro- 
mana, e trazendolhe a memoria as cartais, que elle mesmo escrevera 
a Portugnal e Roma, em que prometia de se unir com a santa 
Igreja, e pera mais o mover a isto fes hum tratado, em que com 
luguares da Escritura e rezOes claras mostrava quam grandes erao 
os erros de Ethiopia e a verdade de nossa santa fe, e como todos 
os christaos estavao obrigados a obedecer ao Pontifice Romano, e 
Iho apresentou; mas nao aproveitou nada, como o mesmo Padre 
affirma em huma comprida carta, que de Goa escreveo aos Padres 
da Companhia em Portugual em 13 de setembro de 1556 e a re- 
fere o padre Femao Guerreiro de nossa Companhia na Rela^ao an- 
nual das cousas que fizerao nossos Padres na India oriental o anno 
de 1607 e 1608, pag. a8i, onde, depois de contar muitas cousas que 
passou com o Emperador, dis assim : « Finalmente passadas, muitas 
€ rezOes de parte a parte, estando presentes os Portugueses, Ihe disse 
« pello capitao, que o que eu pretendia naquelle papel, que Ihe dei 
« escrito, era saber seu intento acerqua de dar a obediencia ao Pon- 
« tifice Romano e receber os letrados e religiosos que el Rei de 
« Portugual seu irmao Ihe queria mandar. Porque se elle os nao 
€ queria, nem queria obedecer, nao tinhao elles pera que vir a seu 
« reino; que visse sua Alteza se queria dar obediencia, como a dera 



LIVKO II, CAPITULO VII. 4I.I 

e mandara a Sua Santidade estando em tal parte. A isto respon- 
deo que elle religiosos e letrados tinha em seu reino e por isso 
f x78,v. € dos del Rei *de Portugual nao tinha necessidade, nem menos dera 
nunca obedientia ao Romano Pontifice; que a obediencia que 
G.*' de Magalhaes levaira, elle a nSo dera, mas que hum frade 
arabio, que tresladou suas cartas pera el Rei de Portugual, er- 
rara e as nSo entendera. Finalmente concluio que elle nflo queria 
obedecer senSo ao Patriarca de Alexandria, a quem sempre obe- 
decera. PoUo que vendo eu sua delibera<;ao e obstina^ao, me de- 
spedi delle »• 

Ate aqui sam palavras do padre mestre Gonzalo, em que se 3. ez Utteris Al- 

. « j 01 j* i^ j_- phonai de Pranca et 

ve que, amda que o emperador Claudio recebeo por patriarca a Andrcae de Oviedo» 
dom JoSo Bermudes, nSlo foj de cora^Sio, pois dis que nunca deo 
obediencia ao Papa, nem obedecera senao ao Patria